Sócios no Crime

Agatha Christie · Capítulo 4 de 4 · parte 4/5

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Sócios no Crime

— O que o trouxe aqui hoj…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Não entendo com o pode saber todas essas coisas —

m urm urou a m oça.

— É um a espécie de lei da natureza — explicou Tuppence. —

Acontece com todo m undo. Aconteceu com igo.

— Com preende, m esm o que eu venda a casa, o dinheiro não será suficiente para o nosso sustento. Gerald é um am or, m as é paupérrim o, em bora sej a um engenheiro m uito inteligente; se tivéssem os um capital ele poderia ficar sócio da firm a. O outro, o Sr. Partridge, é um hom em m uito bom e bastante rico; se m e casasse com ele, nossos problem as teriam fim . Mas... m as...

— Eu sei — disse Tuppence, com preensiva. — Não é a m esm a coisa. Você pode continuar a dizer para si m esm a que ele é bom , som ar-lhe as qualidades e tal, que não adianta nada.

Monica anuiu.

— Bem — disse Tuppence —, acho que seria bom estudar tudo in loco. Qual é o endereço?

— Casa Verm elha, Stourton-in-the-Marsh.

Tuppence anotou o endereço no caderninho.

— Não lhe perguntei — com eçou Monica — sobre os preços...

— disse, corando um pouco.

— Nossos pagam entos são de acordo com os resultados —

disse Tuppence, séria. — Se o segredo da Casa Verm elha for rendoso — com o parece ser devido à ansiedade em adquiri-la —

então cobrarem os um a pequena porcentagem ; caso contrário —

nada!

— Muito obrigada — disse a m oça, realm ente agradecida.

— E agora — disse Tuppence — não se preocupe. Tudo sairá bem . Vam os aproveitar o alm oço e falar de coisas interessantes.

CAPÍTULO XXI

A CASA VERMELHA

— Bem — disse Tom m y, olhando pela j anela do Crown and Anchor —, aqui estam os em Toad in the Hole — não é esse o nom e desta droga de vilarej o?

— Vam os rever o caso — disse Tuppence.

— Claro. Para com eçar, eu suspeito da m ãe inválida.

— Porquê?

— Minha querida Tuppence, partindo do pressuposto de que este negócio de poltergeist é um a conspiração para persuadir a m oça a vender a casa, alguém tem que j ogar as coisas. Monica Deane disse que todos estavam j antando; m as se a m ãe é m esm o inválida, estava !á em cim a, no quarto.

Com o é que ela poderia j ogar os m óveis se é inválida?

— Ah! m as talvez ela não sej a inválida de verdade, talvez estej a fingindo.

— Porquê?

— Aí você m e pegou — confessou o m arido. — Realm ente estava m e baseando no fam oso princípio de desconfiar da pessoa m enos suspeita.

— Você sem pre leva tudo na brincadeira — disse Tuppence, séria. — Deve haver alguma coisa que atraia estas pessoas. Se não faz questão de ir até o fundo do problem a, eu faço. Gosto da m oça.

Ela é um am or.

Tom m y concordou, bastante sério.

— Estou de pleno acordo. Mas não posso resistir à tentação de im plicar com você, Tuppence. É claro que há algum a coisa estranha e, sej a o que for, é difícil de ser obtida. Caso contrário, um sim ples assalto teria um bom efeito. Mas o fato de querer com prar a casa significa que se quer esburacar o chão, botar abaixo as paredes ou que há um a m ina de carvão no quintal.

— Não queria que fosse um a m ina de carvão. Um tesouro enterrado seria bem m ais rom ântico.

— Hum m m ... neste caso acho que devo fazer um a visitinha ao Gerente do banco local, explicar-lhe que vou ficar para o Natal, que provavelm ente com prarei a Casa Verm elha e discutir sobre abrir um a conta.

— Mas por quê?

— Espere que j á vai ver.

Tom m y voltou cerca de m eia hora depois. Seus olhos brilhavam .

— Fizem os progressos. Tuppence. Nossa entrevista se desenrolou com o eu queria. Perguntei-lhe, casualm ente, se tinha m uito depósito em ouro, com o acontece m uitas vezes hoj e em dia em pequenos bancos — pequenos fazendeiros que guardaram ouro durante a guerra, sabe com o é. Depois disso passei a falar, de m aneira m ais natural, nas extravagâncias dos velhos. Inventei um a tia que, quando estourou a guerra, foi num carrinho às loj as da Marinha e do Exército e voltou com dezesseis presuntos. Ele im ediatam ente m encionou um a cliente que insistiu em tirar cada centavo do dinheiro que possuía — em ouro, na m edida do possível — e tam bém insistiu em guardar seus títulos m obiliários, ações ao portador, estas coisas. Espantei-m e com este ato de loucura e, sem querer, ele m e disse que ela era a antiga proprietária da Casa Verm elha. Entende, Tuppence? Ela retirou todo este dinheiro e escondeu-o em algum lugar. Lem bra-se de que Monica Deane estava im pressionada com os poucos bens que possuía? Sim , ela escondeu tudo na Casa Verm elha e alguém sabe disso. Tam bém j á posso quase afiançar quem é esta pessoa.

— E quem é?

— E a fiel Crockett? Acho que saberia tudo sobre as excentricidades da patroa.

— E aquele cara de dente de ouro, Dr. O’Neill?

— Este é o sobrinho cavalheiro, é claro! É isto. Mas onde foi que escondeu o tesouro? Você sabe m ais sobre as velhas do que eu, Tuppence. Onde elas escondem as coisas?

— Debaixo do colchão, em brulhados em m eias e com binações.

Tom m y aquiesceu.

— Espero que estej a certa. Mas isso não é possível porque teria sido descoberto quando as coisas foram passadas para Monica Deane. O que m e preocupa é que um a senhora com o esta pode ter escavado o chão ou feito buracos no quintal. De qualquer j eito está lá, em algum lugar da Casa Verm elha. Crockett não encontrou nada ainda m as ela sabe que está lá e, depois de com prarem a casa, ela e o precioso sobrinho podem revirar tudo de cabeça para baixo até encontrar o que procuram . Tem os que passar a frente deles. Venha, Tuppence. Vam os à Casa Verm elha.

Monica Deane os recebeu. À m ãe e a Crockett eles foram apresentados com o possíveis com pradores da Casa Verm elha, o que explicaria serem levados para conhecer tudo. Tom m y não disse a Monica sobre as conclusões a que chegara m as fez-lhe várias perguntas. Quanto ao vestuário e obj etos pessoais da falecida, alguns foram dados a Crockett e outras coisas foram distribuídas entre várias fam ílias pobres. Não restara nada.

— A sua tia deixou docum entos?

— A escrivaninha estava cheia deles e havia alguns na gaveta do quarto, m as nada de im portante.

— Alguém os j ogou fora?

— Não, m inha m ãe sem pre teve horror de se desfazer de docum entos antigos. Havia entre eles um as receitas antigas que a m am ãe pretende experim entar qualquer dia desses.

— Bem — disse Tom m y, com aprovação. Depois, apontando para um senhor que trabalhava com os canteiros no j ardim , ele perguntou:

— Este hom em era o j ardineiro daqui quando sua tia era viva?

— Sim , costum ava vir três vezes por sem ana. Mora no vilarej o. Coitado, o trabalho que faz agora é perfeitam ente dispensável. Agora só vem um a vez por sem ana. E, além do m ais, não podem os pagar.

Tom m y piscou para Tuppence para indicar que devia ficar com Monica; ele se encam inhou em direção ao j ardineiro. Disse-lhe algum as palavras agradáveis, perguntou-lhe se trabalhara ali no tem po da tia de Monica e, depois, disse casualm ente:

— Um a vez você enterrou um a caixa para ela, não foi?

— Não, senhor. Nunca enterrei nada para ela. Para que ela iria querer enterrar um a caixa?

Tom m y balançou a cabeça. Voltou para a casa, a testa franzida. Esperava que um estudo dos velhos docum entos e papéis da falecida revelasse algum a pista — caso contrário seria difícil resolver o problem a. A casa era bem antiga, m as não o bastante para conter um a sala ou um a passagem secretas.

Antes que se fossem , Monica trouxe-lhes um a grande caixa de papelão am arrada por um barbante.

— Apanhei todos os papéis — m urm urou ela. — Estão aí dentro. Achei que seria m elhor levá-los porque assim terão m ais tem po para exam iná-los — em bora eu tenha certeza de que não encontrarão nada que possa aj udar a esclarecer os m isteriosos acontecim entos desta casa...

Um trem endo estrondo lá em cim a interrom peu-lhe as palavras. Tom m y subiu correndo as escadas. No chão de um dos quartos da frente, j azia em pedaços um a bacia e um j arro. No quarto, ninguém .

— O fantasm a resolveu fazer as gracinhas de novo —

m urm urou forçando um sorriso.

Desceu novam ente as escadas, pensativo.

— Será que posso dar um a palavrinha com a em pregada, Srta. Deane?

— Claro; vou pedir-lhe que venha até aqui.

Monica foi até a cozinha. Voltou com a em pregada que lhes abrira a porta ao chegarem .

— Estam os pensando em com prar esta casa — disse Tom m y, am ável — e m inha esposa ficou pensando se neste caso lhe agradaria ficar conosco.

O rosto circunspecto de Crockett não revelou a m enor em oção.

— Obrigada, senhor — disse ela. — Gostaria de pensar no assunto.

Tom m y voltou-se para Monica.

— Estou encantado com a casa, Srta. Deane. Pelo que sei há outro com prador interessado. Sei o quanto ofereceu pela casa e estou disposto a oferecer cem libras a m ais. E lem bre-se, estou-lhe oferecendo um bom preço.

Monica m urm urou algum a coisa sem im portância e os Beresfords saíram .

— Eu estava certo — disse Tom m y enquanto cam inhavam .

— Crockett está m etida nisso. Você notou com o estava ofegante?

Deve ter descido as escadas do fundo correndo depois de j ogar o j arro e a bacia no chão. E no m ínim o o sobrinho foi lá algum as vezes, escondido, fez o papel de fantasm a enquanto que ela perm aneceu, inocente, j unto à fam ília. Você vai ver, o Sr. O’Neill vai aum entar a oferta ainda hoj e.

Com efeito, depois do j antar, receberam um bilhete. Era de Monica.

— O Dr. O’Neill acaba de aum entar a oferta anterior em 150

libras.

— O sobrinho deve ser um hom em de posse — disse Tom m y, m editativo. — Sabe, Tuppence, ele está à procura de um tesouro que deve valer um a fortuna.

— Ah! se nós pudéssem os encontrá-lo!

— Bem , vam os continuar com nosso trabalho de desbravam ento.

Eles revistavam a caixa grande de papéis, um a tarefa enfadonha j á que estava tudo m isturado, sem seguir nenhum a ordem ou m étodo. A todo instante com paravam o resultado.

— O que foi que encontrou agora, Tuppence?

— Duas contas antigas, três cartas sem im portância, um a receita para preservar batatas novas e outra para fazer torta de lim ão E você?

— Um a conta, um poem a sobre a prim avera, dois recortes de j ornal: “Porque as m ulheres com pram pérolas — um investim ento seguro” e “O Hom em com cinco esposas — história extraordinária”, e um a receita de lebre recheada.

— É desanim ador — disse Tuppence e voltaram de novo a atacar a caixa. Por fim , esvaziou-se. Eles se entreolharam .

— Separei isso — disse Tom m y apanhando um a folha de anotações pela m etade — porque m e pareceu estranho. Mas acho que não tem nada a ver com o que estam os procurando.

— Deixe-m e ver. Ah! é um a dessas coisas engraçadas, com o se cham a? Anagram as, charadas ou coisa parecida. — Tuppence leu em voz alta:

“Coloca-se no fogo e tem três sílabas E m inhas três sílabas cabem todas lá dentro Minha segunda é, na verdade, a prim eira E a segunda sílaba se repete na terceira.’

— Hum m m ... não gosto m uito de charadas — disse Tom m y.

— Afinal, não sei o que você viu de tão interessante —

retrucou Tuppence. — Há cinqüenta anos todo m undo colecionava este tipo de coisa. Era o passatem po das tardes de inverno.

— Não m e referia à charada. O que acho estranho são as palavras escritas abaixo dela.

— São Lucas, xi, 9 — leu Tuppence. — É da Bíblia.

— Isso m esm o. Você não acha estranho? Por que um a senhora religiosa escreveria coisas da Bíblia logo abaixo de um a charada?

— Realm ente é esquisito — concordou Tuppence.

— Você, na qualidade de filha de clérigo, bem que podia ter um a Bíblia com você, não é?

— E tenho m esm o. Ah, por essa você não esperava. Só um instantinho,

Tuppence foi até a m ala, pegou um pequeno volum e verm elho e voltou à m esa. Passou as páginas rapidam ente.

— Aqui está. Lucas, capítulo xi, versículo 9. Olhe, Tom m y !

Tom m y se inclinou para ver o que o pequeno dedo de Tuppence apontava.

“Procura e encontrarás.”

— É isso — exclam ou Tuppence. — Descobrim os!

Resolvem os o criptogram a e o tesouro é nosso — ou m elhor de Monica.

— Bem , então vam os trabalhar no criptogram a, com o você cham a. “Coloca-se no fogo e tem três sílabas”. O que será? Depois

— “Minha segunda é na verdade a prim eira.” Isto é puro palavreado.

— Na verdade é bem sim ples — disse Tuppence. — É um tipo de quebra-cabeça. Deixe-m e tentar.

Tom m y entregou-lhe de bom grado. Tuppence se aboletou num a poltrona e com eçou a resm ungar, sobrancelhas franzidas.

— Na verdade é bem sim ples — m urm urou Tom m y, m eia hora depois.

— Não cante vitória! Nossa geração não é indicada para esse tipo de coisa. Talvez sej a um a boa idéia voltar à cidade am anhã e pedir a um ancião que leia. Vai decifrar com toda a facilidade.

— Bom , vam os tentar de novo.

— Não há m uitas coisas que se possa botar no fogo — disse Tuppence, pensativa. — Pode-se colocar água, para apagá-lo, m adeira ou um a chaleira.

— Lem bre-se que tem que ter três sílabas; que tal m adeira?

— Mas o que pode caber dentro da m adeira?

— Sem ser m adeira, o que m ais se pode botar no fogo que tenha três sílabas?

— Frigideira — brincou Tuppence. — O que você acha de caçarola? E panelas? Esquecem os de panelas. Mas e o resto? Não com bina.

Eles foram interrom pidos pela em pregada que veio anunciar-lhes que o j antar seria servido em alguns m inutos.

— A Sra. Lum ley só gostaria de saber se preferem as batatas fritas ou cozidas? Tem os as duas qualidades.

— Batata frita — disse Tuppence, prontam ente. — Adoro batata... — Ela calou-se, a boca entreaberta.

— O que foi, Tuppence? Você viu um fantasm a?

— Tom m y — exclam ou ela —, você não com preendeu? É

isso. A palavra, Batatas! “Coloca-se no fogo e tem três sílabas” — é panela. “E m inhas três sílabas cabem todas lá dentro.” “Minha segunda é, na verdade, a prim eira” — isso é, a letra A, segunda de batata e a prim eira do alfabeto. E a segunda sílaba se repete na terceira: ta.

— Você está certa, Tuppence. Muito inteligente de sua parte.

Mas acho que perdem os um tem pão com um a coisa sem im portância. Batatas não com binam com tesouros perdidos. Ei, espere aí. O que você leu há pouco quando revirávam os a caixa?

Algum a coisa sobre um a receita para batatas novas. Será que tem algum a coisa a ver com isso?

Ele passou rapidam ente os olhos pelas receitas.

— Está aqui. “PARA PRESERVAR BATATAS NOVAS”.

Coloque as batatas em latas e enterre-as no j ardim . Mesm o em pleno inverno, terão um sabor delicioso.

— É isso. Descobrim os — gritou Tuppence. — O tesouro está enterrado no j ardim , dentro de um a lata.

— Mas perguntei ao j ardineiro. Ele m e disse que nunca enterrou nada.

— Sim , eu sei, m as isto é porque as pessoas nunca respondem àquilo que se pergunta m as sim aquilo que eles pensam que se perguntou. Ele sabe que nunca enterrou nada estranho. Am anhã vam os lá e perguntam os onde ele enterrou as batatas.

A m anhã seguinte era véspera de Natal. Depois de algum as perguntas chegaram à casinha do j ardineiro. Após alguns m inutos de conversa, Tuppence introduziu o assunto:

— Quem m e dera que pudesse obter batatas novas na época do Natal — observou ela. — Não ficaria gostoso com peru? As pessoas aqui têm o hábito de enterrá-las em latas? Ouvi dizer que isso faz com que se conservem frescas.

— É, enterram sim — declarou o velho. — A falecida Srta.

Deane, lá na Casa Verm elha, costum ava enterrar três latas todo verão, e, quase sem pre, esquecia de desenterrá-las de novo.

— Quase sem pre enterrava no canteiro, perto da casa, não é?

— Não, lá encostado no m uro, perto do abeto.

Munidos da inform ação necessária, eles logo se prepararam para sair, não sem antes presentear o velho com cinco shillings, com o presente de Natal.

— E agora vam os falar com Monica — disse Tom m y.

— Tom m y ! Você não tem nenhum a sensibilidade teatral.

Deixe com igo. Tenho um ótim o plano. Você acha que seria capaz de pedir, pegar em prestado ou roubar um a pá?

De um a m aneira ou de outra, conseguiram a pá e, tarde da noite, podia-se ver duas figuras penetrando clandestinam ente nos j ardins da Casa Verm elha. O lugar que o j ardineiro indicara foi encontrado com facilidade e Tom m y pôs-se a trabalhar. Pouco depois a pá bateu num m etal e, após segundos, ele desenterrou um a grande lata de biscoitos. Estava bem fechada com fita adesiva e firm em ente am arrada com um barbante; Tuppence soltou um gem ido: a lata estava cheia de batata. Ela esvaziou-a, m as não encontrou nada além das batatas.

— Continue cavando, Tom m y.

Passou-se algum tem po antes que a segunda lata lhes recom pensasse a busca. Com o da vez anterior, Tuppence abriu-a.

— E então? — perguntou Tom m y, ansioso.

— Batatas de novo.

— Droga! — disse Tom m y e recom eçou a cavar.

— A terceira vez é que traz sorte — consolou Tuppence.

— Acho que tudo não passa de logro — disse Tom m y, m elancólico, m as continuando a cavar.

Finalm ente um a terceira lata foi desenterrada.

— Batatas de no... — Tuppence calou-se. — Olhe, Tom m y, acham os. As batatas só estão por cim a. Olhe aqui!

Ela m ostrou-lhe um a bolsa antiga, de veludo.

— Vá para casa — disse Tom m y. — Está um frio dos diabos.

Leve a bolsa com você. Tenho que cobrir os buracos. E que m il raios lhe caiam sobre a cabeça se abrir esta bolsa antes que eu chegue, Tuppence.

— Não vou fazer suj eira. Nossa! Estou congelada. — E ela se foi em disparada. Mas não teve que esperar m uito. Tom m y chegou quase depois dela, suando m uito depois do esforço de cavar e de correr tanto.

— Agora — disse ele — os detetives particulares se saíram bem ! Abra a bolsa, Sra. Beresford.

Dentro da bolsa havia um em brulho e um a pesada bolsa de couro. Abriram prim eiro esta. Estava repleta de m oedas de ouro.

Tom m y as contou.

— Duzentas libras. Acho que foi tudo o que deixaram que ela tirasse. Vam os abrir o em brulho.

Tuppence foi quem o abriu. Estava cheio de notas bem enroladas. Tom m y e Tuppence contaram com todo o cuidado; a quantia era de exatam ente vinte m il libras.

— Meu Deus! A Monica é m esm o sortuda por serm os am bos ricos e honestos. O que é isso em brulhado em papel de seda?

Tuppence desenrolou o pequeno em brulho e apanhou um m agnífico colar de pérolas.

— Não entendo m uito destas coisas — disse Tom m y devagar.

— Mas tenho quase que certeza de que estas pérolas valem , pelo m enos, cinco m il libras. Olhe o tam anho delas. Agora entendo por que a velha guardou o artigo que dizia que pérolas são bom investim ento. Ela deve ter transform ado todas as ações em cédulas e j óias.

— Oh, Tom m y, não é m aravilhoso? Querida Monica, agora você pode-se casar com quem am a e viver feliz para sem pre, com o eu.

— Que delicadeza a sua, Tuppence. Quer dizer que você é feliz com igo?

— Para dizer a verdade, sou. Mas não queria revelar.

Escapou. Foi a em oção, a véspera do Natal, um a coisa e outra...

— Se você realm ente m e am a, pode m e responder um a coisa?

— Detesto estas arm adilhas — disse Tuppence — m as... está bem .

— Com o é que você sabia que Monica era filha de um clérigo?

— Ora, isso foi pura dedução — disse Tuppence, feliz. —

Abri a carta em que ela pedia um a entrevista e um Sr. Deane foi pároco auxiliar do m eu pai; tinha um a filhinha cham ada Monica, uns quatro ou cinco anos m ais nova do que eu. Daí cheguei à conclusão m ais óbvia.

— Você é m esm o incrível — disse Tom m y. — Olhe, j á é m eia-noite, Feliz Natal, Tuppence.

— Feliz Natal, Tom m y. Será um feliz Natal para Monica tam bém — e tudo por NOSSA causa. Estou contente. Coitadinha, estava tão infeliz. Sabe, Tom m y, quando penso nisso sinto um nó na garganta.

— Querida Tuppence — disse Tom m y.

— Querido Tom m y, estam os ficando tão sentim entais!

— Só há Natal um a vez por ano — sentenciou. — Foi isso que disseram nossas tataravós e espero que ainda haj a m uita verdade nisso.

CAPITULO XXII

AS BOTAS DO EMBAIXADOR

— Meu caro rapaz, m eu caro rapaz — disse Tuppence agitando na m ão um pãozinho barrado com m uita m anteiga.

Tom m y olhou-a durante um ou dois m inutos; um largo sorriso apareceu-lhe no rosto e ele m urm urou:

— Realm ente tem os que ter m uito cuidado.

— É isso m esm o — disse Tuppence, satisfeita. — Você adivinhou. Sou o fam oso Dr. Fortune e você o Superintendente Bell.

— Por que quer ser Reginald Fortune?

— Bem , na verdade é porque estou com vontade de com er m uita m anteiga derretida.

— Este é o lado desagradável — disse Tom m y, — Mas há outro. Você terá que exam inar rostos estraçalhados e toda espécie de cadáveres.

Com o resposta, Tuppence j ogou-lhe um a carta. Tom m y ergueu as sobrancelhas, atônito.

— Randolph Wilm ott, o Em baixador am ericano. O que será que ele quer?

— É o que vam os saber am anhã às onze horas.

Pontualm ente, na hora m arcada, Randolph Wilm ott, Em baixador dos Estados Unidos, foi levado ao escritório do Sr.

Blunt. Ele tem perou a garganta e com eçou a falar de m aneira vagarosa.

— Vim ter com o senhor, Sr. Blunt — a propósito, estou falando com o Sr. Blunt em pessoa, não estou?

— Certam ente — disse Tom m y. — Sou Theodore Blunt, o chefe da firm a.

— Prefiro sem pre lidar com os chefes de departam ento —

disse o Sr. Wilm ott. — É, em tudo e por tudo, m uito m ais satisfatório. Com o ia dizendo, Sr. Blunt, este negócio m e irrita.

Não há nada que obrigue a envolver a Scotland Yard — não m e afetou em nada e, provavelm ente, tudo se deve a um engano.

Mesm o assim , não consigo com preender o que deu m argem a este engano. Não há nada de crim inoso, m as m esm o assim gostaria de esclarecer tudo. Fico louco quando não atino com a causa de algum a coisa.

— Certam ente — disse Tom m y.

O Sr. Wilm ott continuou. Era lento e dado a m uitos detalhes. Por fim Tom m y conseguiu falar:

— Então, a situação é esta: o senhor chegou no navio Nomadic na sem ana passada. De algum a m aneira, sua m aleta e a de outro cavalheiro, Ralph Westerham , portanto as m esm as iniciais, foram trocadas. O senhor pegou a de Westerham e ele levou a sua. O Sr. Westerham logo deu pela coisa, m andou sua m aleta para a em baixada e levou a dele. Até aqui está certo?

— Foi exatam ente o que aconteceu. As duas m alas eram praticam ente idênticas e as iniciais R. W. sendo as m esm as, não é difícil de entender a causa do engano. Eu m esm o não percebi o que tinha acontecido até m eu criado inform ar-m e do ocorrido e o Sr. Westerham — ele é Senador e um hom em por quem tenho a m aior adm iração — m andar buscar a sua m ala e devolver a m inha.

— Então, não entendo...

— Mas vai entender. Este é só o com eço da história. Ontem , por acaso, encontrei-m e com o Senador Westerham e, em tom de brincadeira, m encionei o ocorrido. Para surpresa m inha, ele não sabia sobre o que estava falando e negou toda a história com veem ência. Ele não pegou m inha m ala por engano; na verdade, não havia artigo sem elhante na bagagem dele.

— Que coisa extraordinária.

— Sr. Blunt, é um a coisa extraordinária m esm o. Um a coisa sem sentido. Ora, se alguém quisesse roubar m inha m aleta, poderia fazê-lo facilm ente, sem lançar m ão de tantos rodeios.

Bem , de qualquer m odo, não foi roubada, m e foi devolvida. Por outro lado, se a pegaram por engano, por que usar o nom e do Senador Westerham ? Parece um a coisa sem pé nem cabeça e quero esclarecer tudo por m era curiosidade. Espero que não sej a um assunto m uito trivial para o senhor.

— De j eito nenhum . É um problem inha m uito intrigante, passível, com o o senhor disse, de m uitas explicações sim ples, m as, m esm o assim , desconcertante. A prim eira coisa é saber o motivo da substituição, se é que houve. Não faltava nada na m ala quando a devolveram ao senhor?

— Meu em pregado disse que não. Ele saberia.

— Desculpe-m e a pergunta, m as o que havia dentro dela?

— Botas.

— Botas — disse Tom m y, desanim ado.

— Sim — repetiu Wilm ott. — Botas. Estranho, não é?

— Desculpe-m e a pergunta, m as não levava nenhum docum ento secreto ou coisa parecida costurados nas botas ou enfiados num salto falso?

O Em baixador pareceu achar a pergunta engraçada.

— A diplom acia secreta não chegou a este ponto, acho.

— Só na ficção — disse Tom m y com um sorriso com o de quem se desculpa. — Mas o senhor com preende, a coisa tem que ter algum a explicação. Quem veio apanhar a m aleta? e refiro-m e à outra.

— Ele disse ser um dos em pregados de Westerham . Pelo que entendi, um hom em bem com um . Meu criado não viu nada de errado nele.

— Sabe se foi desfeita a m ala?

— Isso eu não posso assegurar, m as acho que não. Mas talvez o senhor queira fazer algum as perguntas a m eu em pregado.

Ele pode-lhe dizer m ais do que eu.

— Acho que seria m elhor, Sr. Wilm ott.

O Em baixador rabiscou algum as palavras num cartão e entregou-o a Tom m y.

— Não seria m elhor que fosse à Em baixada e fizesse as perguntas lá? Se preferir, nós o m andarem os aqui; o nom e dele é Richards.

— Não, obrigado, Sr. Wilm ott. Prefiro ir à Em baixada.

O Em baixador levantou-se, olhando para o relógio.

— Nossa, tenho hora m arcada e j á estou atrasado. Bem , até logo, Sr. Blunt. Deixo o assunto em suas m ãos.

Ele retirou-se, apressado. Tom m y olhou para Tuppence, que ficara anotando os dados no seu bloco, fazendo o papel de secretária eficiente.

— E então, m inha velha? — perguntou ele. — Você vê, com o disse ele, sentido nestes acontecim entos?

— Nenhum — respondeu Tuppence, anim ada.

— Bem , j á é um com eço. Dem onstra que há algo de bem sério por trás disso.

— Você acha?

— É a hipótese que geralm ente se aceita. Lem bre-se de Sherlock Holm es e do quanto a m anteiga entranhou na salsa —

trabalho de m aneira inversa. Sem pre tive um desej o louco de saber tudo sobre o caso. Talvez Watson o faça vir à baila um desses dias. Assim m orrerei contente. Então, m ãos à obra.

— É isso m esm o — disse Tuppence. — Não é um hom em m uito perspicaz, o estim ado Wilm ott, m as seguro.

— Ela conhece os hom ens — disse Tom m y. — Ou seria m elhor dizer ele conhece os hom ens. É m uito confuso quando você assum e as características de um detetive m asculino.

— Oh, m eu caro rapaz, m eu caro rapaz!

— Tuppence, um pouco m ais de ação e m enos repetição.

— Não se pode repetir um a frase clássica m uitas vezes —

disse Tuppence, séria.

— Com a um pãozinho — ofereceu Tom m y, gentil.

— Não às onze horas da m anhã, obrigada. Que caso bobo, esse. Botas. Por que botas?

— Bem , e por que não?

— Não se encaixa. Botas. — Ela balançou a cabeça. — Tudo errado. Quem quer as botas de outra pessoa? Parece tudo m eio louco.

— Possivelm ente se apossaram da m ala errada — sugeriu Tom m y.

— É possível. Mas se estavam atrás de docum entos, seria m uito m ais indicada um a pasta. Só se pensa em docum entos quando se fala de em baixadores.

— Botas sugerem pegadas — disse Tom m y, pensativo. —

Você acha que queriam deixar as pegadas de Wilm ott em algum lugar?

Tuppence pensou na sugestão, abandonando seu personagem , e balançou a cabeça.

— A m im parece im possível — disse ela. — Não, acho que tem os que aceitar o fato de que as botas não têm nada a ver com isto.

— Bem — disse Tom m y com um suspiro —, o próxim o passo é entrevistar nosso am igo Richards. Talvez ele esclareça algum a coisa.

Ao m ostrar o cartão do Em baixador, Tom m y foi prontam ente recebido na Em baixada e, pouco depois, um j ovem pálido, m odos sóbrios e voz suave se apresentou para se subm eter ao exam e.

— Sou Richards, senhor, criado do Sr. Wilm ott. O senhor queria m e ver?

— Sim , Richards. O Sr. Wilm ott foi-m e visitar esta m anhã e sugeriu-m e que viesse lhe fazer algum as perguntas. É sobre a m aleta.

— O Sr. Wilm ott ficou m uito aborrecido com este fato, eu sei.

Não entendo por que, j á que não houve nenhum prej uízo. Entendi que a outra m ala pertencia ao Senador Westerham , m as, é claro, posso ter-m e enganado.

— Com o era este hom em que veio buscar a m ala?

— De m eia-idade, cabelos grisalhos, m uito boa aparência —

respeitável. Entendi que era o criado do Senador Westerham . Ele deixou a m ala do Sr. Wilm ott e levou a outra.

— Ela chegou a ser desfeita?

— Qual delas?

— A que você trouxe do navio. Mas tam bém gostaria de saber sobre a outra — a do Sr. Wilm ott. Acha que chegou a ser desfeita?

— Acho que não, senhor. Estava da m esm a m aneira que eu arrum ei. Parece-m e que o cavalheiro — sej a ele quem for — a abriu e, percebendo que não era dele, fechou-a novam ente.

— Não está faltando nada? Nem um pequeno artigo?

— Não, acho que não; ou m elhor, tenho certeza.

— E quanto à outra. Chegou a desfazê-la?

— Na verdade, ia com eçar a abri-la quando chegou o em pregado do Senador Westerham . Só tirei as correias.

— Chegou a abri-la?

— Só a abrim os j untos para ter certeza de que, desta vez, não havia engano. O hom em disse que estava bem , colocou de novo as correias e foi em bora.

— E o que tinha dentro? Botas tam bém ?

— Não, a m aioria das coisas era de perfum aria, acho. Vi um pote de sais de banho.

Tom m y abandonou esta linha de raciocínio.

— Você não viu ninguém m exendo nas coisas do seu patrão enquanto estavam a bordo, viu?

— Ah, não senhor.

— Nada suspeito, de espécie algum a?

— E afinal o que quer dizer com isso? — pensou Tom m y, quase a rir. — Algum a coisa suspeita... só palavras!

Mas o hom em hesitou:

— Agora estou m e lem brando...

— Sim — disse Tom m y, ansioso. — O quê?

— Acho que não tem nada a ver com isso. Mas havia um a j ovem .

— Sim , um a j ovem . E o que estava fazendo?

— Ela estava desm aiando. Um a j ovem m uito agradável. O

nom e dela era Eileen O’Hara. Bonita, não era alta, cabelos pretos.

Parecia estrangeira.

— E então? — disse Tom m y, cada vez m ais ansioso.

— Com o ia dizendo, ela se sentiu m al. Bem em frente à cabine do Sr. Wilm ott. Ela pediu-m e para ir cham ar o m édico.

Aj eitei-a no sofá e fui buscar o m édico. Levei algum tem po para encontrá-lo e, quando o levei até a cabine, a j ovem j á estava se sentindo bem .

— Ah! — exclam ou Tom m y.

— O senhor não pensa que...

— É difícil saber o que pensar — tergiversou. — Esta Srta.

O’Hara viaj ava sozinha?

— Acho que sim .

— Não a viu m ais depois que desem barcou?

— Não, senhor.

— Bem — disse Tom m y depois de pensar um ou dois m inutos. — Acho que isto é tudo. Obrigado, Richards.

— Eu que agradeço, senhor.

De volta ao escritório, Tom m y reproduziu para Tuppence a conversa que tivera com Richards; ela ouviu-o atentam ente.

— O que acha, Tuppence?

— Ora, m eu caro rapaz, nós os m édicos sem pre desconfiam os de um desm aio súbito! E tão conveniente! Desconfio tam bém de Eileen e de O’Hara. Um tanto irlandês, não acha?

— Pelo m enos tem os algum ponto de partida. Sabe o que vou fazer, Tuppence? Vou colocar um anúncio.

— O quê?

— É, qualquer inform ação que diga respeito à Srta. Eileen O’Hara que viaj ou em tal navio, em tal data. Ou ela responderá pessoalm ente, se não estiver fingindo, ou alguém virá dar algum a inform ação sobre ela. Até agora, é a única m aneira de se ter um a pista.

— Mas não se esqueça de que tam bém vai alertá-la.

— É um risco que tenho que correr.

— Mesm o assim ainda não vej o nenhum sentido na coisa —

disse Tuppence, testa franzida. — Se um a quadrilha de vigaristas se apossa da m ala do em baixador por um a ou duas horas e depois a devolve, não sei que vantagem tiraria disso. A não ser que houvesse docum entos que quisessem copiar m as o Sr. Wilm ott j ura que não havia nada deste tipo.

Tom m y olhou-a, pensativo.

— Você coloca as coisas m uito bem , Tuppence — disse ele, finalm ente. — Você m e deu um a idéia.

Passaram -se dois dias. Tuppence fora alm oçar. Tom m y, sozinho no austero escritório do Sr. Theodore Blunt, aperfeiçoava-se lendo o últim o livro de m istério.

A porta do escritório se abriu e Albert apareceu.

— Há um a j ovem que quer vê-lo; Srta. Cicely March. Disse que vem respondendo a um anúncio.

— Faça-a entrar im ediatam ente — disse Tom m y, j ogando o rom ance convenientem ente dentro de um a gaveta.

Um m inuto depois Albert fez a j ovem entrar. Tom m y só teve tem po de ver que era loura e m uito bonita quando o fato estranho aconteceu.

A porta pela qual Albert acabara de passar foi aberta com violência. Por ela entrou um a figura pitoresca — um hom enzarrão m oreno, aparência de espanhol, gravata verm elha. As feições, alteradas pelo ódio, e na m ão, um a pistola brilhante.

— Então este é o escritório do Sr. Abelhudo Blunt — disse num inglês perfeito. A voz era baixa, rancorosa. — Mãos ao alto —

ou atiro.

Não pareceu sim ples am eaça. Tom m y levantou as m ãos, obediente. A m oça, encostada na parede, soltou um suspiro, horrorizada.

— Esta j ovem vem com igo — disse o hom em . — Ah, sim , você vem , m inha querida. Nunca m e viu antes, m as isso não im porta. Não posso deixar que um a pirralha com o você arruíne m eus planos. Lem bro-m e de que era um a das passageiras do Nomadic. Deve ter bisbilhotado coisas que não lhe dizem respeito

— m as não pretendo deixar que você revele nenhum segredo ao Sr. Blunt. Um hom em m uito inteligente, Sr. Blunt, com o seus anúncios. Mas o negócio é que sem pre dou um a lida nos classificados. Foi assim que fiquei sabendo deste j oguinho.

— O senhor m e interessa sobrem aneira — disse Tom m y. —

Não quer prosseguir?

— A insolência não lhe vai adiantar nada, Sr. Blunt. Daqui por diante o senhor é um hom em m arcado. Desista desta investigação que nós o deixarem os em paz. Caso contrário — que Deus o aj ude! A m orte vem a galope para aqueles que frustram nossos planos.

Tom m y não respondeu; olhava por sobre o om bro do intruso com o se tivesse visto um fantasm a.

Na verdade, estava vendo algo que o deixava m ais apreensivo do que um fantasm a. Até agora, não pensava em Albert com o um a parte atuante do j ogo. Tinha com o certo que o m isterioso hom em j á se livrara dele. Se chegou a pensar nele, foi estendido no tapete da ante-sala.

Agora via que Albert escapara m ilagrosam ente da atenção do estranho. Mas, em lugar de correr para apanhar um guarda, à boa m aneira inglesa, Albert decidira agir sozinho. Por trás do estranho a porta se abria silenciosam ente; na fresta da porta, Albert, com um a corda.

Tom m y soltou um desesperado grito de protesto, m as tarde dem ais. Movido pelo entusiasm o, Albert j ogou um laço de corda sobre a cabeça do estranho, fazendo-o cair para trás.

O inevitável aconteceu. A pistola disparou com um estam pido e Tom m y sentiu a bala roçar-lhe a orelha na sua traj etória para ir enterrar-se na parede, atrás dele.

— Peguei-o, senhor — gritou Albert, entusiasm ado com o triunfo. — Eu o lacei. Vinha praticando o laço nas m inhas horas de folga. Pode-m e aj udar? Ele é m uito violento.

Tom m y apressou-se em aj udar o fiel escudeiro, determ inando m entalm ente que Albert não deveria ter m ais horas de folga.

— Seu idiota desgraçado — disse ele. Por que não foi buscar um policial? Por causa desta sua brincadeira idiota, quase perco a cabeça. Puxa, escapei por um triz.

— Lacei-o na hora H — disse Albert, seu entusiasm o em nada dim inuído. — É m aravilhoso o que esses rapazes fazem nos prados.

— É m esm o, m as não estam os nos prados. Por acaso estam os num a cidade altam ente civilizada. E agora, m eu querido senhor — acrescentou ele, dirigindo-se ao prostrado inim igo. — O

que vam os fazer com você?

Um rosário de im precações em língua estrangeira foi sua única resposta.

— Cale a boca — disse Tom m y. — Não entendo um a palavra do que diz m as tenho o pressentim ento de que não é um a linguagem que se deva em pregar diante de um a dam a. Vai desculpá-lo, não é, Srta.? sabe, com o calor deste pequeno aborrecim ento, esqueci-m e de seu nom e.

— March — disse a m oça. Ela ainda estava pálida e trem ia.

Mas se aproxim ou de Tom m y olhando para a im óvel figura do frustrado estranho. — O que vai fazer com ele?

— Eu poderia ir apanhar um guarda agora — disse Albert, querendo aj udar.

Mas Tom m y percebeu o leve m ovim ento de cabeça da m oça e agiu de acordo:

— Vam os deixá-lo livre, desta vez — observou ele. — Mas vou m e dar o prazer de chutá-lo escada abaixo — pelo m enos para ensinar-lhe bons m odos diante de um a dam a.

Ele tirou a corda, com um puxão o pôs de pé e em purrou-o porta afora.

Ouviu-se um a série de gritos estridentes e depois um baque surdo. Tom m y voltou, corado e sorrindo.

A m oça fitou-o com olhos arregalados.

— O senhor o m achucou?

— Espero que sim — disse Tom m y. — Mas esses gringos sem pre gritam antes de se m achucarem — por isso não tenho certeza. Vam os voltar ao escritório, Srta. March, e retom ar nossa conversa? Acho que não serem os interrom pidos de novo.

— Deixarei m eu laço pronto, senhor, por via das dúvidas —

disse o cooperativo Albert.

— Guarde-o — ordenou Tom m y, sério.

Ele entrou com a m oça no escritório, sentou-se à escrivaninha enquanto ela ocupou um a cadeira em frente a ele.

— Não sei bem por onde com eçar — disse a m oça. — Com o ouviu o m oço dizer, era um a passageira no Normadic. A m oça que o senhor anunciou, Srta. O’Hara, tam bém estava a bordo.

— Exatam ente — disse Tom m y. — Isso j á sabem os, m as desconfio que deva saber algum a coisa do que ela fez a bordo; caso contrário este pitoresco cavalheiro não teria tanta pressa de interferir.

— Vou contar-lhe tudo. O Em baixador am ericano estava a bordo. Um dia, quando passava pela cabine dele, vi esta m ulher lá dentro, e ela fazia um a coisa tão extraordinária que parei para olhar. Ela estava segurando a bota de um hom em ...

— Um a bota — exclam ou Tom m y, anim ado. — Desculpe, Srta. March, continue.

— Com um a tesourinha ela estava tirando o forro. Depois, m e pareceu que colocou algum a coisa lá dentro. Neste m esm o m inuto o m édico e outro hom em chegaram e ela, im ediatam ente, se j ogou no sofá e gem eu. Esperei, e pelo que estava sendo dito deduzi que ela fingiu desm aiar. Eu digo fingiu porque logo que a vi era óbvio que não estava sentindo nada.

Tom m y anuiu.

— E depois?

— Não m e agrada nada contar-lhe a outra parte. Eu fiquei curiosa. E tam bém andei lendo uns livros bobos e fiquei im aginando se ela não teria posto um a bom ba, um a agulha envenenada ou qualquer coisa do tipo na bota do Sr. Wilm ott. Sei que é absurdo — m as foi o que pensei. O fato é que da outra vez que passei pela cabine ela estava vazia; entrei para exam inar a bota. Tirei do forro um a tira de papel. Logo que o peguei, ouvi o cam aroteiro se aproxim ando e saí apressada para não ser pega.

Levei o papel com igo. Quando cheguei a m inha cabine eu o exam inei. Sr. Blunt, nada m ais era do que alguns versículos da Bíblia.

— Versículos da Bíblia — repetiu Tom m y, intrigado.

— Pelo m enos foi o que pensei na hora. Não podia entender m as achei que talvez fosse trabalho de algum m aníaco religioso.

Bem , achei que não valia a pena recolocá-lo. Guardei o papel, sem pensar m ais nele até ontem , quando o usei para fazer um barco para m eu sobrinho. Assim que o papel ficou m olhado, vi um desenho esquisito se form ar. Tirei logo o papel da banheira e desdobrei-o. Com a água, um a m ensagem secreta se revelou. Era um a espécie de desenho — parecia a boca de um porto. Logo depois disso li o seu anúncio.

De um salto, Tom m y pôs-se de pé.

Continuar: parte 5 de 5