Santarenaida: poema eroi-comico
Canto Iiii.
Foise em folias a seguinte noite.
Mas asim que a lus alma avermelhando
No orizonte as globozas nuvemzinhas
Comesou a doirar o cume aos montes,
A vensedora jente enfurecida
Respirando outra ves carnajem, sangue,
Vai de rota batida, e compasada
Ao som dos belicozos instrumentos Demandar do Mondego as marjems frescas.
A seu salvo xegando se alojárão.
Fas-se conselho, e por comum acórdaõ
Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro
O terror, e a vitoria Nerêo parte.
Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra
Bem como um formigueiro fervelhava
Atonita bradando. Eis muito conxo
Correndo á présa contra seu costume, Vem um cambaio tutelar das aguas,
O gago Vitorino, e o Santareno
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Fanfarrão desta sorte dezafia.
Cá-cá fora me'amigo, cu na rua;
Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita.
E ve-ve-ve veremos, e veremos
Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora
Um nunca visto inzercito de jente;
Saõ co-como mosquitos: se tem barbas, S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.
Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado
Desprezando do garrulo Oliveiros
O louco dezafio, o Eroi prestante
Do Rino desprezou o stultiloquio.
Naõ se altera; em seu rubido semblante
Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza.
Lijeiro, quanto sofre a corpulencia,
Á trapeira alta sobe onde vijia;
E axando ser serta a guerra em caza,
Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora
Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas,
E toda a jente sua acode prestes.
Acodem d'Alemtejo, e Estremadura
Bizarros Campioins: da Vidigueira,
Vila de Frades, Borba, de Vilalva,
Setubal, e Palmela. De Lisboa
Axaõ-se os Carcavélicos mansebos
De furibundo senho. Estaõ do Algarve Mil Soldados d'embarque destemidos,
Mil de sima do Doiro, e das Bairradas;
E saõ mais de dés mil Coimbricenses.
Toda esta Soldadesca, he bem verdade,
Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas:
Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos;
Mas qualquer deles um Eroi xapado
De inaudito valor, corajem suma,
Capás de se avansar ao mesmo Alcides.
N'uma palavra bebados eternos.
Entrase a rezenhar: cazo estupendo!
Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha.
Formarse vaõ da Feira ao grande largo.
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A linda variedade em farda, e armas
Os olhos encantava: grande parte
Em cambudos capotes romendados
A trouxe mouxe postos se rebusa:
Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro,
Xeia de impavidês caminha aos tombos.
Este trás um pixel, este trás quatro
No alforje a tiracolo: um tres borraxas
De admiravel grandeza, e tudo xeio.
Armados todos vem muito á lijeira:
Nada de arnezes, peito descuberto;
Á excesaõ dos rompentes granadeiros
Que feitos vaõ ali cabides d'armas.
Com grevas, bacinetes, e lorigas
Bem poucos se embarasaõ: a rodela,
A talhante farrusca colubrina,
A adaga, o varapáo, a masa, o xuso,
Comforme cada um melhor se ajeita,
He tudo quanto importa á mais da tropa.
Nas pezadas carretas rexinantes
Temivel ali vai das bocas negras
A ignívoma tormenta: até naõ falta
Quem leve junto a si seu caõ de fila.
Entaõ sobre um jumento de atafona
Ricamente ajaezado, o Santareno As odreas pernas escarranxa a custo.
Veste de bode um tresdobrado coiro;
Poim um elmo de vides enlasadas
Na caveira d'um tigre tremebundo
Que lhe a grande carranca asombra, e adorna,
E empunhando na dextra uma tarasca
De dilatada folha, vai bizarro
Puxando os batalhoins para o combate.
Tanto que do lugar alcanse ouveraõ,
E os raivozos imigos avistaraõ,
Fas alto o Santareno, expede as ordems,
As fileiras divide, o campo asenta.
Depois entre um salseiro procelozo
De perdigotos que da boca xove,
Da sua jente á testa asim troveja:
Lembrar-vos, generozos Camaradas,
O que ides a fazer, fôra esqueserme
Até de quem vós fois: eu sei que o brio
A cada um de vós outros alentados Na ponta do naris brilhando salta.
Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa.
As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ,
Custelhes caro se venser quizerem.
Corajem, meus amigos, oje a gloria
Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.
Nos animos calou vinhi-potentes
De tal sorte a razaõ destas palavras,
Que cada um deles se reputa um raio,
E ja para envestir as trélas roem.
Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate,
Asopraime no peito o extinto fogo,
Que he precizo cantar melhor que nunca
O combate maior que os evos viraõ.
Deu sinal a trombeta Neptunina
Aspero, forte, atrós, e formidavel:
Nas cabesas as grenhas se arripiaõ,
Bate mais forte o corasaõ nos peitos.
Comesaõ-se a mover as longas alas;
O medonho alarido se levanta;
Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga
Sobe rapido aos Ceos enovelado
O denso negro fumo; c'o estampido
Os cavernozos montes retumbando
Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos
Parecia que a máquina do mundo
Sacodida, em pedasos se fazia.
C'um asoite na maõ de duro ferro
Os cruentos cavalos instigando
Girava a impia Guerra o campo todo.
Os Soldados que a viaõ se animavaõ.
A Dezesperasaõ á redea solta
Corria furibunda, e sem maneira.
As incendidas balas estridentes,
As mortíferas xusas enristadas,
Gemidos arrancando aos mizeraveis,
Um inferno faziaõ. Alastrado
De sangue viu-se em breve, e corpos mortos
Da orroroza batalha o sitio extenso.
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Rocio, que em razaõ de vizinhansa
O nome erdado tems de Santa Clara,
Se gloria ganhas oje em ser teatro
De taõ sanguinolenta brava guerra,
O nome mudarás, e dos vindoiros
Virás a ser xamado o campo Marcio.
De forsa neste dia altos prodijios
A gente Bacanal fes mais que nunca.
Qual, semelhante ao gato entre podengos
Que o lombo em arco tendo enxorisado
Fas provar velosmente em pulos destro
Aos audazes fucinhos circumstantes
Das curvas fisgas os lembrados golpes,
Para um, e outro lado dezenvolto
Murros, e pontapés fervendo atira:
Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega:
Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.
Mas ja um Foca enorme e gueludo,
De dente anavalhado, unha rompente,
Cujo coiro entezado e verde-negro
Se ria das mais fortes cutiladas,
Um vinheo Capitaõ tragando estava,
Quando o intrepido Andrade irozo acode.
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Aqui ainda viu do mizeravel
Engolir os restantes calcanhares.
Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos,
Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo Da inimiga cabesa vensedora
Com um buxo roliso (arma cazeira)
Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga.
Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito
Aos ares se soltou envolto em sangue.
Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ.
Os aquozos Soldados trepidantes
De fila cem membrudos cains lhe asulaõ;
E, quais sobre a bigorna os malhos batem,
As dentadas sobre ele a miudo fervem.
Andrade volta a um tempo a todas partes
O braso vingador: destróe, derruba,
Atropela, maxuca, abola, mata.
Mas sendo ja sem conto os inimigos,
Depois de longo espaso de conflito,
Falto de forsas vai beijar a santa.
Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance
Com mais de quatro mil inda combate.
Grandemente bufando aflito espuma,
Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo Pasmozos coices enraivado atira.
Forma mil carantonhas formidaveis,
Qual trovaõ rujidor medonho berra.
Das dentadas a orrivel tempestade
Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo
Em pé se torna a pôr, e a brava xusma.
Em fanicos desfás c'o a masa dura.
Naõ te déraõ da fonte as alimarias,
Valente Palmeirim, tanto trabalho;
Bem que viste o broquel feito em pedasos
C'o as leoninas unhas; bem que o tigre,
Que a mal cortada perna inda arrojava,
Te fes afucinhar c'o a garra ardente.
N'outra banda com obra azafamado
O ferós Damiaõ como um corisco
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Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ,
Aqui destro acomete, rompe, asola.
Cada pedra que solta he uma granada
Onde vai desfarsada a orrenda morte.
Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo:
Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos,
E do primeiro encontro os desbarata.
Xovem nele os pelouros abrazados
Dos áqueos Soldados impelidos,
Como sobre os telhados em Janeiro
A saltante saraiva que Euro impele.
Ante os muros de Pérgamo mais bravo
O filho naõ pugnou da branca Thétis.
Nem eu te calarei, Caetano ilustre,
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Asombro de valor, peito de Marte.
Tu ali sobre a terra o pé batendo,
Pancraciasta acérrimo, insofrivel
Mais de mil desqueixaste a murro sêco.
Mesmo o Duque Nemé famozo em murros
De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.
Mas naõ soprava a pérfida Fortuna
Com ventos de servir á gente aquatil;
E sendo ja sensivel a derrota
Tocar a recolher manda Oceano.
6 Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.
7 Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.
8 O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.
9 Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.
10 Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.
11 Caetano. He um quidam sexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.