Sócios no Crime

Agatha Christie · Capítulo 4 de 4 · parte 5/5

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Sócios no Crime

— O que o trouxe aqui hoj…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Mas isto é da m aior im portância. Agora entendo. O

desenho é, provavelm ente, o plano de defesa de um porto. Foi roubado por essa m ulher. Com m edo que alguém desconfiasse dela, preferiu esconder o plano fora dos pertences dela. Depois se apossou da m ala na qual estava a bota e descobriu que o papel havia desaparecido. Diga-m e, Srta. March, trouxe o papel?

A m oça balançou a cabeça.

— Está no m eu trabalho. Dirij o um salão de beleza em Bond Street. Sou representante dos produtos Cy clam en, de Nova York.

Foi por isso que estive lá. Pensei que o papel fosse im portante e o tranquei no cofre antes de vir para cá. Será que a Scotland Yard não tem que saber disso?

— Sim , tem .

— Então vam os até lá agora, tirá-lo do cofre e levá-lo para a Scotland Yard?

— Estou m uito ocupado esta tarde — disse Tom m y, assum indo seu ar profissional e consultando o relógio. — O Bispo de Londres quer que eu m e encarregue de um caso. Um problem a m uito curioso, relacionado a dois curas e uns param entos.

— Neste caso — disse a Srta. March, se levantando — vou sozinha.

Tom m y ergueu um a das m ãos, em sinal de protesto.

— O que ia dizer é que o Bispo tem que esperar. Vou deixar um recado com Albert. Tenho certeza de que a senhorita só estará segura quando a Scotland Yard se apossar deste papel.

— O senhor acha? — perguntou a m oça, em dúvida.

— Não acho, tenho certeza. Um m om ento. — Ele rabiscou algum as palavras num bloco, arrancou a folha e dobrou-a.

Depois de apanhar o chapéu e a bengala, com unicou à m oça que estava pronto para acom panhá-la. Na ante-sala entregou o papel dobrado a Albert, dando ao gesto grande im portância.

— Fui cham ado para um caso de urgência. Explique ao Bispo se ele vier. Aqui estão m inhas anotações sobre o caso, para a Srta. Robinson.

— Muito bem , senhor — disse Albert, aceitando o j ogo. — E

quanto às pérolas da Duquesa?

Tom m y fez um gesto de im paciência.

— Isto tam bém tem que esperar.

Ele e a Srta. March saíram . No m eio da escada encontraram Tuppence, que subia, Tom m y passou por ela com um brusco: —

Atrasada de novo, Srta. Robinson. Fui cham ado para um caso im portante.

Tuppence ficou parada na escada, olhando-os. Então, com as sobrancelhas levantadas, subiu para o escritório.

Quando alcançaram a rua, um táxi veio na direção deles; Tom m y esteve a ponto de fazê-lo parar m as m udou de idéia.

— Gosta de andar, Srta. March? — perguntou, sério.

— Sim , por quê? Não seria m elhor tom arm os um táxi?

Chegaríam os m ais rápido.

— Talvez não tenha percebido. Este m otorista acabou de recusar um passageiro, um pouco antes. Estava nos esperando.

Seus inim igos estão à espreita. Se não se incom oda, preferia andar até Bond Street. Com as ruas cheias de gente não ousariam tentar nada contra nós.

— Muito bem — disse a m oça, um tanto hesitante.

E foram cam inhando. As ruas, com o Tom m y dissera, estavam cheias e eles cam inhavam devagar. Tom m y estava atento.

De vez em quando puxava a m oça para o lado, num gesto rápido, em bora ela não tivesse visto nada de excepcional.

De repente, quando a olhou, pareceu sentir rem orsos.

— Escute, você parece exausta. Deve ter sido o susto por causa daquele hom em . Vam os entrar aqui e tom ar um café bem forte. Acho que não gostaria de um gole de conhaque, não é?

A m oça balançou a cabeça com um leve sorriso.

— Então vam os tom ar café — disse Tom m y. — Acho que não correm os o risco de estar envenenado.

Dem oraram -se algum tem po tom ando o café e, por fim , partiram apertando o passo.

— Acho que j á os despistam os — disse Tom m y, olhando por sobre o om bro.

A Cy clam en Ltda., um pequeno estabelecim ento em Bond Street, era decorado com cortina de tafetá rosa pálido: enfeitando a vitrine, um ou dois potes de crem e para o rosto e um sabonete.

Cicely March entrou, seguida por Tom m y. O lugar era pequeno; à esquerda um a vitrine com artigos de toucador. Por trás desta vitrine, um a m ulher de m eia-idade, cabelos grisalhos e pele linda fez um sinal com a cabeça para cum prim entar Cicely March e depois continuou a atender um a cliente.

Esta cliente era um a m ulher baixa, m orena. Tinha as costas voltadas para eles de m odo que não lhe puderam ver o rosto.

Falava num inglês arrastado e confuso. À direita um sofá, algum as cadeiras e revistas espalhadas sobre a m esa. Ali estavam dois hom ens, aparentem ente m aridos am olados esperando as esposas.

Cicely March passou por um a porta, a qual deixou aberta para que Tom m y tam bém pudesse entrar. Assim que o fez, o cliente exclam ou: “Ah, m as acho que este é um amico m eu” e correu na direção deles, colocando o pé na porta a tem po de evitar que fosse fechada. Ao m esm o tem po os dois hom ens se levantaram . Um a seguiu até a porta e o outro correu em direção da vendedora e tapou-lhe a boca com as m ãos para im pedir que gritasse.

Enquanto isso, as coisas aconteciam com rapidez atrás da porta. Assim que Tom m y passara, j ogaram -lhe um pano sobre a cabeça e um cheiro enj oativo penetrou-lhe as narinas. Entretanto, quase ao m esm o tem po, este pano foi retirado de novo e ouviu-se um grito de m ulher.

Tom m y piscava e tossia enquanto se acostum ava à cena que se lhe apresentava. À direita, o m isterioso desconhecido de algum as horas atrás e, encarregando-se de colocar-lhe as algem as, um dos hom ens am olados do salão de beleza. Diante dele Cicely March tentava em vão se libertar enquanto a cliente a m antinha presa firm em ente. Quando esta últim a voltou a cabeça, o véu que lhe cobria o rosto se soltou revelando as fam iliares feições de Tuppence.

— Muito bem , Tuppence — disse Tom m y, aproxim ando-se dela. — Deixe-m e aj udá-la. Se fosse você não lutaria, Srta. O’Hara

— ou prefere ser cham ada de Srta. March?

— Este é o Inspetor Grace, Tom m y — disse Tuppence. —

Logo que li o recado que m e deixou, telefonei para a Scotland Yard; o Inspetor Grace e outro hom em se encontraram com igo aqui na porta do salão.

— Estou m uito contente por ter apanhado este hom em —

disse o inspetor, apontando para o prisioneiro. — Há m uito que estávam os atrás dele, m as nunca tivem os m otivos para desconfiar deste lugar — pensávam os que fosse um verdadeiro salão de beleza.

— Com o vê — explicou Tom m y, am ável —, tem os que ter m uito cuidado! Por que alguém se apossaria da m ala do Em baixador por um a hora? Vi o problem a pelo outro lado. E se a m ala im portante fosse a outra? Alguém queria usar a do em baixador por m ais ou m enos um a hora. Muito m ais inteligente!

A bagagem diplom ática não se suj eita aos insultos da alfândega.

Puro contrabando. Mas contrabando de quê? De nada m uito volum oso. Logo pensei em drogas. Depois houve um a pitoresca encenação no m eu escritório. Eles viram m eu anúncio e m e queriam tirar de cena, a qualquer custo. Acontece que a expressão de terror da encantadora dam a, quando Albert agiu, não m e passou despercebida. Não se encaixava m uito bem com o papel que queria desem penhar. O ataque do desconhecido tinha o obj etivo de aum entar m inha confiança nela. Quanto a m im , banquei o detetive crédulo, engoli aquela história um tanto inverossím il e perm iti que m e trouxesse até aqui; m as não sem deixar instruções. Sob os m ais variados pretextos, retardei nossa chegada de m odo a dar-lhes o tem po necessário.

Cicely March olhava-o, im passível.

— Está m aluco. O que espera encontrar aqui?

— Considerando que Richards viu um pote de sais de banho, que tal com eçar por ele, hein, inspetor?

— Um a ótim a idéia, senhor.

Ele apanhou um dos potes cor-de-rosa e o esvaziou sobre a m esa. A m oça riu.

— Nada m ais do que carbonato de sódio? — perguntou Tom m y.

— Vej a o cofre — sugeriu Tuppence.

Havia um pequeno cofre de parede a um canto. A chave se encontrava na fechadura. Tom m y abriu-o com certa violência e soltou um grito de satisfação. No fundo do cofre havia um a grande reentrância, repleta de potes de sais de banho. Fileiras e m ais fileiras deles. Ele apanhou um e tirou-lhe a tam pa. Na parte de cim a, os m esm os grânulos cor-de-rosa; por baixo, um fino pó branco.

O inspetor soltou um a exclam ação.

— Acham os, senhor. Aposto com o isso é cocaína pura.

Sabíam os que havia um a área distribuidora por aqui m as nunca tivem os nenhum a pista. Foi um golpe m aravilhoso, senhor.

— Mais um êxito dos Brilhantes Detetives de Blunt — disse Tom m y para Tuppence, quando saíram . — É m aravilhoso ser casado. Seu constante ensinam ento m e fez reconhecer cabelos oxigenados. Para m e enganar, a loura tem que ser genuína.

Escreverem os um a carta ao Em baixador, inform ando-lhe de que o assunto foi satisfatoriam ente resolvido. E agora, m eu caro rapaz, que tal chá com m uito pão e m anteiga derretida?

CAPÍTULO XXIII

O HOMEM DE N.° 16

Tom m y e Tuppence estavam no escritório em reunião com o Chefe. Seus elogios foram calorosos e sinceros:

— Vocês tiveram um grande êxito. Graças a vocês prendem os nada m enos do que cinco personagens m uito interessantes dos quais tem os extraído inform ações valiosas. Mas fui inform ado, por fonte fidedigna, de que Moscou alarm ou-se pelo fato de os agentes não terem prestado inform ações. Acho que em bora tenham os tom ado todas as precauções, eles com eçaram a suspeitar de que nem tudo vai bem no que cham am os de centro distribuidor — o escritório de Theodore Blunt —, a Agência Internacional de Detetives.

— Bem , era de se esperar que desconfiassem — disse Tom m y.

— Exatam ente, era de se esperar. Só estou um pouco preocupado com a Sra. Tom m y.

— Posso cuidar dela m uito bem , senhor — disse Tom m y, ao m esm o tem po em que Tuppence afirm ava:

— Posso cuidar m uito bem de m im .

— Hum m m — fez o Sr. Carter. — A autoconfiança excessiva sem pre foi um a característica de vocês. Não estou preparado para dizer se sua im unidade se deve a esta inteligência sobre-hum ana ou a um a pequena porcentagem de sorte. Mas com o sabem , a sorte m uda. Em todo caso, não vou discutir o assunto. Pelo que m uito conheço da Sra. Tom m y, seria inútil pedir-lhe que saísse de cena nas próxim as sem anas, não é?

Tuppence balançou a cabeça com energia.

— Então, o que tenho a fazer é dar-lhes toda a inform ação de que disponho. Tem os m otivos para acreditar que um agente especial foi enviado de Moscou para este país. Não sabem os sob que nom e está viaj ando nem quando chega. Mas sabem os algum a coisa sobre ele. Ele nos deu m uito trabalho na guerra: é quase ubíquo, aparecia nos lugares m ais inesperados. É russo de nascim ento e um lingüista perfeito, tanto que pode se passar por m eia dúzia de nacionalidades, inclusive a nossa. É um m estre na arte do disfarce. E é inteligente. Foi ele que bolou o código n.° 16.

— Não sabem os nem quando nem com o ele vai aparecer.

Mas tenho absoluta certeza de que vai aparecer. E sabem os tam bém que não conheceu o verdadeiro Sr. Theodore Blunt pessoalm ente. Acho que virá ao seu escritório dizendo que gostaria que tom asse conta de um caso e vai testá-lo com as senhas. A prim eira, com o sabe, é a m enção do núm ero 16 — o que é respondido com um a frase que contenha o núm ero 16 tam bém .

A segunda, acabam os de saber, é um a pergunta: “Já cruzou o canal?” A resposta é: “Eu estava em Berlim no dia 13 do m ês passado.” Pelo que sabem os é só isso. O que sugiro é que responda corretam ente para ganhar-lhe confiança. Manter a m entira tanto quanto possível. Mas m esm o que ele pareça acreditar com pletam ente, fique alerta. Nosso am igo é m uito astuto e pode fazer um j ogo duplo tão bem ou m elhor do que vocês. Mas, de qualquer j eito, espero apanhá-lo por seu interm édio. Já adotei precauções especiais. Ontem à noite se instalou um ditafone no seu escritório de m odo que os m eus hom ens, na sala do andar de baixo, possam saber tudo o que se passa lá. Assim serei im ediatam ente inform ado se acontecer qualquer coisa e posso tom ar as providências necessárias para protegê-los enquanto aprisiono o hom em que procuro.

Depois de m ais algum as instruções e discussão sobre as táticas a adotar, o j ovem casal saiu se dirigindo, o m ais rápido possível, para o escritório dos Brilhantes Detetives de Blunt.

— Já é tarde — disse Tom m y, consultando o relógio. —

Meio-dia. Ficam os m uito tem po com o Chefe. Espero que não tenham os perdido nenhum caso interessante.

— Até que nosso resultado não foi tão ruim — disse Tuppence. — Estava pensando nisso outro dia. Resolvem os quatro assassinatos m isteriosos, apanham os um a quadrilha de falsificadores, outra de contrabandistas...

— Em realidade, duas quadrilhas — interrom peu Tom m y. —

Apanham os! Estou contente com isso. “Quadrilha” soa tão profissional...

Tuppence continuou, contando nos dedos todos os itens.

— Um roubo de j óias, duas fugas de m orte violenta, um caso de um a m oça desaparecida que fazia tratam ento para em agrecer, aj udou-se um a m oça, um álibi foi posto por terra e, infelizm ente, um caso onde fizem os total papel de bobos. Ao todo, m uito bom .

Som os muito inteligentes, eu acho.

— Você sem pre achou — disse Tom m y. — Agora, tenho a im pressão de que um a ou duas vezes tivem os m uita sorte.

— Bobagem — retrucou Tuppence. — Tudo foi obra da m assa cinzenta.

— Bem , um a vez tive um a sorte danada — disse Tom m y. —

Foi quando Albert deu aquela laçada! Mas você fala, Tuppence, com o se estivesse tudo acabado.

— E está — disse Tuppence. E baixando o tom de voz: —

Este é o nosso últim o caso. Quando eles tiverem apanhado o superespião, os grandes detetives pretendem se aposentar para se dedicarem à apicultura ou à horta. É sem pre assim .

— Cansou-se, não foi?

— É, acho que j á estou cansada. E além do m ais, até agora fom os m uito bem -sucedidos — a sorte pode m udar.

— Quem está falando de sorte agora? — perguntou Tom m y, vitorioso.

Neste m om ento eles entraram na portaria do edifício no qual se situavam os escritórios de Theodore Blunt, e Tuppence não respondeu.

Albert, na ante-sala, em pregava seu tem po de lazer em equilibrar, ou tentar equilibrar, a régua sobre o nariz.

Com a testa franzida em sinal de reprovação, o grande Sr.

Blunt passou para a sala privada. Livrando-se da capa e do chapéu, ele abriu o arm ário sobre cuj as prateleiras repousava sua biblioteca clássica dos grandes detetives de ficção.

— Já não há tanta escolha — m urm urou Tom m y. — Quem devo tom ar com o m odelo hoj e?

A voz de Tuppence, um tanto diferente, fê-lo voltar-se.

— Tom m y, que dia é hoj e?

— Deixe-m e ver... dia 10 — por quê?

— Olhe na folhinha.

Dependurado na parede, via-se um daqueles calendários de onde se arranca um a folha a cada dia. Nele lia-se dom ingo, 16.

Hoj e era segunda-feira.

— Meu Deus, que coisa esquisita. Albert deve ter arrancado m uitas folhas. Que cara descuidado.

— Acho que não foi ele. Mas vam os perguntar — disse Tuppence.

Albert pareceu bastante surpreso. Jurou que só tirara duas folhas, a de sábado e a de dom ingo. Sua afirm ação foi logo confirm ada, pois as duas folhas tiradas por Albert foram encontradas na lareira, enquanto as outras estavam na cesta de papéis, todas arrum adinhas.

— Um crim inoso organizado e m etódico — disse Tom m y. —

Quem esteve aqui esta m anhã, Albert? Algum cliente?

— Só um .

— Com o era ele?

— Era ela; um a enferm eira. Muito aborrecida e ansiosa por vê-lo. Disse que ia esperá-lo. Deixei-a esperando na outra sala porque estava m ais quente.

— E de lá ela pôde vir até aqui sem ser vista. Durante quanto tem po ela ficou?

— Mais ou m enos m eia hora, senhor. Disse que voltaria à tarde. Um a pessoa com ar m aternal.

— Um a pessoa com ar m a... ora, dê o fora, Albert.

Albert saiu, ofendido.

— Que coisa esquisita — disse Tom m y. — Parece um pouco sem propósito. Isso nos faz ficar alertas. Espero que não haj a nenhum a bom ba escondida na lareira.

Ele foi se certificar e depois sentou-se à escrivaninha, dirigindo-se a Tuppence.

— Mon ami — disse ele —, estam os diante de um fato da m aior gravidade. Você se lem bra, não se lem bra? Do hom em de n.

° 4. Aquele que esm aguei com o se fosse casca de ovo nas Dolom itas — com a aj uda de poderosos explosivos, bien entendu.

Mas ele não estava m orto, realm ente — ah, não, eles nunca m orrem de verdade, estes supercrim inosos. Este é o hom em ; ele é o 4 ao quadrado — em outras palavras, agora ele é o N.° 16. Você com preende, mon ami?

— Perfeitam ente — disse Tuppence. — Você é o grande Hercule Poirot.

— Exatam ente. Não tenho bigodes m as tenho m uita m assa cinzenta.

— Tenho o pressentim ento — disse Tuppence — de que esta aventura vai se cham ar “O Triunfo de Hastings”.

— Nunca — disse Tom m y. — Um a vez o am igo idiota, sem pre o am igo idiota. Há um a etiqueta que rege estes assuntos.

A propósito, mon ami, não poderia repartir o cabelo ao m eio em vez de reparti-lo do lado? O efeito atual é sem sim etria e deplorável.

A cam painha soou à m esa de Tom m y. Ele deu o sinal e Albert apareceu trazendo um cartão.

— Príncipe Vladiroffsky — leu Tom m y, em voz baixa. Ele olhou para Tuppence. — Será que... faça-o entrar, Albert.

O hom em que entrou era de estatura m ediana, m aneiras diplom áticas, barba loura e aparentava ter uns trinta e cinco anos.

— Sr. Blunt? — perguntou ele. Seu inglês era perfeito. — O

senhor m e foi m uito recom endado. Pode-se encarregar de um caso para m im ?

— Se m e der os detalhes...?

— Claro. Trata-se da filha de um am igo m eu — um a m oça de dezesseis anos. Não querem os escândalo — o senhor com preende.

— Meu caro senhor — disse Tom m y —, há dezesseis anos que trabalham os nesse cam po com o m aior êxito, devido, exatam ente, a este princípio.

Tom m y achou que vira um repentino brilho nos olhos do outro. Se tal ocorreu, passou com a m esm a rapidez.

— O senhor tem filiais do outro lado do Canal, não é verdade?

— Ah, sim . Na verdade — ele pensou na frase com grande deliberação — eu estava em Berlim no dia 13 do m ês passado.

— Neste caso — disse o desconhecido — não é necessário m anter a m entira. A filha do m eu am igo pode ser deixada de lado.

Sabe quem eu sou — pelo m enos vej o que recebeu aviso de m inha chegada.

Ele fez um sinal com a cabeça em direção ao calendário da parede.

— É verdade — disse Tom m y.

— Meus am igos — vim aqui para investigar. O que está acontecendo?

— Traição — disse Tuppence, j á não se podendo conter.

O russo olhou-a, levantando as sobrancelhas.

— Ah, então é isso? Foi o que pensei. Foi o Sergius?

— Acham os que sim — disse Tuppence, sem hesitar.

— Não m e surpreenderia. Mas e quanto a vocês? Não desconfiam de vocês?

— Acho que não. Com o vê, lidam os com negócios legítim os

— explicou Tom m y.

O russo aquiesceu.

— Muito sensato. Mesm o assim , acho que não devo m ais voltar aqui. Por enquanto estou no Blitz. Vou levar Marise — esta é Marise, não é?

Tuppence assentiu.

— Com o ela é conhecida aqui?

— Ah, Srta. Robinson.

— Muito bem , Srta. Robinson, você volta com igo para o Blitz e alm oçam os lá. Depois todos nos encontrarem os no quartel-general, às três horas. Está claro? — Ele olhou para Tom m y.

— Perfeitam ente — respondeu Tom m y, perguntando-se onde será que ficaria o quartel-general.

Mas supôs que era j ustam ente este quartel-general que o Sr.

Carter estava tão ansioso por descobrir.

Tuppence levantou-se e vestiu o longo casaco preto de gola de leopardo. E então, com toda a seriedade, disse estar pronta para acom panhar o Príncipe.

Saíram j untos e Tom m y ficou, presa das m ais confusas em oções.

E se o ditafone tivesse algum defeito? E se a m isteriosa enferm eira o tivesse descoberto, inutilizando-o?

Ele apanhou o telefone e discou para certo núm ero. Houve um m om ento de espera e depois um a voz m uito conhecida falou:

— Está certo. Vá ao Blitz im ediatam ente.

Cinco m inutos depois, Tom m y e o Sr. Carter se encontraram no Blitz. Este últim o estava m uito seguro.

— Foi excelente. O príncipe e sua esposa estão alm oçando no restaurante. Dois dos m eus hom ens estão lá servindo de garçom . Quer ele desconfie, quer não — e tenho certeza de que não desconfia — j á o tem os nas m ãos. Há dois hom ens a postos, lá em cim a, vigiando-lhe a suíte e m ais lá fora para segui-lo aonde quer que vá. Não se preocupe com sua m ulher. Não a perderem os de vista. Não vou m e arriscar.

De vez em quando um dos hom ens do Serviço Secreto vinha prestar inform ações. Da prim eira vez foi o garçom , que anotou-lhes o pedido dos aperitivos; da segunda, um j ovem elegante, de rosto inexpressivo.

— Eles estão saindo — disse o Sr. Carter. — Vam os ficar atrás desta coluna, caso venham sentar-se aqui, m as acho que ele vai levá-la para a suíte. Ah, sim , foi o que pensei.

De onde estavam , Tom m y viu o russo e Tuppence atravessarem o vestíbulo e entrarem no elevador.

Passaram -se os m inutos e Tom m y com eçou a se inquietar.

— O senhor acha, quer dizer... sozinhos na suíte...

— Um dos m eus hom ens está lá dentro — atrás do sofá. Não se preocupe, hom em .

Um garçom atravessou o vestíbulo e aproxim ou-se do Sr.

Carter.

— Recebi o sinal de que estavam subindo, senhor — m as não subiram . Isto está certo?

— O quê? — o Sr. Carter sobressaltou-se. — Eu os vi entrar no elevador. — Ele consultou o relógio. — Há quatro m inutos e m eio... e ainda não apareceram ...

Ele foi correndo para o elevador, que acabava de descer, e se dirigiu ao cabineiro:

— Você levou um hom em de barba loura e um a j ovem , há alguns m inutos, ao segundo andar?

— Para o segundo andar, não. O cavalheiro pediu o terceiro.

— Oh! — De um salto, o Chefe entrou no elevador, fazendo um sinal a Tom m y para que o acom panhasse. — Terceiro andar, por favor.

— Não estou entendendo isso — disse ele, em voz baixa. —

Mas fique calm o. Todas as saídas do hotel estão vigiadas e um dos m eus hom ens está no terceiro andar — tenho um hom em em cada andar. Não queria correr nenhum risco.

No terceiro andar a porta se abriu e eles pularam para fora, atravessando, apressados, o corredor. No m eio do cam inho, um hom em vestido de garçom se aproxim ou deles.

— Está tudo bem , Chefe. Eles estão no n.° 318.

Carter soltou um suspiro de alívio.

— Ótim o. Não há outra saída?

— É um a suíte, m as só tem estas duas portas que dão para o corredor e, para sair de qualquer um destes quartos, teriam que passar por nós para alcançar a escada ou o elevador.

— Então está bem . Telefone para a portaria e averigue o nom e da pessoa que deveria ocupar esta suíte.

O garçom voltou poucos m inutos depois.

— Sra. Cortlandt Van Sny der, de Detroit.

O Sr. Carter ficou m uito pensativo.

— Será que esta Sra. Van Sny der é cúm plice ou...

Ele não com pletou a frase.

— Está ouvindo algum barulho lá de dentro?

— Nada. Mas as portas são grossas. Não se pode ouvir m esm o.

De repente, o Sr. Carter tom ou um a decisão.

— Isto não está m e cheirando bem . Vam os entrar. Tem a chave-m estra?

— Tenho, sim , senhor.

— Cham e Evans e Cly desly.

Reforçados pelos dois outros hom ens, eles se aproxim aram da porta da suíte. Esta se abriu, silenciosam ente, quando o prim eiro hom em colocou a chave.

Eles se viram num pequeno vestíbulo. À direita, a porta aberta de um banheiro e à frente um a salinha de visitas. À

esquerda, um a porta fechada por trás da qual escapava um som fraco que m ais parecia o de um a respiração asm ática. O Sr. Carter abriu a porta com um em purrão e entrou.

Ali ficava o quarto propriam ente dito, com um a grande cam a de casal e, por cim a desta, um a decorativa colcha rosa e dourada.

Sobre ela, m ãos e pés am arrados, a boca am ordaçada e os olhos saltados de dor e raiva, estava um a m ulher de m eia-idade, m uito bem vestida.

Seguindo as ordens do Sr. Carter, os hom ens vasculharam toda a suíte. Só Tom m y e seu Chefe entraram no quarto. Quando se inclinou sobre a cam a e lutou para desfazer os nós, os olhos de Carter varreram o quarto, cheio de perplexidade. A não ser por um a im ensa quantidade de m alas am ericanas, o quarto estava vazio. Nenhum sinal do russo nem de Tuppence.

Pouco depois o garçom entrou apressado, inform ando que os outros quartos tam bém estavam vazios. Tom m y correu para a j anela: outra decepção. Não havia nenhum a varanda — nada, a não ser o vazio até a rua lá em baixo.

— Tem certeza de que foi neste quarto que entraram ? —

perguntou Carter, com energia.

— Absoluta. Além do m ais... — o hom em apontou para a m ulher estendida na cam a.

Com a aj uda de um canivete, Carter soltou a m ordaça que quase sufocava a m ulher, e ficou logo claro que, por m ais que tivesse sofrido, isto não a im pedia de usar a língua.

Quando term inou a prim eira explosão, o Sr. Carter falou com suavidade.

— Pode-m e contar o que aconteceu exatam ente, desde o com eço?

— Em prim eiro lugar, vou processar este hotel. É um a afronta. Eu estava procurando m inha garrafa de “Killagrippe”

quando um hom em pulou em cim a de m im e quebrou um a pequena garrafa bem debaixo do m eu nariz, e, antes que eu pudesse retom ar o fôlego, desm aiei. Quando voltei a m im , estava deitada aqui, toda am arrada, e só Deus sabe o que aconteceu com m inhas j óias. Aposto que roubou tudo

— Acho que suas j óias estão seguras — disse o Sr. Carter secam ente. Ele girou sobre os calcanhares e apanhou algum a coisa no chão.

— A senhora estava aqui quando o hom em lhe pulou em cim a?

— Isso m esm o — concordou a Sra. Van Sny der.

O Sr. Carter apanhara um fragm ento de vidro fino. Cheirou-o e entregou-o a Tom m y.

— Cloreto de etilo — m urm urou ele. — Anestesia instantânea. Mas só tem efeito por alguns segundos. É claro que ele ainda estava aqui quando a senhora recobrou os sentidos, Sra.

Van Sny der.

— Não era isso que eu estava dizendo? Quase fiquei louca quando o vi fugindo sem poder fazer nada.

— Fugindo? — perguntou o Sr. Carter. — Por onde?

— Por aquela porta. — Ela apontou para a porta em frente.

— Havia um a m oça com ele e m e pareceu que cam inhava com dificuldade, com o se tivesse recebido um a dose da m esm a anestesia.

Carter olhou, interrogativo, para o aj udante.

— A porta dá para a outra suíte. Mas portas duplas sem pre estão trancadas com ferrolho de cada lado.

O Sr. Carter exam inou a porta com todo cuidado. E então, levantando-se, aproxim ou-se da cam a.

— Sra. Van Sny der — disse ele, com calm a —, ainda insiste em afirm ar que o hom em saiu por ali?

— Ora, claro, e por que não?

— Porque acontece que a porta está trancada deste lado —

disse o Sr. Carter, seco. Enquanto falava, sacudia a m açaneta.

Um a expressão de perplexidade tom ou conta do rosto da Sra. Van Sny der.

— A não ser que alguém tivesse trancado a porta, ele não pode ter fugido por aqui — disse o Sr. Carter.

Ele voltou-se para Evans, que acabara de entrar no quarto.

— Tem certeza de que não estão em nenhum lugar da suíte?

Não há nenhum a outra porta de com unicação?

— Não, senhor. Tenho certeza.

Carter voltou a varrer o quarto com os olhos. Abriu o grande arm ário, olhou debaixo da cam a, na cham iné e atrás das cortinas.

Finalm ente, levado por um a idéia repentina e sem prestar atenção aos protestos veem entes da Sra. Sny der, abriu um grande baú e revistou-lhe rapidam ente o interior.

De repente, Tom m y, que exam inava a porta de com unicação, exclam ou:

— Venha cá, Chefe, olhe aqui. Eles saíram por aqui.

O ferrolho fora lim ado habilm ente, tão perto do encaixe que m al se percebia o ponto de j unção.

— A porta não abre porque está trancada do outro lado — explicou Tom m y.

Um m inuto depois estavam no corredor de novo e o garçom abria a porta da suíte contígua com a chave-m estra. Esta estava vazia. Quando chegaram à porta de com unicação, viram que o m esm o plano fora adotado. O ferrolho fora lim ado, a porta estava trancada, a chave fora retirada. Porém nenhum sinal de Tuppence nem do russo e não havia nenhum a outra porta de com unicação, só a do corredor.

— Mas eu os teria visto se tivessem saído — protestou o garçom . — Posso j urar que não saíram .

— Droga! — exclam ou Tom m y. — Eles não podem ter-se evaporado.

Carter se acalm ara de novo, fazendo funcionar sua m ente astuta.

— Telefone lá para baixo e vej a quem ocupou esta suíte pela últim a vez e quando.

Evans, que viera com ele, deixando Cly desly na vigia, na outra suíte, obedeceu. Pouco depois anunciou: Um rapaz inválido, M. Paul de Vareze. Um a enferm eira o acom panhava. Saíram esta m anhã.

O outro hom em do Serviço Secreto, o garçom , soltou um a exclam ação; ficara m uito pálido.

— O rapaz inválido... a enferm eira — gaguej ou. — Eu... eles passaram por m im . Nunca poderia pensar. Eu os vi tantas vezes antes!

— Tem certeza de que eram os m esm os? — perguntou o Sr.

Carter. — Tem certeza, hom em ? Olhou bem para eles?

O hom em balançou a cabeça.

— Mal olhei para eles. Estava esperando, o senhor com preende, alerta para os outros dois, o hom em de barba loura e a m oça.

— Claro — disse o Sr. Carter, com um gem ido. — Eles contavam com isso.

Com um a exclam ação repentina, Tom m y abaixou-se e puxou algum a coisa que estava debaixo do sofá. Era um a pequena trouxa preta. Tom m y desenrolou-a e vários artigos caíram . A capa preta que em brulhava tudo era a que Tuppence usara naquele dia. Dentro encontraram o vestido dela, o chapéu e um a longa barba loura.

— Agora está bastante claro — disse ele, am argo. — Eles a pegaram — pegaram Tuppence. Aquele diabo russo nos enganou.

A enferm eira e o rapaz eram cúm plices. Ficaram aqui um ou dois dias para que o pessoal do hotel se acostum asse com a sua presença. Durante o alm oço, o hom em deve ter percebido que caíra num a arm adilha e decidiu levar o plano adiante.

Provavelm ente esperava que o quarto vizinho estivesse vazio, j á que estava quando aj ustou o ferrolho. De algum a m aneira conseguiu silenciar tanto a m ulher da suíte quanto Tuppence, trouxe-a para cá, vestiu-a com as roupas de rapaz, alterou a própria aparência e saiu sem ser perturbado. As roupas j á deviam estar escondidas. O que não com preendo é com o conseguiu a aquiescência de Tuppence.

— Eu com preendo — disse o Sr. Carter. Apanhou do chão um pequeno fragm ento de m etal brilhante. — Este é um pedaço de um a agulha hipodérm ica. Ela estava dopada.

— Meu Deus! — gem eu Tom m y. — E ele fugiu.

— Isso não sabem os — disse Carter rapidam ente. — Lem bre-se de que há vigias em todas as saídas.

— Vigias que procuram um hom em e um a m ulher. Não um a enferm eira e um rapaz inválido. A esta altura j á devem ter saído do hotel.

Um a pequena averiguação provou que isto era verdade. A enferm eira e o paciente haviam tom ado um táxi há uns cinco m inutos.

— Escute, Beresford — disse o Sr. Carter —, pelo am or de Deus, acalm e-se. Sabe que não haverá descanso enquanto eu não encontrar a m oça. Vou voltar o quanto antes ao m eu escritório e, em m enos de cinco m inutos, todo o departam ento estará em funcionam ento. Nós vam os achá-los.

— Vão m esm o? Este russo é um dem ônio inteligente. Que golpe astuto! Mas sei que o senhor vai fazer tudo o que estiver a seu alcance. Só que... peço a Deus que não sej a tarde dem ais.

Eles estão nos fazendo passar m aus m om entos.

Ele saiu do Blitz e andou, às tontas, pelas ruas, sem saber bem para onde ia. Sentia-se com pletam ente entorpecido. Onde procurar? O que fazer?

Foi ao Green Park e deixou-se cair sobre um banco. Não chegou a notar que outra pessoa sentava-se ali tam bém e ficou bastante surpreso quando ouviu um a voz conhecida:

— Desculpe a m inha introm issão, senhor...

Tom m y levantou os olhos.

— Olá, Albert — disse m elancólico.

— Sei de tudo, senhor, m as não fique assim .

— Não fique assim ... — ele soltou um a gargalhada seca. — É

fácil dizer, não é?

— Ah, m as pense, senhor. Os Brilhantes Detetives de Blunt!

Nunca são vencidos. E, desculpe-m e dizê-lo, m as não pude deixar de ouvir o que o senhor e sua esposa conversavam hoj e de m anhã.

Sr. Poirot e a m assa cinzenta. Ora, por que o senhor não usa a sua m assa cinzenta e vê o que pode fazer?

— É m ais fácil usar a m assa cinzenta em ficção do que na realidade, m eu rapaz.

— Bem — insistiu Albert —, não acredito que ninguém tenha conseguido deixar a Sra. Beresford fora de com bate para sem pre.

Sabe com o ela é, senhor, igual a estes ossos de borracha que se com pra para os cachorros — indestrutíveis.

— Albert — disse Tom m y —, você está m e anim ando.

— Então, por que não usar a m assa cinzenta, senhor?

— Você é um rapaz persistente, Albert. Até agora nos foi de grande serventia que tenha bancado o bobo. Vam os tentar de novo. Vam os recapitular os fatos com ordem , com m étodo.

Exatam ente às duas e dez nosso hom em entrou no elevador.

Cinco m inutos depois falam os com o cabineiro e, depois de ouvirm os a versão dele, tam bém subim os ao terceiro andar. Às duas e dezenove, digam os, entram os na suíte da Sra. Van Sny der.

E que fato significativo isso nos traz?

Houve um a pausa, j á que nenhum dos dois pôde responder a esta pergunta.

— Havia algum a coisa no quarto parecida com um baú? —

perguntou Albert, os olhos brilhando.

— Mon ami — disse Tom m y —, você não entende a psicologia de um a m ulher am ericana que acaba de chegar de Paris. Havia, pelo m enos, dezenove baús no quarto.

— O que quis dizer é que o baú é m uito prático quando se quer ficar livre de um cadáver — não que ela estej a m orta.

— Exam inam os os dois únicos onde caberia um corpo. Em ordem cronológica, qual é o próxim o fato?

— O senhor pulou um — quando a Sra. Beresford e o hom em vestido de enferm eira passaram pelo garçom .

— Deve ter sido um pouco antes de term os subido no elevador — disse Tom m y. — Por um triz não deram de cara conosco. Um a coisa m uito rápida. Eu...

Ele calou-se.

— O que foi?

— Silêncio, mon ami. Estou tendo aquele tipo de idéia —

colossal, estupenda — que m ais cedo ou m ais tarde ocorre a Hercule Poirot. Mas se for assim — se este for o caso — oh, m eu Deus, espero que não sej a tarde.

Ele saiu correndo do parque, Albert atrás dele, perguntando, sem fôlego, enquanto corria: — O que é? Não entendo.

— Está bem — disse Tom m y. — Não é necessário. Hastings nunca entendeu. Se sua m assa cinzenta não fosse m uito inferior à m inha, qual seria a graça do j ogo? Estou sendo estúpido — m as não posso evitar. Você é um ótim o rapaz, Albert. Sabe quanto vale Tuppence — doze vezes m ais do que eu ou você.

Falando ofegante, enquanto corria, Tom m y entrou de novo no Blitz. Avistou Evans e o pôs a par da situação com algum as palavras apressadas. Os dois hom ens entraram no elevador, Albert com eles.

— Terceiro andar — disse Tom m y.

Pararam diante do n.° 318. Evans tinha um a chave-m estra e fez uso dela. Sem um a palavra de aviso, entraram no quarto da Sra. Van Sny der. A m ulher ainda estava deitada na cam a, só que agora vestia um a bonita cam isola. Ela olhou-os, surpresa.

— Desculpe por não ter batido — disse Tom m y, am ável. —

Mas quero m inha esposa. Incom oda-se de sair da cam a?

— Acho que o senhor está com pletam ente m aluco — gritou ela.

Tom m y estudou-a com os olhos, pensativo, a cabeça pendida para um lado.

— Muito artístico — disse ele —, m as não vai adiantar.

Olham os debaixo da cam a — m as não dentro dela. Tam bém usava este esconderij o quando era j ovem . Atravessado na cam a, sob o alm ofadão. E este baú prontinho para levar o corpo, m ais tarde.

Mas agora fom os um pouco m ais rápidos do que a senhora. Teve tem po de dopar Tuppence, colocá-la sob o alm ofadão, ser am ordaçada e am arrada pelos seus próprios cúm plices e, devo adm itir, engolim os sua história. Mas quando se pensa, com ordem e m étodo — é im possível drogar um a m oça, vesti-la de hom em , am ordaçar e am arrar outra m ulher e m udar a própria aparência

— tudo em cinco m inutos. Sim plesm ente um a im possibilidade física. A enferm eira e o rapaz deviam funcionar com o cham ariz.

Devíam os seguir-lhes a pista e lam entar a Sra. Van Sny der, um a vítim a. Aj ude-a a sair da cam a, por favor, Evans. Trouxe o autom ático? Ótim o.

Debaixo de protestos, a Sra. Van Sny der foi arrancada do seu lugar de repouso, Tom m y tirou a colcha e o alm ofadão.

E lá, atravessada na cam a, estava Tuppence, olhos fechados, o rosto pálido. Por um m om ento, Tom m y ficou apavorado; depois notou-lhe a respiração. Estava drogada, e não m orta.

Ele voltou-se para Albert e Evans.

— E agora, Messieurs — disse dram aticam ente —, o coup final!

Com um m ovim ento rápido e inesperado ele agarrou a Sra.

Van Sny der pelos cabelos. Este saiu-lhe nas m ãos.

— Com o pensei — disse Tom m y. — N.° 16.

Cerca de m eia hora depois, Tuppence abria os olhos; ao lado dela, um m édico e Tom m y.

Sobre os acontecim entos da m eia hora seguinte, é m elhor cobri-los com um decente véu; depois deste período, o m édico saiu afiançando-lhes que tudo estava bem .

— Mon ami, Hastings — disse Tom m y carinhosam ente —, com o m e alegro por vê-la ainda com vida.

— Pegam os o N.° 16?

— Um a vez m ais esm aguei-o com o um a casca de ovo, ou m elhor, Carter pegou-o. A m assa cinzenta! A propósito, vou aum entar o ordenado do Albert.

— Conte-m e tudo.

Tom m y fez-lhe um a descrição viva dos fatos, com certas om issões.

— Você não ficou quase louco por m inha causa? —

perguntou Tuppence, a voz fraca.

— Não m uito. A gente tem que m anter a calm a.

— Mentiroso! Você ainda está bastante perturbado.

— Bem , talvez estivesse um pouco preocupado, querida.

Escute, nós vam os abandonar isso agora, não vam os?

— Claro que sim .

Tom m y suspirou, aliviado.

— Achei que agiria com sensatez. Depois de um choque desses...

— Não foi o choque. Você sabe que não ligo para os choques.

— Um osso de borracha — indestrutível — m urm urou Tom m y.

— Tenho coisa m elhor a fazer — continuou Tuppence. —

Um a coisa m uito m ais em ocionante. Nunca experim entei antes.

Tom m y olhou-a, m uito apreensivo.

— Eu a proíbo, Tuppence.

— Você não pode proibir — disse Tuppence. — É um a lei da natureza.

— Sobre o que você está falando, Tuppence?

— Estou falando... sobre o nosso bebê. Hoj e em dia as m ulheres não sussurram , gritam : NOSSO FILHO! Tom m y, a vida não é m aravilhosa?

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