Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 5 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto Iiii.

Foise em folias a seguinte noite.

 

Mas asim que a lus alma avermelhando

 

No orizonte as globozas nuvemzinhas

 

Comesou a doirar o cume aos montes,

 

A vensedora jente enfurecida

 

Respirando outra ves carnajem, sangue,

 

Vai de rota batida, e compasada

 

Ao som dos belicozos instrumentos Demandar do Mondego as marjems frescas.

 

A seu salvo xegando se alojárão.

 

Fas-se conselho, e por comum acórdaõ

 

Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro

 

O terror, e a vitoria Nerêo parte.

 

Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra

 

Bem como um formigueiro fervelhava

 

Atonita bradando. Eis muito conxo

 

Correndo á présa contra seu costume, Vem um cambaio tutelar das aguas,

 

O gago Vitorino, e o Santareno

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Fanfarrão desta sorte dezafia.

 

Cá-cá fora me'amigo, cu na rua;

 

Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita.

 

E ve-ve-ve veremos, e veremos

 

Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora

 

Um nunca visto inzercito de jente;

 

Saõ co-como mosquitos: se tem barbas, S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.

 

Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado

 

Desprezando do garrulo Oliveiros

 

O louco dezafio, o Eroi prestante

 

Do Rino desprezou o stultiloquio.

 

Naõ se altera; em seu rubido semblante

 

Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza.

 

Lijeiro, quanto sofre a corpulencia,

 

Á trapeira alta sobe onde vijia;

 

E axando ser serta a guerra em caza,

Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora

 

 

Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas,

 

E toda a jente sua acode prestes.

 

Acodem d'Alemtejo, e Estremadura

 

Bizarros Campioins: da Vidigueira,

 

Vila de Frades, Borba, de Vilalva,

 

Setubal, e Palmela. De Lisboa

 

Axaõ-se os Carcavélicos mansebos

 

De furibundo senho. Estaõ do Algarve Mil Soldados d'embarque destemidos,

 

Mil de sima do Doiro, e das Bairradas;

 

E saõ mais de dés mil Coimbricenses.

 

Toda esta Soldadesca, he bem verdade,

 

Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas:

 

Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos;

 

Mas qualquer deles um Eroi xapado

 

De inaudito valor, corajem suma,

 

Capás de se avansar ao mesmo Alcides.

 

N'uma palavra bebados eternos.

Entrase a rezenhar: cazo estupendo!

 

Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha.

 

Formarse vaõ da Feira ao grande largo.

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A linda variedade em farda, e armas

 

Os olhos encantava: grande parte

 

Em cambudos capotes romendados

 

A trouxe mouxe postos se rebusa:

 

Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro,

 

Xeia de impavidês caminha aos tombos.

Este trás um pixel, este trás quatro

 

No alforje a tiracolo: um tres borraxas

 

De admiravel grandeza, e tudo xeio.

 

Armados todos vem muito á lijeira:

 

Nada de arnezes, peito descuberto;

 

Á excesaõ dos rompentes granadeiros

 

Que feitos vaõ ali cabides d'armas.

 

Com grevas, bacinetes, e lorigas

 

Bem poucos se embarasaõ: a rodela,

 

A talhante farrusca colubrina,

A adaga, o varapáo, a masa, o xuso,

 

 

Comforme cada um melhor se ajeita,

 

He tudo quanto importa á mais da tropa.

 

Nas pezadas carretas rexinantes

 

Temivel ali vai das bocas negras

 

A ignívoma tormenta: até naõ falta

 

Quem leve junto a si seu caõ de fila.

 

Entaõ sobre um jumento de atafona

 

Ricamente ajaezado, o Santareno As odreas pernas escarranxa a custo.

 

Veste de bode um tresdobrado coiro;

 

Poim um elmo de vides enlasadas

 

Na caveira d'um tigre tremebundo

 

Que lhe a grande carranca asombra, e adorna,

 

E empunhando na dextra uma tarasca

 

De dilatada folha, vai bizarro

 

Puxando os batalhoins para o combate.

 

Tanto que do lugar alcanse ouveraõ,

 

E os raivozos imigos avistaraõ,

Fas alto o Santareno, expede as ordems,

 

 

As fileiras divide, o campo asenta.

 

Depois entre um salseiro procelozo

 

De perdigotos que da boca xove,

 

Da sua jente á testa asim troveja:

 

Lembrar-vos, generozos Camaradas,

 

O que ides a fazer, fôra esqueserme

 

Até de quem vós fois: eu sei que o brio

 

A cada um de vós outros alentados Na ponta do naris brilhando salta.

 

Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa.

 

As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ,

 

Custelhes caro se venser quizerem.

 

Corajem, meus amigos, oje a gloria

 

Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.

 

Nos animos calou vinhi-potentes

 

De tal sorte a razaõ destas palavras,

 

Que cada um deles se reputa um raio,

 

E ja para envestir as trélas roem.

Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate,

 

Asopraime no peito o extinto fogo,

 

Que he precizo cantar melhor que nunca

 

O combate maior que os evos viraõ.

 

Deu sinal a trombeta Neptunina

 

Aspero, forte, atrós, e formidavel:

 

Nas cabesas as grenhas se arripiaõ,

 

Bate mais forte o corasaõ nos peitos.

 

Comesaõ-se a mover as longas alas;

O medonho alarido se levanta;

 

Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga

 

Sobe rapido aos Ceos enovelado

 

O denso negro fumo; c'o estampido

 

Os cavernozos montes retumbando

 

Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos

 

Parecia que a máquina do mundo

 

Sacodida, em pedasos se fazia.

 

C'um asoite na maõ de duro ferro

 

Os cruentos cavalos instigando

Girava a impia Guerra o campo todo.

 

 

Os Soldados que a viaõ se animavaõ.

 

A Dezesperasaõ á redea solta

 

Corria furibunda, e sem maneira.

 

As incendidas balas estridentes,

 

As mortíferas xusas enristadas,

 

Gemidos arrancando aos mizeraveis,

 

Um inferno faziaõ. Alastrado

 

De sangue viu-se em breve, e corpos mortos

 

Da orroroza batalha o sitio extenso.

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Rocio, que em razaõ de vizinhansa

 

O nome erdado tems de Santa Clara,

 

Se gloria ganhas oje em ser teatro

 

De taõ sanguinolenta brava guerra,

 

O nome mudarás, e dos vindoiros

 

Virás a ser xamado o campo Marcio.

 

De forsa neste dia altos prodijios

 

A gente Bacanal fes mais que nunca.

Qual, semelhante ao gato entre podengos

 

Que o lombo em arco tendo enxorisado

 

Fas provar velosmente em pulos destro

 

Aos audazes fucinhos circumstantes

 

Das curvas fisgas os lembrados golpes,

 

Para um, e outro lado dezenvolto

 

Murros, e pontapés fervendo atira:

 

Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega:

 

Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.

 

Mas ja um Foca enorme e gueludo,

De dente anavalhado, unha rompente,

 

 

Cujo coiro entezado e verde-negro

 

Se ria das mais fortes cutiladas,

 

Um vinheo Capitaõ tragando estava,

 

Quando o intrepido Andrade irozo acode.

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Aqui ainda viu do mizeravel

 

Engolir os restantes calcanhares.

 

Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos,

 

Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo Da inimiga cabesa vensedora

 

Com um buxo roliso (arma cazeira)

 

Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga.

 

Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito

 

Aos ares se soltou envolto em sangue.

 

Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ.

 

Os aquozos Soldados trepidantes

 

De fila cem membrudos cains lhe asulaõ;

 

E, quais sobre a bigorna os malhos batem,

 

As dentadas sobre ele a miudo fervem.

Andrade volta a um tempo a todas partes

 

O braso vingador: destróe, derruba,

 

Atropela, maxuca, abola, mata.

 

Mas sendo ja sem conto os inimigos,

 

Depois de longo espaso de conflito,

 

Falto de forsas vai beijar a santa.

 

Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance

 

Com mais de quatro mil inda combate.

 

Grandemente bufando aflito espuma,

 

Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo Pasmozos coices enraivado atira.

 

Forma mil carantonhas formidaveis,

 

Qual trovaõ rujidor medonho berra.

 

Das dentadas a orrivel tempestade

 

Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo

 

Em pé se torna a pôr, e a brava xusma.

 

Em fanicos desfás c'o a masa dura.

 

Naõ te déraõ da fonte as alimarias,

 

Valente Palmeirim, tanto trabalho;

 

Bem que viste o broquel feito em pedasos

C'o as leoninas unhas; bem que o tigre,

 

 

Que a mal cortada perna inda arrojava,

 

Te fes afucinhar c'o a garra ardente.

 

N'outra banda com obra azafamado

 

O ferós Damiaõ como um corisco

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Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ,

 

Aqui destro acomete, rompe, asola.

 

Cada pedra que solta he uma granada

 

Onde vai desfarsada a orrenda morte.

Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo:

 

Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos,

 

E do primeiro encontro os desbarata.

 

Xovem nele os pelouros abrazados

 

Dos áqueos Soldados impelidos,

 

Como sobre os telhados em Janeiro

 

A saltante saraiva que Euro impele.

 

Ante os muros de Pérgamo mais bravo

 

O filho naõ pugnou da branca Thétis.

Nem eu te calarei, Caetano ilustre,

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Asombro de valor, peito de Marte.

 

Tu ali sobre a terra o pé batendo,

 

Pancraciasta acérrimo, insofrivel

 

Mais de mil desqueixaste a murro sêco.

 

Mesmo o Duque Nemé famozo em murros

 

De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.

 

Mas naõ soprava a pérfida Fortuna

 

Com ventos de servir á gente aquatil;

E sendo ja sensivel a derrota

 

Tocar a recolher manda Oceano.

 

6 Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.

7 Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.

8 O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.

9 Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.

10 Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.

11 Caetano. He um quidam sexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.