Sócios no Crime
— O que o trouxe aqui hoj…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Mais ou m enos isso.
— E quanto a m im ? Qual é m eu conhecim ento profundo?
Sobre m aridos que saem com garotas, etc.?
— Não — disse Tuppence, séria. — Você conhece o cam po de golfe — j á esteve lá várias vezes — não com o detetive atrás de pistas m as com o j ogador. Você sabe m uito sobre este esporte e o que é capaz de tirar um hom em do j ogo.
— Só um a coisa m uito séria poderia tirar Sessle do j ogo. Seu handicap é dois e a partir do sétim o t ele j ogou feito um a criança, pelo que disseram .
— Quem disse?
— Barnard e Lecky. Jogavam bem atrás dele, não se esqueça.
— Isto foi depois que ele encontrou a tal m ulher — a de roupa m arrom . Eles o viram falando com ela, não é?
— Viram — pelo m enos...
Tom m y calou-se. Tuppence olhou-o e viu que estava confuso. Olhava para o barbante que tinha nas m ãos m as com olhos de quem vê algo m uito diferente.
— Tom m y — o que foi?
— Fique quieta, Tuppence. Estou j ogando o sexto buraco em Sunningdale. Sessle e o velho Hollaby estão no sexto green à m inha frente. Escurece, m as posso ver perfeitam ente o casaco azul de Sessle. E na calçada, à m inha esquerda, um a m ulher se aproxim a. Ela não veio do cam po fem inino — fica à direita —, eu a veria se tivesse vindo dali. E é estranho não tê-la visto na calçada antes, por exem plo, do quinto t.
Ele fez um a pausa.
— Você acabou de dizer que conheço o cam po, Tuppence.
Logo atrás do sexto t há um a pequena cabana ou abrigo feito de relva. Qualquer um poderia esperar lá — até o m om ento exato.
Poderiam m udar a aparência lá. Quer dizer — diga-m e, Tuppence, é aqui que seu conhecim ento especial entra em cena de novo —
seria difícil para um hom em parecer com um a m ulher e depois voltar a ser um hom em de novo? Poderia usar, por exem plo, um a saia sobre os calções de golfe?
— Sem dúvida. A m ulher pareceria um pouco gorda, só isso.
Seria necessário um a saia com prida m arrom , um suéter m arrom que tanto m ulher quanto hom em usam e um chapéu de feltro fem inino com cachos de cabelos presos em cada lado. Só isso seria necessário; é claro que estou falando do que se passaria a distância, que acho que é onde você quer chegar. Tirando a saia, o chapéu e os cachos, vestindo um boné m asculino, que se pode carregar enrolado na m ão, e pronto — volta-se a ser hom em de novo.
— E quanto é preciso para a transform ação?
— De m ulher para hom em um m inuto e m eio no m áxim o, talvez m enos. O inverso levaria m ais tem po, a pessoa teria que arrum ar um pouco o chapéu e os cachos; a saia tam bém ficaria presa sobre os calções.
— Isso não m e preocupa. Só interessa o tem po do prim eiro.
Com o lhe dizia, estou j ogando no sexto buraco. A m ulher de m arrom chegou ao sétim o t agora. Ela o atravessa e espera.
Sessle, no seu casaco azul, vai na direção dela. Ficam parados j untos por um m inuto, e depois dão um a cam inhada por onde não se pode vê-los. Hollaby está sozinho no t. Passam -se dois ou três m inutos. Eu estou no green agora. O hom em de casaco azul volta e com eça a fazer j ogadas desastrosas. Escurece cada vez m ais.
Meu parceiro e eu continuam os. À nossa frente estão aqueles dois, Sessle fazendo tudo que não deveria. No oitavo green eu o vej o ir em bora e desaparecer. O que aconteceu a ele para fazê-lo j ogar com o se fosse outro hom em ?
— A m ulher de m arrom — ou o hom em , se você pensa que era um hom em .
— Exatam ente, e onde estavam — onde ninguém podia vê-
los — há um em aranhado de arbustos. Pode-se j ogar um corpo lá e saber que só vai ser descoberto na m anhã seguinte.
— Mas Tom m y ! Alguém teria ouvido...
— Ouvido o quê? Os m édicos estão de acordo: a m orte deve ter sido instantânea. Vi hom ens m orrerem assim na guerra.
Geralm ente não gritam ; gem em , sussurram ou até tossem . Sessle aproxim a-se do sétim o t e a m ulher vem em sua direção e fala com ele. Ele a reconhece, talvez, com o o hom em que conhece, disfarçado. Curioso para saber o porquê e para que, deixa-se levar pela calçada, onde não se pode m ais vê-los. Um a investida com o alfinete m ortal enquanto cam inham . Sessle cai — m orto. O outro hom em arrasta o corpo para o em aranhado de arbustos, tira-lhe o casaco azul e esconde a saia, o chapéu e os cachos. Veste o conhecido casaco de Sessle, o boné e volta ao t. Três m inutos seriam necessários. Os que estão atrás não lhe podem ver o rosto, só o conhecido casaco azul. Não duvidam de que se trata de Sessle
— mas ele não joga como Sessle. Todos viram que j ogava com o se fosse outro hom em . Era outro hom em .
— Mas...
— Ponto n.° 2: A iniciativa de levar a garota até lá foi de outro homem. Não foi Sessle que encontrou Doris Evans num cinem a e a induziu a ir a Sunningdale. Foi um hom em que se cham ou de Sessle. Lem bre-se que Doris Evans só foi presa quinze dias depois. Ela nunca viu o corpo. Se o visse causaria espanto a todos declarando que aquele não era o hom em que a levou ao cam po de golfe aquela noite e que falou de m aneira tão violenta sobre suicídio. Foi tudo m uito bem planej ado: a m oça convidada para ir à casa de Sessle na quarta-feira, quando não havia ninguém lá, e o alfinete de chapéu que incrim inaria um a m ulher.
O assassino se encontra com a m oça, leva-a ao bangalô e j antam j untos; depois ele a leva ao cam po de golfe e quando chega ao local do crim e agita o revólver e assusta a m oça a m ais não poder.
Quando ela j á está longe, tudo o que ele tem a fazer é arrastar o corpo e deixá-lo lá no t. Faz o revólver desaparecer nos arbustos.
Depois faz um em brulho da saia e, agora adm ito que estou conj ecturando, m as tudo indica que tenha andado até Wolking, que fica a apenas uns dez quilôm etros de distância e de lá volta à cidade.
— Espere um pouco — disse Tuppence. — Tem um a coisa que você não explicou: e o Hollaby ?
— Hollaby ?
— É. Adm ito que as pessoas que vinham atrás não podiam ver se era Sessle ou não. Mas não vá m e dizer que a pessoa que j ogava com ele ficou tão hipnotizada pelo casaco azul que não olhou para o rosto dele.
— Minha velha — disse Tom m y. — Este é exatam ente o ponto. Hollaby sabia m uito bem . Estou adotando a sua teoria de que Hollaby e o filho são os verdadeiros defraudadores. O
assassino tem que ser m uito íntim o de Sessle pois sabia, por exem plo, que os em pregados saíam às quartas-feiras e que a m ulher estava fora. E tam bém alguém que pudesse tirar o m olde da fechadura de Sessle. Acho que Hollaby, o filho, preencheria todos esses quesitos. Tem m ais ou m enos a m esm a idade e altura de Sessle e am bos não usavam barba. Provavelm ente Doris Evans viu várias fotografias da vítim a no j ornal m as, com o você m esm a observou, só se vê que é um hom em , nada m ais.
— Ela chegou a ver Hollaby no tribunal?
— O filho nunca apareceu no caso. Por que apareceria? Não tinha nenhum testem unho a dar. Todo o tem po o velho Hollaby, com seu álibi irretocável, foi o alvo das atenções. Ninguém se lem brou de perguntar o que fazia o filho naquela tarde.
— Tudo se encaixa perfeitam ente — adm itiu Tuppence.
Calou-se por um instante e depois perguntou: — Você vai contar tudo isso à polícia?
— Não sei se escutariam .
— É claro que sim — disse inesperadam ente alguém atrás deles.
Tom m y virou-se e viu o Inspetor Marriot. Sentava-se à m esa próxim a à deles. Defronte dele, um ovo pochê.
— Venho m uitas vezes alm oçar aqui — disse o Inspetor. —
Com o dizia, a polícia escutaria — na verdade; eu estava escutando. Sabe, não ficam os satisfeitos com a contabilidade da Porcupine. Suspeitávam os de Hollaby m as não tínham os nenhum a prova. Muito esperto para nós. Depois veio o assassinato que j ogou por terra nossas teorias. Mas graças ao senhor e à senhora, farem os um a acareação do j ovem Hollaby com Doris Evans e vam os ver se ela o reconhece. Tenho certeza de que reconhecerá. Esta idéia do casaco azul foi genial. Vou providenciar para que os Brilhantes Detetives de Blunt tenham os m éritos deste caso.
— O senhor é m uito gentil, Inspetor Marriot — disse Tuppence, agradecida.
— Pensam os m uito em vocês na Scotland Yard — respondeu o im perturbável cavalheiro. — Ficariam surpresos. Posso perguntar-lhe qual é o significado desde barbante?
— Nada — disse Tom m y, colocando-o dentro do bolso. — Um vício m eu. Quanto à torta de queij o e o leite, estou em regim e.
Dispepsia nervosa. Os hom ens ocupados são sem pre escravos dela.
— Ah — exclam ou o detetive. — Pensei que, talvez, tivesse lido... bom , não tem im portância.
Mas o Inspetor piscou o olho.
CAPÍTULO XVII
MORTE À ESPREITA
— O que... — com eçou Tuppence e calou-se.
Acabara de entrar no escritório particular do Sr. Blunt e surpreendeu seu m estre e senhor com os olhos cravados no buraquinho que dava para a ante-sala.
— Shhh — advertiu Tom m y. — Não ouviu a cam painha? É
um a m oça — aliás bem bonita, trem endam ente bonita, para falar a verdade. Albert está j ogando aquela baboseira de que estou ocupado, falando com a Scotland Yard.
— Deixa eu ver — pediu Tuppence.
Tom m y afastou-se, um pouco relutante. Tuppence grudou o olho no buraquinho.
— Nada m au — adm itiu Tuppence. — E as roupas dela são a últim a m oda.
— Um a coisa adorável — disse Tom m y. — Parece dessas garotas sobre quem Mason escreve, sabe, trem endam ente com preensiva, bonita, m uito inteligente e sem ser petulante. Acho que vou ser o grande Hanaud esta m anhã. É isso m esm o.
— Hum m ... se há um detetive que não tem nada a ver com você é Hanaud. Você pode m udar a personalidade? Pode ser um grande com ediante, o m enininho abandonado, o am igo sério e com preensivo — tudo em cinco m inutos?
— Sei de tudo isso — disse Tom m y, batendo na m esa. — Sou o Capitão do Navio e não se esqueça disso, Tuppence. Vou fazê-la entrar.
Ele apertou a cam painha da m esa. Albert apareceu trazendo a cliente.
A m oça parou à soleira da porta, com o que indecisa. Tom m y aproxim ou-se.
— Entre, mademoiselle — disse, gentilm ente —, e sente-se aqui.
Tuppence sufocou o riso e Tom m y voltou-se para ela, m udando rapidam ente de com portam ento. Seu tom era am eaçador.
— Falou algum a coisa, Srta. Robinson? Ah, não, foi o que pensei.
Tom m y voltou-se novam ente para a m oça.
— Não serem os sérios nem form ais — disse ele. — Conte-m e tudo e discutirem os a m elhor m aneira de aj udá-la.
— O senhor é m uito gentil — disse ela. — Desculpe-m e, m as é estrangeiro?
Tuppence sufocou novam ente o riso. Tom m y olhou-a de soslaio.
— Não é bem isso — disse com dificuldade. — Mas ultim am ente tenho trabalhado m uito fora do país. Meus m étodos são os da Sûreté.
— Oh! — A m oça parecia im pressionada.
Ela era, com o salientara Tom m y, um a m oça encantadora.
Jovem , m agra, um cacho de cabelos dourados saindo do pequeno chapéu de feltro m arrom , grandes e sérios olhos.
Que estava nervosa era evidente. Não parava de torcer as m ãos e pegar a todo m inuto no fecho da bolsa de verniz.
— Em prim eiro lugar, Sr. Blunt, m eu nom e é Lois Hargreaves. Moro num a grande e antiquada casa cham ada Thurnly Grange. É bem no cam po. Há um a cidade perto, Thurnly, m as é m uito pequena e insignificante. No inverno há m uita caça e no verão j ogam os tênis; nunca m e senti sozinha lá. Na verdade, prefiro a vida do cam po do que a da cidade.
— Estou-lhe contando isso para que possa com preender que num a pequena cidade com o a nossa, tudo o que acontece é de suprem a im portância. Há um a sem ana, recebi um a caixa de chocolates, pelo correio. Não havia nada dentro da caixa que indicasse a pessoa que a m andou. Eu pessoalm ente não gosto m uito de chocolate m as as pessoas lá em casa gostam , de m odo que a caixa passou de m ão em m ão. Aconteceu que todos os que com eram os chocolates adoeceram . Cham am os o m édico e, depois de várias perguntas sobre o que as pessoas com eram , ele levou o que sobrou do chocolate para que fosse analisado. Sr. Blunt, m isturaram arsênico no chocolate. Não em quantidade bastante para m atar, m as o suficiente para deixar qualquer um bastante doente.
— Extraordinário — com entou Tom m y.
— O Dr. Burton ficou m uito preocupado. Parece que foi a terceira vez que isso aconteceu na vizinhança. Em todos os casos, escolheram um a casa grande e os m oradores ficaram doentes depois de com erem os m isteriosos chocolates. Parece que algum m aluco está querendo pregar um a peça diabólica.
— É o que parece, Srta. Hargreaves.
— O Dr. Burton atribui o fato à agitação socialista, o que, na m inha opinião, é um absurdo. Em Thurnly há dois ou três descontentes que possivelm ente teriam algum a coisa a ver com isso. O Dr. Burton fez questão que eu fosse à polícia.
— Um a sugestão m uito natural — disse Tom m y. — Mas a senhorita não foi, não é?
— Não — adm itiu a m oça. — Detesto a confusão e publicidade inevitáveis. E tam bém conheço nosso inspetor local; nunca descobriria coisa algum a! Vi m uitas vezes seu anúncio e disse ao Dr. Burton que seria m uito m elhor cham ar um detetive particular.
— Com preendo.
— No seu anúncio se fala m uito de discrição. Entendo por isso que o senhor não tornaria nada público sem m eu consentim ento; é assim ?
Tom m y olhou-a cheio de curiosidade, m as foi Tuppence quem falou.
— Acho... — disse calm am ente — que seria bom se a Srta.
Hargreaves nos contasse tudo.
Ela enfatizou a últim a palavra e Lois Hargreaves corou.
— Sim — disse Tom m y depressa —, a Srta. Robinson tem razão. Tem que nos contar tudo.
— Vocês não... — ela hesitou.
— Tudo o que disser será em caráter estritam ente confidencial.
— Obrigada. Sei que tenho que ser franca com o senhor.
Tenho um m otivo para não ir à polícia. Sr. Blunt, aquela caixa foi m andada por alguém lá de casa.
— Com o sabe disso, mademoiselle?
— É m uito sim ples. Tenho m ania de desenhar um a coisa boba — três peixinhos interligados — sem pre que estou com um lápis na m ão. Um a loj a de Londres m andou-m e um em brulho contendo um par de m eias. Estávam os tom ando café da m anhã.
Sem pensar, com ecei a desenhar os tais peixinhos na etiqueta do em brulho antes de abri-lo. Não pensei m ais no assunto m as quando exam inei o papel pardo em que foi em brulhada a caixa de chocolate, vi o cantinho da etiqueta original. Meu desenho estava lá.
Tom m y chegou a cadeira para a frente.
— Isto é m uito sério. Cria, com o a senhorita diz, um a forte suposição de que a pessoa que m andou os chocolates m ora na sua casa. Mas, desculpe-m e, ainda não entendo por que este fato a im pediu de ir à polícia.
Lois Hargreaves encarou-o.
— Vou-lhe dizer, Sr. Blunt, posso querer que tudo sej a abafado.
Tom m y saiu-se bem da situação:
— Neste caso — m urm urou — sabem os onde tem os os pés.
Pelo que vej o, a senhorita não está disposta a nos dizer de quem suspeita.
— Não desconfio de ninguém — m as há possibilidades.
— Perfeitam ente. Poderia então descrever-m e, com detalhes, as pessoas que m oram com a senhorita?
— Com exceção da arrum adeira, todos os em pregados são antigos, estão conosco há m uitos anos. Quero explicar-lhe, Sr.
Blunt, que fui criada por m inha tia, Lady Radcly ffe, um a senhora extrem am ente rica. O m arido fez um a grande fortuna e foi nom eado cavaleiro. Foi ele quem com prou Thurnly Grange, m as m orreu dois anos depois de se m udar para lá; foi então que Lady Radcly ffe convidou-m e para m orar com ela. Eu era sua única parenta viva. O outro m orador da casa era Dennis Radcly ffe, sobrinho do m arido. Sem pre o cham ei de prim o m as na verdade não o é. Tia Lucy sem pre disse abertam ente que pretendia deixar o dinheiro para Dennis e um a pequena quantia para m im . O
dinheiro era de Radcly ffe, dizia ela, e devia ir para as m ãos de um Radcly ffe. Entretanto, quando Dennis tinha vinte e dois anos, ela discutiu violentam ente com ele — sobre algum as dívidas que ele fez, acho. Quando ela m orreu, um ano depois, fui pega de surpresa: deixara todo o dinheiro para m im , em testam ento. Sei que foi um grande golpe para Dennis e m e senti constrangida.
Teria dado o dinheiro a ele, se o recebesse, m as parece que isso não pode ser feito. Entretanto, quando com pletei vinte e um anos, fiz um testam ento deixando tudo para ele. Era o m ínim o que eu podia fazer. De m odo que se for atropelada por um autom óvel, ele tom a posse de tudo.
— Exatam ente — disse Tom m y. — E quando fez vinte e um anos?
— Há apenas três sem anas.
— Ah — exclam ou Tom m y. — Agora pode-m e dar os porm e-nores dos m em bros da casa?
— Em pregados — ou outros?
— Am bos.
— Os em pregados, com o eu disse, j á estão conosco há algum tem po. A Sra. Holloway, a cozinheira e sua sobrinha Rose, a copeira. Há duas em pregadas m ais velhas e Hannah, em pregada de m inha tia, que sem pre se dedicou a m im . A arrum adeira se cham a Esther Quant e parece ser um a m oça calm a, boa. Quanto a nós, tem a Srta. Logan, com panheira de tia Lucy e que dirige a casa para m im , o Capitão Radcly ffe — Dennis, sobre quem lhe falei, e um a m oça cham ada Mary Chilcott, um a am iga de colégio que está conosco agora.
Tom m y pensou por um m om ento.
— Tudo m e parece bastante claro e obj etivo, Srta.
Hargreaves — disse ele depois de um m inuto ou dois. — Então não tem m otivo para desconfiar m ais de um a pessoa do que da outra? Só tem m edo de que não sej a — bem — não sej a um em pregado, digam os assim ?
— Exatam ente, Sr. Blunt. Honestam ente, não tenho a m ínim a idéia de quem usou aquele papel. Usaram letra de fôrm a.
— Parece que só nos resta um a coisa a fazer — disse Tom m y. — Tenho que ir ao local.
A m oça lançou-lhe um olhar interrogativo.
Depois de pensar um pouco, Tom m y continuou.
— Sugiro que prepare o cenário para a chegada de, vam os dizer, Sr. e Srta. Van Dusen, seus am igos am ericanos. Pode fazer isso com naturalidade?
— Ah, claro. Sem a m ínim a dificuldade. Quando vêm , am anhã, ou depois de am anhã?
— Am anhã. Não há tem po a perder.
— Está com binado, então.
A m oça levantou-se e estendeu a m ão.
— Um a coisa, Srta. Hargreaves: nem um a palavra, a ninguém , de que não som os o que parecem os ser.
— O que acha, Tuppence? — perguntou ele, depois de levar a visitante à porta.
— Não m e agrada — disse ela, com decisão. —
Especialm ente não m e agrada o fato de ter tão pouco arsênico no chocolate.
— Porquê?
— Não entende? Esse negócio de o chocolate ter sido m andado para toda a vizinhança é pura sim ulação. Só para difundir a idéia de um m aníaco local. Então, se realm ente a m oça m orresse envenenada, todos pensariam se tratar da m esm a coisa.
Se não fosse por pura sorte, ninguém poderia supor que alguém da própria casa m andou os chocolates.
— Foi realm ente sorte. Tem razão. Você acha que é um plano contra a m oça?
— Acho que sim . Lem bro-m e de ter lido sobre o testam ento de Lady Radcly ffe. Esta m enina entrou num a bolada.
— É, e depois de com pletar a m aioridade, há três sem anas, fez um testam ento. As coisas estão pretas — para Dennis Radcly ffe. Ele lucra com a m orte dela.
Tuppence assentiu.
— O pior é que ela tam bém pensa assim ! Por isso não quis cham ar a polícia. Desconfia dele. E deve estar m uito apaixonada por ele para agir com o agiu.
— Neste caso — disse Tom m y, pensativo —, por que não se casa com ela, ora!? Muito m ais sim ples e seguro.
Tuppence encarou-o.
— Você disse um a coisa m uito im portante — observou ela.
— Nossa, j á estou m e preparando para ser a Srta. Van Dusen.
— Por que apelar para o crim e quando há um a solução legal à m ão?
Tuppence pensou alguns m inutos.
— Já sei — anunciou ela. — Deve ter-se casado com um a garçonete quando estava em Oxford. Origem da briga com a tia.
Isso explica tudo.
— Então por que não m andar os chocolates envenenados para a garçonete? — sugeriu Tom m y. — Muito m ais prático.
Gostaria que não se precipitasse nessas conclusões, Tuppence.
— São deduções — disse Tuppence com m uita solenidade.
— Esta é sua prim eira corrida, m eu am igo, m as quando ficar vinte m inutos na arena...
Tom m y j ogou-lhe a alm ofada do escritório.
CAPÍTULO XVIII
MORTE À ESPREITA
(Continuação)
— Tuppence, escute, Tuppence, venha aqui.
Era hora do café, na m anhã seguinte. Tuppence saiu correndo do quarto e foi à sala. Tom m y andava de um lado para o outro, um j ornal aberto nas m ãos.
— O que aconteceu?
Tom m y voltou-se e entregou-lhe rapidam ente o j ornal, apontando para as m anchetes.
MISTERIOSO CASO DE ENVENENAMENTO
MORTES CAUSADAS POR SANDUÍCHES DE FIGO
Tuppence continuou a ler. O m isterioso envenenam ento por ptom aína ocorreu em Thurnly Grange. Até agora se tem conhecim ento das m ortes de Lois Hargreaves, a dona da casa, e da arrum adeira, Esther Quant. O Capitão Radcly ffe e a Srta.
Logan estão seriam ente doentes. A causa dos envenenam entos parece ser um a pasta de figo, usada em sanduíches, j á que outra m oça, a Srta. Chilcott, não com eu nenhum sanduíche e passa bem .
— Tem os que ir logo para lá — disse Tom m y. — Aquela m oça! Aquela m oça m aravilhosa! Droga, por que não fui logo para lá ontem ?
— Se tivesse ido — disse Tuppence — provavelm ente teria com ido um sanduíche e estaria m orto. Venha, vam os logo. Aqui diz tam bém que Dennis Radcly ffe está seriam ente doente.
— Provavelm ente fingindo, o vigarista.
Chegaram à pequena cidade de Thurnly por volta do m eio-dia. Um a senhora de olhos verm elhos abriu-lhes a porta quando chegaram a Thurnly Grange.
— Escute — disse Tom m y, antes que ela pudesse falar. —
Não sou repórter nem nada parecido. A Srta. Hargreaves foi verm e ontem e pediu-m e que viesse até aqui. Há alguém que eu possa ver?
— O Dr. Burton está aqui agora, se quer falar com ele —
disse a m ulher, hesitante. — Ou a Srta. Chilcott. Ela se encarregou de tudo.
Mas Tom m y preferiu a prim eira sugestão.
— O Dr. Burton — disse, autoritário. — Gostaria de vê-lo, j á que está aqui.
A senhora levou-os a um a pequena sala. Cinco m inutos depois a porta se abriu e um hom em alto, de idade avançada, om bros curvados e fisionom ia bondosa m as preocupada entrou.
— Dr. Burton — disse Tom m y. Ele m ostrou-lhe sua carteira profissional. — A Srta. Hargreaves visitou-m e ontem por causa dos chocolates envenenados. Vim para investigar o assunto a pedido dela, infelizm ente tarde dem ais.
O m édico olhou-o com curiosidade.
— É o Sr. Blunt?
— Sou. Esta é m inha assistente, Srta. Robinson.
O m édico inclinou-se para Tuppence.
— Diante das circunstâncias, não há necessidade de esconder nada. A não ser pelo episódio do chocolate, acredito que estas m ortes tenham sido provocadas por ptom aína, m as do tipo incom um , m ais virulento. Constatei inflam ação gastrointestinal e hem orragia. Assim , estou levando a pasta de figo para ser analisada.
— Acredita em envenenam ento por arsênico?
— Não. O veneno, se é que foi usado veneno, é m uito m ais potente e de ação m ais rápida. Parece-m e m ais um a poderosa toxina vegetal.
— Com preendo. Gostaria de saber, Dr. Burton, se o senhor tem absoluta certeza de que o Capitão Radcly ffe sofre da m esm a form a de envenenam ento?
O m édico olhou-o.
— O Capitão não tem nada, agora.
— Ah — exclam ou Tom m y. — Eu...
— O Capitão Radcly ffe m orreu às cinco horas da m anhã.
Tom m y ficou realm ente surpreso. O m édico preparou-se para sair.
— E a outra vítim a, a Srta. Logan? — perguntou Tuppence.
— Tenho m uitas esperanças de que se recupere, j á que sobreviveu até agora. Sendo j á um a senhora, o veneno parece ter tido m enos efeito. Vou transm itir-lhe o resultado da análise, Sr.
Blunt. Enquanto isso a Srta. Chilcott dirá qualquer coisa que queira saber, tenho certeza.
Enquanto falava a porta se abriu e apareceu um a m oça. Era alta, rosto bronzeado e calm os olhos azuis.
O Dr. Burton fez as apresentações necessárias.
— Estou contente por ter vindo, Sr. Blunt — disse Mary Chilcott. — Tudo isso é horrível. Há algum a coisa que queira saber?
— De onde veio esta pasta de figo?
— É de um tipo especial que vem de Londres. Muitas vezes a com em os aqui em casa. Ninguém desconfiou que este determ inado pote fosse diferente dos outros. Pessoalm ente não gosto de figo. Isto explica m inha im unidade. Não posso entender com o Dennis foi afetado, pois não estava na hora do chá. Talvez tenha pego um sanduíche quando chegou em casa.
Tom m y sentiu a m ão de Tuppence pressionar-lhe o braço levem ente.
— A que horas ele voltou? — perguntou ele.
— Não sei, m as posso averiguar.
— Obrigada, Srta. Chilcott. Não tem im portância. Espero que não se oponha a que interrogue os em pregados.
— Por favor, faça o que for preciso, Sr. Blunt. Estou quase louca. O senhor acha que foi crim e?
Os olhos dela transm itiam m uita ansiedade ao fazer a pergunta.
— Não sei o que pensar. Logo saberei.
— Sim , acho que o Dr. Burton vai m andar analisar a pasta.
Desculpando-se, ela saiu para falar com um dos j ardineiros.
— Você se encarrega das dom ésticas, Tuppence — disse Tom m y — enquanto eu vou até a cozinha. Escute, a Srta. Chilcott pode estar se sentindo m uito agitada, m as não aparenta.
Tuppence concordou apenas com um gesto, sem responder.
Marido e m ulher se encontraram m eia hora depois.
— Vam os com parar os resultados — disse Tom m y. — Os sanduíches eram para o chá e a arrum adeira com eu um — e foi aí que se estrepou. A cozinheira afirm a que quando Dennis Radcly ffe chegou j á tinham tirado a m esa de chá. Estranho — com o ele ficou envenenado?
— Ele voltou às quinze para as sete — disse Tuppence. — A em pregada o viu de um a das j anelas. Ele tom ou um coquetel antes do j antar — na biblioteca. Ela estava lavando o copo m as tive sorte de pegá-lo antes que ela o lavasse. Foi depois disso que se queixou de que passava m al.
— Ótim o — disse Tom m y. — Vou levar o copo para Burton, daqui a pouco. Mais algum a coisa?
— Gostaria que você visse Hannah, a velha em pregada. Ela é
— ela é estranha.
— O que você quer dizer com estranha?
— Ela m e parece um pouco m aluca.
— Deixe-m e vê-la.
Tuppence subiu as escadas à frente de Tom m y. Hannah tinha um a pequena sala própria. Sentava-se, erecta, num a cadeira alta. Nos j oelhos, um a Bíblia aberta. Não os olhou quando entraram . Em vez disso, continuou a ler alto para si m esm a.
“Deixe que os carvões incandescentes caiam sobre eles, que sejam lançados no fogo e no abismo e que nunca se levantem de novo.”
— Posso falar-lhe um m inuto? — perguntou Tom m y.
Hannah fez um gesto im paciente com as m ãos.
— Não é hora. O tem po corre. Vou perseguir meus inimigos e vou dominá-los; não voltarei enquanto não os tiver destruído. Está escrito. A palavra do Senhor veio a m im . Sou o açoite do Senhor.
— Louca de pedra — m urm urou Tom m y.
— Ficou assim o tem po todo — sussurrou Tuppence.
Tom m y apanhou um livro que estava aberto sobre a m esa.
Olhou o título e colocou-o furtivam ente no bolso.
De repente a velha se levantou e voltou-se para eles, am eaçadora.
— Saiam daqui. Sou o m angual do Senhor. O vento sopra —
e eu destruo. Os ím pios perecerão. Esta é um a casa do m al — do m al, estou-lhes dizendo. Cuidado com a ira do Senhor, de quem sou um a criada.
Ela avançou ferozm ente na direção deles. Tom m y achou m elhor fazer-lhe a vontade e se retirou. Enquanto fechava a porta, viu-a apanhar a Bíblia de novo.
— Será que ela foi sem pre assim ? — perguntou-se Tom m y.
Depois apanhou o livro no bolso.
— Olhe para isso. Leitura engraçada para um a em pregada ignorante.
Tuppence apanhou o livro.
— Matéria Médica — m urm urou. Abriu-o. — Edward Logan.
Ê um livro antigo. Tom m y, será que podíam os ver a Srta. Logan?
O Dr. Burton disse que estava m elhor.
— Devem os perguntar à Srta. Chilcott?
— Não. Vam os pedir à em pregada para perguntar-lhe.
Depois de um a pequena espera, foram inform ados de que a Srta. Logan os veria. Foram levados a um grande quarto com vista para o j ardim . Deitada na cam a, um a senhora de cabelos brancos, o delicado rosto m urcho pelo sofrim ento.
— Estive m uito doente — disse com voz fraca. — Não posso falar m uito m as Ellen m e disse que são detetives. Lois então foi consultá-los? Ela m e falou em fazer isso.
— Sim , Srta. Logan — disse Tom m y. — Não querem os cansá-la m as talvez possa-nos responder algum as perguntas. A em pregada, Hannah, ela é boa da cabeça?
Pelo olhar da Srta. Logan via-se que estava m uito surpresa.
— Ora, é. Ela é m uito religiosa — m as não há nada de errado com ela.
Tom m y entregou-lhe o livro que apanhara sobre a m esa.
— Este livro é seu, Srta. Logan?
— É. É um dos livros que m eu pai escreveu. Era um grande m édico, um dos pioneiros da terapia pelo soro.
Sua voz denunciava o orgulho que sentia.
— É isso m esm o. Bem que achei que o nom e m e era fam iliar
— m entiu Tom m y. — A Srta. em prestou-o a Hannah?
— A Hannah? — A Srta. Logan ergueu-se na cam a, indignada. — Claro que não. Não entenderia um a única palavra. É
um livro altam ente técnico.
— Sim , com preendo. Mesm o assim foi encontrado no quarto dela.
— Isto é vergonhoso. Não vou adm itir que os em pregados toquem no que é m eu.
— Onde deveria estar?
— Na estante da m inha sala de estar — ou — espere, em prestei-o a Mary. Ela é m uito interessada em ervas. Fez um a ou duas experiências na m inha pequena cozinha. Sabe, eu tenho um lugarzinho onde faço bebidas e com potas à m oda antiga. A querida Lucy, Lady Radcly ffe, adorava m eu chá de tanásia — um a coisa m aravilhosa para o resfriado de cabeça. Coitada de Lucy, era m uito suj eita a resfriados. Dennis tam bém . O pai dele era m eu prim o em prim eiro grau.
Tom m y interrom peu estas rem iniscências.
— E esta cozinha? Alguém m ais a usa além da Srta. e de Mary Chilcott?
— Hannah faz a lim peza. E tam bém ferve a água lá para o chá da m anhã.
— Obrigada, Srta. Logan — disse Tom m y. — Não há m ais nada que queira perguntar-lhe no m om ento. Espero que não a tenham os cansado m uito.
Ele saiu do quarto e desceu as escadas, sobrancelhas franzidas.
— Há algum a coisa aqui, m eu caro Sr. Ricardo, que não com preendo.
— Detesto esta casa — disse Tuppence, arrepiada. — Vam os dar um a volta a pé e tentar pensar com clareza.
Tom m y concordou e eles saíram . Prim eiro deixaram o copo na casa do m édico e depois partiram para um bom passeio no cam po enquanto discutiam o caso.
— Fica tudo m ais fácil quando se banca o bobo — disse Tom m y. — Esse negócio do Hanaud. Algum as pessoas podem pensar que não liguei. Mas sinto terrivelm ente. Acho que de algum a m aneira poderíam os ter evitado isso.
— Bobagem sua — disse Tuppence. — Não é com o se tivéssem os aconselhado Lois Hargreaves a não ir à Scotland Yard, ou coisa assim . Nada a teria feito cham ar a polícia. Se não tivesse vindo falar conosco, não teria feito nada.
— E o resultado seria o m esm o. É, Tuppence, você está certa. É m órbido censurar alguém por algum a coisa que não poderia evitar. O que gostaria agora é de m e sair bem .
— Coisa que não será nada fácil.
— Não. Há m uitas possibilidades m as, ao m esm o tem po, todas parecem im prováveis. Vam os supor que Dennis Radcly ffe tenha envenenado os sanduíches. Ele sabia que não estaria para a hora do chá. Parece viável.
— Sim — disse Tuppence —, está certo. Mas quando confrontam os esta possibilidade com o fato de que tam bém ele se envenenou, tem os que tirá-lo da j ogada. Não podem os nos esquecer de um a pessoa: Hannah.
— Hannah.
— Os fanáticos por religião fazem um a série de coisas estranhas.
— Mas isto a deixou bastante perturbada — disse Tom m y. —
Você tem que falar com o Dr. Burton sobre isso.
— Deve ter acontecido m uito rapidam ente — disse Tuppence. — Isso se nos guiarm os pelo que disse a Srta. Logan.
— Acho que este fanatism o religioso provoca perturbações —
disse Tom m y. — Quer dizer, você com eça cantando hinos religiosos no quarto com a porta aberta durante anos e então, de repente, se torna violenta.
— Certam ente há m ais fatos contra Hannah do que qualquer outra pessoa — disse Tuppence, pensativa. — Mas tenho um a idéia... — ela calou-se.
— Sim — disse Tom m y, para encoraj á-la.
— Não é bem um a idéia. Acho que é m ais um preconceito.
— Preconceito contra alguém ?
Tuppence assentiu.
— Tom m y, você gostou de Mary Chilcott?
Tom m y pensou.
— Gostei, acho que sim . Pareceu-m e bastante capaz e talvez um pouco obj etiva dem ais — m as um a pessoa em quem se pode confiar.
— Não achou estranho que não estivesse m ais abalada?
— Bem , por um lado, este é um ponto a favor dela. Se tivesse feito algum a coisa, faria questão de aparentar e enfatizar seus sentim entos.
— Isso é verdade — disse Tuppence. — Bem , de qualquer m aneira, m e parece que ela não tem nenhum m otivo para desej ar estas m ortes. Não sei em que esta carnificina a beneficiaria.
— Acho que nenhum dos em pregados teria m otivos tam bém .
— Acho que não. Parece um pessoal bom , de confiança.
Com o seria Esther Quant, a arrum adeira?
— Você quer dizer que se fosse j ovem e bonita podia haver algum a probabilidade de que estivesse envolvida.
— É isso m esm o — suspirou Tuppence. — É tudo tão deprim ente!
— Bem , acho que a polícia vai descobrir tudo — disse Tom m y.
— Provavelm ente. Gostaria que fôssem os nós. A propósito, você notou um a porção de pontinhos verm elhos no braço da Srta.
Logan?
— Acho que não. Por quê?
— A m im pareceu que foram feitos por seringa hipodérm ica
— disse Tuppence.
— Provavelm ente o Dr. Burton deu-lhe algum a inj eção deste tipo.
— É bem provável. Mas não lhe aplicaria quarenta.
— O vício da cocaína — sugeriu Tom m y.
— Pensei nisso — disse Tuppence —, m as os olhos dela não têm nenhum traço. Veríam os logo se fosse cocaína ou m orfina.
Além do m ais, ela não tem tipo de fazer isso.
— Um a senhora m uito respeitável e tem ente a Deus.
— É tudo m uito difícil — disse Tuppence. — Falam os tanto e não chegam os a nada. Não vam os nos esquecer de passar na casa do m édico quando voltarm os.
Um rapaz m agro, dos seus quinze anos, abriu-lhes a porta na casa do Dr. Burton.
— Sr. Blunt? — perguntou ele. — Sim , o Dr. Burton saiu, m as deixou um bilhete caso passasse por aqui.
Ele entregou-o a Tom m y, que o leu.
Caro Sr. Blunt:
Tudo leva a crer que o veneno empregado foi ricina, toxalbumina vegetal tremendamente forte. Mantenha segredo por enquanto, por favor.
Tom m y deixou o bilhete cair m as apanhou-o rapidam ente.
— Ricina — m urm urou. — Sabe algum a coisa sobre isso, Tuppence? Você era m uito boa nessas coisas.
— Ricina — repetiu Tuppence, pensativa. — É extraída do óleo de rícino, acho.
— Nunca sim patizei com óleo de rícino — disse Tom m y. —
Agora, nem se fala.
— O óleo não tem problem a. A ricina se obtém das sem entes da planta do óleo de rícino. Acho que vi algum a no j ardim hoj e de m anhã — bem grandes com folhas acetinadas.
— Você quer dizer que alguém extraiu a coisa dali. Será que Hannah poderia fazer um a coisa dessas?
Tuppence balançou a cabeça.
— Não m e parece provável. Não teria o conhecim ento suficiente.
De repente Tom m y lem brou-se:
— Aquele livro. Ainda está no m eu bolso? Está. — Ele apanhou-o e com eçou a passar as folhas freneticam ente. — Foi o que pensei. Era nesta página que o livro estava aberto hoj e de m anhã. Está vendo, Tuppence? Ricina!
Tuppence tirou-lhe o livro das m ãos.
— Você está entendendo algum a coisa? Eu, não.
— Está bastante claro para m im — respondeu Tuppence. Ela continuou a andar, lendo com toda atenção, a m ão sobre o braço de Tom m y, deixando-se levar. Pouco depois fechou o livro com violência. Aproxim ava-se da casa novam ente.
— Tom m y, posso m e encarregar do caso? Pelo m enos por um a vez sou o touro que tem m ais de vinte m inutos na arena.
Tom m y aquiesceu.
— Você será o Capitão do Navio, Tuppence — disse, sério. —
Tem os que ir até o fundo deste caso.
— Em prim eiro lugar — disse Tuppence, ao entrarem na casa — tenho que fazer m ais um a pergunta à Srta. Logan.
Ela subiu a escada depressa. Tom m y atrás dela. Bateu à porta do quarto com força e entrou.
— É você, m inha querida — disse a Srta. Logan. — Você sabe que é m uito j ovem e bonita para ser detetive. Descobriu algum a coisa?
— Sim — disse Tuppence —, descobri.
Srta. Logan lançou-lhe um olhar inquisitivo.
— Ser bonita ou não, não tem im portância — continuou Tuppence —, m as quanto ao fato de ser j ovem , por acaso trabalhei em um hospital durante a guerra. Sei algum a coisa sobre a terapia pelo soro. Por acaso sei que quando se inj eta ricina em pequenas doses, se produz im unidade pois se form a anti-ricina.
Este fato abriu cam inho para a nova terapia. A Srta. sabia disso.
Durante algum tem po inj etou em si própria ricina, subcutânea.
Depois deixou-se envenenar com o resto. Aj udou seu pai no trabalho e sabia tudo sobre a ricina, com o obtê-la e extraí-la das sem entes. Escolheu um dia em que Dennis Radcly ffe não ficou para o chá. Não seria bom que se envenenasse ao m esm o tem po
— poderia m orrer antes de Lois Hargreaves. Com a m orte dela ocorrendo antes, ele herdou-lhe o dinheiro; m orrendo Dennis Radcly ffe, o dinheiro passa à parenta m ais próxim a. A senhorita nos disse de m anhã que o pai dele era seu prim o em prim eiro grau.
A velha olhou para Tuppence com olhos perniciosos.
De repente, um a figura estranha irrom peu no quarto. Era Hannah. Trazia nas m ãos um a tocha acesa, a qual balançava freneticam ente.
— A verdade foi dita. É esta a perversa. Eu a vi lendo o livro e sorrindo para si m esm a e foi aí que descobri. Achei o livro e a página — m as não entendi nada. Mas a voz do Senhor m e falou.
Ela odiava m inha patroa. Sem pre teve ciúm es e invej a. Odiava a m inha querida e doce Lois. Mas os perversos perecerão, o fogo do Senhor os consum irá.
Agitando a tocha ela saltou sobre a cam a.
A velha soltou um grito.
— Tirem -na daqui — tirem . É verdade — m as tirem -na daqui. Tuppence se atirou sobre Hannah m as a m ulher conseguiu botar fogo no cortinado da cam a antes que Tuppence pudesse lhe arrancar a tocha da m ão e pisar nela. Tom m y, entretanto, entrara no quarto correndo. Arrancou o cortinado e conseguiu abafar o fogo com um tapete. Depois apressou-se em aj udar Tuppence e j untos dom inaram Hannah. Neste m om ento o Dr. Burton entrou, açodado.
Poucas palavras foram o suficiente para colocá-lo a par da situação.
Ele correu para a cam a, levantou a m ão da Srta. Logan, depois soltou um suspiro.
— O choque do fogo foi dem ais para ela. Está m orta. Talvez sej a o m elhor, devido às circunstâncias.
Calou-se por um m inuto e depois acrescentou:
— Tam bém encontrei ricina no copo de coquetel.
— Foi a m elhor coisa que poderia ter acontecido — disse Tom m y depois de terem entregue Hannah aos cuidados do Dr.
Burton. — Tuppence, você foi sim plesm ente m aravilhosa.