Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 3 de 9 · parte 1/3

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Sr. Assassino

Dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

1.

O consultório do Dr. Paul Guthridge tinha três salas de exam e. No decorrer dos anos, Marty passou por todas elas. Todas eram idênticas, não podiam ser diferenciadas das salas de consultórios de m édicos do Maine ao Texas: parede azul-clara, acessórios de aço inoxidável e, fora isso, branco sobre branco; pia de lavar, cadeira, gráfico de um olho. O lugar tinha tanto charm e quanto um necrotério — em bora tivesse um cheiro m elhor.

Marty estava sentado no canto da m esa de exam e acolchoada, protegida por um rolo contínuo de folha de papel. Estava sem cam isa e a sala estava fria. Em bora ainda estivesse de calças, sentia-se nu, vulnerável. No olho de sua m ente, ele se viu tendo um ataque catatônico, incapaz de falar, m exer-se ou m esm o piscar o olho e assim o m édico o confundiria com um m orto, tiraria sua roupa, colocaria um a tarj eta de identificação no dedão do pé, fecharia suas pálpebras e o rem eteria para o j uiz investigador do processo.

Em bora ganhe a vida com a im aginação, um escritor de suspense tem m ais consciência da proxim idade da m orte do que a m aioria das pessoas. Cada cachorro era um potencial portador de raiva. Cada cam inhonete estranha que passasse no bairro era dirigida por um psicopata sexual, que podia raptar e m atar qualquer criança que fosse deixada sozinha por m ais de três segundos. Cada lata de sopa na despensa era botulism o esperando para acontecer.

Ele não sentia nenhum m edo especial de m édicos — em bora tam pouco se sentisse à vontade com eles.

O que o perturbava era toda a ideia da ciência m édica — não porque não confiasse nela, m as sim porque, de m odo irracional, sua própria existência era um a lem brança de que a vida era tênue, a m orte inevitável. Ele não precisava de lem branças. Já possuía um a consciência aguda da m ortalidade, e passava a vida tentando aguentar isso.

Determ inado a não parecer um histérico enquanto descrevia os sintom as para Guthridge, Marty relatou as estranhas experiências dos últim os três dias com um a voz tranquila e indiferente. Tentou usar term os clínicos e não em ocionais, com eçando com a fuga de sete m inutos em seu gabinete e term inando com o abrupto ataque de pânico que sofrera quando saía da casa para ir ao consultório.

Guthridge era um excelente m édico de doenças internas — em parte porque era um bom ouvinte —, ainda que não buscasse esse papel. Aos 45 anos, aparentava dez anos m enos que essa idade e tinha m aneiras j uvenis. Nesse dia, usava tênis, calça de algodão e um suéter de Mickey Mouse. No verão preferia cam isas com cores havaianas. Nas raras ocasiões em que usava o tradicional guarda-pó branco sobre calças largas, cam isa e gravata, ele afirm ava estar “brincando de m édico” ou “em estrita experiência no com itê de código de roupa da Associação Médica Am ericana” ou “subitam ente possuído pelas responsabilidades divinas do m eu ofício”.

Paige achava Guthridge um excelente m édico, e as m eninas o viam com um afeto especial, em geral reservado a um tio favorito.

Marty tam bém gostava dele.

Ele suspeitava que as excentricidades do m édico não eram totalm ente calculadas para divertir os pacientes e deixá-los à vontade. Com o Marty, Guthridge parecia ofender-se m oralm ente com o próprio fato da m orte. Quando j ovem , talvez tivesse sido atraído pela m edicina porque via o m édico com o um cavaleiro lutando contra dragões encarnados em doenças e m ales. Os j ovens cavaleiros pensam que as intenções nobres, a habilidade e a fé prevalecerão sobre o m al. Os cavaleiros m ais velhos sabem m elhor — e às vezes usam o hum or com o arm a para afastar a am argura e o desespero. As brincadeiras e o suéter de Guthridge podiam relaxar seus pacientes, m as tam bém eram sua arm adura contra as duras realidades da vida e da m orte.

— Ataque de pânico? Você, entre todas as pessoas, sofrendo de um ataque de pânico? — perguntou Paul Guthridge em tom de dúvida.

— Oxidação excessiva do sangue, coração batendo, achei que ia explodir... m e parece ser um ataque de pânico — disse Marty.

— Parece sexo.

Marty sorriu.

— Confie em m im , não foi sexo.

— Talvez você tenha razão — disse Guthridge com um suspiro. — Já faz tanto tem po que não sei direito com o é sexo. Creia-m e, Marty, essa é um a péssim a década para se ser solteiro, lá fora tem tantas doenças bastante sórdidas. Você conhece um a garota nova, m arca um encontro com ela, dá um beij o inocente ao levá-la para casa... e depois espera para ver se seus lábios irão apodrecer e cair.

— Im agem exagerada.

— Vivida, hem ? Talvez eu devesse ser escritor — ele com eçou a exam inar o olho esquerdo de Marty com um oftalm oscópio. — Você tem tido dores de cabeça m uito fortes?

— Um a dor de cabeça no fim de sem ana. Mas nada incom um .

— Vertigens repetidas?

— Não.

— Cegueira tem porária, estreitam ento da visão periférica?

— Nada parecido.

Mudando sua atenção para o olho direito, Guthridge disse:

— Quanto a ser escritor... outros m édicos j á fizeram isso, você sabe. Michael Crichton, Robin Cook, Som erset Maugham ...

— Nossa!

— Não sej a sarcástico. Na próxim a vez que eu tiver que lhe aplicar um a inj eção, talvez eu use seringa de cavalo.

— De qualquer m odo, sem pre parece que você usa. Vou dizer-lhe um a coisa: ser escritor não é tão rom ântico quanto as pessoas pensam .

— Pelo m enos você não precisa lidar com am ostras de urina — disse Guthridge, pondo de lado o oftalm oscópio.

Com im agens fantasm as irregulares da luz do instrum ento ainda dançando em seus olhos, Marty disse:

— Quando um escritor está com eçando, um bocado de editores e agentes o tratam com o se ele fosse am ostra de urina.

— É isso aí, m as agora você é um a celebridade — disse Guthridge, colocando os fones do estetoscópio.

— Longe disso — obj etou Marty.

Guthridge pressionou o aço frio do estetoscópio no peito de Marty.

— Tudo bem , respire fundo... prenda a respiração... solte... agora de novo — após auscultar pulm ões e o coração de Marty, o m édico desfez-se do estetoscópio. — Alucinações?

— Não.

— Cheiros estranhos?

— Não.

— As coisas têm o sabor que devem ter? Quero dizer, você não andou tom ando um sorvete que de repente passou a ter um gosto am argo ou de cebola, ou algo parecido com isso?

— Nada parecido.

Guthridge disse enquanto prendia a m anga de pressão de um esfigm ôm etro no braço de Marty :

— Bem , tudo que sei é que para aparecer na revista People você tem que ser um a celebridade de um tipo ou de outro... cantor de rock, ator, político baj ulador, assassino ou talvez o suj eito com a m aior coleção de cera de ouvido do m undo. Portanto, se você pensa que não é um autor celebridade, então quero saber quem você m atou e a quantidade exata de cera de ouvido que possui.

— Com o você sabe da People?

— Tem os um a assinatura para a sala de espera — ele bom beou ar dentro da m anga até enchê-la, depois fez a leitura do m ercúrio descendente no m edidor antes de continuar. — O últim o exem plar chegou na correspondência dessa m anhã. Minha recepcionista m e m ostrou; divertido m esm o. Ela disse que você era o últim o Sr. Assassino que poderia im aginar.

Confuso, Marty disse:

— Sr. Assassino?

— Você não viu a m atéria? — perguntou Guthridge enquanto tirava a m anga de pressão, pontuando a pergunta com o barulho desagradável de um selo de velcro sendo rasgado.

— Não, ainda não. Eles não m ostram antes da publicação. Você está dizendo que no artigo eles m e cham am de Sr. Assassino?

— Bem , esse tipo de graça.

— Graça? — Marty estrem eceu. — Eu m e pergunto se Philip Roth acharia engraçado ser o “Sr. Literato” ou Terry McMillan a “Sra. Saga Negra”.

— Você sabe o que eles dizem ... toda publicidade é publicidade boa.

— Essa foi a prim eira reação de Nixon a Watergate, não foi?

— Na verdade, tem os duas assinaturas da People. Vou dar-lhe um exem plar quando você sair — Guthridge dá um sorriso dem oníaco. — Sabe, antes de ler a revista, eu não havia notado o suj eito assustador que você é.

Marty suspirou.

— Eu tinha m edo disso.

— Mas, de fato, não é m au. Conhecendo você, suspeito que vai achar um pouco em baraçoso. Mas isso não vai m atá-lo.

— O que vai m e m atar, Doc?

Guthridge disse, franzindo as sobrancelhas:

— Baseado nesse exam e, eu diria que a velhice. Por todos os sinais exteriores, você está em boa form a.

— A palavra chave é “exteriores” — disse Marty.

— Certo. Eu gostaria que você fizesse alguns testes. Vai ser no Hoag Hospital, na base do paciente externo.

— Estou preparado — disse Marty em tom som brio, em bora não estivesse nem um pouco preparado.

— Oh, não hoj e. Eles só terão um a vaga am anhã, talvez só na quarta-feira.

— O que você vai procurar com esses testes?

— Tum ores cerebrais, lesões. Graves desequilíbrios na quím ica do sangue. Ou talvez um a m udança da posição da glândula pineal, fazendo pressão no tecido cerebral vizinho, o que poderia causar sintom as sim ilares aos que está sentindo. Outras coisas. Mas não se preocupe com isso, porque tenho plena certeza de que vam os bater no vazio. O m ais provável é que seu problem a sej a apenas estresse.

— Foi o que Paige disse.

— Está vendo? Você poderia ter econom izado m inha consulta.

— Doc, sej a franco com igo.

— Estou sendo franco.

— Não m e im porta dizer que isso m e assusta.

Guthridge acenou com a cabeça num gesto de sim patia.

— Claro que sim . Mas, ouça, j á vi sintom as m uito m ais estranhos e graves que os seus... e acabou sendo estresse.

— Psicológico.

— É, m as nada a longo prazo. Você não vai ficar m aluco, se é o que o preocupa. Tente relaxar, Marty. No fim de sem ana vam os saber onde estam os — quando era preciso, Guthridge podia assum ir um com portam ento tão tranquilizador — e um a conduta delicada tão calm ante — quanto o de um a em inência m édica de cabelos grisalhos, de terno e colete. Ele tirou a cam isa de Marty de um cabide atrás de porta e entregou-a a ele. O leve brilho em seus olhos revelavam outra m udança de hum or. — Pois bem , quando eu for reservar hora no hospital, que nom e de paciente devo dar a eles? Martin Stillwater ou Martin Assassino?

2.

Ele explora seu lar. Está ansioso para conhecer sua nova fam ília.

Com o está m ais intrigado com a ideia de ser pai, com eça pelo quarto das m eninas. Durante algum tem po, apenas fica parado do lado de dentro, exam inando os dois lados bastante diferentes do aposento.

Ele se pergunta qual de suas j ovens filhas é a anim ada que decora as paredes com posters de deslum brantes balões coloridos de ar quente e dançarinos saltitantes, que m antém um gerbo e outros anim ais de estim ação em gaiolas de aram e e viveiros de vidro. Ainda está segurando a foto de sua m ulher e filhas, m as os rostos sorridentes nada revelam sobre suas personalidades.

Ao que parece, a segunda filha é contem plativa, preferindo paisagens tranquilas nas paredes. A cam a está arrum ada, os travesseiros só j ogados. Os livros de história estão organizados nas prateleiras e a escrivaninha do canto não está bagunçada.

Quando abre a porta do arm ário com espelho, descobre um a divisão parecida nas roupas penduradas. As roupas à esquerda estão arrum adas de acordo com o tipo e a cor. As da direita não têm nenhum a ordem especial; estão viradas nos cabides e am ontoadas um as sobre as outras de um a m aneira tal que certam ente ficarão am assadas.

Com o os jeans e vestidos m enores estão no lado esquerdo do arm ário ele pode ter certeza de que a m enina arrum ada e contem plativa é a m ais nova das duas. Ele levanta a foto e olha fixo para ela. A fada. Tão engraçadinha. Ele ainda não sabe se ela é Charlotte ou Em ily.

Ele vai até a escrivaninha no lado da filha m ais velha e fita a desordem : revistas, livros escolares, um a fita am arela e um pregador de cabelo, alguns bastões espalhados de chiclete Black Jack, lápis de cor, um em aranhado par de m eias com pridas cor-de-rosa, um a lata vazia de Coca, m oedas e um Gam e Boy.

Ele abre um dos livros didáticos, depois outro. Am bos têm o m esm o nom e escrito na frente: Charlotte Stillwater.

A m ais velha e m enos disciplinada é Charlotte. A m ais nova que m antém seus pertences arrum ados é Em ily.

Ele olha de novo para os rostos na fotografia.

Charlotte é bonita e seu sorriso é doce. Entretanto, se vai haver encrenca com algum a das m eninas, será com essa.

Ele não vai tolerar desordem em sua casa. Tudo precisa ser perfeito. Arrum ado e lim po e feliz.

Em solitários quartos de hotéis em cidades estranhas, desperto na escuridão, ele sofrera com a necessidade sem com preender o que poderia satisfazer sua ânsia. Agora sabe que ser Martin Stillwater — pai daquelas m eninas, m arido de sua m ulher — é o destino que preencherá o terrível vazio e enfim lhe dará contentam ento. Ele está agradecido ao poder que o trouxe até ali, e está determ inado a cum prir suas responsabilidades para com sua esposa, suas filhas e a sociedade. Quer um a fam ília ideal com o as que viu em certos film es prediletos, desej a ser terno com o Jim m y Stewart em A Felicidade Não se Compra e sábio com o Gregory Peck em To Kill a Mockingbird e respeitado com o os dois, e fará o que for preciso para garantir um lar encantador, harm onioso e ordeiro.

Ele tam bém assistiu a The Bad Seed e sabe que algum as crianças podem destruir um lar e toda a esperança de harm onia, perturbadas com o potencial para o m al. Os hábitos relaxados de Charlotte e a estranha coleção de anim ais indicam a sua propensão à desobediência e talvez à violência.

Quando cobras aparecem em film es, são sempre sím bolos de m aldade, perigosas para os inocentes; portanto a cobra no viveiro é prova segura da perversão da m enina e de sua necessidade de ter orientação. Ela tam bém tem outros répteis, um par de roedores e um feio besouro preto num vaso de vidro — sendo que os film es lhe ensinaram que todos eles devem ser associados aos poderes das trevas.

Ele exam ina de novo a foto, m aravilhando-se com a aparência inocente de Charlotte.

Mas lem bra-se da m enina em The Bad Seed. Ela parecia ser um anj o; no entanto, era com pletam ente m á.

Ser Martin Stillwater podia não ser tão fácil quanto ele tinha pensado. Charlotte podia ser bastante difícil.

Por sorte, ele havia visto Lean on Me, no qual Morgan Freem an é diretor de um a escola secundária que im põe ordem num estabelecim ento dom inado pela anarquia, e The Principal, com Jim Belushi, por isso sabe que m esm o os garotos m aus querem , de fato, disciplina. Eles responderão de m aneira adequada, se os adultos tiverem a coragem de insistir nas regras do com portam ento.

Se Charlotte for desobediente e teim osa, ele a punirá até ela aprender a ser um a boa m enininha. Não fracassará com ela. No com eço, ela vai odiá-lo por negar seus privilégios, por confiná-la no quarto, por m achucá-la se for necessário, m as com o tem po ela verá que ele nutre o m elhor dos interesses em seu coração e aprenderá a am á-lo e com preenderá que ele é sábio.

De fato, ele consegue visualizar o m om ento triunfante em que, depois de m uita luta, a reabilitação dela fica assegurada. A certeza de que estava errada e de que ele tem sido um bom pai culm inará num a cena com ovente. Os dois vão chorar. Ela se j ogará em seus braços, cheia de rem orsos e vergonha. Ele a abraçará com força e dirá que está tudo bem , tudo bem , não chore. E ela dirá “oh, papai” com voz trêm ula e se agarrará com força nele; depois tudo ficará bem entre eles.

Ele anseia por esse doce triunfo. Até consegue ouvir a m úsica sublim e e em ocionante que acom panhará a cena.

Ele se afasta do lado de Charlotte e vai para a cam a arrum ada da filha m ais nova.

Em ily. A fada. Ela j am ais dará problem a algum para ele. Ela é a boa filha.

Ele a segurará no colo e lerá os livros de história. Ele a levará ao zoológico, e a pequenina m ão dela ficará perdida na sua. Ele com prará pipocas nos film es, e os dois ficarão sentados lado a lado na escuridão, rindo do últim o desenho anim ado de Disney.

Os enorm es olhos escuros dela vão adorá-lo.

Doce Em ily. Querida Em ily.

Ele puxa a colcha de chenille num gesto quase reverente. O lençol. O lençol de cim a. Olha para o lençol de baixo no qual ela dorm iu na noite anterior, e os travesseiros nos quais repousou sua delicada cabeça.

Seu coração cresce de afeição, ternura.

Ele coloca um a das m ãos no lençol, desliza para cim a e para baixo, de um lado para o outro, sentindo o tecido no qual seu corpo j ovem esteve deitado há tão pouco tem po atrás.

Ele vai cobri-la na cam a todas as noites. Ela pressionará sua boca pequena em seu rosto, beij inhos tão doces e quentes, e seu hálito terá o doce arom a de hortelã da pasta de dentes.

Ele se reclina para cheirar os lençóis.

— Em ily — diz em voz baixa.

Oh, com o anseia ser seu pai e olhar naqueles olhos escuros porém lím pidos, aqueles olhos grandes e adoráveis.

Com um suspiro, ele volta para o lado do quarto de Charlotte. Deixa cair a foto com m oldura prateada da fam ília em cim a da cam a, e exam ina as criaturas m antidas em prateleiras sem livros.

Algum as das coisas selvagens o observam .

Ele com eça com o gerbo. Quando abre a porta e enfia a m ão dentro da gaiola, a tím ida criatura se protege num canto distante, paralisada de m edo, percebendo a intenção dele. Ele pega o anim al, retira-o da gaveta. Em bora o gerbo tente libertar-se contorcendo-se, ele segura seu corpo com firm eza na m ão direita, a cabeça na m ão esquerda, e puxa com força, quebrando o seu pescoço. Um som fraco, seco. O grito é penetrante, m as breve.

Ele atira o gerbo m orto na colcha de cores vivas.

Esse vai ser o com eço da disciplina de Charlotte.

Ela vai odiá-lo por isso. Mas só por algum tem po.

Logo ela perceberá que aqueles não são anim ais apropriados para um a m enininha. Sím bolos do m al. Répteis, roedores, besouros. O tipo de criaturas que as bruxas usam com o am igas para se com unicar com Satã.

Ele aprendeu tudo sobre os anim ais dom esticados das bruxas nos film es de terror. Se houver um gato na casa, ele tam bém o m atará sem hesitar, porque às vezes eles são engraçados e inocentes, com o gatos e nada m ais, m as às vezes são a própria cria do inferno. Ao convidar essas criaturas para sua casa, você se arrisca a estar convidando o próprio diabo.

Um dia Charlotte entenderá. E será grata a ele.

Um dia ela o am ará.

Todos o am arão.

Ele será um bom m arido e pai.

Muito m enor que o gerbo, o assustado cam undongo trem e em seu punho, com o rabo pendendo abaixo de seus dedos fechados, apenas com a cabeça de fora. O anim al esvazia sua bexiga. Ele faz um a careta por causa da um idade quente e, com aversão, aperta com toda força, esm agando a pequena besta im unda.

Ele j oga o anim al ao lado do gerbo m orto na cam a.

A inofensiva cobra de j ardim no viveiro, de vidro não faz nenhum esforço para se esquivar dele. Ele a segura pela cauda e bate com o se ela fosse um chicote, bate outra vez, depois a chicoteia com força contra a parede, outra vez e um a terceira vez. Quando a balança diante do rosto, a cobra está totalm ente flácida e seu crânio esm agado.

Ele a enrola ao lado do gerbo e do cam undongo.

O besouro e a tartaruga fazem um gostoso barulho de esm igalham ento quando ele os esm aga sob o salto do sapato. Ele arrum a os restos gotej antes sobre a colcha.

Só o lagarto consegue escapar. Quando ele tira a porta do viveiro e estende a m ão na direção do anim al, o cam aleão corre sobre seu braço, m ais rápido do que o olho, e salta de seu om bro. Ele gira à procura do bicho, descobrindo-o sobre o toucador próxim o, onde ele desliza entre um a escova de cabelo e um pente e entra num a caixa de j oias. Fica paralisado e com eça a m udar de cor para igualar-se ao am biente, m as quando ele tenta apanhá-lo, o anim al se afasta em disparada, sai do toucador, vai para o chão, atravessa o quarto, passa por baixo da cam a de Em ily e desaparece de vista.

Ele decide deixar o anim al de lado.

Talvez sej a m elhor assim . Quando Paige e as m eninas chegarem em casa, os quatro vão procurá-lo j untos. Quando o encontrarem , ele o m atará na frente de Charlotte, ou talvez peça para que ela o m ate. Pode ser um a boa lição. Depois disso, ela não levará m ais anim ais de estim ação im próprios para a casa Stillwater.

3.

No estacionam ento do lado de fora do com plexo com ercial de estilo espanhol de três andares onde o Dr. Guthridge m antém seu consultório, enquanto um vento tem pestuoso fustiga folhas m ortas pelo pavim ento, Marty estava sentado em seu carro lendo o artigo da People. Duas fotos e o texto espalhavam -se em três páginas da revista. Pelo m enos nos poucos m inutos que ele levou para ler a m atéria, todas as outras preocupações foram esquecidas.

Em bora ele j á o conhecesse, o título em letras pretas levou-o a encolher-se — SR. ASSASSINO —, m as o subtítulo em letras m enores deixou-o em baraçado: NO SUL DA CALIFÓRNIA, O ROMANCISTA DE MISTÉRIO MARTIN STILLWATER VÊ TREVAS ONDE OUTROS SÓ VÊEM LUZ DO SOL.

Ele sentiu que isso o retratava com o um pessim ista sorum bático, que se vestia todo de preto e ficava à espreita nas praias e entre as palm eiras, olhando furioso para as pessoas que se atreviam a se divertir, com entando tediosam ente a torpeza inerente à espécie hum ana. Na m elhor das hipóteses, deduzia-se que ele era um im postor teatral, que ostentava o que pensava ser a im agem m ais com ercial para um rom ancista de m istério.

Talvez ele estivesse tendo um a reação exagerada. Paige diria que ele era sensível dem ais com essas coisas. Era o que ela sem pre dizia e, em geral, o fazia sentir-se m elhor, pudesse ele acreditar ou não.

Martin exam inou as fotos antes de ler a m atéria.

Na prim eira foto, a m aior, ele estava no pátio atrás da casa contra o pano de fundo de árvores e o céu crepuscular. Tinha um a aparência de dem ente.

O fotógrafo, Ben Walenko, recebera instruções para induzir Martin a fazer um a pose que se j ulgava adequada para um rom ancista de m istério, de m odo que chegara com adereços que supunha que Martin brandiria com expressões im pregnadas de intenção m alévola: um m achado, um a enorm e faca, um picador de gelo e um revólver. Com o Martin recusou-se educadam ente a usar os adereços, e tam bém a vestir um a capa com a gola virada para cim a com um chapéu “diplom ata” caído na testa, o fotógrafo concordou que era ridículo um adulto brincar de disfarce e sugeriu que evitassem os lugares-com uns habituais em favor de fotos que o m ostrassem com o um sim ples escritor e um ser hum ano com um .

Agora ficou óbvio que Walenko fora esperto o bastante para conseguir o que queria sem os adereços, após enganar seu obj eto e dar-lhe um a falsa sensação de segurança. O pátio dos fundos parecera um cenário inócuo. Entretanto, por m eio de um a com binação de som bras profundas de árvores som brias e escuras, nuvens agourentas ilum inadas por trás pela derradeira luz do dia, a colocação estratégica de luzes de estúdio e um extrem o ângulo de câm ara, o fotógrafo conseguiu fazer Marty parecer esquisito. Além disso, das vinte fotos feitas no pátio dos fundos, os editores tinham escolhido a pior: Marty tinha os olhos m eio fechados, as feições deform adas, as luzes do fotógrafo se refletindo em olhos sem icerrados que pareciam brilhar com o os olhos de um zum bi.

A segunda foto foi tirada em seu gabinete. Martin estava sentado na escrivaninha de frente para a câm era. Ele estava reconhecível nessa foto, em bora agora preferisse não reconhecer-se, pois parecia que a única m aneira de ele poder m anter um fio de dignidade era fazer com que sua verdadeira aparência perm anecesse um m istério; um a com binação de som bras e a luz peculiar do abaj ur com vitral, m esm o num a foto em preto-e-branco, fizeram -no assem elhar-se a cigano adivinho que vislum brara um presságio de desgraça em sua bola de cristal.

Ele estava convencido de que um a grande quantidade dos problem as do m undo m oderno podia ser atribuída à saturação da sociedade pelos m eios de com unicação e à sua tendência a não apenas sim plificar toda as questões ao ponto do absurdo, m as tam bém a confundir ficção e realidade. Os noticiários das televisões enfatizavam a extensão dram ática em detrim ento dos fatos, o sensacionalism o em detrim ento da substância, procurando índices de audiência com as m esm as ferram entas em pregadas pelos produtores dos film es policiais do horário nobre e dos dram as dos tribunais. Os docum entários sobre figuras históricas reais se tornaram “docudram as”, nos quais detalhes exatos de vidas e acontecim entos fam osos sem pre eram subordinados aos valores do entretenim ento ou m esm o às fantasias pessoais dos criadores do espetáculo, causando grandes distorções no passado. Medicam entos eram vendidos em com erciais de tevê por atores, que tam bém atuavam com o m édicos em program as de grande audiência, com o se de fato se tivessem form ado na Faculdade de Medicina de Harvard, em vez de apenas terem frequentado um ou dois cursos de interpretação. Políticos faziam aparições em episódios de com édias. Atores dessas m esm as com édias apareciam em com ícios políticos. Não fazia m uito tem po que um vice-presidente dos Estados Unidos tivera um a discussão prolongada com um repórter ficcional da televisão de um program a de com édia. O público confundia atores e políticos com os papéis que eles interpretavam . Supunha-se que um escritor de m istério não fosse apenas parecido com um personagem de um de seus livros, m as sim com o arquétipo caricato do personagem m ais com um de todo o gênero. Ano problem ático após ano problem ático, cada vez m enos pessoas eram capazes de pensar com clareza sobre questões im portantes, ou separar a fantasia da realidade.

Marty estava determ inado a não contribuir com essa doença, m as foi ludibriado. Agora fora fixado na m ente do público com o Martin Stillwater, autor arrepiante e m isterioso de arrepiantes m istérios de assassinato, preocupado com o lado som brio da vida, era tão estranho e taciturno quanto qualquer um dos personagens sobre os quais escrevia.

Mais cedo ou m ais tarde, um cidadão perturbado, tendo confundido a m anipulação de Martin de pessoas ficcionais em rom ances com a m anipulação de pessoas de verdade na vida real, chegaria em sua casa num a cam inhonete antiga decorada com cartazes que o acusavam de haver m atado John Lennon, John Kennedy, Rick Nelson e só-Deus-sabe-quem -m ais, m uito em bora ele fosse criança quando Lee Harvey Oswald apertou o gatilho contra Kennedy (ou quando 17.031 conspiradores hom ossexuais apertaram o gatilho, se você acreditou no film e de Oliver Stone). Algo parecido aconteceu com Stephen King, não? E com certeza Salm an Rushdie experim entou alguns anos de tanto suspense quanto qualquer um suportado por um personagem num a extravagância de Robert Ludlum .

Mortificado pela im agem bizarra que a revista dera a ele, corado de em baraço, Marty inspecionou o estacionam ento para assegurar-se de que ninguém o observava enquanto lia o artigo. Algum as pessoas entravam e saíam de seus carros, m as não prestavam nenhum a atenção a ele.

Nuvens apareceram no dia que até então estava ensolarado. O vento girava folhas m ortas num tufão em m iniatura, que dançava na vastidão do pavim ento vazio.

Ele leu o artigo, pontuando-o com suspiros e resm ungos. Em bora contivesse alguns erros pequenos, o texto em geral era fatual, m as seu conteúdo com parava-se com as fotos. O velho e fantasm agórico Martin Stillwater. Que suj eito sorum bático e acabrunhado. Vê o arreganhar de dentes m alvado de um crim inoso por trás de cada sorriso. Trabalha num gabinete com luz fraca, quase escuro, e diz que está tentando dim inuir o brilho da tela do com putador (pisca, pisca).

Sua recusa em perm itir que Charlotte e Em ily fossem fotografadas, baseada no desej o de proteger a privacidade delas e não deixar que fossem im portunadas por colegas de escola, foi interpretada com o m edo de sequestradores à espreita atrás de cada arbusto. Afinal de contas, há alguns anos atrás, ele escrevera um livro sobre um sequestro.

Paige, “tão bela e inteligente quanto um a heroína de Martin Stillwater”, era descrita com o “psicóloga cuj o trabalho exige que ela sonde os segredos m ais som brios de seus pacientes”, com o se estivesse envolvida não no aconselham ento de crianças perturbadas com o divórcio dos pais, ou a m orte de um ente querido, m as sim na profunda análise dos assassinos em série m ais selvagens de toda a era.

— Velha e fantasm agórica Paige Stillwater — disse em voz alta. — Bem , por que outro m otivo se teria casado com igo se j á não fosse um pouco esquisita?

Ele disse para si m esm o que estava tendo um a reação exagerada.

Depois de fechar a revista, ele disse:

— Graças a Deus não deixei as m eninas participarem . Teriam saído nessa m atéria parecendo as crianças da “Fam ília Addam s”.

Mais um a vez tentou se convencer de que estava tendo um a reação exagerada, m as seu hum or não m elhorou. Ele sentia-se violentado, trivializado; e o fato de estar falando sozinho em voz alta parecia, de m aneira perturbadora, validar sua nova reputação nacional com o excêntrico divertido.

Martin girou a chave na ignição, ligou o m otor.

Ao atravessar o estacionam ento em direção à rua m ovim entada, ele estava preocupado com a sensação de que sua vida sofrera m ais do que um a virada tem porária para pior com a fuga do dom ingo, que o artigo da revista era um outro sinal de sua nova rota som bria, e que ele viaj aria um a longa distância em pavim ento rude antes de redescobrir a suave estrada que havia perdido.

Um redem oinho de folhas chocou-se contra o carro, assustando-o. A folhagem seca raspou o capô e o teto, com o as garras de um a besta determ inada a entrar no veículo.

4.

Ele é possuído pela fom e. Não dorm ia desde a noite de sexta-feira, viaj ara m etade do país em alta velocidade, geralm ente debaixo de tem po ruim , e vivenciara um a hora e m eia em ocionante e excitante na casa dos Stillwater, confrontando-se com seu destino. Seu estoque de energia está esgotado. Ele está trêm ulo e com os j oelhos fracos.

Na cozinha, assalta a geladeira e em pilha com ida na m esa de carvalho. Consom e várias fatias de queij o suíço, m eia fatia de pão, alguns picles, a m elhor parte de um pedaço de bacon, m isturando tudo isso sem se dar ao trabalho de fazer sanduíches, um bocado disso e um bocado daquilo, m astigando o bacon cru para não perder tem po cozinhando, com endo rápido e com fixação decidida no banquete, voraz, esquecido das boas m aneiras, engolindo tudo depressa com enorm es goles de cervej a gelada que espum a em seu queixo. Há tanta coisa que ele desej a fazer antes que a m ulher e as filhas voltem para casa, e ele nem sabe direito a que horas deve esperá-las. A carne gordurosa é enj oativa, por isso de vez em quando ele a m ergulha no pote de m aionese, pescando grossos tufos, chupando os dedos para lubrificar um bocado de com ida que acha difícil de engolir, m esm o com a aj uda de outra garrafa de Corona. Term ina a refeição com duas grossas fatias de bolo de chocolate, tam bém deglutidas com aj uda da cervej a. Depois, às pressas, lim pa a bagunça com toalhas de papel e lava as m ãos na pia.

Está revitalizado.

Com a fotografia de m oldura prateada na m ão, ele retorna ao segundo andar, subindo dois degraus de cada vez. Dirige-se ao quarto dos donos da casa, onde acende as duas lâm padas das m esinhas-de-cabeceira.

Durante algum tem po, olha fixo para a cam a gigante, excitado com a perspectiva de fazer sexo com Paige. Fazer am or. Quando sexo é feito com alguém que realm ente tenha im portância, ele é cham ado de “fazer am or”.

Ele se im porta de fato com ela.

Ele tem que se im portar.

Afinal de contas, ela é sua esposa.

Ele sabe que o rosto dela é bom , excelente, com a boca carnuda e bela estrutura de ossos e olhos sorridentes, m as pela foto não pode falar m uito do corpo. Im agina que seus seios sej am fartos, sem barriga, pernas longas e bem m odeladas, e está ansioso para deitar com ela, entrar fundo nela.

Abre gavetas do toucador até encontrar a lingerie dela. Acaricia um a m eia-taça, os gom os suaves de um sutiã, um a cam isola com laço. Retira um par de calcinhas de seda da gaveta e esfrega seu rosto nelas, respirando fundo enquanto sussurra seu nom e várias vezes.

Fazer am or vai ser inim aginavelm ente diferente do sexo suado que ele conheceu com as vadias rebocadas em bares, experiências que sem pre o levaram a sentir-se vazio, alienado, frustrado com sua necessidade desesperada de intim idade verdadeira nunca saciada. A frustração alim enta a raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e a violência às vezes alivia. Mas esse padrão não se repetirá quando ele fizer am or com Paige, pois ele pertence aos braços dela com o nunca pertenceu a outros. Com ela, sua necessidade será satisfeita tanto quanto seu desej o. Juntos, eles atingirão um a união além de qualquer coisa que ele possa im aginar, um a unidade perfeita, felicidade, consum ação espiritual e física, todas essas coisas que ele viu em inúm eros film es, corpos banhados em luz dourada, êxtase, um a ardente intensidade de prazer possível apenas na presença do am or. Depois, ele não terá que m atá-la porque então eles serão um , dois corações batendo em harm onia, sem nenhum a razão para m atar, transcendência, todas as necessidades gloriosam ente satisfeitas.

A perspectiva do rom ance quase o deixa ofegante.

— Eu a farei m uito feliz, Paige — prom ete para a foto dela.

Percebendo que ainda não tom ara banho desde o sábado, querendo estar lim po para ela, devolve as calcinhas de seda à pilha de onde as retirara, fecha a gaveta do toucador e vai ao banheiro para tom ar um banho de chuveiro.

Tira as roupas que pegou no arm ário do motorhome de Jack, o aposentado de cabelo grisalho, no dom ingo em Oklahom a, há m enos de 24 horas atrás. Após form ar um a bola com pacta com cada peça do vestuário, ele as enfia num cesto de m etal.

O box do chuveiro é espaçoso e a água está m aravilhosam ente quente. Ele faz bastante espum a com o sabonete e logo depois as nuvens de vapor estão carregadas com um arom a de flores quase intoxicante.

Após secar-se com um a toalha am arela, ele revista as gavetas do banheiro até encontrar seus artigos de toucador. Usa um desodorante roll-on e depois penteia o cabelo m olhado reto para trás, a fim de deixá-lo secar de m aneira natural. Faz a barba com um aparelho elétrico, borrifa um pouco de colônia com cheiro de lim a, e escova os dentes.

Sente-se um hom em novo.

Na sua parte do arm ário em butido, escolhe um a cueca de algodão, jeans, um a cam isa de flanela com padrão azul e preto, m eias e um par de Nikes. Tudo se aj usta à perfeição.

É tão gostoso estar em casa.

5.

Paige estava j unto a um a das j anelas observando as nuvens cinzentas virem rolando do oeste, im pelidas por um vento do Pacífico. Quando chegaram , a terra debaixo delas escureceu e os prédios banhados pelo sol vestiram m antos de som bras.

O aposento interno de seu apartam ento de três quartos no sexto andar tinha dois enorm es painéis de vidro, que proporcionavam um a vista não inspiradora para um a estrada, um shopping center e os telhados com prim idos j untos da área residencial, que atravessava o condado de Orange aparentem ente até o infinito. Ela gostaria de ter um a vista panorâm ica para o oceano ou um a j anela aberta para um pátio cheio de plantas, m as isso significaria um aluguel m ais alto, coisa que estava fora de questão nos prim eiros anos da carreira de escritor de Marty, quando ela fora a principal m antenedora da casa.

Agora, apesar do sucesso crescente de Marty e da renda im pressionante, ainda era im prudente forçar-se a ter um aluguel m ais caro num a locação nova. Mesm o um a carreira literária próspera era um m eio de vida inseguro. Quando adoecia, o dono de um a loj a de produtos frescos tinha em pregados que continuavam vendendo laranj as e m açãs em sua ausência, m as se Marty ficasse doente, todo o em preendim ento pararia no ato.

E Marty estava doente. Talvez um a doença grave.

Não, ela não iria pensar nisso. Eles não tinham certeza de nada. Isso era com a velha Paige, a Paige antes de Marty, preocupar-se com m eras possibilidades e não com o que j á era fato.

Desfrute o m om ento, Marty lhe diria. Ele era um terapeuta nato. Às vezes, Paige pensava que havia aprendido m ais com ele do que com os cursos que fizera para term inar o doutorado em psicologia.

Desfrute o momento.

Na verdade, a constante azáfam a da cena do outro lado da j anela era revigorante. E enquanto no passado ela fora tão predisposta à depressão porque o m au tem po podia ter um efeito negativo em seu hum or, todos aqueles anos com Marty e seu bom hum or em geral inabalável lhe tornaram possível perceber a beleza som bria de um a tem pestade que se aproxim ava.

Ela nascera e crescera num lar sem am or, tão frio e som brio com o um a caverna do Ártico. Mas esse tem po ficara para trás, e o efeito dele dim inuíra há m uito tem po.

Desfrute o m om ento.

Ao exam inar o relógio de pulso, ela fechou as cortinas porque o estado de espírito de seus dois pacientes seguintes com certeza não era im une à influência do dia cinzento.

Quando as j anelas foram cobertas, o lugar ficou tão aconchegante quanto qualquer sala de visitas de um a casa. Sua escrivaninha, livros e arquivos ficavam no terceiro consultório, que raras vezes era visto por aqueles a quem ela dava consulta. Ela sem pre se reunia com eles nessa sala m ais acolhedora. O sofá com padrão de flores e a grande quantidade de alm ofadas j ogadas em prestavam um grande charm e ao am biente, e as três poltronas com estofado felpudo eram bastante côm odas para perm itir que os pacientes j ovens se enrascassem no assento com as pernas enfiadas debaixo do corpo, se desej assem . Abaj ures verde-acinzentados com cúpulas de seda franj adas em itiam um a luz cálida, que brilhava em bibelôs nas m esas e no esm alte das estatuetas da porcelana de Lladro no aparador de m ogno.

Em geral, Paige oferecia chocolate quente e bolinhos, ou biscoitos crocantes com um copo de Coca gelada, e a conversa fluía porque o efeito global era com o estar na casa da vovó. Pelo m enos, era assim a casa da vovó nos tem pos em que nenhum a avó se subm etia a um a cirurgia plástica, ou se rem odelava com um a lipoaspiração, ou se divorciava do vovô e frequentava turnês de solteiros no Cabo San Lucas, ou voava com o nam orado para passar o fim de sem ana em Vegas.

A m aioria dos pacientes, em sua prim eira visita, ficava atônita ao não encontrar a coleção de obras de Freud, um divã de terapia e a atm osfera extrem am ente solene do consultório de um psiquiatra. Mesm o quando ela os lem brava de que não era psiquiatra, de que não era m édica, em absoluto, m as sim um a conselheira com diplom a de psicologia que via “clientes” e não “pacientes”, pessoas com problem as de com unicação em vez de neuroses ou psicoses, eles perm aneciam confusos durante a prim eira m eia-hora m ais ou m enos. A certa altura, a sala — e, ela gostava de acreditar, sua abordagem relaxada — os conquistava.

A consulta das 14:00 de Paige, a últim a do dia, era com Sam antha Acheson e Sean, seu filho de oito anos. O prim eiro m arido de Sam antha, o pai de Sean, m orrera pouco depois do quinto aniversário do m enino. Sam antha casou de novo dois anos e m eio depois, e os problem as com portam entais de Sean com eçaram virtualm ente no dia do casam ento, resultado óbvio de sua convicção errônea de que ela traíra o pai m orto e um dia tam bém poderia traí-lo. Durante cinco m eses, Paige se encontrou duas vezes por sem ana com o m enino, ganhando sua confiança, abrindo canais de com unicação, de m odo que eles pudessem discutir a dor, o m edo e a raiva — sentim entos que ele não era capaz de dividir com a m ãe. Hoj e, Sam antha iria participar da sessão pela prim eira vez, o que era um passo im portante porque, em geral, o progresso era rápido depois que a criança ficava pronta para dizer aos pais aquilo que tinha dito à conselheira.

Paige sentou-se na poltrona que reservava para si e estendeu a m ão em direção à m esa para pegar um a im itação de um antigo aparelho de telefone que, além de ligar para fora, funcionava com o um intercom unicador ligado à sala de recepção. Ela tencionava pedir a Millie, sua secretária, que m andasse entrar Sam antha e Sean Acheson, m as o intercom unicador zum biu antes que ela levantasse o fone do gancho.

— Marty na linha um , Paige.

— Obrigada, Millie — pressionou a linha um . — Marty ?

Ele não respondeu.

— Marty, é você? — perguntou, procurando ver se havia apertado o botão certo.

A linha um estava acesa, m as só havia silêncio nela.

— Marty ?

— Gosto do som de sua voz, Paige. Tão m elódico.

Ele falava... estranho.

O coração dela com eçou a bater contra as costelas e Paige esforçou-se para reprim ir o m edo que crescia dentro dela.

— O que o m édico disse?

— Gosto de sua foto.

— Minha foto? — disse, desconcertada.

— Gosto de seu cabelo, de seus olhos.

— Marty, eu não...

— Você é o que eu preciso.

A boca de Paige tinha ficado seca.

— Tem algum a coisa errada?

De repente, ele falou m uito rápido, engatando um a frase na outra.

— Quero beij ar você, Paige, beij ar seus seios, estreitá-la contra m im , fazer am or com você, quero fazê-la m uito feliz, quero estar dentro de você, vai ser com o nos film es, felicidade.

— Marty, querido, o que...

Ele desligou, interrom pendo-a.

Tão surpresa e confusa quanto preocupada, Paige prestou atenção ao ruído de discar antes de devolver o fone ao gancho.

Que droga.

Eram duas horas e ela duvidava que sua consulta com Guthridge houvesse durado um a hora. Portanto, ele não ligara do consultório do m édico. Por outro lado, ele não teria tido tem po para rodar todo o traj eto até em casa, o que significava que ele havia telefonado em trânsito.

Continuar: parte 2 de 3