Sem Pistas (Um Mistério de Riley Paige, Livro 1)

Capítulo 24

Já estava entardecendo quando Riley chegou a Glendive. Havia sido um longo dia e ela estava se sentindo desesperada. O tempo estava passando rápido demais, assim como qualquer possibilidade de encontrar alguma pista substancial.

Glendive era a oitava cidade em sua rota. Em todas as cidades, até agora, Riley tinha ido a lojas que vendiam brinquedos e bonecas e feito perguntas a quem quisesse falar com ela. Ela tinha certeza de que ela não tinha encontrado a loja pela qual ela estava procurando.

Ninguém em nenhuma das lojas se lembrava de ter visto as mulheres nas fotos que ela tinha lhes mostrado. Claro, as mulheres em questão eram semelhantes em idade e aparência a várias outras que os lojistas poderiam encontrar em qualquer semana. Para piorar a situação, nenhuma das bonecas que Riley viu nas vitrines lhe pareciam a provável inspiração para a disposição das vítimas. Quando ela entrou em Glendive, Riley teve uma estranha sensação de déjà vu. A rua principal parecia estranhamente com aquelas na maioria das outras cidades, com uma igreja de tijolos ladeada em um lado por um cinemas e por uma drogaria do outro. Todas aquelas cidades estavam começando a se misturarem em sua mente exausta.

Em que ela estava pensando? ELa se perguntou.

Na noite passada, ela ficou desesperada para dormir e tinha tomado tranquilizantes receitados. Não foi uma má idéia. Mas tomar, em seguida, umas duas doses de uísque havia sido imprudente. Agora ela estava com uma forte dor de cabeça, mas precisava continuar.

Quando ela estacionou o carro perto da loja que ela planejava averiguar, ela viu que a luz do dia estava diminuindo. Ela suspirou em desânimo. Ela tinha mais uma cidade e mais uma loja para verificar naquela noite. Precisaria de pelo menos três horas até ela poder voltar a Fredericksburg e pegar April na casa de Ryan. Quantas noites ela tinha se atrasado?

Ela pegou seu celular e discou o número da casa. Ela rezava com toda esperança que Gabriela iria responder. Em vez disso, ela ouviu a voz de Ryan.

"O que foi, Riley?" Ele perguntou.

"Ryan," Riley gaguejou, "eu sinto muito, mas-"

"Você vai se atrasar de novo," disse Ryan, terminando a frase. "Sim," disse Riley. "Sinto muito."

Um silêncio caiu.

"Olha, é realmente importante," Riley disse finalmente. "A vida de uma mulher está em perigo. Eu preciso fazer o que eu estou fazendo."

"Já ouvi isso antes," disse Ryan em um tom de desaprovação. "É sempre uma questão de vida e morte. Bem, vá em frente. Cuide disso. É só que eu estou começando a me perguntar por que você se preocupa em buscar April. Ela pode muito bem ficar aqui."

Riley sentiu a garganta apertar. Assim como ela temia, Ryan parecia estar se preparando para uma luta de custódia. E não era por nenhum desejo sincero de cuidar de April. Ele estava muito ocupado com sua vida para se preocupar com sua filha. Tudo o que ele queria era que Riley sofresse.

"Eu vou buscá-la," disse Riley, tentando firmar a voz. "Nós podemos falar sobre tudo isso mais tarde."

Ela desligou.

Então ela saiu do carro e caminhou uma curta distância até a loja - A Butique de Debbie era seu nome. Ela entrou e viu que o nome era um pouco presunçoso para uma loja que vendia basicamente mercadorias de marcas comuns.

Nada singular ou exclusivo aqui, ela percebeu.

Parecia improvável que era aquele lugar pelo qual ela estava procurando. A loja que ela tinha em mente tinha que ser, pelo menos, um pouco especial, um lugar que motivasse uma reputação boca-a-boca que atraísse clientes de cidades vizinhas. Ainda assim, Riley tinha que verificar aquele local para ter certeza absoluta.

Riley caminhou até o balcão, onde uma mulher alta, idosa, com óculos de lentes grossas e características que lembravam uma ave, estava no caixa.

"Eu sou a agente especial Riley Paige, FBI," ela disse, mais uma vez sentindo nua sem seu distintivo. Até agora, todos os funcionários estiveram dispostos a falar com ela sem ele. Ela esperava que essa mulher também.

Riley tirou quatro fotografias e as colocou em cima do balcão.

"Gostaria de saber se você já viu uma destas mulheres," disse ela, apontando para as imagens uma a uma. "Você provavelmente não se lembra de Margaret Geraty- ela teria vindo aqui há dois anos. Mas Eileen Rogers teria vindo aqui cerca de seis meses atrás, e Reba Frye teria comprado uma boneca umas seis semanas atrás. Esta última mulher, Cindy MacKinnon, teria estado aqui na semana passada."

A mulher olhou para as imagens de perto.

"Oh, querida," disse ela. "Meus olhos não são mais o que costumavam ser. Deixe-me dar uma olhada." Ela pegou uma lupa e examinou as fotos. Enquanto isso, Riley percebeu que

havia mais alguém na loja. Ele era um homem bastante caseiro, de estatura e estrutura medianas. Ele estava vestindo uma camiseta e uma calça jeans bem gasta. Riley poderia muito bem tê-lo esquecido se não fosse por um detalhe importante.

Ele estava carregando um buquê de rosas.

Aquelas rosas eram reais, mas a combinação de rosas e bonecas poderia sinalizar a obsessão de um assassino.

O homem não estava olhando para ela. Ele certamente a ouvira anunciar-se como sendo do FBI. Ele estava evitando o contato visual?

Foi então a voz da mulher se intrometeu.

"Eu acho que não vi nenhuma delas," disse ela. "Mas, então, como eu disse, eu não vejo nada bem. E nunca fui muito boa com rostos. Lamento não poder ajudar mais."

"Está tudo bem," disse Riley, colocando as fotos de volta em sua bolsa. "Obrigada pela sua atenção." Ela virou-se para olhar novamente para o homem, que estava olhando para uma prateleira nas proximidades. Seu pulso acelerou.

Podia definitivamente ser ele, ela pensou. Se ele comprar uma boneca, saberei que é ele.

Mas não adiantava ficar ali parada e observá-lo. Se ele era culpado, ele provavelmente não se entregaria. Ele podia acabar escapando dela.

Ela sorriu para a lojista e saiu.

Do lado de fora, Riley caminhou uma pequena distância pelo quarteirão e ficou esperando. Apenas alguns minutos se passaram até que a porta da loja se abriu e o homem saiu. Ele ainda estava segurando as rosas em uma mão. Na outra, segurava um saco de mercadoria recém-comprada. Ele se virou e começou a caminhar pela calçada, se afastando de Riley.

Tomando passos largos, Riley andou atrás dele. Ela avaliou seu tamanho e estrutura. Ela era um pouco mais alta do que ele e, possivelmente, um bom bocado mais forte. Ela era provavelmente mais bem treinada. Ela não iria deixá-lo fugir.

Assim que ele passou por um beco estreito, o homem deve ter ouvido passos atrás dele. Ele virou-se de repente e olhou para ela. Ele deu um passo para o lado, como se quisesse sair de seu caminho.

Riley empurrou-o de lado para o beco - empurrou-o com força e brutalidade. O espaço era estreito, sujo e escuro.

Assustado, o homem deixou cair o pacote e as rosas. As flores se espalharam por todo o pavimento. Ele levantou o braço como se para afastá-la.

Ela pegou este braço e o torceu atrás das costas dele, empurrando seu rosto contra uma parede de tijolos.

"Eu sou a agente especial Riley Paige, FBI," ela retrucou. "Onde você está prendendo Cindy MacKinnon? Ela ainda está viva?"

O homem estava tremendo da cabeça aos pés.

"Quem?" Ele perguntou, sua voz tremendo. "Eu não sei do que você está falando."

"Não brinque comigo," Riley retrucou, sentindo-se mais nua do que nunca sem seu distintivo e especialmente sem a arma. Como ela deveria prender esse cara sem sacar uma arma? Ela estava muito longe de Quantico e sequer tinha um parceiro para ajudá-la.

"Senhora, eu não sei o que é isso tudo," disse o homem, explodindo em lágrimas. "Para que estas rosas?" Riley perguntou. "Paraquem são?"

"Minha filha!" O homem gritou. "Seu primeiro recital de piano é amanhã."

Riley ainda estava segurando-o pelo braço direito. A mão esquerda do homem estava achatada contra a parede. Riley, de repente, notou algo que não tinha lhe chamado a atenção até agora.

O homem estava usando uma aliança de casamento. Ela tinha certeza de que o assassino não era casado.

"Recital de piano?" - disse ela.

"Dos estudantes da Senhora Tully," ele gritou. "Você pode perguntar a qualquer um na cidade." Riley soltou um pouco seu aperto.

O homem continuou, "eu comprei-lhe rosas para celebrar. Para quando ela fizer a reverência. Comprei-lhe uma boneca também."

Riley soltou o braço do homem e caminhou até onde ele tinha deixado cair o pacote. Ela o pegou e puxou seu conteúdo.

Era uma boneca, tudo bem - uma daquelas bonecas adolescentes que sempre a ofenderam e a perturbaram, todas sensualizadas, com lábios carnudos e seios avantajados. Mas, mesmo sendo apavorante daquele jeito, ela não parecia em nada com o tipo de boneca que ela tinha visto perto de Daggett. Essa boneca era para uma garota. Assim como a boneca que ela tinha visto na foto de Cindy MacKinnon e sua sobrinha - cheia de babados, com cabelos dourados e vestida de rosa.

Ela pegou o homem errado. Ela ofegava.

"Sinto muito," ela disse ao homem. "Foi um engano. Sinto muito, muito mesmo."

Ainda tremendo de choque e confusão, o homem começou a apanhar as rosas. Riley se inclinou para ajudá-lo.

"Não! Não!" O homem exclamou. "Não me ajude! Afaste-se! Apenas - fique longe de mim!"

Riley se virou e saiu do beco, deixando o homem desesperado recolhendo as rosas e a boneca de sua filha. Como ela podia deixar isto acontecer? Por que ela chegou tão longe? Por que ela não notou o anel de casamento do homem do momento em que ela o viu?

A resposta era simples. Ela estava exausta e sua cabeça estava explodindo. Ela não estava pensando direito.

Enquanto caminhava aturdida pela calçada, um sinal de neon de um bar chamou sua atenção. Ela queria uma bebida. Ela sentiu como se precisasse de uma bebida.

Ela entrou no lugar mal iluminado e sentou-se ao bar. O barman estava ocupado, servindo um outro cliente. Riley perguntou o que o homem que ela tinha acabado de abordar estaria fazendo no momento. Será que estava ligando para a polícia? Ela estava prestes a ser presa? Isso seria certamente uma amarga ironia.

Mas ela achou que o homem provavelmente não iria chamar a polícia. Afinal de contas, ele teria dificuldade em explicar o que tinha acontecido. Ele poderia até se sentir constrangido por ter sido atacado por uma mulher.

De qualquer forma, se ele tivesse chamado a polícia, e eles estivessem a caminho para buscá-la, ele não iria fugir. Se ela precisasse, ela enfrentaria as conseqüências de suas ações. E talvez ela merecesse ser presa. Ela se lembrou de sua conversa com Mike Nevins, como ele tinha direcionado sua atenção para seus próprios sentimentos de inutilidade.

Talvez eu esteja certa em sentir-me inútil, ela pensou. Talvez tivesse sido melhor se Peterson tivesse me matado.

O barman deu um passo em direção a ela. "O que você vai querer, senhora?" Ele perguntou.

"Um bourbon com gelo," disse Riley. "Faça duas doses." "Já está vindo," disse o barman.

Ela lembrou a si mesma que não era seu tipo de coisa beber no trabalho. Sua recuperação agonizante de TEPT foi marcada por episódios ocasionais de intensa bebedeira, mas ela pensou que isso tinha ficado para trás.

Ela tomou um gole. Era reconfortante sentir a bebida descendo.

Ela ainda tinha mais uma cidade para visitar, e pelo menos mais uma pessoa para entrevistar. Mas ela precisava de algo para acalmar os nervos.

Bem, ela pensou com um sorriso amargo, pelo menos eu não estou oficialmente de plantão.

Ela terminou a bebida rapidamente, em seguida, pensou, mas se convenceu a não pedir mais uma. A loja de brinquedos na cidade seguinte iria fechar em breve e ela tinha que chegar lá imediatamente. O tempo estava se esgotando para Cindy MacKinnon - se é que ainda não tinha acabado.

Quando ela saiu do bar, Riley sentiu que estava caminhando na beira de um abismo conhecido. Ela pensava que havia deixado todo aquele horror, dor e auto-aversão para trás. Será que estavam alcançando-a de novo?

Por quanto tempo mais, ela se perguntava, ela poderia escapar de sua atração fatal?