Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 7 de 9 · parte 1/4

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Sr. Assassino

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

1.

Pouco depois do am anhecer, Marty acordou Charlotte e Em ily.

— Vão tom ar banho para cair na estrada, senhoritas. Tem os um m onte de coisas para fazer hoj e de m anhã.

Em ily acordou por com pleto num instante. Saiu debaixo das cobertas e ficou de pé na cam a com seu pij am a am arelo-narciso, o que a deixou quase ao nível da cabeça dele. Ela pediu um abraço e um beij o de bom -dia.

— Tive um supersonho ontem à noite.

— Deixe-m e adivinhar. Você sonhou que tinha idade suficiente pra nam orar Tom Cruise, dirigir carros esportivos, fum ar charutos, beber e vom itar as tripas pra fora.

— Bobo — disse ela. — Sonhei que, pro café da m anhã, você ia até o autom ático, com prava Mountain Dew e barras de chocolate pra nós.

— Sinto m uito, m as não foi profético.

— Papai, não sej a um escritor que usa palavras grandes.

— Eu quis dizer que seu sonho não vai se tornar realidade.

— Bem , disso eu sei. Você e m am ãe teriam um a traça se nós tivéssem os barras de chocolate no café da m anhã.

— Troço. Não traça.

Ela franziu o rosto.

— Isso im porta?

— Não, acho que não. Traça, troço, qualquer coisa que você disser.

Em ily contorceu-se para fora dos braços do pai e pulou da cam a.

— Vou fazer xixi — ela anunciou.

— É um com eço. Depois tom e um a ducha, escove os dentes e vista-se.

Com o sem pre, Charlotte foi m ais lenta para acordar. No m om ento em que Em ily fechava a porta do banheiro, Charlotte só conseguira puxar as cobertas para trás e sentar na beirada da cam a. E ficou olhando zangada para os pés descalços.

Marty sentou-se ao seu lado.

— São cham ados de “dedos dos pés”.

— Hum m m — ela disse.

— Você precisa deles para encher as pontas das m eias.

Ela bocej ou.

— Vai precisar deles m uito m ais se quiser ser bailarina. No entanto, eles não são essenciais para a m aioria das outras profissões. Se você não vai ser bailarina, então pode rem ovê-los com um a cirurgia, só os m aiores ou os dez, fica por sua conta.

Ela levantou a cabeça e deu-lhe um olhar papai-está-sendo-engraçadinho-então-vam os-anim á-lo.

— Acho que ficarei com eles.

— Com o você quiser — disse ele e beij ou-lhe a testa.

— Sinto m eus dentes peludos — ela queixou-se. — Minha língua tam bém .

— Talvez você tenha com ido um gato durante a noite.

Ela estava acordada o bastante para dar um a risadinha.

Foi dada a descarga no banheiro e, um segundo depois, a porta se abriu e Em ily disse:

— Charlotte, quer privacidade para ir ao trono ou posso tom ar banho agora?

— Vai em frente e tom e o banho — disse Charlotte. — Você cheira.

— É m esm o? Bem , você fede.

— Você cheira m al.

— É porque eu quero — disse Em ily, talvez por não conseguir pensar num a palavra de resposta para “cheirar m al”.

— Minhas graciosas e j ovens filhas, que dam as.

Enquanto Em ily desaparecia de volta ao banheiro e com eçava a rem exer nos registros do chuveiro, Charlotte falou:

— Vou tirar esses pelos dos m eus dentes. — Levantou-se e foi até a porta aberta. Na soleira, virou-se para Marty. — Papai, vam os ter que ir à escola hoj e?

— Hoj e não.

— Eu não achava que sim — ela hesitou. — Am anhã? — Não sei, querida. Talvez não.

Outra hesitação.

— Algum dia nós vam os voltar para a escola de novo?

— Bem , claro, com certeza.

Ela encarou-o durante um tem po longo dem ais, depois sacudiu a cabeça em sinal de afirm ação e entrou no banheiro.

Sua pergunta desconcertou Marty. Ele não sabia ao certo se ela estava apenas fantasiando sobre um a vida sem escola, com o a m aioria das crianças faziam de vez em quando, ou se expressava um a preocupação m ais genuína quanto à profundidade da encrenca que desabara sobre eles.

Enquanto estava sentado na cam a com Charlotte, Marty ouviu a televisão ser ligada no outro quarto, de m odo que soube que Paige estava acordada. Ele se levantou para dar bom -dia a ela.

Quando se aproxim ava da porta da ligação, Paige o cham ou.

— Marty, rápido, vej a isso.

Correu para o outro quarto e viu Paige parada diante da tevê. Ela assistia a um noticiário do com eço da m anhã.

— É sobre nós.

Ele reconheceu sua casa na tela. Um a repórter estava parada na rua, de costas para a casa e de frente para a câm era.

Marty agachou-se diante da tevê e aum entou o volum e.

— ... assim, o mistério continua e a polícia gostaria muito de conversar com Martin Stillwater hoje de manhã...

— Ah, hoje eles querem conversar — disse Marty aborrecido.

Paige m andou-o calar-se.

— ... uma brincadeira irresponsável de um escritor ansioso demais para avançar na carreira, ou alguma coisa mais sinistra? Agora que o laboratório da polícia confirmou que a grande quantidade de sangue na casa de Stillwater é, de fato, de origem humana, a necessidade das autoridades responderem a essa pergunta tornou-se mais urgente da noite para o dia.

Esse foi o final da m atéria. Quando a repórter disse seu nom e e localização, Marty registrou as palavras “ao vivo” no canto superior esquerdo da tela. Em bora as duas palavras estivessem ali o tem po inteiro, a im portância delas não foi registrada de im ediato.

— Ao vivo? — disse Marty. — Eles só m andam repórteres saírem ao vivo se a história estiver em andam ento.

— Está em andam ento — confirm ou Paige. Ela estava parada com os braços cruzados no peito e o cenho franzido para a televisão. — O lunático ainda está lá fora, em algum lugar.

— Quero dizer, quando está acontecendo um roubo ou um a situação com refém e um a equipe da SWAT esperando para invadir o local. Pelos padrões televisivos, isso é um tédio, sem ação, não há ninguém na cena para se em purrar um m icrofone na cara, apenas um a casa vazia para tom adas. Não é o tipo de história que eles usem para um a m atéria ao vivo. Cara dem ais e sem excitação.

O program a voltou para o estúdio. Para sua surpresa, o âncora não era um dos locutores de segunda categoria da estação de Los Angeles, que em geral estaria de serviço num program a no com eço da m anhã, m as sim um rosto m uito conhecido da rede.

Atônito, Marty disse:

— É cadeia nacional. Desde quando um a notícia de arrom bam ento e invasão vira notícia nacional?

— Você tam bém foi atacado — disse Paige.

— E daí? Nos dias de hoj e, há um crim e pior que esse a cada dez segundos em algum lugar do país.

— Mas você é um a celebridade.

— Um a porra que sou.

— Você pode não gostar, m as é.

— Não sou tão célebre assim , não com apenas duas brochuras na lista de bestsellers. Sabe com o é difícil entrar nesse program a para um dos segm entos de conversa com o um convidado? — Ele bate com o nó do dedo no rosto do âncora na tela. — Mais difícil que ser convidado para um j antar oficial na Casa Branca! Mesm o que eu contratasse um publicitário que vendesse a alm a para o diabo, ele não m e colocaria nesse program a, Paige. Não sou tão grande assim . Sou um j oão-ninguém para eles.

— Então... o que você quer dizer?

Ele foi à j anela que dava vista para o estacionam ento, e abriu as cortinas. Luz do sol fraca. Tráfego constante na Autoestrada da Costa do Pacífico. As árvores balançavam indolentes na m ais suave das brisas do litoral.

Nada no cenário era am eaçador ou incom um , no entanto, parecia-lhe agourento. Marty sentia que olhava para um m undo que não era m ais conhecido, um m undo m udado para pior. As diferenças não podiam ser definidas, eram m ais subj etivas do que obj etivas, perceptíveis m ais para o espírito do que para os sentidos, m as m esm o assim reais. E o ritm o da som bria m udança aum entava. Em pouco tem po, a vista daquele quarto ou de qualquer outro seria, para ele, com o algo visto através da portinhola de um a nave espacial num distante planeta alienígena que apenas superficialm ente se parecia com seu próprio m undo, m as que por baixo de sua superfície enganadora era m uitíssim o estranho e hostil à vida hum ana.

— Eu não acho — disse ele — que a polícia costum e term inar os testes com am ostras de sangue com tanta rapidez, e sei que não é prática padrão divulgar os resultados laboratoriais para os m eios de com unicação com essa facilidade. — Ele deixou as cortinas caírem e virou-se para Paige, cuj a testa estava franzida de preocupação. — Noticiário nacional? Ao vivo, no local? Não sei que porra está acontecendo, Paige, m as é m ais estranho do que pensei ontem à noite.

* * *

Enquanto Paige tom ava banho, Marty puxou um a cadeira para a frente da televisão e ficou trocando de canal, procurando outros noticiários. Pegou o final de outra m atéria sobre ele num canal local — e depois um a terceira, com pleta, no program a nacional.

Tentava precaver-se contra a paranoia, m as teve a im pressão perfeita de que am bas as m atéria sugeriram — sem fazer acusações — que a falsidade de sua declaração para a polícia de Mission Viej o era um a conclusão precipitada, e que seu verdadeiro m otivo era vender m ais livros ou algo m ais som brio e esquisito do que o avanço profissional. Os dois noticiários fizeram uso da fotografia da edição corrente da People, na qual ele parecia um zum bi de cinem a, com olhos brilhantes, à espreita nas som bras, violento e dem ente. E am bos os telej ornais m encionaram , de propósito, as três arm as confiscadas pela polícia, com o se ele pudesse ser um suburbano vivendo em cim a de um bunker abarrotado de arm as e m unições. Por volta do final da terceira reportagem , achou que tinham feito um a clara insinuação de que ele podia ser perigoso, em bora houvesse sido inserida de m aneira tão suave e sutil. Era m ais um a questão do tom de voz e das expressões do repórter do que de qualquer palavra no texto.

Aturdido, ele desligou a televisão.

Durante algum tem po ficou olhando fixo para a tela apagada. O cinza do m onitor desligado com binava com seu estado de espírito.

* * *

Depois que todos tom aram banho e se vestiram , as m eninas entraram no assento traseiro do BMW e, obediente, colocaram os cintos de segurança enquanto os pais acom odavam a bagagem .

Quando Marty bateu a tam pa da m ala e fechou-a a chave, Paige disse em voz baixa, para que Charlotte e Em ily não pudessem ouvir:

— Você acha m esm o que tem os de chegar a esse ponto, fazer essas coisas? É m esm o ruim ?

— Não sei. Com o lhe disse, estou pensando nisso desde que acordei, desde as três horas da m adrugada, e ainda não sei se estou tendo um a reação exagerada.

— São m edidas sérias e até arriscadas.

— Só que... por m ais estranho que j á sej a, com O Outro e tudo que ele disse para m im , o que quer que estej a por trás disso é m ais estranho ainda. Mais perigoso do que um lunático com um a arm a. Mais m ortal e m uito pior. É algo tão grande que nos esm agará se tentarm os resistir. Foi o que senti no m eio da noite, m edo. Fiquei m ais assustado do que quando ele estava com as m eninas no carro. E, depois do que vi na televisão agora de m anhã, estou m ais inclinado a seguir m inha intuição.

Ele percebeu que sua expressão de m edo foi extrem a, com um quê inconfundível de paranoia. Mas não era um alarm ista e achava que podia confiar em seus instintos. Os acontecim entos tinham dissolvido todas as dúvidas sobre seu bem -estar m ental.

Marty desej ava poder identificar um inim igo que não fosse o sósia im provável, pois sabia por instinto que havia um outro inim igo e seria confortante identificá-lo. A Máfia, a Ku Klux Klan, os neonazistas, consórcios de banqueiros m aus, o conselho de diretores de algum conglom erado internacional com ganância feroz, generais de direita tentando estabelecer um a ditadura m ilitar, um a conspiração de zelotes insanos do Oriente Médio, cientistas loucos tentando explodir o m undo em estilhaços, ou o próprio dem ônio em todo seu esplendor cornífero — qualquer um dos vilões padrão dos dram as de tevê e inúm eros rom ances, não obstante sua im probabilidade e lugar-com um , seria preferível a um adversário sem rosto, form a ou nom e.

Mordendo o lábio inferior, perdida em pensam entos, Paige deixou seu olhar peram bular pelas árvores sacudidas pela brisa, pelos outros carros estacionados e pela frente do m otel, antes de j ogar a cabeça para trás e olhar três gaivotas que cruzavam gritando o céu m ais azul e sereno.

— Você tam bém sente — disse ele.

— Sinto.

— Opressivo. Não estam os sendo vigiados, m as a sensação é quase a m esm a.

— Mais do que isso — replicou ela. — É diferente. O m undo m udou... ou m udou a m aneira com o o vej o.

— Para m im tam bém .

— Algum a coisa... se perdeu.

E nunca m ais encontrarem os de novo, ele pensou.

2.

O Ritz-Carlton era um hotel notável, com gosto refinado, generosas aplicações de m árm ore, pedra calcária, granito, arte de qualidade e antiguidades em todas as suas áreas públicas. Os enorm es arranj os florais, expostos onde quer que se fosse, eram os m ais artísticos que Oslett havia visto. Vestidos com uniform es discretos, gentis, onipresentes, os em pregados pareciam superar os hóspedes em núm ero. No geral, lem brava um lar para Oslett, a propriedade em Connecticut na qual crescera, em bora a m ansão da fam ília, m obiliada apenas com antiguidades dignas de um m useu, fosse m aior do que o Ritz-Carlton, tivesse um a proporção pessoal-fam ília de seis para um e um heliporto grande o bastante para acom odar os helicópteros m ilitares que às vezes transportavam o presidente dos Estados Unidos e sua com itiva.

A suíte dupla abrigava um a generosa sala de estar, na qual Drew Oslett e Clocker estavam aloj ados, oferecia todas as am enidades — desde um bar plenam ente servido até boxes de banho tão espaçosos que um hóspede bailarino poderia praticar entrechats durante suas abluções m atinais. As toalhas não eram de Pratesi, com o aquelas que ele usara durante toda a vida, m as eram de um bom algodão egípcio, m acio e absorvente.

Às 7:50 da m anhã de terça-feira, Oslett vestia um a cam isa de algodão branco com botões de osso de baleia da Theophilus Shirtm akers de Londres, um blazer de cashmere azul-m arinho feito com sublim e atenção ao detalhe por seu alfaiate particular em Rom a, calças folgadas de lã cinza, sapatos oxfords pretos (um toque de excentricidade) feitos à m ão por um sapateiro italiano residente em Paris, e um a gravata de griffe com listras azuis, m arrons e douradas. A cor de seu lenço de bolso de seda com binava perfeitam ente com o dourado de sua gravata.

Traj ado dessa m aneira, com o ânim o elevado pela perfeição de alfaiate, Oslett foi procurar Clocker. Não desej ava a com panhia do grandalhão, claro; só que, para sua própria paz de espírito, preferia saber o que Clocker estava fazendo o tem po todo. E nutria a esperança de um bendito dia encontrá-lo m orto, derrubado por um potente infarto cardíaco, um a hem orragia cerebral ou um raio da m orte alienígena, com o aqueles sobre os quais o grandalhão vivia lendo.

Clocker estava num a cadeira de pátio na varanda da sala de estar, ignorando um a deslum brante vista para o Pacífico, o nariz grudado no últim o capítulo de Ginecologistas que Mudam de Forma da Galáxia Sombria, ou sej a lá qual fosse a droga do título. Usava o m esm o chapéu com a pena de pato e paletó esportivo de tweed, em bora estivesse com m eias novas cor de púrpura, calças largas e leves e um a cam isa branca lim pa. Havia vestido um suéter-colete diferente em padrão arlequim , em tons de azul, cor-de-rosa, am arelo e cinza. Apesar de não usar gravata, eram tantos os cabelos negros que saíam pelo colarinho aberto que, à prim eira vista, ele parecia estar usando gravata.

Após deixar de retribuir ao prim eiro “bom -dia” de Oslett, Clocker respondeu à repetição dessas palavras com a im provável saudação de dedos abertos, que os personagens de Jornada nas Estrelas trocavam entre si, com a atenção ainda presa na brochura. Se Oslett tivesse um a serra de cadeia ou um cutelo de açougueiro, teria cortado a m ão de Clocker na altura do pulso e atirado ao oceano. Ele se perguntou se o serviço de quarto enviaria algum instrum ento afiado da coleção de artigos de cutelaria do chef.

O dia estava quente, j á fazia 22 graus. Céu azul e brisas perfum adas eram um a m udança bem -vinda do frio da noite anterior.

Às oito horas em ponto — ainda a tem po de im pedir que Oslett enlouquecesse com os gritos aquietantes das gaivotas, o m urm úrio tranquilizante das ondas que quebravam na rebentação e a leve risada dos surfistas m atinais, que levavam suas pranchas para o m ar — o representante da Rede chegou para inform á-los sobre os acontecim entos. Era um suj eito bastante diferente do corpulento hom em de frente que os levara do aeroporto ao Ritz-Carlton algum as horas antes. Terno Savile Row. Gravata de griffe. Um olhar foi tudo que Oslett precisou para ter certeza de que ele não possuía nenhum a peça de roupa na qual estivesse im pressa um a foto de Madonna com os seios de fora.

Ele disse que seu nom e era Peter Waxhill, e era provável que estivesse falando a verdade. Seu posto era alto o bastante na organização para conhecer os verdadeiros nom es de Oslett e Clocker — em bora os tivesse registrado no hotel com o John Galbraith e John May nard Key nes —, de m odo que não havia razão para esconder sua identidade.

Waxhill aparentava estar no com eço da casa dos quarenta, dez anos m ais velho do que Oslett, m as o corte à navalha em suas têm poras estava coberto de cinza. Com 1,80m , era alto m as não dom inante; m agro porém em form a, bonito m as não assustadoram ente belo, charm oso m as não fam iliar. Agia não apenas com o se tivesse sido diplom ata durante décadas, m as com o se sua estrutura genética tivesse sido proj etada para essa carreira.

Após apresentar-se e com entar sobre o tem po, Waxhill disse:

— Tom ei a liberdade de indagar ao serviço de quarto se vocês haviam tom ado o café da m anhã e, com o responderam que não, tom ei outra vez a liberdade de pedir para nós três, de form a que poderem os tom ar o desj ej um e discutir negócios ao m esm o tem po. Espero que não se im portem .

— De m aneira nenhum a — disse Oslett, im pressionado com a suavidade e eficiência do outro.

Assim que ele respondeu, a cam painha da porta soou e Waxhill introduziu dois garçons em purrando um carrinho de serviço coberto com um a toalha de m esa branca e abarrotada de travessas. No centro da sala de estar, os garçons ergueram abas em butidas no carro convertendo-o num a m esa redonda, e distribuíram travessas-pratos-guardanapos-xícaras-pires-cristais-louças com a graça e velocidade de m ágicos m anipulando cartas de baralho. Juntos, fizeram aparecer um a variedade de tigelas de com partim entos sem fundo sob a m esa, até que de repente, com o que saído do ar, surgiu o desj ej um : ovos m exidos com pim enta verm elha, bacon, em butidos, salm ões defum ados, torradas, croissants, m orangos de estufa acom panhados de açúcar m ascavo e pequenos j arros com crem e, suco de laranj a fresco e um a garrafa térm ica banhada à prata com café.

Waxhill cum prim entou os garçons, agradeceu, deu-lhes um a gorj eta e assinou a conta, perm anecendo em m ovim ento o tem po todo, de m odo que devolveu a nota do serviço de quarto e a caneta no instante em que eles atravessavam a soleira para o corredor.

Quando Waxhill fechou a porta e retornou à m esa, Oslett perguntou:

— Harvard ou Yale?

— Yale. E você?

— Princeton. Depois Harvard.

— Em m eu caso, Yale e depois Oxford.

— O presidente frequentou Oxford — observou Oslett.

— Foi m esm o? — Waxhill levantou as sobrancelhas, fingindo que isso era um a novidade para ele. — Bem , você sabe, Oxford dura.

Aparentando haver term inado o últim o capítulo de Planeta do Parasito Gastrintestinal, Karl Clocker entrou vindo da varanda; um em baraço am bulante no que dizia respeito a Oslett. Waxhill perm itiu-se ser apresentado ao Trekker, trocou um aperto de m ão e deu toda a im pressão de não estar se sufocando de repulsa ou hilaridade.

Eles puxaram três cadeiras de espaldar reto e sentaram -se para tom ar o café da m anhã. Clocker não tirou o chapéu.

Enquanto transferiam com ida das travessas para os pratos, Waxhill disse:

— Nessa noite colhem os algum as inform ações interessantes sobre o passado de Martin Stillwater, sendo que a m ais im portante se relaciona com a hospitalização de sua filha m ais velha, há cinco anos.

— O que havia de errado com ela? — perguntou Oslett.

— A princípio não tinham nenhum a pista. Baseados nos sintom as, suspeitaram de câncer. Charlotte — esse é o nom e da filha que na época estava com quatro anos de idade — se m anteve num estado desesperador durante algum tem po, m as depois ficou provado que se tratava de um desequilíbrio com um na quím ica do sangue, bastante tratável.

— Bom para ela — disse Oslett, em bora não se im portasse se a m enina Stillwater vivera ou m orrera.

— Foi m esm o — concordou Waxhill. — No entanto, em seu ponto m ais baixo, quando os m édicos se inclinavam a um diagnóstico term inal, o pai e a m ãe foram subm etidos a um a aspiração de m edula óssea. Extração de m edula com um a agulha especial.

— Parece doloroso.

— Sem dúvida. Os m édicos pediram am ostras para determ inar qual dos pais seria o m elhor doador, caso fosse preciso um transplante de m edula. A m edula de Charlotte produzia pouca quantidade de sangue novo, e havia indicações de que a doença inibia a form ação de células sanguíneas.

Oslett pegou um pouco dos ovos. Havia m anj ericão neles, estavam m aravilhosos.

— Não estou entendendo onde a doença de Charlotte se relaciona com nosso problem a atual.

Após fazer um a pausa para obter efeito, Waxhill disse:

— Ela foi hospitalizada no Cedars-Sinai de Los Angeles.

Oslett congelou com um a segunda garfada de ovos na m etade do cam inho em direção à boca.

— Há cinco anos — repetiu Waxhill para enfatizar.

— Em que m ês?

— Dezem bro.

— Em que dia Stillwater deu a am ostra de m edula?

— Dezesseis. Dezesseis de dezem bro.

— Droga. Tam bém tivem os um a am ostra de sangue, de reserva...

— Stillwater tam bém deu am ostras de sangue. Um a delas teria sido acondicionada com cada am ostra de m edula para os trabalhos laboratoriais.

Oslett conduziu o garfo com ovos até a boca. Mastigou, engoliu e disse:

— Com o nosso pessoal pôde fazer esse trabalho de m erda?

— É provável que j am ais saibam os. Em todo caso, o “com o” não tem tanta im portância quanto o fato de que fizeram o trabalho de m erda, e tem os que viver com isso.

— Quer dizer que j am ais com eçam os onde pensam os ter com eçado.

— Ou com quem pensam os que estávam os com eçando — Waxhill reform ulou a frase.

Clocker com ia com o um cavalo sem em bornal. Oslett queria j ogar um a toalha na cabeça do grandalhão para poupar Waxhill da desagradável visão de tão vigorosa m astigação. Pelo m enos, o Trekker ainda não pontuara a conversa com algum com entário inescrutável.

— Salm ões excepcionais — observou Waxhill.

— Terei que provar um — disse Oslett.

Após sorver o suco de laranj a e enxugar a boca com o guardanapo, Waxhill disse:

— Quanto à m aneira com o o seu Alfie soube da existência de Stillwater e conseguiu encontrá-lo... há duas teorias no m om ento.

Oslett notou o “seu Alfie” em vez de “nosso Alfie”, o que tanto podia significar nada com o podia indicar que um esforço j á estava em andam ento para responsabilizá-lo, apesar do fato incontestável de que o desastre era o resultado direto dos procedim entos científicos m alfeitos, não tendo coisa algum a a ver com a m aneira com o o rapaz fora m anej ado durante seus catorze m eses de serviço.

— Prim eiro — continuou Waxhill —, há um a facção que pensa que Alfie topou com um livro cuj a capa ostentava a foto de Stillwater.

— Não pode ser tão sim ples assim .

— Eu concordo. Em bora, é claro, o parágrafo sobre o autor contido na orelha de seus últim os dois livros afirm e que ele vive em Mission Viej o, o que poderia ter dado um a boa pista para Alfie,

— Qualquer pessoa que visse um a foto de um gênero idêntico, que nunca soube que existia, teria a curiosidade de olhar para ela... m enos Alfie. Enquanto que um a pessoa com um tem a liberdade de perseguir um a coisa com o essa, Alfie não tem . Ele é todo concentrado.

— Mirado com o um a bala.

— Exato. Ele rom peu o treinam ento aqui, o que requer um traum a m onum ental. Porra, é m ais que treinam ento. Isso é um eufem ism o. É um a doutrinação, lavagem cerebral...

— Ele é program ado.

— Isso. Program ado. Ele é a coisa m ais parecida com um a m áquina. Ver um a foto de Stillwater não faria com que saísse do controle, assim com o o com putador pessoal de seu escritório não com eçaria a produzir esperm a e ter cabelos nas costas só porque você gravou um a foto de Marily n Monroe em seu disco rígido.

Waxhill deu um a risada leve.

— Gostei da analogia. Acho que vou usá-la para m udar algum as opiniões, m as dando o crédito a você, é claro.

Oslett ficou contente com a aprovação dele.

— Excelente bacon — disse Waxhill.

— É m esm o.

Clocker apenas continuou com endo.

— A segunda e m enor facção — continuou Waxhill — propõe um a hipótese m ais exótica porém m ais crível — pelo m enos para m im —, segundo a qual Alfie tem um a habilidade secreta da qual nada sabem os, e que talvez ele m esm o não com preenda ou controle de todo.

— Habilidade secreta?

— Percepção paranorm al rudim entar. Muito prim itiva... m as forte o bastante para fazer um a ligação entre ele e Stillwater, para j untá-los por causa de... bem , por causa de tudo que com partilham .

— Não está indo um pouco longe dem ais?

Waxhill sorriu e concordou com um aceno de cabeça.

— Adm ito que pareça algo saído de um film e Jornada nas Estrelas...

Oslett encolheu-se de m edo e olhou de soslaio para Clocker m as os olhos do grandalhão não desviaram da com ida em pilhada em seu prato.

— ... em bora todo o proj eto tenha um quê de ficção científica, não é m esm o? — concluiu Waxhill.

— Acho que sim — concordou Oslett.

— O fato é que os engenheiros genéticos deram a Alfie algum as habilidades verdadeiram ente excepcionais. De propósito. Assim , não parece possível que, sem querer e de m aneira inadvertida, tenham dado a ele outras qualidades sobre-hum anas?

— Até qualidades inum anas — disse Clocker.

— Pois bem , você acaba de m e m ostrar um a m aneira m ais desagradável de ver a coisa — disse Waxhill, olhando para Karl Clocker calm am ente. — E, com toda probabilidade, é um a visão m ais acurada. — Ele se vira para Oslett: — Algum vínculo paranorm al, algum a estranha ligação m ental pode ter danificado o condicionam ento de Alfie, apagado seu program a ou feito com que ele o ignorasse.

— Nosso rapaz estava em Kansas City e Stillwater no sul da Califórnia, pelo am or de Deus.

Waxhill encolheu os om bros.

— Um a transm issão de tevê continua para sem pre, até o fim do universo. Transm ita um laser de Chicago em direção ao fim da galáxia, e um dia essa luz chegará lá, daqui a m ilhares de anos, depois que Chicago virar pó... e continuará andando. Assim , talvez a distância não tenha im portância quando se está lidando com ondas de pensam ento, ou sej a lá o que for que conectou Alfie a esse escritor.

Oslett havia perdido o apetite.

Clocker pareceu tê-lo encontrado e som ado ao seu próprio.

Apontando para o cesto de croissants, Waxhill disse:

— São excelentes... e, caso vocês não tenham percebido, há dois tipos deles: alguns são sim ples e outros têm pasta de am êndoas dentro.

— Croissants de am êndoas são os m eus favoritos — disse Oslett, m as não estendeu o braço para pegar algum .

— Os m elhores croissants do m undo... — disse Waxhill.

— ... estão em Paris — Oslett interrom peu-o —, num a cafeteria estranha a m enos de um quarteirão dos...

— ... Cham ps Ely sées — com pletou Waxhill, surpreendendo Oslett

— O proprietário, Alfonse...

— ... e sua m ulher, Mirielle...

— ... são gênios de culinária e anfitriões sem igual.

— Pessoas sim páticas — concordou Waxhill.

Os dois trocaram sorrisos.

Clocker serviu-se de m ais em butidos, e Oslett desej ou tirar com um soco aquele estúpido chapéu.

— Se houver algum a chance de que nosso rapaz tenha poderes extraordinários, por m ais fracos que sej am , que j am ais tencionam os dar a ele — disse Waxhill —, devem os considerar a possibilidade de que certas qualidades que tencionamos dar a Alfie não saíram do j eito que im aginam os.

— Receio não estar entendendo — disse Oslett.

— Essencialm ente, estou falando de sexo.

Oslett ficou surpreso.

— Ele não tem nenhum interesse nisso.

— Tem os certeza disso, não?

— Ele é m acho na aparência, claro, m as é im potente.

Waxhill nada disse.

— Ele foi projetado para ser im potente — salientou Oslett.

— Um hom em pode ser im potente, m as ainda assim ter um intenso interesse em sexo. Na verdade, poderia se argum entar que sua própria incapacidade de atingir a ereção o deixa frustrado, e que essa frustração o leva a ser obcecado com o sexo, com aquilo que não pode ter.

Oslett ficou sacudindo a cabeça o tem po todo em que Waxhill falou.

— Não. Mais um a vez, não é tão sim ples assim . Ele não é apenas im potente. Ele recebeu centenas de horas de intenso condicionam ento psicológico para elim inar o interesse sexual; parte quando estava em hipnose profunda, parte sob a influência de drogas que deixam o subconsciente susceptível a qualquer sugestão, parte através de suprim ento sublim inar de realidade virtual durante sono induzido por sedativo. Para esse rapaz, a principal diferença entre hom ens e m ulheres é a m aneira com o se vestem .

Sem se im pressionar com o argum ento de Oslett, espalhando geleia de laranj a sobre um a fatia de torrada, Waxhill disse:

— A lavagem cerebral, m esm o a m ais sofisticada, pode falhar. Você concorda?

— Concordo, m as com um suj eito com um , você tem problem as porque precisa contar com um a vida inteira de experiências para instalar um a nova atitude ou falsa m em ória. Mas Alfie era diferente. Ele era um quadro-negro vazio, um lindo quadro-negro vazio. Portanto, não houve nenhum a resistência contra as atitudes, lem branças ou sentim entos que quisem os colocar em sua linda cabeça vazia. Não havia nada em sua m ente para ser lavado.

— Talvez o controle da m ente tenha falhado com Alfie exatam ente porque confiávam os em que ele era um alvo fácil.

— A m ente é seu próprio controle — disse Clocker.

Waxhill lançou-lhe um olhar estranho.

— Não acho que tenha falhado — insistiu Oslett. — Em todo caso, ainda há a pequena questão de sua im potência proj etada a ser contornada.

Waxhill m astigou e engoliu calm am ente um pedaço de torrada, depois aj udou-a a descer com café.

— Talvez seu corpo tenha contornado isso para ele.

— Pode repetir?

— Seu incrível corpo com os poderes de recuperação sobre-hum anos.

Oslett contraiu-se com o se a ideia espetasse feito um alfinete.

— Espere um m inuto. Seus ferim entos cicatrizam com rapidez excepcional, sim . Perfurações, feridas profundas, ossos quebrados. Depois de danificado, seu corpo pode restaurar-se e voltar a sua condição proj etada original num prazo m ilagrosam ente curto. Mas aí está a chave. Para sua condição projetada original. Não pode com eçar a se refazer em algum nível fundam ental, não pode m udar, pelo am or de Deus.

— Tem os certeza disso, não tem os?

— Tem os!

— Por quê?

— Bem ... porque... o contrário... é im pensável.

— Im agine — disse Waxhill — se Alfie for potente. E interessado em sexo. O rapaz foi proj etado para ter um trem endo potencial para a violência. É um a m áquina biológica de m atar, sem com punções nem rem orsos, capaz de qualquer selvageria. Im agine essa bestialidade acoplada ao im pulso sexual, e pense em com o as com pulsões sexuais e os im pulsos violentos podem alim entar-se e am plificar-se quando não são tem perados por um espírito civilizado e m oral.

Oslett em purrou seu prato para o lado. A visão da com ida com eçava a enj oá-lo.

— Isso foi pensado. Foi por isso que foram tom adas tantas m alditas precauções.

— Com o no caso do Hindenburg.

Com o no caso do Titanic, Oslett pensou, som brio.

Waxhill tam bém em purrou seu prato para o lado e cruzou as m ãos em torno da xícara de café.

— Portanto, agora Alfie encontrou Stillwater e quer a fam ília do escritor. É um hom em com pleto agora, pelo m enos do ponto de vista físico, e pensam entos sexuais levam , num dado m om ento, a pensam entos de procriação. Um a esposa. Filhos. Deus sabe que com preensão estranha e tortuosa ele tem sobre o significado e propósito de um a fam ília. Mas eis aqui um a fam ília j á pronta. Ele a quer. Quer com toda força. É evidente que Alfie pensa que ela lhe pertence.

3.

O banco oferecia horas extensivas com o parte do m om ento crítico com petitivo. Marty e Paige tencionavam estar diante da porta, com Charlotte e Em ily, quando o gerente abrisse para negócios às oito horas da m anhã de terça-feira.

Ele não estava gostando de retornar a Mission Viej o, m as achava que poderiam realizar suas transações com m enor dificuldade na filial em que tinham suas contas correntes. Ficava a apenas oito ou nove quarteirões de sua casa. Muitos dos caixas reconheceriam Marty e Paige.

O banco situava-se num prédio de tij olos, no canto noroeste do estacionam ento de um shopping center, com linda paisagem e som breado por pinheiros, flanqueado em dois lados por ruas e nos outros dois lados por centenas de m etros de pavim ento. Nos fundos do estacionam ento, a sul e leste, havia um a série em L de prédios conectados que abrigavam de trinta a quarenta loj as, inclusive um superm ercado.

Marty estacionou no lado sul. O curto traj eto do BMW até a porta do banco, com as m eninas entre ele e Paige, foi enervante porque tiveram que deixar as arm as no carro. Ele se sentia vulnerável.

Marty não conseguiu im aginar nenhum a m aneira em que pudessem entrar no banco com um a espingarda escondida, m esm o em se tratando de um m odelo com pacto com coronha de pistola com o a Mossberg. Ele não quis arriscar-se a levar a Beretta debaixo da j aqueta de esquiar, porque não sabia ao certo se o sistem a de segurança do banco incluía a capacidade de detectar um a arm a escondida em alguém que atravessasse a porta. Se um em pregado do banco o confundisse com um assaltante e cham asse a polícia através de um alarm e silencioso, os tiras j am ais lhe dariam o benefício da dúvida — não se considerarm os a reputação que Marty tinha com eles desde a noite anterior.

Enquanto Marty foi direto a um guichê de caixa, Paige levou Charlotte e Em ily para um conj unto de dois sofás pequenos e duas poltronas num a das extrem idades do com prido salão onde fregueses aguardavam reuniões com funcionários do departam ento de em préstim o. O banco não era um cavernoso m onum ento de m árm ore ao dinheiro, com m aciças colunas dóricas e teto abobadado, m as sim um lugar relativam ente pequeno com teto de telhas acústicas e um tapete verde para todos os clim as. Em bora Paige e as m eninas estej am apenas a 1,80m dele, podendo ser vistas com clareza a qualquer m om ento que ele olhe em sua direção, Marty não estava gostando de ficar separado delas m esm o a essa distância.

A caixa era um a j ovem — Lorraine Arakadian, segundo a placa em seu guichê — cuj os óculos redondos de tartaruga lhe davam um a aparência de coruj a. Quando Marty disse que desej ava fazer um saque de 70 m il dólares da conta de poupança — que tinha um saldo de m ais de 74 m il — ela entendeu m al, pensando que ele tencionava transferir essa quantia para a conta corrente. Quando colocou diante dele o form ulário adequado para efetuar a transação, Marty corrigiu o m al-entendido e pediu a quantia total em notas de cem dólares, se fosse possível.

— Oh, entendo — disse ela. — Bem ... é um a transação m aior do que posso fazer, senhor. Terei de pedir a perm issão do caixa-chefe ou do subgerente.

— Claro — disse ele despreocupado, com o se fizesse grandes saques em dinheiro vivo todas as sem anas. — Eu com preendo.

Ela foi até a extrem idade do com prido balcão dos caixas para falar com um a m ulher m ais velha, que exam inava docum entos num a gaveta de um enorm e banco de arquivos. Marty reconheceu-a — Elaine Higgens, subgerente. A Sra. Higgens e Lorraine Arakadian olharam para Marty, depois j untaram as cabeças para conferenciar de novo.

Enquanto esperava, Marty exam inou as entradas do sul e do leste, tentando aparentar indiferença, apesar de esperar que O Outro entrasse por um a ou outra porta a qualquer m om ento, dessa vez arm ado com um a Uzi.

Im aginação de escritor. Talvez não fosse um a m aldição, afinal de contas. Pelo m enos, não de todo. Talvez às vezes fosse um a ferram enta de sobrevivência. Um a coisa era clara: naqueles dias, m esm o a im aginação do escritor m ais fantasioso tinha dificuldade para acom panhar o passo da realidade.

* * *

Ele precisa de m ais tem po do que esperava para encontrar placas para trocar com as do Toy ota Cam ry roubado. Dorm iu m uito tarde e levou um tem po longo dem ais para tornar-se apresentável. Agora o m undo está acordando e ele não tem a vantagem da privacidade da alta m adrugada, que facilitaria a troca. Enorm es condom ínios, com vagas cobertas e um a abundância de veículos, oferecem a loj a ideal para o que ele precisa, m as enquanto tenta um após o outro, descobre que m uitos m oradores j á estão fora, a cam inho do trabalho.

A certa altura, sua busca diligente é recom pensada no estacionam ento atrás de um a igrej a. Um a m issa m atinal está em andam ento. Ele pode ouvir m úsica de órgão. Os paroquianos deixaram catorze carros dos quais pode escolher. Não é um a grande m ultidão para o Senhor, m as é adequada aos seus propósitos.

Ele deixa o m otor do Cam ry funcionando enquanto procura um carro no qual o dono tenha deixado as chaves. No terceiro, um Pontiac verde, todo um m olho balança na ignição.

Ele abre a m ala do Pontiac, com a esperança de que ela contenha pelo m enos um estoj o de ferram entas de em ergência com um a chave de parafuso. Com o fez um a ligação direta no Cam ry, não tem a chave de sua m ala. Outra vez ele tem sorte: um conj unto com pleto de em ergência na estrada, com luzes, artigos de prim eiros socorros e um pacote de ferram entas que inclui quatro chaves de parafuso de diferentes tipos.

Deus está com ele.

Em poucos m inutos, ele troca as placas do Cam ry pelas do Pontiac. Depois devolve o estoj o de ferram entas à m ala do Pontiac e as chaves à ignição.

Enquanto cam inha para o Cam ry, o órgão da igrej a inicia um hino que ele não conhece. Não é nenhum a surpresa o fato de não saber o nom e do hino, um a vez que, pelo que se lem bra, só esteve três vezes dentro de um a igrej a. Em duas ocasiões, ele entrou num a igrej a para m atar o tem po até os cinem as abrirem . Na terceira, ele seguia um a m ulher que viu na rua e com quem gostaria de com partilhar o sexo e a intim idade especial da m orte.

Continuar: parte 2 de 4