Sete Ideias Filosóficas: Que Toda a Gente Deveria Conhecer
Conclusão
PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?
À excepção dos capítulos 3 e 4, encontrámos neste livro temas bastante arredados de qualquer aplicação prática; mas nestes dois capítulos abordámos temas de óbvio interesse prático. Assim, a ideia de que a filosofia é inútil porque não tem aplicação prática é historicamente falsa.
Em qualquer caso, muitas das actividades a que nos dedicamos são inúteis: a amizade e os jogos de computador, o futebol e o teatro, a matemática pura e o montanhismo. Dedicamos tantas energias a actividades que não têm aplicação prática porque nos realizam e porque gostamos de satisfazer a nossa curiosidade.
Efectivamente, uma vida vale tanto mais a pena quanto menos tempo somos obrigados a dedicar à nossa sobrevivência ou bem-estar primário. Isto devia ser óbvio; mas, quando se menciona a filosofia, tende a ser esquecido, exigindo-se-lhe uma aplicação prática ausente da maior parte das actividades que as pessoas mais valorizam. É irónico que assim seja, pois a reflexão sobre a vida boa, de que vimos um exemplo, dificilmente poderia ser mais prática.
Os capítulos 1, 2 e 5 mostram a falsidade histórica da ideia de que a filosofia trata de questões humanas — que estuda o Homem, como por vezes se diz, na linguagem gasta do machismo. A verdade histórica é que em filosofia temos estudado, ao longo dos séculos, vários tipos de problemas insusceptíveis de investigação científica, sendo poucos os que têm a ver com os seres humanos.
Os seres humanos são com certeza interessantes, mas há muitas outras coisas interessantes. Queremos saber, por exemplo, se há alguma coisa de comum — a vermelhidão — em todas as coisas vermelhas, e, caso haja, o que é isso; queremos saber se há identidade das coisas ao longo do tempo e, caso haja, como ocorre; e queremos saber se duas coisas diferentes — uma estátua e um pedaço de barro — podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Assim, apesar de ser verdadeiro que em alguns casos investigamos em filosofia problemas relacionados com os seres humanos (capítulos 3 e 4), muitos outros casos há em que isso não é verdadeiro (capítulos 1, 2 e 5); e noutros casos (capítulos 6 e 7) só tangencialmente se trata de problemas relacionados com os seres humanos.
Este livro inclui informação histórica, mas ficou patente que, sem compreender os aspectos teóricos em causa, nenhuns elementos históricos nos permitirão fazê-lo. Os problemas filosóficos, assim como as teorias que lhes dão resposta, surgem certamente em contextos históricos, e poderão até ser motivados por eles. Mas só nos seus próprios termos podemos compreendê-los correctamente. Qualquer redução dos problemas filosóficos, e das teorias que lhes dão resposta, a explicações históricas é uma simplificação grosseira.
O contexto histórico que permitiu o desenvolvimento de lentes e telescópios permitiu também os estudos astronómicos de Galileu, mas as suas teorias astronómicas só podem ser entendidas em termos astronómicos, e não históricos; o mesmo ocorre em filosofia. Se não a entendermos em termos filosóficos, o resultado será o género de simplismo caricatural de que se queixava Kant:
«Mais ou menos como se alguém, que nunca tivesse ouvido falar ou
nada tivesse visto de geometria, ao encontrar um exemplar de
Euclides e sendo-lhe pedido um juízo a seu respeito, dissesse,
depois de, ao folhear, ter notado muitas figuras: ‘o livro é uma
instrução sistemática para o desenho: o autor serve-se de uma língua
particular para dar prescrições obscuras, incompreensíveis, que, no
fim, nada mais podem conseguir do que o que cada um pode fazer
mediante um bom olhar seguro natural, etc.’» (Prolegómenos a Toda
a Metafísica Futura, p. A204-205)
Kant insurge-se contra a atitude de quem desconhece a filosofia, mas para não o deixar transparecer faz comentários laterais sobre contextos históricos, etimologia de palavras, mitologia grega, etc. — evitando cuidadosamente explicar e discutir os problemas, teorias e argumentos especificamente filosóficos que estão no texto.
Os problemas filosóficos são insusceptíveis de investigação adequada por quaisquer outros métodos que não os filosóficos. Enfrentar a sua complexidade e dificuldade exige o melhor de nós, e a experiência dessa entrega é maravilhosa. Todavia, quando não se vê da filosofia senão simplismos caricaturais, quando não se vê o que os filósofos efectivamente têm feito, e continuam fazendo, torna-se difícil compreender o deslumbramento e realização pessoal que a filosofia pode proporcionar. Pergunta-se então para que serve a filosofia, e sugere-se que não serve para coisa alguma. Mas a pergunta está feita ao contrário porque a filosofia não é como um rio que já existe e acerca do qual perguntamos para que serve; a filosofia é antes como uma casa que construímos para responder às nossas necessidades. Assim, a pergunta correcta é por que fazem os filósofos filosofia. E a resposta é que a fazem porque essa é a única maneira de responder a problemas que nos fascinam e que queremos esclarecer tanto quanto possível, mesmo que sejamos incapazes de lhes dar respostas definitivas.