Sr. Assassino
Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
1.
A noite de Oklahom a deixava Drew Oslett inquieto. Quilôm etro após quilôm etro, em am bos os lados da autoestrada interestadual, com raras exceções, a escuridão era tão profunda e inexorável que ele parecia estar atravessando um a ponte sobre um abism o m uito am plo e sem fundo. Milhares de estrelas salpicavam o céu, sugerindo um a im ensidão que ele preferia não considerar.
Ele era um a criatura da cidade, com a alm a sintonizada com o alvoroço urbano. Largas avenidas flanqueadas por prédios altos eram os m ais largos espaços abertos nos quais se sentia bastante confortável. Tinha vivido em Nova York durante m uitos anos, m as j am ais visitara o Central Park; aqueles cam pos e vales estavam cercados pela cidade; no entanto, Oslett achava-os grandes e bucólicos dem ais a ponto de deixá-lo irritado. Só estava em seu elem ento no abrigo das florestas de arranha-céus, onde as calçadas fervilhavam de gente e as ruas viviam congestionadas de tráfego barulhento. Em seu apartam ento na Manhattan central, ele dorm ia sem cortinas nas j anelas, de m odo que a luz am biente da m etrópole inundasse o quarto. Quando acordava à noite, era confortado por sirenes periódicas, buzinas estridentes, gritos de bêbados, tam pas de bueiros chocalhadas por carros e outros barulhos m ais exóticos que se erguiam nas ruas m esm o durante as horas m ortas, em bora num volum e m enor que o glorioso estrondo e estrépito das m anhãs, tardes e noites. A contínua dissonância e infinitas distrações da cidade eram a seda de seu casulo, protegendo-o, dando-lhe a certeza de que ele j am ais se encontraria nas tranquilas circunstâncias que encoraj avam a contem plação e a introspecção.
A escuridão e o silêncio não ofereciam nenhum a distração e, portanto, eram inim igos do contentam ento. A Oklahom a rural tinha m uita quantidade de am bos.
Um pouco inclinado no assento do carona do Chevrolet alugado, Drew Oslett desviou a atenção da paisagem irritante para o m oderno m apa eletrônico que carregava no colo.
O instrum ento era do tam anho de um a pasta de docum entos, em bora quadrada e não retangular, e operava com a bateria do carro através do acendedor de cigarro. O tam po chato parecia a frente de um a televisão: um a tela com um a m oldura estreita de aço escovado e um a fileira de botões de controle. No fundo de suave lum inosidade verde-lim a, as autoestradas interestaduais eram indicadas em verde-esm eralda, as vias estaduais em am arelo e as estradas de condado em azul; os cam inhos secundários não pavim entados, de terra e cascalho, eram representados por linhas negras interrom pidas. Centros populacionais — poucos preciosos nessa parte do m undo — eram cor-de-rosa.
O veículo deles era um ponto de luz verm elha próxim o ao centro da tela.
O ponto m ovia-se sem parar ao longo da linha verde-esm eralda, que era a Interestadual 40.
— Agora tem os cerca de seis quilôm etros pela frente — disse Oslett.
Karl Clocker, o m otorista, não respondeu. Mesm o no m elhor dos dias, Clocker não era um grande Conversador. A m édia das pedras era m ais loquaz.
A tela quadrada do m apa eletrônico estava aj ustada para um a escala de m édia distância, m ostrando 160 quilôm etros quadrados de território num a rede de 16km X 16km . Oslett tocou um dos botões e o m apa piscou, sendo substituído quase de im ediato por um bloco de 40 quilôm etros quadrados, oito quilôm etros num lado, que am pliou um quadrante do prim eiro quadro para encher a tela.
O ponto verm elho que representava seu carro era agora quatro vezes m aior que antes. Já não estava m ais no centro do quadro, m as do lado direito.
Próxim o à extrem idade esquerda da tela, a m enos de seis quilôm etros de distância, um X branco interm itente perm aneceu estacionário em apenas um a fração de centím etro à direita da Interestadual 40. O X assinalava a presa.
Oslett gostava de trabalhar com o m apa, porque a tela era tão colorida, parecia a tela de um videogam e bem desenhado. Ele gostava um bocado de videogam es. Na verdade, em bora j á estivesse com 32 anos, alguns de seus lugares favoritos eram as galerias onde esquadrões de m áquinas frias hipnotizavam o olho com luzes estroboscópicas de todas as cores e nam oravam os ouvidos com incessantes bipes, tuites, bizzes, hutes, upes, uau-uaus, clangues, buns e rifes de m úsica e notas eletrônicas oscilantes.
Infelizm ente, o m apa nada tinha da ação de um videogam e. E carecia por com pleto de efeitos sonoros.
Contudo, o aparelho o excitava porque nem todo o m undo podia pôr as m ãos no engenho — que era cham ado de Unidade de Rastream ento Assistida por Satélite, URAS. Não era vendido ao público, em parte porque o custo era tão exorbitante que os potenciais com pradores eram bem poucos para j ustificar sua com ercialização. Além disso, parte da tecnologia estava obstruída por estrita proibição de segurança nacional contra a dissem inação. E com o o m apa era sobretudo um a ferram enta para rastream ento clandestino e vigilância, a m aioria do núm ero relativam ente pequeno de unidades existentes era em geral usada por forças de aplicação da lei controladas pelo governo federal e órgãos de coleta de inform ações, ou estavam em m ãos de organizações sem elhantes em países aliados dos Estados Unidos da Am érica.
— Cinco quilôm etros — disse ele a Clocker.
O m otorista alto e tosco nem sequer grunhiu à guisa de resposta.
Cabos saíam do URAS e term inavam num copo de sucção de 7,5 cm de diâm etro, que Oslett fixara na parte m ais alta do para-brisa curvo. Um local com peças eletrônicas em m icrom iniatura na base do copo era o transm issor e receptor do conj unto ligado ao satélite. Por m eio de em issões de m icroondas codificadas, o URAS podia ligar-se rápido com satélites geossincrônicos de com unicação e vigilância, da indústria privada e de vários serviços m ilitares, dom inar seus sistem as de vigilância, inserir seu program a em suas unidades lógicas e incluí-las em operações, sem perturbar suas funções prim árias ou alertar os m onitores terrestres sobre a invasão.
Usando dois satélites para procurar — e travar — o sinal único de um transportador particular, o URAS podia triangular um a posição precisa para o veículo transportador. Em geral, o transm issor-alvo era um inocente pacote colocado na subestrutura do carro do obj eto de vigilância — às vezes em seu avião ou barco —, de m odo que ele pudesse ser seguido à distância, sem j am ais tom ar conhecim ento de que alguém o seguia.
Nesse caso, tratava-se de um transportador escondido na sola de borracha de um sapato.
Oslett usava os controles do URAS para dividir a área representada na tela, obtendo assim um a dram ática am pliação dos detalhes do m apa. Exam inando o novo m as igualm ente colorido m ostrador, ele disse:
— Ele ainda não se m exeu. Parece que encostou no acostam ento para um descanso.
Os m icrochips do URAS continham m apas detalhados de cada quilôm etro quadrado dos Estados Unidos, Canadá e México. Se Oslett estivesse operando na Europa, no Oriente Médio ou em outra parte, poderia instalar a biblioteca cartográfica adequada a esse território.
— Três quilôm etros — disse Oslett.
Dirigindo com um a das m ãos, Clocker enfiou a outra dentro do casaco esporte e tirou o revólver que carregava no coldre de om bro. Era um Colt Magnum .357, um a excêntrica escolha de arm a — e um tanto quanto antiquada — para um hom em que operava no ram o de trabalho de Karl Clocker. Tam bém preferia duas j aquetas de tweed com botões cobertos de couro, rem endos de couro nos cotovelos e, em certas ocasiões com o agora, lapelas de couro. Tinha um a excêntrica coleção de suéteres com padrão arlequim , um dos quais usava naquele m om ento. Suas m eias de cores vivas eram em geral escolhidas, de m odo a não com binar com o resto das roupas e, sem falhar, ele usava Hush Puppies de cam urça m arrom . Considerando-se seu tam anho e com portam ento, era im provável que alguém fizesse um com entário negativo sobre seu gosto para roupas, m uito m enos observações não pedidas sobre sua escolha de arm am ento.
— Não vai ser preciso um poder de fogo pesado — disse Oslett.
Sem dizer nenhum a palavra para Oslett, Clocker colocou o Magnum .357 no assento a seu lado, perto do chapéu, onde poderia pegá-lo com facilidade.
— Estou com o revólver com um — disse Oslett. — Deve bastar.
Clocker nem olhou para ele.
2.
Antes de Marty concordar em sair da tem pestade para contar às autoridades o que havia acontecido, ele insistiu que um oficial uniform izado ficasse vigiando Charlotte e Em ily na casa dos Delorio. Ele confiava que Vic e Kathy fariam tudo que fosse preciso para proteger as m eninas. Mas não seriam páreo para a cruel im placabilidade do Outro.
Ele não era otim ista a ponto de achar que um guarda bem arm ado fosse proteção suficiente.
A chuva j orrava na saliência do pórtico frontal dos Delorio. Parecia lantej oula de festa brilhando no m etal do lam pião. De pé sob o pórtico, protegendo-se da chuva, Marty tentou fazer Vic com preender que as m eninas ainda corriam perigo.
— Não deixe ninguém entrar, exceto os tiras e Paige.
— Claro, Marty — Vic era professor de educação física, treinador da equipe de natação da escola secundária local. Líder de tropa dos escoteiros, um dos principais m otivadores do program a de Guarda da Vizinhança e organizador de várias atividades para levantam ento de fundos para caridade, um suj eito sério e ativo que gostava de aj udar as pessoas e que usava sapatos esportivos m esm o em ocasiões em que vestia terno e gravata, com o se um calçado m ais form al não o perm itisse m over-se tão rápido e realizar tanto quanto desej ava. — Ninguém a não ser os tiras e Paige. Pode deixar, as crianças vão ficar bem com igo e Kathy. Por Deus, Marty, o que aconteceu lá?
— E pelo am or de Deus, não dê as crianças para ninguém , nem m esm o para os tiras, a m enos que Paige estej a com elas. Tam pouco dê as crianças para mim, a m enos que Paige estej a com igo.
Vic Delorio desviou o olhar da atividade dos policiais e piscou os olhos, surpreso.
Em sua m em ória Marty pôde ouvir a voz furiosa do sósia, ver os pontos de saliva voando de sua boca enquanto ele dizia com raiva: Quero minha vida, minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...
— Você entendeu, Vic?
— Nem para você.
— Só se Paige estiver com igo. Só então.
— O que...
— Eu explico m ais tarde — interrom peu Marty. — Estão todos esperando por m im . — Ele girou e apressou-se pelo passeio da frente em direção à rua, olhando para trás apenas um a vez para dizer: — Só Paige.
— ... minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...
Em casa, na cozinha, enquanto relatava o assalto ao oficial que atendera a cham ada e fora o prim eiro a chegar ao cenário, Marty perm itiu que um técnico da polícia pusesse tinta em seus dedos e os rolasse num a folha de registro. Eles precisavam poder diferenciar suas im pressões e as do intruso. Marty perguntava-se se ele e O Outro acabariam sendo idênticos nesse aspecto com o pareciam ser em todos os outros.
Paige tam bém se subm eteu ao processo. Era a prim eira vez em suas vidas que lhes tom avam as im pressões digitais. Em bora Marty com preendesse a necessidade disso, todo o processo parecia um a invasão.
Depois de obter o que pediu, o perito um edeceu um a toalha de papel com um detergente e disse que assim toda a tinta seria rem ovida. Mas não rem oveu. Não im portava a força com que Marty esfregasse, m anchas escuras perm aneciam nas linhas da pele.
Antes de sentar-se para fazer um a declaração m ais com pleta ao oficial encarregado, Marty foi ao andar de cim a para vestir roupas secas. Tam bém tom ou quatro pílulas de Anacin.
Ele aum entou o term ostato e a casa aqueceu-se de im ediato. No entanto, trem ores periódicos ainda o sacudiam — em grande parte por causa da presença enervante de tantos oficiais de polícia.
Eles estavam em todos os cantos da casa. Alguns de uniform e, outros não, m as todos estranhos cuj a presença fazia Marty sentir-se m ais violentado.
Ele não havia previsto com o um a vítim a era despoj ada de sua privacidade a partir do m om ento em que notificava um crim e sério. Policiais e peritos estavam em seu gabinete para fotografar o aposento onde teve início a violenta confrontação. Retiraram um par de balas da parede, polvilharam pó à procura de im pressões digitais e tiraram am ostras de sangue do tapete. Tam bém fotografavam o corredor do andar de cim a e a saleta de entrada. Em sua busca de provas que o intruso pudesse ter deixado para trás, eles supunham ter um convite para bisbilhotar em qualquer aposento ou arm ário.
Claro que estavam na casa para aj udar, e Marty sentia-se grato por seu esforço. No entanto, era em baraçoso pensar que estranhos podiam estar notando a m aneira obsessiva com o ele organizava as roupas no arm ário segundo a cor — ele e Em ily —, o fato de colecionar centavos e níqueis num j arro de m eio galão, com o um garoto que econom izava para a prim eira bicicleta, e outros detalhes sem im portância porém m uito pessoais de sua vida.
E ele estava m ais perturbado com o detetive encarregado à paisana do que com todo o resto j unto. O nom e do suj eito era Cy rus Lowbock, e ele extraía respostas com plexas que iam além do m ero em baraço.
O detetive podia ganhar um bom dinheiro com o m odelo, posando para anúncios de revista de Rolls Roy ce, smoking, caviar e serviços de corretagem de ações. Tinha m ais ou m enos cinquenta anos, estava em boa form a, com cabelos grisalhos, bronzeado m esm o em novem bro, um nariz aquilino, ossos m alares finos e extraordinários olhos cinzentos. De m ocassins negros, calças de tecido canelado cor cinza, suéter de tricô azul-escuro e cam isa branca — ele havia tirado um blusão de lã —, Lowbock conseguia parecer m ais distinto e atlético, em bora os esportes que poderiam ser associados a ele não fossem o futebol e o beisebol, m as sim o tênis, o iatism o, a corrida de barcos e outras ocupações da classe alta. Ele se parecia m enos com qualquer im agem popular do tira do que com um hom em que nascera para a riqueza e sabia com o adm inistrá-la e preservá-la.
Lowbock estava sentado na m esa da sala de j antar, no lado oposto a Marty, ouvindo com atenção seu relato do assalto, fazendo perguntas para esclarecer detalhes e tom ando notas num caderno em espiral com um a cara caneta Montblanc preta e dourada. Paige estava sentada ao lado de Marty, dando apoio em ocional. Eram as únicas três pessoas na sala, em bora policiais uniform izados os interrom pessem periodicam ente para consultar Lowbock. Por duas vezes o detetive desculpou-se para exam inar provas que haviam sido j ulgadas relevantes para o caso.
Bebendo Pepsi num a caneca de cerâm ica, aliviando a garganta enquanto relatava a luta de vida e m orte com o invasor, Marty tam bém sentia ressurgir a culpa inexplicável que o assaltara pela prim eira vez quando estava deitado na rua m olhada com as m ãos algem adas. O sentim ento era tão irracional quanto antes, considerando-se que o m aior crim e do qual podia ser acusado, de m aneira j ustificada, era o desprezo rotineiro pelos lim ites de velocidade de certas estradas. Mas, dessa vez, ele com preendia que parte de sua intranquilidade resultava da percepção de que o tenente Cy rus Lowbock encarava-o com calada suspeita.
Lowbock era educado, m as não falava m uito. Seus silêncios eram vagam ente acusadores. Quando não estava tom ando notas, seus olhos cor de cinza-zinco focavam -se diretos e desafiadores em Marty.
Não estava claro o m otivo pelo qual o detetive devia desconfiar de que ele não dizia toda a verdade. Entretanto, Marty supôs que, após anos de trabalho na polícia lidando com os piores elem entos da sociedade, dia após dia, era com preensível que o indivíduo se voltasse para o cinism o. Apesar do que prom etia a Constituição am ericana, era provável que um tira de longa data se sentisse j ustificado na convicção de que todos os hom ens — e m ulheres — eram culpados até provar sua inocência.
Marty concluiu sua história e tom ou um outro longo gole do refrigerante. Os líquidos frios j á haviam feito tudo que podiam por sua garganta ferida; agora o m aior desconforto estava no tecido de seu pescoço, onde as m ãos do estrangulador tinham deixado a pele averm elhada e onde certam ente apareceriam grandes hem atom as na m anhã seguinte. Em bora os quatro com prim idos de Anacin com eçassem a surtir efeito, um a dor parecida com um a chicotada fazia-o estrem ecer quando ele virava a cabeça alguns graus para qualquer direção, por isso Marty adotou um a postura e m ovim ento que m antinham seu pescoço rígido.
Durante o que pareceu ser um a excessiva extensão de tem po, Lowbock folheou suas notas, revendo-as em silêncio, batendo com a caneta Montblanc nas páginas.
Os esguichos e batidas da chuva ainda anim avam a noite, em bora a tem pestade j á tivesse dim inuído um pouco.
De vez em quando, as tábuas do assoalho do andar de cim a rangiam com o peso dos policiais que ainda estavam na m issão.
Por baixo da m esa, a m ão direita de Paige procurou a esquerda de Marty, que apertou a dela com o se quisesse dizer que estava tudo bem agora.
Mas nada estava bem . Nada havia sido explicado ou resolvido. Pelo que Marty sabia, os problem as deles estavam apenas com eçando.
... minha Paige... minha Charlotte, minha Emily...
No final, Lowbock olhou para Marty. Usando um tom de voz insípido, que era condenatório j ustam ente por causa de sua total falta de inflexão interpretável, o detetive disse:
— Que história.
— Sei que parece m aluquice — Marty reprim iu a urgência de assegurar a Lowbock que não havia exagerado o grau de sem elhança entre ele e o sósia ou qualquer outro aspecto de seu relato. Ele falara a verdade. Não era obrigado a pedir desculpas pelo fato de a verdade, nesse exem plo, ser tão surpreendente quanto qualquer fantasia.
— E você disse que não tem um irm ão gêm eo? — perguntou Lowbock.
— Não, senhor.
— Nenhum tipo de irm ão?
— Sou filho único.
— Meio-irm ão?
— Meus pais estavam casados quando tinham dezoito anos de idade. Nenhum deles j am ais foi casado com nenhum a outra pessoa. Eu lhe garanto, tenente, que não há um a explicação fácil para esse suj eito.
— Bem , claro, não seria preciso nenhum outro casam ento para você ter um m eio-irm ão... ou um irm ão com pleto, no que diz respeito a esse assunto — disse Lowbock, olhando tão dentro dos olhos de Marty, que desviar o olhar teria sido um a adm issão de algum a coisa.
Enquanto Marty digeria a afirm ação do detetive, Paige apertou-lhe a m ão por baixo da m esa, um a advertência para não deixar Lowbock confundi-lo. Ele tentou dizer para si m esm o que o detetive apenas afirm ava um fato, coisa que realm ente fazia, m as teria sido decente olhar para o caderno de notas ou para a j anela ao fazer esse tipo de dedução.
Replicando quase que com a m esm a rigidez com que m antinha a cabeça, Marty disse:
— Deixe-m e ver... então, acho que tenho três escolhas. Ou m eu pai transou com m inha m ãe antes de casar, e eles entregaram esse irm ão com pleto, esse irm ão bastardo, para adoção. Ou, depois que m eus pais se casaram , m eu pai saiu por aí trepando com algum a outra m ulher, e ela deu à luz m eu m eio-irm ão. Ou m inha m ãe engravidou de um outro suj eito, antes ou depois de casar com m eu pai, e essa gravidez é um profundo e obscuro segredo de fam ília.
Sustentando o contato de olho, Lowbock disse:
— Sinto m uito se o ofendi, Sr. Stillwater.
— Tam bém sinto por você ter feito isso.
— Não está sendo um pouco sensível em relação a isso?
— Estou sendo? — perguntou Marty em tom brusco, apesar de pensar se, de fato, não estava tendo um a reação exagerada.
— Alguns casais têm um prim eiro filho antes de estarem preparados para assum ir esse tipo de com prom isso, e m uitas vezes oferecem a criança para adoção.
— Não m eus pais.
— Você tem certeza de que isso é um fato?
— Eu conheço meus pais.
— Talvez devesse perguntar a eles.
— Talvez eu pergunte.
— Quando?
— Vou pensar.
Um sorriso, tão leve e breve quanto a som bra passageira de um pássaro em voo, cruzou o rosto de Lowbock.
Marty teve certeza de que viu sarcasm o nesse sorriso. Mas, por sua vida, não conseguia com preender por que o detetive o iria encarar com o algo diferente de um a vítim a inocente.
Lowbock baixou o olhar para suas anotações, deixando o silêncio crescer durante algum tem po.
Depois disse:
— Se esse sósia não for parente seu, irm ão ou m eio-irm ão, então você tem algum a ideia de com o explicar essa sem elhança notável?
Marty com eçou a sacudir a cabeça, m as estrem eceu quando a dor dardej ou em seu pescoço.
— Não. Não tenho a m enor ideia.
Paige disse:
— Quer um a aspirina?
— Tom ei alguns Anacin — disse Marty. — Ficarei bem .
Ao tornar a encontrar os olhos de Marty, Lowbock disse:
— Só pensei que você pudesse ter um a teoria.
— Não tenho. Sinto m uito.
— Sendo você um escritor e tudo m ais...
Marty não entendeu a observação do detetive.
— Com o disse?
— Você usa sua im aginação todos os dias, ganha a vida com ela.
— E daí?
— Daí que eu pensei que talvez você pudesse resolver esse pequeno m istério se pusesse a cabeça para funcionar.
— Não sou detetive. Sou bastante inteligente para construir m istérios, m as não os esclareço.
— Na televisão — disse Lowbock —, o escritor de m istérios... aliás, qualquer detetive am ador, no que diz respeito a esse assunto... é sem pre m ais esperto do que os tiras.
— Nem sem pre é assim na vida real — disse Marty.
Lowbock deixou passar alguns segundos de silêncio, rabiscando na parte inferior de um a página, antes de replicar:
— Não, não é.
— Eu não confundo fantasia e realidade — disse Marty um pouco rude dem ais.
— Não pensei que confundisse — assegurou-lhe Cy rus Lowbock, concentrando-se nos rabiscos.
Marty girou a cabeça com cuidado para ver se Paige dem onstrava algum sinal de haver notado hostilidade no tom de voz e m aneiras do detetive. Ela estava com as sobrancelhas franzidas, olhando pensativam ente para Lowbock, o que fez Marty sentir-se m elhor; talvez sua reação não fosse exagerada, afinal de contas, e ele não precisava acrescentar paranoia à lista de sintom as que relatara para Paul Guthridge.
Encoraj ado pela carranca de Paige, Marty encarou Lowbock novam ente e perguntou:
— Tenente, tem algum a coisa errada aqui?
Lowbock disse em tom m alicioso, levantando as sobrancelhas com o se estivesse surpreso com a pergunta:
— Sem dúvida, m inha im pressão é de que algum a coisa está errada, caso contrário você não nos teria cham ado.
Reprim indo-se para não dar a resposta cáustica que Lowbock m erecia, Marty disse:
— Quero dizer, estou sentindo hostilidade e não entendo a razão para isso. Qual é a razão?
— Hostilidade? Você sente? — Sem tirar os olhos de seus rabiscos, Lowbock franziu a testa. — Bem , eu não gostaria que a vítim a de um crim e fosse tão intim idada por nós quanto pelo bandido que a assaltou. Isso não seria um bom trabalho de relações públicas, não é m esm o? — Com isso, ele evitou um a resposta direta à pergunta de Marty.
Os rabiscos term inaram . Eram um a pistola sendo sacada.
— Sr. Stillwater, a arm a com que atirou no intruso... era a m esm a que lhe tiraram na rua?
— Ela não foi tirada de m im . Eu a deixei cair de livre e espontânea vontade quando m e disseram para soltá-la. E, sim , era a m esm a arm a.
— Um pistola Sm ith & Wesson nove m ilím etros? — Sim .
— Você com prou essa arm a num vendedor de arm as licenciado?
— Sim , claro. — Marty disse o nom e da loj a.
— Tem um recibo da loj a e provas do exam e antes da com pra feito pelo órgão apropriado de aplicação da lei?
— O que isso tem a ver com o que aconteceu aqui hoj e?
— Rotina — disse Lowbock. — Mais tarde, terei que preencher todas as pequenas linhas do relatório do crim e. Só rotina.
Marty não estava gostando da m aneira com o a entrevista parecia, cada vez m ais, transform ar-se num interrogatório, m as não sabia o que fazer. Frustrado, ele olhou para Paige, esperando a resposta para a indagação de Lowbock, porque era ela quem fazia os registros financeiros de sua contabilidade.
Ela disse:
— Toda a papelada da loj a de arm as está arquivada j unto com todos os nossos cheques cancelados desse ano.
— Nós a com pram os talvez há três anos — disse Marty.
— Naquela coisa guardada no ático da garagem — acrescentou Paige.
— Mas você pode ir pegar para m im ? — perguntou Lowbock.
— Bem ... sim , basta escavar um pouco — disse Paige, com eçando a se levantar da cadeira.
— Oh, não precisa ser neste exato m inuto — disse Lowbock. — Não é tão urgente assim — e tornou a virar-se para Marty. — E quanto ao Korth 38 no porta-luvas de seu Taurus? Você com prou na m esm a loj a de arm as?
Surpreso, Marty disse:
— O que você foi fazer no Taurus?
Lowbock fingiu surpresa com a surpresa de Marty, m as ela pareceu ter sido calculada com o obj etivo de parecer falsa só para espicaçar Marty, im itando-o.
— No Taurus? Estava investigando o caso. Não foi o que nos pediram para fazer? Quero dizer, tem algum lugar, algum a coisa que você preferia que não vej am os? Porque, claro, nós respeitaríam os seus desej os em relação a isso.
O detetive foi tão sutil em seu escárnio e tão vago em suas insinuações que qualquer resposta forte de parte de Marty pareceria ser a reação de um hom em com algum a coisa a esconder. Claro, Lowbock pensava que ele tinha algo a esconder e estava brincando com ele, tentando provocá-lo para um a confissão inadvertida.
Marty quase desej ava ter um a confissão a fazer. Era m uito frustrante a m aneira com o faziam aquele j ogo.
— Você com prou o 38 na m esm a loj a em que adquiriu o Sm ith & Wesson? — insistiu Lowbock.
— Com prei — Marty sorveu sua Pepsi.
— Tem a papelada disso?
— Tenho, tenho certeza de que tem os.
— Você sem pre carrega essa arm a no carro?
— Não.
— Estava no carro hoj e.
Marty tinha consciência de que Paige olhava para ele com um certo grau de surpresa. Ele não poderia explicar seu ataque de pânico agora ou contar para ela sobre a estranha certeza de tragédia im inente que previu e que o levou a tom ar precauções extraordinárias. Considerando-se a virada inesperada e nem um pouco benigna que o questionam ento havia provocado, isso não era inform ação que ele queria com partilhar com o detetive, por m edo de parecer desequilibrado e ver-se entregue involuntariam ente à avaliação psiquiátrica.
Marty tom ou um pouco de Pepsi — não para acalm ar a garganta, m as para ganhar um pouco de tem po para pensar antes de responder a Lowbock.
— Eu não sabia que estava lá — disse ele no final.
— Você não sabia que a arm a estava em seu porta-luvas? — perguntou Lowbock.
— Não.
— Tem consciência de que é ilegal levar um a arm a carregada em seu carro?
E que porra vocês estavam fazendo quando foram bisbilhotar em meu carro?
— Com o eu disse, não sabia que estava lá, de m odo que tam bém não sabia que estava carregada.
— Não foi você que a carregou?
— Bem , é provável que tenha sido eu.
— Você está dizendo que não lem bra se carregou a arm a nem com o ela chegou ao Taurus?
— O que talvez tenha acontecido... na últim a vez que fui ao estande de tiro, talvez eu tenha carregado a arm a para m ais um a roda de tiro ao alvo e depois tenha esquecido.
— E trouxe do estande de tiro para casa no porta-luvas.
— É verdade.
— Quando foi a últim a vez que você foi ao estande de tiro?
— Não sei... três, quatro sem anas atrás.
— Quer dizer que esteve andando com um a arm a carregada por aí durante um m ês?
— Mas eu esqueci que estava dentro do carro.
Um a m entira, dita para evitar um a acusação de delito leve por porte de arm a, levou-o a um a série de m entiras. Eram todas falsidades sem im portância, m as Marty tinha bastante respeito pelas habilidades de Cy rus Lowbock para saber que ele as percebia com o inverdades. Com o o detetive j á parecia convencido, sem razão, de que a suposta vítim a devia ser vista com o suspeita, ele im aginaria que cada m entira era m ais um a prova de que som brios segredos estavam sendo escondidos dele.
Jogando a cabeça de leve para trás, com o olhar frio porém acusador, usando sua aparência aristocrática para intim idar, m as m antendo a voz suave e sem inflexão, Lowbock disse:
— Sr. Stillwater, você é sem pre tão descuidado com arm as?
— Não creio que tenha sido descuidado.
Outra vez, as sobrancelhas levantadas.
— Não?
— Não.
O detetive pegou sua caneta e fez um a anotação enigm ática em seu caderno de notas em espiral. Em seguida, com eçou a rabiscar de novo.
— Diga-m e, Sr. Stillwater, tem perm issão para carregar um a arm a escondida?
— Não, claro que não.
— Entendo.
Marty bebeu a Pepsi.
Por baixo da m esa, Paige procurou de novo sua m ão. Marty ficou grato pelo contato.
Os novos rabiscos estavam assum indo form a. Um par de algem as.
Lowbock disse:
— Você é fã de arm as, é colecionador?
— Não, não m esm o.
— Mas tem um bocado de arm as.
— Não tantas.
Lowbock enum erou-as nos dedos de um a das m ãos.
— Bem , a Sm ith & Wesson, o Korth... o rifle de assalto Colt M16 no arm ário da saleta de entrada.
Oh, meu bom Deus.
Deixando de encarar as m ãos e encontrando os olhos de Marty com o olhar fixo, intenso e frio, Lowbock disse:
— Você sabe que o M16 j á estava carregado?
— Eu com prei todas as arm as sobretudo para pesquisa, pesquisa para livro. Não gosto de escrever sobre um a arm a sem tê-la usado — era verdade, m as m esm o para Marty soou com o um disparate.
— E as m antém carregadas, guardadas em gavetas e arm ários espalhados por toda a casa?
Não ocorreu a Marty nenhum a resposta segura. Se dissesse que sabia que o rifle estava carregado, Lowbock iria querer saber por que alguém precisa m anter um a arm a m ilitar em tal estado de prontidão num bairro pacífico e bastante residencial. Com toda certeza, um M16 não era um a arm a adequada para defesa dom iciliar, exceto talvez quando se vive em Beirute ou na cidade de Kuwait ou na Los Angeles central sul. Por outro lado, se dissesse que não sabia que o rifle estava carregado, haveria m ais perguntas ordinárias sobre sua negligência com arm as e insinuações descaradas de que ele m entia.
Além disso, o que quer que dissesse podia parecer tolo ou enganoso ao extrem o se eles tam bém tivessem encontrado a espingarda Mossberg debaixo da cam a no quarto dos donos da casa ou a Beretta que ele escondera num arm ário da cozinha.
Tentando não perder a calm a, Marty disse:
— O que m inhas arm as têm a ver com o que aconteceu aqui hoj e? Tenente, m e parece que estam os saindo do cam inho.
— É assim que parece? — perguntou Lowbock com o se estivesse genuinam ente intrigado com a atitude de Marty.
— Sim , é isso que parece — disse Paige em tom brusco, percebendo que estava em m elhor condição do que Marty para ser ríspida com o detetive. — Você fala com o se Marty fosse a pessoa que tivesse invadido a casa de alguém e tentado m atar essa pessoa por estrangulam ento.
Marty disse:
— Você tem hom ens fazendo buscas nas vizinhanças, você em itiu um boletim ?
— Um boletim ?
Marty ficou irritado com a estupidez intencional do detetive.
— Um boletim para O Outro.
Lowbock disse, franzindo as sobrancelhas:
— Para o quê?
— Para o sósia, o outro eu.
— Oh, sim , ele. — Na verdade, isso não foi um a resposta, m as Lowbock continuou com seu caderno de notas antes que Marty ou Paige pudessem insistir num a resposta m ais específica. — A Heckler e Koch é um a das outras arm as que adquiriu para pesquisa?
— Heckler e Koch?
— A P7. Dispara m unição nove m ilím etros.
— Não tenho um a P7.
— Não tem ? Bem , está caída no chão de seu gabinete do andar de cim a.
— Era a arm a dele — disse Marty. — Eu lhe disse que ele tinha um a arm a.
— Você sabia que o cano dessa P7 tem rosca para um silenciador?
— A única coisa que eu sabia era que ele tinha um a arm a. Não gastei tem po para observar se tinha um silenciador. Não tive o tem po disponível para catalogar todos os seus traços.
— Na verdade, não havia um silenciador na arm a, m as ela tem rosca para um . Sr. Stillwater, sabia que é ilegal equipar um a arm a de fogo com um silenciador?
— Tenente, a arm a não é m inha.
Marty com eçava a se perguntar se devia recusar-se a responder outras perguntas sem a presença de um advogado. Mas isso era um a loucura. Ele não tinha feito coisa algum a. Era inocente. Era a vítim a, pelo am or de Deus. A polícia nem estaria lá se ele não dissesse a Paige para cham á-los.
— Um a Heckler e Koch P7 com rosca para um silenciador... trata-se de um a arm a m uito profissional, Sr. Stillwater. Sicário, assassino de aluguel, com o quiser cham á-lo. Com o você o chamaria?
— O que você quer dizer? — perguntou Marty.
— Bem , eu estava pensando, se você estivesse escrevendo sobre esse tipo de gente, um profissional, quais seriam os vários term os que usaria para referir-se a ele?
Marty sentiu um a insinuação velada na pergunta, algum a coisa que se aproxim ava do centro daquilo que Lowbock estava criando na agenda, m as não sabia ao certo o que era.
Aparentem ente Paige tam bém sentiu a m esm a coisa:
— Tenente, o que exatam ente está tentando dizer?
Mais um a vez, Cy rus afastou-se da confrontação de m aneira frustrante. Na verdade, ele baixou o olhar para suas anotações e fingiu que nada m ais havia em sua pergunta além da curiosidade casual sobre a escolha de sinônim os de um escritor.
— Em todo caso, você teve m uita sorte. Um profissional com o esse, um hom em que carregava um a P7 com rosca para silenciador, não ter conseguido tirar sua pele...
— Eu o surpreendi.
— É evidente.
— Porque tinha um a arm a na gaveta da m inha escrivaninha.
— Sem pre vale a pena estar preparado — disse Lowbock. Depois, acrescentou rápido: — Mas você teve m uita sorte de levar a m elhor sobre ele num com bate corpo-a-corpo. Um profissional com o ele deve ser um bom lutador, talvez até conheça toe kwon do ou algo do gênero, com o sem pre acontece nos livros e film es.
— Ele ficou um pouco lento. Dois tiros no peito.
O detetive concordou com um aceno de cabeça:
— Sim , é verdade, estou lem brado. Podia ter derrubado qualquer pessoa com um .
— Ele estava bem vivo — Marty tocou a garganta.
Lowbock m udou de assunto com um a rapidez que tencionava ser desconcertante:
— Sr. Stillwater, esteve bebendo hoj e à tarde?
Marty disse, cedendo à raiva:
— Tenente, a coisa não pode ser explicada com essa facilidade.
— Você não esteve bebendo hoj e à tarde?
— Não.
— Nem um pouco?
— Não.
— Sr. Stillwater, não quero parecer inclinado a discussões, não quero m esm o, m as assim que nos encontram os senti cheiro de álcool em seu hálito. Cervej a, acredito. E tem um a lata de Coors caída na sala de estar, com cervej a derram ada no chão de m adeira.
— Eu bebi um pouco de cervej a depois.
— Depois do quê?
— Depois que a coisa acabou. Ele estava caído no chão da saleta de entrada com as costas quebradas. Pelo m enos pensei que estivessem quebradas.
— Que dizer então que você im aginou que, depois de todo o tiroteio e luta, um a cervej a gelada era a coisa certa.
Paige olhou de m odo fixo e penetrante para o detetive.
— Você está se esforçando para fazer todo esse negócio parecer um a coisa boba...
— ... e, porra, eu gostaria que você se abrisse e dissesse por que não acredita em m im — acrescentou Marty.
— Eu não desacredito em você, Sr. Stillwater. Sei que tudo isso é m uito frustrante. Você se sente subj ugado, ainda está abalado, cansado. Mas ainda estou absorvendo, ouvindo e absorvendo. É isso que eu faço. É o m eu trabalho. E, por enquanto, ainda não form ei nenhum a teoria ou opinião.
Marty tinha certeza de que isso não era verdade. Lowbock j á carregava consigo todo um conj unto de opiniões bem form adas quando sentou-se pela prim eira vez à m esa da sala de j antar.
Após esvaziar o resto da Pepsi na caneca, Marty disse:
— Quase tom ei um pouco de leite ou suco de laranj a, m as m inha garganta estava tão irritada, doía pra burro, com o se estivesse queim ando. Eu não conseguia engolir. Quando abri a geladeira, a cervej a m e pareceu m uito m elhor do que qualquer outra coisa e m ais refrescante.
Com a caneta Montblanc, Lowbock rabiscava de novo num canto da página de seu caderno de notas.
— Quer dizer que você só tom ou essa lata de Coors.
— De j eito nenhum . Eu bebi a m etade, talvez dois terços. Quando m inha garganta ficou um pouco m elhor, voltei para ver com o O Outro... com o o sósia estava passando. Carreguei a cervej a com igo. Fiquei tão surpreso ao ver que o sacana havia desaparecido, depois de parecer m eio m orto, que a lata sim plesm ente deslizou para fora de m inha m ão.
Apesar de estar de cabeça para baixo, Marty pôde ver o que o detetive desenhava. Um a garrafa. Um a garrafa de cervej a de gargalo com prido.
— Quer dizer então que foi m eia garrafa de Coors — disse Lowbock.
— Certo.
— Talvez dois terços.
— Sim .
— Mas nada m ais.
— Não.
Lowbock term inou seu rabisco, levantou o olhar do caderno de anotações e disse:
— E quanto às três garrafas vazias de Corona na lata de lixo debaixo da pia da cozinha?
3.
— Essa saída aqui — interpretou Drew Oslett, depois disse para Clocker: — Está vendo a placa?
Clocker não respondeu.
Voltando a atenção para a tela do URAS, Oslett disse:
— É onde ele está, tudo bem , talvez dando um a m ij ada no banheiro dos hom ens, talvez até deitado no assento traseiro do carro que estiver dirigindo, tirando um a soneca.
Eles estavam prestes a entrar em ação contra um adversário im previsível e form idável, m as Clocker parecia im perturbável Mesm o enquanto dirigia, era com o se estivesse perdido num estado m editativo. Seu corpo de urso estava tão relaxado quanto o de um m onge tibetano num transe transcendental. Suas m ãos enorm es repousavam no volante, com os dedos grossos apenas um pouco dobrados, m antendo a pressão m ínim a. Oslett não ficaria surpreso se soubesse que o enorm e suj eito dirigia o carro com algum m isterioso poder da m ente. Nada no rosto largo e de feições em botadas de Clocker indicava que ele soubesse o que significava a palavra “tensão”: castanho-claro tão liso quanto m árm ore polido; bochechas sem linhas, olho azul-safira um pouco brilhante à luz refletida do painel de instrum entos, olhando fixo ao longe, não apenas para a estrada à frente, m as talvez para o outro lado deste m undo. A boca larga estava aberta o suficiente para aceitar um a fina hóstia de com unhão. Os lábios estavam curvos no m ais leve dos sorrisos, m as era im possível saber se ele estava contente com algum a coisa que contem plava num sono espiritual, ou com a perspectiva da violência im inente.
Karl Clocker possuía um verdadeiro talento para a violência.
Por essa razão, apesar de seu gosto para roupas, ele era um hom em de seu tem po.
— Lá está a área de descanso — disse Oslett quando se aproxim aram do final da estrada de acesso.
— Em que outra parte estaria?
— Hem ?
— Está onde está.
O enorm e suj eito não era m uito loquaz e, quando tinha algo a dizer, na m etade das vezes era enigm ático. Oslett suspeitava que Clocker era um existencialista teórico ou — na outra extrem idade do espectro — um m ístico da Nova Era. Em bora a verdade pudesse ser que ele era tão totalm ente fechado em si que não precisava de m uito contato hum ano ou interação; seus próprios pensam entos e observações o entretiam e absorviam . Um a coisa era certa: Clocker não era tão estúpido quanto parecia; na verdade, tinha um QI bem acim a da m édia.
A área era ilum inada por oito lâm padas de vapor de sódio. Após tantos quilôm etros som brios de escuridão desoladora, que com eçara a parecer a aridez negra e crestada de um a paisagem pós-nuclear, o hum or de Oslett foi m elhorado pelo brilho das lâm padas, em bora fosse a doentia rem iniscência am arelo-urina da luz desagradável de um pesadelo. Ninguém j am ais confundiria aquele lugar com algum a parte de Manhattan, m as ele confirm ava que a civilização ainda existia.