Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 7 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto VI.

Geme o Padre Oceano inconsolavel

 

No fundo de seu peito, e mais aguda

 

Comesa a renovarse a dôr antiga.

 

O malogrado fim de seus dezenhos

 

He um dardo punjente, que as entranhas

 

Lhe pica, e despedasa; e quem naõ soube

 

Dos purpureos Erois ceder ás forsas,

 

Em fim cede á mortal melancolia.

Tanto póde a paixaõ n'uma alma grande!

 

Fexase triste no tentorio Regio;

 

Nimguem ouza falarlhe; solitario

 

Só quer por companhia o pensamento.

 

Pasadas oito oras em silencio

 

Manda entrar os seus Cabos: pensativo

 

Sobre a meza encostado o cotovelo

 

Na maõ esquerda descansava o rosto,

 

Gotejandolhe em lagrimas banhadas As venerandas cans da longa barba.

 

Amados filhos (vagarozamente

 

Tendo erguido o semblante macilento

 

Asim lhes dis) Amados filhos, nunca

 

Taõ fera atasalhou meu peito forte

 

A tirana Paixaõ! Nunca minh'alma

 

Tanto vi afracar!... Fatal derrota

 

Foi esta que no livro do Destino

 

Lavrada estava em caratéres negros

 

Pela férrea maõ da atrós Desgrasa!

Nosas forsas (as forsas invenciveis

 

Que tem amedrentado o mundo inteiro!)

 

Abatidas as vedes, destrosadas

 

Por barbaros Salvajems, por ums brutos

 

Que nada por si tem mais que fortuna.

 

He pois tempo, surjâmos acordados

 

Deste pelago vil de cobardia

 

Onde a triste vergonha nos asoita.

 

Para o imigo venser quem se embarasa

 

Que aja esforso, e valor, ou que aja dolo?

O que forsas naõ daõ, ardís alcansem.

 

 

Todo aquele que vir que melhor póde

 

Ao exito xegar do que intentamos

 

Meta maõs ao trabalho, dêse présa

 

E reduza a pedasos esta canga

 

Que tanto no caxaso nos carrega.

 

Levantase do asento entaõ pacato

 

O Velho guardador dos grandes Focas,

 

E no meio do cónclave luzido Dest'arte descarrega a consciencia.

 

Até'gora eu naõ quis a colherada

 

Nestas coizas meter; vós tendes feito,

 

Tendes acontecido, sem quererdes

 

Pedirme, nem ouvir os meus concelhos,

 

Porem quando a tortura a tal extremo

 

As coizas vai levando, oporme devo,

 

E servir a meu Rei, qual poso, e valho.

 

Os Deuzes, caro Pai, tem-me ensinado

 

As coizas do por-vir caliginozo,

Eu antevi estes dezastres feios,

 

 

Mas eu sem ser forsado naõ predigo.

 

Por castigo talvês dos Deuzes fose

 

Ao voso dezacordo.... Porem basta,

 

Ja tudo se pasou, agora eu mesmo

 

Tomar á minha conta a empreza quero.

 

Socega, amado Pai, o Eroi da pinga

 

De meus tiros o alvo a ser comesa.

 

Recobrou novos animos o Padre, E do filho nos ombros sempre firmes

 

O pezo descansou da grande guerra.

 

Proteo, que nos ardís exp'rimentado

 

Fôra sempre instrumento a mil fasanhas;

 

E cuja calva frente laureada

 

De importantes facsoins sempre saíra,

 

Um pouco sobre o cazo consid'rando,

 

Este acordo felis contente abrasa.

 

Vaise ter com a Astucia enganadora.

 

He esta uma rolisa Mosatona,

Que vestida de peles de rapoza,

 

 

E empunhando na dextra um rico cetro

 

Domina sobre os omems; manda, impera

 

Os indomitos tigres, quais cordeiros.

 

Em quanto pois bulindo dezenvolta

 

Lhe xamejaõ os olhos inquietos

 

Por ouvir o que quer dizerlhe o Velho,

 

Eu quero, lhe dis ele, que te empenhes

 

Agora em socorrerme quanto pódes.

De Baco um General meu inimigo,

 

Xamado por alcunha o Santareno,

 

Do esforso ou da fortuna socorrido

 

Tem triumfado das aguas. Oceano

 

Ja derrotada a flor de sua jente

 

Suspira inconsolavel. Mas dos livros

 

Do tremendo Destino irrevogavel

 

Eu sei que o Santareno ao ferro ao fogo

 

Naõ tem de dar a vida nas batalhas;

 

Pois uma pouca d'agua em ora infausta

Bebida, ha de arrancarlhe ao corpo o sprito.

 

 

O buzilis porem consiste agora

 

Em fazerlha beber sem que ele o saiba,

 

Por quanto este animal temlhe odio eterno.

 

Todavia a este laso que lhe tramo

 

Fugir naõ poderá. N'um arrabalde

 

Naõ lonje da Cidade, brevemente

 

Farsehá uma funsaõ que ele naõ perde.

 

Aqui pela canseira do caminho

 

Moído xegará, suado, e laso.

Forsozo he pedir vinho, isto naõ falha.

 

Tu pois, que és marralheira, ásde mui prestes

 

Em sua mesma Môsa transformarte;

 

E eu tornado em agua facilmente

 

Na vazilha entrarei que tu lhe deves

 

Lampeira ministrar. Ele sedento

 

Nem se he vinho, ou se he agua reparando

 

A enfuza vazará no grande buxo.

 

Deste modo a meu salvo os intestinos

 

Ávido devorando o darei morto,

E terei concluido a grande empreza.

 

 

Vamos pois sem demora vem comigo.

 

Vamos onde quizeres; insofrida

 

A Astucia respondeu. E logo promptos

 

Metidos n'uma nuvem negrejante

 

Tirada por seis Euros rujidores,

 

Despejando coriscos sentelhantes

 

Ao orrorozo som d'um trovaõ grande

 

Sobre a airoza Coimbra em fim baixáraõ.

Mas como do Deleite o Santareno

 

Estava no país, ordena Próteo

 

Que a Astucia dali sacar o fasa,

 

E á Cidade o conduza aonde a trama

 

Para o pobre cair armar pertende.

 

Entre os longos Estados da Mentira

 

Infame Imperatris da maior parte

 

Da terráquea mole, junto ás fraldas

 

D'uma verde colina alcantilada,

 

Sobre um campo espasozo, plano, ameno

A que regaõ d'um rio as mansas aguas,

 

 

A galante Cidade encantadora

 

Do vaidozo Deleite está plantada,

 

A pálida Doensa, os Desprazeres,

 

Os Remorsos crueis, a orrivel Morte

 

O cume senhoreiaõ do alto monte.

 

Mas o Engano traidor, c'um tolde espêso

 

Tudo isto ávido encobre á gran Cidade.

 

Nela tudo he prazer, tudo he descanso.

 

O povo abitador ao ocio dado

Só cuida em divertirse: o Baile, o Jogo,

 

 

Os Cantos, a Luxuria, os Boms-bocados

 

Aqui abítaõ ledos: pelas ruas

 

Amplas Satisfasoins andaõ jirando

 

Ministros de seu Rei: seu Rei parese,

 

C'o as fraudolentas côres que a Mentira

 

Arteira sobre modo o tem pintado,

 

Um rapás mui lousaõ de afavel jesto.

 

Aqui de toda a parte os povos correm De seus serios deveres deslembrados

 

A pedir a este Rei, quais seus dezejos,

 

Tais as Satisfasoins, que outorga facil.

 

Aqui a avía vindo o Santareno,

 

E a meiga sua Espoza a Santarena,

 

A pasar algums dias satisfeito

 

Do fim da grande asaõ com que ultimando

 

A mais árdua vitoria felismente,

 

Tinha a um nome de impávida memoria

 

Por entre o ferro, e o fogo alcanse dado.

Mas a doloza Astucia que naõ sabe

 

Desvelada perder monsaõ de efeito,

 

Por Próteo instigada, em continente

 

As cambiantes azas solta aos ares,

 

Dá nele d'improvizo, e asim o ataca:

 

Dos remorsos se val acuzadores;

 

E por uma maneira extravagante

 

De seu alto saber somente propria,

 

C'o as cores da razaõ na triste ideia

 

Seu vil procedimento lhe debuxa.

Faslhe ver com a mesma consciencia

 

Como he mais justo que um Eroi constante,

 

Que as desgrasas tratou de bagatela,

 

Em as prosperidades naõ se infune.

 

Que naõ dê que falar ao povo rude,

 

Que murmurante na Cidade o acuza

 

Pelo ver aos prazeres taõ sensivel.

 

Que deve a sua caza retirarse,

 

Tirar do vencimento util proveito,

 

Naõ confiarse em si, porque inda as Aguas

Estancado naõ tem as forsas vastas.

 

 

Aqui do astuto Anibal traslhe á mente

 

E do Magno Pompeo exemplos vivos,

 

Que ja devem fazelo escarmentado.

 

Em fim estas solicitas lembransas

 

De tal sorte do Eroi fervelhaõ n'alma,

 

Que em si caindo parte rezoluto.