Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer
7. Maior do que o qual nada pode ser pensado
CAPÍTULO 7
MAIOR DO QUE O QUAL NADA PODE
SER PENSADO
M uitos viajantes se cruzaram certamente com ele, sem fazer ideia da importância que viria a ter na filosofia europeia. Nascido em 1033, abandonou a casa do pai, com quem nunca se deu bem, depois da morte da mãe. E foi assim que em 1056, com apenas vinte e três anos, Anselmo — mais tarde Bispo da Cantuária, canonizado em 1163 — se entregou a uma viagem de mais de setecentos quilómetros, de Aosta, na sua Itália natal, em direcção à actual França.
O seu objectivo era algo indefinido, o que não é invulgar quando se tem a sua idade: oscilava entre a atracção que sentia pela vida monástica e por uma carreira intelectual. Mas as duas opções não eram incompatíveis: no seu tempo, uma parte importante da vida intelectual ocorria sob a protecção dos muros dos mosteiros, com as suas ricas bibliotecas. E era no mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, que estava o italiano Lanfranc (1005-1089), famoso pela sua sapiência e ensino, de quem Anselmo pretendia receber instrução. Pôs, por isso, pés a caminho em direcção a Bec e a Lanfranc.
Idade das trevas?
O mundo em que Anselmo vivia era tumultuoso. Sob a aparente complacência dos ritmos feudais escondia-se um conturbado reajuste político entre reis, imperadores e poderes eclesiásticos. Dois anos antes de Anselmo pôr pés a caminho, o papa católico Leão IX e o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, tinham-se excomungado entre si, marcando assim o grande cisma cristão, que dura até hoje, entre a igreja católica e a ortodoxa.
Além disso, há muito que tinham desaparecido os centros de investigação da Antiguidade grega e romana. As escolas de filosofia gregas tinham sido extintas há cerca de quinhentos anos; a Biblioteca de Alexandria, que era igualmente um centro de estudos, e não apenas um repositório de livros, fora destruída há trezentos anos.
Das cinzas da civilização clássica europeia, começavam a despontar os grandes centros de estudo da Europa medieval. A primeira universidade propriamente dita, com diferentes áreas de estudo, foi fundada na Itália, em Bolonha, em 1088, quando Anselmo tinha cinquenta e cinco anos. Seguiu-se-lhe a Universidade de Paris, fundada primeiramente em 1150, e a Universidade de Oxford, pouco depois.
Porque se aceita acriticamente a rejeição da cultura medieval promovida pelos modernos, a investigação filosófica e científica ocorrida desde o tempo de Anselmo até ao despontar do mundo moderno, por volta do séc. XVII, é muitas vezes negligenciada. Em 1328, por exemplo, o Doctor Profundus, Thomas Bradwardine (1290-1349), apresentou o primeiro tratamento matemático do movimento, no Tratado das Proporções ou sobre as Proporções das Velocidades no Movimento; e João Buridano (1300-1358) desenvolveu a teoria do ímpeto, crucial para o desenvolvimento da física. O primeiro modelo heliocêntrico do universo, por outro lado, não é um produto da cultura moderna: foi proposto por Nicolau Oresme (1320-1382). E as cartas de navegação, que teriam sido muitíssimo úteis aos gregos e romanos da Antiguidade, surgiram igualmente em plena idade média, em 1270.
Anselmo em busca da compreensão
Anselmo teve um papel crucial no desenvolvimento da filosofia medieval, sendo considerado o primeiro escolástico — termo que ainda hoje, nas zonas mais débeis da cultura, é entendido pejorativamente, por influência dos modernos. Insistindo na importância da expressão clara e do rigor, Anselmo afastou-se definitivamente do misticismo neoplatónico, na altura dominante, com origem em Plotino (205-270).
Chegado a Bec, em 1059, Anselmo fez os seus votos monásticos e foi como monge que escreveu as obras que viriam a torná-lo influente e famoso durante séculos: Monologion (monólogo) e Proslogion (termo inventado por Anselmo, que afirma significar «discurso apresentado a outrem»).
O estilo das duas obras é bastante diferente, apesar de em ambos os casos se tratar de descobrir as razões a favor da crença em Deus. Porém, enquanto a primeira é uma argumentação directa, sem adornos, a segunda é como que uma oração, uma súplica a Deus para que este permita ao crente compreender a sua fé. Os títulos alternativos das duas obras são reveladores: à primeira deu Anselmo o título «Cânone para meditar sobre as razões da fé»; e à segunda «A fé em busca da compreensão», uma expressão que colheu de Agostinho.
O argumento ontológico
Os medievais conheciam o argumento a favor da existência de Deus que Anselmo apresentou na segunda das obras mencionadas simplesmente como argumentum Anselmi: o argumento de Anselmo. Mas Kant chamou-lhe argumento ontológico, designação que se tornou comum.
O termo «ontologia»deriva dos termos gregos to on e ontos que significam aproximadamente «o que algo é» ou «o ser de algo». O adjectivo «ontológico» é usado em filosofia para falar da natureza última das coisas, e o substantivo designa uma subdisciplina filosófica que trata de estabelecer as categorias mais gerais da realidade.
O argumento ontológico tem esta designação porque parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser hipotético a que chamamos Deus, e conclui, nessa base apenas, e sem apelar para quaisquer outros factos sobre a realidade, que esse ser existe. Este argumento contrasta assim com dois outros grupos de argumentos tradicionais a favor da existência de Deus, denominados «argumentos do desígnio» e «argumentos cosmológicos».
O termo «cosmologia» poderá ser surpreendente neste contexto, se pensarmos apenas na cosmologia científica do séc. XX. Mas a cosmologia, enquanto teoria sobre a estrutura geral do cosmos, existia muito antes da recente cosmologia científica. Os argumentos cosmológicos a favor da existência de Deus pretendem concluir que Deus existe com base em certos aspectos da estrutura geral do cosmos.
Tanto os argumentos do desígnio como os cosmológicos partem de alguns factos sobre a realidade espácio-temporal e concluem que sem a hipótese de Deus não se consegue explicá-los adequadamente. Precisamente porque estes argumentos incluem informações empíricas, são denominados argumentos a posteriori. Isto contrasta com os argumentos ontológicos, cujas premissas podem ser conhecidas exclusivamente com base no pensamento, recebendo por isso a designação de argumentos a priori.
Redução ao absurdo
Há diferentes versões de argumentos ontológicos a favor da existência de Deus. A versão de Anselmo é um tipo de raciocínio já conhecido na Antiguidade grega a que se chama redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, em latim. Raciocinar ou argumentar por redução ao absurdo é partir do oposto do que queremos estabelecer e mostrar que dessa hipótese se conclui correctamente uma contradição: um absurdo. O que fizemos foi mostrar que aceitar tal hipótese obrigaria a aceitar uma contradição. Se agora quisermos rejeitar a contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida.
O cogito de Descartes, que visitámos brevemente no Capítulo 1, pode ser apresentado como uma redução ao absurdo. Aceite-se a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas: há um génio maligno que me engana constantemente. Daqui conclui-se correctamente que é falsa a minha crença de que existo. Mas para o génio maligno me poder enganar, para que eu tenha crenças falsas, é preciso que eu exista. Logo, é verdadeira a minha crença de que existo. Eis a contradição: fomos levados a concluir que uma mesma crença («eu existo») é verdadeira e falsa. Se agora quisermos rejeitar esta contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida: a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas, sendo produzidas por um génio maligno que me engana constantemente.
Eis outro exemplo deste género de raciocínio. Imagine o leitor que o seu amigo crê que não há verdades: tudo é ilusão. Perplexo com tal posição, o leitor começa por aceitá-la, procurando mostrar que dela se conclui correctamente uma contradição, para então a negar. E isso não é difícil fazer, pois se não há verdades, é verdadeiro que não há verdades. Eis a contradição: por um lado não há verdades, mas por outro é verdadeiro que não há verdades. Para rejeitar esta contradição, o leitor nega a hipótese de partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e conclui que há verdades.
Refutar o insensato
Anselmo procura mostrar que o insensato bíblico, que diz no seu coração que Deus não existe (Salmos 14 e 53), também se contradiz, como o amigo do leitor. A natureza de Deus é tal que a hipótese da sua inexistência é contraditória. E que natureza é essa? Deus, considera Anselmo, é um ser de tal modo grandioso que não conseguimos conceber outro que seja ainda mais grandioso.
Anselmo formula esta ideia usando uma expressão que ficou famosa: Deus é o ser maior do que o qual nada pode ser pensado. Contudo, Anselmo não tem em mente a grandeza física, mas antes a grandiosidade, excelência ou esplendor. A ideia é que Deus é o mais excelente dos seres, ou o mais grandioso; tão grandioso, que a hipótese da sua inexistência implica uma contradição:
«Assim, mesmo o insensato tem de admitir que algo maior do que o
qual nada pode ser pensado existe pelo menos no seu entendimento,
dado que ele o entende quando o ouve, e o que é entendido existe no
entendimento. E certamente que aquilo maior do que o qual nada
pode ser pensado não pode existir apenas no entendimento. Pois se
existisse apenas no entendimento, poder-se-ia pensar que existia na
realidade também, o que seria ainda maior. Logo, se aquilo maior do
que o qual nada pode ser pensado existe apenas no entendimento,
então a própria coisa maior do que a qual nada pode ser pensado é
algo maior do que o qual algo pode ser pensado. Mas isto é
claramente impossível. Logo, não há dúvida de que o maior do que
o qual nada pode ser pensado tanto existe no entendimento como na
realidade». (Proslogion, Cap. 2, p. 82)
O texto de Anselmo é maravilhosamente claro, preciso e directo, mas sofisticado. Acompanhemos o seu pensamento, passo a passo, com a mesma solicitude com que Anselmo percorreu mais de setecentos quilómetros em busca da compreensão.
O insensato admite que as pessoas pensam em Deus, ainda que este não exista realmente. Isto significa que Deus existe no pensamento ou entendimento, ainda que não exista na realidade. O mesmo se pode dizer de qualquer ficção: é algo que existe no pensamento ou entendimento do seu criador — um romancista, por exemplo — mas não existe na realidade. E é isto que o insensato pensa que é Deus: uma mera ficção.
Contudo, Deus é por definição aquele ser, seja ele qual for, exista ou não, que é tão grandioso que é impossível conceber outro que seja ainda mais grandioso. E o insensato aceita também esta ideia — apenas continua a insistir que esse ser é uma fantasia, não existindo na realidade.
Ora, é aqui que Anselmo desfere o seu golpe mortal. Se Deus existisse apenas no entendimento, poderia haver outro ser, exactamente como ele, mas que existisse também na realidade. Este ser seria certamente mais grandioso do que Deus, pois teria existência real, o que é certamente uma excelência.
Se virmos bem, chegámos a uma contradição. Isto porque admitimos que Deus é por definição o ser mais grandioso do que o qual nenhum pode ser pensado, e depois pensámos num ser mais grandioso do que Deus. Para negar esta contradição, rejeitamos a hipótese de partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, não existe. Logo, Deus existe.
Duas objecções clássicas
Gaunilo, um monge beneditino da abadia de Marmoutier, contemporâneo de Anselmo, apresentou uma objecção famosa ao argumento ontológico, a que Anselmo responde e que fez questão de ver publicada juntamente com a sua obra. Gaunilo argumenta que com o mesmo tipo de raciocínio alguém poderia defender que existe a ilha mais perfeita, dado que esta pode ser pensada, e não seria a mais perfeita se existisse apenas no pensamento. Mas esta ilha não existe; logo, conclui Gaunilo, perante este argumento «não saberia quem devo pensar que é mais insensato: eu próprio, se lhe conceder tal conclusão, ou ele, se pensar que estabeleceu a existência de tal ilha» (Em Nome do Insensato, § 6, p. 102).
Anselmo, todavia, tem uma resposta para esta objecção: é que nem tudo é tal que seja o mais grandioso do que o qual nada possa ser pensado. Um exemplo torna isto claro: não há um número maior do que o qual nenhum possa ser pensado, pois para cada número podemos sempre pensar num número maior. Do mesmo modo, não há uma ilha mais perfeita do que a qual nenhuma se possa pensar, pois podemos sempre pensar numa mais perfeita do que a anterior. O conceito de Deus, contudo, é precisamente o de o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado. Logo, a objecção de Gaunilo não é tão obviamente bem-sucedida como pode parecer à primeira vista.
Se insistirmos que nada nos garante que Deus seja o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, Anselmo tem também uma boa resposta: o que está em causa é mostrar que existe o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, seja ele ou não a divindade cristã. Depois de provada a sua existência, poderemos então tentar descobrir se os atributos do ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado correspondem ou não aos atributos tradicionais da divindade cristã.
Outro género de objecção inspira-se em Kant que, na Crítica da Razão Pura, obra publicada pela primeira vez em 1781, procura refutar a versão de Descartes e Leibniz do argumento ontológico. A objecção baseia-se na ideia de que a existência não é um predicado genuíno, como «é grandioso» ou «é ateniense». Nestes dois casos, trata-se de exprimir uma propriedade que um existente pode ou não ter. Mas a existência não é uma propriedade que um existente pode ou não ter, dado que todo o existente existe; a existência é, ao invés, a condição de possibilidade de toda a predicação. Logo, o predicado da existência não pode conferir grandiosidade, dado não ser sequer um predicado genuíno, no mesmo sentido em que «é ateniense» é um predicado.
Contudo, mesmo que a existência não seja um predicado genuíno (o que está longe de ser pacífico), desta tese não poderá resultar que a afirmação banal «O Pai Natal não existe, mas poderia ter existido» seja destituída de significado. Esta afirmação tem obviamente significado e diz algo muito simples: que, tal como as coisas são, o Pai Natal não existe, mas poderia ter existido se as coisas fossem diferentes. Podemos ter razões para pensar que o Pai Natal não poderia ter existido; mas mesmo para pensar tal coisa temos de aceitar que a afirmação não é destituída de significado. Ora, nesse caso, também a afirmação de que Deus não poderia não existir não é destituída de significado. E isso, como veremos, é tudo o que precisamos para apresentar uma versão plausível do argumento ontológico de Anselmo.
A possibilidade de um ser necessário
Independentemente de as objecções clássicas ao argumento de Anselmo serem bem-sucedidas ou não, podemos hoje reconstruir o seu argumento de um modo que o torne imune a elas. Nesta versão, abandonamos dois aspectos da argumentação de Anselmo. Primeiro, não usaremos um argumento por redução ao absurdo. Segundo, substituiremos o conceito de pensável pelo conceito de possível.
Um existente necessário é algo que existe e não poderia não ter existido. Isto contrasta com os existentes contingentes, como os seres humanos ou os rios: estes existem mas poderiam não ter existido. Ora, Deus é tradicionalmente considerado um existente necessário, e o ateu parece poder concordar com a ideia de que se Deus existisse, seria um existente necessário; acontece apenas que não existe, pensa o ateu. De modo que o ateu parece poder conceder a seguinte premissa: é possível que Deus exista necessariamente. Isto corresponde aproximadamente à ideia de Anselmo de que mesmo o insensato concede que é capaz de pensar no ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado (isto é, tal ser é possível), ainda que não exista.
Se o ateu conceder tal coisa, contudo, está em maus lençóis: pois há razões para pensar que é correcto concluir imediatamente, sem usar quaisquer outras premissas, que Deus existe. Esta versão do argumento de Anselmo é incrivelmente simples:
É possível que Deus exista necessariamente.
Logo, Deus existe.
Como responder a este argumento? Será correcto? Se o for, e se aceitarmos a premissa, o que à primeira vista parece razoável, temos uma demonstração tão certa de que Deus existe quanto um cálculo geométrico.
Mundos possíveis
Compreende-se e discute-se melhor esta versão do argumento de Anselmo se usarmos o conceito de mundos possíveis, que foi inicialmente explorado por Leibniz. Este conceito tornou-se muitíssimo importante na filosofia contemporânea, tendo recebido tratamentos bastante sofisticados em lógica. Mas a ideia crucial pode ser entendida sem dominar a lógica.
Há várias concepções de mundo possível. Para compreender uma das mais promissoras, considere-se primeiro o modo como as coisas são: Sócrates nasceu em Atenas e ontem choveu numa cidade da Síria. Estes acontecimentos são modos de ser das coisas: as coisas são desse modo.
Quando as coisas não são de um dado modo, mas poderiam sê-lo, estamos a falar do que poderia ter ocorrido mas não ocorreu. Por exemplo, Sócrates poderia ter nascido no Egipto, mas não nasceu; ontem poderia não ter chovido numa cidade da Síria, mas choveu. Esses são modos de ser das coisas porque as coisas poderiam ser desse modo, mas não são.
É aos modos de ser das coisas que chamamos «mundos possíveis», o que inclui o modo como as coisas são e os muitos modos como as coisas poderiam ter sido mas não são.
Ao modo como as coisas são chamamos «mundo efectivo»; aos modos como as coisas poderiam ter sido, mas não são, chamamos «mundos meramente possíveis». O mundo efectivo é um dos mundos possíveis, só que não é meramente possível: além de possível, é efectivo.
Por «mundo» não entendemos, pois, o planeta Terra, e nem sequer o universo (com tudo o que contém, como árvores e rios, estrelas e átomos), mas antes um modo de ser das coisas. Assim, ao afirmar que Sócrates poderia ter nascido no Egipto apesar de ter nascido em Atenas, estamos a falar de dois modos de ser de Sócrates: um modo como Sócrates poderia ter sido mas não é, e um modo como ele é.
Podemos agora traduzir os conceitos de contingência, possibilidade e necessidade na linguagem dos mundos possíveis e vice-versa:
— «Sócrates nasceu contingentemente em Atenas» quer dizer, na linguagem dos mundos possíveis, que no modo como as coisas são, no mundo efectivo, Sócrates nasceu em Atenas, mas há modos como as coisas poderiam ter sido, outros mundos possíveis, em que Sócrates nasceu noutra cidade.
— «Sócrates poderia ter nascido no Egipto» quer dizer que há pelo menos um modo como as coisas poderiam ter sido, ou seja, um mundo possível, em que Sócrates nasceu no Egipto.
— «Sócrates é necessariamente um ser humano» quer dizer que ele é um ser humano em todos os mundos possíveis em que existe.
— «Sócrates é um existente contingente» quer dizer que Sócrates existe no mundo efectivo, mas não em todos os mundos possíveis.
Assim, afirmar que Deus é um existente necessário é afirmar que Deus existe em todos os mundos possíveis. Deus contrasta com os existentes contingentes — como o leitor e eu. Nós somos existentes contingentes porque, apesar de existirmos, poderíamos não ter existido, ou seja, há vários mundos possíveis em que não existimos.
Ora, parece razoável que o ateu conceda que poderia existir um ser, Deus, que existisse em todos os mundos possíveis, apesar de tal ser não existir. Contudo, se o ateu aceitar isto, o argumento anselmiano conclui imediatamente que Deus existe. Será este argumento correcto? Se for possível que algo exista em todos os mundos possíveis, conclui-se correctamente que existe no mundo efectivo?
Note-se que esta última pergunta é diferente da pergunta «se algo existe em todos os mundos possíveis, conclui-se correctamente que existe no mundo efectivo?» Esta última pergunta tem uma resposta banal: sim, se algo existe em todos os mundos possíveis, então existe também no mundo efectivo, dado que este é um dos mundos possíveis.
A pergunta que nos interessa não é esta; o que queremos saber é se da possibilidade de algo existir em todos os mundos possíveis se conclui correctamente que existe no mundo efectivo. Esta é a pergunta que corresponde ao argumento anselmiano.
Reiterações modais
O que está em causa no argumento anselmiano é a reiteração ou repetição do que se chama em filosofia «operadores modais». Os operadores modais são advérbios como «necessariamente», «contingentemente» ou «possivelmente». Ora, no que respeita aos conceitos de necessidade, contingência e possibilidade, ocorre algo curioso com o espírito humano: apesar de nos casos mais simples, mesmo sem qualquer formação filosófica, conseguirmos raciocinar correctamente, nos casos mais complexos ficamos à deriva. É como o que acontece com a multiplicação: toda a gente multiplica quase automaticamente, de cabeça, 5 com 3, mas para multiplicar 237 com 1623 já temos de recorrer ao lápis e ao papel, ou a uma calculadora.
No caso dos operadores modais, é fácil ver que é correcto concluir que Sócrates era humano partindo da premissa de que ele era necessariamente humano; e é fácil ver que é correcto concluir que Sócrates era possivelmente ateniense da premissa de que ele era ateniense. No primeiro caso, é óbvio que a verdade se conclui correctamente da necessidade; no segundo, que a possibilidade se conclui correctamente da verdade.
Também é óbvio que a necessidade não se conclui correctamente da verdade, nem esta da possibilidade. Isto porque, no primeiro caso, não se conclui correctamente que Sócrates era necessariamente ateniense do simples facto de ele ser ateniense — dado que talvez o tenha sido contingentemente. Quanto ao segundo caso, não se conclui correctamente que Sócrates era egípcio da possibilidade de o ter sido — dado que apesar de ser possível que tivesse nascido no Egipto, daí não se conclui correctamente que nasceu de facto nesse país.
Assim, perante alguns raciocínios que envolvem conceitos modais — os conceitos de necessidade, possibilidade e contingência — sabemos dizer, mesmo sem formação filosófica, se acaso são correctos ou não. Contudo, quando reiteramos ou repetimos os conceitos modais ficamos perplexos e sem saber o que pensar. Será correcto concluir que algo é necessário partindo da premissa de que é possível que seja necessário? E será correcto concluir que algo é necessariamente necessário da premissa de que é necessário?
A reiteração de conceitos modais torna-se mais compreensível recorrendo à linguagem dos mundos possíveis. Afirmar que é possível que Sócrates seja ateniense é afirmar, na linguagem dos mundos possíveis, que há pelo menos um mundo possível, seja ou não o mundo efectivo, em que ele é ateniense; e afirmar que é necessário que seja possível que Sócrates seja ateniense?
Esta última afirmação torna-se mais compreensível quando vemos que é equivalente a afirmar que em todos os mundos possíveis é possível que Sócrates seja ateniense. Mas que quer isto dizer?
Possibilidade relativa
O que está em causa é saber se a possibilidade e a necessidade são relativas aos mundos possíveis. Se não forem, desde que haja um mundo possível em que Sócrates é ateniense, ele será possivelmente ateniense em todos os mundos possíveis; ou seja, em todos os mundos possíveis será verdadeiro que Sócrates é possivelmente ateniense.
Contudo, se a possibilidade e a necessidade forem relativas aos mundos possíveis, mesmo que haja um mundo possível em que Sócrates é ateniense, haverá outros mundos possíveis em que Sócrates não é possivelmente ateniense. Isto ocorrerá se os mundos possíveis em que Sócrates é ateniense não forem possíveis relativamente a todos os mundos possíveis.
É deste aspecto muitíssimo abstracto e de razoável sofisticação e complexidade cognitiva que depende a correcção ou incorrecção do argumento anselmiano. Pois este argumento afirma que da premissa de que é possível que Deus exista necessariamente se conclui correctamente que existe. Se todo o mundo possível for possível relativamente a qualquer outro, o argumento anselmiano é correcto; caso contrário, não o é.
Vejamos em que condições o argumento anselmiano não é correcto. Imagine-se que é possível que Deus exista necessariamente. Isto significa que há pelo menos um mundo possível, chamemos-lhe D, no qual Deus é um existente necessário. Por sua vez, isto significa que Deus existe em todos os mundos possíveis que sejam possíveis relativamente a D. Contudo, se o mundo efectivo não for um desses mundos possíveis, a inexistência de Deus é compatível com a possibilidade da sua existência necessária. Assim, caso D seja possível relativamente ao mundo efectivo, mas este não seja possível relativamente a D, o argumento anselmiano não será correcto.
Para decidir se o argumento anselmiano é correcto, precisamos de saber duas coisas. Primeiro, precisamos de saber se a possibilidade é ou não relativa a mundos possíveis. Segundo, precisamos de saber, caso o seja, se a possibilidade relativa é ou não simétrica. A simetria é uma propriedade que algumas relações têm e outras não. Por exemplo, a relação de ser irmão é simétrica, pois se Pedro é irmão de Maria, esta também é sua irmã; já a relação de ser mãe não é simétrica, pois se Maria for mãe de Rosa, esta não é sua mãe. Se a relação de possibilidade entre mundos possíveis não for simétrica, o argumento anselmiano é incorrecto porque o facto de D ser possível relativamente ao mundo efectivo não implica que este o seja relativamente a D.
De maneira que uma questão crucial — saber se Deus existe — depende de uma questão filosófica muitíssimo esotérica, e aparentemente irrelevante, estudada na metafísica da modalidade.
Conclusão
Alguns crentes, perante argumentos complexos sobre questões religiosas, afirmam que a religião está para lá da razão; invocam até o matemático, físico e pensador religioso Blaise Pascal (1623-1662), afirmando que o coração tem razões que a razão desconhece.
Contudo, a ideia de acolher a crença religiosa sem razões — e consequentemente sem compreensão, diria Anselmo — não é pacífica. Em qualquer caso, desdenhar da razão apenas quando desconfiamos que esta não sanciona o que gostaríamos de ver sancionado dificilmente é uma atitude recomendável. Se afectamos desprezar a razão, é incoerente fazê-lo apenas quando não sanciona as nossas crenças mais queridas, aplaudindo-a calorosamente quando as sanciona.
Em busca da compreensão da sua fé, Anselmo percorreu mais de setecentos quilómetros, deixando-nos um testemunho eloquente do que consegue um ser humano que não foge da responsabilidade de pensar arduamente sobre questões que considera de suprema importância. Em comparação, é um esforço relativamente pequeno, da nossa parte, percorrer os caminhos do raciocínio complexo sobre matérias religiosas — sejamos ou não crentes.