Sócios no Crime

Agatha Christie · Capítulo 4 de 4 · parte 3/5

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Sócios no Crime

— O que o trouxe aqui hoj…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Não foi m uito ao estilo de Hanaud — disse Tuppence.

— Era sério dem ais para representações. Ainda não posso pensar naquela m oça. Vou tentar não pensar. Mas, com o disse antes, você foi m aravilhosa. Tem todas as glórias. Para usar um ditado conhecido: “A grande vantagem é ser inteligente e não parecê-lo.”

— Tom m y, você é abom inável.

CAPÍTULO XIX

O ÁLIBI PERFEITO

Tom m y e Tuppence se ocupavam da correspondência.

Tuppence soltou um a exclam ação e entregou um a carta a Tom m y.

— Um novo cliente — disse ela, cheia de im portância.

— Ah! O que deduzim os desta carta, Watson? Não m uito; apenas o fato um tanto óbvio de que o Sr. — com o é o nom e dele?

— Montgom ery Jones tem um a ortografia perfeita, o que prova que recebeu um a educação cara.

— Montgom ery Jones? — disse Tuppence. — O que sei sobre um Montgom ery Jones? Ah, sim , agora m e lem bro. Acho que Janet St. Vincent o m encionou. A m ãe dele era Lady Aileen Montgom ery, m uito im pertinente e m em bro da Igrej a Superior Anglicana, com cruzes de ouro e tudo, que se casou com um hom em cham ado Jones, riquíssim o.

— Aquela m esm a velha história — disse Tom m y. — Deixe-m e ver, a que horas o Sr. M. J. quer vir? Ah, onze e m eia.

Exatam ente às onze e m eia, um j ovem alto, rosto agradável e cândido entrou na ante-sala e se dirigiu a Albert, o contínuo.

— Escute, posso ver o Sr. ... Sr. Blunt?

— O senhor tem hora m arcada? — perguntou Albert.

— Não tenho certeza. Sim , acho que tenho. O que quero dizer é que escrevi um a carta...

— Qual o nom e, por favor?

— Sr. Montgom ery Jones.

— Vou levar seu nom e ao Sr. Blunt.

Voltou logo depois.

— Espere alguns m inutos, por favor. O Sr. Blunt está num a reunião m uito im portante agora.

— Ora, claro, óbvio — disse Montgom ery Jones.

Na esperança de ter conseguido im pressioná-lo o suficiente, Tom m y tocou a cam painha da m esa e Albert levou Montgom ery Jones à sala do Sr. Blunt.

Tom m y levantou-se para cum prim entá-lo e, apertando-lhe a m ão calorosam ente, indicou a cadeira vazia.

— E então, Sr. Montgom ery — disse ele, anim ado —, o que terem os o prazer de fazer pelo senhor?

O Sr. Montgom ery olhou hesitante para a terceira ocupante do escritório.

— Minha secretária particular, Srta. Robinson — disse Tom m y. — Pode falar com toda a liberdade na frente dela. É sobre algum assunto fam iliar, delicado?

— Não, não é bem isso — disse Montgom ery Jones.

— O senhor m e surpreende — disse Tom m y. — O senhor não está em apuros, está?

— Oh, não, longe disso.

— Bem — disse Tom m y —, talvez sej a m elhor relatar os fatos claram ente.

Esta talvez fosse a única coisa que o Sr. Montgom ery Jones parecia não ser capaz de fazer.

— É um a coisa m uito estranha que venho pedir-lhe — disse, hesitante. — Eu bem ... realm ente não sei com o colocar as coisas.

— Não lidam os com casos de divórcio — disse Tom m y.

— Cristo, não! — disse Montgom ery Jones. — Não é isso. É

só, bem , é só um a brincadeira boba. Nada m ais.

— Alguém lhe pregou algum a peça de natureza m isteriosa?

— sugeriu Tom m y.

Mais um a vez o Sr. Montgom ery Jones balançou a cabeça.

— Bem — disse Tom m y, tentando se sair bem da situação

—, fique à vontade e explique tudo com suas próprias palavras.

Houve um a pausa.

— Sabe — disse o Sr. Jones, finalm ente —, foi no j antar.

Sentei-m e ao lado de um a m oça.

— E então? — perguntou Tom m y, querendo encoraj á-lo.

— Ela era um a — ora, bem , não consigo descrevê-la, m as é um a das m oças m ais brincalhonas que conheci. É australiana, está aqui com outra m oça e divide o apartam ento com ela em Clarges Street. Ela topa tudo. Na verdade não posso lhe dizer que im pacto ela m e causou.

— Podem os im aginar, Sr. Jones — disse Tuppence.

Ela viu claram ente que se quisessem extrair os problem as do Sr. Montgom ery Jones, era necessário um toque de com preensão fem inina, bem diferente dos m étodos obj etivos do Sr. Blunt.

— Podem os entender — disse Tuppence, encoraj adora.

— Bem , tudo aconteceu com o um grande choque para m im

— disse o Sr. Jones —, ver que um a garota pode nos im pressionar desta m aneira. Houve outra m oça, na verdade duas. Um a era m uito bonita e tudo o m ais, só que não gostei do queixo dela. Mas dançava m aravilhosam ente e j á a conhecia há bastante tem po, o que faz a gente se sentir seguro, sabe com o é. E então um a das m oças estava no Frivolity. Muito divertido, m as é claro que haveria confusão e, na verdade, não queria m e casar com nenhum a delas, m as estava pensando nessas coisas quando, de repente, sem m ais nem m enos, sentei-m e ao lado desta garota e...

— E o m undo todo m udou — disse Tuppence, cheia de sensibilidade.

Tom m y rem exeu-se im paciente na cadeira. Já estava um tanto aborrecido com o recital de Montgom ery Jones sobre seus casos am orosos.

— A Srta. coloca as coisas m uito bem — disse Montgom ery Jones. — Foi isso m esm o que senti. Só achei que ela não ficou m uito im pressionada com igo. Pode não aparentar, m as não sou m uito inteligente.

— Não deve ser tão m odesto — disse Tuppence.

— Ora, tenho consciência de que não sou grande coisa —

disse ele com um sorriso encantador. — Não para um a garota m aravilhosa e perfeita com o aquela. É por isso que acho que tenho que conseguir. É m inha única oportunidade. É um a garota tão espetacular que não faltaria com a palavra dada.

— Bem , desej am os toda a sorte do m undo — disse Tuppence, am ável. — Mas não sei exatam ente o que quer que se faça.

— Ora — disse Montgom ery Jones —, não expliquei?

— Não — disse Tom m y —, não explicou.

— Bem , foi assim . Falávam os sobre histórias de detetives.

Una — este é o nom e dela — gosta tanto deste tipo de história quanto eu. Com eçam os a falar sobre um a em particular. Tudo versa sobre álibis. Então falam os sobre álibis e com o forj á-los.

Então eu disse — não, ela disse — ora quem foi que disse?

— Não im porta quem foi — disse Tuppence.

— Eu disse que seria um a coisa m uito difícil de se fazer. Ela discordou — disse que só era necessário usar a cabeça. Ficam os m uito anim ados com a discussão e no fim ela disse: “Quanto você quer apostar que posso forj ar um álibi perfeito?”

— O que quiser — eu disse, e com binam os tudo lá. Ela está m uito certa de tudo. Ela disse que nem teria graça. Não tenha tanta certeza, disse eu. Vam os supor que você perca e eu lhe peça qualquer coisa que queira — disse eu. Ela riu e disse que vinha de um a fam ília de grande espírito esportivo e que eu podia pedir.

— Então? — perguntou Tuppence quando o Sr. Jones calou-se e lançou-lhe um olhar súplice.

— Bem , não com preende? Depende de m im . É a única oportunidade que tenho para fazer um a garota com o aquela olhar para m im . Você não tem idéia de com o ela é brincalhona. No verão passado ela estava velej ando e alguém apostou que ela não iria nadando até a praia toda vestida e ela foi.

— A aposta é m uito curiosa — disse Tom m y. — Mas não tenho certeza se entendi bem .

— É m uito sim ples — disse o Sr. Montgom ery Jones. —

Vocês devem fazer isso a toda hora. Investigar álibis falsos e ver onde está a m entira.

— Ah, é claro, é — disse Tom m y. — Fazem os este tipo de trabalho a toda hora.

— Alguém tem que fazer isso para m im — continuou Montgom ery Jones. — Eu não conseguiria nada. O que têm a fazer é descobrir onde o álibi é falho e tudo estará bem . Sei que é um negócio m uito fútil para um detetive m as significa m uito para m im e estou preparado para pagar quaisquer despesas.

— Está certo — disse Tuppence. — Tenho certeza de que o Sr. Blunt cuidará do caso para o senhor.

— Certam ente — disse Tom m y. — É um caso m uito revigorante, m uito m esm o.

O Sr. Montgom ery Jones soltou um suspiro de alívio, tirou um m aço de papéis do bolso e escolheu um .

— Está aqui — disse ele. — Ela diz: “Estou lhe m andando um a prova de que estive em dois lugares diferentes ao m esm o tem po. De acordo com um a versão da história, j antei no restaurante Bon Tem ps, no Soho, fui ao Teatro Duke sozinha e ceei com um am igo, Sr. le Marchant, no Savoy — mas tam bém fiquei no Castle Hotel, Torquay e só voltei a Londres na m anhã seguinte. Você tem que descobrir qual das duas histórias é a verdadeira e com o consegui a outra.”

— Pronto — disse o Sr. Jones. — Agora entende o que quero que o senhor faça.

— Um problem inha m uito revigorante — disse Tom m y. —

Muito ingênuo.

— Tom e a fotografia de Una — disse Montgom ery Jones. —

Vai precisar dela.

— Qual é o nom e dela todo? — perguntou Tom m y.

— Una Drake. O endereço é Clarges Street, 180.

— Obrigado — disse Tom m y. — Bem , vou cuidar do caso para o senhor. Espero que tenham os boas notícias em breve.

— Olhe, não sei com o agradecer — disse o Sr. Jones levantando-se e apertando a m ão de Tom m y. — Tirou um grande peso dos m eus om bros.

Depois de levar o cliente à porta, Tom m y voltou para o escritório. Tuppence estava perto do arm ário onde guardavam os clássicos.

— Inspetor French — disse Tuppence.

— O quê?

— Inspetor French, é claro — disse Tuppence. — Ele sem pre lida com álibis. Sei com o é o m étodo. Tem os que estudar todos os dados e com prová-los. A princípio tudo parecerá certo, m as quando exam inarm os m ais profundam ente acharem os o defeito.

— Não deve ser m uito difícil — concordou Tom m y. — Saber que um dos álibis é falso torna a coisa quase um a certeza. É isto o que m e preocupa.

— Não vej o m otivo para se preocupar.

— Estou preocupado com a m oça — disse Tom m y. —

Provavelm ente vai ser levada a se casar com este j ovem , quer queira, quer não.

— Querido — disse Tuppence —, não sej a tolo. As m ulheres nunca são tão inocentes quanto o aparentam . Ela não entraria num a aposta com o esta se não estivesse preparada para se casar com este agradável rapaz de poucas idéias. Mas Tom m y, tenho certeza de que se casará com ele com m ais respeito e entusiasm o se ele ganhar esta aposta.

— Você acha que sabe tudo — disse o m arido.

— E sei.

— Vam os agora exam inar nossos dados — disse Tom m y, puxando os papéis para perto de si. — Prim eiro a fotografia —

hum m m — um a m enina m uito bonita — e a fotografia é ótim a.

Muito clara, m uito nítida.

— Tem os que pegar fotografias de outras m oças — disse Tuppence.

— Por quê?

— É o que sem pre fazem . Você m ostra quatro ou cinco para os garçons e eles escolhem a fotografia certa.

— Acha que eles fazem isso? Quer dizer, que escolhem a fotografia certa?

— Bem , pelo m enos nos livros é assim .

— É um a pena que a vida real sej a tão diferente da ficção —

disse Tom m y. — Bem , o que tem os aqui? Ah, sim , estes são referentes a Londres. Jantou no Bon Tem ps às sete e m eia. Foi ao teatro Duke e assistiu Delphiniums Blue. O canhoto da entrada está aqui. Ceia com o Sr. le Marchant no Savoy. Acho que podem os entrevistar o Sr. le Marchant.

— Isto não vai provar nada — disse Tuppence — porque se ele a estiver aj udando, é claro que vai confirm ar tudo. Não podem os confiar em nada do que ele disser agora.

— Bem , vam os ver o que aconteceu em Torquay —

continuou Tom m y. — Tom ou o trem das doze de Paddington, alm oçou no vagão-restaurante, recibo incluído. Ficou no Hotel Castle por um a noite. O recibo tam bém está aqui.

— Acho que nada disso pode ser considerado com o prova —

disse Tuppence. — Qualquer um pode com prar um a entrada para o teatro sem precisar ir lá. A m oça só foi a Torquay e o álibi de Londres é falso.

— Se for isso, vai ser sopa para nós — disse Tom m y. — Bem , acho m elhor ter um a conversa com o Sr. le Marchant de qualquer j eito.

O Sr. le Marchant, um j ovem alegre, não dem onstrou grande surpresa ao vê-los.

— Então Una levou o j oguinho adiante, não é? — perguntou ele. — Nunca se sabe o que esta criança está planej ando.

— Pelo que sei, Sr. le Marchant — disse Tom m y —, a Srta.

Drake ceou com o senhor no Savoy na últim a terça-feira.

— Exatam ente — disse ele. — Sei que era terça-feira porque ela enfatizou m uito a data e, além do m ais, m e fez tom ar nota num caderninho.

Não sem algum orgulho ele m ostrou um a anotação levem ente sublinhada a lápis. “Ceia com Una. Savoy. Terça, 19.”

— Sabe onde ela esteve antes?

— Foi assistir a algum espetáculo inferior cham ado Pink Pionies ou coisa parecida. Ela m e disse que foi um a porcaria.

— Tem certeza de que a Srta. Drake esteve com o senhor aquela noite?

O Sr. le Marchant encarou-o.

— Ora, claro, não foi o que lhe disse?

— Talvez ela tenha-lhe pedido que nos diga isso — retrucou Tuppence.

— Olha, para falar a verdade, ela disse um a coisa m uito estranha. Disse — com o é que foi m esm o? — “Você pensa que está sentado aqui ceando com igo, Jim m y, m as na verdade estou ceando a duzentos e cinqüenta quilôm etros daqui, em Devonshire.” Realm ente um a coisa m uito estranha, não acha?

Parece coisa de ficção. O pior é que um am igo m eu, Dicky Rice, acha que a viu lá.

— Quem é este Sr. Rice?

— Um am igo m eu. Ele foi a Torquay ficar com um a tia. Um a velha que está m orre não m orre. Dicky foi lá fazer o papel de sobrinho bonzinho. Ele disse: “Um dia vi um a australiana — Una não sei de quê. Quis ir lá para conversar com ela m as m inha tia m e puxou e m e levou para conversar com um a velhota am iga dela.” Eu disse: “Que dia foi isso?” e ele respondeu: “Terça-feira, m ais ou m enos na hora do chá.” É claro que disse a ele que estava enganado, m as m esm o assim foi estranho, não foi? Por que Una disse aquilo sobre Devonshire. Não é estranho?

— Muito estranho — disse Tom m y. — Diga-m e, Sr. le Marchant, alguém conhecido ceou perto de vocês no Savoy ?

— Um as pessoas cham adas Oglander estavam na m esa vizinha.

— Conhecem a Srta. Drake?

— Ah, sim , conhecem . Não são íntim os, m as conhecem .

— Bem , se não há m ais nada que nos possa contar, Sr. le Marchant, vam os andando. Bom dia.

— Ou o cara m ente extraordinariam ente bem — disse Tom m y ao chegarem à rua — ou está falando a verdade.

— É — disse Tuppence. — Mudei de idéia. Tenho o pressentim ento de que Una Drake estava no Savoy aquela noite.

— Agora vam os ao Bon Tem ps — disse Tom m y. — Um pouco de com ida para detetives fam intos é bastante indicado. Vam os prim eiro apanhar algum as fotografias de m oças.

Isto resultou num a tarefa m uito m ais difícil do que im aginavam . Quando pediam a fotógrafos retratos sortidos, eram recebidos com fria recusa.

— Por que as coisas são fáceis e sim ples nos livros e tão difíceis na vida real? — queixou-se Tuppence. — Com o ficam desconfiados! O que será que pensam que queríam os fazer com os retratos? É m elhor fazerm os um a incursão no apartam ento de Jane.

Jane, am iga de Tuppence, querendo aj udar, perm itiu-lhe tirar da gaveta quatro retratos de antigas am igas dela.

Arm ados com um a galeria de belezas fem ininas, seguiram para o Bon Tem ps, onde novas dificuldades e gastos os esperava.

Tom m y teve que se dirigir a um garçom de cada vez, dar-lhe um a gorj eta e depois m ostrar os vários retratos. O resultado foi insatisfatório. Pelo m enos três das fotografias foram apontadas com o sendo a m oça que lá j antara na terça-feira. Eles voltaram ao escritório, onde Tuppence m ergulhou m ais um a vez nos dados fornecidos por Una Drake.

— Paddington às onze horas. Torquay, três e trinta e cinco.

Aqui tem os o trem e o am igo de le Marchant, Sr. fulano, não m e lem bro o nom e, que a viu lá m ais ou m enos à hora do chá.

— Ainda não averiguam os a inform ação dele — disse Tom m y. — Se, com o você disse, le Marchant for am igo de Una Drake, pode ter inventado esta história.

— Vam os atrás do Sr. Rice — disse Tuppence. — Tenho o pressentim ento de que o Sr. le Marchant falava a verdade. Vej a onde quero chegar: Una Drake sai de Londres no trem de m eio-dia, com certeza se hospeda em um hotel e desfaz as m alas.

Depois tom a um trem de volta a Londres, chegando a tem po para ir ao Savoy. Tem um que sai às quatro e quarenta e chega a Paddington às nove e dez.

— E então? — disse Tom m y.

— E então — continuou ela, testa franzida — fica m ais difícil. A m eia-noite sai um trem de Paddington para Londres m as dificilm ente ela poderia tom á-lo, seria m uito cedo.

— Um carro ligeiro — sugeriu Tom m y.

— Hum m m ... são m ais de duzentos quilôm etros.

— Os australianos, segundo soube, dirigem sem a m enor prudência.

— Vam os supor que fosse possível — disse Tuppence. — Ela chegaria lá por volta das sete.

— Você quer dizer que ela se enfiou na cam a no Hotel Castle sem ser vista? Ou que chegou lá e explicou que passara a noite fora e que dessem a nota, por favor?

— Tom m y — disse Tuppence —, nós som os m esm o idiotas.

Ela não teve a m ínim a necessidade de voltar a Torquay. Só teve que pedir a um am igo que fosse até lá, apanhasse-lhe a bagagem e pagasse a conta. E aí tem os o recibo com a data adequada.

— Acho que esta hipótese é bastante razoável — disse Tom m y. — O que tem os que fazer agora é pegar o trem do m eio-dia para Torquay e provar nossas brilhantes conclusões.

Arm ados de um a pasta de retratos, Tom m y e Tuppence se estabeleceram confortavelm ente num vagão de prim eira classe, na m anhã seguinte, e reservaram lugares para o alm oço do segundo turno.

— Provavelm ente não serão os m esm os garçons — disse Tom m y. — Seria m uita sorte. Acho que teríam os que viaj ar a Torquay todos os dias até encontrá-los.

— Este negócio de álibi é m uito cansativo — disse Tuppence.

— Nos livros, tudo se resolve em dois ou três parágrafos. O

Inspetor Fulano então tom ou o trem para Torquay, questionou os garçons e ficou tudo resolvido.

Entretanto, pelo m enos um a vez, o j ovem casal teve m uita sorte. O garçom que lhes trouxe a conta do alm oço era o m esm o que trabalhara na terça-feira anterior. Tom m y pôs em prática o que cham a de “toque dos 10 shillings”, e Tuppence m ostrou os retratos.

— O que quero saber é se algum a dessas m oças alm oçou aqui, na terça-feira passada.

De m aneira recom pensadora, digna das m elhores histórias de detetives, o hom em apontou im ediatam ente para o retrato de Una Drake.

— Sim , senhor, lem bro-m e da m oça e tam bém m e lem bro de que era terça-feira, porque ela cham ou atenção para o fato dizendo ser o seu dia de m ais sorte.

— Muito bom até agora — disse Tuppence, ao voltarem às suas poltronas. — E provavelm ente descobrirem os que se hospedou no hotel. Vai ser m ais difícil provar que voltou a Londres, m as talvez um dos carregadores se lem bre dela na estação.

Aqui, entretanto, ficaram na m esm a; passando para a plataform a superior, Tom m y fez perguntas ao cobrador e a vários carregadores. Depois de distribuir gorj etas com o um preâm bulo às perguntas, dois dos carregadores apontaram para um a ou duas fotografias com a vaga lem brança de que um a pessoa parecida com aquela viaj ara a Londres no trem das quatro e quarenta, m as não houve identificação de Una Drake.

— Mas isso não prova nada — disse Tuppence quando saíram da estação. — Ela pode ter pego o trem sem que ninguém notasse.

— Pode ter partido de outra estação, de Torre.

— É bem provável — disse Tuppence —, m as podem os ver isso depois de passarm os no hotel.

O Hotel Castle dava para o m ar. Depois de reservarem um quarto para a noite e de assinar o registro, Tom m y observou com prazer:

— Acho que hospedaram um a am iga nossa aqui, na terça-feira passada. Srta. Una Drake.

A j ovem atrás do balcão sorriu para ele.

— Ah, sim , m e lem bro m uito bem . Acho que a j ovem era australiana.

A um sinal de Tom m y, Tuppence m ostrou-lhe o retrato.

— Ela está m uito bem nesta fotografia, não é? — perguntou Tuppence.

— Puxa, se está! Muito bonita.

— Ela ficou m uito tem po aqui? — perguntou Tom m y.

— Só um a noite. Voltou a Londres na m anhã seguinte, de trem . Acho m uito longe para ficar só um a noite m as, é claro, os australianos não se incom odam de viaj ar.

— Ela é m uito divertida — disse Tom m y —, sem pre pronta para aventuras. Acho que não foi aqui, ou foi?, que ela saiu para j antar com alguns am igos, depois foi dar um passeio de carro, o carro ficou atolado e ela não pôde voltar senão de m anhã?

— Ah, não — disse a m oça. — A Srta. Drake j antou aqui no hotel.

— É m esm o? Tem certeza? Quer dizer, com o sabe? —

perguntou Tom m y.

— Eu a vi.

— Pergunto porque pensei que tivesse j antado com alguns am igos em Torquay — explicou Tom m y.

— Ah, não, ela j antou aqui. — A m oça sorriu e corou um pouco. — Ainda m e lem bro que usava um vestido lindo, todo estam pado de flores.

— Tuppence, isso arruína tudo — disse Tom m y ao chegarem ao quarto.

— Isso m esm o — disse Tuppence. — Se bem que a m ulher pode estar enganada. Vam os perguntar ao garçom no j antar.

Nesta época do ano não tem m uita gente aqui.

Desta vez, o ataque coube a Tuppence.

— Pode m e dizer se um a am iga m inha esteve aqui terça-feira passada? — perguntou ao garçom com um sorriso encantador. —

Era a Srta. Drake e estava com um vestido todo florido, acho. —

Ela m ostrou a fotografia. — Esta aqui.

Com o a reconhecesse, o garçom irrom peu em sorrisos.

— Claro, claro, Srta. Drake. Lem bro-m e m uito bem . Ela m e disse que era australiana.

— Ela j antou aqui?

— Jantou. Foi na terça-feira passada. Ela m e perguntou se havia algum a coisa para fazer na cidade depois.

— E então?

— Disse-lhe para ir ao teatro, o Pavilhão, m as no fim ela preferiu ficar aqui escutando nossa orquestra.

— Droga! — disse Tom m y entre dentes.

— Não se lem bra da hora em que j antou, lem bra? —

perguntou Tuppence.

— Quando apareceu j á era um pouco tarde. Por volta das oito.

— Que droga, que porcaria! — xingou Tuppence quando Tom m y e ela saíram do restaurante. — Tom m y, está tudo dando errado. Parecia tudo tão claro!

— Acho que deveríam os saber que não seria fácil.

— Será que poderia ter pego algum outro trem , m ais tarde?

— Nenhum que a deixasse em Londres a tem po de chegar ao Savoy.

— Bem — disse Tuppence —, com o últim o recurso vou falar com a arrum adeira. Una Drake se hospedou num quarto no m esm o andar do nosso.

Á arrum adeira, palradora, deu m uitas inform ações. Sim , lem brava-se m uito bem da m oça. A fotografia era ela, sem dúvida.

Um a m oça m uito bonita, sim pática, faladora. Falou-lhe m uito sobre a Austrália e os cangurus.

A m oça tocara a cam painha m ais ou m enos às nove e m eia e pediu para que lhe enchessem a garrafa e tam bém pediu para ser acordada no dia seguinte às sete e m eia; que lhe trouxessem café e não chá.

— Você a cham ou e ela estava m esm o na cam a? —

perguntou Tuppence.

— Ora, claro, m adam e.

— Só pensei que pudesse estar fazendo exercícios, ou coisa parecida — disfarçou Tuppence. — Tanta gente faz ginástica de m anhã cedo!

— Bem , as inform ações parecem verdadeiras — disse Tom m y quando a arrum adeira se afastou. — Só se pode chegar a um a conclusão: a história de Londres é falsa.

— O Sr. le Marchant deve ser um m entiroso perfeito, m ais do que supúnham os.

— Tem os um a m aneira de averiguar se o que ele diz é verdade — disse Tom m y. — Ele falou que havia algum as pessoas sentadas na m esa ao lado, pessoas que Una conhecia ligeiram ente. Com o era o nom e delas? Oglander, é isso m esm o.

Tem os que ir atrás deles e fazer perguntas no apartam ento de Una, em Clarges Street.

Na m anhã seguinte, partiram um tanto desanim ados.

Com a aj uda do catálogo foi bastante fácil encontrar os Oglanders. Desta vez Tuppence tom ou a iniciativa e assum iu o papel de representante de um novo j ornal ilustrado. Foi à casa da Sra. Oglander pedindo alguns detalhes do “elegante” j antar de terça-feira, no Savoy. A Sra. Oglander forneceu os detalhes com toda a boa vontade. Quando j á ia se retirar, Tuppence acrescentou, fingindo indiferença: — Deixe-m e ver, a Srta. Una Drake não estava sentada à m esa próxim a? É m esm o verdade que está noiva do Duque de Perth? A senhora a conhece, é claro.

— Conheço m uito pouco — disse a Sra. Oglander. — Acho que é um a m oça encantadora. Sim , ela estava perto de nós com o Sr. le Marchant. Minhas filhas a conhecem m elhor do que eu.

A próxim a investida de Tuppence foi no apartam ento de Clarges Street. Ali foi recebida por Marj ory Leicester, a com panheira de Una Drake.

— O que vem a ser tudo isso, afinal? — perguntou Marj ory, queixosa. — Una está fazendo algum a brincadeira e não sei qual é. Claro que dorm iu aqui na terça-feira.

— Você a viu quando ela voltou?

— Não, j á estava deitada. Ela tem a própria chave, claro.

Chegou por volta de um a hora, acho.

— Quando a viu?

— Na m anhã seguinte, por volta das nove — ou talvez dez.

Quando Tuppence saiu do apartam ento, quase esbarrou num a m ulher alta, m agra, que fazia m enção de entrar.

— Desculpe-m e, Srta. — disse a m ulher m agra.

— Trabalha aqui? — perguntou Tuppence.

— Trabalho; venho diariam ente.

— A que horas chega pela m anhã?

— Chego às nove horas.

Tuppence escorregou m eia-coroa na m agra m ão da m ulher.

— A Srta. Drake estava aqui na terça-feira de m anhã quando você chegou?

— Ora, claro, estava sim . Dorm ia com o um a pedra e foi difícil acordá-la quando lhe trouxe o chá.

— Ah, obrigada — disse Tuppence, e desceu as escadas, desconsolada.

Com binara encontrar-se com Tom m y para alm oçar num pequeno restaurante, no Soho, e lá com pararam os resultados.

— Eu vi o tal do Rice. É verdade que avistou Una Drake em Torquay.

— Bem — disse Tuppence —, os álibis foram bem checados.

Queria um a folha de papel e um lápis, Tom m y. Vam os escrever tudo direitinho com o todos os detetives fazem .

13h30m in Una Drake foi vista no vagão-restaurante do trem .

16 horas Chega ao Hotel Castle.

17 horas O Sr. Rice a vê.

20 horas Foi vista j antando no hotel.

21h30m in Pede um a garrafa de água quente.

23h30m in Foi vista no Savoy com o Sr. le Marchant.

7h30m in Cham ada pela cam areira no Hotel Castle.

9 horas Acordada pela diarista no apartam ento, Clarges St.

Eles se entreolharam .

— Bem , m e parece que os Brilhantes Detetives de Blunt foram derrotados — disse Tom m y.

— Não, não devem os desistir — disse Tuppence. — Alguém tem que estar m entindo.

— O que é curioso é que não m e parece que alguém estej a m entindo. Todos parecem perfeitam ente verdadeiros e obj etivos.

— Tem que ter algum a coisa errada. Sabem os disso. Fico im aginando todo o tipo de coisa, com o aviões particulares, m as isto não nos leva a nada.

— Estou inclinado a aceitar a teoria de um corpo astral.

— Bem — disse Tuppence —, o negócio é ir dorm ir pensando no assunto. O subconsciente trabalha durante o sono.

— Se o subconsciente fornecer um a resposta perfeita para esta charada, am anhã de m anhã, dou m eu braço a torcer.

Passaram a tarde silenciosos. Volta e m eia Tuppence voltava ao papel de anotações. Escrevia coisas em outros pedaços de papel. Resm ungava enquanto exam inava, perplexa, os Guias Ferroviários. Mas no fim am bos se levantaram sem terem conseguido lançar um a nova luz sobre o problem a.

— Isto é m uito desanim ador — disse Tom m y.

— Um a das tardes m ais infelizes que j á passei — disse Tuppence.

— Deveríam os ter ido a algum espetáculo m usical — disse Tom m y. — Um as boas piadas sobre sogra e gêm eos e algum as garrafas de cervej a nos teriam feito m uito bem .

— Não, você vai ver que no fim esta concentração vai funcionar — disse Tuppence. — Com o nosso subconsciente vai ter que trabalhar nas próxim as oito horas! — E com esta esperança, foram -se deitar.

— E então — falou Tom m y na m anhã seguinte. — O

subconsciente trabalhou?

— Tive um a idéia.

— Teve? E que tipo de idéia?

— Bem , é um a idéia engraçada. Nunca li coisa parecida nas histórias policiais. Na verdade, você m e colocou esta idéia na cabeça.

— Neste caso, deve ser um a boa idéia — disse Tom m y, decidido. — Vam os, Tuppence, fale!

— Vou ter que m andar um telegram a para confirm ar — disse Tuppence. — Não, não vou lhe dizer. É um a idéia m uito louca, m as é a única coisa que se encaixa.

— Bem — disse Tom m y —, tenho que ir para o escritório.

Um a sala cheia de clientes decepcionados não deve esperar em vão. Passo o caso às m ãos do m eu prom issor subordinado.

Tuppence assentiu, contente.

Ela não apareceu no escritório o dia inteiro.

Quando Tom m y voltou, quase às seis horas, encontrou a sua espera um a Tuppence exultante.

— Pronto, Tom m y. Resolvi o m istério do álibi. Podem os cobrar todas as gorj etas que distribuím os e um preço bem elevado pelos nossos serviços; o Sr. Montgom ery Jones pode ir apanhar a m oça.

— Qual é a solução? — perguntou Tom m y.

— Um a solução bem sim ples — respondeu Tuppence —

gêmeas.

— O que você quer dizer com gêm eas?

— Exatam ente isso. Obviam ente é a única solução. E foi você que m e deu a dica ontem à noite quando falou em sogras, gêm eos e garrafas de cervej a. Telegrafei para a Austrália e obtive a inform ação que queria. Una tem um a irm ã gêm ea. Vera, que chegou à Inglaterra na segunda-feira. Foi por isso que ela pôde fazer esta aposta. Pensou que fosse caçoar do pobre Montgom ery Jones. A irm ã foi para Torquay e ela ficou em Londres.

— Acha que ela vai ficar m uito decepcionada porque perdeu?

— perguntou Tom m y.

— Não — disse Tuppence. — Não acho. Já lhe disse qual era m eu ponto de vista. Vai atribuir toda a glória a Montgom ery Jones. Sem pre achei que o respeito pelas habilidades do m arido deveria ser o alicerce de um a vida a dois.

— Estou contente por ter-lhe inspirado estes sentim entos, Tuppence.

— Não é um a solução m uito satisfatória — disse Tuppence.

— Nem o tipo de falha engenhosa que o Inspetor French teria detectado.

— Bobagem — disse Tom m y. — Acho que a m aneira com que m ostrou aquelas fotografias ao garçom foi exatam ente no estilo do Inspetor French.

— Ele não teria que gastar tanto dinheiro em gorj etas com o nós — atalhou Tuppence.

— Não tem im portância — disse Tom m y. — Podem os cobrar tudo isso de Montgom ery Jones. Na certa estará em êxtase e pagará um a conta enorm e sem vacilar.

— E é o que deve fazer — disse Tuppence. — Os Brilhantes Detetives de Blunt não tiveram um sucesso estrondoso? Ah, Tom m y, acho que som os extraordinariam ente inteligentes. Às vezes até m e assusta.

— O próxim o caso será para Roger Sheringham e você, Tuppence, será Roger Sheringham .

— Vou ter que falar m uito — disse Tuppence.

— Isto você j á faz naturalm ente — retrucou Tom m y. — E

agora sugiro que levem os a cabo nosso program a de ontem à noite e vam os a um espetáculo m usical cheio de piadas sobre sogras, garrafas de cervej a e gêmeos.

CAPÍTULO XX

A FILHA DO CLÉRIGO

— Gostaria — disse Tuppence, andando pelo escritório m elancólica — que pudéssem os aj udar a filha de um clérigo.

— Por quê? — perguntou Tom m y.

— Talvez você j á tenha se esquecido m as eu fui filha de um clérigo tam bém . Lem bro-m e bem de com o era. Daí este ím peto altruísta, este espírito de consideração pelos outros, este...

— Você j á está no ponto para ser Roger Sheringham , pelo que vej o — disse Tom m y. — Se m e perm ite um a crítica, você fala tanto quanto ele, m as não tão bem .

— Pelo contrário — disse Tuppence. — Há um a sutileza fem inina no que digo, um je ne sais quoi com o qual nenhum hom em reles pode atinar. Além do m ais, tenho poderes desconhecidos de m eus protótipos — será que é isto que quero dizer, protótipo? As palavras são coisas incertas; às vezes soam tão bem m as querem dizer o inverso do que pensam os que significam .

— Continue — disse Tom m y, gentilm ente.

— É o que ia fazer. Só estava fazendo um intervalo para tom ar fôlego. O que desej o hoj e é aj udar a filha de um clérigo.

Sabe, Tom m y, a prim eira pessoa na lista dos Brilhantes Detetives de Blunt será a filha de um clérigo.

— Aposto que não — disse Tom m y.

— Aceito a aposta — disse Tuppence. — Psiu! Ao trabalho.

Vem alguém aí.

A atm osfera do escritório do Sr. Blunt era de pura atividade quando Albert abriu a porta e anunciou:

— Srta. Monica Deane.

Um a m oça m agra, de cabelos castanhos e um tanto m al vestida entrou hesitante. Tom m y se aproxim ou:

— Bom dia, Srta. Deane. Não quer sentar-se e nos dizer em que podem os ser-lhe útil? A propósito, deixe-m e apresentá-la à m inha secretária particular, Srta. Sheringham .

— Tenho o m aior prazer em conhecê-la, Srta. Deane — disse Tuppence. — Seu pai era um m em bro da Igrej a, acho.

— Sim , era. Mas com o sabe disso?

— Ah, tem os nossos m étodos — disse Tuppence. — Você não deve se incom odar com o m eu falatório. O Sr. Blunt gosta de m e ouvir falar. Ele diz que sem pre lhe dou boas idéias.

A m oça olhou-a. Era um a criatura m agra, não era bonita, m as tinha um quê m elancólico. Os cabelos grossos e m acios, os olhos de um azul-escuro, encantadores, em bora as som bras escuras ao seu redor revelassem problem as e ansiedade.

— Pode contar-nos sua história, Srta. Deane? — pediu Tom m y.

Ela voltou-se para Tom m y, agradecida.

— É um a história tão longa e desconexa — disse ela. — Meu nom e é Monica Deane. Meu pai era o vigário de Little Ham psley, em Suffolk. Ele m orreu há três anos e deixou m inha m ãe e eu num a péssim a situação financeira. Fui trabalhar com o governanta m as m inha m ãe se tornou inválida, de m odo que tive de voltar para casa para cuidar dela. Estávam os na penúria m as um dia recebem os a carta de um advogado que dizia que a tia de m eu pai m orrera e deixara tudo para m im . Ouvira falar m uito desta tia, que tivera um a violenta discussão com m eu pai há m uitos anos, e sabia que era riquíssim a; assim , m e pareceu que nossos problem as tinham chegado ao fim . Mas não foi bem assim . Herdei a casa na qual ela m orou m as, depois de pagar um ou dois pequenos legados, o dinheiro acabou. Talvez o tenha perdido durante a guerra ou tenha vivido do próprio capital. O fato é que tínham os a casa e, quase de im ediato, tivem os um a oferta de com pra bem vantaj osa. Tolam ente, talvez, recusei a oferta. Nossas acom odações eram pequenas, m as caras, e achei m uito m elhor m orar na Casa Verm elha, onde m inha m ãe teria quartos confortáveis e eu poderia alugar os quartos para cobrir as despesas.

— Fiquei fiel a este plano em bora houvesse outra oferta tentadora de um cavalheiro. Nós nos m udam os e anunciam os os quartos para alugar. Durante algum tem po, tudo deu certo, recebem os várias respostas ao anúncio; a velha em pregada de m inha tia ficou conosco e nós duas dávam os conta do trabalho da casa. E então coisas inexplicáveis com eçaram a acontecer.

— Que coisas?

— As coisas m ais estranhas. O lugar parecia assom brado.

Os quadros com eçaram a cair, as louças a voar pela sala e quebrar. Um dia de m anhã descem os e descobrim os que todos os m óveis foram m udados de lugar. A princípio pensam os que fosse brincadeira de alguém , m as tivem os que abandonar esta explicação. Às vezes, quando todos estávam os à m esa para j antar, ouvíam os um trem endo estrondo lá em cim a. Subíam os e não víam os ninguém ; apenas um m óvel j ogado no chão.

— Um poltergeist — exclam ou Tuppence, m uito interessada.

— Sim , foi isso que o Dr. O’Neill disse — m as não sei o que significa.

— É um a espécie de espírito do m al que prega peças —

explicou Tuppence, em bora soubesse m uito pouco sobre o assunto e não tivesse certeza nem m esm o da palavra poltergeist.

— Bem , de qualquer m odo, o efeito foi desastroso. Nossos visitantes ficaram tão assustados que saíram logo que puderam .

Vieram outros, que tam bém foram em bora apressadam ente.

Fiquei desesperada, e, para coroar, nossa pequena renda de repente deixou de existir — a Com panhia na qual investim os faliu.

— Minha querida — disse Tuppence, solidária. — Você passou por cada um a! Queria que o Sr. Blunt investigasse este negócio de “assom bração”?

— Não é bem isso. Sabe, há três dias recebem os a visita de um senhor; cham a-se Dr. O’Neill. Disse-nos que é um m em bro da Sociedade de Pesquisas Físicas e que ouvira falar das curiosas m anifestações ocorridas em nossa casa e que estava m uito interessado. A tal ponto que se dispunha a com prá-la para fazer um a série de experiências.

— E então?

— É claro que, a princípio, fiquei m uito contente. Parecia um a saída para nossas dificuldades. Mas...

— Sim ?

— Talvez m e achem m uito cheia de im aginação. Talvez eu sej a. Mas — ah! tenho certeza de que não m e enganei. Era o m esm o hom em !

— Que m esm o hom em ?

— O m esm o que quis com prá-la antes. Tenho certeza.

— Mas por que não poderia ser ele?

— Não com preendem . Os dois hom ens eram bem diferentes, com nom es diferentes e tudo o m ais. O prim eiro era bastante j ovem , elegante, m oreno, dos seus trinta anos. O Dr. O’Neill tem uns cinqüenta, a barba grisalha, usa óculos e anda curvado. Mas quando falou, vi-lhe um dente de ouro na boca. Só aparece quando ele ri. O outro hom em tinha o dente na m esm a posição e então olhei para as orelhas dele. Notei as orelhas do outro hom em porque tinham um form ato diferente, quase sem lóbulo. As do Dr.

O’Neill são iguais. As duas coisas não podem ser coincidência, podem ? Pensei, pensei e finalm ente escrevi-lhe dizendo que daria a resposta em um a sem ana. Vi o anúncio do Sr. Blunt há algum tem po atrás — para falar a verdade, em um j ornal que forrava a gaveta da cozinha. Cortei-o e vim até aqui.

— E fez m uito bem — disse Tuppence, m eneando a cabeça vigorosam ente. — Isto requer um a investigação.

— Um caso m uito interessante, Srta. Deane — observou Tom m y. — Terem os m uito prazer em cuidar dele, não é, Srta.

Sheringham ?

— Claro — disse Tuppence —, e descobrirem os tudo.

— Pelo que entendi, Srta. Deane — continuou Tom m y —, os m oradores da casa são a senhorita, sua m ãe e a em pregada. Pode m e dar alguns detalhes dela?

— O nom e dela é Crockett. Trabalhou com m inha tia durante oito ou dez anos. É um a senhora, de trato não m uito agradável, m as é um a boa em pregada. Tem um pouco de m ania de grandeza porque a irm ã se casou com um hom em de classe bem superior à dela. Crockett tem um sobrinho e ela vive dizendo que ele é “um cavalheiro”.

— Hum m m — fez Tom m y, sem saber m uito bem com o continuar.

Tuppence estivera observando Monica com m uito interesse e depois falou, com repentina decisão:

— Acho que o m elhor é a Srta. Deane vir alm oçar com igo. É

só um a hora ainda. E então ela pode-m e dar todos os detalhes.

— Claro, Srta. Sheringham — disse Tom m y. — É um plano excelente.

— Escute — disse Tuppence quando j á estavam confortavelm ente sentadas à m esa de um restaurante vizinho —, quero saber um a coisa: há algum m otivo especial pelo qual queira descobrir tudo isso?

Monica corou:

— Bem , é que...

— Pode falar — encoraj ou Tuppence.

— Bem , há dois hom ens... que... querem se casar com igo.

— A história de sem pre, não é? Um é rico, o outro pobre e é do pobre que você gosta!

Continuar: parte 4 de 5