Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 6 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto V.

Tanto que a Mãi das trevas taciturna

 

Desdobrou sobre a terra o manto negro,

 

C'o a palma da vitoria ufano e alegre

 

Dar a seus Cabos um convite lauto

 

Determina o Eroi pantafasudo.

 

Quem contar as galhofas desta noite

 

Ouzado poderá com versos dignos?

 

Foi entaõ quando o lépido Caetano

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Cambaleando em meio do congréso

 

Fes com rizo estalar os circumstantes,

 

Abrindo francamente de seus doutos

 

Jocozos anexims o aureo tezoiro.

 

Foi quando o Doutor Rito, sobre os ombros

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Tendo ums calsoins de riso por capelo,

 

Ex cáthedra

asentado, sobre pontos

 

De guerra longas oras disertando, Escarrou discrisoins, mijou conselhos.

 

Sobre os bicos dos pés alevantado

 

Aqui foi que o tacaõ, gárrulo Xaves

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Lodozo ganso que a Castalia turba,

 

Batendo as sujas palmas na asembleia

 

As Muzas invocou, e esta perlenga,

 

No modo que lhe he proprio, d'improvizo

 

Recitou com torrente entuziasmado:

 

Nobilisimos Xefes respeitaveis, A quem, naõ sem razaõ, Lieu potente

 

Fes de sua justisa defensores;

 

Vós outros tendes oje ao mundo dado

 

Um raro exemplo de virtude eroica.

 

Nimguem de pôr na cara uma navalha

 

He mais digno que vós. Oh se os meus labios

 

Podesem proferir, se a minha lingua

 

Podefe articular quanto alma sente!

 

Vós tendes os xibantes destrosado

 

Com o mesmo valor com que eu destróso Carangos nos calfoins, e na camiza.

 

Sim, vós os filhos sois abensoados

 

Do invicto Basareu que onrais a Patria.

 

Naõ dezistais da empreza comesada:

 

Depois do que pasou, ja'gora o resto

 

Val tanto como escarro de tabaco.

 

E tu, graõ Jeneral, que o orbe asombras;

 

Tu, em cuja cabesa mioluda

 

Minerva, e o loiro Apolo influxos largaõ,

 

Es digno de rejer um grande Imperio.

O noso amado Rei entre o seu povo

 

Naõ póde igual ao teu axar um caco

 

Aonde os seus dezignios se acomodem,

 

Suas trasas se entend$õ. Os dezastres

 

Naõ axaõ no teu buxo o estreito aperto,

 

Que no de um bigorrilhas: o teu buxo

 

Sem inda rebentar, tres mil dezastres

 

Calado e sofredor alojar pode,

 

Porque he muito mais vasto que uma adega.

 

As tres velhas Irmans doirados dias Ainda te conservem: muitos anos

 

Ainda, ainda sejas no teu mando

 

Franco dispensador destes obzequios.

 

Asim clamava o Vate, quando atende

 

Que estava

vox clamantis in deserto

,

 

Porque em sono os ouvintes sepultados

 

Resonando a barraca atormentavaõ.

 

Por tanto pauza fes; uma canéca

 

Presto escorropixou; e c'os Anginhos

Paresendolhe estar, fes sucia aos outros.

 

 

Mas nas tendas a jente estropeada

 

Ja cuidava em curarse, e refazerse,

 

Quando um grande alarido ao lonje se ouve.

 

Alegraõse os vencidos, novas forsas

 

Nos animos cobrando, porque pensaõ

 

Ser xegado o soccorro que esperavaõ.

 

Asim era: Nerêo galhardo, e ovante

 

Seguido de invenciveis combatentes

Trazia de refresco o Doiro, e Vouga,

 

 

Capitains, que a derrota fomentáraõ

 

Dos dois vinheos Erois de seus destritos.

 

Dadas as salvas d'uma, e d'outra parte,

 

Entaõ ele contou como em Aveiro

 

Antonio do Ministro, Cabo astuto,

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Soldado veterano, omem temivel,

 

Forte se lhe opuzera em campo aberto:

 

Os manhozos ardis que escogitára, Os xoques que tivera, e seus encontros,

 

Do noso Vouga, que prezente estava,

 

Os inclitos servisos referindo.

 

Depois pasa a contar quanto no Porto

 

Lhe dera que fazer uma Matrona

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Do que a Velha de Diu mais guerreira,

 

Mais fera que as do antigo Thermodonte,

 

Que deraõ tanto lustre á Capadocia.

 

E não menos do Doiro ás nuvems alsa

 

A parte que na asaõ tivera onroza.

Em fim conclúe, dando a ver os modos

 

Como d'ambos os dois desbaratados

 

Os olhos entregára ao sono eterno.

 

Oceano um pouco entaõ mais branda a pena

 

Da perdida peleja, aos vensedores

 

Amostrando um Real comprazimento,

 

Comesou a tratar quanto era justo

 

Porse por obra na manhan seguinte.

 

Asentase em tentar novo combate

Jeral, e decizivo. As transas loiras

 

 

No vermelho orizonte ao vento dadas

 

Mal que a Aurora amostrou madrugadora;

 

Mal que os frajeis fugazes pasarinhos

 

Com a lus matutina comesaraõ

 

Nos verdes salgueirais a espenujarse,

 

Um xirlando, outro em módulos gorjeios

 

Enxendo de alegria a selva amena,

 

Tudo se perturbou. Ergue do abismo

 

A terrifica fronte angui-comada

Outra ves a maldita a negra Guerra.

 

 

Salpicadas de sangue as azas bate,

 

E os longos arraiais tres vezes cérca.

 

As buzinas, e os pifanos se tocaõ,

 

Arrusaõ-se os tambores, treme a terra,

 

E os marinhos pendoins dezenrolados

 

Vaõ no imperio dos ventos tremulando.

 

Aprestaõ-se os Soldados vensedores,

 

E se vaõ encontrar c'os inimigos,

 

Ums ainda arrotando a ovos xócos

Vaõ enxendo as boxexas, e asoprando;

 

 

Outros se queixaõ que a xixelo velho

 

Muito a boca lhes sabe: em cuja arenga

 

Entretidos em fim o imigo arróstaõ.

 

Está'li Santareno altivo, e guapo

 

Sopezando na dextra a espada injente;

 

Qual atacada mina que promete

 

Ruinas vomitar de imensa mole.

 

De seus olhos pasmado está pendendo Seu exercito em pezo, aonde espreita,

 

Como os ventos em grimpa, da batalha

 

O escondido suseso. A bateria

 

Entaõ comesa com fragor medonho

 

Da parte dos Neptunios combatentes.

 

Foi uma das descargas mais funestas.

 

Muitos dos mais valentes bebedores

 

Do saborozo xá das tortas parras

 

O derradeiro A Deus aos copos deraõ.

 

Encarnisa-se a jente, ferve a guerra, Reina a Desolasaõ, a Morte, as Furias.

 

Apoucando no campo os inimigos

 

Avia longo tempo que bradava

 

Para um nobre duelo decizivo

 

Pelo Padre Oceano, um Serralheiro.

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Monstro injente, desforme, aspéto orrivel,

 

A quem bravo, e colérico nas forsas

 

A um toiro igualára a Natureza.

 

Eis que ao lonje do Padre entre as falanjes O brilhante pavês de tartaruga

 

Orlado c'uma pel' de crocodilo

 

Os olhos anelantes lhe deslumbra.

 

Na grande maõ sopeza firme, ufano

 

Uma lansa fatal de largo ferro;

 

E brandindo-a valente, rexinando

 

Despedida a fes ir rompendo os ares.

 

O golpe resaltou do rijo escudo,

 

E a ástea espedasada em terra cae.

 

O Padre embravecido o imigo busca;

O imigo c'um montante se defende

 

Briozo pelejando: mas o Padre

 

Por tempo entaõ poupar, de romania

 

Cerrou com ele, e o esmagou nos brasos.

 

Do mesmo vensedor ultimos golpes

 

Contra sua vontade onradamente

 

Sofreraõ dezasete Sapateiros,

 

E algums trinta Alfaiates neste dia.

 

Unidos os d'Embarque denodados Aqui Górgones eraõ: nada em campo,

 

Ante seus forsozisimos revézes,

 

Que folgo respirase, em pé ficava.

 

Nada menos fazia o Alemtejano,

 

O Minhoto, e o Beiraõ. Naquele dia

 

Com eterno desdoiro se encobriraõ

 

Os feitos que nos Gregos cadafalsos

 

Em torneio cruel outr'ora obráraõ

 

Rozuel, Estrelante, e Belizarte.

 

Ali Nereo andava incontrastavel,

Ali Periclimeno em forsas grande,

 

 

Ali o Padre Tejo, o Doiro, o Vouga

 

As mais descomedidas tridentadas,

 

Que o mundo ha visto dar, ao imigo dando.

 

Destroncava Achelóo mais cabesas,

 

Cerceava sanhudo mais orelhas,

 

Do que o fertil Brazil macacos cria.

 

Mas vendo que sua ira inda sedenta

 

Mais estragos dezeja, o arrojo toma,

 

O temerario arrojo de encontrar-se

C'o grande Santareno. Este montado

 

 

No asno, ao som de zurros espantozos,

 

Com guerreiro valor tempesteando

 

Entre seus inimigos, como um rio

 

De caudaloza enxente, que insofrivel

 

Na alagada campina arranca, e arraza

 

Quanto lhe estorva á turbulenta marxa,

 

Levava a toda a parte o orror, e a morte.

 

Acomete Achelóo em manhas ábil,

 

Fáslhe cara o Eroi; quebraõse as lansas,

E dos brutos c'o a furia abalroados

 

 

Pinxaõ das selas pelas ancas fóra.

 

Postos a pé aqui he que saõ elas:

 

Arrancaõ das espadas, talhaõ, cortaõ,

 

Estoqueiaõ, desmalhaõ: nasce fogo

 

Dos asos petiscado; ora se curvaõ,

 

Ora em bicos de pés raivozos se erguem.

 

Os golpes se amiudaõ, giraõ destras

 

As talhantes catanas: um sobre outro

 

Vantajem naõ conhese um'ora inteira.

Transforma-se Achelóo d'improvizo

 

N'um dragaõ feio de farpada lingua:

 

Espanta-se o Eroi, mas destemido

 

Sobre as azas um córte lhe aprezenta,

 

Que o fas baquear em terra. Novamente

 

Em majestozo toiro convertido

 

Impetuozo avansa: entaõ por terra

 

C'o a forsa do boléo o Eroi caindo

 

Aos cornos se lhe agarra, e novo Alcides

 

O faria em pedasos desta feita,

Se em mosca transformado, n'um momento

 

 

Lhe naõ foje futil, cobarde, e fraco.

 

Entretanto a carnajem sanguinoza

 

Voando devastava o campo todo,

 

E d'ambos os exercitos provavaõ

 

Os nobres Capitains dezasombrados

 

De valor naõ comum, naõ vulgar fama.

 

Mas a gente marinha desangrada

 

Do ferro Bacanal ja naõ podia

De brutos taõ indomitos a sanha

 

 

Nas filas sustentar. Entra a dezordem,

 

E toca a retirar. Ja de Anfitrite

 

Aos palacios Reais se encaminhava

 

O férvido Titán palido, e triste

 

A darlhe a infausta nova da derrota,

 

Que em sua gente a seu máo grado vira.

 

Caindo as sombras vem dos altos montes,

 

E d'uma, e d'outra banda sepultura

 

Se entra a dar aos cadáveres que alastraõ

O campo da batalha, e daõ aos olhos

 

 

O orrorozo matís que a Guerra estende.

 

12 Caetano. O mencionado no Canto antesedente.

13 Doutor Rito. Um dos papeloins mais celebres que o ocio nutre. Ainda que nunca lhe lembrou seguir os estudos, andou nos primeiros tempos de batina; foi Doutorado por seus mesmos Pais, e na sua propria caza, servindolhe ums calsoins de riso azul da insignia de capelo. Palra sempre de autoridade; he sorumbatico de natureza, e quazi sempre anda com tericia. A sua caza he de orates.

14 Xaves. Bebado da 2.ª espece: he de um notavel dezembaraso, de uma verbozidade pasmoza, e de uma mania de fazer trovas insofrivel.

15 Antonio do Ministro. Foi em Aveiro um dos Taverneiros principais.

16 Matrona. Uma ejusdem furfuria bem conhecida no Porto pela alcunha de Rainha.

17 Serralheiro. Irmaõ do Gigante Dramuziando, filhos do Entuziasmo, e da Fantazia.