Televisão e realidade
Audioesfera política e visibilidade pública: os atores políticos no Jornal Nacional
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Audioesfera política e visibilidade
pública: os atores políticos no Jornal
Nacional 1
Wilson Gomes
1 Noticiário de tv e política
1.1 As direções da pesquisa
Por muitas razões, o noticiário de TV tem ocupado, já há quase quatro décadas, um lugar central nas preocupações de quem se interessa por questões relacionadas à comunicação de massa em suas interações com a política e a democracia contemporâneas. Neste âmbito, uma linha de pesquisa que vem merecendo considerável atenção, ao menos ambiente científico em língua inglesa, é aquela voltada para a prospecção e para a avaliação das consequências de certas características típicas do noticiário de TV na cobertura e na exibição da política, com especial e intrigante atenção à cobertura de eleições presidenciais. Normalmente, o corpo de literatura que se formou nos últimos trinta anos sobre este assunto parte do pressuposto de que as redes de TV, em geral, e o noticiário de TV, em particular, têm hoje enorme influência na vida pública, senão de todas as sociedades contemporâneas, ao menos daquelas ocidentais.
Esta linha de pesquisa busca, em gera: (a) identificar as características expressivas, analíticas, narrativas, relacionadas à seleção de temas e hábitos institucionais, dentre outras, introduzidas no jornalismo pelo noticiário de TV, (b) acompanhar os seus efeitos sobre a representação pública da política. Normalmente para daí retirar premissas para (c) um juízo sobre o impacto que o estilo TV news (HALLIN, 1986) exerce com relação às características contemporâneas da política ou, de forma ainda mais geral, (d) sobre a consequência de tudo isso para a democracia.
A literatura especializada sobre noticiário de TV e política tende a identificar seis características predominantes do estilo TV news de cobertura política: a) a diminuição constante do tempo reservado à fala direta (ou sonoras) dos políticos no interior das matérias. Na literatura internacional este fato vem sendo designado como "encurtamento dos sound bites". (HALLIN, 1994; ADATTO, 1990; STEELE; BARNHURST, 1996; RUSSOMANNO; EVERETT, 1995; SMITH, 1989) b) o crescimento da importância dos elementos visuais, tanto no que diz respeito à importância do material visual na seleção e na edição da matéria de política (McGINNIS, 1969; POSTMAN, 1992; SILCOCK, 2007), quanto no que tange ao ritmo da edição e montagem dos image bites (BARNHURST; STEELE, 1997); c) o crescimento da importância daquilo que podemos chamar de "mediação jornalística" na matéria de política, ou seja, o crescimento da importância e da dimensão temporal do áudio e da imagem do âncora e/ou do repórter na matéria, bem como o crescimento da importância da narrativa e da intervenção analítica e explicativa do jornalista para ordenar e sistematizar os dados recolhidos no campo (FARNSWORTH; LICHTER, 2003, 2004); d) a crescente dependência de fontes (no duplo sentido do termo, ou seja, enquanto fornecedor de informações e enquanto assunto e sujeito de que se fala) do governo como insumo fundamental das matérias de política, o que conferiria ao noticiário de TV um caráter muito mais "oficialista" e mais pobre em alternativas de perspectivas do que o jornalismo impresso. (COOK, 1998; SCHUDSON, 2003; SIGAL, 1973)
Não representa propriamente uma novidade dizer que o tom dominante da literatura internacional sobre noticiário de TV e política é em geral consideravelmente crítico. Tem sido assim há mais de três décadas, e apenas recentemente aconteceu de o juízo mais severo ser desafiado. A atitude dominante se prende em juízos genéricos sobre o dano que a cobertura da política ao estilo noticiário de TV produziria sobre o campo político e sobre a vida pública. A tese do mal-estar mediático (videomalaise), por exemplo, que dá forma a este juízo genérico sobre os efeitos do estilo TV news sobre a vida pública americana, rapidamente deixou o lugar de hipótese para se tornar, desde os anos 1980, num corpus de literatura amplo e de extensa divulgação, ainda que menos consistente do que quer fazer crer.
Mas não precisamos aderir às teses de que o noticiário do TV, num processo crescente e inexorável, ter-se-ia transformado numa ameaça à autenticidade da política e à qualidade da vida pública, como tantos sustentam, para considerar seriamente as características do noticiário de TV e o modo como este afeta a relação entre o campo política e a esfera pública. Mesmo que se duvide da veracidade do elenco mais catastrófico de supostos estragos e avarias na vida pública e no comportamento da política, é adequado considerar as características do noticiário de TV que têm um maior impacto no modo como a política se apresenta e é representada para os cidadãos. Duas das características mais reiteradas por este endereço de pesquisa dizem respeito a consequências do encurtamento da fala direta da política e da importância conferida aos elementos propriamente audiovisuais para a cobertura da política. Assim: a) a diminuição da fala dos agentes políticos teria induzido o campo político a se tornar basicamente, no que se refere à sua relação com a comunicação política, num provedor de declarações rápidas e lapidares para o uso e consumo dos jornalistas de TV. Este artifício criaria a não menos artificial política à base de frases de efeito (a sound bite politics); b) características dramáticas e visuais do meio TV, ao se transferirem também para o estilo do noticiário da TV, forçariam uma cobertura da política com base em parâmetros visuais e emocionais ou dramáticos. Isto induziria o campo político a se especializar no artifício de prover materiais chamativos e atraentes para as câmeras da TV ("visuals") ou materiais espetaculares simulados para o consumo televisivo (media events), drenando para artificialidade, por conseqüência, energias que deveria se dedicar à apresentação, sustentação e discussão de questões substantivas da política.
1.2 A pesquisa sobre as características "gramaticais" do noticiário político de tv
Embora conheçamos estudos sobre efeitos e dimensões políticas do noticiário da TV desde o final dos anos 1960, a investigação específica sobre as características "gramaticais" da cobertura da política pelo noticiário das redes de TV tem pouco mais de 25 anos e tem girado ao redor das questões do encurtamento dos sound bites e do crescimento da mediação jornalística. O único incremento considerável mais recente consistiu em acrescer às preocupações com as sonoras um conjunto de preocupações e medições relativas ao material propriamente visual (escala e duração de planos, principalmente), denominado, por analogia, de image bites. (BARNHURST; STEELE, 1997; BUCY; GRABE, 2007) De resto este subcampo mantém certas características dominantes, desde a sua origem nas pesquisas de Hallin e Adatto: a) toma como referência a cobertura de eleições presidenciais americanas, em perspectiva longitudinal, desde 1968. De fato, só recentemente, alguns poucos estudos realizaram comparações e mediram sound e image bites em eleições de outros países (ESSER, 2008); b) realiza medições de sonoras e de planos atribuídos a agentes políticos e os contrasta com a duração de sonoras e dos planos de agentes do campo jornalístico; ou, alternativamente, mede e contrasta a cobertura da política centrada nos eventos e aquela centrada na narração jornalística. (BARNHURST; MUTZ, 1997; FARNSWORTH; LICHTER, 2003, 2004)
Na literatura internacional, a questão das características gramaticais da cobertura política no noticário de TV já tem alguma história. Tudo começa com dois estudos independentes, realizados nos anos 1990, sobre a diminuição da duração das sonoras políticas na cobertura telejornalística das campanhas presidenciais, desde 1968. O primeiro texto importante a enfrentar o tema foi o artigo de Daniel C. Hallin, intitulado Soundbite news, originalmente publicado em 1992, depois republicado no seu livro We keep America on top of the world, de 1994. O artigo de Hallin parte de uma pesquisa sobre a cobertura televisiva das eleições de 1968 a 1988 nos Estados Unidos. A amostra de Hallin se compunha de 20 edições de telejornais do início da noite das três principais redes americanas de cada eleição presidencial entre 1972 e 1984 e de 25 edições dos dois anos nos dois extremos da amostra, 1968 e 1988.
O artigo traz duas descobertas importantes. A primeira, diz respeito ao tamanho da sonora política média. A pesquisa de Hallin descobriu que a sonora política média – ou "o percentual de tempo que alguém que não seja o jornalista está falando" (HALLIN, 1994, p. 138) – durava 43,1 segundos em 1968, caiu para 18,2 segundos em 1976, para 9,9 em 1984 e para 8,9 em 1988. Por achar que o problema poderia estar apenas com a sonora política, ele comparou sete edições completas da amostra (incluindo, portanto, as matérias que não eram de política) e encontrou praticamente os mesmos índices para sonoras não-políticas. A questão, portanto, era da estrutura do telejornalismo. Isso, inclusive, não tem relação com o tamanho das reportagens políticas de televisão, que, com duração média de 178 segundos em 1968 e de 147 segundos em 1988, não tiveram alterações substanciais na sua dimensão. (HALLIN, 1994, p. 146)
A segunda é menos que uma descoberta, uma comprovação empírica. Trata-se do problema da mediação como mudança fundamental na estrutura da narrativa noticiosa que coloca o jornalista na posição de ser o grande articulador de sentido de tal narrativa. Hallin mostra que o papel do jornalista no relato da notícia no final dos anos 1960 era muito mais passivo do que no final dos anos 1980. No período mais remoto da amostra, o telejornalismo "era dominado mais pelas palavras dos candidatos e dos que tinham mandatos e cargos do que pela dos jornalistas". (HALLIN, 1994, p. 137) Por contraste, hoje, as palavras dos políticos,
[...] mais do que simplesmente serem reproduzidas e
transmitidas à audiência, são tratadas como matéria bruta, a ser
ainda separada, combinada com outros sons e imagens e
reintegrados numa narrativa nova. (HALLIN, 1994, p. 137)
Essa intervenção do jornalista (na verdade, da edição de texto, que corresponde àquilo que no cinema seria uma pós-produção do filme) para compor uma história com sentido e já em molduras interpretativas, foi o resultado do processo evolutivo do telejornalismo.
Estabelecidas as duas descobertas, Hallin pergunta-se por causas e consequências. Antes de tudo, o que teria levado a isso? Para ele, três fatores devem ser considerados: a) possibilidades tecnológicas mais avançadas e a constituição de uma estética específica para a narrativa televisiva. Gerar e editar imagens se tornou mais fácil, e os jornalistas hoje dominam muito mais o padrão específico de produção e apreciação dos produtos da TV do que no final dos anos 1960. b) circunstâncias concorrenciais da produção do noticiário de TV nos Estados Unidos. Lá, foram as redes, pressionadas pelas TVs locais, que descobriram na produção da notícia local um filão lucrativo. Foram as TVs locais que começaram a encurtar as sonoras (HALLIN, 1994, 144), forçando a redes a segui-las se quisessem se manter no negócio. c) o enfraquecimento da autoridade e do consenso político. A queda de credibilidade histórica da política americana no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (Guerra do Vietnã, Watergate), demanda do jornalismo que não reproduza as versões e as vozes do governo e dos parlamentares, mas que seja capaz também de produzir síntese e interpretações, sem distorção política, dos fatos do dia, além de eventualmente desmascarar a manipulação dos políticos. Com isso, aumentou a intervenção dos jornalistas na seleção e composição, a partir do material colhido pelos repórteres, do material que vai ao ar no início da noite; mas aumenta, igualmente, o tom negativo da cobertura política. Hallin descobre que as narrativas negativas sobre a política eram 6% do total em 1968 e já são 25,8% em 1988.
Hallin tenta valorizar dimensões envolvidas nas mudanças de padrão no noticiário de televisão. Admite que em muitos aspectos o noticiário televisivo é melhor jornalismo nos anos 1990 do que no passado mais remoto: é mais interessante, é mais sério em muitos aspectos, porque é mais crítico, mais interpretativo e usa mais recursos de pesquisa. Entretanto, algumas características são, para ele, perturbadoras. "Antes de tudo e da forma mais simples, é perturbador que o público nunca tenha a chance de ouvir um candidato – ou qualquer outra pessoa – falar por mais de 20 segundos". (HALLIN, 1994, p. 146) O encurtamento dos sound bites é perturbador, principalmente por razões cognitivas. Comparando com o passado, Hallin acha que ao ouvir as antigas sonoras de 40 segundos
Tinha-se a impressão de entender alguma coisa do caráter da
pessoa e a lógica do argumento dela, o que um soundbite de 10
segundos nunca pode dar. Tinha-se também a impressão de
que se era capaz de julgar por si mesmo, algo que este estilo
de narrativa editorializada [wrap-up] impede. (HALLIN, 1994, p.
146)
Por último, Hallin acredita encontrar uma conexão forte entre o estilo de cobertura de campanhas que os americanos chamam de "corrida de cavalos", isto é, uma cobertura centrada na identificação e no julgamento sobre táticas e estratégias políticas, em quem perde ou ganha com tal fato, e o encurtamento das sonoras políticas. Contrastando as notícias com abordagem "corrida de cavalos" (horse-race) e as notícias "orientadas por questões substantivas" (policy issue themes). Na verdade, nota uma coincidência temporal entre a predominância do primeiro enfoque e o encurtamento das sonoras. Além do mais, nas notícias da sua amostra, quanto mais ênfase horse-race havia, menores eram as sonoras. (HALLIN, 1994, p. 148) Por quê? Porque sound bites curtos e enfoque no hiper-antagonismo são mais adequados para a "estrutura narrativa dramática valorizada pela televisão moderna". (HALLIN, 1994, p. 148)
O nível de teorização sobre as características da sonora política e o padrão metodológico para o seu estudo não avançaram de modo notável desde a formulação de Hallin no início dos anos 1990. De lá para cá, o que foi produzido em termos de literatura internacional foi basicamente de natureza confirmatória (ADATTO, 1990), de aplicação à cobertura de outros anos eleitorais (BUCY; GRABER, 2007), de extensão das observações e medições ao material visual do telejornalismo, os chamados image bites (BERNHURST; STEELE, 1997; STEELE; BARNHURST, 1996), de atualização e combinação com o modelo teórico-metodológico do media bias. (LOWRY; SCHINDLER, 1995, 1998) No Brasil, não conheço outras medições de sonoras políticas além daquelas realizadas por Mauro Porto (2002, 2007), mas para discutir outras questões do seu foco de atenção.
Infelizmente, outra dimensão da fala da política no telejornalismo, a saber, a voz do ator político mediada pela narrativa do jornalista, não me resulta ter sido objeto da mesma consideração que tem merecido o estudo sobre as sonoras políticas. As declarações narradas e o que elas representam de suplementação de voz política aos tradicionais sound bites parecem estar ausentes da literatura internacional de comunicação e política. No que diz respei-to às menções nominais a atores políticos, tampouco estas parecem ter merecido consideração teórica e empírica relevante no estado atual da literatura.
O fato, porém, é que a medição e a caracterização de sonoras geralmente servem como ocasião para um discurso sobre a natureza da cobertura da política no telejornalismo atual. Particularmente, servem para ilustrar a tese segundo a qual a política na tevê é tributária das idiossincrasias, de valores e de gramáticas, do campo do jornalismo e do noticiário televisivo contemporâneo. (BARNHURST; MUTZ, 1997) Perspectiva completamente diferente daquele que me orienta neste estudo, que encara o telejornalismo principalmente na sua característica de arena pública e está principalmente interessado em identificar meios, modos e formas de distribuição da visibilidade pública nesta arena.
Este capítulo assume o patrimônio da linha de estudos sobre características gramaticais do noticiário político de redes de TV. Sustenta, contudo, certas diferenças com respeito ao modus operandi da pesquisa neste subcampo. Primeiro, toma como corpus empírico um período de "normalidade" política, isto é, um período sem campanhas eleitorais. A rigor, não encontramos nenhuma justificativa sobre porque estudar os períodos especiais da cobertura da política, a não ser que se queira reforçar o argumento de que nesses períodos os cidadãos seriam consideravelmente mais prejudicados pelas características gramaticais dominantes da cobertura. Como nos localizamos a considerável distância desse propósito, consideramos, ao contrário, que períodos de normalidade política permitem maiores generalizações do que os intervalos eleitorais.
Além disso, este estudo não tem como meta expor mais uma pesquisa comprobatória do encurtamento das sonoras dos políticos. Por isso mesmo, não comparamos a cobertura durante várias eleições como tem sido o hábito neste tipo de pesquisa. Neste sentido, a pesquisa é menos preocupada com a gramática da cobertura política no noticiário da TV em rede per se e mais preocupada com o modo como esta gramática é empregada para produzir, negar ou administrar a visibilidade no campo político. Dada a gramática dominante do noticiário de TV, e admitida a importância deste para a visibilidade pública dos agentes do campo político, a nossa pergunta diz respeito a quem é visível nos noticiários e que quota de visibilidade cada agente e cada tipo de agente desfruta nesta esfera. Mais, portanto do que uma questão relacionada ao encurtamento das sonoras (ou da presença em tela) dos agentes da política considerados como um todo, como se faz tradicionalmente, trata-se aqui de investigar a distribuição da visibilidade nos noticiários de TV mediante sonoras e outras formas verbais e visuais de apresentação da política.
2 Visibilidade pública e audioesfera
O conceito de visibilidade 2 tem acompanhado a teoria e a experiência da democracia praticamente desde a sua origem. Os atenienses da época de ouro da democracia, sob a liderança de Péricles, projetam a ideia de governo democrático em consonância com a existência de espaços de discussão abertos, onde se poderiam processar deliberações à luz do dia. À reinvenção da democracia, na sua forma moderna, precedeu um longo período de recuperação filosófica da idéia de publicidade da decisão política e de fogo cerrado contra arcanos, segredos e razões de Estado. Firmada positivamente, na valorização da idéia de publicidade como troca pública de razões, também elas públicas, na tradição kantiana, ou negativamente, na valorização da visibilidade pública como forma de evitar que quem governa venha a sucumbir à tentação de tornar a coisa pública uma coisa própria, na tradição utilitarista, de um jeito ou de outro a visibilidade é a pedra angular da estruturação da democracia moderna.
O conceito normativo se materializou em palavras de ordem, a sustentar lutas reivindicatórias para que o público tivesse sempre maior controle cognitivo sobre a decisão que afeta a todos os membros da comunidade política. Mas também se materializou em vários modelos teóricos e práticos de democracia, concordes com agendas voltadas para propor e assegurar mais e melhor visibilidade, seja na reivindicação por mais transparência da administração pública e dos procedimentos legislativos, como garantia de uma accountability eficaz, seja na perspectiva segundo a qual só a existência de uma esfera pública autêntica, espraiada e fecunda fornece o solo adequado para uma democracia genuína, seja, enfim, na ideia de que precisamos aumentar e reforçar os meios e as oportunidades que permitem que os processos de decisão política, realizados pelos corpos legislativos e pelos governos, assentem em procedimentos extensos de troca pública de razões realizados pelos cidadãos.
O âmbito normativo dista pouco, a rigor, daquele que lida com os fenômenos em sua concretude. Afinal, a visibilidade pública, enquanto norma democrática, há de se materializar em espaços concretos onde o público possa ver, ouvir, tomar conhecimento, eventualmente discutir, os negócios de interesse comum e a própria política como atividade crescentemente especializada. Da qualidade dessas janelas, por onde o cidadão acompanha os assuntos públicos e os lances e comportamentos dos atores que a eles se dedicam, vai depender o padrão de democracia instalado. Antes, porém, de um juízo normativo, há que se tentar entender como os espaços, recursos e dispositivos voltados para produzir visibilidade política são desenhados concretamente, quais as suas características e que tipo de publicidade eles são realmente capazes de oferecer.
Este artigo representa parte de um estudo que tem o propósito de examinar um dispositivo central para a produção de visibilidade pública nas sociedades de massa, o telejornal. Ele parte da análise empírica de uma amostra do telejornal de maior audiência no Brasil, para tentar identificar componentes essenciais na produção e distribuição de visibilidade na política nacional. Este artigo estará focado na parte do estudo concernente àquela dimensão da visibilidade pública que é ocupada pela fala do ator político e pelo referimento verbal ao seu nome. A esta dimensão ou âmbito específico da visibilidade será referida aqui, por razões de economia, mediante a expressão "audioesfera". Este capítulo vai, portanto, examinar um exemplo de audioesfera política, com o propósito de identificar e discutir suas características centrais voltadas para a estruturação e distribuição da fala política num dos centros da visibilidade pública política brasileira.
2.1 O centro da visibilidade política
O ponto focal mais forte numa dada coletividade – ou a convergência de vários deles – produz o que podemos chamar de centro da visibilidade públi-ca. O centro da visibilidade pública é, portanto, aquele em que ações e pessoas são representadas diante de uma larga atenção pública concentrada. Na sociedade contemporânea, parece claro que há dispositivos técnicos e atividades industriais especializadas em produção, captura e medição da visibilidade pública massiva. A indústria da sondagem e análise de opinião pública especializou-se em medição, enquanto as indústrias da informação e do entretenimento ocuparam-se com produção e captura da atenção pública. De fato, ao redor dos produtos e dispositivos da comunicação dita de massa se concentram, hoje, as maiores quotas de atenção coletiva, portanto, de visibilidade pública. No centro da comunicação de massa, a televisão. No caso brasileiro, há pouca possibilidade de dúvida quanto ao fato de o consumo da programação da televisão ser, em geral, o grande concentrador de atenção pública. A presença na grade de programação da televisão é, por conseguinte, a grande vitrine da visibilidade pública nacional.
E há medidores socialmente legitimados do nível de concentração de atenção pública dedicados ao consumo da comunicação de massa, mormente da televisão. Como conseguem aferir a atenção pública, são, ao mesmo tempo, medidores dos graus de intensidade da visibilidade pública de fatos, coisas e pessoas que desfrutam de tal atenção. No caso brasileiro, o peoplemeter do IBOPE, que mede o grau de concentração de audiência no consumo da televisão, tornou-se um marcador confiável. O marcador vai mais além, pois mede o grau de concentração da atenção pública nos diversos produtos da grade de programação da televisão brasileira. E identifica os seus produtos com maior visibilidade.
No Brasil, há muitos anos, dentre os cinco produtos da grade da programação da televisão aberta com a maior concentração da atenção pública (ou, dito de outro modo, com o maior índice de audiência) está apenas um produto que trata da atualidade, o Jornal Nacional. Em geral, a cabeça da lista dos destaques semanais de audiência é ocupada pela novela das oito. Os outros três se alternam entre uma segunda telenovela noturna, jogos de futebol, uma ficção de humor nacional e filmes. Todos os "top 5" da grade são oferecidos ao consumo no horário compreendido entre 7 e 10 da noite, o prime time, ou horário nobre da televisão brasileira.
O Jornal Nacional é tradicionalmente um dos três produtos mais consumidos da grade da televisão brasileira e o único dentre os programas líderes de audiência que tem como objeto a matéria tradicional da visibilidade pública: a atualidade. Os fatos, pessoas e discursos presentes no Jornal Nacional são vistos, em média (tendo referência a amostra estudada a seguir), por 33% dos domicílios monitorados pelo peoplemeter do IBOPE na Grande São Paulo e no
Grande Rio. 3 Significa que este telejornal atrai a atenção de 1/3 dos domicílios que têm televisores ligados na faixa das oito às nove horas da noite, o que lhe confere a singular condição de principal ponto focal da atenção pública e da principal janela para a apreciação pública da visibilidade nacional.
A visibilidade da política não é, per se, distinta da visibilidade que caracteriza outras esferas da vida em sociedade. Naturalmente, é diferente o teatro dos eventos da política daquele, digamos, dos universos da ciência, da cultura ou do espetáculo. Mas quando se trata de visibilidade pública, menos importante que o teatro dos acontecimentos é o teatro da representação de tais acontecimentos. Assim, a política compartilha pelo menos grande parte das vitrines onde se fazem visíveis publicamente os outros âmbitos da vida social. E os grandes pontos focais da sociedade contemporânea acomodam de maneira conveniente as demandas da curiosidade pública geral com as demandas provenientes do interesse na vida social e aquelas do interesse político mais específico.
O Jornal Nacional é uma janela que conserva e, eventualmente, engrossa a atenção pública, situado na grade entre duas estrelas da audiência nacional, as telenovelas da noite. É uma brecha de informação de atualidade entre dois blocos de ficção de grande apelo público. Desfruta de todos os privilégios que a griffe "informação" ou hard news confere aos seus produtos, numa grade onde predominam a ficção e outras formas de entretenimento. Mas ao mesmo tempo precisa fixar a atenção mesmo daqueles me-nos interessados em informação sobre a atualidade política propriamente dita, que apenas desejam passar os olhos sobre os fatos gerais do dia. A oferta de informação (e, portanto, de exibição) política é acomodada num conjunto da oferta de informação de outra natureza para um público que, dentre outras coisas, faz as suas refeições, atualiza a conversa cotidiana (diretamente ou por meios eletrônicos) e/ou se prepara para o ritual familiar de assistir à novela das oito. Neste quadro, a política no prime time da televisão brasileira não apenas se exibe à atenção pública disponível, mas deve também atrair mais atenção pública, além de manter aquela já disponível.
3 Um estudo sobre a audioesfera política
brasileira
3.1 Pressupostos
Constatado o principal ponto focal da visibilidade pública política nacional, há muitas perguntas sobre características e natureza da esfera de visibilidade que são inevitáveis. Dois horizontes de problemas parecem-me proeminentes. Primeiro, naturalmente, há questões relacionadas aos conteúdos da esfera de visibilidade política. Uma forma tradicionalmente explorada de abordagem desses conteúdos é contemplada pela pesquisa sobre os efeitos cognitivos dos meios de massa, nas investigações sobre agendamento, framing e priming. Tais modelos teórico-metodológicos descrevem com bastante cuidado a estruturação daquela forma de visibilidade genericamente chamada de opinião. Por outro lado, uma forma pouco explorada, mas igualmente interessante, diz respeito aos problemas políticos que aí são formulados. Neste âmbito, há três perspectivas importantes: a questão das arenas (mediáticas) das disputas pela formulação dos problemas sociais (HILGARTNER; BOSK, 1988, OLIVER; MEYER, 1999, MARATEA, 2008), o problema mais geral da invenção dos problemas políticos (EDELMAN, 1988, HUBBARD; DEFLEUR; LOIS, 1975) e a questão das ondas políticas (WOLFSFELD, 2001), ou das vagas sucessivas de problemas, da sua duração e da sua substituição por outros problemas.
Um segundo horizonte de problemas diz respeito aos atores políticos. Por "ator político" entendo qualquer sujeito que goza do reconhecimento, socialmente dado, de que cumpre um papel na política. Em maior número, estão, naturalmente, os políticos profissionais, tanto os portadores de mandatos populares e de cargos públicos políticos (os officials) quanto os quadros de profissionais políticos sem mandato dos partidos e de outras agências políti-cas. Naturalmente, aqui também podem ser incluídos os cidadãos que não são políticos profissionais nem exercem cargos públicos mas representam forças ou interesses precipuamente políticos da sociedade ou de grupos particulares, desde que socialmente reconhecidos como tal.
Este horizonte será especificamente o objeto deste estudo. Nele emerge um conjunto de questões relacionado ao lugar dos atores políticos numa esfera de visibilidade pública que é controlada por agentes da indústria e do campo profissional da informação. As perguntas mais fundamentais estão, em geral, relacionadas à representação e à representatividade dos atores políticos: Que atores políticos aparecem na esfera central de visibilidade pública? Como se apresentam? Eles falam por si ou são narrados? Predomina a voz da política ou a dos jornalistas? Que atores têm direito a imagem e/ou voz e que atores são despossuídos de oportunidades de falarem ou serem vistos? O que leva um ator à visibilidade e que lhe impede de ser visível?
São todas questões que demandam respostas empíricas. Para respondêlas, é preciso analisar e medir coisas. Enfrentamos esta tarefa com uma pesquisa empírica voltada para medir o centro da visibilidade pública brasileira, isolando, decupando e analisando o Jornal Nacional. Primeiro, isolamos um universo que pudesse funcionar como uma amostra confiável do funcionamento desta esfera de visibilidade pública. Escolhemos 100 edições consecutivas do Jornal Nacional, do segundo semestre de 2007, situadas entre 27 de agosto e 20 de dezembro.
Não houve razões essenciais para a escolha deste período, exceto pelo fato de que ele atendia a um requisito importante: o recorte temporal deveria espelhar ao máximo um período de cobertura política "normal". Essa "normalidade" exclui, de princípio, os períodos eleitorais ou excessivamente afetados por eleições, por exemplo. Além disso, o fato de tratar-se de um período contínuo e relativamente longo evita a seleção aleatória de períodos muito peculiares na agenda política. Claro, tivemos no período a cobertura de um escândalo (Renan Calheiros) e de uma crise política (a novela da CPMF), mas como evitá-los? Aparentemente, eventos deste tipo estão incorporados à paisagem política brasileira. Ao menos, não houve no período descobertas estarrecedoras nem eventos excessivamente fora do padrão, pois o básico do caso Renan Calheiros já havia sido revelado (dado o cronograma das revelações: Veja em 26 de maio, Jornal Nacional em 14 de junho, Folha de S. Paulo em 19 de junho, novamente Veja em 4 de agosto e novamente Folha de S. Paulo em 23 de agosto). A grande narrativa do período, entrecruzada com aquela da CPMF, consistiu na agonia do senador e nas peripécias do conflito entre governo e oposição, corporação política e instância jornalística. Por fim, um último critério para a seleção do período diz respeito às facilidades dadas por um período o mais próximo possível de nós. Isso deveria facilitar o domínio das informações contextuais e o acompanhamento da agenda política com eventuais cruzamentos com outros meios de informação.
A amostra constituiu um corpus total de 50 horas, 25 minutos e 13 segundos de telejornais, do qual foi isolada, decupada e analisada toda a informação política disponível, num total de 7 horas, 40 minutos e 46 segundos. Aplicamos um procedimento de decupagem orientado pelo interesse em identificar dois aspectos do material audiovisual: 1) quem está na tela? Jornalista (repórter ou âncora) ou políticos? 2) de quem é a voz que se ouve? Do jornalista ou dos atores políticos? Deixamos para uma posterior fase da pesquisa aspectos relacionados ao conteúdo das falas dos jornalistas e dos políticos (a formulação de problemas, a abordagem – se positiva ou negativa – dos assuntos ou do universo político e o enquadramento utilizado), nos concentrando sobre quem se mostra e quem fala.
O nosso estudo se orientou por algumas questões de pesquisa (QP), que serão empregadas neste artigo para apresentar e discutir os seus resultados. As questões não indagam especificamente sobre a visibilidade, mas sobre uma dimensão da visibilidade que é a presença do ator político como sujeito e como objeto do discurso público. A rigor, um mapeamento da visibilidade pública só estará completo quando se puder integrar este estudo sobre o espaço sonoro da política com outro estudo sobre a dimensão visual da exibição da política no horário nobre da televisão. Por enquanto, portanto, vamos nos restringir, mesmo verbalmente, àquela dimensão da visibilidade pública que chamamos de audioesfera política.
QP1: Quem é presente na audioesfera brasileira? Indaga-se sobre atores e classes de atores presentes na audioesfera política. Inclui, por conseguinte, também a questão reversa, sobre os atores ausentes da audioesfera da política.
QP2: Como se distribuem as quotas de presença na audioesfera política? Indaga-se aqui sobre a intensidade e a perduração da visibilidade política e sobre o modo como estas são distribuídas pelos atores da política brasileira. A questão de pesquisa se desdobra, em função dos aspectos indagados, em duas outras perguntas: Q2a) Quem é mais presente na audioesfera política? QP2a) Quem tem presença mais duradoura na audioesfera política?
QP3: Qual o critério para a posse de quotas na audioesfera política? A indagação, neste caso, versa sobre a clivagem empregada para a distribuição da intensidade e da perduração das quotas de presença na audioesfera. Supõe-se que a janela por meio da qual a política brasileira se mostra é temporalmente limitada e que, portanto, o tempo geral de áudio é repartido desigualmente por entre os atores políticos. Isso estabelecido, a pergunta se concentra na tentativa de descobrir qual o critério empregado para a distribuição da visibilidade na audioesfera.
Cada uma das seções a seguir enfrenta uma das três questões de pesquisa.
3.2 A repartição da audioesfera política
3.2.1 Onde a política aparece
Nem só de política vive o centro da esfera de visibilidade pública brasileira. Antes, a política ocupa aí uma dimensão consideravelmente pequena, talvez pequena demais em face do que comumente se imagina. Do ponto de vista da política, o material informativo do Jornal Nacional pode ser distribuído em três tipos principais: conteúdo de interesse geral, conteúdo de interesse social e conteúdo de interesse político. A partir daí, é razoável classificar
as matérias 4 em três classes.
Matéria de política: Matérias sobre assuntos tipicamente políticos. O seu objeto é "o que fazem os que são responsáveis pelas coisas que são do seu interesse enquanto cidadão". Inclui-se aqui: a) a cobertura do governo (o governo legislador, a agenda do presidente, a cobertura da Administração Pública, a cobertura do presidente na função de Chefe de Estado); b) a cobertura do destaque do Legislativo; i. agentes do Legislativo apanhados em conduta inapropriada; ii. agentes do Legislativo em sua função de fiscalização social ou de fiscalização política; iii. procedimentos e disputas relacionadas à produção de leis; iv. o jogo político em i, ii ou iii, inclusive na sua luta pela opinião pública; v. hostilidades entre governo e oposição materializadas como luta pela opinião pública e caracterizada como conflitos de interesses políticos ou, eventualmente, eleitorais; c) a cobertura das agências políticas (partidos, movimentos sociais, atividades sindicais com implicação política, atos do Judiciário) com alcance ou consequência sobre o campo político. Ex. A Comissão de Constituição e Justiça aprovou a constitucionalidade do processo de cassação do mandato de Renan Calheiros.
Matéria de interesse social: Matérias sobre questões de interesse da sociedade (ou comunidade política) que convocam ou implicam a política (a administração pública ou a fiscalização legislativa). O seu objeto é "o que é do interesse da sociedade, entendida como a comunidade dos cidadãos". Ex. O ensino brasileiro ganhou hoje um portal na internet que pretende discutir propostas para melhorar a educação (com sonora do Ministro Fernando Haddad).
Matérias de interesse geral: Matérias sobre assuntos que são objeto da curiosidade coletiva, sobre os quais os personagens do campo da política são levados a opinar ou agir. O seu objeto é "o interessante". Ex. Inspeção da Fifa aos estádios brasileiros para copa de 2014 (com takes de Lula e menções a ele). Em geral, os atores políticos aqui são mencionados ou, no máximo, têm direito a uma sonora ordinária e a alguns planos.
A rigor, grande parte da notícia política é uma subclasse das notícias de interesse social e é só nessa condição que ela alcança, no Jornal Nacional, maior espaço ou localização mais nobre. Provavelmente, a notícia política é aquela mais setorizalizada no quadro da oferta do Jornal Nacional, encontrando correspondência apenas no noticiário esportivo. Aparentemente, funciona aqui uma lógica de orientação da oferta de informação segundo a qual a informação sobre a política não atende ao interesse geral do consumidor, mas a uma demanda específica e setorial, de forma semelhante ao que acontece com a informação sobre esportes ou finanças. Talvez por isso, a política fica em geral nos blocos intermediários do telejornal (terceiro ou quarto), exceto quando o assunto em pauta atinge explicitamente o interesse social (ex. decisão legislativa que afeta imediatamente os cidadãos) ou, principalmente, a curiosidade geral (ex. escândalos, competições políticas que podem ser narradas na chave da corrida de cavalos). É esta também a condição para que a dimensão da oferta de informação política aumente e seja destacada nas escaladas e em chamadas nas passagens de bloco.
Se a política pode aparecer em tantas situações, imagina-se que apareça muito. Com efeito, quando se trata da oferta noticiosa que privilegia a informação sobre fatos de interesse social estrito, as chamadas hard news, em contraste com a informação sobre fatos que satisfazem a curiosidade geral (os fatos "interessantes" que constituem as soft news), imaginamos que ao centro de todo o processo esteja a editoria de política. Assim como imaginamos que as notícias relacionadas ao sistema político (política sensu stricto) mais as notícias de interesse social com implicação política (política lato sensu) constituam o centro da visibilidade pública. A rigor, pelo menos do ponto de vista quantitativo, isso não acontece, pois apenas 15,56% do Jornal Nacional, na amostra, foi ocupado com
informação política. 5
Ao menos à primeira vista, a dimensão diminuta da oferta de informação política no Jornal Nacional contrasta com o jornalismo impresso que, juntamente com o Jornal Nacional, domina no Brasil o setor das hard news. O jornal da grande imprensa no Brasil reserva à política os seus cadernos mais nobres e os seus colunistas e repórteres com maior capital no campo do jornalismo. Em geral, fazem a mesma coisa as revistas semanais que disputam o mercado das hard news. Esta impressão merece, naturalmente, verificação empírica, assim como merece um estudo longitudinal para verificar a sensação de que mesmo no telejornalismo o encurtamento do tempo dedicado à informação política é novo.
De qualquer sorte, na nossa amostra verificamos que a janela da política fica aberta, em média, por apenas 282 segundos em cada edição do Jornal Nacional. Ou seja, a política está presente na esfera central de visibilidade pública nacional por apenas 4m42s diários numa edição total que dura pouco mais de 30 minutos. Assim, aparecer ou dizer alguma coisa no Jornal Nacional, provavelmente um dos principais objetos de desejo de qualquer político brasileiro, supõe uma grande disputa por um palco pequeno demais para tanto ator.
Além disso, este já pequeno espaço não é todo ocupado visual ou audiovisualmente pelos atores políticos. Os âncoras e repórteres ocupam-lhe uma grande porção. Para serem vistos, os atores ocupam uma fatia já diminuída de menos que cinco minutos diários do centro da visibilidade pública política; para serem ouvidos, então, a dificuldade é ainda maior. De fato, as sonoras políticas, portanto, a voz direta dos atores políticos, ocupa 3,9% de cada edição, o que equivale a um período médio de apenas um minuto e onze segundos diários. Enquanto a fala mediada dos atores políticos, as declarações reportadas pelos jornalistas ocupa mais 1,2% do espaço de cada edição e apenas 22,3 segundos diários. Tudo somado, as falas e as vozes dos atores políticos são ouvidas em apenas 5,1% do Jornal Nacional, o que equivale à média diária de 1m33s. Este minuto e meio diário constitui a dimensão total da audioesfera política brasileira no seu momento nobre.
3.2.2 A composição da audioesfera política
O ator político comparece na audioesfera nacional de três modos, a saber, (a) falando diretamente, com imagem e locução próprias, (b) tendo a sua fala reproduzida por âncoras e repórteres e (c) sendo mencionado por jornalistas ou políticos. O primeiro caso é obviamente aquele das sonoras políticas. Sobre ele há, como veremos, um volume consistente de pesquisa. O segundo caso é o das declarações dos atores políticos reproduzidas pelo discurso jornalístico. Na verdade, sabemos disso, grande parte da notícia de política ou da notícia que inclui implicações políticas tem, como sua matéria prima, declarações obtidas em entrevistas – gravadas (de onde se extraem, dentre outras coisas, as sonoras) ou registradas por outros meios mas não gravadas (o famigerado off the records). Uma parte pequena desse material, trabalhada pela edição para que cumpra funções básicas de apoio à narrati-va do jornalista, transforma-se nas sonoras. O resto constitui a base de informação das narrativas. Quando da conveniência da narrativa, contudo, parte dessa sobra é apresentada como falas ou textos atribuídos a atores políticos. Desse modo, elas podem cumprir função narrativa semelhantes à das sonoras (ilustrando pontos de vista, fornecendo frases de efeito para as cores dramáticas, construindo os personagens do enredo...), mas com vantagens relacionadas à economia de tempo (as declarações narradas são mais rápidas, mais concisas e melhor encaixadas nas narrativas que as sonoras) e à não necessidade de imagem do político.
Por fim, o terceiro caso, aquele relativo às menções. Os dois primeiros representam o discurso da política no interior das narrativas jornalísticas, o terceiro caso nada tem a ver com isso. Ele se dá quando os atores políticos são mencionados na fala dos jornalistas ou na fala de outros atores políticos. Representa, nesse sentido, um elemento constitutivo da audioesfera. Embora não represente ou componha a fala política, desimportante, contudo, ele não é. O nome próprio na audioesfera política, principalmente quando acompanhado da imagem em planos próximos, funciona como menção às marcas no comércio ou no setor de serviço, no sentido de que quem é mencionado mantém-se lembrado. Mantém-se vivo e funcional. A menção do nome próprio assegura o recall do ator, isto é, mantém o sujeito presente no centro da visibilidade pública. Insignificante para uma discussão sobre a fala da política, a menção não pode ser deixada de lado num estudo sobre a visibilidade pública.
Podem-se classificar as menções aos atores políticos em três classes: a) menções a corpos ou atores coletivos ("o governo", "a oposição", "o PSDB", "o Senado", "o ministério do Planejamento"); b) menções a atores singulares, pelo título da função ("o presidente da República", "o ministro da Educação", "o líder do governo no Senado"); c) menções a atores políticos por meio do nome próprio. Nesta pesquisa, concentrada na visibilidade das personae políticas singulares, nos restringimos a considerar a última dessas classes. Embora as menções da segunda classe também possam produzir uma fácil identificação do ator a que se refere, acreditamos que não tenham o mesmo poder direto e imediato de conferir visibilidade ao ator mencionado, porque se prende em geral à função, sendo o ator secundário. Como, ademais, decidimos considerar a menção um fator acessório de produção de visibilidade, isso reforça ainda mais a resolução de levar em consideração apenas a sua face mais impactante, a saber, a menção nominal.
3.2.3 Meios da presença dos atores políticos
Em cem edições do Jornal Nacional, encontramos 548 sonoras com atores políticos, com duração total de 7.059s. Em conformidade com
a amostra, a sonora política brasileira dura em média cerca6 de
12,9s 7, volume pouco superior ao identificado por Hallin como a duração média da sonora no telejornalismo americano no final dos anos 1980. Entretanto, a sonora típica, isto é aquela que ocorre com maior frequência na amostra, situa-se entre nove e onze segundos: 26,9% da amostra têm essa dimensão, com ligeira vantagem para a sonora de nove segundos. Nessa faixa, a sonora é suficiente em geral para apenas uma sentença. Que precisa ser concisa, lapidar e de efeito. A "concisão" decorre do fato óbvio de que o cronômetro do editor de televisão é insensível a qualquer outro tipo de medição temporal superior a uma dezena de segundos, de forma que qualquer número superior isso parece uma eternidade. A sonora deve ainda ser "lapidar" (literalmente, "o que merece ser inciso em pedra"), ou seja, a frase do político vale à pena quando pode ser fixada como uma espécie de slogan, Leitmotiv, refrão. A busca da frase lapidar – aquela que se torna símbolo ou emblema de uma ocasião, uma circunstância ou uma classe de atores, em suma, a frase do dia – tornou-se uma obsessão para políticos e
jornalistas.8 Por fim, a sentença de uma sonora com duração ao redor de dez segundos tem que ser "de efeito", o que quer dizer que não deve ser banal, esperável, insignificante, devendo antes produzir surpresa, fazer pensar ou fazer rir, emocionar, em suma, injetar dramaticidade nas narrativas.
As sonoras menores – digamos, de até 20 segundos, – existem em função da narrativa jornalística. Uma matéria de telejornalismo é uma história, uma narrativa. Narram-se idéias e narram-se eventos, mas sempre alguma coisa se conta. No telejornalismo moderno, conta-se a história a partir de um fio condutor (Leitmotiv, story line), de um ponto de vista argumentativo suficientemente forte para dar sentido às coisas narradas. A edição, entendida em sentido amplo como a seleção da matéria prima obtida por repórteres (dentre as quais as entrevistas de onde serão retiradas as sonoras) e cinegrafistas, a invenção do enredo e o agenciamento do material em função de tal enredo, é a alma da matéria no telejornalismo. As sonoras fazem parte dessas narrativas. As sonoras de 10 ou 20 segundos basicamente atendem aos propósitos narrativos da abordagem do jornalista, servindo fundamentalmente para exemplificar, ilustrar, reforçar uma linha narrativa que necessariamente as precede, as inclui e vai além delas. A primeira e a última palavra são em geral dos narradores, que são os âncoras e/ou repórteres.
Por outro lado, quando as sonoras são maiores (em caso de pronunciamentos tratados dentro de matérias), a narrativa gira ao redor delas. Uma sonora de 30 ou 40 segundos, rara, é ela mesma o evento. Nesse caso, o trabalho do jornalista é encontrar os pontos de corte mais adequados, identificar as nervuras fundamentais, e encontrar a "frase lapidar", que servirá como síntese fundamental e como "memento" do fato que se narra e comenta.
No que se refere às declarações narradas, foram identificadas na amostra 241 delas, que consumiram 2.228 segundos. Comparativamente, há cerca de três vezes mais sonoras que declarações, mas estas últimas representam um considerável aporte ao tempo reservado à fala da política no telejornalismo. No conjunto, portanto, a fala política se compõe de 76% de sonoras e 24% de declarações narradas. As declarações basicamente duram um pouco me-nos que as sonoras (9,2 segundos em média), embora aqui os extremos sejam mais frequentados, com muitas declarações bastante curtas (4 e 5 segundos) e algumas muito longas. As declarações muito longas são aquelas "oficiais", ou seja, proveniente de autoridades ou corpos políticos na sua função de oferta de explicações públicas ou em "notas públicas" a respeito de questões políticas polêmicas.
Em sua maior parte, contudo, as declarações constantes do corpus tinham função estratégica nas narrativas jornalísticas. Serviram basicamente para a) complementar uma fala política, cuja finalização fica por conta de uma sonora; b) abreviar a fala política, já que as sonoras, por mais editadas que sejam, estão submetidas aos ritmos (acelerado ou lento, p. ex.), à retórica e às circunstâncias verbais (pausas entre palavras, alongamento de sílabas, respiração) do locutor; c) dar mais flexibilidade à narrativa do jornalista, principalmente ao assim (mal-)chamado off do repórter, onde normalmente são encaixadas sonoras e declarações. Supostamente, a declaração narrada é mais maleável do que a sonora, porque, apesar dos recursos de edição e narração, não se podem alterar as características mínimas da peça verbal gravada e reproduzida, trocando palavras, modificando-se-lhe a sintaxe ou se lhe acrescentando glosas internas. Tudo isso que pode ser feito com as declarações, produzindo um encaixe mais justo, seja ao enredo da narrativa do repórter, seja à forma discursiva por ele adotada. Note-se, contudo, que a declaração é muito conveniente ao jornalista, mas não necessariamente é vantajosa para o ator político, que vê a sua fala "traduzida" e enfiada numa narrativa, que em geral estava ausente das circunstâncias da entrevista.
Foram identificadas 745 menções nominais (as de terceiro tipo) na amostra. Naturalmente, há mais menções nominais do que sonoras e declarações. Em cada dez edições do Jornal Nacional tivemos, em média, quase 75 menções a atores políticos, além de 55 sonoras e 25 declarações. Como vemos, o volume das menções é apenas um pouco menor que o das sonoras e declarações somadas. E, a rigor, a restrição às menções nominais nos permitiu registrar apenas uma parte minoritária das menções a atores políticos individuais e coletivos no Jornal Nacional. Em alguns casos, como veremos, modos típicos e muito empregados para mencionar atores pelas suas funções no jogo político ou no tabuleiro institucional da política, descartados pelo nosso princípio de corte, fazem diferença. Um exemplo disso é a baixa referência nominal às lideranças do Senado nas matérias de política, o que poderia ser um sintoma de baixa visibilidade. Na verdade tais atores foram objetos de pouca menção nominal, mas foram extensamente mencionados por designadores de funções como "o governo" ou "a oposição".
De todo modo, a menção a atores políticos se dá à profusão porque menções são recursos lingüísticos de baixo custo nas narrativas jornalísticas. Principalmente porque não exigem uma interrupção do fluxo argumentativo do jornalista, como o fazem a sonora e, de certo modo, a declaração narrada. Por outro lado, são justamente as menções a fatos e atores reais que conferem à narrativa do jornalista as cores e os sabores de uma ancoragem à realidade, aos fatos: por que se refere a pessoas, fatos e circunstâncias reais e atuais o discurso jornalístico se apresenta com um discurso sobre a atualidade.
3.2.4 Dimensão geral da presença dos atores políticos
A audioesfera da política, como vimos, é pequena e disputada por muitos. Mas quantos conseguem se fazer nela presentes e, mais ainda, quantos nela se fazem presentes de modo relevante? A pergunta sobre a quantidade de atores, contudo, não se responde apenas pelo recenseamento da presença de atores na amostra, mas também pela classificação dos que se apresentam na audioesfera política. Em suma, há de se perguntar que tipo de ator consegue visibilidade na audioesfera.
Ao todo, apenas 1509 diferentes atores políticos de alcance nacional ocuparam a audioesfera política nas 100 edições do Jornal Nacional. 125 diferentes atores tiveram voz no Jornal Nacional, ao passo que 62 foram os atores que tiveram suas declarações apresentadas por jornalistas. Foram mencionados, por sua vez, 112 diferentes atores políticos nacionais na amostra estudada.
No início do estudo, adotamos a hipótese de que o Jornal Nacional distribuía suas quotas de fala e de menções a atores da política nacional privilegiando atores da esfera política formal e o centro do poder político nacional, em Brasília. A hipótese se confirmou largamente, mas numa proporção que superou as nossas previsões.
Apresento apenas dois dados, que acredito sejam bastante para sustentar esta posição. Antes de tudo, o fato de nenhum ator político sem cargo ou mandato ter superado a soleira de 1,0% da quota de
sonoras, declarações ou menções no período da mostra. 10 Em segundo lugar, mesmo atores políticos de importância nacional, quando sem cargos ou mandatos, não superam a soleira de relevância mínima nas suas quotas de sonoras, declarações ou menções. Desde que, naturalmente, se mantenham longe de escândalos. Dois exemplos: Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República e figura de proa na corrida para a sucessão do Presidente Lula, ex-governador e ex-ministro com grande visibilidade até bem pouco tempo, não teve sequer uma sonora, uma declaração ou uma menção nas 100 edições da amostra. Simplesmente porque neste momento está sem cargo no governo e sem mandato legislativo. O segundo exemplar da amostra é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quem vem de oito anos como centro da visibilidade pública nacional e está claramente vivo e operando politicamente. Na amostra, o ex-presidente teve apenas uma sonora de 20 segundos, teve três declarações reproduzidas nas narrativas dos jornalistas e foi mencionado cinco vezes, em três edições do Jornal Nacional. Isso lhe confere uma quota de exatamente 0,3% das sonoras, 0,8% das declarações e 0,6% das menções.
A esse ponto, nem é preciso falar da completa ausência, em nível estatisticamente relevante, de atores políticos não associados funcionalmente à política institucional. No Jornal Nacional, ator político é quem tem mandato ou cargo público no governo federal. Simples assim. No máximo, atribui-se algum espaço a agentes políticos com funções partidárias importantes, principalmente quando já são reconhecidos em função de cargos ou mandatos do passado. Mas, desde que se mantenham fora de escândalos políticos, a sua visibilidade não ultrapassa a soleira mínima de relevância. Não houve na amostra presença, de relevância estatisticamente apoiada, dos chamados atores da sociedade civil em matérias de política ou em matérias de interesse social com implicações políticas. O foco da cobertura (e, por conseguinte, da visibilidade) é constituído pela luta política entre governo e oposição, pelo empenho legislativo do Congresso e do presidente, pela agenda do presidente e, enfim, pela resposta dos atores políticos a problemas e questões sociais brasileiras.