Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo I – Saúde da família: conteúdos e trajetórias
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
assegurados a cada cidadão não como caridade ou concessão do
Estado, mas como um direito. A origem histórica destes sistemas de
proteção é, entretanto, mais antiga, coincidindo com a formação dos
Estados nacionais e os processos de industrialização e urbanização.
São estes Estados que começam a se distanciar do liberalismo, em
direção a um modo mais social, que promove o que Viana (1997)
denomina de um “tipo particular de arranjo entre o Estado, o
mercado e a sociedade”, simbolizando dessa forma um “duplo
compromisso”: entre o Estado e o mercado e entre a democracia e o
capitalismo.
Como resultado de tal arranjo, típico do período histórico de
diferenciação, crise e expansão do capitalismo, originam-se padrões
distintos de intervenções do Estado sobre a vida social, organizadas
em torno de dois eixos, o primeiro, universal/seguridade, típico da
Escandinávia e do Reino Unido e o segundo, ocupacional/seguro,
vigente na Europa continental – com suas variedades mistas
(VIANA, 1997).
O caso da saúde
Em relação aos sistemas da saúde, o quadro acima referido se
amplia, visto que, já no final do século XIX detectam-se, na Europa
principalmente, uma “primeira onda” de reformas, caracterizada por
financiamento subsidiado estatal e programas específicos para os
mais pobres e trabalhadores de baixa renda, tendo como paradigma
o caso inglês (sanitarismo), com desdobramentos inclusive no
século XX. Uma segunda onda seria aquela advinda da crise do
pós-guerra, cujo exemplo típico é a formação do National Health
System britânico, com extensão da atenção e inclusão do acesso
aos cuidados de saúde entre os direitos de cidadania; o terceiro
momento é mais complexo, iniciando-se, ainda nos anos 60, com a
expansão pura e simples da assistência, seguido, em anos mais
recentes, de uma crise desse modelo e a necessidade de
formulação de uma agenda pós-welfare (ALMEIDA, 1996).
O caso da saúde tem suas particularidades, aliás muito
numerosas e variadas. Na verdade, a “primeira onda” de reformas
corresponde ao período em que as opções se diversificaram,
particularmente no contexto europeu, quando os avanços sociais
obtiveram maior primazia se comparados mesmo aos países
avançados da América do Norte ou do Oriente. As alternativas
disponíveis, naquele momento, segundo Costa et al. (2000) seriam:
(a) o modelo beveridgeano, baseado no financiamento por fundos
públicos fiscais, com garantia de acesso, gratuidade e integralidade,
correspondendo ao welfare state clássico inglês e escandinavo; (b)
o modelo bismarckiano, baseado em seguro e pagamento
compartilhado entre sociedade e Estado, apoiado em estruturas
corporativas e acesso condicionado pela condição de emprego e
mérito. Um terceiro modelo, dito de mercado, também ocorria, tendo
como características principais a organização a partir das
capacidades de compra e consumo de seus usuários (cidadãos-
consumidores) ou das empresas às quais estes estão vinculados –
este é o padrão que vigora, ainda hoje, nos EUA e no Japão.
Em termos mais amplos, ou seja, do desenvolvimento do welfare
state, há quem vislumbre, como é o caso de Navarro (1995), uma onda mais tardia de reformas sociais que afetou, não só os países
que haviam participado dos primeiros movimentos nas décadas de
40 e 50, mas também outros da Europa, além do Canadá, Estados
Unidos, Japão, Austrália e Nova Zelândia. As características deste
período, típico dos anos 60 e seguintes, seriam: (a) escassez de
mão-de-obra, como conseqüência de um boom econômico
despertado pela guerra do Vietnã; (b) a provisão de serviços sociais
mantidos nos welfare states vigentes; (c) o aumento do número e da
intensidade das reivindicações trabalhistas nos países centrais; (d)
uma certa perplexidade do empresariado capitalista face aos rumos
do movimento operário; (e) novos conteúdos e estratégias dos
programas partidários (pelo menos de representação operária) –
aspectos que teriam resultado no relativo compartilhamento do
controle do processo produtivo entre proprietários e trabalhadores.
A era do desmoronamento: crises do
welfare state e dos sistemas de saúde
O final de década de 70 e os anos 80 marcam uma inflexão
importante na história das políticas sociais no mundo, com reflexos
diretos e muito importantes na América Latina e, particularmente, no
Brasil: a crise. “Crise da realidade ou apenas crise de paradigmas?”
- indaga Tetelboim (1992). A resposta da autora é que se está diante
de uma realidade mutante, antes promissora, agora ameaçadora,
em vias de desfazimento, particularmente no terreno das políticas
sociais. Mas há também uma enorme dificuldade em situar e
clarificar os termos conceituais, para não dizer ideológicos, do
processo de mudança. Cumpre, aqui, situar os termos principais do
debate.
Países que já haviam implantado ou reformado seus sistemas de
proteção social, nas décadas anteriores, viram-se profundamente
afetados. Aqueles que experimentavam reformas nesta área foram
obrigados a renunciar às grandes mudanças em suas políticas
sociais, em nome de uma minimização do Estado, ou da
transferência de responsabilidades ao setor privado e às instâncias não-centrais de governo, ou, ainda, da contenção de despesas e do
equilíbrio das contas públicas.
Hobsbawn (1995) chama atenção para os fenômenos históricos
mais amplos que correspondem a esse período, englobando-os à
Era de Desmoronamento. Entre as características dessa fase
complexa, em que “[…] o mundo perdeu suas referências e resvalou
para a instabilidade e a crise”, o autor aponta: (a) o reconhecimento
apenas tardio, entre os políticos e pensadores do mundo capitalista,
de que dessa vez a crise não se resumia à “recessão” ou
“depressão”, como em ocasiões anteriores (1930 e 1987, por
exemplo); (b) o desencontro, em torno de explicações convincentes,
just in time, para a crise e seus desdobramentos; (c) uma
associação quase paradoxal entre o declínio de indicadores sociais
e alguns sinais de pujança do sistema capitalista, como, por
exemplo, intensificação do comércio internacional, aumento da
produtividade, quedas não proporcionais ou mesmo manutenção do
PIB – pelo menos no segmento mais desenvolvido do mundo; (d)
marcantes diferenças entre o declínio de indicadores econômicos e
comportamento dos indicadores sociais, nos países centrais e
periféricos, com nítido prejuízo destes últimos; (f) o reaparecimento
da miséria em todo o mundo, inclusive em países ricos, como
denunciado pela emergência do street people e outros segmentos
marginalizados em números crescentes e impensáveis nas décadas
anteriores; (g) o gradual ressurgimento de inquietações sociais; (h) o
corte de despesas afetando mais intensivamente a área social, entre
outros.
Além disso, destaca o autor, o capitalismo parecia já não
funcionar tão bem quanto na época anterior, dita “de ouro”, e suas
operações começavam a se tornar praticamente incontroláveis.
Dessa forma, perde potência o grande instrumento regulador dos
períodos anteriores, a política de governo; com isso os estados
nacionais experimentaram uma enorme perda de poder político e
econômico.
A crise dos sistemas de bem-estar apresenta certa clareza em
seu reconhecimento entre seus analistas, mas certamente o mesmo
não acontece com as explicações a respeito de seus componentes
estruturais, bastante complexos e objetos de grande divergência entre os analistas. Granados-Toraño (1995), em uma explanação
sem dúvida didática, situa o processo da crise dos sistemas de
saúde dentro de sete dimensões, a saber: (a) temporal: não há
como alcançar melhores indicadores de saúde pela maioria dos
países, a não ser que se alterem radicalmente os modos de
intervenção sobre os problemas; (b) ideológica: o momento é de
“reacomodação das concepções políticas”, afetadas pela falência do
socialismo real e pelo fracasso das políticas hegemônicas em obter
resultados na luta contra a pobreza e pela melhoria da saúde; (c)
política: falência do estado de bem estar social clássico, com
dificuldades na busca de soluções alternativas, dando lugar ao
“estado de mal-estar”; (d) epidemiológica e demográfica: as
dificuldades de tomada de decisões consistentes por parte dos
governos, face aos fenômenos da transição que afetam
particularmente os países em desenvolvimento; (e) paradigma
estatal: afastamento e marginalização do Estado como promotor do
desenvolvimento social, em detrimento do mercado, a partir dos
anos 80; (f) técnica e metodológica: inadequação dos instrumentos
de análise dos processos de saúde, com necessidade da
construção de novas bases doutrinárias; (g) econômica: queda do
paradigma normativo de planejamento, com o advento do sistema
de incentivos econômicos e de externalidades da saúde como
instrumentos de mudança.
Independente de se tratar de um processo geral do sistema
capitalista ou, particular do setor saúde, ou de seu caráter cíclico ou
permanente, ou, ainda, das conclusões da corrente interpretativa
que sobre ela se debruça no momento, a crise trouxe para o setor
saúde desafios e contratempos não experimentados no passado. Os
anos dourados (não mais do que duas décadas) de conquistas
sociais e expansão de benefícios, principalmente em direção à
universalidade, foram, a partir de então, colocados em cheque e sob
alto risco de incertezas. Isso para países que haviam saído na frente
em seus processos de construção e reforma de sistemas de saúde,
pois, para os demais, geralmente dependentes e periféricos, os
agravos ao setor foram catastróficos, não sendo raros os casos de
autênticos abortamentos dos processos reformistas, ameaça ainda
não totalmente esconjurada no Brasil, por exemplo.
Os reflexos da crise na saúde, não seriam, entretanto,
surpreendentes. Desde os anos 60 se denunciava (ver, por exemplo
ILLICH, 1975), os riscos de uma nemesis, pela excessiva
dependência do sistema de saúde em relação ao capital e à
tecnologia, além de sua inserção em um imenso e poderoso
complexo médico-industrial, expressão cunhada d’aprés o complexo
industrial-militar dos anos da Guerra Fria. Dessa forma demonstra-
se o que muitos autores latino-americanos têm transformado em
pedra de toque de suas reflexões sobre a formação e a evolução
dos sistemas de saúde na região (ver por exemplo LAURELL, 1994;
GRANADOS-TORRAÑO, 1995; MENDES, 1993; TESTA, 1992;
ALMEIDA, 1997; VIANNA, 1997, além de muitos outros), qual seja a
hegemonia norte-americana na constituição das políticas sociais e
de saúde, geradoras de dependência e exclusão. E também como
expressão altamente influenciadora nos processos de reforma e
correção racionalizadora das disfunções deste mesmo sistema.
O Estado, também, deve aqui ser visto como peça fundamental
em tal jogo de forças, ao facilitar e abrir caminho, por um lado, para
o aprofundamento da crise da saúde (o caso da Previdência Social
nos anos do “milagre”, no Brasil, é bastante significativo); por outro
lado, na condução dos processos de ajustes e reformas do sistema,
realizados, por vezes, sob o patrocínio e a influência política e
técnica de agências internacionais e programas de cooperação
técnica estrangeiros. Segundo Almeida (1997), algumas dimensões
do envolvimento do Estado devem ser apreendidas para o melhor
entendimento do processo de desmoronamento na saúde. São elas:
(a) regulatória: referente às condições de oferta da atenção à saúde
e sua inserção (ou não) no modelo keynesiano, tendo como
questões centrais o grau de cidadania, o poder profissional, a
natureza, a organização e os resultados dos serviços de saúde; (b)
econômica e tecnológica: relacionada à contínua expansão da alta
tecnologia nas economias de mercado, com a participação do
Estado em papéis diversos – regulador, prestador, produtor direto;
(c) política: que leva em conta a participação do Estado e dos outros
atores na arena de conflitos distributivos ao encalço dos recursos,
entre eles, empregos, poder e interesses de modo geral.
O panorama internacional e as
mudanças das agendas na saúde
Sob as influências do “receituário anti-crise” das agências
internacionais para a saúde, capitaneadas pelos organismos de
fomento (particularmente o Banco Mundial), mas também da
marcante presença norte-americana na formação ideológica e
cultural das elites do terceiro mundo, consolida-se, nos anos 80, um
movimento reformista dos sistemas de saúde minados pela crise,
apoiado em uma ampla gama de argumentos, mas de maneira geral
convergentes com a denúncia de inviabilidade e irracionalidade do
welfare state na sua feição tradicional beveridgeana (ALMEIDA,
1996). De forma simplificada e, talvez, eivada de ideologia, tal
movimento tem sido denominado singelamente de “neo-liberalismo
na saúde”. O fato é que, a crise desencadeada pela expansão
acentuada da assistência acabou por resultar em uma nova agenda
de propostas reformistas, cuja essência estava no questionamento
dos fundamentos básicos que haviam estruturado os sistemas de
saúde até então, e cujo eixo central concentrou-se na intervenção
estatal. Sobreveio, assim, a onda de reformas dos anos 80,
articulada à crise fiscal do Estado – com concordância dos críticos,
à direita e à esquerda – quanto ao ataque ao welfare state, bem
como articulada ao “profissionalismo” (corporativismo) e ao enfoque
assistencial dos sistemas de saúde.
O panorama internacional revelava-se, além do mais,
francamente propenso às mudanças dos sistemas de saúde. Com a
liderança dos EUA, os organismos internacionais, entre eles o
Banco Mundial e a OECD, procuraram realizar diagnósticos setoriais
abrangentes durante a década de 80, de forma a compor a já
mencionada agenda sanitária pós welfare-state. Reorganizou-se,
assim, o panorama das agências internacionais com atuação na
saúde, vislumbrando-se a perda progressiva do espaço das
entidades tradicionais (sistema OMS) e o predomínio dos
organismos dotados de mandato econômico, como o Banco Mundial
e o FMI.
Como destaca ainda Almeida (1996), em um primeiro momento,
nos anos 70, procurou-se racionalizar e conter custos, porém sem
perder de vista a expansão do sistema, que havia produzido e ainda
produzia ganhos políticos importantes. A seguir, entretanto, já nos
anos 80, as estratégias evoluem para a ênfase no controle de
gastos e equilíbrio financeiro do sistema, sobrevindo, então,
políticas mais radicais de ajustes fiscais e cortes de benefícios.
Nesta etapa, as idéias geradas nos EUA a respeito de competição e
gerenciamento (a partir dos trabalhos originais de Einthoven)
ganharam corpo e se difundiram urbi et orbi, até mesmo para o
verdadeiro “santuário” do welfare-state na saúde, que era o NHS
britânico. Nos comandos nacionais, Reagan e Thatcher,
respectivamente.
De forma bastante sumária, pode-se dizer que a mudança de
enfoque nas políticas de saúde dos anos 80 teve, por substrato,
uma mudança de paradigma da intervenção estatal no campo social
(ALMEIDA, 1996), centrada, além do mais, na ausculta e na
qualificação das preferências dos consumidores e na contenção de
custos. As linhas gerais de tal política são: (a) princípios filosóficos
centrados em universalidade da satisfação (não mais da oferta); (b)
busca de impacto das ações e priorização aos mais necessitados,
por meio de mecanismos de focalização; (c) substituição da ação
estatal monopolizadora, centralizada, unificada e controlista, pela
noção de mix institucional, que inclui Estado, setor privado,
filantropias e famílias; (d) novos processos de organização e
decisão: financiamento separado da provisão de serviços,
descentralização, atuação por projetos, competição, ausculta ao
consumidor, criação de fundos de investimento na área social,
financiamento baseado em co-participação (auto-sustentação) e
recuperação de custos; (e) novas diretrizes para manuseio de
recursos: subsídios à demanda, incentivos a “quase-mercados”,
competição, liberdade de escolha; (ALMEIDA, 1996). Configurou-se,
assim, o que Terris (1999) denuncia como a tríade neo-liberal das
reformas anti-saúde, com o corte dos orçamentos públicos para a
área social, desregulação e afastamento do Estado do processo
decisório das políticas e privatização.
O quadro daí advindo tem sido chamado de americanização dos
sistemas de saúde, aspecto amplamente discutido por Vianna
(1997), que difundiu o termo no Brasil, além de lhe acrescentar o
epíteto de “perversa”. No artigo em pauta, esta autora comenta os
possíveis processos de desmonte das estruturas de bem-estar
resultantes da americanização perversa e constata que, nos dois
lados do mundo, eles se sucederam de maneira diferente, ao ponto
de se permitir um aposto esclarecedor no título dado ao texto:
“Notas (menos pessimistas) sobre a globalização e o Estado de
Bem Estar”. Segundo esta autora, há mais alarde do que evidências
a respeito de tal desmonte, pelo menos nos países centrais.
Analisando o caso inglês, considerado o mais “americanizado” entre
os países europeus, verifica-se, na verdade, um incremento do PIB
gasto em saúde entre 1974 e 1986, tida comumente como a era do
desmonte. O mesmo, aliás, aconteceria em outros países como
Alemanha e mesmo os EUA. A autora explica o fato pela existência,
na Inglaterra, de fortes fontes de apoio ao NHS no âmbito da
sociedade, o que descreve como “novos cenários e novos atores”,
dentro de um processo de natureza cultural, simbólica e política.
Para o Brasil, entretanto, e certamente para outros países de
estrutura social e política semelhante, permanece no horizonte o
fenômeno da americanização perversa da política social, traduzido
pela dupla face das mudanças do próprio sistema (privatizações,
focalização, racionamentos, apelo ao mercado), bem como da forma
de articulação dos grupos de interesse (lobbying).
Os casos latino-americano e
brasileiro
No Brasil, como no restante da América Latina, os anos 80
representaram o período de gênese da crise das políticas sociais.
Do ponto de vista da economia, assistiu-se ao baixo crescimento do
PIB e a queda significativa da renda per capita, com endividamento
externo sem precedentes, desindustrialização progressiva,
sucateamento e déficit tecnológico. A inflação tornou-se permanentemente sem controle e ocorreu a redução do
investimento produtivo pari passu ao incremento da lucratividade
empresarial. Aumentaram as transferências financeiras público-
privadas, via juros da dívida interna. No Brasil e em outros países,
tais como Argentina e México, a instabilidade da política econômica
mediu-se pelos planos econômicos sucessivos e de curta vigência
durante toda a década. Além disso, tornou-se marcante a
concentração da pobreza nos espaços urbanos e o aumento da
polarização entre os mais ricos e os mais pobres. Do ponto de vista
político, no Brasil, revigorou-se o desenvolvimentismo por via estatal
(Era Geisel), seguido, desde o final dos anos 70, da
redemocratização e incremento da participação política da
sociedade, de forma progressiva, com importância cada vez maior
de novos e destacados atores sociais, tais como movimentos
sindicais, corporativos, “sem-terra” e partidos políticos. Verificou-se,
simultaneamente, uma redução da governabilidade, com a perda de
legitimidade do Estado autoritário, a construção penosa de uma
“nova ordem” e o surgimento acelerado de novas demandas.
Foi uma era de incertezas associadas ao desmoronamento, sem
dúvida. A crise assim retratada, longe de se constituir como
fenômeno conjuntural, expressava muito mais uma dinâmica
estrutural, ou seja, uma profunda crise estrutural do modelo de
crescimento e de Estado em que se sustentou. A crise brasileira foi
a mais forte dentre os países do sub-continente, resultando em um
padrão de ingovernabilidade política e de estagflação sem
precedentes, porém inteiramente previsíveis e inerentes aos fatores
determinantes de sua gênese (FIORI, 1993 ).
A crise do Estado levou ao estrangulamento completo de uma
estratégia de desenvolvimento longamente tentada no Brasil, e cuja
gestão as elites nacionais, mais uma vez, se descuraram, por
possível incompetência ou mesmo falta de visão política. Um
aspecto positivo, porém, deve ser destacado na crise – e que vai
modular a atuação estatal em momento posterior: o Estado.
Deslegitimado, por um lado, ele passa a ser alvo de mudanças
tangíveis em sua forma de condução das políticas sociais, por outro.
O caso da saúde é paradigmático, quando se vai analisar tal papel, por assim dizer, reativo, dos Estados latino-americanos, entre os
quais o caso brasileiro é digno de destaque (FIORI, 1993).
Para completar a presente seção, uma palavra sobre a
globalização, muito particularmente sobre a globalização da saúde.
Justificam-se tais comentários, no presente momento, devido a uma
certa confusão, intencional ou não, que se faz ao atirar à vala
comum não só o tema das reformas contemporâneas dos sistemas
de saúde, como também outros correlatos, mas não
necessariamente vinculados àquele por relações singelas de causa-
e-efeito, como é o caso da falência do welfare-state, do chamado
“neoliberalismo”, da americanização perversa, além da globalização.
É preciso sair das malhas das teorias conspiratórias (no caso, neo-
conspiratórias) para observar e compreender os fenômenos da
realidade contemporânea, como é o caso das mudanças no
panorama das políticas sociais, que certamente têm em sua base
uma ampla gama de fatores, que passam pela economia e pela
política, mas que em muito as ultrapassa.
A referência aqui utilizada é Berlinguer (1999), que questiona:
qual globalização? Para qual propósito? Sob a condução de quais
forças? No caso da saúde, adverte, o processo vem de longa data,
desde a “unificação microbiana do mundo”, que se sucedeu à
chegada de Colombo à América, prosseguindo ao longo dos séculos
XIX e XX através de diversos eventos, como a imunização contra a
varíola; as descobertas revolucionárias da microbiologia e da
parasitologia; as novas armas da terapêutica química; as políticas
de proteção ao trabalho; às crianças, às gestantes e às famílias; o
controle de muitas doenças endêmicas (mesmo atrelado a
interesses estratégicos e comerciais, como ocorreu com a Febre
Amarela no Panamá e no Caribe). Ao lado dos aspectos mais
positivos, a globalização tem também – e nisso o autor é incisivo –
sua face perversa dada, por exemplo, pela predominância
economicista no trato das questões de saúde, traduzida pela
influência do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional nas
agendas do setor; pela re-emergência de epidemias e endemias,
tendo como caso paradigmático a AIDS; pelas ameaças ao meio
ambiente, pela expansão do tráfico de drogas; pela violência cada
vez menos sob controle. Entretanto, Berlinguer, um pensador da esquerda européia mais crítica, definitivamente fora do figurino de
arauto do neo-liberalismo ou de portador do pensamento
conservador da variedade “Tietmeyer”, de que fala Bourdieu (1998),
se permite ser otimista com o futuro:
Globalization is not a dirt word, a wicked invention of neoliberalism.
Globalization is a positive tendency of Homo sapiens sapiens, in the species’
present stage of knowledge and development. Any negative perception of
globalization relates to its marked imbalance in terms of power and ultimate
purpose. These are the features we must change. […] In terms of ultimate
purpose, fundamental human rights and the problem of equity should have
pride of place; or at least they should come back on the scene, after a long
period of neglect. Health and safety pertain to this domain, as a right of life
and a precondition for all forms of freedom (BERLINGUER, 1999, p. 590).
As reformas da saúde nas agendas
dos organismos internacionais
Em uma das visitas do escritor José Saramago ao Brasil, logo
após haver sido indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, ao ser
instado pela imprensa brasileira a se manifestar sobre a atuação do
governo brasileiro, esquivou-se da pergunta, não por achá-la
impertinente, mas por ter por princípio não comentar os governos,
nem mesmo o de seu país, visto os mesmos situarem-se não onde
os julgamos assentados, mas alhures. Alhures? Mas exatamente
onde, como e por intermédio de quem?
Que os organismos internacionais de fomento financeiro e
cooperação técnica sejam influentes na formulação das políticas
próprias dos países assistidos não constitui grande novidade, por
tratar-se apenas de um corolário das ações de empréstimo ou
assistência que realizam. Que essas influências obedecem, ou
tendem a obedecer, prescrições voltadas para os interesses
hegemônicos e estratégicos dos países centrais, pode ser apenas
uma conseqüência da lógica maximizadora que organiza o mundo
capitalista contemporâneo. Independente disso, porém, é preciso
qualificar e determinar qual a natureza dessa influência e sua dinâmica no que diz respeito às políticas internas dos países
assistidos. Nesse aspecto, a presente discussão ater-se-á mais à
atuação do Banco Mundial, considerando que outros organismos
como o FMI e a OECD possuem naturezas diferentes de atuação,
de caráter mais normativo ou agremiativo, e com menor grau de
interação direta com o policy making da área social. Considerar-se-
á, também, a atuação do sistema OPAS/OMS, deixando-se claro,
entretanto, que o mesmo, pelo menos no contexto da última década
vem perdendo substancialmente sua importância e influência na
formulação das políticas dos países membros, em favor do Banco
Mundial e de outros organismos de fomento financeiro, mais
recentemente auto-transformados também em “bancos de idéias”,
como se verá adiante.
Antes de prosseguir, cabem algumas palavras sobre o processo
de difusão das propostas externas aos países dependentes.
Segundo Testa (1992), ao analisar o conceito de Atenção primária à
saúde, nos moldes preconizados pelos organismos internacionais,
propostas como estas costumam ser geradas em contextos
radicalmente diferentes daqueles aos quais se destina sua
aplicação. Com efeito, nas realidades de origem dos programas, o
que se tem é uma relativa abundância de recursos, com
organização definida dos sistemas de saúde, além de uma certa
“disciplina social”. No lado oposto, o dos receptores, o que
prevalece é um tripé caracterizado pela escassez de recursos,
“indisciplina social” e uma “incoerência entre as formas
organizativas e os propósitos que se pretende alcançar” (TESTA,
1992), além de um quadro de ineficiência e ineficácia, articulado
com a multiplicidade institucional. Destarte, tal situação de
desigualdade entre os países acaba por resultar na acentuação da
dependência mediante uma “cópia ineficaz” daquilo que é funcional
em outras realidades, dado um quadro de determinações bastante
diferenciado. A verdadeira significação das propostas geradas
externamente somente seria alcançada – o que geralmente não se
verifica, segundo o autor – a partir de uma “conceitualização
totalizante”, através da qual surgiriam elementos como contexto
político, participação e ideologia dos grupos sociais, tecnologia disponível no setor, além das relações que tais elementos possuem
com a sociedade global e seus conflitos.
Sobre o Banco Mundial (BM), este organismo foi criado em 1944
para dar suporte financeiro à reconstrução da Europa no pós-guerra.
Transformouse, ao longo das décadas seguintes, no principal
financiador externo da saúde para os países em desenvolvimento.
Além dos empréstimos (nem sempre realizados “a fundo perdido”) o
Banco vem se transformando também em fonte de produção de
idéias e conhecimentos sobre políticas sociais. Na visão de alguns
especialistas em política internacional, o BM passa por ser
“apolítico, técnico e neutro”, quando comparado, por exemplo, aos
organismos do sistema ONU, particularmente OMS e UNICEF, com
os quais já manteve polêmicas históricas. As ideologias prevalentes
no BM, desde a década de 70, quando se iniciaram as atividades
voltadas para os sistemas de atenção à saúde dos países, têm
variado de “atenuação da pobreza”, “redistribuição e crescimento”,
“necessidades humanas básicas” até o “ajuste estrutural” em anos
mais recentes (BUSE, 1994 ).
A atuação do Banco não tem sido isenta de críticas, sejam por
parte dos especialistas engajados dos países-alvo de suas políticas,
sejam da própria comunidade internacional. Para dizer o mínimo, os
técnicos do Banco já foram acusados de “burocracias que
perverteram nosso sentido de generosidade” e “mestres da ilusão”
(DANTÉS, 1999 ). Na década de 80, por exemplo, a UNICEF
envolveu-se em polêmica pública com o BM, ao postular um “ajuste
com face humana” na atuação do organismo (BUSE, 1994).
Hobsbawn (1995), coloca o BM como um dos instrumentos criados
pela “oligarquia dos países ricos” para forçar a abdicação do poder
nacional em favor de autoridades supra-nacionais, bem como criar
dependência através de políticas agradáveis aos seus
mantenedores. O Banco tem sido também apontado como uma
agência mista, não apenas de empréstimos, mas de imposição de
um ideário gerado tecnocraticamente, constituindo-se como um
knowledge bank (BUSE, 1994). Mais contemporaneamente, Kiely
(1998), escrevendo no prestigioso International Journal Health of
Services, denunciou com veemência o que chamou de neoliberalism revisited por parte do BM, apontando seus equívocos de diagnóstico
e ação em países da Ásia e na África Sub-Sahariana.
Da mesma forma são contestados, pelo seu viés ideológico, os
conceitos aplicados pelo BM de good governance e market friendly
intervention. Esta é a linha das intervenções de Terris (1999), que,
de forma veemente, denuncia a contribuição do Banco, juntamente
com o FMI, em forçar uma reforma anti-sanitária, calcada na tríade
neo-liberal de cortes orçamentários, desregulação e privatização.
Ainda com respeito à crítica originada em países centrais, Abassi
(1999) publicou, no British Medical Journal, uma série de artigos em
que o papel do BM é analisado. Em síntese, este autor destaca o
caráter não monolítico do Banco, o que o faz também permeável a
pressões públicas; enfatiza a necessidade de vigilância externa
permanente sobre as atividades por ele desenvolvidas, nos moldes
já existentes, como praticados por uma organização denominada
Women’s Eyes on the World Bank. Insiste na mudança de postura
dos países que tomam empréstimos, para que interfiram mais
diretamente no processo e definam com clareza as prioridades e
objetivos da alocação de recursos, o que é referendado também por
Cassels (1996).
Nos países-alvo das políticas do Banco, o tom das críticas é,
naturalmente, mais exacerbado ainda. No Brasil, para se tomar um
exemplo que não é de forma alguma isolado, Costa (1996),
apoiando-se em textos de Hirschman, denuncia a “retórica neo-
conservadora” da instituição, ao fazer uso abusivo de determinados
“imperativos de argumentação” frente aos dissidentes e opositores
em geral de suas propostas, com a intenção velada ou clara de
“excluir os desejos, o caráter e as convicções dos participantes do
processo democrático” (COSTA, 1996). No México, também
tomando como exemplo dois autores envolvidos com a análise
marxista das políticas de saúde, a crítica se dirige ao caráter
“definitivamente neo-liberal” das propostas do Banco e à sua
concepção de saúde como bem privado, bem como à natureza anti-
ética das propostas que veicula, ao rejeitar a concepção mais
abrangente da saúde, como necessidade humana e direito social, e
ainda de violar alguns valores essenciais da humanidade, ao
transformar as decisões sobre a vida e a morte em meras equações de custo-efetividade (LAURELL; ARELLANO, 1996; LAURELL,
1994).
Como chama atenção Costa (1996), confirmando o dito de
Saramago, os estudos de políticas públicas apontam que, cada vez
mais, os governos nacionais se vêem afetados por decisões
externas a eles, tomadas e implementadas em instâncias supra-
nacionais, das quais o Banco Mundial constitui um bom exemplo.
Configura-se, dessa forma, uma autêntica agenda externa, na qual
são definidos temas substantivos a serem apreciados e
implementados como políticas pelos governos. Algumas
características desse processo de imposição (ou, weberianamente
falando, de socialização) de políticas podem ser apontados
sumariamente: (a) as nações não se colocam simetricamente no
processo – ao contrário, existe um pólo hegemônico e um outro
secundário); (b) coerção e consenso se alternam, seja através de
incentivos materiais (alocados ou retirados) ou, através de forma
mais sutil, promovendo “crenças substantivas” entre as elites
nativas; (c) relações de causa e efeito podem não ser muito
evidentes, ausentes ou até reversas, por meio de mecanismos de
processamento e recombinação no âmbito dos destinatários, o que
pode resultar até mesmo em orientações antagônicas às
deliberações do pólo hegemônico; (d) da mesma forma, nem tudo é
linearidade no processo de imposição; como exemplo, a situação
paradoxal criada pelas agendas muito ortodoxas, que prescrevem
ao mesmo tempo valorização do mercado e abstinência reguladora
por parte do Estado, o que pode significar o descontrole de variáveis
que afetariam negativamente a primeira orientação; (e) detecta-se a
formação de uma comunidade epistêmica transnacional, fortemente
apoiada em conhecimento científico e ancorada na formação de
consenso, aspecto acidamente criticado por Bourdieu (1998),
falando de tais especialistas e seus métodos de imposição e
persuasão, com o apoio da mídia, para os quais o autor toma como
paradigma a figura de Tietmeyer, membro da alta burocracia
financeira alemã.
Na área da saúde, as propostas defendidas pelo Banco Mundial
remontam aos anos 70, sob a forma de financiamentos a países em
desenvolvimento e elaboração de documentos técnicos. Vale a pena recordar aqui apenas alguns tópicos principais, quase sempre
marcados pela ortodoxia econômica, como a orientação para o
mercado, a contenção de gastos, a redução do papel do estado e a
desregulamentação, a atuação mediante ações focais sobre grupos
sociais ou sobre doenças, a busca da eficiência e, simultaneamente,
a crítica ferrenha à ineficiência, e à alocação equivocada vigentes
nos países dependentes (mistargeting), entre outras. Surgem daí
pautas para a alocação em saúde inspiradas nos diagnósticos
citados, mas tendo sempre como elementos orientadores a lógica
de custo-efetividade, através da racionalização da oferta (COSTA,
1996).
Com relação ao Brasil, o Banco Mundial de certa forma se
antecipou ao debate local e já na primeira fase de implantação do
SUS, produziu um documento diagnóstico e analítico (WORLD
BANK, 1988) cujos tópicos principais são: (a) focalização do gasto
público em saúde; (b) colocação de fatores restritivos à clientela e
de estímulo à oferta privada; (c) descentralização para esferas sub-
nacionais de governo; (d) medidas fiscais de desvinculação de
fontes e eliminação de regressividade; (e) fortalecimento do papel
do governo central em alguns programas, como por exemplo,
qualidade em saúde e informação.
Contudo, em 1993, o Banco reviu algumas das posições mais
ortodoxas dos relatórios anteriores, vindo ao encontro da idéia-
matriz do SUS, mas insistindo em propor a consolidação do
processo de reforma institucional em curso no país, de forma
flexibilizada, regular e descentralizada. Manifestou também a
preocupação com a formulação da política, incentivando a formação
de expertise e o apoio à pesquisa em políticas públicas para o
desenvolvimento dos temas pertinentes à política de saúde. A antiga
preocupação com custos e eficiência do sistema manifestou-se
através da proposta de pacotes padronizados de benefícios,
priorização de procedimentos para compra, principalmente no caso
da alta complexidade, bem como o estabelecimento de incentivos à
eficiência na oferta de serviços. A regulação do mercado foi
bastante enfatizada – seja para o exercício profissional, seja para o
mercado de seguros – a ser realizada de forma também
descentralizada (WORLD BANK, 1993; COSTA, 1996).
Quanto à atuação dos organismos internacionais do sistema das
Nações Unidas, essa tem como elementos conceituais: (a) a
“compreensão do contexto”, incluindo aspectos econômicos, força
dos grupos de pressão, estilo de vida e fatores do “entorno”; (b) uma
nova maneira de pensar a saúde, não como medição de resultados,
mas como processo e recurso, de forma dinâmica e envolvendo a
sociedade e os indivíduos; (c) a recolocação de problemas e
prioridades, mediante o reconhecimento da complexidade das
circunstâncias que envolvem a saúde e a doença e o
aprofundamento da visão social; (d) a integração de novos atores
sociais, de forma a incluir a população no processo decisório; (e)
integração do pensamento político, os “laços com a ação política”
(KICKBUSH, 1996).
Algumas das tônicas das propostas dos organismos do sistema
OPAS/OMS têm sido, nas últimas duas décadas, a Extensão de
Cobertura, a Atenção Primária à Saúde, a Saúde para Todos, as
quais têm contribuído para o aparecimento de propostas políticas de
reformas dos sistemas de saúde, capitaneadas por estes
organismos. Entre tais propostas, merecem ser consideradas: (a) os
Sistemas Locais de Saúde (SILOS); (b) a estratégia de Promoção
da Saúde e, (c) o enfoque na pobreza¸ comentados de forma
sintética nas linhas seguintes.
Os SILOS, Sistemas Locais de Saúde, su rgiram como proposta
decorrente de demandas oriundas dos países membros da
Organização Pan-americana de Saúde, formuladas durante a
década de 80, a partir de um consenso em torno de se promover
mudanças nos sistemas e serviços de saúde da região, para torná-
los mais capacitados ao atendimento das necessidades da
população, especialmente dos grupos sociais considerados mais
vulneráveis e desprotegidos. Tratava-se de uma proposta articulada
com as palavras de ordem gerais da organização na ocasião,
especificamente, o fomento da APS e o alcance da meta de “saúde
para todos no ano 2000”. Os SILOS têm sido vistos como respostas
às necessidades e às demandas dos diferentes grupos sociais, em
função dos riscos a que são submetidos. São consideradas como
bases fundamentais para o desenvolvimento dos SILOS a
participação social e o desenvolvimento das “comunidades saudáveis”. O desenvolvimento dos SILOS constitui, na visão da
organização, “[…] uma estratégia social adotada pelos países para
prosseguir nos esforços de alcançar a eqüidade social necessária
aos processos de democratização e desenvolvimento”. Procura-se,
ainda, a coerência de tais sistemas com as características políticas,
administrativas, sócio-econômicas e culturais da realidade onde se
inserem, além da integração e articulação com os diversos níveis
políticos e organizativos (PAGANINI, 1993; ORGANIZAÇÃO
PANAMERICANA DE SAÚDE, 1993).
Promoção da Saúde, no sentido que lhe é emprestado nas
propostas da OPAS/OMS, deriva das formulações de Lalonde,
Ministro da Saúde do Canadá, no início dos anos 70, e condutor
político da reforma do sistema de saúde daquele país. Segundo este
autor, os fatores responsáveis pela saúde das pessoas e das
populações obedecem um campo conceitual que inclui: (a) a
biologia humana; (b) o meio externo; (c) o estilo de vida e, (d) a
organização da atenção à saúde. A partir deste conceito são
estabelecidos os objetivos da promoção da saúde, igualmente
distantes do preventivismo e do enfoque curativo também restrito.
Lalonde (1996), revendo seu modelo após uma década, defendeu
sua atualidade e coerência, situando-o como um verdadeiro “mapa
do território da saúde”, um potente instrumento de análise da saúde
e das condições de vida, capaz de abarcar a totalidade dos fatores
determinantes, em uma visão unificadora do processo saúde-
doença, através da facilitação da mediatização entre os problemas e
suas causas, além do esmiuçamento de cada componente do que
chamou de campo da saúde. Em tal análise, a posteriori, o autor
insistia, ainda, no papel menos relevante exercido pelo fator
organização da atenção em relação aos demais componentes. O
documento básico para a compreensão da proposta da Promoção
da Saúde é a Carta de Ottawa, resultado de uma reunião
internacional sobre o tema, realizada naquela cidade no ano de
1986 (BRASIL, [199-?a]). O referido documento, redigido no estilo
“carta de princípios”, tem como enfoques centrais os aspectos
conceituais e operacionais da promoção da saúde, bem como a
ênfase na participação ativa do processo de promoção da saúde, propondo as estratégias das “políticas públicas saudáveis” e dos
“ambientes favoráveis à saúde”.
O enfoque na pobreza: não se trata de uma política explicitamente
preconizada pelo sistema OPAS/OMS, mas uma preocupação que
permeia seus documentos e que parece acentuar-se em anos mais
recentes. Ganha especial destaque no momento presente, quando
alguns outros organismos internacionais, como o Banco Mundial,
que, como já foi mencionado, parece estar assumindo progressiva e
alternativamente o papel de formulador de propostas de saúde para
os países periféricos (ALMEIDA, 1996). Nesta concepção, “pobreza”
é caracterizada, nos documentos oficiais dos referidos organismos,
por alguns aspectos comuns, a saber: habitação em áreas
geográficas mais ou menos definidas, existência peculiar de
segmentos vulneráveis, geralmente nos grupos maternos e infantis,
necessidade de ênfase preventiva na abordagem de seus
problemas e, finalmente, atuação do sistema de saúde através de
focalização de cuidados (MESA-LARGO, 1992). Tal estudo
menciona, por diversas vezes, a recomendação do Banco Mundial
de que o combate à pobreza pressupõe não só a implementação de
medidas de natureza econômica (geração de renda e emprego, por
exemplo), como também provisão adequada de serviços
assistenciais sociais básicos à população mais pobre, entre estes,
os de saúde. Esta parece ser a matriz fundamental das
recomendações que o documento oferece ao final, sob o título
genérico de “políticas contra a pobreza”, mediante fornecimento de
serviços sociais concentrados nos segmentos mais pobres,
incluindo a atenção primária à saúde, o saneamento básico, o
planejamento familiar, os programas nutricionais, a educação para a
saúde e a melhoria das condições de habitação.
O momento atual: coincidindo com a última Assembléia Geral da
OMS do século XX, foi lançado em Genebra o documento The
World Health Report 1999: making a difference (WHO, 1999 ), que
pode ser interpretado como a posição da entidade face aos desafios
internos e externos enfrentados, seja do ponto de vista político e
administrativo, seja como decorrência das várias transições
(paradigmática, epidemiológica, demográfica) que afetam a saúde
mundial. Ao lado das palavras de ordem tradicionais e da conclamação de esforços para a luta contra a malária e o
tabagismo, as tônicas deste documento são: (a) o aprimoramento
das informações em saúde visando o empowerment do público; (b)
a prática de uma vigilância epidemiológica global; (c) a elaboração
de normas e padrões internacionais; (d) o redobramento da atenção
a doenças ainda prevalentes ou fora de controle; (e) o exercício de
advocacy, principalmente em situações de êxodo, diáspora e
catástrofes; (f) o financiamento de atividades de pesquisa e
desenvolvimento de tecnologias em saúde de interesse das
populações mais pobres.
Perspectivas e cenários das reformas
em saúde
Em linhas muito gerais e sem dúvida simplificando didaticamente
o cenário, as evidências que a literatura apresenta sobre o tema das
perspectivas das reformas mostram uma marcante polarização. De
um lado, os críticos situados no Terceiro Mundo (dos quais, afinal,
não é fácil exigir neutralidade no trato da questão…), de filiação
marxista, tendendo à ortodoxia, particularmente na América Latina,
que vêem o futuro a partir de uma visão sombria e suspicaz. As
posições de Laurell, Arellana, Vianna, Faleiros, Luz, Eibenschutz,
Tetelboin, Granados-Toraño e muitos outros aqui compilados são
paradigmáticas. Mas não só nos países dependentes subsiste a
posição referida: Navarro, Terris, Bourdieu, Hobsbawn, autores de
filiação política e ideológica menos uniforme do que a dos latino-
americanos, engrossam o coro dos críticos ao neo-liberalismo
revisitado embutido nas reformas.
Mas há também um outro lado, que advoga a pertinência e, mais
do que isso, o caráter imperativo das reformas, sem as quais o
esfacelamento de qualquer ilusão de bem estar social se instalará,
como um Armageddon, a não ser que a humanidade seja salva pelo
compromisso com o ajuste estrutural. Esta é a posição defendida
nos documentos oficiais do Banco Mundial, por exemplo, mas
também pelos autores filiados às escolas macro-econômicas, sob a liderança intelectual de Friedman e outros, supostamente baseados
em Chicago.
Haverá outras possibilidades de interpretação quanto às
perspectivas e cenários da reforma dos sistemas de proteção
social? Certamente que sim. Contudo, a dimensão e os objetivos
presentes não permitem maior aprofundamento desta questão. Em
todo caso, serão apresentadas as posições de dois autores de
diferentes nacionalidades, filiação institucional e (provável) inserção
ideológica, que abrem caminhos para novos padrões de análise da
questão em pauta: Berlinguer e Saltman.
Berlinguer (1999) seria o legítimo representante de uma esquerda
européia aggiornata. Para ele, o impulso humanitário ainda é uma
força poderosa, o que não impede que se considere a presença no
cenário de outras forças, igualmente poderosas, mas não
necessariamente antagônicas à primeira, representando a
convergência entre o self-interest e o altruísmo. Da mesma forma,
visões mais utilitaristas, ou mais contratualistas, podem mostrar-se
capazes de inclinar-se diante de tal convergência. Na verdade,
aponta o autor, a saúde não se constitui apenas num bem individual,
mas sim em algo indivisível, o que é corroborado pelo fato de que as
pessoas mais saudáveis são aquelas que vivem em ambientes mais
eqüitativos e plenos de coesão social. A saúde não seria apenas o
resultado de um jogo de soma zero, ou um bem que apenas
necessitaria ser melhor distribuído – a eqüidade na saúde, lembra o
autor, equivaleria a um importante fator multiplicador.
Ainda segundo este autor, a questão da saúde não se reduziria a
seus termos científicos de mensuração, pois ela não pode ser
alcançada plenamente a não ser através de progresso cultural e
moral. Nesse aspecto, as décadas recentes mostraram um forte
progresso do pensamento bioético, em termos universais, com
conseqüências palpáveis na vida das pessoas, seja em termos
individuais ou coletivos, como por exemplo na promoção de
discussões sobre a comercialização de órgãos humanos e também
na “racionalização” do cuidado à saúde.
O outro autor aqui considerado, Saltman (1987), representaria um
pensamento liberal (no sentido que se dá a este termo no Estado
Unidos), de feição anglo-saxônica. Para ele, a questão das reformas em saúde é um tema a ser conduzido diante de determinados
balizamentos, por exemplo, buscando um equilíbrio entre damage to
existing levels of equity, de um lado, e as mudanças na organização
do provimento de cuidados e do próprio papel do Estado, de outro.
Almeja-se, assim, o que o autor chama de effectively redressed all
or most of the current inequities. O autor defende ainda que
questões inter-setoriais, como por exemplo o financiamento, e não
exatamente as questões internas do setor saúde, é que definem de
fato a iniqüidade que se verifica nos sistemas atuais de prestação
de cuidados. Sendo assim, adverte, “the central effort must be
placed elsewhere”. Isso não autorizaria, por certo, uma troca de
prioridades na ação, com o abandono da luta intra-setorial de
melhoria do sistema de cuidados e nem mesmo a abstenção da
responsabilidade pública na questão. Da mesma forma, a busca da
eqüidade não pode estar separada da eficiência e da efetividade
dos sistemas de saúde. Aliás, adverte Saltman, que os cidadãos em
geral e, particularmente os pacientes, sabem que programas inter-
setoriais, isoladamente, não substituem os serviços de saúde em
sua ação típica. Em termos práticos, reformas inter-setoriais têm seu
processo de condução demasiadamente hard, ao requererem
mudanças substantivas nos comportamentos lucrativos e ao afetar
interesses poderosos, resultando freqüentemente em fracassos
retumbantes.
Conclui o autor que uma política de saúde apropriada deve levar
em conta tanto os aspectos externos ao setor saúde como os
internos, de forma simultânea e não menos vigorosa,
transformando-se em instrumentos mutuamente complementares,
mais do que meras estratégias de aprimorar a eqüidade, tout court.
Assim se vê que ambos os autores convidam a pensar para além
dos paradigmas de mercado, deixando de lado alguns preconceitos,
inclusive ideológicos, ao levantar questões tais como o fundamento
ético e moral das reformas, a multiplicidade das questões que
produzem a saúde e a doença na sociedade humana, a
responsabilidade dos dirigentes, do cientistas e dos técnicos, a
questão da eqüidade, as escolhas sempre imperativas, e assim por
diante. Berlinguer coloca ingredientes filosóficos, bem como
fundamentos éticos e morais na discussão. Saltman lembra que as reformas são realmente necessárias, e até indispensáveis, para a
sobrevivência do que se construiu no século XX como bem-estar
social. Ambos, porém, alertam que é preciso estar atentos não
estritamente ao equilíbrio econômico dos sistemas, mas a questões
igualmente tangíveis, e de repercussão não menos deletéria, como
é o caso da ética e da eqüidade.
Enfim, o que poderia ser dito, como conclusão, a respeito
daquelas polaridades das políticas de saúde, bem expressas no
caso do Programa de Saúde da Família, objeto de aprofundamento
neste trabalho? Como, afinal se resolveria o embate entre o caráter
racionalizador e focal, nos moldes preconizados pelos organismos
internacionais financiadores de programas sociais no terceiro mundo
e uma política social pautada pelos princípios de eqüidade,
integralidade e universalidade? E ainda: tal política veria-se
sustentada por marcos ideológicos e conceituais gerados em
contextos estranhos à realidade brasileira, ou representaria um
processo legítimo de construção social de forma adequada ao
momento político dessa sociedade?
Sem maior pretensão de fornecer respostas cabais e definitivas
para os referidos questionamentos, talvez, abrindo apenas novas
perspectivas para aprofundamento, seguem algumas observações
para a conclusão deste capítulo.
1. O estudo das políticas sociais constitui um terreno movediço,
que muda de configuração rapidamente, autêntico marco de
uma Era de Incertezas e de Desmoronamento, marcada por
transições de diversa natureza: cultural, epidemiológica,
demográfica, política, paradigmática. Certezas neste campo
podem ser confortáveis, mas possuem poder explicativo
limitado face à própria natureza do objeto que pretendem
abarcar.
2. Além disso, nem tudo é linearidade e relação direta de causa e
efeito quando o tema é a relação entre formulação e
implementação das políticas sociais, a distância entre intenção
e gesto que fatalmente permeia tal processo. Os julgamentos
de valor que apontam sempre para o melhor dos mundos, ou
por outra, para o remédio amargo ou a morte…, ou ainda, as
teorias conspiratórias de diversas naturezas e matizes
ideológicos – nenhum desses caminhos leva ao desvelamento
do que se esconde por trás do que é apenas aparência e
fragmento, ao invés de ser o fato real e total. Assim, afirmativas
do tipo “as reformas do welfare state mostram a face perversa
do capitalismo” ou de que se está diante de mais um “consenso
internacional para ‘marketizar’ e ‘americanizar’ os sistemas de
saúde dos países pobres”, correm o risco de não possuírem
substância e se transformarem em mero jogo de palavras
pautado pelas ideologias.
3. A política social é sempre complexa e determinada de forma
múltipla, com seus componentes de legitimação, reprodução
econômica, mobilização social, racionalidades humanistas,
ideológicas, libertárias, partidárias, religiosas. A questão social
é, acima de tudo, um fato político entranhado em uma vasta
gama de mecanismos representativos, de ações estatais, do
produto das relações entre Estado, sociedade e mercado,
gerando dinâmicas próprias como as articulações entre público
e privado; direito e benefício; legitimação e conquista social;
mérito e universalização, entre outras. Simplificação,
linearidade e enquadramento em fórmulas pré-fixadas e
atemporais representam caminhos para o fracasso na
explicação do processo político, dentro do qual se inserem as
questões referidas no preâmbulo. A superação destes escolhos
pode se dar mediante uma abordagem dentro da qual as
políticas sejam discriminadas em termos não só de seus
fundamentos, conteúdos e orientações ideológicos e políticos,
mas também dentro das implicações resultantes das interações
e dos embates entre as forças políticas em cada momento
histórico.
4. Parafraseando Marx, é certo que exista o espectro de uma vaga
neoliberal rondando o mundo, travestido de ajuste estrutural, de
paradigma de mercado, de americanização perversa, de
desmonte do sistema de bem estar, de aliança tecnocrática
transnacional, de era do desmoronamento, de globalização,
enfim de tudo que é contrário aos interesses da maioria. É
preciso estar atento, contudo, para o fato de que não é este o
único movimento planetarizado neste final de século, pois
existem também demandas legítimas, não só de técnicos e
intelectuais, mas também da população, por sistemas de saúde
mais eficientes, menos onerosos, mais ágeis, mais equitativos e
participativos, com mais qualidade e direito de opção para o
usuário, com privilégio da atenção (primária) resolutiva, que
contemplem prioritariamente os mais pobres. Está em jogo,
enfim, também uma questão de direitos, não apenas formais,
mas palpáveis para o cidadão comum, concretizados na ponta-
da-linha e no dia-a-dia. Neste aspecto, é preciso “separar o joio
do trigo”, não atirando à vala comum das acusações à
perversidade neo-liberal o que na realidade constitui valor
legítimo, adequado à modernidade e às aspirações humanas
mais justas – uma globalização em sentido positivo (de direitos,
de qualidade, de eficiência, de ética), como fala Berlinguer. Da
mesma forma, se estamos em uma Era de Desmoronamento,
há quem vislumbre também uma Era dos Direitos, como Bobbio
(1992), na qual novas questões têm sido incorporadas ao
panorama das lutas e das reivindicações sociais, como por
exemplo, direitos sociais, ética, qualidade de vida, respeito à
natureza, desenvolvimento sustentável, respeito às minorias,
valorização das identidades divergentes. Algumas delas têm
sido incorporadas ao imaginário comum e até mesmo aos
discursos oficiais.
5. Estados hegemônicos e dependentes, ditames macro-
econômicos, ajuste estrutural, organismos transnacionais que
tendem a substituir os governos nacionais, comunidades
epistêmicas, são realidades inquestionáveis. Mas o cenário é
mais largo e mais profundo. Para apreendê-lo é preciso sair um
pouco da visão macro e estrutural que assombra parte da
intelectualidade ocidental, ainda portadora da herança
althusseriana. A ação política, o peso das tradições cívicas, a
capacidade de resistir de todos e de cada um, a criatividade e
as possibilidades instituíntes dos atores sociais, as
transformações da consciência coletiva – tudo isso faz pensar
que, por baixo do que parece ser irreversível e estático, há
movimentos que aqui e ali mostram sua irrupção e sua
capacidade de produzir mudança.
6. No caso da política de saúde no Brasil, o cenário presente seria
pessimista? As evidências indicam que não. Sem perder o
realismo, podese vislumbrar no momento atual de implantação
do SUS, com o grau de descentralização alcançado, a
institucionalização do controle social e a incorporação de novos
atores no cenário da saúde, que nem tudo é perversidade,
cooptação, americanização, compaixão pós-fordista para usar
algumas palavras-de-ordem de autores ligados a correntes de
pensamento afins. No caso do PSF, para se ater ao objeto
central deste trabalho, pode-se até suspeitar de que existem
embrionados certos “ovos de serpente”; mas com certeza essa
política apresenta, também, outras facetas que permitam
categorizá-la como pautada pelos princípios de eqüidade,
integralidade e universalidade, também sustentada
conceitualmente e ideologicamente por marcos construídos a
partir da realidade local (ou pelo menos do país), afigurando-se
como um processo legítimo formulado e implementado,
adequado ao momento político atual da sociedade brasileira.
7. Ainda com relação ao PSF: o conceito de Saúde da Família, no
Brasil, ainda está em formação. Mesmo na realidade brasileira
encontramse praticadas diversas acepções do Programa.
Quando a comparação é com as propostas internacionais (por
exemplo o General Practitioner britânico, o Gate-keeper ou o
Family Doctor dos EUA ou, ainda, o Médico de Família cubano)
o risco de equívoco é muito grande. Aliás, os casos americano
e cubano, embora radicalmente diferentes, são freqüentemente
tomados como os paradigmas sobre os quais se construiu o
programa brasileiro. Uma parte do engano em interpretar os
PSF como modelo gerado em situações externas, que se
pretenderia transplantar para a realidade brasileira, está,
justamente, em tentar aproximar propostas muito diferentes
entre si e também bastante divergentes daquela que
oficialmente vigora no país. Além disso, o processo de
avaliação da produção de impacto do programa no Brasil ainda
é muito incipiente, pelas próprias condições de implementação
do mesmo e pelo pequeno lapso de tempo decorrido desde que
o PSF formou massa crítica de experiências necessária para
tanto. Outro equívoco é supor que as metodologias de
avaliação utilizadas em outras partes do mundo (por exemplo,
na managed competition) dos EUA possam oferecer grandes
subsídios para avaliar os programas brasileiros de atenção
primária, entre eles o PSF.
8. Há novos cenários e novos atores em jogo, no Brasil e no resto
do mundo. As análises de formulação e implementação e,
particularmente, de reformas de políticas realizadas no início e
mesmo na primeira metade da década correm o risco de já
estarem desatualizadas, por não incorporarem novos aspectos
da realidade. O sistema de saúde, que até há poucos anos
voltava-se apenas para as populações urbanas vinculadas ao
mercado de trabalho, atinge hoje novos contingentes de
usuários: rurais, indígenas, minorias, portadores de
necessidades especiais, populações marginalizadas e tantos
outros. O PSF, com sua expansão marcante, com seus
componentes de eqüidade, integralidade e participação –
mesmo chocando-se contra tradições políticas, profissionais e
culturais desestabilizadoras – pode abrir mais um desses novos
cenários desconhecidos até poucos anos atrás e, da mesma
forma, revelar novos atores neles instalados.
9. É preciso evitar o risco de tratamento excessivamente
dicotômico das questões ora em pauta. O PSF não poderia
englobar, ao mesmo tempo, componentes emancipadores e
conservadores; integralizadores e restritivos; resolutivos e
apenas preventivos; transformadores e cosméticos; ser um
produto genuíno da criatividade brasileira e também objeto de
importação? O que pode transformá-lo nisso ou naquilo é o
modo como é implementado; a capacidade formuladora e crítica
de seus atores; as circunstâncias que o rodeiam; as tradições
políticas e institucionais; a história; a força da ação política e
das tradições comunitárias e, até mesmo, o concurso de fatores
“imponderáveis”, pelo menos para o grau de conhecimento do
momento.