Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer

Prefácio

 

A filosofia é uma área de estudos vastíssima, com uma produção bibliográfica ímpar em sofisticação e quase ininterrupta desde o séc. V a.C. No séc. XX, sobretudo depois da segunda guerra mundial, a filosofia conheceu um incremento muitíssimo acentuado, não apenas na quantidade, mas também na qualidade, precisão e sofisticação dos trabalhos publicados; ao mesmo tempo, expandiu-se imenso, incluindo mais e mais áreas especializadas de territórios cada vez mais díspares — filosofia da economia, da religião e da arte, epistemologia da fé e do testemunho, filosofia da física e da biologia, ética aplicada e filosofia política, lógica filosófica, filosofia da linguagem e metafísica da modalidade (que estuda os modos da verdade: a contingência, a necessidade e a possibilidade).

Apresentar a filosofia ao grande público, em poucas páginas e sem a caricaturar, é um desafio considerável. A solução encontrada foi escolher apenas algumas áreas e apresentá-las com o pormenor suficiente para o leitor as poder ver a uma luz favorável e pensar um pouco por si. Se esse trabalho foi bem feito, o leitor sentir-se-á encorajado a conhecê-las melhor, e a reflectir mais profundamente, deitando mão das sugestões de leitura no final do livro.

No meu livro anterior, Filosofia em Directo (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011), resolvi não incluir quaisquer referências históricas; neste, pelo contrário, fiz questão de as incluir. Em ambos, contudo, viso mostrar que o cerne da filosofia é a discussão paciente, criativa e rigorosa de problemas que só filosoficamente podem ser fecundamente abordados.

A ordem dos capítulos não obedeceu à cronologia, mas antes ao grau de abstracção dos temas abordados. Assim, começamos com Descartes, recuamos a Sócrates, avançamos para Aristóteles, saltamos para o séc. XX, recuamos a Kant e ao séc. XVIII e terminamos no séc. XI, com Anselmo.

Os primeiros dois capítulos ajudam a esclarecer a natureza da filosofia e põem em causa algumas incompreensões comuns. Os dois capítulos seguintes abordam temas cuja importância é óbvia para qualquer leitor. Depois, os capítulos tornam-se progressivamente mais exigentes, quer pelo grau de abstracção do que está em causa, quer pela sofisticação do raciocínio envolvido.

Esta organização cronológica tem a vantagem de contrariar uma leitura comum da história da filosofia, em que se pensa que Kant superou ou ultrapassou Aristóteles, sendo Kant por sua vez superado por Quine, por exemplo. Deste ponto de vista, a história da filosofia é uma sucessão de resultados definitivos, à imagem da história da ciência — ou do que se pensa, algo superficialmente, que é a história da ciência.

Ora, a história da filosofia não é assim. Isto porque não temos em filosofia o género de resultados consensuais que temos na ciência. A filosofia é fundamentalmente especulação sistemática e rigorosa, e não apresentação de resultados consensuais. Foi por essa razão que Kant defendeu que não se pode aprender filosofia como se aprende física. Se aprender física for uma questão de aprender os resultados consensuais desta área, então não podemos aprender filosofia como aprendemos física, porque não há em filosofia resultados consensuais; mas podemos aprender a fazer filosofia. Este livro é um primeiro passo nessa direcção.

Agradeço a Jorge Reis-Sá a ideia para escrever este livro, e à Bizâncio a disponibilidade para a sua publicação. A Iago Bozza Francisco, Matheus Silva Martins, Luiz Helvécio Marques Segundo, Faustino Vaz, José Carlos Soares, Artur Polónio, Sagid Salles Ferreira, Rodrigo Alexandre de Figueiredo, Aires Almeida e Sérgio R. N. Miranda agradeço a leitura atenta, as objecções e as sugestões, que me permitiram melhorar sobremaneira uma primeira versão do texto.

A Rolando Almeida, além da leitura e dos comentários, agradeço também a preciosa ajuda com as traduções portuguesas citadas, que em dois casos foram ligeiramente adaptadas, para benefício sobretudo dos leitores mais jovens. Agradeço ainda, e muito, os comentários e sugestões de Teresa Mouzinho, que me permitiram introduzir inúmeras alterações que esclarecem, espero, as perplexidades do leitor comum.

Tenho uma dívida de gratidão mais geral para com a Universidade Federal de Ouro Preto e o seu Departamento de Filosofia, que me têm proporcionado um excelente ambiente para estudar e escrever, e onde é um privilégio ser professor. Espero não desmerecer a maravilhosa oportunidade que me é dada todos os dias por este departamento desta universidade e nesta cidade.

D ESIDÉRIO MURCHO

Ouro Preto, 14 de Agosto de 2011