Televisão e realidade
Lógicas de produção do real no telejornal: a incorporação do público como legitimador do conhecimento oferecido nos telenoticiários
Lógicas de produção do real no
telejornal: a incorporação do público
como legitimador do conhecimento
oferecido nos telenoticiários
Iluska Coutinho
Inserida de maneira central na vida cotidiana dos brasileiros, à televisão atribuí-se cotidianamente uma naturalidade, em uma operação que se estende a seus discursos e mensagens, e a partir delas até mesmo aos sentidos e visões de mundo construídas para além de sua tela. Mas a naturalização do meio, nos alerta Silverstone (1994), nos faz atribuir a ele o papel de extensão, de nossos olhos e sentidos, de forma fiel à construção teórica de McLuhan, tal como se entre nossos olhos e imagens exibidas na tela não houvesse uma mediação, nesse caso tecnológica e política.
Talvez até pela sua banalidade, observa Wolton (1996), a TV se constitua em objeto "difícil" de analisar, como avalia o autor ao tratar das ideologias técnica e política que em geral emergem nos trabalhos acadêmicos sobre a televisão e sua influência na sociedade. Nessa perspectiva a proposta nesse artigo é apresentar uma reflexão mais aprofundada acerca do processo de apropriação dos fazeres jornalísticos nessa mídia, sobre o uso social do telejornalismo, especialmente no que se refere aos processos de (re)conhecimento identitários.
E se os telejornais no Brasil há muito se converteram na praça pública privilegiada, como sintetiza título de livro que reúne as primeiras produções da Rede de Pesquisadores em Telejornalismo (SBPJor), é fundamental reconhecer que há diversas evidências, de natureza teórica ou não, acerca da atuação da TV como um dos atores centrais de um projeto de ordenamento do mundo, o que portanto se constituiria como um papel político, que estaria implicado na forma de apropriação das tecnologias de representação e transmissão de imagens e sons. Uma série de pesquisadores já se dedicou a estudar as relações entre TV e poder no Brasil, seja sob o enfoque da Economia Política (BOLAÑO; BRITTOS, 2007; CAPARELLI, 1989; JAMBEIRO, 2001; MATTOS, 2000; PORCELLO, 2008) ou da análise de gêneros e recepção audiovisuais. (LEAL, 1986; PORTO, 2007; TRAVANCAS, 2007)
Esse papel político, ordenador, do discurso televisivo ganha especial relevo em sociedades como a brasileira, que não teria experimentado a cultura do letramento, tendo passado da cultura oral à audiovisual.
No I Fórum das TV's Públicas, realizado em 2006, o então ministro da Cultura Gilberto Gil avaliou:
A televisão é também um espaço de realização da vida pública,
lugar em que a república brasileira – ainda inacabada – tenta
encontrar um espaço de informação, de debate e de
repercussão. A televisão captou e foi ela própria um lugar de
negociações e mudanças da sociedade brasileira [...] O
nascimento do país urbano que conhecemos hoje é uma
história narrada – e impulsionada – pela televisão. (FORUM
DAS TV'S PÚBLICAS, 2006, p. 6)
A proposta aqui é refletir sobre os modos de negociação desse projeto de ordenamento do mundo via telejornalismo. Isso porque acredita-se que é especialmente por meio da produção de sentido, apropriação e consolidação de identidades, tecidas audiovisualmente e negociadas com o público, que o telejornalismo, edição após edição, atuaria como um dos elementos capazes de concretizar esse projeto, televisual.
Ao entender a televisão e seus gêneros, entre eles o telejornalismo, como mediação tecnológica e política, assume-se, ao contrário do pressuposto dos profissionais da área ou de abordagens como a
Teoria do Espelho 1, que acompanhar suas emissões em muito se distancia da metáfora da janela, a partir da qual seria possível ver o mundo. A construção imagética da janela para o mundo inclusive é referência frequente tanto nos manuais formais, quanto nas orientações cotidianas dos profissionais que atuam no jornalismo em TV. Ao invés disso, por meio de seu ritmo, temporalidades, lógicas de produção e também de uso (mediações), o telejornalismo mostra o mundo por meio de sua(s) janela(s), cujo(s) enquadramento(s) envolve(m) recortes, técnicos e políticos.
Nessa perspectiva é que se propõe uma inversão de direção na maneira de construir a imagem-síntese da inserção da TV, e em particular no telejornalismo, na sociedade. Em outras palavras, é preciso compreender que os noticiários televisivos apresentam a cada edição não uma janela que permita visualizar o mundo, mas constroem por meio de textos, sons e imagens o mundo por meio de sua janela particular, o que envolve desde as características intrínsecas ao meio, até diretrizes relativas à política editorial da emissora responsável pela produção/ veiculação do telejornal.
Esse novo ângulo de concepção do telejornal, e de seus conteúdos, longe de se constituir em uma acusação, com relação a eventuais padrões de manipulação global, com propõe Perseu Abramo (2003) ao tratar de um tipo de distorção que seria característico do noticiário em emissoras de televisão, apenas reafirma seu caráter de representação da realidade. As matérias e reportagens veiculadas são um olhar mediado por diversas tecnologias (de captação, edição, transmissão), profissionais (pauteiros, repórteres, cinegrafistas, editores, apresentadores) e ainda por rotinas produtivas que buscam reconstituir "– o que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo", como William Bonner define o conteúdo do noticiário do qual é editor-chefe e apresentador, o Jornal Nacional, primeiro programa a ser veiculado em rede nacional no país.
Apesar desse reconhecimento, se a opção for seguir o mapa noturno proposto por Martín-Barbero para investigar o campo da comunicação, a compreensão do telejornal e de sua relação com o público, telespectador, deveria partir das mediações: a temporalidade social, as lógicas de produção e de uso. E é exatamente nesse último aspecto que o peso relativo do telejornal, e de sua identidade como produto responsável pela informação cotidiana de significativa parcela da população brasileira, exigem uma reflexão mais cuidadosa.
É nessa perspectiva que ganha relevo a proposta de investigação de uma epistemologia do telejornalismo (EKSTRON, 2002), ou seja, do conjunto de regras, rotinas e procedimentos institucionalizados que estruturam uma forma particular de produção de conhecimento, o conhecimento social da realidade via tela de televisão, e também os recursos e estratégias que legitimam esse conhecimento, (tele)jornalisticamente produzido. A partir do roteiro de estudos estabelecido por Mats Ekstron (2002) propõe-se uma reflexão sobre quais seriam as bases que estruturariam a epistemologia do telejornalismo brasileiro, cuja centralidade no processo de produção de (re)conhecimento social não encontraria paralelo com as experiências que deram suporte empírico a abordagens teóricas americanas e/ou européias.
Vizeu e Correia (2008) reafirmam a necessidade de refletir sobre o conhecimento do (tele)jornalismo, e sua natureza, ao pensar a construção de uma epistemologia do telejornalismo. Para eles o jornalismo, como forma de conhecimento, teria quatro funções: exotérica, pedagógica, de familiarização e de segurança. As duas últimas funções estariam reunidas no conceito de lugar de referência:
[...] conceito que entendemos dar uma dimensão mais ampla ao
jornalismo como uma espécie de lugar de orientação nas
sociedades complexas a que homens e mulheres recorrem para
o bem e para o mal. (VIZEU; CORREIA, 2008, p. 19)
Nesse texto a busca por compreender as bases da epistemologia do telejornalismo brasileiro está ancorada em duas hipóteses centrais. A primeira delas, tributária também de diversas contribuições teóricas anteriormente apresentadas, é a de que o telejornalismo brasileiro se constitui em forma de conhecimento detentora de graus de especificidade, formas de perceber e compreender a realidade, multiplicadas a cada edição, o que ofereceria por empréstimo ao público uma visão peculiar de estrutura e organização do real, do mundo.
A outra premissa é de que um dos focos centrais dessa epistemologia do telejornalismo brasileiro estaria nas práticas sociais internalizadas por seus profissionais e estudiosos, nos enquadramentos cognitivos, sistemas de classificação e práticas epistemológicas mobilizados pelos envolvidos com o fazer (tele)jornalístico. Essas práticas teriam repercussões nos discursos, dos jornalistas de TV e dos próprios telejornais. que seriam validados por esse conjunto de procedimentos.
Vale ressaltar que nosso percurso reflexivo tem como foco prioritário o diálogo do telejornal com o público, seja como princípio orientador e legitimador do telejornalismo ou ainda a partir dos olhares sobre suas lógicas de uso desse gênero informativo audiovisual. Dirigido ao grande público o telejornalismo sempre foi alvo de críticas com relação a profundidade de seus relatos e ainda com relação ao tipo de tratamento das temáticas convertidas em notícia, muitas vezes próximo do espetáculo. Apesar disso, é apenas a partir da queda nos índices de audiência e de credibilidade dos noticiários das grandes redes de televisão que há a perspectiva de reflexão dos próprios profissionais envolvidos no fazer jornalístico sobre a questão do público, quer como destinatário da produção midiática, quer como essência, valor social jornalismo.
Associados aos problemas de audiência, os principais telejornais veiculados no Brasil também experimentam dificuldades quanto aos processos mais amplos de (re)conhecimento da(s) identidade(s) do jornalismo na contemporaneidade, particularmente na TV. Ao pensar quais seriam o papel da TV Pública no país e ainda os conteúdos a serem veiculados por ela, Eugênio Bucci, então presidente da Radiobrás, avaliou que o entretenimento teria subjugado o jornalismo:
Nos grandes conglomerados da mídia, que se proclamam como
"players" do negócio do "entertainment", o jornalismo se vê
cada vez mais restrito à condição de mero departamento [...] O
telejornalismo se abastece do showbusiness, em sua dimensão
estética, pois foi engolido por essa indústria que lhe é superior.
(BUCCI, 2006, p. 15-17)
A baixa profundidade do noticiário televisual, assim como as queixas quanto ao caráter espetacular das coberturas televisivas, são permanências significativas nos discursos produzidos por estudiosos, da Comunicação e de outros campos de conhecimento que têm a mídia como objeto de estudos, e também nos depoimentos de intelectuais e autoridades, particularmente quando estas atuam também como fonte de informação, sujeitas às lógicas de produção/ edição dos telejornais. Essas críticas, contudo, parecem distanciadas das lógicas de uso dos telejornais por grande parte da população brasileira, para quem os noticiários de televisão se constituem na nova praça pública (MOTTA; PORCELLO; VIZEU,
2006)2 onde o país de (re)conhece cotidianamente. Mais que isso, muitos telespectadores teriam aprendido a confiar a distância, atuando como fiadores daqueles com quem se "encontram" diariamente via telinha, convertendo os telejornais em sistemas
peritos, tal qual conceituados por Giddens.3
Para Silverstone, é exatamente por meio da análise dos telejornais que seria possível compreender a criação de confiança que possibilitaria de acordo com o autor, a constituição da TV em objeto transicional, sobretudo para os telespectadores adultos: "O noticiário é uma instituição chave na mediação de ameaça, risco e perigo, [...] Sua significação e função nesse sentido são tão importantes quanto seu papel de provedor de informação." (SILVERSTONE, 1994, p. 40)
Essa perspectiva reforça as funções de segurança e familiaridade destacadas por Vizeu e Correia (2008), e oferece um bom enquadramento inicial para observar a relação entre Telejornalismo e temporalidade social no Brasil. E é exatamente em função da centralidade que os noticiários televisivos assumem no Brasil que a opção será por avançar na reflexão sobre a aceitação e reconhecimento públicos no Telejornalismo Brasileiro.
1 O tempo do telejornal: entre as lógicas de
produção e a temporalidade social
A questão do tempo, e do seu controle, é central nas narrativas sobre o telejornalismo, sejam elas acadêmicas ou profissionais. Nos relatos produzidos por jornalistas sobre suas rotinas de trabalho, seja em entrevistas ou em livros de caráter testemunhal (que se constituem em referência importante no ensino e pesquisa em telejornalismo), a necessidade de domínio do tempo emerge como um requisito básico para a atuação no jornalismo televisivo. Os (tele)jornalistas correriam contra o tempo durante as etapas de pauta/ produção, captação e edição do material cotidiano, e ainda teriam que lidar com as dificuldades para organizar a mensagem telejornalística no tempo, agora de exibição.
Um dos documentos significativos para perceber a relevância do tempo, e de seu controle, para o fazer telejornalístico é o vídeo Um dia no JN, uma produção em formato documentário que integra o dvd comemorativo dos 35 anos do Jornal Nacional. Por meio de um texto em gerador de caracteres somos localizados no tempo: 3 de junho de 2004. Um dia sem nenhum grande acontecimento segundo informa inicialmente o texto. Em seguida, a dúvida surge como um convite para que o espectador acompanhe "os bastidores de um dia de trabalho da equipe".
Um insert de vídeo no canto superior direito do vídeo, de forma similar a um relógio/ cronômetro, registra: 7:37. Na sequência, um texto mais uma vez em gerador de caracteres informa: "Faltam 12 horas e 27 minutos para o início do Jornal Nacional". Após depoimentos de produtores e editores flagramos um repórter na redação alertando possivelmente à sua fonte sobre um atraso de "mais ou menos meia hora", motivado por engarrafamento no Túnel Rebouças. Cenas em São Paulo, Rio e Brasília mostram um agita-do cotidiano de repórteres, editores e produtores intercaladas com inserções do relógio/ cronômetro, índice de ampulheta. Durante a reunião de pauta o telespectador assiste a uma negociação entre o editor chefe e o responsável pelo escritório de Nova Iorque.
-OK, vamos fazer enxutinho
-Enxutinho, um minutinho, um minuto e vinte.
-Um e vinte tá grande!
-Um e dez…
-Fechamos, um e dez.
Um texto em gerador de caracteres esclarece: "Dez segundos são um tempo precioso no Jornal Nacional". A tela seguinte convida: "Confira no escuro". Dessa forma os dez segundos seguintes são de tela preta, sem nenhum áudio. O espectador estaria convencido, e agora compartilharia com os editores sobre o sentido daquela negociação de tempo que acompanhara. Nesse caso trata-se do tempo de exibição e não daquele de produção do material jornalístico.
Sob o olhar acadêmico, a necessidade de economizar tempo durante a produção das notícias levaria os jornalistas a recorrerem a uma série de operações de seleção/ edição para estabelecer o que seria ou não noticiável, e ainda para dar tratamento adequado ao material apurado de forma a garantir sua inserção na gramática particular do veículo, televisão em nosso caso, mas também no próprio universo do espectador a quem a notícia se dirige. Os estudos de abordagem construcionista dão relevo ao papel da cultura profissional nessas operações de recorte e enquadramento da realidade, apontando a existência de critérios de noticibilidade e valores-notícia, alguns deles relativos ao veículo no qual a informação jornalística se insere. Entre esses estudos, a questão do tempo como valor ganha ênfase na teoria interacionista na qual defende-se que os jornalistas e empresas noticiosas estariam sujeitos à sua tirania:
Pressionadas pela tirania da "hora de fechamento", as
empresas do campo jornalístico são ainda mais obriga-das a
elaborar estratégias para fazer face ao desafio colocado pela
dupla natureza de sua matéria prima: 1) os acontecimentos […]
podem surgir em qualquer parte; 2) os acontecimentos podem
surgir a qualquer momento; 3) face à imprevisibilidade, as
empresas jornalísticas precisam impor ordem no espaço e no
tempo. (TRAQUINA, 2004, p. 181, grifo nosso)
No caso do telejornalismo brasileiro, de forma mais específica, um trabalho de referência no estudo das rotinas produtivas é o de Alfredo Vizeu (2000). O estudo trata do processo de produção do RJTV1, um noticiário televisivo regional da Rede Globo, e em diversos momentos registra a preocupação com os tempos de exibição e produção, esse último surgiria em alguns momentos como um fantasma que paira sobre a redação...
Pressionadas pelo fantasma do tempo as empresas
jornalísticas são ainda mais obrigadas a elaborar estratégias
para tornar o processo produtivo o mais ágil possível. Não é de
graça que os motoqueiros estão na redação para ir buscar as
fitas na rua. Por causa das dificuldades do trânsito é necessário
ganhar tempo. (VIZEU, 2000, p.121, grifo do autor)
Para além da estratégia utilizada no tráfego de material audiovisual descrita por Vizeu é preciso mobilizar uma série de procedimentos/rotinas produtivas para realizar o enquadramento dos fazeres (tele)jornalísticos – pauta, apuração e captação audiovisual, edição, apresentação e transmissão – ao tempo de produção disponível. As chamadas teorias do jornalismo já se dedicaram ao estudo dos critérios de noticiabilidade e dos valores-notícia, estes elementos centrais na cultura jornalística de acordo com Traquina (2005).
É certo que essa sistematização, que inclui ainda a distinção entre valores notícia de seleção (critérios substantivos e contextuais) e valores notícia de construção, tem reconhecimento e legitimidade em um espaço mais reflexivo. Entre aqueles envolvidos de maneira mais direta com a lógica de produção do telejornal, esses parâmetros são vistos como abstrações impossíveis para a operacionalização de um cotidiano em que "falta tempo". Dito de outra maneira, para os jornalistas a produção de um noticiário televisivo seria um processo mais intuitivo, em que os produtores se
colocariam na posição do público4 para selecionar quais seriam os fatos mais relevantes a serem cobertos.
Tudo aquilo que pode ajudar o cidadão, não apenas a
compreender o mundo, porque isso faz parte das notícias, mas
aquilo que faz um cidadão estar atento para ações sociais, para
voluntariado, às vezes para a própria saúde, com campanhas
de erradicação dessa ou daquela doença, de vacinação. Tudo o
que tenha um caráter social tem espaço garantido no Jornal
Nacional. (BONNER apud TRAVANCAS, 2007, p. 130)
Essa naturalização dos procedimentos que envolvem o fazer jornalístico encontra respaldo em abordagens como a chamada Teoria do Espelho. Apesar de obter grande adesão entre os profissionais da área, essa vertente tor-na-se cada vez menos exequível na medida em que, a complexificação do mundo, incluindo a expansão da área de alcance dos interesses operada também via tecnologia, há cada vez mais conteúdos, personagens,
fatos e ângulos possíveis de serem "mostrados". 5 A própria concepção diferenciada do processo noticioso, que de acordo Traquina (2005) seria naturalizado pelos profissionais, evidencia a dificuldade de contar com uma única visão da realidade.
À despeito dessas divergências, a seleção do que noticiar e da maneira de "mostrar" a realidade não estaria condicionada apenas pelo tempo de produção do telejornal, mas também pelo seu tempo de exibição. Como narrativas que se organizam no tempo, as notícias em um telejornal precisam, além de ficar prontas no momento preciso que lhes garanta a edição/ transmissão, se submeter ao espaço-tempo de veiculação disponível. Isso definiria, por exemplo, o formato de um determinado conteúdo, como explica William Bonner:
Eu trabalho com necessidade absoluta de tempo. Se eu
consigo resumir um VT numa cabeça6, eu tiro o VT, dou uma
nota pelada7 e coloco no lugar um outro VT que não seja
resumível. (BONNER apud COUTINHO, 2003, p. 178)
Depois disso, há ainda que se considerar seu instante de exibição ao longo do telejornal. Afinal o momento de inserção de uma notícia, sua presença no primeiro ou último bloco é capaz de denotar valores, cujos significados, no Brasil, são em grande parte compartilhados com a audiência. Esse diálogo é ainda potencializado uma vez que em função da temporalidade social e de sua adesão à grade de programação da emissora, traria elementos importantes para o tempo e momento de exibição de informações jornalísticas no Jornal Nacional, como explicou Bonner ao tratar da forma de encadeamento das informações no programa:
[...] coisas mais difíceis, joga lá no último bloco. Porque no
último bloco? Porque no último bloco eu tenho um público que é
do Jornal Nacional, não importa o que eu fizer ele vai ver o
Jornal Nacional porque ele gosta do Jornal Nacional ou porque
pelo menos ele se sente na necessidade de ver. E eu tenho um
público que não é do JN, é um público noveleiro, que está se
lixando pro Jornal Nacional, mas como está quase na hora da
novela, que ele não sabe exatamente a que horas vai começar,
ele ligou lá. E aí, coitado, ele é obrigado a ver mesmo o que ele
não quer, uma coisa importante e chata, mas ele viu. Eu fiz isso
com alguns assuntos importantes e chatos. E aí com isso eu
mato dois: primeiro eu mantenho a audiência em alta, porque
eu não coloquei em risco minha audiência; segundo eu fiz com
que mais pessoas vissem uma coisa importante, que será
importante para elas. Eu parto do princípio de que como
concessão pública eu tenho a obrigação de cumprir minha
função jornalística. (BONNER apud COUTINHO, 2003, p. 182)
Por outro lado, o tempo de duração do telejornal, de seus blocos e de cada uma das mensagens informativas nele inseridas imprimiriam uma determinada velocidade ao processo de narrar/ mostrar o mundo, com reflexos também na sua apreensão pelos (tele) espectadores. Na estrutura narrativa hegemônica nos telejornais brasileiros (COUTINHO, 2003), esse ritmo seria acelerado pelas próprias características do meio que estabeleceriam, quase como um padrão, a inserção de matérias curtas, compondo um conjunto marcado pela fragmentação entre pequenos "pacotes de informação".
Ao interpretar a hegemonia audiovisual na contemporaneidade Martín-Barbero e Rey (2001) avaliam que a percepção do tempo estaria atualmente marcada pelas experiências da simultaneidade, do instantâneo e do fluxo. De acordo com o paradigma do fluxo, descrito pelos autores, caberia à mídia a fabricação de um presente contínuo, o que transformaria o efêmero em chave de produção: "O paradigma do fluxo conecta, hoje, os modos de organização do tráfego urbano com a estrutura do palimpsesto televisivo e do hipertexto". (MARTÍN-BARBERO; REY, 2001, p. 36-37)
Para além dos reflexos da programação televisiva e de suas ordens e velocidades de veiculação na temporalidade social, o jornalismo também seria uma instituição chave para essa hegemonia do presente, independente do suporte. Segundo Carlos Eduardo Franciscato (2005), a partir de características como instantaneidade, velocidade e aceleração social, simultaneidade, periodicidade, entre outras, o jornalismo teria reformulado a experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Apesar da análise do autor ter como foco especialmente o jornalismo impresso e lançar olhares sobre o jornalismo on-line, é possível por analogia considerar suas premissas válidas também para o telejornalismo. Essa interpretação seria possível uma vez que na televisão algumas das características apresentadas seriam potencializadas, como a simultaneidade, esta também destacada por Martín-Barbero e Rey (2001).
2 Lógicas de uso do telejornal: sobre aceitação e
reconhecimento públicos
Se no caso das rotinas de produção há diferenças significativas entre a interpretação dos profissionais do telejornalismo e a de seus analistas, no que se refere à centralidade do telejornalismo na sociedade brasileira parece haver um consenso. Uma opinião expressa por William Bonner é tomada aqui como síntese da avaliação dos jornalistas de TV acerca de seu trabalho:
[...] somos o produto jornalístico de maior importância hoje no
Brasil e não adianta negar isso. [...] nós falamos para um
público que é iletrado. Infelizmente, nós somos a única fonte de
informação. É o único ponto de contato. (apud TRAVANCAS,
2007, p.131)
Ainda que a avaliação do editor-chefe do Jornal Nacional possa parecer pouco precisa, especialmente na generalização acerca do
público do programa 8, é necessário reconhecer que o Telejornalismo hoje atua como uma forma central de ligação entre os cidadãos e a
sociedade no Brasil. Em 9 A sociedade do telejornalismo, "o telejornal é uma expressão de poder soberana e quase intocável, onde estão aprisionados múltiplos sentidos". (BECKER, 2005, p. 59)
Mais que a participação dos noticiários de TV em um projeto de ordenamento do mundo, anteriormente abordado nesse texto, ou de sua relevância como meio de informação prioritário de significativa parcela da população brasileira, no que se refere ao estabelecimento de uma epistemologia do telejornalismo (EKSTRON, 2002) é importante atentar para a forma de apropriação dos telejornais por seu público, e avaliar em que medida o público acompanharia esse tipo de programa como ato ou prática social, conhecer suas lógicas de uso, para resgatar a terminologia de Martín-Barbero. Para a proposta de construção da epistemologia do telejornalismo seria necessário estabelecer as bases ou condições para que os noticiários televisivos fossem considerados uma forma de conhecimento socialmente válido. Adotando o princípio epistemológico da negligenciabilidade, trata-se de definir as características essenciais, os princípios do telejornalismo capazes de convertê-lo em um bem público no Brasil.
Uma das contribuições para essa espécie de carta de princípios poderia vir dos chamados estudos de recepção. No caso da relação entre telejornalismo e recepção no Brasil constitui-se em obra pioneira, e de referência, Muito além do Jardim Botânico, de Carlos Eduardo Lins da Silva (1985). A partir da relevância do telejornal enquanto prática social capaz de reunir brasileiros todas as noites, Lins da Silva realizou um trabalho nos moldes da pesquisa participante que ressaltou as características da audiência como instância também produtora de sentidos, que seriam negociados entre as emissões televisivas e o acesso a outras fontes de informação. "Nem o Jornal Nacional é um produto livre de contradições, nem sua audiência é um corpo social homogêneo que reage como se fosse uma só pessoa às mensagens que recebe". (SILVA, 1985, p. 14)
Itânia Mota Gomes (2002) propõe que a análise da recepção televisiva, especialmente dos telejornais, seja realizada também a partir as contribuições dos cultural studies e da semiótica:
[...] a compreensão da história cultural do telejornal pode nos
ajudar a compreender as relações entre o estudo dos
telejornais propriamente ditos e do telejornalismo de modo
geral, a análise dos suportes para sua transmissão e suas
práticas de recepção, uso, interpretação. (GOMES, 2002, p. 13)
A partir dessa perspectiva a autora constrói o conceito de modos de endereçamento, de acordo com as quais os telejornais inscreveriam em seu próprio conteúdo/ mensagem elementos que contribuiriam para sua compreensão, tal como pretendida pelos jornalistas.
Mais recente, a pesquisa de Isabel Travancas publicada em 2007 aborda a recepção do Jornal Nacional por um grupo de 16 jovens universitários cariocas, intitulados pela autora como "filhos da televisão". Ainda que limitada a um grupo bastante específico, a obra apresenta dados sobre modos particulares de ver e apreender o telejornal, o que reforça a tese da audiência como instância também de produção de conhecimento, nesse caso a partir de material informativo audiovisual.
A partir das conclusões dos trabalhos de Lins da Silva (1985), Gomes (2002) e Travancas (2007) contudo não é possível fazer inferências precisas acerca das características do conhecimento telejornalístico que lhe garantiriam legitimidade, atribuída nesse caso pelo público. Apesar, disso também a partir da interpretação desses trabalhos é possível ressaltar o caráter em certa medida "socializador" desse produto de informação televisual, na medida em que as notícias compartilhadas via telejornal criariam uma espécie de repertório comum entre espectadores, e a partir dele a possibilidade de novas interações sociais.
Esse caráter é reforçado por Beatriz Becker ao analisar a linguagem do telejornal: "Os discursos dos noticiários eletrônicos podem ser considerados uns dos mais persuasivos, porque visam a convencer uma audiência significativa das verdades do Brasil e do mundo". (BECKER, 2005, p. 50). Os discursos dos telejornais à que se refere a autora contariam para isso com o recurso da imagem, portador de uma credibilidade quase religiosa (COUTINHO, 2006), encadeado a um texto narrado por uma voz que é portadora de uma cotidianidade familiar, e (re)conhecida pelos espectadores como sua aliada no processo de desvelamento e compreensão do mundo.
Talvez uma das chaves para compreender a legitimidade atribuída ao conhecimento telejornalístico esteja exatamente relacionada ao que Ekstron (2002) avalia como sendo uma relação de ubiqüidade entre televisão e jornalismo. Dessa maneira, se a televisão ocupa lugar de relevância na sociedade contemporânea, se constituindo de acordo com Wolton (1996) em laço social feito à distância, o telejornalismo também seria portador dessa potencialidade, capaz de estimular as relações de projeção identitária em um grupo de telespectadores que, à despeito de suas diferenças geográficas, políticas, econômicas, culturais, entre outras, se reconhece como a nação narrada nos telejornais.
Para entender a aceitação e reconhecimento do público, que validariam o conhecimento veiculado via noticiários televisivos, seria fundamental conhecer as convenções de gênero, técnicas retóricas e discursivas que caracterizariam o telejornalismo, além das características específicas do meio, a televisão. Ocorre que, fiel ao que alguns julgam ser uma tônica da comunicação latino-americana, nesses aspectos a serem compreendidos o telejornalismo guarda marcas de hibridismo e mestiçagem.
No que se refere às convenções narrativas e técnicas retóricas, o telejornalismo brasileiro guardaria características semelhantes a gêneros dramáticos, como a telenovela, que na programação televisiva da Rede Globo, estabelece as "fronteiras" do telejornal mais assistido do país, o Jornal Nacional. Assim, não apenas nessa emissora, mas também na TV Cultura, por exemplo, o modelo hegemônico no noticiário televisivo, local e de rede, é a estruturação da notícia como narrativa, a dramaturgia do telejornalismo brasileiro (COUTINHO, 2003). Narradas por um rosto e/ou voz reconhecidos pelo telespectador, as estórias cotidianamente retratadas a cada edição dos telejornais ganham valor de verdade, de conhecimento válido, e legitimado por seu público.
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1 Apresentada por Nelson Traquina como a primeira "teoria" proposta para explicar as decisões e práticas inerentes ao Jornalismo, de acordo com a Teoria do Espelho as notícias são uma transmissão fiel, um espelho do real, e o jornalista um "comunicador desinteressado". (TRAQUINA, 2004)
2 Organizado pelos pesquisadores Célia Ladeira Motta, Alfredo Vizeu e Flávio Porcello, o livro Telejornalismo: a nova praça pública reúne textos de oito autores, entre eles um português, e foi lançado em 2006 durante o IV Encontro Nacional dos Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor), em Porto Alegre. Ainda que possa ser questionado o fato de que os telejornais se aproximam mais de uma vitrine que expõe a realidade por meio de personagens cuja estória é contada pelos repórteres, acredita-se que por meio da inclusão de cidadãos comuns, de seus depoimentos, os telejornais se constituem em uma praça, simulada, na qual o país se encontraria ou ao menos reconheceria.
3 A atuação do Jornalismo como sistema perito contemporâneo é discutida em profundidade na tese de Ananias José de Freitas, "O Eclipse da Política: O mercado e o Jornalismo". O trabalho foi defendido em 2001 no doutorado em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
4 Nesse aspecto é curiosa a relação percebida no discurso dos profissionais entre jornalistas e público, como se essas esferas de "atuação" tivessem fronteiras claras e precisas. Mas será que em última medida todos, produtores e espectadores, não seriam público das emissões do telejornal, sujeitos a seus tempos (de emissão e produção)?
5 As aspas se justificariam na medida em que diferente do é que postulado na Teoria do Espelho, defendese nesse texto que as notícias de TV são (re)construções narrativas que envolvem uma série de mediações: políticas, técnicas e profissionais.
6 O termo cabeça nesse caso equivale ao texto lido em estúdio pelo apresentador do telejornal.
7 Nota pelada, nota ao vivo ou nota seca são aquelas informações repassadas sem a utilização de imagens externas, com o texto lido inteiramente pelo apresentador no estúdio.
8 Sobre esse aspecto é interessante conferir a hipótese da audiência presumida, construída por Alfredo Vizeu e apresentada no livro O lado oculto do telejornalismo (2005).
9 Título do segundo livro com trabalhos de integrantes da Rede de Pesquisadores de Telejornalismo (SBPJor), editado pela Vozes, com organização de Alfredo Vizeu (2008).