Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 2 de 9 · parte 1/4

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Sr. Assassino

Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

1.

— Eu preciso...

Recostado em sua confortável cadeira de escritório, de couro, balançando suavem ente, segurando um gravador na m ão direita e ditando um a carta para seu editor em Nova York, Martin Stillwater percebeu, de repente, que estava repetindo as m esm as duas palavras em um sussurro sonhador.

— ... eu preciso... eu preciso... eu preciso...

Marty desligou o gravador, franzindo as sobrancelhas.

Sua sequência de pensam entos m oveu-se para um desvio e parou de súbito. Ele não conseguiu recordar-se do que estivera prestes a dizer.

Precisava de quê?

A enorm e casa não estava apenas quieta, m as tam bém lugubrem ente silenciosa. Paige havia levado as crianças para alm oçar e para assistir a m atinê de cinem a de sábado.

Mas aquele silêncio sem crianças era m ais do que apenas um a condição. Tinha substância. O ar se solidarizava pesado com ele.

Ele colocou a m ão na nuca. A palm a estava fria e úm ida. Ele trem ia.

Lá fora, o dia outonal estava tão silencioso quanto a casa, com o se todo o sul da Califórnia tivesse sido evacuado. Na única j anela de seu gabinete do segundo andar, as largas folhas da persiana da fazenda estavam entreabertas. A luz do sol entrava inclinada entre tábuas angulosas, im prim indo no sofá e no tapete estreitas listras verm elhas e douradas tão lustrosas quanto pele de raposa; a faixa lum inosa m ais próxim a envolvia um dos cantos da escrivaninha em form a de U.

— Eu preciso...

O instinto lhe disse que algo im portante havia acontecido apenas um m om ento atrás, fora de sua visão, percebido de m aneira sublim inar.

Ele girou a cadeira e exam inou o aposento atrás dele. Fora as faixas acobreadas de luz do sol entrefolhadas de som bras das persianas, a única luz vinha de um a pequena lum inária com quebra-luz de vitral. Entretanto, m esm o nessa obscuridade, ele pôde ver que estava sozinho com seus livros, arquivos de pesquisa e o com putador.

Talvez o silêncio parecesse artificialm ente profundo apenas porque a casa havia estado cheia de barulho e alvoroço desde a quarta-feira, quando as escolas fecharam para o feriado do Dia de Ação de Graças. Ele sentia falta das crianças. Devia ter ido ao cinem a com elas.

— Eu preciso...

As palavras foram ditas com tensão peculiar — e ânsia.

Agora, um sentim ento agourento dom inou-o, um forte senso de perigo im inente. Era o m edo prem onitório que às vezes os personagens sentiam em seus rom ances e que ele sem pre se esforçara para descrever sem lançar m ão de lugares-com uns.

Na verdade, havia anos que ele não experim entara algo parecido, não desde que Charlotte tivera um a doença séria quando estava com quatro anos e o m édico preparou-os para a possibilidade de câncer. O dia inteiro no hospital, enquanto sua m enininha era transportada de um laboratório para outro, para fazer testes, toda aquela noite sem sono e durante os longos dias que se seguiram antes que os m édicos se arriscassem a dar um diagnóstico Marty sentiu-se perseguido por um espírito m alévolo, cuj a presença engrossava o ar, tornando difícil respirar, m over-se, ter esperança. Com o se verificou, sua filha não havia sido am eaçada nem por um a m aldade sobrenatural nem por algum a m alignidade. O problem a era um a tratável doença do sangue. Charlotte recuperou-se em três m eses.

Mas ele se lem brava bem dem ais daquele m edo opressivo.

Estava de novo naquele aperto gelado, em bora por nenhum a razão discernível. Charlotte e Em ily eram crianças saudáveis e bem aj ustadas. Ele e Paige eram felizes j untos — um a felicidade absurda, considerando-se a quantidade de casais de trinta e poucos que ele conhecia que estava divorciada, separada ou que se enganava. Em term os financeiros, tinham m ais segurança do que haviam esperado.

Não obstante, Marty sabia que algum a coisa estava errada.

Ele arriou o gravador, foi até a j anela e abriu toda a persiana. Um sicôm oro sem folhas lançava som bras fortes e alongadas no pequeno pátio lateral. Além daqueles galhos retorcidos, as paredes de estuco am arelo-claro da casa vizinha pareciam ter absorvido a luz do sol; reflexos dourados e cor-de-ferrugem pintavam as j anelas; o lugar estava silencioso, parecia sereno.

Ele podia ver à direita um a seção da rua. As casas do outro lado da quadra tam bém eram de estilo m editerrâneo, estuque com telhados de telha de argila, douradas pelo sol do fim da tarde, ornam entadas por copas de palm eira real pendentes. Quieta, com boa paisagem , planej ada em centím etro quadrado, a vizinhança — e, de fato, toda a cidade de Mission Viej o — parecia ser um paraíso no caos que reinava em grande parte do resto do m undo naqueles dias.

Ele fechou a persiana, bloqueando o sol por com pleto.

Aparentem ente, o único perigo estava em sua m ente, um a ficção da m esm a im aginação ativa que o tornou, pelo m enos, um escritor de rom ance de m istério, de razoável sucesso.

No entanto, seu coração batia m ais rápido que nunca.

Marty cam inhou para fora do gabinete e saiu no hall do segundo andar, chegando ao topo da escada. Ficou tão parado quanto o pilar do corrim ão no qual pousou a m ão.

Não sabia ao certo o que esperava ouvir. O suave rangido de um a porta, passos furtivos? Os sussurros dissim ulados, cliques e baques abafados de um invasor que avançava devagar pela casa?

Aos poucos, com o não ouviu nada suspeito e seu coração em disparada se acalm ou, sua sensação de desgraça im inente se dissipou. A ansiedade tornou-se m era inquietação.

— Quem está aí? — perguntou apenas para rom per o silêncio.

O som de sua voz cheia de perplexidade dispersou o ânim o agourento. Agora a quietude era apenas a de um a casa vazia, desprovida de am eaça.

Retornou ao gabinete no final do corredor e se instalou na cadeira de couro atrás da escrivaninha. Com a persiana bem fechada e sem nenhum a luz acesa, exceto a lum inária com vitral, os cantos do quarto pareciam retroceder além do que perm itiam as dim ensões das paredes, com o se fosse um lugar de sonho.

Com o o m otivo do vitral de lum inária era fruta, o vidro de proteção do tam po da escrivaninha refletia ovais lum inosos e círculos de verm elho-cerej a, púrpura-am eixa, verde-uva, am arelo-lim ão e azul-baga. Em sua superfície de m etal polido e plexiglas, o gravador sobre o vidro tam bém refletia o m osaico brilhante, cintilando com o se fosse incrustrado de pedras preciosas. Quando estendeu a m ão para o gravador, Marty notou que ela parecia estar revestida com a pele pedregosa de arco-íris de um lagarto exótico.

Ele hesitou, exam inando as falsas escam as nas costas da m ão e as pedras preciosas fantasm as no gravador. A vida real tinha tantas cam adas de ilusão quanto qualquer Ficção.

Pegou o gravador e, durante um ou dois segundos, pressionou o botão de rebobinar, procurando as últim as palavras da carta inacabada para seu editor. O guincho-zunido fino e de alta velocidade de sua voz ao reverso em ergiu com o um a língua estranha no pequeno alto-falante de estanho.

Quando apertou o botão de tocar, descobriu que não havia rebobinado o suficiente: “... eu preciso... eu preciso... eu preciso...”

Com a testa franzida, pôs o aparelho para rebobinar, voltando a fita o dobro do tem po anterior.

Mas ainda: “... eu preciso... eu preciso...”

Rebobinar. Dois segundos. Cinco. Dez. Parar. Tocar.

“... eu preciso... eu preciso... eu preciso...”

Após m ais duas tentativas, encontrou a carta: “... assim, devo poder entregar em suas mãos o esboço do novo livro em cerca de um mês. Penso que esse é... esse é... hum... esse...”

O ditado parou. O silêncio se desenrolou na fita... e o som de sua respiração.

No m om ento em que o canto de duas palavras com eçou enfim a ser em itido através do alto-falante, Marty se reclinara tenso para a frente na beira da cadeira, franzindo as sobrancelhas para o gravador em sua m ão.

“... eu preciso... eu preciso...”

Olhou para o relógio de pulso. Passavam quase seis m inutos das quatro horas.

No início, o m urm úrio indistinto foi o m esm o de quando ele voltou à razão e ouviu o suave canto com o se fossem respostas para um a interm inável litania religiosa sem im aginação. Após cerca de m eio m inuto, entretanto, sua voz na fita m udou, tornando-se aguda de urgência, avolum ada de angústia, depois de raiva.

“... EU PRECISO... EU PRECISO... EU PRECISO...”

A frustração fervia através dessas duas palavras.

O Marty Stillwater na fita — que podia m uito bem ter sido um total estranho para o ouvinte Marty Stillwater — soou em aguda dor em ocional, carente de algum a coisa que ele não poderia descrever nem im aginar.

Hipnotizado, ele olhou zangado para os carretéis brancos chanfrados do gravador que giravam sem parar atrás do visor de plástico.

No final, a voz silenciou, term inou a gravação e Marty tornou a consultar o relógio. Mais de doze m inutos depois das quatro.

Ele havia presum ido que perdera a concentração por apenas alguns segundos, entrando em um breve devaneio. Em vez disso, ficara com a m ão agarrada no gravador, a carta para o editor esquecida, repetindo aquelas duas palavras durante sete m inutos ou m ais.

Sete m inutos, pelo am or de Deus.

E não se lem brava de nada daquilo. Com o em um transe.

Agora, parou a fita. A m ão estava trem endo e, quando colocou o gravador em cim a da escrivaninha, o aparelho chocalhou contra o vidro.

Ele olhou em volta do gabinete onde havia passado tantas horas solitárias na preparação e solução de tantos m istérios, onde havia colocado inúm eros personagens em enorm es trabalhos árduos, desafiando-os a encontrar a saída de algum perigo m ortal. O aposento era tão fam iliar: as abarrotadas prateleiras de livros, um a dúzia de pinturas originais que haviam sido im pressas nas sobrecapas de seus rom ances, o divã que ele com prara na expectativa de preguiçosas sessões de esboço, m as no qual nunca tivera tem po ou inclinação para deitar, o com putador com seu m onitor de tam anho exagerado.

Mas essa fam iliaridade j á não era m ais confortante, porque agora estava m anchada pela estranheza do que acontecera m inutos atrás.

Enxugou as m ãos úm idas no jeans.

Após tê-lo deixado por um breve m om ento, o m edo instalou-se de novo à m aneira do m isterioso corvo de Poe, aboletando-se sobre a porta de um quarto.

Despertando do transe, percebendo o perigo, ele havia esperado encontrar a am eaça lá fora na rua ou na form a de um arrom bador vagando pelos aposentos de baixo. Mas foi pior do que isso. A am eaça não era externa. De algum a form a, o erro estava dentro dele.

2.

A noite está profunda e livre de turbulência.

Abaixo, as nuvens coaguladas estão prateadas com o luar refletido e, durante algum tem po, a som bra do avião ondulou através do m ar vaporoso.

O voo do m atador que partiu de Boston chega a tem po em Kansas City, Missouri. Ele vai direto à área de entrega de bagagem . Os viaj antes do feriado do Dia de Ação de Graças só irão dirigir-se para casa am anhã, de m odo que o aeroporto está tranquilo. Suas duas peças de bagagem — um a das quais contém um a pistola Heckler & Koch P7, silenciador destacável e pentes aum entados carregados com m unição 9m m — são a prim eira e a segunda a cair no carrossel.

No balcão da agência de aluguel de carro, ele descobre que sua reserva não havia sido anotada de form a errada nem extraviada, com o costum a ocorrer, com frequência. Ele receberá o enorm e Ford sedã que pediu, em vez de ficar enrascado com um subcom pacto.

O cartão de crédito em nom e de John Larrington é aceito sem problem a pelo funcionário e pela m áquina verificadora do Am erican Express, em bora seu nom e não sej a John Larrington.

Recebe o carro, que roda bem e cheira à lim peza. Até o aquecedor funciona.

Tudo parece que vai acontecer à sua m aneira.

A algum as m ilhas do aeroporto, ele se hospeda em um agradável porém anônim o hotel de quatro andares, onde o funcionário ruivo do balcão da recepção lhe diz que ele pode ter um desj ej um com plem entar — m assas, suco e café —, que seria entregue pela m anhã sim plesm ente se ele pedisse. Seu cartão Visa em nom e de Thom as E. Jukovic é aceito, em bora Thom as E. Jukovic não sej a seu nom e.

Seu quarto tem tapete laranj a-queim ado e papel de parede com listras azuis. Entretanto, o colchão é firm e e as toalhas são felpudas.

A m ala que contém a pistola autom ática e a m unição perm anece trancada no porta-m alas do carro, onde não oferecerá tentação para em pregados de hotel bisbilhoteiros.

Depois de ficar sentado durante algum tem po em um a cadeira j unto à j anela, olhando para Kansas City ao luar, ele desce até o restaurante para j antar. Tem 1,82 m de altura, pesa 81 quilos, m as com e com o m esm o entusiasm o de um hom em m uito m aior. Um a tigela de sopa de legum es com torrada com alho. Dois cheeseburgers, batatas fritas. Um pedaço de torta de m açã com sorvete de baunilha. Meia dúzia de xícaras de café.

Ele tem sem pre um grande apetite. Muitas vezes, é voraz; há m om entos em que sua fom e parece quase insaciável.

Enquanto com e, a garçonete passa duas vezes para perguntar se a com ida foi bem preparada e se ele precisa de algum a outra coisa. Ela não está sendo apenas atenciosa com ele, tam bém está flertando.

Em bora ele sej a razoavelm ente atraente, sua aparência não rivaliza com a de algum astro do cinem a. No entanto, as m ulheres flertam com ele m ais do que com outros hom ens m ais bonitos e m ais bem vestidos. Consistindo em sapatos Rockport, calças cáqui, um suéter verde-escuro de gola redonda, nenhum a j oia e um relógio de pulso barato, seu guarda-roupa não é notável nem m em orável. É o que parece. A garçonete não tem nenhum a razão para confundi-lo com um hom em de recursos. No entanto, lá está ela de novo, com o sorriso coquete.

Um dia, em um salão de coquetel em Miam i, onde ele pegou um a loura com olhos cor-de-uísque, ela assegurou-lhe que um a intrigante aura o cercava. Disse que um m agnetism o constrangedor resultava de sua preferência pelo silêncio e pela expressão pétrea que em geral ocupava seu rosto.

— Você é — ela havia insistido em tom j ocoso — o epítom e do tipo forte e silencioso. Pom ba, se você estivesse num film e com Clint Eastwood e Stallone, não haveria nenhum diálogo!

Mais tarde, ele a m atou a pancadas.

Não ficara enfurecido com nada do que ela havia dito ou feito. Na verdade, o sexo com ela foi satisfatório.

Mas estivera na Flórida para explodir o cérebro de um suj eito cham ado Parker Abbotson e ficara preocupado com a possibilidade de m ais tarde a m ulher vinculá-lo ao assassinato. Não queria que ela pudesse dar um a descrição sua à polícia.

Após abatê-la, ele foi ver o últim o film e de Spielberg e depois um a fita de Steve Martin.

Ele gosta de cinem a. Além de seu trabalho, os film es são a única vida que tem . Às vezes parece que seu verdadeiro lar é um a série de salas de cinem a em diferentes cidades, m as tão parecidas em sua m ultiplicidade de shopping center que podiam m uito bem ser o m esm o auditório escuro.

Agora ele finge não ter percebido que a garçonete do restaurante está interessada nele. Ela é bastante bonita, m as ele não ousaria m atar um a em pregada do restaurante do próprio hotel em que está hospedado. Ele precisa encontrar um a m ulher em um lugar com o qual não tenha nenhum a ligação.

Ele dá de gorj eta os exatos 15%, porque a m esquinhez ou a extravagância é um a m aneira segura de ser lem brado.

Após um breve retorno a seu quarto para pegar um a j aqueta de couro com forro de lã, adequada para a noite do final de novem bro, ele entra no Ford alugado e roda em círculos cada vez m ais largos através do distrito com ercial vizinho. Está procurando o tipo de estabelecim ento no qual terá a chance de encontrar a m ulher certa.

3.

Papai não era papai.

Ele tinha os olhos azuis de papai, o cabelo castanho-escuro de papai, as orelhas grandes dem ais de papai, o nariz sardento de papai; ele era um sósia perfeito do Martin Stillwater retratado na sobrecapa de seus livros. Ele falou igual a papai quando Charlotte e Em ily e a m ãe delas chegaram em casa e o encontraram na cozinha, tom ando café, porque ele disse:

— Não adianta fingir que foram fazer com pras no shopping mall depois do cinem a. Mandei que um detetive particular seguisse vocês. Sei que estiveram em um a sala de pôquer em Gardena, j ogando e fum ando cigarros.

Ele se levantava, sentava e cam inhava com o papai.

Mais tarde, quando foram a Islands j antar, ele até dirigiu com o papai. O que foi rápido dem ais, segundo m am ãe. Ou apenas “a técnica confiante e hábil de um m otorista-m estre”, se você vir as coisas à m aneira de papai.

Mas Charlotte sabia que algum a coisa estava errada, e se m artirizava. Oh, ele não havia sido agarrado por um alienígena que se arrastou para fora de um a enorm e sem ente de vagem do espaço exterior ou algum a coisa tão extrem a. Ele não era tão diferente assim do papai que ela conhecia e am ava.

Na m aioria das vezes, as diferenças eram pequenas. Em bora em geral fosse relaxado e fácil de lidar, ele estava um pouco tenso. Mantinha-se rígido, com o se equilibrasse ovos na cabeça... ou com o se talvez esperasse ser atingido a qualquer m om ento por alguém , algum a coisa. Não sorria tão rápida ou com tanta frequência com o de hábito, e quando sorriu, pareceu estar fingindo.

Antes de sair de ré pela estradinha de carros, virou-se e exam inou Charlotte e Em ily para assegurar-se de que estavam usando cintos de segurança, m as não disse “o foguete Stillwater está prestes a disparar”, ou “se eu fizer as curvas rápido dem ais e vocês tiverem que vom itar, por favor vom item bonito nos bolsos de suas j aquetas, não no belo estofam ento de m eu carro”, ou “se conseguirm os velocidade suficiente para voltar no tem po, não gritem insultos para os dinossauros”, ou algum a outra das coisas bobas que em geral dizia.

Charlotte notou e ficou preocupada.

O restaurante, Islands, tinha bons sanduíches, ótim as batatas fritas — que podiam ser pedidas bem crocantes —, saladas e tacos m acios. Os sanduíches e as batatas fritas eram servidos em cestos e o am biente era caribenho.

“Am biente” era um a palavra nova para Charlotte. Ela gostava m uito de seu som e usava em cada oportunidade que tinha — em bora Em ily, a criança incorrigível, sem pre ficasse confusa e dissesse “que am bulância, não estou vendo nenhum a am bulância” cada vez que Charlotte usava a palavra. Sete anos de idade podia ser um sofrim ento. Charlotte estava com dez anos — ou faria em seis sem anas — e Em ily recém com pletara sete em outubro. Em era um a boa irm ã, m as claro que sete anos de idade eram tão... setenianos.

Em todo caso, o am biente era tropical: cores vivas, bam bu no teto, cortinas de m adeira e grande quantidade de palm eiras em vasos. Tanto o garçom com o a garçonete usavam cam isas curtas e coloridas do tipo havaiano.

O local lem brou a ela a m úsica de Jim m y Buffet, que era um a dessas coisas que seus pais am avam , m as que Charlotte não entendia nem um pouco. Pelo m enos o am biente era frio e as batatas fritas eram as m elhores.

Sentaram -se em um a cabine na seção de não fum antes, onde o am biente era m ais bonito ainda. Os pais pediram Corona, que veio em caneca gelada. Charlotte pediu um a Coca e Em ily root beer.

— Root beer é um a bebida de adulto — Em disse. E apontou para a Coca de Charlotte. — Quando você vai parar de beber coisa de criança?

Em estava convencida de que root beer podia ser tão intoxicante quanto cervej a de verdade. Às vezes fingia estar tonta depois de dois copos, o que era estúpido e em baraçoso. Quando Em praticava sua rotina dar-voltas-arrotar-beber e estranhos se viravam para olhar, Charlotte explicava que Em tinha sete anos. Todos com preendiam — o que m ais se poderia esperar de alguém com sete anos? —, m as m esm o assim era em baraçoso.

No m om ento em que a garçonete trouxe o j antar, m am ãe e papai falavam de pessoas que conheciam e que estavam se divorciando — conversa chata de adulto que rapidam ente poderia arruinar um am biente caso se prestasse algum a atenção. E Em em pilhava batatas fritas em pilhas peculiares, com o versões em m iniatura de esculturas m odernas que haviam visto em um m useu no últim o verão; ela estava absorvida pelo proj eto.

Com todo m undo distraído, Charlotte abriu o zíper do bolso m ais baixo da j aqueta de algodão, tirou Fred e colocou-o em cim a da m esa.

Ele ficou im óvel sob seu casco, as pernas rechonchudas dobradas, sem cabeça, tão grande quanto um relógio de pulso. No final seu pequeno nariz bicudo apareceu. Ele cheirou o ar com cuidado e depois esticou a cabeça para fora da fortaleza que carregava nas costas. Seus olhos escuros e brilhantes de tartaruga olharam o novo local com grande interesse, e Charlotte im aginou que ele devia estar m aravilhado com o am biente.

— Fique com igo, Fred, e vou m ostrar-lhe lugares que nenhum a tartaruga viu antes — sussurrou.

Olhou de relance para os pais. Eles ainda estavam tão envolvidos um com o outro que não perceberam quando ela deslizou Fred para fora do bolso. Agora o anim al estava escondido atrás de um cesto de batatas fritas.

Além das batatas, Charlotte com ia tacos m acios com recheio de galinha, de onde retirou um pedaço de alface. A tartaruga cheirou-a e afastou a cabeça com asco. Ela tentou um pedaço de tom ate. Está falando sério?, o anim al pareceu dizer ao recusar o petisco.

Em certas ocasiões, Fred conseguia ser m al-hum orado e difícil. Charlotte im aginava que a culpa era dela, porque o havia m im ado dem ais.

Ela não achava que galinhas ou queij o fosse bom para ele, e não iria oferecer-lhe m igalhas de tortilla enquanto Fred não com esse suas verduras, de m odo que ela m ordiscou as batatas fritas crocantes e olhou em volta do restaurante, com o se estivesse fascinada com os outros fregueses que ignoravam o pequeno réptil prim itivo. Ele havia rej eitado a alface e o tom ate apenas para aborrecê-la. Se pensasse que ela não ligaria a m ínim a se ele com esse ou não, então era provável que com esse. Nos anos das tartarugas, Fred tinha sete de idade.

Na verdade, ela ficou interessada em um casal heavy -m etal com roupas de couro e cabelo estranho. Os dois a distraíram por alguns m inutos, e ela se assustou com o gritinho agudo de alarm e da m ãe.

— Oh — exclam ou a m ãe depois de gritar —, é apenas o Fred.

A ingrata tartaruga — afinal de contas, Charlotte poderia ter deixado o bicho em casa — não estava ao lado de seu prato, onde tinha sido deixada. Ela rastej ara em volta do cesto de batatas fritas indo direto para o outro lado da m esa.

— Só tirei ela do bolso para dar com ida — disse Charlotte na defensiva.

Erguendo o cesto para que Charlotte pudesse ver a tartaruga, m am ãe disse:

— Querida, não é bom para ele ficar o dia inteiro em seu bolso.

— Não é o dia inteiro — Charlotte apossou-se de Fred e devolveu-o ao bolso. — Só desde que saím os de casa para j antar.

Mam ãe franziu as sobrancelhas.

-— Que outro anim al está com você?

— Só o Fred.

— E quanto ao Bob? — perguntou m am ãe.

— Oh, argh — disse Em ily, fazendo careta para Charlotte. — Você botou o Bob em seu bolso? Eu odeio o Bob.

Bob era um besouro preto de m ovim ento lento, do m esm o tam anho da últim a j unta do polegar de papai, com pálidas m arcas azuis em sua carapaça. Ela o m antinha em um j arro grande em casa, m as às vezes gostava de levá-lo para fora de casa, para observá-lo rastej ar em seu trabalhoso traj eto sobre um tam po de balcão ou m esm o nas costas de sua m ão.

— Eu j am ais levaria Bob para um restaurante — garantiu-lhes Charlotte.

— Você tam bém sabe que era m elhor não trazer Fred — disse a m ãe.

— Sei, m am ãe — disse Charlotte com genuíno em baraço.

— Boba — disse Em ily.

Mam ãe falou para Em ily :

— Não é m ais boba do que usar batatas fritas com o se fossem blocos de Lego.

— Estou fazendo arte. — Em ily estava sem pre fazendo arte. Às vezes era estranha, m esm o para um a m enina de sete anos de idade. Picasso reencarnado era com o papai a cham ava.

— Arte, hum ? — com entou m am ãe. — Se está fazendo arte com sua com ida, o que vai com er? Um a pintura?

— Talvez — replicou Em . — Um a pintura de um bolo de chocolate.

Charlotte fechou o zíper do bolso da j aqueta, aprisionando Fred.

— Lave as m ãos antes de continuar a com er — disse papai.

— Por quê? — perguntou Charlotte.

— O que você acabou de tocar?

— Você se refere a Fred? Mas Fred é lim po.

— Eu disse lave as m ãos.

O m au-hum or do pai lem brou a Charlotte que ele não era ele. Poucas vezes ele falava em tom áspero com ela ou Em . Ela se com portava não por m edo de que ele lhe desse um a palm ada ou gritasse com ela, m as sim porque era im portante não desapontar a ele nem a m am ãe. A m elhor sensação do m undo era quando ela recebia um a boa nota na escola ou tinha um bom desem penho em um recital de piano, deixando-os orgulhosos dela. E nada era pior do que fazer bagunça — e ver um ar triste de desapontam ento em seus olhos, m esm o quando eles não a puniam ou diziam algum a coisa.

A rabugice da voz de seu pai m andou-a direto ao banheiro de m ulheres, piscando para reprim ir as lágrim as em cada passo do traj eto.

* * *

Mais tarde, no cam inho de Islands para casa, quando papai ficou com pé de chum bo, m am ãe disse:

— Marty, isso aqui não são as Quinhentas Milhas de Indianápolis.

— Acha que estou tão rápido assim ? — perguntou papai, com o que espantado. — Não estou tão rápido assim .

— Nem m esm o o próprio Batm an conseguiria acelerar o Batm óvel a um a velocidade com o essa.

— Estou com 33 anos, nunca tive um acidente. Registro im aculado. Sem m ultas. Nunca fui parado por um tira.

— Porque eles não conseguem agarrá-lo — disse m am ãe.

— Isso m esm o.

No assento traseiro, Charlotte e Em ily arreganham -se em sorrisos.

Pois desde que Charlotte podia lem brar-se, os pais vinham tendo conversas engraçadas sobre a m aneira de ele dirigir, em bora a m ãe falasse sério quando queria que ele fosse m ais devagar.

— Nunca recebi nem m esm o um a m ulta por estacionam ento — disse papai.

— Bem , claro, não é fácil receber um a m ulta por estacionam ento quando a agulha do velocím etro está sem pre no fundo.

No passado, o bate-boca deles sem pre havia sido bem -hum orado. Mas agora ele disse de repente para m am ãe, em tom brusco:

— Pelo am or de Deus, Paige. Sou um bom m otorista, este carro é seguro, gastei m ais dinheiro com ele do que devia, j ustam ente porque é um dos carros m ais seguros na estrada. Portanto, quer fazer o favor de dar um tem po?

— Claro. Desculpe — disse m am ãe.

Charlotte olhou para a irm ã. Em estava com o olho arregalado de incredulidade.

Papai não era papai. Algum a coisa estava errada. Errada pra valer.

Tinham atravessado apenas um quarteirão quando ele dim inuiu a velocidade, olhou para m am ãe e disse:

— Desculpe-m e.

— Não, você estava certo. Sou preocupada dem ais com certas coisas.

Os dois trocaram sorrisos. Tudo estava bem . Não iriam divorciar-se com o aquelas pessoas de que haviam falado no j antar. Charlotte não poderia lem brar-se com raiva um do outro por m ais do que alguns m inutos.

Entretanto, ela ainda estava preocupada. Talvez ela devesse exam inar a casa e o lado de fora atrás da garagem para ver se não encontrava um a gigantesca vagem vazia do espaço exterior.

4.

O m atador dirige com o um tubarão atravessando correntes frias em um m ar noturno.

É sua prim eira vez em Kansas City, m as ele conhece as ruas. Total dom ínio do m apa é parte da preparação de cada m issão, para o caso de ele tornar-se obj eto de um a perseguição policial e precisar em preender um a rápida escapada sob pressão.

O curioso é que ele não tem nenhum a lem brança de ter visto — quanto m ais estudado — um m apa e não consegue im aginar onde adquiriu essa inform ação bastante detalhada. Mas não gosta de pensar nos buracos de sua m em ória, porque pensar neles abre a porta para um abism o negro que o aterroriza.

Assim , ele apenas dirige.

Em geral, gosta de dirigir. Ter um a m áquina poderosa e responsiva sob seu com ando dá a ele um a sensação de controle e propósito.

Mas de vez em quando, com o acontece agora, o m ovim ento do carro e as paisagens de um a cidade estranha — sem levar em consideração o quão fam iliar ele pode ser com o m apa de suas ruas — o fazem sentir-se pequeno, sozinho, sem rum o. Seu coração com eça a bater rápido. De repente, as palm as de suas m ãos estão tão úm idas que o volante desliza através delas.

Depois, quando freia em um sinal de trânsito, ele olha para o carro na pista a seu lado e vê um a fam ília revelada pelas lâm padas da rua. O pai está dirigindo. A m ãe está sentada no banco do carona, é um a m ulher atraente. Um garoto de cerca de dez e um a m enina de seis ou sete anos estão no assento traseiro. No cam inho para casa depois de um a noite fora. Talvez um cinem a. Conversam riem , pais e filhos j untos, com partilhando.

Em seu estado de deterioração, essa visão é um im placável golpe de m artelo, e ele solta um som fraco e sem palavras, de angústia.

Ele sai da rua, entra no estacionam ento de um restaurante italiano. Afunda no assento. Respira em arquej os rápidos e pouco profundos.

O vazio. Ele tem m edo do vazio.

E agora o vazio está sobre ele.

Ele se sente com o se fosse um hom em oco, feito do m ais fino vidro soprado, frágil, só um pouco m ais substancial do que um fantasm a.

Em m om entos com o esse, ele precisa desesperadam ente de um espelho. Seu reflexo é um a das poucas coisas que pode confirm ar sua existência.

O elaborado anúncio de neon verm elho e verde do restaurante ilum ina o interior do Ford. Quando ele enviesa o espelho retrovisor para olhar-se, sua pele tem um a cor cadavérica, e seus olhos estão ilum inados com m utantes form as rubras, com o se fogueiras ardessem dentro dele.

Nessa noite, seu reflexo não basta para dim inuir sua agitação. No m om ento, ele se sente m enos substancial. Talvez ele expire um a últim a vez, expelindo a fina substância derradeira de si m esm o nessa exalação.

Lágrim as borram sua visão. Ele está oprim ido por sua solidão e torturado pela falta de sentido de sua vida.

Ele cruza os braços no peito, abraça-se, reclina-se para a frente e encosta a testa no volante. E soluça com o se fosse um a criança pequena.

Não sabe seu nom e, apenas os nom es que usará enquanto estiver em Kansas City. Quer tanto ter um nom e que não sej a a falsificação que aparece no cartão de crédito. Não tem fam ília, nem am igos, nem lar. Não consegue lem brar-se de quem lhe deu essa m issão — ou qualquer um dos trabalhos anteriores —, e não sabe por que seus alvos têm de m orrer. É incrível, m as ele não tem nenhum a ideia de quem lhe paga, não se lem bra onde conseguiu o dinheiro que está na carteira ou onde com prou as roupas que está usando.

Em um nível m ais profundo, ele não sabe quem é. Não tem nenhum a m em ória de um tem po em que sua profissão fosse algum a outra coisa que não m atador. Ele não tem nenhum a linha política, nem religião, nem filosofia pessoal. Sem pre que tenta se interessar por assuntos correntes, descobre-se incapaz de reter o que lê nos j ornais; nem ao m enos consegue concentrar a atenção nos noticiários da tevê. É inteligente; no entanto, só se perm ite — ou lhe são perm itidas — as satisfações de natureza física: com ida, sexo, a selvagem alegria do hom icídio. Vastas regiões de sua m ente perm anecem não m apeadas.

Alguns m inutos passam em neon verde e verm elho.

Suas lágrim as secam . Aos poucos, ele para de trem er.

Ele quer ficar bem . Voltar aos trilhos. Firm e, controlado.

Na verdade, ele ascende com velocidade notável das profundezas do desespero. É surpreendente a presteza com que está querendo continuar essa últim a m issão — e a m era som bra de vida que leva. Às vezes lhe parece operar com o se fosse program ado à m aneira de um a m áquina estúpida e obediente.

Por outro lado, se não fosse para continuar, que outra coisa iria fazer? Essa som bra de vida é a única vida que ele tem .

5.

Enquanto as m eninas estavam no andar de cim a, escovando os dentes e se preparando para dorm ir, Marty ia m etodicam ente de quarto em quarto no prim eiro andar, verificando se todas as portas e j anelas estavam trancadas.

Havia circulado m etade do andar de baixo — e estava testando o trinco da j anela em cim a da pia da cozinha — quando percebeu a tarefa peculiar que estabelecera para si m esm o. Antes de deitar-se a cada noite, ele exam inava as portas da frente e dos fundos, claro, m ais as portas de correr entre o quarto da fam ília e o pátio, m as em geral não verificava se um a j anela particular estava fechada, a m enos que soubesse que tinha sido aberta para ventilar durante o dia. No entanto, ele confirm ava a integridade do perím etro da casa da m esm a m aneira consciente que um a sentinela inspeciona as defesas externas de um a fortaleza sitiada por inim igos.

Quando term inava na cozinha, ouviu Paige entrar. Um m om ento depois ela deslizou os dois braços em volta de sua cintura, abraçando-o por trás.

— Você está bem ? — perguntou ela.

— Sim , estou...

— Dia ruim ?

— Não. Apenas um m au m om ento.

Marty girou em seus braços para abraçá-la. Ela estava m aravilhosa, tão quente e forte, tão viva.

Não era nenhum a surpresa que ele a am asse m ais agora do que quando se conheceram na universidade. Os triunfos e fracassos que haviam com partilhado, os anos de luta diária para conquistar espaço no m undo e para procurar o sentido de tudo isso, era solo rico no qual o am or pôde crescer.

Entretanto, num a era em que a beleza ideal era corporificada supostam ente por chefes de torcida profissionais de dezenove anos, dos tim es de futebol da liga principal, Marty conhecia um bocado de suj eitos que ficariam surpresos ao ouvir que ele achava sua m ulher cada vez m ais atraente à m edida que ela envelhecia dos dezenove para os 33 anos. Os olhos dela não eram m ais azuis do que na prim eira vez em que se encontraram ; os cabelos não estavam um a som bra de ouro m ais ricos e a pele não se tornara m ais m acia nem m ais flexível. Mesm o assim , a experiência lhe havia dado caráter, profundidade. Por m ais antiquado que possa soar nessa era de cinism o condicionado, às vezes ela parecia brilhar com um a luz interior, tão radiante quanto o venerado obj eto de um a pintura de Raphael.

Assim , de fato, talvez o coração dele fosse tão m ole quanto m anteiga, talvez ele fosse um sugador de rom ance, m as achava o sorriso dela e o desafio de seus olhos infinitam ente m ais excitantes do que um a m eia dúzia de chefes de torcida nuas.

Ele beij ou a testa da m ulher.

— Um m au m om ento? O que houve? — disse ela.

Ele não havia decidido o quanto devia contar sobre os sete m inutos desaparecidos. Por enquanto, talvez fosse m elhor m inim izar a profundidade da estranheza da experiência, procurar o m édico na segunda-feira pela m anhã, e até fazer alguns testes. Se estivesse com boa saúde, aquilo que aconteceu no gabinete nessa m anhã poderia ser um a singularidade inexplicável. Ele não queria alarm ar Paige sem necessidade.

— E então? — ela insistiu.

Com a inflexão que deu a essas duas palavras, ela lem brou-lhe que doze anos de casam ento proibiam segredos sérios, não im portavam que boas intenções m otivavam sua reticência.

— Está lem brada de Audrey Aim es? — disse ele.

— Quem ? Oh, você se refere a Um Bispo Morto?

Um Bispo Morto era um rom ance que ele havia escrito. Audrey Aim es era a personagem principal.

— Lem bra qual era o problem a dela? — perguntou ele.

— Ela encontrou um padre m orto, pendurado em um cabide no closet de seu vestíbulo.

— Além disso.

— Ela tinha outro problem a? Parece que um padre m orto j á é suficiente. Você tem certeza de que não está com plicando dem ais suas tram as?

— Estou falando sério — disse ele, apesar de ter consciência de que era estranho optar por inform ar sua m ulher sobre um a crise pessoal com parando-a com as experiências de um a heroína de rom ance de m istério que ele havia criado.

Seria a linha divisória entre a vida e a ficção tão nebulosa para as outras pessoas com o às vezes era para um escritor? E se assim fosse — havia algum livro com essa ideia?

Paige disse, franzindo as sobrancelhas:

— Audrey Aim es... Oh, sim , você está falando dos brancos dela.

— Fugas — disse ele.

Um a fuga era um a séria desagregação da personalidade. A vítim a ia a lugares, falava com pessoas e se envolvia em várias atividades, parecendo norm al — no entanto, m ais tarde, não conseguia lem brar-se de onde estivera ou o que havia feito durante o lapso, com o se o tem po tivesse passado no sono m ais profundo. Um a fuga podia durar m inutos, horas e até m esm o dias.

Quando estava com trinta anos, Audrey Aim es com eçara de repente a sofrer de fugas. Mem órias reprim idas de algum abuso de infância — das quais ela havia fugido através de algum m ecanism o psicológico — passaram a em ergir após m ais de duas décadas. Ela estava convicta de que havia m atado o padre durante um estado de fuga — em bora, claro, um a outra pessoa tivesse assassinado o padre e o enfiado em seu closet — e todo o estranho hom icídio tinha ligação com o que lhe acontecera quando ela era um a garotinha.

Apesar de conseguir ganhar a vida tecendo elaboradas fantasias a partir do nada, Marty tinha a reputação de ser em ocionalm ente tão estável quanto o Rochedo de Gibraltar e tão fácil de lidar quanto um cão de busca tratado a Valium . Talvez fosse esse o m otivo pelo qual Paige ainda sorria para ele, parecendo relutante em levá-lo a sério.

Ela pôs-se na ponta dos pés, beij ou-lhe o nariz e disse:

— Quer dizer que você esqueceu de colocar o lixo lá fora, e agora vai dizer que foi porque está sofrendo um colapso de personalidade devido aos abusos horríveis, esquecidos há m uito tem po, que você sofreu quando tinha seis anos de idade. Ora, Marty. Tenha vergonha. Sua m ãe e seu pai são as pessoas m ais doces que j á conheci.

Ele soltou-a, fechou os olhos e pressionou a m ão contra a testa. Estava ficando com um a trem enda dor de cabeça.

— Estou falando sério, Paige. Hoj e à tarde, no gabinete... durante sete m inutos... bem , só sei que droga eu estava fazendo durante esse tem po porque está gravado num gravador. Não m e lem bro de nada. E é horripilante. Sete m inutos horripilantes.

Continuar: parte 2 de 4