Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 9 de 9 · parte 1/4

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Sr. Assassino

Seis

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

1.

Ele está parado na cozinha de seus pais, vendo a neve cair pela j anela acim a da pia, trêm ulo de fom e e devorando vorazm ente as sobras de um bolo de carne.

Esse é um dos m om entos decisivos que separam os verdadeiros heróis dos em busteiros. Quando tudo está m ais som brio, quando tragédia se em pilha sobre tragédia, quando a esperança parece ser um j ogo apenas para idiotas e tolos, Harrison Ford, Kevin Costner, Tom Cruise, Wesley Snipes ou Kurt Russel pulam fora? Não. Jam ais. Im pensável. Eles são heróis. Eles perseveram . Rebelam -se contra a ocasião. Eles não apenas lidam com a adversidade, m as tam bém florescem com ela. Por haver com partilhado os piores m om entos desses grandes hom ens, ele sabe com o enfrentar a devastação em ocional, a depressão m ental, os m aus-tratos físicos em grandes doses, e até m esm o a am eaça de dom inação alienígena da terra.

Mover-se, mover-se, enfrentar, desafiar, lutar e vencer.

Ele não precisa alongar-se na tragédia da m orte de seus pais. As criaturas que destruiu não eram , com certeza, seu pai e sua m ãe, m as sim im itações com o aquela que lhe roubou a vida. Talvez nunca viesse a saber quando seus verdadeiros pais foram assassinados e substituídos e, em todo caso, precisava adiar o m om ento de se preocupar com eles.

Pensar dem ais em seus pais — ou em qualquer coisa — não é apenas perda de um tem po precioso, m as é tam bém anti-heroico. Os heróis não pensam . Os heróis agem.

Mover-se, mover-se, enfrentar, desafiar, lutar e vencer.

Quando acaba de com er, ele vai até a garagem através de um quarto-lavanderia ao lado da cozinha. Ao atravessar a soleira, ele acende as luzes fluorescentes e descobre que dois veículos estão à sua disposição — um velho Dodge azul e um j ipe Wagoneer que parece novo. Ele vai usar o j ipe por causa de sua tração nas quatro rodas.

As chaves do veículo estão penduradas num quadro de pregos da lavanderia. Dentro de um arm ário ele encontra um a caixa grande de detergente. Lê a relação dos produtos quím icos na caixa, satisfeito com o que descobre.

Retorna à cozinha.

O final de um a série de arm ários m ais baixos é m arcado por um a prateleira de vinho. Depois de localizar um saca-rolhas num a gaveta, ele abre quatro garrafas e despej a o vinho na pia.

Em outra gaveta da cozinha, entre outras bugigangas ele encontra um funil de plástico. Um a terceira gaveta está cheia de toalhas brancas lim pas, e a quarta é a fonte para um a tesoura e um a caixa de fósforos.

Ele leva as garrafas e os outros artigos de lavanderia, colocando-os balcão de azulej os ao lado da pia funda.

De novo na garagem , ele tira um a lata verm elha com cinco galões de gasolina de um a prateleira à esquerda da bancada de trabalho. Quando desaparafusa a tam pa, vapores de alta octanagem exalam do recipiente. Da prim avera ao outono, é provável que papai m antenha gasolina na lata para o cortador de gram a, m as agora ele está vazio.

Fazendo um a revista m inuciosa nas gavetas e arm ários em volta da bancada, ele encontra um rolo de tubo de plástico flexível num a caixa de peças de reparo para o sistem a de filtragem de água potável da cozinha. Com isso, ele chupa gasolina do Dodge para a lata de cinco galões.

Na pia da lavanderia, ele usa o funil para despej ar dois centím etros de detergente no fundo de cada garrafa de vinho vazia. Acrescenta gasolina. Corta as toalhas, fazendo tiras utilizáveis.

Em bora tenha dois revólveres e vinte cargas de m unição, ele quer acrescentar coquetéis Molotov a seu arsenal. Suas experiências das últim as 24 horas, desde o prim eiro confronto com o falso pai, ensinaram -no a não subestim ar o adversário.

Ainda espera salvar Paige, Charlotte e a pequena Em ily. Continua desej ando a reunião e a renovação de sua vida j untos.

Entretanto, precisa encarar a realidade e se preparar para a possibilidade de que sua m ulher e suas filhas j á não sej am m ais quem eram . Podem ter tido as m entes escravizadas. Por outro lado, tam bém podem ter sido infectadas por parasitas de outro m undo, com os cérebros agora ocos e cheios de m onstruosidades retorcidas. Ou podem não ser elas m esm as, apenas replicantes das verdadeiras Paige, Charlotte e Em ily, assim com o o falso pai é um replicante dele, surgido de um a sem ente de vagem de algum a estrela distante.

As variedades de infestação alienígena são estranhas e ilim itadas, m as um a arm a salvou o m undo m ais do que outras: o fogo. Kurt Russell, quando era m em bro de um posto avançado de pesquisa científica na Antártica, confrontara-se com um ser extraterrestre que astutam ente m udara de form a infinitas vezes, talvez o alienígena m ais assustador e poderoso a tentar colonizar a terra e o fogo fora de longe a arm a m ais eficiente contra esse form idável inim igo.

Ele se pergunta se quatro bom bas incendiárias são suficientes. Em todo caso, é provável que não tenha tem po de usar m ais. Se algum a coisa explodir de dentro do falso pai, de Paige ou das m eninas, e se for tão hostil quanto as coisas que explodiram de dentro das pessoas da estação de pesquisa de Kurt Russell, sem dúvida ele seria dom inado antes que pudesse usar m ais do que quatro bom bas de gasolina, considerando-se o tem po que ele teria que perder para acender cada um a delas. Ele gostaria de ter um lança-cham as.

2.

Parado j unto a um a das j anelas da frente, observando a neve pesada filtrar-se através das árvores e cair sobre a pista que levava para a estrada do condado, Marty tirou punhados de m unição de 9m m das caixas que haviam trazido de Mission Viej o. Distribuiu cartuchos nos inúm eros bolsos com zíper de sua j aqueta de esquiar verm elha e preta, bem com o nos bolsos do jeans.

Paige carregou o pente da Mossberg. Tivera m enos tem po do que Marty para praticar tiro à distância com a pistola e se sentia m ais confortável com a cano 12.

Eles tinham oitenta cartuchos para a espingarda e cerca de duzentas balas de 9m m para a Beretta.

Marty sentia-se indefeso.

Nenhum a quantidade de arm as teria feito com que ele se sentisse m elhor.

Após desligar o telefonem a do Outro, ele tinha pensado em sair da cabana e fugir. Mas se eles foram seguidos até ali com tanta facilidade, seriam seguidos aonde quer que fossem . Era m elhor fazer um a parada num lugar que podia ser defendido do que ser abordado num a estrada ou ser surpreendido num local m ais vulnerável do que a cabana.

Ele quase cham ou a polícia local para enviá-la à casa dos pais. Mas certam ente O Outro j á teria ido em bora quando os policiais chegassem lá, e as provas que colhessem — im pressões digitais e Deus sabe o que m ais — só fariam parecer que ele tinha assassinado seus próprios pais. Os m eios de com unicação j á o viam com o um a personalidade instável. A cena na casa de Mam m oth Lake contribuiria para a fantasia que estavam vendendo. Se ele fosse preso hoj e, am anhã ou na sem ana seguinte — ou apenas detido durante algum as horas sem ser fichado —, Paige e as m eninas ficariam sozinhas, situação que ele considerava intolerável.

Eles não tinham outra escolha a não ser entrincheirar-se e lutar. Que era tão pouca escolha quanto um a sentença de m orte.

Lado a lado no sofá, Charlotte e Em ily ainda usavam as j aquetas e luvas. Estavam de m ãos dadas, um a dando força à outra. Apesar de estarem assustadas, não choravam ou pediam para ser tranquilizadas com o m uitas crianças poderiam fazer na m esm a situação. Elas sem pre foram verdadeiros soldados, cada um a à sua m aneira.

Marty não sabia ao certo com o aconselhar as filhas. Em geral, com o ocorria com Paige, ele não ficava perdido quanto à orientação que precisava dar a elas sobre os problem as da vida. Paige brincava dizendo que eles eram a Fabulosa Máquina de Pais Stillwater, um a expressão que continha tanto auto escárnio quanto genuíno orgulho. Mas, dessa vez, estava desorientado quanto às palavras, porque ele tentava nunca m entir para elas e não tinha a intenção de com eçar agora. No entanto, não ousava dividir com elas sua avaliação fria das chances que tinham .

— Meninas, venham aqui, façam um a coisa pra m im — disse ele.

Ansiosas para ter algum a distração, elas desceram do sofá e j untaram -se a ele na j anela.

— Fiquem aqui — disse — e vigiem a estrada pavim entada lá fora. Se algum carro entrar na estradinha, ou se passar devagar dem ais, fazendo algum a coisa suspeita, vocês gritam . Entenderam ?

As duas afirm aram com um aceno solene de cabeça.

— Vam os exam inar todas as outras j anelas — disse Marty para Paige —, verificar se estão trancadas e fechar as cortinas.

Se O Outro conseguisse aproxim ar-se da cabana sem alertá-los, Marty não queria que o bastardo pudesse observá-los — ou atirar neles — através de um a j anela.

Todas as j anelas que ele exam inou estavam trancadas.

Na cozinha, enquanto cobria um a j anela que dava para um bosque profundo atrás da cabana, ele se lem brou que sua m ãe havia feito as cortinas na m áquina de costura do quarto de hóspedes da casa em Mam m oth Lakes. Ele teve um a im agem m ental dela, sentada diante da Singer, o pé no pedal, observando a agulha com atenção enquanto ela trepidava para cim a e para baixo.

Seu peito contraiu-se de dor. Ele respirou fundo, deixou que a dor saísse com um trem or, depois um a outra vez, tentando não apenas expulsar a dor, m as tam bém a lem brança que a engendrara.

Mais tarde haveria tem po para o sofrim ento, se sobrevivessem .

Nesse exato m om ento, ele tinha que pensar apenas em Paige e nas m eninas. Sua m ãe estava m orta. Eles estavam vivos. A verdade fria: o luto era um luxo.

Ele alcançou Paige no segundo dos dois quartos pequenos, no m om ento em que ela term inava de aj ustar as cortinas. Paige acendera a lâm pada da m esinha-de-cabeceira, de m odo a não ficar no escuro quando fechasse as j anelas, e agora ela se m exia para apagá-la.

— Deixe acesa — disse Marty. — Com a tem pestade, o crepúsculo será longo e com eçará cedo. De fora, é provável que ele possa saber que aposentos estão acesos. Não faz sentido facilitar para que ele im agine exatam ente onde estam os.

Ela ficou quieta, de olhos fixos no pano âm bar da cúpula do abaj ur, com o se o futuro deles pudesse ser profetizado pelos vagos padrões daquele tecido ilum inado.

No final, ela olhou para ele.

— Quanto tem po tem os?

— Talvez dez m inutos, talvez duas horas. Depende dele.

— Marty, o que vai acontecer?

Foi a vez de Marty ficar calado por um m om ento. Tam pouco queria m entir para ela.

Quando enfim falou, Marty ficou surpreso ao se ouvir, porque a coisa saiu das profundezas do subconsciente, era autêntica e indicava um otim ism o m aior do que ele captava a nível consciente.

— Vam os m atar esse filho da puta. — Otim ism o ou auto ilusão fatal.

Ela foi até ele, contornando o pé da cam a, e os dois se abraçaram . Paige sentia-se tão bem nos braços dele. Por um m om ento, o m undo não pareceu m ais m aluco.

— Nós ainda nem sabem os quem ele é, o que ele é, de onde vem — disse ela.

— E talvez nunca descubram os. Talvez, m esm o depois de m atarm os o filho da puta, j am ais possam os saber o que foi isso tudo.

— Se j am ais descobrirm os, não poderem os j untar as peças.

— Não.

Ela deitou a cabeça no om bro dele e deu um delicado beij o na penum bra exposta dos hem atom as que m arcavam o pescoço de Marty.

— Talvez nunca nos sintam os seguros.

— Não em nossa antiga vida. Porém , desde que estej am os j untos, nós quatro — disse ele —, posso deixar tudo para trás.

— A casa, tudo que há nela, m inha carreira, a sua...

— Nada disso im porta realm ente.

— Um a vida nova, novos nom es... Que futuro as m eninas terão?

— O m elhor que puderm os dar. Nunca houve nenhum a garantia. Nunca há garantia nesta vida.

Ela levantou a cabeça do om bro dele e olhou dentro de seus olhos.

— Posso m esm o lidar com isso quando ele aparecer?

— Claro que pode.

— Sou apenas um a conselheira fam iliar se especializando em problem as com portam entais infantis nas relações pais-filhos. Não sou a heroína de um a história de aventuras.

— E eu sou apenas um escritor de rom ances de m istério. Mas nós podem os fazer isso.

— Estou com m edo.

— Eu tam bém .

— Mas se tenho tanto m edo agora, onde vou encontrar a coragem para pegar a espingarda e defender m inhas filhas contra um a coisa... um a coisa com o essa?

— Im agine que você é a heroína de um a história de aventura.

— Se ao m enos fosse tão fácil assim .

— Talvez sej a... de certa m aneira — ele disse. — Você sabe que não sou m uito a favor de explicações freudianas. Im agino que, com m uita frequência, nós decidim os ser o que som os. Você é um exem plo vivo, depois de tudo pelo que passou quando criança.

Ela fechou os olhos.

— De certa form a, é m ais fácil eu m e im aginar com o conselheira fam iliar do que com o Kathleen Turner em Tudo por uma Esmeralda.

— Quando nos conhecem os — disse ele —, você não conseguia im aginar-se com o esposa e m ãe. Para você, um a fam ília nada m ais era que um a prisão, prisão e câm ara de tortura. Você não queria m ais fazer parte de um a fam ília.

Ela abriu os olhos.

— Você m e ensinou a fazer.

— Não ensinei coisa algum a. Só m ostrei a você com o im aginar um a boa fam ília, um a fam ília saudável. Um a vez que você foi capaz de im aginar isso, pôde aprender a acreditar nessa possibilidade. A partir daí, você m esm a se ensinou.

— Quer dizer que a vida é um a form a de ficção, hem ?

— Toda vida é um a história. Nós a fazem os enquanto seguim os.

— Está bem . Tentarei ser Kathleen Turner.

— Melhor do que ela.

— O quê?

— Sigourney Weaver.

Ela sorriu.

— Eu gostaria de ter um a dessas enorm es m alditas arm as futurísticas, com o a que ela costum ava usar quando interpretava Ripley.

— Vam os, é m elhor irm os ver se nossas sentinelas ainda estão em seu posto.

Na sala de estar, ele liberou as m eninas do serviço j unto à única j anela sem cortina e sugeriu que fervessem um pouco de água para fazer canecas de chocolate quente. A cabana estava sem pre abastecida de m ercadorias básicas em lata, inclusive leite em pó com sabor chocolate. Os aquecedores elétricos ainda não haviam tirado o frio do ar para que todos pudessem usar um pouco do calor interno. Além disso, fazer chocolate quente era um a tarefa tão normal que poderia dissipar parte da tensão e acalm ar-lhes os nervos.

Ele olhou pela j anela, para além da varanda protegida por um a tela, além da traseira do BMW Havia tantas árvores entre a cabana e a estrada do condado que a entrada de carros de cem m etros estava inundada de som bras profundas, m as ainda assim ele pôde ver que ninguém se aproxim ava, num veículo ou a pé.

Marty estava razoavelm ente confiante de que O Outro, em vez de chegar por trás da cabana, iria diretam ente para eles. Para com eçar, a propriedade fazia fundos com os quarenta hectares de terra da igrej a m orro abaixo e, num a parcela m aior, m orro acim a, o que tornava um a abordagem indireta m ais ou m enos árdua e dem orada.

A j ulgar por seu com portam ento anterior, O Outro sem pre optava por ações arroj adas e abordagens abruptas. Ele parecia carecer de j eito ou paciência para a estratégia. Era m ais um executor do que pensador, o que quase garantia um ataque furioso — e não sorrateiro.

Essa característica podia ser a fraqueza m ortal do inim igo. Em todo caso, era um a esperança digna de ser alim entada.

A neve caía. As som bras se aprofundavam .

3.

Do quarto do m otel, Spicer ligou para a cam ionete de vigilância para saber das novidades. Deixou o telefone tocar doze vezes, desligou e tentou novam ente, m as o telefone não foi atendido.

— Aconteceu algum a coisa — disse ele. — Eles não sairiam da cam ionete.

— Talvez algum a coisa estej a errada no telefone deles — sugeriu Oslett.

— Está cham ando.

— Talvez não o núm ero deles.

Spicer tentou de novo, com o m esm o resultado.

— Vam os — disse, pegando a j aqueta de couro de aviação e dirigindo-se para a porta.

— Você não vai lá, vai? — perguntou Oslett. — Não está preocupado em estourar a cobertura deles?

— Ela j á foi estourada. Tem algum a coisa errada.

Clocker vestira o terno de tweed sobre o suéter de cashmere laranj a chocante. Não se deu ao trabalho de pôr o chapéu porque em nenhum m om ento se dera ao trabalho de tirá-lo. Enfiando a brochura do Jornada nas Estrelas num bolso, ele tam bém se dirigiu para a porta.

Seguindo-os com a pasta preta, Oslett falou:

— Mas o que pode ter dado errado? Tudo estava se passando tão m acio de novo.

A tem pestade j á despej ara um centím etro de neve. Os flocos eram finos e relativam ente secos agora, e as ruas estavam brancas. Os galhos de sem pre-viva com eçaram a adquirir os adornos natalinos.

Spicer dirigiu o Explorer e em poucos m inutos chegaram à rua onde os pais de Stillwater viviam . Ele apontou a casa quando ainda se encontravam a m eio quarteirão dela.

No outro lado da rua da casa dos Stillwater, havia dois carros estacionados j unto ao m eio-fio. Oslett identificou a cam ionete verm elha de passeio com o o veículo de vigilância por causa das j anelas laterais espelhadas na parte traseira.

— O que a cam ionete do florista está fazendo aqui? — perguntou Spicer.

— Entregando flores — supôs Oslett.

— Pouca chance.

Spicer passou perto da cam ionete e estacionou o Explorer na frente.

— É m esm o inteligente isso? — perguntou Oslett.

Usando o telefone celular, Spicer telefonou para a equipe de vigilância m ais um a vez. Não atenderam .

— Não tem os escolha — disse Spicer enquanto abria a porta e saía na neve.

Os três cam inharam até a traseira da cam ionete verm elha.

No pavim ento entre esse veículo e o furgão de entregas, um enorm e arranj o floral caíra em ruínas. O recipiente de cerâm ica tinha espatifado. Os talos das flores e sam am baias ainda se encontravam em bebidos com o m aterial esponj oso verde que os floristas usavam para fixar arranj os, de m odo que o vento suave não os soprara para longe, apesar de estarem com a aparência de ter sido pisados m ais de um a vez. A cor de algum as flores estava m ascarada pela neve, o que significava que elas não haviam sido perturbadas nos últim os 30 ou 45 m inutos.

As flores arruinadas e as sam am baias pálidas de congelam ento tinham um a beleza curiosa. Tire-se um a foto, pendure-se num a galeria de arte, com o título de “Rom ance” ou “Perda”, e era provável que as pessoas ficassem paradas m inutos diante dela, m editando.

Enquanto Spicer dava batidinhas na porta traseira do veículo de vigilância, Clocker falou:

— Vou averiguar o furgão de entrega.

Ninguém respondeu às batidas, de m odo que Spicer, num ato atrevido, abriu a porta, e entrou.

Enquanto seguia atrás, Oslett ouviu Spicer dizer em voz baixa:

— Oh, m erda.

O interior da cam ionete estava escuro, pouca luz penetrava os espelhos bidirecionais que serviam de j anelas. Apenas as telas e o cam po de ação do equipam ento eletrônico ilum inavam o espaço.

Oslett tirou os óculos de sol, viu os m ortos e fechou a porta traseira.

Spicer tam bém tirara os óculos de sol. Seus olhos eram de um am arelo estranho m aligno. Ou talvez fosse apenas a cor que refletiam das telas do painel de instrum entos.

— Alfie deve ter vindo à casa dos Stillwater, localizou a cam ionete e percebeu o que ela era — disse Spicer. — Antes de entrar na casa, parou aqui e tom ou conta do negócio para não ser interrom pido do outro lado da rua.

O equipam ento eletrônico era operado por bancos de baterias solares, ligados a células solares no teto. Quando a vigilância era realizada à noite, as baterias podiam ser carregadas da m aneira convencional, se fosse necessário, ligando o m otor da cam ionete durante breves períodos. Entretanto, m esm o nos dias nublados, as células colhiam luz solar suficiente para m anter o sistem a em operação.

Mesm o sem o m otor funcionando, a tem peratura interior da cam ionete era confortável, em bora um pouco fria. O veículo tinha um bom isolam ento térm ino e as células solares tam bém operavam um pequeno aquecedor.

Passando por cim a do cadáver no chão, olhando por um a das j anelas laterais, Oslett falou:

— Se Alfie foi atraído até essa casa, só pode ser porque Martin Stillwater estava nela.

— Suponho que sim .

— No entanto, essa equipe não o viu entrar ou sair.

— É evidente que não — concordou Spicer.

— Eles não nos avisariam se vissem Stillwater, sua m ulher e as m eninas?

— Claro que sim .

— Então... ele está lá dentro agora? Talvez todos estej am lá, a fam ília inteira e Alfie.

Spicer acrescentou, espiando pela outra j anela:

— E talvez não. Alguém saiu de lá não faz m uito tem po. Está vendo o rastro na entrada de carros?

Um veículo com pneus largos saíra de ré da garagem contígua à casa de revestim ento de tábuas brancas. Tinha virado para a esquerda ao sair na rua, de ré, depois engrenado a prim eira e saído para a direita. A neve com eçava a encher os m últiplos arcos dos pneus.

Clocker abriu a porta traseira, assustando-os. Subiu no interior da cam ionete e fechou a porta, sem fazer nenhum com entário sobre o ensanguentado m achado de gelo no chão ou sobre os dois operantes m ortos.

— Parece que Alfie roubou o furgão do florista com o disfarce. O entregador está na traseira com as flores, m ortinho da silva.

Apesar da base dilatada para o pneu que dava espaço extra no interior da cam ionete, os lugares não ocupados pelo equipam ento de vigilância e os cadáveres não eram grandes o bastante para acom odar os três com conforto. Oslett sentiu-se claustrofóbico.

Spicer puxou o m orto sentado na cadeira giratória. O cadáver tom bou no chão. Antes de sentar-se e virar-se para a coleção de m onitores e interruptores, com os quais parecia estar fam iliarizado, Spicer exam inou a cadeira à procura de sangue.

Com a desconfortável consciência de que Clocker assom ava-se sobre ele, Oslett perguntou:

— É possível que tenha havido um telefonem a para a casa que esses caras não tenham tido a oportunidade de nos inform ar antes de Alfie liquidá-los?

— É isso que vou descobrir — respondeu Spicer.

Quando os dedos de Spicer correram sobre o teclado de program ação, diagram as m uito coloridos e outras exposições pipocaram na m eia dúzia de m onitores de vídeo.

Conseguindo, naquelas acom odações apertadas, bater com o cotovelo na barriga de Clocker, Oslett virou-se de novo para a prim eira j anela de visão unilateral. E observou a casa do outro lado da rua.

Clocker reclinou-se para olhar pela outra j anela. Oslett im aginou que o Trekker fingia estar diante da portinhola de um a nave espacial, espiando um m undo alienígena através de um vidro de dois centím etros de grossura.

Passaram dois carros. Um a pickup. Um cachorro preto correu na calçada; com neve nas patas, ele parecia estar usando quatro m eias brancas. A casa Stillwater estava silenciosa, serena.

— Peguei — disse Spicer, tirando um par de fones de ouvido que havia colocado quando Oslett olhava pela j anela.

O que ele pegou, veio-se a saber, foi um telefonem a m onitorado, rastreado e registrado pelo equipam ento autom ático, talvez trinta m inutos depois que Alfie m atou a equipe de vigilância. Na verdade, Alfie estivera na casa dos Stillwater quando houve o telefonem a, e havia atendido depois de vários toques. Em vez de usar os fones de ouvido, Spicer tocou a gravação num alto-falante, para que os três pudessem ouvir ao m esm o tem po.

— A prim eira voz que vocês ouvirem é a de quem fez a cham ada — disse Spicer. — Quem atendeu na casa dos Stillwater não disse nada no com eço.

Alô? Mãe? Pai?

Como você conseguiu ganhá-los?

Spicer parou a fita e disse:

— A segunda voz é do telefone receptor... e é de Alfie.

— Os dois falam igual ao Alfie.

— O outro é Stillwater. Alfie tam bém fala a seguir.

Por que eles o amariam mais do que a mim?

Não toque neles, seu filho da puta. Não ponha nenhum dedo neles.

Eles me traíram.

Quero falar com minha mãe e meu pai.

MINHA mãe e MEU pai.

Ponha-os na linha.

Para você contar mais mentiras para eles?

Eles ouviram toda a conversa. Foi ultra arrepiante porque parecia que um hom em falava para si m esm o, um a personalidade radicalm ente dividida. Pior, era óbvio que o m enino m au deles era não apenas um renegado, m as tam bém um psicótico de carteirinha.

Quando a fita term inou, Oslett falou:

— Quer dizer que Stillwater não passou pela casa dos pais em nenhum m om ento.

— É evidente que não.

— Então, com o Alfie a descobriu? E por que foi até ela? Por que estava interessado nos pais de Stillwater, não apenas no próprio Stillwater?

Spicer encolheu os om bros.

— Talvez você tenha um a oportunidade de perguntar ao garoto, se conseguir recuperá-lo.

Oslett não gostava de ter tantas perguntas sem resposta. Isso o fazia sentir-se com o se não tivesse o controle.

Pela j anela, ele olhou para a casa e para os rastros de pneu na entrada de carro coberta de neve.

— É provável que Alfie não estej a m ais lá.

— Foi atrás de Stillwater — concordou Spicer.

— De onde o telefonem a foi dado?

— De um telefone celular.

— Ainda podem os rastrear isso, não podem os? — quis saber Oslett.

Apontando para três linhas de núm eros num term inal, Spicer disse:

— Tem os um a triangulação por satélite.

— Não faz sentido para m im , são apenas núm eros.

— Esse com putador pode fazer um m apa. Até dentro de trinta m etros da fonte do sinal.

— Quanto tem po leva?

— Cinco m inutos no m áxim o.

— Ótim o. Trabalhe nisso. Vou inspecionar a casa.

Oslett saltou da cam ionete verm elha com Clocker logo atrás.

Quando atravessaram a rua através da neve, Oslett não se im portou se um a dúzia de vizinhos narigudos estava na j anela. A situação j á estava bastante escancarada e não poderia ser salva. Ele, Clocker e Spicer se safariam , com seus m ortos, em m enos de dez m inutos, e depois ninguém j am ais seria capaz de provar que haviam estado ali.

Cam inharam coraj osam ente até a varanda da frente dos pais de Stillwater. Oslett tocou a cam painha. Ninguém atendeu. Ele tocou de novo e experim entou a porta, que estava destrancada. Para o outro lado da rua, pareceria que Jim ou Alice Stillwater haviam aberto a porta e os convidado a entrar.

Na saleta de entrada, Clocker fechou a porta atrás deles e sacou seu Colt .357 Magnum do coldre do om bro. Ficaram parados durante alguns segundos, prestando atenção na casa.

— Estej a em paz, Alfie — disse Oslett, m esm o duvidando que o m enino m au ainda estivesse no local. Com o não houve nenhum a resposta ritual para o com ando, ele repetiu as quatro palavras m ais alto do que antes.

O silêncio prevaleceu.

Eles adentraram na casa, tom ando cuidado — e encontraram o casal m orto no prim eiro quarto que exam inaram . Os pais de Stillwater. Os dois se pareciam , de algum a form a, com o escritor — e com Alfie tam bém , claro.

Durante a rápida revista na casa, repetindo a frase-com ando antes de atravessar cada vão de porta, a única coisa de interesse que encontraram estava na lavanderia. O pequeno quarto cheirava à gasolina. O que Alfie andara fazendo era evidente pelos trapos de pano, funil e caixa de detergente em pilhados no balcão ao lado da pia.

— Dessa vez ele não vai se arriscar — disse Oslett. — Vai atrás de Stillwater com o se fosse um a guerra.

Eles tinham que deter o rapaz — e rápido. Se m atasse a fam ília Stillwater, ou apenas o escritor, tornaria im possível m ontar o cenário de assassinato com suicídio que am arraria m uito bem várias pontas soltas. E dependendo do espetáculo insano e colérico que tivesse em m ente, podia cham ar tanta atenção que seria im possível m anter sua existência em segredo e devolvê-lo ao curral.

— Droga — disse Oslett, sacudindo a cabeça.

— Os clones sociopatas — disse Clocker quase com o se estivesse tentando ser irritante — são sem pre um grande problem a.

4.

Tom ando chocolate quente, Paige deu seu turno de serviço de guarda diante da j anela da frente.

Marty estava sentado de pernas cruzadas no chão da sala de estar, com Charlotte e Em ily, j ogando um baralho de cartas que haviam levado num a caixa de j ogos. Era o j ogo de Pesca m ais desanim ado que Paige j á vira, feito sem com entário nem discussão. Seus rostos estavam som brios, com o se não estivessem j ogando Pesca, m as sim consultando um baralho de tarô que só tinha m ás notícias.

Ao exam inar o dia lá fora varrido pela neve, Paige subitam ente percebeu que ela e Marty não deviam estar esperando na cabana. Ela se afastou da j anela e disse:

— Está errado.

— O quê? — ele perguntou, levantando os olhos das cartas.

— Vou lá fora.

— Por quê?

— Aquela form ação rochosa lá fora, sob as árvores, na m etade do cam inho para a estrada do condado. Posso deitar nela e ainda assim ver a entrada de carro.

Marty deixou cair sua m ão de cartas.

— Que sentido isso faz?

— Sentido perfeito. Se ele vier pela frente, com o nós dois acham os... com o ele tem que vir... vai passar por m im , indo direto para a cabana. Estarei atrás dele. Posso m eter duas balas na nuca do bastardo antes que ele saiba o que está acontecendo.

Pondo-se de pé, sacudindo a cabeça, Marty disse:

— Não, é arriscado dem ais.

— Se nós dois ficarm os aqui dentro, vai ser com o tentar defender um forte.

— Um forte m e parece bem .

— Não está lem brado de todos os film es que m ostram a cavalaria no Velho Oeste defendendo o forte? Mais cedo ou m ais tarde, não im portava o quão sólido fosse o local, os índios acabavam vencendo e entrando.

— Isso só acontece nos film es.

— Sim , m as talvez ele tam bém os tenha assistido. Vem cá — ela insistiu. Quando Marty j untou-se a ela na j anela, Paige apontou para as rochas que m al podiam ser vistas nas som bras carregadas debaixo dos pinheiros. — É perfeito.

— Não gosto disso.

— Vai funcionar.

— Não gosto disso.

— Você sabe que está certo.

— Está bem , talvez estej a certo, m as continuo não gostando — disse ele em tom cortante.

— Vou sair.

Ele esquadrinhou os olhos de Paige, talvez procurando sinais de m edo que pudesse explorar para fazê-la m udar de ideia.

— Você pensa que é um a heroína de um a história de aventura, não pensa?

— Você botou m inha im aginação para funcionar.

— Gostaria de ficar de boca fechada. — Durante um longo tem po, Marty olhou fixo para a confusão de rochas cobertas por som bras, depois suspirou e disse: — Está bem , m as sou eu que vou sair. Você fica aqui dentro com as m eninas.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não funciona desse j eito, baby.

— Não m e venha bancar a fem inista.

— Não estou bancando... é você que tem a m ira paranorm al.

— E daí?

— Ele pode sentir onde você está e, dependendo do quão refinado é esse talento, pode sentir que você está nas rochas. Você tem que ficar na cabana para ele senti-lo aqui, vir direto a você... e passar por m im .

— Talvez ele possa sentir você tam bém .

— As evidências até aqui indicam que é só com você.

Marty estava agoniado de m edo por ela, com os sentim entos enrugando cada ponto do seu rosto.

— Não gosto disso.

— Você j á disse isso. Estou saindo.

5.

No m om ento em que Oslett e Clocker saíram da casa dos Stillwater e atravessaram a rua, Spicer estava sentado atrás do volante da cam ionete verm elha.

O vento acelerava. A neve caía do céu num ângulo agudo e fustigava a rua.

Oslett cam inhou até a porta do m otorista da cam ionete de vigilância.

Spicer tornara a colocar os óculos escuros, apesar da últim a hora de luz do dia estar sobre eles. Seus olhos, am arelos ou não, estavam ocultos.

Ele olhou para Oslett e disse:

— Vou tirar esse calham beque daqui, atravessar a fronteira do condado e sair da j urisdição local antes de telefonar para a m atriz e conseguir algum a aj uda para desovar os corpos.

— E quanto ao suj eito no furgão do florista?

— Deixe que eles arrastem seu próprio lixo — disse Spicer.

Ele entregou a Oslett um a folha de tam anho padrão de form ulário contínuo, no qual o com putador im prim ira um m apa, localizando o ponto do qual Martin Stillwater telefonara para a casa dos pais. O m apa m ostrava apenas algum as estradas. Oslett enfiou-o na j aqueta de esqui antes que o vento o arrancasse de sua m ão, ou o papel ficasse úm ido de neve.

— Está a poucos quilôm etros de distância — disse Spicer. — Você leva o Explorer — ele ligou o m otor, bateu a porta e saiu na tem pestade.

Clocker j á estava atrás do volante do Explorer. Nuvens de fum aça subiam do escapam ento.

Oslett apressou-se para o lado do carona, entrou, bateu a porta e tirou o m apa do com putador da j aqueta.

— Vam os. Estam os perdendo tem po.

— Só na escala hum ana — disse Clocker. Afastando-se do m eio-fio e acionando os lim padores de para-brisas para retirar a neve im pelida pelo vento, acrescentou: — De um ponto de vista cósm ico, talvez o tem po sej a a única coisa a ter um estoque inesgotável.

6.

Paige beij ou as m eninas e fez com que prom etessem ser coraj osas e fazer exatam ente o que o pai m andasse. Deixá-las em troca da incerteza do que vinha pela frente foi um a das coisas m ais difíceis que ela fez na vida. Fingir que não estava com m edo, a fim de aj udá-las em sua busca de coragem , foi m ais difícil ainda.

Quando Paige saiu pela porta da frente, Marty foi até a varanda com ela. O vento tem pestuoso soprava nas paredes de tela, batendo a porta da varanda no topo da escada.

— Tem um a outra m aneira — disse Marty, reclinando-se sobre Paige para ser ouvido na tem pestade sem gritar. — Se sou eu que o atrai, talvez eu devesse dar o fora daqui, sozinho, para levá-lo o m ais longe possível de vocês.

— Esqueça.

— Sem você e as m eninas para m e preocupar, talvez eu possa cuidar dele.

— E se em vez disso ele o m atar?

— Pelo m enos não sucum birem os todos.

— Você acha que ele não viria nos procurar de novo? Ele quer a sua vida, lem bre-se. Sua vida, sua m ulher, suas filhas.

— Assim , se ele m e liquidar e vier atrás de você, você ainda tem um a chance de explodir o cérebro dele.

— Oh, é m esm o? E quando ele aparecer, durante aquela j anelinha de oportunidade que terei antes que ele se aproxim e de m im , com o eu saberia se era ele ou você?

— Você não saberia — adm itiu Marty.

— Então, vam os j ogar desse j eito.

— Você é m uito forte.

Marty não podia ver que suas entranhas estavam com o geleia, que seu coração batia violentam ente e que um leve gosto m etálico de terror enchia sua boca seca.

Eles se abraçaram , m as por breves m om entos.

Carregando a Mossberg, ela atravessou a porta da varanda, desceu os degraus, passou pelo pátio coberto de som bras, pelo BMW e entrou na m ata sem olhar para trás, preocupada em que ele tom asse conhecim ento da profundidade de seu m edo e insistisse em arrastá-la de volta para a cabana.

Sob a curva da estrutura do abrigo de galhos de sem pre-vivas, o vento pareceu oco e distante, m enos quando ela passou por baixo de duas aberturas parecidas com canos de fornalha que se elevavam por todo o traj eto até o céu fechado. Correntes de ar agudas gritavam nessas passagens, tão frias com o ectoplasm as e tão estridentes com o súcubos.

Em bora a propriedade tivesse um declive, foi fácil atravessar o terreno sob as árvores. A vegetação rasteira era esparsa devido à falta de luz solar direta. Muitas árvores eram tão antigas que os galhos m ais baixos ficavam acim a de sua cabeça, e a visão por entre os troncos grossos não encontrava obstáculos em todo o traj eto até a estrada do condado.

O solo era pedregoso. Mesas e form ações de granito rom piam a superfície aqui e ali, tudo m uito antigo e liso.

A form ação que ela apontara para Marty ficava na m etade do cam inho entre a cabana e a estrada, apenas seis m etros acim a da entrada de carros. Parecia um crescente de dentes m olares sem fio, com sessenta ou noventa centím etros de altura, com o a estrutura dental fossilizada de um dinossauro herbívoro, m uito m aior do que qualquer outra im aginada ou suspeitada.

Ao se aproxim ar do afloram ento de granito no qual som bras tão escuras quanto alcatrão de pinho concentrado form avam poças atrás dos “m olares”, Paige teve a súbita sensação de que o sósia j á estava lá, observando a cabana daquele esconderij o. A três m etros de seu destino, ela parou, escorregando um pouco no tapete de folhas soltas de pinheiros.

Se ele realm ente estivesse ali a teria visto chegando e poderia m atá-la quando bem desej asse. O fato de ainda estar viva argum entava contra a presença dele. Não obstante, ao tentar pôr-se em m ovim ento de novo, Paige sentiu com o se tivesse m ergulhado no fundo de um a profunda fenda oceânica e estivesse lutando para avançar contra a resistência da m assa de um m ar inteiro.

Com o coração batendo, ela deu a volta na form ação do crescente e, por trás, deslizou para dentro de sua convexidade oca. O sósia não estava à sua espera.

Ela se deitou de barriga para baixo. Com a j aqueta de esqui azul-escuro e o capuz cobrindo os cabelos louros, ela sabia que estava praticam ente invisível entre as som bras e contra a pedra escura.

Através de fendas na pedra, podia m onitorar toda e extensão da entrada de carro sem ser preciso levantar a cabeça a ponto de ser vista.

Do outro lado do abrigo de árvores, a tem pestade aum entou rápido, transform ando-se num a nevasca de escala com pleta. O volum e de neve que caía na entrada de carro entre grupos de árvores era tão grande que era quase com o se ela estivesse olhando para a face espum ante de um a queda d’água.

Continuar: parte 2 de 4