Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 6 de 9

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Sr. Assassino

Quatro

1.

Logo depois de deixar a área à m argem da estrada, onde os aposentados m ortos descansavam para sem pre no aconchegante refeitório de seu motorhome, retornando pela I-40 em direção à cidade de Oklahom a, com o inescrutável Karl Clocker atrás do volante, Drew Oslett usou seu telefone celular últim o tipo para se com unicar com a m atriz na cidade de Nova York. Relatou os acontecim entos e pediu instruções.

O telefone usado ainda não era vendido ao público em geral. Para o cidadão com um , ele jamais estaria disponível com todas as características do m odelo de Oslett.

Com o outros celulares, ele se encaixava no acendedor de cigarros. Entretanto, ao contrário de outros, podia ser operado virtualm ente em qualquer parte do m undo, não apenas dentro do estado ou área de serviço em que fora licenciado. Com o o m apa eletrônico URAS, o telefone incorporava um a ligação direta com satélite. Podia ter acesso direto a pelo m enos 90% dos satélites de com unicação em órbita no corrente m om ento, evitando suas estações de controle com base na terra, atropelando os program as de exclusão de segurança e ligando para qualquer telefone que o usuário desej asse, sem deixar nenhum registro de que a ligação tinha sido feita. A com panhia telefônica violada j am ais em itiria um a conta da cham ada de Oslett para Nova York, porque j am ais saberia que ela fora feita usando seu sistem a.

Ele falou livrem ente com seu contato de Nova York, contando o que encontrara à beira da estrada, sem m edo de ser ouvido por alguém , porque seu telefone tam bém incluía um m ecanism o de interceptação acionado por um sim ples interruptor. Um m ecanism o sem elhante instalado no telefone da m atriz tornava sua m ensagem inteligível de novo ao recebê-la, m as para qualquer pessoa que pudesse interceptar o sinal entre Oklahom a e a Big Apple as palavras de Oslett soariam com o algaravia.

Nova York só ficou preocupada com os aposentados m ortos, porque podiam ser um cam inho para as autoridades de Oklahom a ligarem seu assassinato a Alfie ou à Rede, que era o nom e que eles usavam entre si para descrever a organização.

— Você não deixou os sapatos por lá, não? — perguntou Nova York.

— Claro que não — disse Oslett, ofendido com a insinuação de incom petência.

— Todos os artigos eletrônicos no salto...

— Estou com os sapatos.

— É coisa recém -saída do laboratório. Qualquer pessoa bem inform ada ia ficar vidrada e talvez...

— Eu tenho os sapatos — disse Oslett em tom firm e.

— Ótim o. Então deixe que encontrem os corpos e batam com a cabeça na parede para tentar solucionar. Não é problem a nosso. Um a outra pessoa pode varrer esse lixo.

— Exato.

— Volto a contatá-lo daqui a pouco.

— Estou contando com isso — disse Oslett.

Após desligar, enquanto esperava um a resposta da m atriz, ele ficou cheio de inquietação com a perspectiva de passar m ais de cem quilôm etros som brios e vazios só com a com panhia de Clocker. Por sorte, estava equipado com diversão barulhenta e envolvente. Pegou um Gam e Boy no chão, atrás do assento do m otorista, e colocou os fones nos ouvidos. Logo depois, estava feliz e distraído da enervante paisagem rural graças aos desafios propostos por um j ogo de com putador de ritm o rápido.

Luzes suburbanas salpicavam a noite quando Oslett levantou a vista da tela em m iniatura para responder ao tapinha no om bro dado por Clocker. O telefone celular tocava no chão entre seus pés.

O contato de Nova York falou som brio, com o se tivesse acabado de chegar do funeral de sua m ãe.

— Em quanto tem po você pode chegar ao aeroporto da cidade de Oklahom a?

Oslett transm itiu a pergunta para Clocker.

O rosto im passível de Clocker não m udou de expressão quando ele respondeu:

— Meia hora, quarenta m inutos... supondo-se que o tecido da realidade não se rom pa entre aqui e lá.

Oslett transm itiu a Nova York apenas o cálculo do tem po de viagem , deixando a ficção científica de fora.

— Chegue o m ais rápido que puder — disse Nova York. Vocês vão para a Califórnia.

— Onde, na Califórnia?

— Aeroporto John Way ne, condado de Orange.

— Vocês têm um a pista de Alfie?

— Não sabem os que porra tem os.

— Por favor, nada de respostas tão técnicas — disse Oslett. — Está m e deixando confuso.

— Quando chegar ao aeroporto da cidade de Oklahom a, encontre um a banca de j ornais. Com pre a últim a edição da revista People. Olhe as páginas 66, 67 e 68. Então saberá tanto quanto nós.

— Isso é um a piada?

— Acabam os de descobrir isso.

— Descobrir o quê? — perguntou Oslett. — Olha, não estou interessado no últim o escândalo da fam ília real inglesa ou na dieta que Julia Roberts segue para m anter a form a.

— Páginas 66, 67 e 68. Telefone para m im depois que tiver olhado. É com o se estivéssem os com gasolina até a cintura e alguém tivesse acabado de riscar um fósforo.

Nova York desligou antes que Oslett pudesse responder.

— Vam os para a Califórnia — disse ele para Clocker.

— Por quê?

— A revista People pensa que vam os gostar do lugar — decidiu dar ao suj eito grande um gostinho de seu próprio diálogo enigm ático.

— É provável que gostem os — respondeu Clocker, com o se as palavras de Oslett fizessem um sentido perfeito para ele.

Quando rodavam pelos subúrbios de Oklahom a, Oslett ficou aliviado ao ver-se cercado de sinais de civilização — em bora preferisse explodir os próprios m iolos do que viver ali. Mesm o em sua hora m ais agitada, a cidade de Oklahom a não assaltava os cinco sentidos à m aneira de Manhattan. Ele não apenas florescia com a sobrecarga sensorial; ele a achava quase tão essencial para a vida quanto a com ida e a água, e m ais im portante do que o sexo.

Seattle fora m elhor que a cidade de Oklahom a, em bora não chegasse aos pés de Manhattan. Na verdade, tinha céu dem ais para um a cidade, e pouca m ultidão. As ruas eram com parativam ente quietas, e o povo parecia... relaxado, de um a m aneira inexplicável. Era com o se eles não soubessem que iriam m orrer m ais cedo ou m ais tarde, com o qualquer pessoa.

Ele e Clocker ficaram esperando no Internacional de Seattle às duas horas da tarde de ontem , quando Alfie deveria ter chegado num voo de Kansas City, Missouri. O 747 tocou o solo com dezoito m inutos de atraso e Alfie não estava nele.

Nos quase catorze m eses em que Oslett tratara de Alfie, o tem po inteiro que Alfie esteve em serviço, nada parecido com isso acontecera antes. Alfie aparecia onde devia aparecer, viaj ava para onde era m andado, realizava a tarefa de que era incum bido, e era tão pontual quanto um condutor de trem j aponês. Até ontem .

Eles não entraram em pânico de im ediato. Era possível que algum “bololô” — talvez um acidente de trânsito — tivesse retardado Alfie em seu traj eto para o aeroporto, fazendo com que perdesse o voo.

Claro que no m om ento em que saísse do plano, um “com ando subterrâneo” im plantado no fundo de seu subconsciente devia ter sido ativado, forçando-o a ligar para um núm ero na Filadélfia para inform ar sobre sua m udança de plano. Mas esse era o problem a com os com andos subterrâneos: às vezes estava enterrado tão fundo na m ente do suj eito que o gatilho não disparava e continuava enterrado.

Enquanto Oslett e Clocker esperavam no aeroporto para ver se o garoto deles aparecia num voo posterior, um contato da Rede em Kansas City foi de carro para checar o m otel onde Alfie ficara hospedado. A preocupação era que o garoto pudesse ter j ogado no lixo todo o seu condicionam ento e treinam ento, assim com o se pode perder inform ação quando o disco rígido de um com putador quebra. Nesse caso, o pobre palhaço ainda estaria sentado no quarto em estado catatônico.

Mas ele não estava no m otel.

Tam pouco estava no voo seguinte de Kansas City /Seattle.

Oslett e Clocker partiram de Seattle a bordo de um Learj et particular pertencente a um filiado da Rede. No m om ento em que chegaram a Kansas City, na noite de dom ingo, o carro alugado de Alfie fora encontrado abandonado num bairro residencial de Topeka, m ais ou m enos a um a hora para oeste. Eles não podiam m ais evitar encarar a verdade. Tinham um m enino m au nas m ãos. Alfie era um renegado.

Claro, para Alfie era im possível tornar-se renegado. Catatônico, sim . Ausente sem licença, não. Todo o m undo que tinha um envolvim ento íntim o com o program a estava convencido disso. Tinham tanta confiança quanto a tripulação do Titanic antes de beij ar o iceberg.

Com o a Rede m onitorava as com unicações da polícia em Kansas City, com o em qualquer outro lugar, sabia que Alfie assassinara seus dois alvos durante o sono, em algum m om ento entre a m eia-noite de sábado e um a da m adrugada de dom ingo. Até esse ponto, ele seguira o plano à risca.

Depois disso, eles não podiam responder por seu paradeiro. Tinham que supor que ele havia dado o fora e estava fugindo desde um a da m adrugada de sábado, hora legal da região central, o que significava que em três horas ele seria renegado durante dois dias com pletos.

Será que ele poderia ter viajado todo o trajeto até a Califórnia em 48 horas? Oslett perguntou-se enquanto Clocker entrava na estrada de acesso ao aeroporto de Oklahom a.

Acreditavam que Alfie estava de carro porque um Honda tinha sido roubado num a rua residencial, não m uito longe de onde o carro alugado fora abandonado.

De Kansas City a Los Angeles eram 2.700 ou 2.800 quilôm etros. Ele poderia ter viaj ado essa distância em m enos de 48 horas, supondo-se que só tivesse esse propósito e não parasse para dorm ir. Alfie podia ficar três ou quatro dias sem dorm ir. E era tão obstinado quanto um político perseguindo um dólar desonesto.

Na noite de dom ingo, Oslett e Clocker tinham ido a Topeka para exam inar o carro abandonado. Esperavam encontrar um a pista que levasse a seu genioso assassino de aluguel.

Com o Alfie era bastante esperto para não usar os cartões de crédito falsos que lhe haviam dado — e pelos quais poderia ser rastreado —, e com o possuía todas as habilidades necessárias para ser m uito bem -sucedido num assalto arm ado, eles usaram os contatos da Rede para acessar e exam inar arquivos com putadorizados do Departam ento de Polícia de Topeka. Com isso, descobriram que um arm azém tinha sido assaltado por desconhecidos m ais ou m enos às quatro horas da m anhã de dom ingo; o em pregado recebeu um tiro na cabeça e m orreu, e pelo cartucho ej etado encontrado no cenário do crim e verificou-se que a arm a do assassino disparava m unição de 9m m . A arm a que Alfie recebeu para o trabalho em Kansas City era um a pistola Heckler & Koch P7 9m m Parabellum .

A prova concludente era a venda que o em pregado fizera m inutos antes de ser m orto, que a polícia averiguara a partir de um exam e do registro com putadorizado do caixa. Foi um a com pra m uito grande para um arm azém : várias unidades de Slim Jim s, biscoitos de queij o, am endoins, sonhos tam anho pequeno, barras de doce e outros artigos ricos em calorias. Com seu m etabolism o veloz, Alfie se abasteceria de artigos com o esses se houvesse fugido com a intenção de esquecer de dorm ir durante algum tem po.

E, nesse ponto, eles o tinham perdido por um tem po longo dem ais.

De Topeka, ele poderia ter ido para oeste pela Interestadual 70, todo o traj eto até o Colorado. Ao norte pela Autoestrada Federal 75. Ao sul por diversas rotas até Chanute, Fredonia, Coffey ville. A sudoeste para Wichita. Para qualquer lugar.

Em teoria, m inutos depois que fosse j ulgado renegado, teria sido possível ativar o transportador de seu sapato por m eio de um sinal codificado em m icroondas através de satélite para todos os Estados Unidos continental. Eles poderiam usar um a série de satélites de rastream ento geossincrônicos para averiguar sua posição, acossá-lo e trazê-lo para casa em questão de horas.

Mas houve problem as. Sem pre havia problem as. O beij o do iceberg.

Foi só na tarde de segunda-feira que eles localizaram o sinal do transportador em Oklahom a, a leste da fronteira do Texas. Oslett e Clocker, que esperavam em Topeka, voaram para a cidade de Oklahom a e, a bordo de um carro de aluguel, seguiram para oeste na Interestadual 40, equipados com o m apa eletrônico que os levara aos velhos m ortos e ao par de sapatos Rockport com um dos saltos cortados, expondo seu m ecanism o eletrônico.

Agora estavam de novo no aeroporto de Oklahom a, rolando de um lado para o outro, com o dois fliperam as dentro da m áquina m ais lenta do universo conhecido. No m om ento em que rodaram em direção ao estacionam ento da agência de aluguel para entregar o carro, Oslett estava quase gritando. A única razão para ele não gritar era o fato de não haver ninguém para ouvi-lo, a não ser Karl Clocker. Podia m uito bem gritar para a lua.

No term inal, ele encontrou um a banca de j ornais e com prou a últim a edição da revista People.

Clocker com prou um pacote de gom a de m ascar sabor de frutas, um botão de lapela em que estava escrito: EU ESTIVE EM OKLAHOMA — AGORA POSSO MORRER, e a edição em brochura da enésim a novelização de Jornada nas Estrelas.

Na calçada lá fora, onde o trânsito de pedestres não era tão intenso nem tão interessantem ente bizarro quanto no aeroporto JFK ou no La Guardia de Nova York, Oslett sentou-se num banco em oldurado por verde enj oativo em vasos grandes. Folheou a revista até as páginas 66 e 67.

SR. ASSASSINO

NO SUL DA CALIFÓRNIA, ROMANCISTA DE MISTÉRIOS

MARTIN STILLWATER VÊ ESCURIDÃO E MAL

ONDE OUTROS VÊEM APENAS A LUZ DO SOL.

As duas prim eiras páginas que abriam a m atéria estavam ocupadas, em sua m aior parte, por um a fotografia do escritor. Crepúsculo. Nuvens agourentas. Árvores fantasm agóricas com o pano de fundo. Um ângulo esquisito. Stillwater estava com o que investindo contra a câm era, as feições desfiguradas, os olhos brilhando com a luz refletida, parecendo um zum bi ou assassino ensandecido.

Era óbvio que o suj eito era um im becil, um auto prom otor detestável que ficaria feliz em vestir as velhas roupas de Agatha Christie, se isso aj udasse a vender seus livros. Ou em prestaria seu nom e a um cereal de café da m anhã: Bolo Fofo Mistério de Martin Stillwater, feito de aveia e enigm áticos subprodutos de m oagem . Um a figura de ação livre incluída em cada caixa, num a série de onze vítim as de assassinato, cada qual elim inada de um a m aneira diferente, com todos os ferim entos detalhados em verm elho brilhante. Com ece sua coleção hoj e e, ao m esm o tem po, deixe nossos subprodutos de m oagem fazerem um favor às suas tigelas.

Oslett leu o texto da prim eira página, m as ainda não com preendia por que o artigo tinha feito com que a pressão arterial do contato de Nova York atingisse um a zona de risco de enfarte. Enquanto lia sobre Stillwater, ele pensou que a m anchete podia ser “Sr. Tédio”. Se algum dia aquele suj eito vendesse seu nom e para um cereal, este não precisaria de alto conteúdo de fibras porque, com toda garantia, arrancaria a m erda do freguês do tédio.

Drew Oslett detestava livros com a m esm a intensidade com que certas pessoas detestam dentistas, e achava que os autores — sobretudo os rom ancistas — haviam nascido na m etade errada do século e deviam conseguir um em prego de verdade nas áreas de desenho com putadorizado, gerência cibernética, ciências espaciais ou fibra ótica aplicada, indústrias que tinham um a contribuição a dar à qualidade de vida no final do m ilênio. Com o diversão, os livros eram tão lentos. Os escritores insistiam em colocar o leitor na m ente dos personagens, m ostrando o que estavam pensando. Não era preciso aguentar isso nos film es. Os film es nunca colocam alguém na m ente dos personagens. Mesm o se os film es pudessem m ostrar o que pensam as pessoas que estão nele, pelo am or de Deus, quem iria querer entrar na m ente de Sy lvester Stallone, Eddie Murphy ou Susan Sarandon? Os livros eram íntimos dem ais. Não tinha im portância o que as pessoas pensavam , só o que faziam . Ação e velocidade. Aqui, no lim iar de um novo século de alta tecnologia, só havia dois lem as: ação e velocidade.

Ele virou para a terceira página do artigo e viu outra foto de Martin Stillwater.

— Puta m erda.

Nessa segunda fotografia, o escritor estava sentado à escrivaninha, encarando a câm era. A qualidade da luz era estranha, um a vez que parecia vir sobretudo de um abaj ur com vitral ao lado e atrás dele, m as sua aparência era diferente daquele zum bi de olhos cintilantes das páginas anteriores.

Clocker estava sentado na outra ponta do banco, com o um enorm e urso adestrado em roupas hum anas, esperando paciente que a orquestra do circo tocasse sua m úsica tem a. Estava concentrado no prim eiro capítulo da novelização de Jornada nas Estrelas, Spock Pega Gonorreia, ou sej a lá com o fosse o título.

Levantando a revista para que Clocker pudesse ver a foto, Oslett disse:

— Olha isso.

Após dar-se o tem po para term inar o parágrafo que estava lendo, Clocker olhou para a People.

— Esse é Alfie.

— Não, não é.

Mascando a gom a de Juicy Fruit, Clocker falou:

— Claro que parece com ele.

— Tem algum a coisa m uito errada aqui.

— Parece exatam ente igual a ele.

— O beij o do iceberg — disse Oslett em tom agourento.

Clocker franziu as sobrancelhas:

— Hem ?

* * *

Na confortável cabine do j ato particular para doze passageiros, decorado com bom gosto, um suave cam urça m arrom -cam elo e contrastante couro com acabam ento craquelê, em tons de verde-floresta, Clocker estava sentado na frente e lia A Ameaça Proctológica Alienígena, ou sej a lá qual fosse o título da m aldita brochura. Oslett estava sentado no m eio do avião.

Quando ainda estavam decolando para fora da cidade de Oklahom a, ele telefonou para seu contato em Nova York.

— Está bem , j á vi a People.

— Parece um chute na cara, não parece? — disse Nova York.

— O que está acontecendo?

— Ainda não sabem os.

— Você acha que a sem elhança é apenas um a coincidência?

— Não. Por Deus, eles parecem gêm eos idênticos.

— Por que estou indo para a Califórnia... para dar um a olhada nesse escritor idiota?

— E talvez para achar Alfie.

— Você acha que Alfie está na Califórnia?

— Bem , ele tinha que ir para algum lugar — disse Nova York. — Além disso, no instante em que essa coisa da People caiu em cim a de nós, com eçam os a tentar saber tudo que podíam os sobre Martin Stillwater, e agora m esm o descobrim os que houve algum a encrenca em sua casa em Mission Viej o, no final da tarde ou com eço da noite.

— Que tipo de encrenca?

— O relatório policial está sendo feito, m as ainda não foi digitado no com putador deles, portanto não podem os acessá-lo. Tem os que pôr as m ãos num a cópia. Estam os trabalhando para isso. Por enquanto, sabem os que um invasor esteve na casa. Parece que Stillwater atirou em alguém , m as o cara fugiu.

— Você acha que isso tem algo a ver com Alfie?

— Aqui ninguém acredita m uito em coincidência.

Houve um a m udança no som dos m otores do Lear. O j ato term inou a decolagem , nivelou-se e entrou em velocidade cruzeiro.

— Mas com o Alfie iria saber da existência de Stillwater? — perguntou Oslett.

— Talvez ele leia a People — disse Nova York, dando um a risada nervosa.

— Se você acha que o invasor era Alfie... por que ele iria atrás desse suj eito?

— Ainda não tem os um a teoria.

Oslett suspirou.

— Sinto-m e com o se estivesse num a privada cósm ica e Deus acabasse de puxar a descarga.

— Talvez você devesse ter tom ado m ais cuidado com a form a de lidar com ele.

— Isso não foi um trabalho m alfeito no tratam ento — disse Oslett irado.

— Ei, não estou fazendo nenhum a acusação. Só estou lhe dizendo um a das coisas que estão sendo faladas por aqui.

— Parece-m e que o grande trabalho m alfeito estava na vigilância por satélite.

— Você não podia esperar que o localizassem depois que ele tirou os sapatos.

— Mas por que precisaram de um dia e m eio para descobrir os m alditos sapatos? Mau tem po no Meio-Oeste. Atividade das m anchas solares, perturbações m agnéticas. Excesso de quilôm etros quadrados na zona inicial de busca. Desculpas, desculpas, desculpas.

— Pelo m enos eles têm algum as — disse Nova York satisfeito consigo m esm o.

Oslett irritou-se em silêncio. Odiava estar fora de Manhattan. No m om ento em que seu avião atravessava a fronteira da cidade, as facas eram sacadas e os pigm eus am biciosos com eçavam a tentar cortar sua reputação para deixá-la do tam anho deles.

— Você encontrará um hom em da frente na Califórnia — disse Nova York. — Ele lhe contará as novidades.

— Bárbaro.

Oslett franziu as sobrancelhas para o telefone e pressionou END, pondo fim ao telefonem a.

Precisava de um a bebida.

Além do piloto e do copiloto, a tripulação do voo incluía um a aerom oça. Com um botão que havia no braço da cadeira, ele podia convocá-la da pequena cozinha que havia nos fundos do avião. Ela chegou em segundos e ele pediu um uísque duplo com gelo.

Ela era um a loura atraente, usava um a blusa borgonha, saia cinza e paletó cinza para com binar. Oslett virou-se na cadeira para observá-la voltando para a cozinha de bordo.

Ele se perguntou se ela seria fácil. Talvez se usasse o seu charm e, ela o deixasse levá-la até o banheiro, onde ele faria a coisa de pé.

Durante um m inuto ele se entregou a essa fantasia, m as depois encarou a realidade e tirou-a da m ente. Mesm o se ela fosse fácil, haveria consequências desagradáveis. Mais tarde, ela iria querer sentar-se ao seu lado, talvez durante todo o traj eto até a Califórnia, com partilhando seus pensam entos e sentim entos em relação a tudo, do am or e do destino à m orte e ao significado do Big Bang. Ele não se im portava com o que ela pensava e sentia, só com o que podia fazer, e ele não estava com hum or para bancar o tipo de suj eito sensível dos anos 90.

Quando ela trouxe o uísque, ele perguntou pelas fitas de vídeo que havia no avião. Ela deu-lhe um a relação de quarenta títulos. O m elhor film e de todos os tem pos estava na videoteca do avião: Máquina Mortífera 3. Ele perdera a conta das vezes que tinha visto o film e, e o prazer que sentia não dim inuía com a repetição. Era o film e ideal porque não tinha nenhum a história que fizesse sentido para se ter o trabalho de acom panhar, não esperava que os espectadores assistissem à m udança e ao crescim ento dos personagens, era com posto, do início ao fim , de um a série de sequências de ação violenta e fazia m ais barulho do que um a corrida de stockcar j unto com um concerto de Megadeth.

Quatro m onitores colocados em posições diferentes possibilitavam que quatro film es fossem m ostrados ao m esm o tem po para passageiros diferentes. A aerom oça ligou Máquina Mortífera 3 no m onitor m ais próxim o a Oslett e deu-lhe um par de fones de ouvido.

Ele colocou os fones, ligou o volum e ao m áxim o e acom odou-se no assento com um sorriso arreganhado no rosto.

Mais tarde, depois que term inou o uísque, ele cochilou enquanto Danny Glover e Mel Gibson gritavam diálogos ininteligíveis, incêndios cam peavam , m etralhadoras m atraqueavam , explosivos detonavam e m úsica trovej ava.

2.

Na noite de segunda-feira, eles ficaram hospedados em quartos interligados num m otel em Laguna Beach. As acom odações não tinham qualidade para cinco ou m esm o quatro estrelas, m as os quartos eram lim pos e os banheiros tinham m uitas toalhas. Term inado o fim de sem ana prolongado e faltando vários m eses para a tem porada de turism o de verão, pelo m enos m etade do m otel estava desocupada e, em bora estivessem ao largo da Autoestrada da Costa do Pacífico, o lugar era tranquilo.

Os acontecim entos do dia haviam cobrado seu tributo. Paige sentia-se com o se houvesse ficado acordada durante um a sem ana. Até m esm o o colchão m acio dem ais e cheio de protuberâncias era tão tentador quanto um a cam a de nuvens na qual pudessem dorm ir deuses e deusas.

Na j anta, com eram pizza no m otel. Marty saiu para com prá-la — além de saladas e canelone com m olho de ricota deliciosam ente denso -— num restaurante a dois quarteirões de distância.

Quando retornou com a com ida, bateu com insistência na porta e estava pálido e com os olhos fundos quando entrou correndo, os braços carregados de em balagens para viagem . A princípio, Paige pensou que ele tinha visto o sósia passando pela região, m as então percebeu que ele esperava voltar e ver que elas haviam partido — ou estavam m ortas.

As portas externas de am bos os quartos tinham fortes fechaduras de cavilha m orta e correntes de segurança. Eles usaram as trancas e tam bém encostaram cadeiras de costas retas debaixo das m açanetas.

Nem Paige nem Marty poderiam im aginar algum a m aneira de O Outro descobri-los. Mas, m esm o assim , puseram as cadeiras com o calços nas portas. Com firm eza.

Por incrível que pudesse parecer, apesar do terror pelo qual haviam passado, as m eninas se dispunham a deixar Marty convencê-las de que a noite fora de casa era um tratam ento especial. Não estavam acostum adas a se hospedar em m otéis, de m odo que tudo — desde os colchões vibradores operados por m oedas até o papel de carta gratuito e as pequenas barras de sabonete perfum ado — era bastante exótico para fasciná-las quando Marty atraía sua atenção.

Elas ficaram intrigadas sobretudo com o fato de os assentos de privada de am bos os quartos estarem enrolados em bandas de papel branco enrugado, nas quais estava im pressa em três idiom as a garantia de que as instalações haviam sido esterilizadas. Com isso, Em ily deduziu que os hóspedes do m otel deviam ser “verdadeiros porcos”, que não sabiam que tinham que lim par-se depois, e Charlotte especulou que um a notícia tão especial com o aquela indicava que, para esterilizar as superfícies, tivesse sido necessário usar algo além de sabão ou detergente, talvez lança-cham as ou radiação nuclear.

Marty tam bém teve a esperteza de perceber que os sabores m ais exóticos dos refrigerantes das m áquinas de venda do m otel, que as m eninas não podiam tom ar em casa, as deliciaria e anim aria seu estado de espírito. Ele com prou chocolate Yoo-Hoo, Mountain Dew, Sparkling Grape, Cherry Crush, Tangerine Treat e Pineapple Fizz. Os quatro sentaram -se nas duas cam as tam anho gigante de um dos quartos, com recipientes de com ida espalhados no colchão e as garrafas de refrigerantes coloridos em cim a das m esinhas-de-cabeceira. Charlotte e Em ily precisaram provar um pouco de cada bebida antes de term inar a j anta, o que provocou náuseas em Paige.

Através do consultório de aconselham ento fam iliar, Paige aprendera m uito tem po antes que as crianças tinham um potencial de recuperação m ais ágil do que os adultos, quando se tratava de enfrentar traum as. Esse potencial era m ais bem realizado quando elas desfrutavam de um a estrutura fam iliar estável, recebiam grandes doses de afeto e acreditavam ser respeitadas e am adas. Ela sentiu um a onda de orgulho com o fato de suas filhas estarem se m ostrando fortes e flexíveis do ponto de vista em ocional — então, por superstição, ela disfarçou e bateu com o nó de um dedo na cabeceira de m adeira, pedindo a Deus em silêncio para não puni-la ou às filhas por causa de seu orgulho excessivo.

O m ais surpreendente foi que, depois que Charlotte e Em ily tom aram banho, vestiram o pij am a e se m eteram na cam a, no quarto contíguo, elas quiseram que Marty conduzisse sua costum eira hora de história, continuando os versos sobre o irm ão gêm eo m au de Noel. Paige reconheceu um a sem elhança desconfortável — na verdade, fantástica — entre o poem a fantasioso e os recentes acontecim entos assustadores em suas vidas. Marty e as m eninas tam bém se deram conta da ligação. No entanto, ele parecia tão contente com a oportunidade de com partilhar m ais versos quanto as crianças estavam ansiosas para ouvir.

Ele posicionou um a cadeira aos pés — e à m esm íssim a distância — das duas cam as. Na pressa de fazer as m alas e sair de casa, ele se lem brara de pegar o caderno de anotações intitulado Histórias para Charlotte e Emily, com sua lâm pada de leitura à pilha e com gancho para prender. Ele sentou-se e segurou o caderno à distância de leitura.

A espingarda estava no chão ao seu lado.

A Beretta estava no toucador, que Paige podia alcançar no espaço de dois m inutos.

Marty esperou que o silêncio desse vida à qualidade adequada da expectativa.

A cena era igual a que Paige testem unhara tantas vezes no quarto das m eninas, exceto por duas diferenças. A cam a tam anho gigante transform ava Charlotte e Em ily em anãs, fazendo-as parecer crianças de conto de fadas, m eninas desam paradas e sem casa que haviam entrado às escondidas no castelo de um gigante para roubar um pouco de seu m ingau e desfrutar de seu quarto de hóspedes. E a lum inária em m iniatura presa no caderno de anotações não era a única fonte de luz; um dos abaj ures da m esinha-de-cabeceira tam bém estava aceso, e assim perm aneceriam durante toda a noite — única concessão das m eninas ao m edo.

Surpresa por descobrir que tam bém estava ansiosa esperando a continuação do poem a, Paige sentou-se aos pés da cam a de Em ily.

Ela perguntou-se o que haveria nas histórias que fazia com que as pessoas as desej assem quase tanto quanto a com ida e a água, m uito m ais nos m aus m om entos do que nos bons. Os cinem as nunca atraíram tanto público com o na época da Grande Depressão. Muitas vezes, as vendas de livros aum entam durante as recessões. A necessidade ia além de um m ero desej o de entretenim ento e distração das preocupações. Era m uito m ais profunda e m isteriosa.

Quando o silêncio caiu sobre o quarto e o m om ento pareceu adequado, Marty com eçou a ler. Com o Charlotte e Em ily insistiram que ele com eçasse do com eço, ele recitou os versos que elas j á haviam ouvido nas noites de sábado e dom ingo, chegando ao m om ento em que o gêm eo m au de Noel se encontrava na porta da cozinha da casa dos Stillwater com a intenção de arrom bá-la.

Com gazuas, cartões, troços e trecos,

ele abre as duas fechaduras, com rapidez e silêncio.

Entra na cozinha sem fazer nenhum barulho.

Agora abundam de fato as chances de diabrura.

Ele abre a geladeira e come o bolo inteiro,

pensando no tipo de bagunça que pode fazer.

Derrama o leite pelo chão,

pickles, pudim, ketchup e Coors.

Espalha o pão — branco e centeio —

e no final cospe bem na torta.

— Ah, que porco — disse Charlotte.

Em ily deu um a risadinha.

— Espetou o dedo na torta.

— Que tipo de torta era? — perguntou Charlotte.

— De frutas picadas — falou Paige.

— Argh. Então não culpo ele por cuspir nela.

No quadro de cortiça ao lado do telefone e do banquinho,

ele vê desenhos que as crianças fizeram na escola.

Emily pintou um rosto simpático e sorridente.

Charlotte desenhou elefantes no espaço.

O vilão tira do bolso uma caneta hidrográfica vermelha,

bate nela, destampa, dá uma risada e depois

rabisca nos dois desenhos a palavra “buu”!

Ele sempre sabe o que é pior para fazer.

— Ele é um crítico! — Charlotte ofegou, form ando punhos com as m ãos e socando com força o ar acim a de sua cabeça.

— Críticos — disse Em ily, exasperada, revirando os olhos à m aneira com o vira o pai fazer algum as vezes.

— Meu Deus — disse Charlotte, cobrindo o rosto com as m ãos —, tem os um crítico em nossa casa.

— Vocês sabiam que seria um a história para m eter m edo — disse Marty.

Ele continua dando risadas malvadas,

enquanto se mete em encrenca muito maior.

Ele é muito mais mau do que bravo,

então depois de entupir o microondas

com cinco quilos de pipoca

(oh, devíamos lastimar o dia em que ele nasceu),

ele vira e sai correndo da cozinha,

porque o velho forno vai fazer BUUM!

— Cinco quilos! — A im aginação de Charlotte a arrebata. Ela se equilibra nos cotovelos, a cabeça fora do travesseiro e balbucia excitada: — Uau, precisaria de um a em pilhadeira e um cam inhão de lixo para tirar tudo, depois que estourasse, porque seria com o m assa de neve, só que de pipoca, montanhas de pipocas. Precisaríam os de um tonel de caram elo ou um zilhão de quilos de nozes só para transform ar tudo isso em bolas de pipoca. Nós entupiríam os nossas bundas com isso.

— O que você disse? — perguntou Paige.

— Eu disse que a gente iria precisar de um a em pilhadeira...

— Não, essa palavra que você usou.

— Que palavra?

— Bundas — disse Paige, paciente.

— Não é um a palavra feia — argum entou Charlotte.

— Não?

— Falam isso na televisão o tem po todo.

— Nem tudo que aparece na televisão é inteligente e de bom gosto — disse Paige.

Marty baixou o caderno de anotações.

— Na verdade, quase nada.

Paige disse para Charlotte:

— Já vi na tevê pessoas voando de rochedos com seus carros, envenenando os pais para ficar com a herança, brigando com espadas, roubando bancos... todos os tipos de coisas que não im agino vocês fazendo.

— Principalm ente essa coisa de envenenar o pai — disse Marty.

— Está bem , não vou falar “bunda”.

— Ótim o.

— O que devo dizer então? Está bem “bum bum ”?

— Que tal lhe parece “traseiro”? — perguntou Paige.

— Acho que dá para aguentar.

Tentando não explodir num a risada, sem ousar olhar para Marty, Paige disse:

— Vá falando “traseiro” por enquanto. Depois, quando for ficando m ais velha, pode passar devagar para “bum bum ”, e quando j á for adulta pode falar “bunda”.

— Muito j usto — concordou Charlotte, acom odando-se no travesseiro.

Em ily, que estava pensativa e silenciosa, m udou de assunto.

— Cinco quilos de pipoca crua não caberiam no m icroondas.

— Claro que caberiam — assegurou-lhe Marty.

— Acho que não.

— Pesquisei antes de com eçar a escrever — disse com firm eza.

O rosto de Em ily franziu-se com ceticism o.

— Você sabe que eu pesquiso tudo — insistiu ele.

— Talvez não dessa vez — ela disse em tom de dúvida.

— Cinco quilos — disse Marty.

— É m uita pipoca.

Marty disse, virando-se para Charlotte:

— Tem os outra crítica na casa.

— Está bem — disse Em ily. — Continue, leia um pouco m ais.

Marty levantou um a sobrancelha.

—- Quer m esm o ouvir m ais dessa conversa fiada não convincente e pobre em pesquisa?

— Um pouco m ais, pelo m enos — reconheceu Em ily.

Com um exagerado suspiro de m uito sofrim ento, Marty lançou um olhar furtivo para Paige, tornou a pegar o caderno de anotações e continuou a leitura:

Ele Perambulou pelo andar de baixo — malvado, sórdido —

procurando fazer mais uma cena má.

Quando espia os presentes debaixo da árvore,

ele diz: “Vou fazer uma farra de troca de presentes!

Vou tirar toda a coisa boa,

depois vou embalar peixe morto, rabo de gato e cotão.

Pela manhã, os Stillwater vão encontrar

borra de café, caroços de pêssegos, cascas de laranja.

Em vez de belos suéteres, jogos e brinquedos,

eles vão ter coisa viscosa e fedida que aborrece.”

— Ele não vai escapar com isso — disse Charlotte.

— Ele pode — garantiu Em ily.

— Não pode.

— Quem vai detê-lo?

Charlotte e Emily estão em suas camas

com sonhos de Natal enchendo suas cabeças.

De repente, um barulho assusta essas dorminhocos.

Elas sentam-se na cama e abrem os olhos.

Nada devia estar se mexendo, nem um camundongo,

mas as meninas sentem que há um vilão na casa.

Pode-se chamar isso de sobrenatural, premonição, osmose —

ou talvez elas sintam o cheiro de sua baita halitose.

Pulam para fora da cama, esquecendo os chinelos,

duas meninas corajosas e temerárias.

“Tem alguma coisa errada”, a jovem Emily sussurra.

Mas elas podem dar um jeito nisso — elas são irmãs.

Esse desenvolvim ento — Charlotte e Em ily com o heroínas da história — encantou as m eninas. Elas viraram a cabeça para se encarar na distância entre as duas cam as e sorriram .

Charlotte repetiu a pergunta de Em ily :

— Quem vai detê-lo?

— Nós — disse Em ily.

— Bem ... talvez — replicou Marty.

— Ulalá — exclam ou Charlotte.

Em ily apupou.

— Não se preocupe. Papai só está tentando nos m anter em suspense. Nós vam os deter esse anão velho, tudo bem .

Na sala de estar, debaixo da árvore,

o gêmeo mau de Noel dá risadas de alegria.

Ele conseguiu uma coleção de substitutos de presentes

tirada em montes de lixo, esgotos e porões.

Ele substitui um lindo relógio que seria para Lottie

por um torpe presente para uma menina que é desobediente,

que é uma coisa que Lottie nunca foi.

Esquecer suas vitaminas é seu maior pecado.

Em lugar do relógio, ele embrulha um coágulo

de ranho de horrível sapo brilhante e esverdeado.

Rouba uma boneca de um pacote para Emily

e dá a ela um novo presente que com certeza vai assustar.

Está pingando, rançoso e começa a crepitar.

Nem mesmo o vilão sabe o que é.

— O que você acha que é, m am ãe? — perguntou Charlotte.

— É provável que sej am aquelas m eias suj as que você guardou no lugar errado há seis m eses.

Em ily deu um a risadinha e Charlotte disse:

— Mais cedo ou m ais tarde vou encontrar aquelas m eias.

— Se for isso que está na caixa, então com certeza num vou querer abrir — disse Em ily.

— Não vou querer abrir — corrigiu Paige.

— Ninguém vai abrir — Em ily concordou, errando o alvo. — Puxa!

De pijamas, sem chinelos, agora à espreita,

as meninas vão procurar a alma que for.

Elas sobem correndo até o topo da escada,

fazendo menos barulho que traças numa tumba.

As duas são tão delicadas, magras e pequenas,

e ambas têm pés rosados e muito pequenos.

Como essas duas menininhas esperam lutar

com um Noel que é capaz de chutar e morder?

São elas treinadas em karatê ou tae kwon do?

Não, não, receio que a resposta seja não.

Têm granadas enfiadas nos bolsos dos pijamas?

Lasers implantados nas órbitas dos olhos?

Não, não, receio que a resposta seja não.

No entanto, elas descem e descem pela escada sombria.

O perigo lá embaixo que não podem compreender.

Esse Noel foi muito além dos limites.

Ele é pior que gripe, dor de dente e bolhas.

Mas elas também são duras — são irmãs!

Com o um desafio, Charlotte j ogou o punho para o alto e disse:

— Irm ãs!

— Irm ãs! — repetiu Em ily, tam bém j ogando o punho para o alto.

Quando descobriram que haviam chegado ao ponto de parada por aquela noite, insistiram para que Marty lesse de novo os versos, e Paige notou que ela tam bém queria ouvir as frases um a segunda vez.

Apesar de fingir que estava cansado e precisando ser baj ulado um pouco para atendê-las, Marty teria ficado desapontado se não fosse im portunado para fazer um a segunda leitura.

No m om ento em que o pai chegou ao final do últim o verso, Em ily só conseguiu m urm urar sonolenta:

— Irm ãs.

Charlotte j á estava roncando baixo.

Em silêncio, Marty recolocou a cadeira de leitura no canto de onde a havia tirado. Exam inou as trancas da porta e das j anelas, depois verificou se não havia aberturas nas cortinas, pelas quais alguém pudesse olhar de fora para dentro do quarto.

Depois de enfiar as cobertas nos om bros de Em ily, e em seguida nos de Charlotte, Paige deu beij os de boa-noite nas duas. O am or que sentia por elas era tão intenso com o o peso em seu peito que a im pedia de respirar fundo.

Quando ela e Marty se retiraram para o quarto contíguo, levando as arm as, não apagaram a luz da m esinha-de-cabeceira e deixaram escancarada a porta de ligação. Não obstante, suas filhas pareciam estar perigosam ente longe dela.

Com o um acordo não expresso em palavras, ela e Marty deitaram -se lado a lado na m esm a cam a tam anho gigante. Era intolerável a ideia de ficar separados m esm o que por poucos centím etros.

Um abaj ur ao lado da cam a estava aceso, m as Marty apagou. Saía luz suficiente através da porta da unidade contígua, expondo a m aior parte de seu próprio quarto. Som bras cobriam cada canto, m as a escuridão m ais profunda era m antida afastada.

Os dois deram as m ãos e ficaram olhando para o teto, com o se seu destino pudesse ser lido nos desenhos portentosos de luz e som bras do em boço. Não era apenas o teto; durante as últim as horas, virtualm ente tudo que Paige olhava parecia estar cheio de augúrios com significado am eaçador. Nem ela nem Marty tiraram a roupa para passar a noite. Em bora fosse difícil de acreditar, eles podiam ter sido seguidos sem saber. E queriam poder m exer-se com rapidez.

A chuva havia parado algum as horas antes, m as os ritm os aquosos ainda os enganavam . O m otel situava-se num alcantil sobre o Pacífico, e o cadenciado quebrar de ondas era, com sua certeza m etronôm ica, um som calm ante e pacífico.

— Diga-m e um a coisa — disse ela, falando baixo para im pedir que a voz chegasse ao outro quarto.

Ele parecia cansado.

— Qualquer que sej a a questão, é provável que eu não tenha a resposta.

— O que aconteceu ali?

— Agora há pouco? No outro quarto?

— É.

— Magia.

— Estou falando sério.

— Eu tam bém — disse Marty. — Você não pode analisar os efeitos m ais profundos que o ato de contar histórias tem sobre nós; não pode decifrar o porquê e o com o, do m esm o j eito que o rei Arthur não podia com preender com o Merlim fazia e conhecia as coisas que fazia.

— Nós chegam os aqui baqueados, assustados. As m eninas estavam tão caladas, quase paralisadas de m edo. Nós dois estávam os vociferando um com o outro...

— Não vociferando.

— Estávam os sim .

— Está bem — adm itiu ele. — Estávam os, só um pouco.

— O que, para nós, é m uito. Todos estávam os... intranquilos um com o outro. Am arrados.

— Não acho que tenha sido ruim .

— Escute um a conselheira fam iliar com algum a experiência — disse ela — ...foi ruim sim . Depois você contou um a história, um adorável poem a absurdo, m as m esm o assim absurdo... e todo o m undo estava m ais relaxado. Ele aj udou a nos unir de algum a form a. Nós nos divertim os, rim os. As m eninas estavam cansadas e, antes que você se desse conta, estavam preparadas para dorm ir.

Durante algum tem po, nenhum dos dois falou.

O sussurro m étrico das ondas noturnas parecia o batim ento lento e constante de um enorm e coração.

Quando Paige fechou os olhos, im aginou que era de novo um a m enina pequena, aninhada no colo da m ãe com o poucas vezes tivera perm issão de fazer, a cabeça no peito dela, um ouvido sintonizado com o coração oculto da m ulher, procurando ouvir com atenção um som baixo que não era apenas biológico, um sussurro especial que pudesse reconhecer com o o precioso som do am or. Ela j am ais ouviu coisa algum a, a não ser o dumdum vazio e m ecânico da aurícula e do ventrículo.

No entanto, sentiu-se confortada. Talvez num profundo nível subterrâneo, ao ouvir o coração m aterno, ela tivesse recordado os nove m eses no útero de sua m ãe, durante os quais o m esm o batim ento iâm bico a cercara 24 horas por dia. No útero está a paz perfeita que j am ais será encontrada de novo. Enquanto não nascem os, não conhecem os nada do am or e não podem os conhecer a tristeza que surge quando som os privados dele.

Ela ficou agradecida por ter Marty, Charlotte, Em ily. Porém , enquanto vivesse, ocorreriam m om entos com o aquele, em que algum a coisa tão sim ples com o o quebrar de ondas faria com que ela se lem brasse do profundo poço de tristeza e isolam ento em que habitou durante toda a infância.

Ela sem pre se esforçava para que as filhas j am ais duvidassem , por um instante sequer, que eram am adas. Agora estava determ inada a não perm itir que aquela invasão de loucura e violência em suas vidas roubasse qualquer fração da infância de Charlotte ou Em ily, assim com o a sua fora roubada por com pleto. Com o o desam or de seus pais fora superado pelo desam or que sentiam pela única filha, Paige fora obrigada a am adurecer rápido devido à sua própria sobrevivência em ocional; m esm o quando frequentava a escola prim ária, ela tinha consciência da fria indiferença do m undo e com preendia que um a forte autoconfiança era im perativa, se quisesse enfrentar as crueldades que a vida às vezes podia infligir. Mas, droga, suas filhas não teriam que aprender essas duras lições da noite para o dia. Não nas tenras idades de sete e nove anos. De m aneira nenhum a. Ela queria desesperadam ente protegê-las durante m ais alguns anos contra as realidades m ais rudes da existência hum ana, dando-lhes a chance de crescer pouco a pouco, felizes, sem am argura.

Marty foi o prim eiro a rom per o confortável silêncio.

— Quando Vera Conner teve o ataque e passam os grande parte daquela sem ana na sala de espera da unidade de tratam ento intensivo, havia m uitas outras pessoas indo e vindo, esperando para saber se seus am igos e parentes viveriam ou m orreriam .

— Difícil acreditar que Vera se foi há quase dois anos.

Vera Conner tinha sido professora de psicologia na UCLA, m entora de Paige quando estudante e am iga exem plar nos anos seguintes. Ela ainda sentia saudades de Vera. Sem pre sentiria.

— Algum as pessoas que esperavam naquela sala apenas ficavam sentadas, olhando com olhos fixos — disse Marty. Outras andavam de um lado para o outro, olhavam pelas j anelas, se inquietavam . Ouviam walkman com fones de ouvido. Jogavam Gam e Boy. Passavam o tem po de todas as m aneiras. Mas — você notou? — as pessoas que pareciam lidar m elhor com seu m edo ou sofrim ento, as que estavam m ais em paz, eram aquelas que liam rom ances.

Com exceção de Marty, e apesar dos quarenta anos de diferença de idade, Vera fora a am iga m ais querida de Paige e a prim eira pessoa a se preocupar com ela. A sem ana em que Vera ficou hospitalizada — prim eiro desorientada e sofrendo, depois em com a — foi a pior sem ana da vida de Paige; quase dois anos depois, sua visão ainda se turvava toda vez que se lem brava do últim o dia, da hora final, quando ficara sentada ao lado da cam a de Vera, segurando a m ão quente m as inerte da am iga. Sentindo que o fim estava próxim o, Paige dissera coisas que esperava que Deus perm itisse que a m oribunda ouvisse: eu a amo, sempre sentirei sua falta, para mim você é a mãe que minha própria mãe jamais conseguiu ser.

As longas horas daquela sem ana ficaram gravadas de m aneira indelével na m em ória de Paige, em detalhes m ais dolorosos do que ela gostaria, um a vez que a tragédia é o instrum ento de gravação m ais afiado de todos. Ela não apenas lem brava da planta e dos m óveis da sala de visitas da UTI, em lúgubres detalhes, com o ainda podia recordar os rostos de m uitos dos estranhos que, durante algum tem po, dividiram aquela sala com ela e Marty.

— Eu e você passam os o tem po com rom ances — retom ou Marty —, assim com o outras pessoas, não apenas para fugir, m as porque... porque, na m elhor das hipóteses, a ficção é rem édio.

— Rem édio?

— A vida é tão desordenada, as coisas acontecem , e parece não haver m uito sentido em m uito do que passam os. Às vezes, parece que o m undo é um asilo de loucos. A ficção condensa a vida, dá ordem a ela. As histórias têm com eço, m eio e fim . E quando um a história acaba, ela significou algum a coisa, por Deus, talvez não algo com plexo, talvez o que tinha para dizer era sim ples e até ingênuo, m as havia um sentido. E isso nos dá esperança, é um rem édio.

— O rem édio da esperança — disse ela, pensativa.

— Ou talvez eu só estej a dizendo m erda.

— Não, não está.

— Bem , estou, sim , é provável que só a m etade sej a m erda... m as talvez nem isso.

Ela sorriu e apertou-lhe a m ão com delicadeza.

— Não sei — disse ele —, m as acho que se algum a universidade fizesse um estudo a longo prazo, descobriria que as pessoas que leem ficção não sofrem tanto de depressão, não com etem suicídio com tanta frequência e estão felizes com suas vidas. Não qualquer ficção, claro. Não os rom ances os-seres-hum anos-são-lixo-a-vida-fede-Deus-não-existe, cheios do desespero da m oda.

— Dr. Martin Stillwater, m inistrando o rem édio da esperança.

— Viu? Você acha que estou falando m erda.

— Não, baby, não — disse ela. — Acho que você é m aravilhoso.

— Mas não sou. Você é m aravilhosa. Sou apenas um escritor neurótico. Por natureza, os escritores são convencidos dem ais, egoístas, inseguros e, ao m esm o tem po, presunçosos dem ais para serem m aravilhosos.

— Você não é neurótico, convencido, egoísta, inseguro ou presunçoso.

— Isso só prova que você não m e deu ouvidos durante todos esses anos.

— Está bem , eu lhe dou o papel de neurótico.

— Obrigado, querida — disse ele. — É bom saber que você m e ouviu pelo m enos em parte do tem po.

— Mas tam bém é m aravilhoso. Um escritor m aravilhosam ente neurótico. Eu tam bém gostaria de ser um a m aravilhosa escritora neurótica, m inistrando rem édios.

— Morda sua língua.

— Estou falando sério.

— Talvez você consiga viver com um escritor, m as acho que eu não tenho estôm ago para isso.

Ela rolou para o lado direito para encará-lo, e ele virou para o lado esquerdo para que pudessem beij ar-se. Beij os ternos. Durante algum tem po, ficaram abraçados, escutando o quebrar de ondas.

Sem lançar m ão de palavras, eles concordaram em não continuar discutindo suas preocupações ou o que talvez tivessem que fazer pela m anhã. Às vezes, um toque, um beij o ou um abraço dizia m ais do que todas as palavras que um escritor podia reunir m ais do que todos os cuidadosam ente pensados conselhos e terapias que um a conselheira pudesse providenciar.

No corpo da noite, o grande coração do oceano batia devagar e confiavelm ente. Na perspectiva hum ana, a m aré era um a força eterna; m as, na visão divina, transitória.

No fundo da consciência, Paige ficou surpresa ao perceber que deslizava para o sono. Com o a súbita agitação das asas de um m elro, o alarm e estrem eceu-a com a perspectiva de ficar deitada inconsciente — e, portanto, vulnerável — num lugar estranho. Mas seu cansaço era m aior do que o m edo, e o conforto do m ar, em m arés de sonhos, abraçou-a e levou-a para a infância, onde ela encostou a cabeça no peito da m ãe e, com um ouvido, prestou atenção ao sussurro especial e secreto de am or escondido em algum a parte das batidas do coração.

3.

Ainda usando o par de fones de ouvido, Drew Oslett acordou com tiros, explosões, gritos e m úsica alta e estridente o bastante para ser o tem a de Deus no Dia do Juízo Final. Na tela de tevê, Glover e Gibson estavam correndo, saltando, socando, gritando, fugindo, girando, pulando através de prédios em cham as num excitante balé de violência.

Sorrindo e bocej ando, Oslett olhou para o relógio de pulso e viu que dorm ira m ais de duas horas e m eia. Evidentem ente, depois que o film e chegara ao fim , a com issária — percebendo que o film e funcionava com o um a verdadeira canção de ninar para ele — rebobinara-o e passara-o novam ente.

Deviam estar perto do destino. Com certeza faltaria m enos de um a hora para o Aeroporto John Way ne, no condado de Orange. Ele tirou os fones de ouvido, levantou-se e foi à frente da cabine para contar a Clocker o que ficara sabendo no telefonem a para Nova York.

Clocker dorm ia no assento. Havia tirado o paletó de tweed com rem endos e lapelas de couro, m as ainda usava o chapéu m arrom de abas reviradas em toda volta, com a pena de pato m arrom e preta. Apesar de não estar roncando, os lábios estavam abertos e um fio de baba escorria do canto da boca; m etade de seu queixo apresentava um brilho repugnante.

Às vezes, Oslett ficava m eio convencido de que a Rede estava lhe pregando um a peça colossal quando o com binava com Karl Clocker.

Seu pai era um graúdo na organização, e Oslett perguntava-se se o velho não o ligaria a um a figura ridícula com o Clocker para hum ilhá-lo. Ele detestava o pai e sabia que o sentim ento era m útuo. Entretanto, ele não podia acreditar que o velho fosse fazer essas brincadeiras com ele, apesar do antagonism o profundo e ardente — em grande parte porque, se fizesse isso, estaria expondo um Oslett ao ridículo. Proteger a honra e a integridade do nom e da fam ília sem pre teve precedência sobre os sentim entos pessoais e o aj uste de rancores entre os m em bros da fam ília.

Na fam ília Oslett, certas lições eram aprendidas tão cedo que Drew quase acreditava ter nascido com esse conhecim ento e um a profunda com preensão do valor do nom e Oslett, que parecia estar enraizado em seus genes. Nada — exceto um a vasta fortuna — era tão precioso com o um bom nom e, m antido através de gerações; um bom nom e irradiava tanto poder quanto um a trem enda riqueza, porque os políticos e j uízes sem pre achavam m ais fácil aceitar pacotes cheios de dinheiro, à guisa de suborno, quando a oferta vinha de pessoas cuj a linhagem produzira senadores, secretários de estado, líderes industriais, notáveis paladinos do m eio am biente e m uitos louvados patronos das artes.

Sua dupla com Clocker era apenas um equívoco. A qualquer m om ento, a situação seria retificada. Se a burocracia da Rede era lenta para rearrum ar m issões, e se o renegado fosse recuperado num estado que ainda perm itisse ser operado com o antes, Oslett puxaria Alfie para o lado e lhe daria instruções para liquidar com Clocker.

O livro Jornada nas Estrelas, com a lom bada quebrada, estava aberto no peito de Clocker, as páginas viradas para baixo. Oslett pegou o livro com cuidado para não acordar o grandalhão.

Abriu na prim eira página, sem dar-se ao trabalho de m arcar o lugar em que Clocker havia parado, e com eçou a ler, pensando que talvez encontrasse um a deixa capaz de lhe explicar por que tantas pessoas eram fascinadas pela nave Enterprise e sua tripulação. Poucos parágrafos depois, o m aldito autor o levava para dentro da m ente do capitão Kirk, território m ental que Oslett só estaria disposto a explorar se as alternativas fossem lim itadas às m entes estultificantes de todos os candidatos à presidência das últim as eleições. Ele saltou alguns capítulos, leu por alto, viu-se na afetada m ente racional de Spock, pulou m ais páginas e descobriu que caíra na m ente de McCoy.

Aborrecido, fechou Viagem ao Reto do Universo, ou sej a lá qual fosse o título da droga de livro, e bateu com ele no peito de Clocker para acordá-lo.

O grandalhão endireitou-se na cadeira tão de repente que o chapéu caiu em seu colo. Ele disse, sonolento:

— O quê? O quê?

— Vam os aterrissar em pouco tem po.

— Claro que vam os — disse Clocker.

— Tem um contato à nossa espera.

— A vida é contato.

Oslett estava de péssim o hum or. Perseguir um assassino de aluguel renegado, pensar no pai, m editar sobre a possível catástrofe representada por Martin Stillwater, ler várias páginas de Jornada nas Estrelas, e agora ser bom bardeado com m ais criptogram as de Clocker, era dem ais para qualquer pessoa suportar e ainda m anter o bom hum or.

— Ou você andou babando enquanto dorm ia ou um rebanho de lesm as se arrastou em seu queixo e entrou em sua boca — disse ele.

Clocker levantou o braço m usculoso e enxugou a parte inferior do rosto com a m anga da cam isa.

— Esse contato — disse Oslett — pode ter um a pista de Alfie. Devem os ficar atentos, preparados para nos m over. Você j á acordou?

Os olhos de Clocker estavam rem elentos.

— Nenhum de nós fica totalm ente acordado.

— Ah, por favor, quer parar com essa m erda m ística? Não estou com nenhum a paciência para isso agora.

Clocker fitou-o durante um longo m om ento e depois disse:

— Você tem um coração turbulento, Drew.

— Errado. É m eu estôm ago que ficou turbulento por ter que ouvir esse tipo de m erda.

— Um a tem pestade interior de hostilidade cega.

— Foda-se — disse Oslett.

De repente, os m otores do j ato m udaram de tom . Um m om ento depois, a aerom oça se aproxim ou para anunciar que o avião entrara em sua zona de aproxim ação do aeroporto do condado de Orange e para pedir que colocassem os cintos de segurança.

Segundo o Rolex de Oslett, era 1:52 da m anhã, m as isso em Oklahom a. Enquanto o Lear descia, ele aj ustou o relógio até m arcar oito m inutos para a m eia-noite.

No m om ento em que aterrissaram , a segunda-feira m udou para terça com o um a bom ba-relógio que m arca o tem po que falta para a detonação.

* * *

O hom em de frente — que parecia ter quase trinta anos, não sendo m uito m ais j ovem que Drew Oslett — aguardava na sala de espera do term inal para aviões particulares. Ele disse que se cham ava Jim Lom ax, que com toda probabilidade não era seu nom e.

Oslett disse que seus nom es eram Charlie Brown e Dagwood Bum stead.

O contato pareceu não ter entendido a piada. Aj udou a carregar a bagagem para o estacionam ento, em barcando-a na m ala de um Oldsm obile verde.

Lom ax era um desses Californianos que fez de seu corpo um tem plo e depois partiu para um a arquitetura m ais elaborada. A ética do exercício-alim entação-saúde j á se havia espalhado em cada canto do país e, durante anos, os am ericanos lutaram para ter bunda dura e coração saudável até os pontos m ais distantes do nevado Maine. Entretanto, o Estado Dourado estava no lugar em que fora feito o prim eiro suco de cenoura, onde foi aberto o prim eiro bar de cereais, e ainda era o único lugar onde um núm ero significativo de pessoas acreditava que palitos de cenoura crua eram um substituto satisfatório para batatas fritas, de m odo que apenas certos Californianos fanaticam ente dedicados tinham determ inação suficiente para exceder as exigências estruturais de um tem plo. Jim Lom ax tinha um pescoço parecido com um a coluna de granito, om bros com o vergas de porta de pedra calcária, um peito capaz de sustentar um a parede de nave, a barriga tão plana quanto um a pedra de altar e, com toda certeza, transform ara seu corpo num a catedral.

Em bora um a frente de torm enta tivesse percorrido a noite e o ar ainda estivesse frio e úm ido, Lom ax só vestia jeans e um a cam iseta que exibia um a foto de Madonna com os seios de fora (a cantora de rock, não a m ãe de Deus), com o se os elem entos o afetassem tão pouco quanto os m uros de pedra de qualquer fortaleza poderosa. Em vez de cam inhar, ele andava com o um pavão, realizando cada tarefa com graça calculada e evidente consciência de si m esm o, obviam ente feliz e convicto de que as pessoas tendiam a observá-lo e a invej á-lo.

Oslett suspeitava que Lom ax não era apenas um hom em orgulhoso, m as tam bém trem endam ente vaidoso, chegando a ser narcisista. O único deus venerado na catedral de seu corpo era o ego que o habitava.

Mesm o assim , Oslett gostou do suj eito. A coisa m ais atraente em Lom ax era o fato de que, em sua com panhia, Karl Clocker parecia ser o m enor dos dois. Na verdade, era a única coisa atraente no suj eito, m as bastava. Era provável que Lom ax só fosse um pouco — se fosse — m aior que Clocker, m as ele era m ais duro e m ais afiado. Por com paração, Clocker parecia lento, claudicante, velho e m ole. Com o às vezes ficava intim idado com o tam anho de Clocker, Oslett ficou encantado com a ideia de ele se intim idar com Lom ax — em bora, de m aneira frustrante, se Clocker estava im pressionado, não dem onstrou.

Lom ax dirigiu. Oslett foi no banco da frente e Clocker afundou-se no assento traseiro.

Ao deixar o aeroporto, eles pegaram à direita no MacArthur Boulevard. Estavam num a zona form ada por caros arranha-céus e com plexos de escritórios, m uitos dos quais pareciam ser o quartel-general regional ou nacional de grandes corporações, recuados em relação à rua, atrás de enorm es gram ados bem -cuidados, canteiros de flores, m oitas de arbustos e m uitas árvores, tudo ilum inado por lâm padas colocadas nos lugares certos.

— Debaixo de seu assento — disse Lom ax —, você encontrará um a xerox do relatório policial de Mission Viej o sobre o incidente na casa dos Stillwater. Não foi fácil consegui-lo. Leia-o agora, porque tenho que levá-lo e destruí-lo.

Presa no relatório havia um a caneta-lanterna própria para leitura. Enquanto seguiam no MacArthur Boulevard para o sudoeste, em direção a Newport Beach, Oslett estudou o docum ento com perplexidade e desânim o crescentes. Chegaram na Autoestrada da Costa do Pacífico e viraram para o sul, viaj ando todo o traj eto através de Corona Del Mar antes que ele term inasse.

— Esse tira, esse Lowbock — disse Oslett, levantando a vista do relatório —, ele acredita que tudo não passa de um golpe publicitário, acha até que não houve invasor nenhum .

— É um a chance para nós — disse Lom ax. Ele arreganhou um sorriso, o que foi um erro, j á que ficou parecendo o garoto do poster de algum a instituição de caridade form ada para aj udar os estúpidos teim osos.

— Considerando-se que toda a m aldita Rede talvez estej a sendo sugada por um dreno, acho que precisam os m ais do que um a chance. Precisam os de um m ilagre — disse Oslett.

— Deixe-m e ver — disse Clocker.

Oslett passou o relatório e a caneta-lanterna para o assento traseiro, depois dirigiu-se a Lom ax:

— Com o foi que nosso m enino m au soube que Stillwater andava por aqui, com o o encontrou?

Lom ax encolheu os om bros de lintel de pedra calcária.

— Ninguém sabe.

Oslett em itiu um som inarticulado de desagrado.

À direita da estrada, eles passaram por um a abastada com unidade com guarda no portão e cam po de golfe. Depois dela, o Pacífico sem luz ficou tão vasto e negro do lado oeste que eles pareciam estar rodando ao longo da beirada da eternidade.

— Nós im aginam os que, se não perderm os Stillwater de vista, m ais cedo ou m ais tarde nosso hom em vai aparecer e nós o recuperarem os — disse Lom ax.

— Onde está Stillwater agora?

— Não sabem os.

— Genial.

— Bem , vej a, m enos de m eia hora depois que os tiras foram em bora, aconteceu essa outra coisa com os Stillwater, antes que nós chegássem os, e depois disso parece que eles... resolveram se esconder, acho que é isso que você diria.

— Que outra coisa?

Lom ax franziu as sobrancelhas.

— Ninguém tem certeza. Aconteceu bem na esquina da casa. Diferentes vizinhos viram coisas diferentes, m as um cara que se aj usta à descrição de Stillwater disparou um m onte de balas contra um outro cara dentro de um Buick. O Buick bateu num Explorer estacionado, e durante um segundo ficou pendurado. Duas m eninas, que se aj ustam à descrição das filhas de Stillwater, pularam fora do assento traseiro do Buick e correram . O Buick soltou-se, Stillwater descarregou a arm a sobre ele, e depois um BMW, que se aj usta à descrição de um dos carros registrados dos Stillwater, surgiu na esquina com o um m orcego saído do inferno, dirigido pela m ulher de Stillwater. Daí todos entraram nele e partiram .

— Atrás do Buick?

— Não. O Buick j á havia desaparecido. Foi com o se eles tentassem dar o fora dali antes da chegada dos tiras.

— Algum vizinho viu o suj eito do Buick?

— Não. Escuro dem ais.

— Era nosso m enino m au.

— Você acha m esm o? — indagou Lom ax.

— Bem , se não era ele, devia ser o papa.

Lom ax lançou-lhe um olhar estranho, depois olhou pensativo para a estrada à sua frente.

Antes que o estúpido pudesse perguntar com o o papa se envolvera naquela história, Oslett indagou:

— Por que não tem os o relatório policial sobre o segundo incidente?

— Não houve relatório. Ninguém fez queixa. Nenhum a vítim a de crim e. Apenas um relatório sobre os danos da batida no Explorer.

— De acordo com o que Stillwater disse aos tiras, nosso Alfie pensa que é Stillwater ou devia ser. Acha que sua vida foi roubada dele. O pobre coitado pirou, está m aluco, para ele faz sentido ir até lá para roubar as filhas de Stillwater, porque de algum a form a pensa que são suas filhas. Meu Deus, que zona.

Um a placa de estrada indicava que dentro em breve eles chegariam aos lim ites da cidade de Laguna Beach.

— Aonde vam os? — perguntou Oslett.

— Hotel Ritz-Carlton em Dana Point — respondeu Lom ax. — Vocês têm um a suíte. Peguei o traj eto longo para que vocês dois tivessem um a chance de ler o relatório policial.

— Nós dorm im os no avião. Pensei que entraríam os em ação logo depois da aterrissagem .

Lom ax pareceu surpreso.

— Fazendo o quê?

— Indo à casa dos Stillwater para com eçar. Dar um a olhada em volta, ver o que pudéssem os ver.

— Não há nada para ver. De qualquer m odo, tenho que levá-los ao Ritz. Devem dorm ir um pouco e estar preparados para partir às oito da m anhã.

— Para ir aonde?

— Eles esperam ter um a pista de Stillwater ou de nosso garoto ou de am bos pela m anhã. Às oito alguém irá ao hotel para lhes inform ar e vocês têm que estar descansados, prontos para se m exer. O que não é difícil, j á que estarão no Ritz. Quero dizer, um trem endo hotel. Tam bém tem um a com ida ótim a. Inclusive a do serviço de quarto. Vocês podem tom ar um café da m anhã bom e saudável, não a típica m erda gordurosa de hotel. Om eletes de claras, pão de sete grãos, todos os tipos de frutas frescas, iogurte desnatado...

— É claro que espero ter um café da m anhã igual ao que tom o em Manhattan todas as m anhãs — disse Oslett. — Em briões de j acaré e cabeças de enguia fritas sobre algas m arinhas fritas em m anteiga de alho, com um prato duplo de cérebro de bezerro. Ahhh, cara, nunca em sua vida você se sentirá tão cheio quanto depois desse desj ej um .

Lom ax olhou fixo para Oslett, tão perplexo que deixou a velocidade do Oldsm obile cair para a m etade.

— Bem , eles têm um a com ida genial no Ritz, m as talvez não tão exótica quanto a de Nova York. — Ele voltou a olhar para a rua e o carro ganhou velocidade. — Em todo caso, tem certeza de que essa com ida é saudável? Para m im , parece entupida de colesterol.

A voz de Lom ax não denunciava nenhum a insinuação de ironia, nenhum traço de hum or. Era claro que ele acreditava que Oslett com ia cabeça de enguia, em briões de j acaré e cérebro de bezerro no café da m anhã.

Relutante, Oslett teve que enfrentar o fato de que havia piores parceiros do que aquele que j á tinha. Karl Clocker só parecia ser estúpido.

Em Laguna Beach, dezem bro era a baixa tem porada, e as ruas estavam quase desertas. Faltavam quinze m inutos para um a da m adrugada de terça-feira. No cruzam ento de três vias no centro da cidade, com a praia pública à direita, eles pararam num sinal verm elho, apesar de não avistarem nenhum outro carro em m ovim ento.

Oslett achou a cidade tão irritantem ente m orta quanto qualquer lugar em Oklahom a, e teve saudades da agitação de Manhattan: o m ovim ento noite adentro de carros da polícia e am bulâncias a m úsica som bria das sirenes, o infinito grasnar de buzinas. Risadas, vozes em briagadas, discussões e a algaravia desvairada dos esquizofrênicos drogados que habitavam as ruas e ecoavam em seu apartam ento, m esm o nas horas m ais desertas da noite. Tudo isso faltava naquele burgo sonolento à m argem do m ar de inverno.

Enquanto continuavam saindo de Laguna, Clocker passou para a frente o relatório da polícia de Mission Viej o.

Oslett esperou algum com entário do Trekker. Com o ele não veio, não conseguiu m ais tolerar o silêncio que enchia o carro e parecia cobrir o m undo lá fora. Virou-se de lado para Clocker e perguntou:

— E então?

— Então o quê?

— O que você acha?

— Nada bom — disse Clocker de seu ninho de som bras no assento traseiro.

— Nada bom ? É tudo o que tem a dizer? Para m im parece ser um a zona colossal.

— Bem — disse Clocker em tom filosófico —, deve cair um a pequena chuva em toda organização criptofascista.

Oslett deu um a risada. Virou-se para a frente, olhou de soslaio para o solene Lom ax e deu um a risada m ais forte.

— Karl, às vezes eu acho que talvez você não sej a um m au suj eito.

— Bom ou m au — disse Clocker —, tudo ressoa com o m esm o m ovim ento das partículas subatôm icas.

— Bem , não vá arruinar um lindo m om ento — advertiu-o Oslett.

4.

Na parte m ais funda da noite, ele desperta de sonhos vividos de gargantas cortadas, cabeças espatifadas à bala, punhos pálidos cortados por lâm inas de barbear e prostitutas estranguladas, m as não se senta na cam a nem ofega nem grita com o um a pessoa acordando de um pesadelo, pois os sonhos sem pre o acalm am . Ele perm anece deitado na posição fetal, no assento traseiro do carro, m eio dentro e m eio fora do sono convalescente.

Um lado do rosto está m olhado com um a substância grossa e pegaj osa. Ele leva um a das m ãos à face e, com cuidado e sono, esfrega o m aterial viscoso entre os dedos, tentando descobrir o que é. Ao encontrar pedaços espinhentos de vidro no m uco solidificado, ele percebe que o olho curado rej eitou os estilhaços da j anela do carro j unto com a m atéria ocular danificada, que foi substituída por tecido saudável.

Ele pisca, abre os olhos e de novo pode enxergar tão bem com o olho esquerdo com o com o direito. Mesm o no Buick cheio de som bras, ele percebe, com clareza, form as, variações de textura e a m enor escuridão da noite que pressiona as j anelas.

Dali a horas, quando as palm eiras estiverem lançando as com pridas som bras do am anhecer para oeste, e os ratos de árvores estiverem em seus refúgios secretos na folhagem viçosa, esperando que o dia acabe, ele estará com pletam ente curado. Mais um a vez, estará preparado para reivindicar seu destino.

Ele sussurra:

— Charlotte...

Lá fora, surge pouco a pouco um a luz fantasm agórica. As nuvens que arrastam a tem pestade são finas e rasgadas. O frio rosto da lua espia para baixo por entre as fitas rotas.

— ... Em ily...

No lado de fora do carro, a noite cintila suave com o prata em baçada no brilho de um a única cham a de vela.

— ... Papai vai ficar bom... muito bem... não se preocupem... papai vai ficar bom...

Agora ele com preende que foi atraído para seu sósia por um m agnetism o provocado por um a unidade essencial e que ele percebe através de um sexto sentido. Ele não tinha nenhum conhecim ento de que existia um outro eu, m as fora atraído em sua direção com o se essa atração fosse um a função autônom a de seu corpo, da m esm a form a com o as batidas de seu coração, a produção e m anutenção de seu suprim ento de sangue e o funcionam ento dos órgãos internos são funções autônom as, que ocorrem sem a necessidade de volição consciente.

Ainda m eio abraçado pelo sono, ele se pergunta se pode aplicar esse sexto sentido com intenção consciente e estender o braço para descobrir o falso pai a qualquer hora que desej ar.

Ele se im agina, com o num sonho, com o um a figura esculpida em ferro e m agnetizada. O outro eu, escondido em algum a parte lá fora na noite, é um a figura sem elhante. Cada m agneto tem um polo negativo e um positivo. Ele im agina que seu positivo está ligado ao negativo do falso pai. Os opostos se atraem .

Ele procura atração e a encontra quase de im ediato. Ondas invisíveis de força puxam -no de leve, depois com m ais força.

Oeste. Oeste e sul.

Com o ocorreu durante sua viagem frenética e com pulsiva através de m ais da m etade do país, ele sente crescer a força de um a atração, até que ela se torna igual à poderosa gravidade de um planeta atraindo um pequeno asteroide para a im petuosa prom essa de sua atm osfera.

Para oeste e sul. Não distante. Alguns quilôm etros.

A atração é exigente, estranham ente agradável a princípio, m as depois quase dolorosa. Ele sente que — caso tivesse que sair do carro — iria levitar, de im ediato, saindo do solo e sendo levado pelo ar a alta velocidade direto para a órbita do odioso pai falso, que lhe tirou a vida.

De repente, ele sente que seu inim igo tem consciência de que está sendo procurado e percebe as linhas de energia que os ligam .

Ele para de im aginar a atração m agnética. No m esm o instante, refugia-se em si m esm o, se fecha. Ainda não está pronto para atrair o inim igo em com bate e não desej a alertá-lo para o fato de que faltam apenas algum as horas para um outro encontro.

Ele fecha os olhos.

Sorrindo, desliza para o sono.

Sono regenerador.

A princípio, seus sonhos são do passado, povoado por aqueles que assassinou e pelas m ulheres com quem teve sexo e em quem provocou a m orte pós-coito. Em seguida, é arrebatado por cenas que, sem dúvida, são proféticas, envolvendo aquelas a quem am a — sua doce esposa, suas lindas filhas, em m om entos de insuperável ternura e gratificante subm issão, banhadas de luz dourada, tão adorável, tudo envolto num a adorável luz dourada, com brilhos de prata, rubi, am etista, j ade e índigo.

* * *

Marty despertou de um pesadelo com a sensação de que estava sendo esm agado. Mesm o quando o sonho se estilhaçou e desapareceu, em bora soubesse que estava desperto num quarto de hotel, ele não conseguia respirar nem m over um dedo que fosse. Sentia-se pequeno, insignificante, e tinha um a estranha certeza de que estava prestes a ser m artelado em bilhões de átom os desassociados por algum a força cósm ica além de sua com preensão.

A respiração voltou-lhe de repente, com o um a im plosão. A paralisia rom peu-se com um espasm o que o sacudiu da cabeça aos pés.

Ele olhou para Paige ao seu lado na cam a, com m edo de perturbar seu sono. Ela m urm urou algo para si m esm a, m as não acordou.

Ele se levantou da m aneira m ais silenciosa possível, foi até a j anela da frente. Com cuidado, separou as partes da cortina e olhou para o estacionam ento do m otel e a Autoestrada da Costa do Pacífico m ais além . Ninguém entrou nem saiu de algum dos carros estacionados. Pelo que conseguia lem brar-se, todas as som bras que havia lá fora nesse m om ento j á estavam lá antes. Marty não viu ninguém à espreita em canto algum . A tem pestade levara todo o vento para o leste, e Laguna estava tão quieta que as árvores podiam ter sido pintadas em telas de palco. Um cam inhão cruzou a estrada, dirigindo-se para o norte, m as esse foi o único m ovim ento na noite.

Na parede oposta à j anela da frente, cortinas cobriam um par de portas corrediças de vidro, atrás das quais havia um a varanda que dava para o m ar. Além da porta, e depois da cerca do deque, aos pés do costão, estendia-se a praia pálida onde as ondas se quebravam em grinaldas de espum a prateada. Ninguém poderia, com facilidade, escalar até a varanda, e o gram ado estava deserto.

Talvez tivesse sido apenas um pesadelo.

Ele afastou-se do vidro, deixando as cortinas caírem de volta, e olhou para o m ostrador lum inoso de seu relógio de pulso. Três da m adrugada.

Dorm ira quase cinco horas. Não o tem po suficiente, m as teria que bastar.

Sentia um a dor intolerável no pescoço, e a garganta estava um pouco inflam ada.

Marty foi ao banheiro, fechou a porta e acendeu a luz. Retirou do estoj o de viagem um vidro de Excedrin extraforte. O rótulo aconselhava um a dosagem de não m ais que dois com prim idos de cada vez e não m ais que oito em 24 horas. Entretanto, o m om ento parecia ser feito para se viver perigosam ente, de m odo que ele engoliu quatro com um copo de água da pia, depois j ogou na boca um a pastilha para garganta e chupou-a.

Após voltar ao quarto e pegar a espingarda de cano curto que estava ao lado da cam a, ele entrou no aposento das m eninas pela porta de ligação. Elas dorm iam , entocadas em suas cobertas com o tartarugas nos cascos, para evitar a luz incôm oda do abaj ur da m esinha-de-cabeceira.

Ele olhou pela j anela. Nada.

Antes, ele havia recolocado a cadeira de leitura num canto, m as agora levou-a para um ponto do quarto onde a luz chegasse. Não queria alarm ar Charlotte e Em ily, se acordassem antes do am anhecer e vissem um hom em não identificado nas som bras.

Sentou-se de j oelhos abertos, com a espingarda nas coxas.

Em bora fosse dono de cinco arm as — três das quais estavam agora nas m ãos da polícia —, em bora soubesse atirar com todas elas, em bora houvesse escrito m uitas histórias nas quais policiais e outros personagens m anej avam arm as com o desem baraço próprio do conhecim ento, Marty ficou surpreso com a falta de hesitação com que lançara m ão das arm as quando os problem as surgiram . Afinal de contas, não era um hom em de ação nem tinha experiência em m atar.

Sua vida, e m ais tarde a de sua fam ília, tinham corrido risco, m as ele pensava que, antes de descobrir o contrário, teria certas reservas quando seu dedo encostasse no gatilho. Ele esperava sentir, pelo m enos, um a centelha de arrependim ento depois de atirar no peito de um hom em , m esm o que o bastardo m erecesse levar um tiro.

Marty lem brou-se com clareza da alegria som bria com que descarregara a Beretta no Buick em fuga. O selvagem à espreita na herança genética hum ana era tão acessível a ele quanto a qualquer outro hom em , independente do seu grau de educação, leitura e civilização.

O que descobriu sobre si m esm o não o desagradou tanto quanto talvez devesse desagradar. Que droga, não desagradou nem um pouco.

Ele sabia que era capaz de m atar qualquer núm ero de hom ens para salvar a própria vida, a de Paige e das crianças. E apesar de circular num a sociedade em que era intelectualm ente correto abraçar o pacifism o com o única esperança de sobrevivência social, ele não se via com o um reacionário incorrigível ou um retrocesso evolucionário ou um degenerado, m as apenas com o um hom em agindo exatam ente com o a natureza pedia.

A civilização com eçava com a fam ília, com crianças protegidas por m ães e pais dispostos a sacrificar-se e até m orrer por elas.

Se a fam ília j á não estivesse m ais segura, se o governo não pudesse ou quisesse proteger a fam ília do saque de raptores, de m olestadores de crianças e m atadores; se sociopatas hom icidas eram soltos da prisão depois de cum prir m enos tem po do que evangélicos fraudulentos que desviavam dinheiro de suas igrej as e gananciosos m ilionários proprietários de hotel e sonegadores de im postos, então a civilização deixara de existir, Se as crianças eram caças-legais — com o a edição de qualquer j ornal diário confirm aria —, então o m undo havia retornado à selvageria. A civilização existia apenas em m inúsculas unidades, dentro das paredes das casas onde os m em bros fam iliares com partilhavam um am or forte o bastante para deixá-los dispostos a arriscar a vida em defesa um do outro.

Que dia haviam passado. Um dia terrível. A única coisa boa que tinha acontecido foi a descoberta de que sua fuga, pesadelos e outros sintom as não eram resultado de nenhum a doença física ou m ental. Afinal de contas, o problem a não estava dentro dele. O fantasm a era real.

Mas ele não pôde ter a m ínim a satisfação com esse diagnóstico. Apesar de haver recuperado a autoconfiança, perdera m uitas outras coisas.

Tudo m udara.

Para sem pre.

Ele sabia que ainda não com preendia a m aneira trem enda com o suas vidas haviam sido alteradas. Nas horas que faltavam para am anhecer, enquanto pensava nas m edidas que deviam tom ar para se proteger, e enquanto ousava considerar as poucas origens possíveis do Outro, ditadas pela lógica, sua situação pareceria cada vez m ais difícil, e suas opções m ais estreitas do que ele podia visualizar ou adm itir.

Prim eiro, ele suspeitava que j am ais poderiam voltar para casa de novo.

* * *

Ela acorda um a hora e m eia antes de am anhecer, curado e descansado.

Volta para o assento da frente, acende a luz do interior e exam ina, no retrovisor, a testa e o olho esquerdo. O sulco de bala na testa fechou sem deixar qualquer cicatriz que ele pudesse detectar. Seu olho j á não está m ais m achucado — nem m esm o inj etado de sangue.

Entretanto, m etade do rosto tem um a crosta de sangue seco e do horrível refugo biológico dos produtos que aceleraram o processo de regeneração. Parte de seu rosto parece saída de O Abominável Dr. Phibes, ou de Darkman.

Rebuscando o porta-luvas, ele encontra um pacote pequeno de Kleenex. Sob o pacote há um a caixa tam anho viagem de Handi Wipes, toalhas um edecidas em pacotes lam inados. Têm um arom a de lim ão. Muito gostoso. Ele usa o Kleenex e as toalhas para lim par a suj eira do rosto, e aj eita com as m ãos o cabelo desgrenhado pelo sono.

Agora não dá para assustar ninguém , m as ainda não está apresentável o bastante para não cham ar atenção, que é o que desej a. Em bora a capa volum osa, abotoada até o pescoço, cubra a cam isa rasgada à bala, o tecido cheira à sangue e à variedade de com ida que caiu sobre ele durante seu frenesi alim entício dentro do Honda j á abandonado, no estacionam ento do McDonald’s, varrido pela chuva na noite anterior, antes de encontrar o infeliz proprietário do Buick. Suas calças tam pouco estão intactas.

Certo de que lá fora pode encontrar algo útil, ele tira a chave da ignição, sai do carro, dá a volta até a traseira e abre a m ala. No interior escuro, ilum inado parcialm ente pelo feixe errante de um a lâm pada de segurança encoberta por um a árvore próxim a, o m orto olha fixo para ele, com assom bro de olhos arregalados, com o que surpreso por vê-lo de novo.

As duas sacolas de com pra de plástico estão em cim a do corpo. Ele derram a o conteúdo de am bas sobre o cadáver. O proprietário do Buick adquirira um a variedade de artigos. A coisa que m ais parece útil no m om ento é um suéter largo de gola redonda.

Com o suéter na m ão esquerda, ele fecha a m ala com a direita, num m ovim ento suave para fazer o m enor barulho possível. As pessoas vão acordar daqui a pouco, m as o sono ainda é senhor da m aioria, se não de todos os m oradores. Ele tranca a m ala e põe as chaves no bolso.

O céu está escuro, m as as estrelas desapareceram . Não faltam m ais de quinze m inutos para o am anhecer.

Um condom ínio tão grande com o esse deve ter pelo m enos duas lavanderias com unitárias, e ele parte para procurar um a. Um m inuto depois, encontra um poste de sinais que o envia para o prédio de recreação, a piscina, o escritório de aluguel e a lavanderia m ais próxim a.

As calçadas que ligam os prédios passam por grandes pátios aj ardinados, sob loureiros abertos e estranhas lâm padas de ferro cobertas pela pátina esverdeada. A propriedade é atraente e tem m uito verde. Ele não se incom odaria de m orar lá. Claro que sua casa, em Mission Viej o, é m uito m ais atraente, e ele tem certeza de que as m eninas e Paige estão tão ligadas nela que j am ais vão querer m udar.

A porta da lavanderia está trancada, m as não representa nenhum obstáculo. A adm inistração instalou um conj unto de fechadura barato, de lingueta e não de cavilha m orta. Tendo previsto a necessidade, ele tem um cartão de crédito da carteira do m orto, que ele desliza entre a placa plana e o batente. Puxa para cim a, encontra a lingueta, aplica pressão e abre a fechadura.

No interior, ele encontra seis m áquinas de lavar operadas por m oedas, quatro secadoras a gás, um autom ático de vendas cheio de caixas pequenas de detergente e am aciadores de tecidos, um a m esa grande na qual a roupa lim pa pode ser dobrada e um par de pias fundas. Tudo é lim po e agradável sob as luzes fluorescentes.

Ele tira a capa de chuva e a cam isa de flanela suj a. Form a um a trouxa com a cam isa e a capa, enfia am bas dentro de um a enorm e lata de lixo que há num canto.

Seu peito não tem m arcas de bala. Ele não precisa olhar as costas para saber que o único ferim ento de saída de bala tam bém está curado.

Ele lava as axilas num a das pias da lavanderia e enxuga-se com toalhas de papel retiradas do arm ário da parede.

Anseia por tom ar um a ducha quente antes de o dia acabar em seu próprio banheiro, em sua própria casa. Depois de localizar e m atar o falso pai, depois de recuperar sua fam ília, ele terá tem po para os prazeres sim ples. Paige entrará no chuveiro com ele. Ela vai gostar.

Se fosse necessário, ele poderia tirar o jeans e lavá-lo num a das m áquinas da lavanderia, usando m oedas tiradas do proprietário do Buick. Mas quando raspa com as unhas a crosta de com ida no tecido de algodão e esfrega as poucas m anchas com toalhas de papel um edecidas, o resultando é satisfatório.

O suéter é um a surpresa agradável. Ele esperava que fosse grande dem ais para ele, com o a capa de chuva, m as é evidente que o m orto não o com prou para si m esm o. Ele se aj usta perfeitam ente. A cor — verm elho-cerej a — com bina bem com o jeans e tam bém é um a boa cor para ele. Se houvesse um espelho na lavanderia, ele tem certeza de que se veria não apenas discreto, m as tam bém respeitável e até atraente.

Lá fora, o am anhecer é apenas um a luz fantasm agórica a leste.

Os pássaros m atinais estridulam nas árvores.

O ar está doce.

Ele j oga as chaves do Buick na m ata, abandona o carro e o m orto dentro dele, vai rápido até o m ais próxim o abrigo de carros com m últiplas vagas e sistem aticam ente força as portas dos veículos estacionados sob o teto coberto de buganvílias. Quando ele pensa que todos estão trancados, um Toy ota Cam ry está aberto.

Ele desliza para trás do volante. Exam ina o protetor solar à procura das chaves. Debaixo do assento. Não tem sorte.

Não im porta. Não lhe faltam recursos. Antes do céu se ilum inar de form a apreciável, ele faz um a ligação direta no carro e está na estrada de novo.

O m ais provável é que o proprietário do Cam ry descubra o desaparecim ento do carro em um a ou duas horas, quando estiver pronto para ir trabalhar, e logo dará queixa do roubo. Sem problem a. Até então as placas estarão num outro carro e o Cam ry estará usando um conj unto de placas diferentes, que o tornarão invisível para a polícia.

Ele se sente revigorado, rodando através das colinas de Laguna Niguel à luz rosada do am anhecer. Por enquanto, o céu m atinal é apenas um azul-pálido, m as as altas form ações de nuvens estriadas apresentam riachos cor-de-rosa claro.

É o prim eiro dia de dezem bro. Dia prim eiro. Ele está tendo um bom com eço. A partir de agora, tudo vai ser à sua m aneira, porque ele não vai m ais subestim ar seu inim igo.

Antes de m atar o falso pai, ele arrancará os olhos do bastardo em retribuição ao ferim ento que lhe causou. Vai exigir que as filhas assistam , pois será um a lição im portante para elas, prova de que os pais falsos não podem triunfar a longo prazo, e de que seu pai verdadeiro é um hom em que só se desobedece sob o risco de severa punição.