Televisão e realidade
Televisão e documentário: afinidades e desacertos
Televisão e documentário: afinidades
e desacertos
José Francisco Serafim
Este texto se propõe a abordar a questão do cinema documentário e sua presença, ou melhor, ausência em um dos meios midiáticos de maior importância no mundo contemporâneo: a televisão. É importante observar essa relação, cinema e televisão, de um ponto de vista inicialmente diacrônico e posteriormente sincrônico: primeiro surge o cinema e mais tarde a televisão; certamente esta última teve muito a aprender com a indústria cinematográfica, mas muito rapidamente busca tornar-se independente, através de uma linguagem e estilo próprios. Observa-se também que, no seu início, a televisão se apropriará dos formatos já existentes no rádio, teatro e cinema, através da ficção e do documentário, que são os dois grandes gêneros cinematográficos.
O cinema surge no final do século XIX e já se estabelece como o grande meio de representação da realidade. Os primeiros filmes dos irmãos Lumière, como também os de Thomas Edison, podem ser considerados como protótipos do que viria a se configurar o cinema documentário. Eram, inicialmente, filmes curtos, com duração de menos de um minuto, mostrando aspectos da realidade próxima ou distante. Teremos assim um pai alimentando o seu filho, a saída de operários de uma fábrica, a chegada de um trem em uma estação, e posteriormente imagens mais carregadas de exotismo, como uma rua em uma cidade chinesa, as cataratas de Niágara, entre outras tantas realizadas, sobretudo pelos operadores de câmera enviados pelos Lumière aos quatro cantos do mundo em busca de imagens em movimento nunca vistas até então pelos espectadores. O cinema, que aparentemente estava voltado em seu início para a representação da realidade, se modifica rapidamente, sobretudo nas mãos do genial Georges Méliès, que se interessará, sobretudo, em criar mundos, inventar estórias e narrativas para a tela. Esta nova vertente do cinema causará um grande interesse aos espectadores, que afluirão em massa para ver esta novidade.
A representação do real no cinema será, a partir de então, somente veiculada através das atualidades, filmes de viagem e sendo exibidas antes do filme de ficção. Temos aqui um momento pré-surgimento da televisão, quando era no cinema que a população podia ver não somente os filmes de ficção, mas também aspectos da realidade com temáticas variadas: esporte, política, vida social, vida cotidiana, lugares exóticos, guerras, cortejos militares, desfiles
etc. 1
Em 1922 temos a realização do primeiro filme documentário, Nanook do Norte do estadunidense Robert Flaherty que filma ao longo das estações do ano o cotidiano dos Inuites do norte do Canadá. O filme obtém um enorme sucesso de crítica e público e abre caminho para Flaherty se tornar um grande documentarista. Do outro lado do Atlântico, na recente URSS, surge outro grande cineasta, Dziga Vertov, que realiza obras cinematográficas documentais de cunho propagandístico, mas com uma incrível genialidade no que concerne à montagem. Esses dois cineastas serão imitados por uma grande quantidade de realizadores que começam a surgir no final dos anos 1920.
Mas a importância do cinema documental somente será conseguida graças ao interesse do escocês John Grierson pelo gênero. Este escreverá em 1927 um artigo no jornal nova-iorquino The Sun, onde classifica o filme Moana de Flaherty como pertencente ao gênero "documentário social", termo utilizado pela primeira vez para se referir ao cinema. A partir de então, teremos concretamente um marco divisor no que tange aos gêneros cinematográficos: por um lado a ficção e por outro o documentário. A importância de Grierson não se restringe a ter denominado o gênero, mas, sobretudo, em ter criado um grupo formado por pessoas interessadas em realizar filmes documentais. Grierson chamará para fazer parte desta empreitada jovens graduados em ciências humanas e profissionais com conhecimento da linguagem cinematográfica, como o brasileiro Alberto Cavalcanti e Robert Flaherty. Este último fará parte durante alguns anos do grupo formado por Grierson.
Observa-se também que a partir de 1930 o cinema se torna sonoro, técnica que será bastante utilizada pelo documentário. Entre os muitos filmes documentais realizados pela denominada Escola de Grierson, temos o exemplo de um que será no futuro um modelo a ser seguido pela televisão, sobretudo pela reportagem televisiva e telejornalismo. Trata-se do filme Housing Problems, curta-metragem de 13 minutos, realizado pelos cineastas Arthur Elton e E. H. Anstey em 1935, que aborda os problemas de moradia dos habitantes da periferia pobre do leste londrino. A estrutura do filme segue a de qualquer reportagem ou documentário televisivo presente ainda hoje nas telas da televisão: temos inicialmente uma voz over que nos informa sobre a temática do filme, ao mesmo tempo em que são mostradas as moradias insalubres. Após esse prólogo, a voz over nos apresenta o primeiro morador. A partir de então o filme nos mostra esse personagem, que falará diretamente para a câmera (um dos raros exemplos de utilização do som direto nos anos 1930) sobre as péssimas condições de moradia, ao mesmo tempo em que a imagem utiliza-se de inserts que ilustram a fala do morador. Este esquema será o mesmo para os outros moradores, que apontarão diversos problemas de moradia ao longo do filme. No final temos o retorno da voz over que conclui o filme com um discurso positivo, informando que em decorrência dos investimentos da companhia de gás da cidade (produtora do filme) as condições de moradia eram já melhores. O interessante nesse exemplo é notar que a estrutura do filme será um modelo ainda hoje seguido pela televisão no que diz respeito às reportagens com variações.
A tecnologia e seu avanço serão preponderantes no que concerne às indústrias cinematográfica e televisiva. Tanto uma quanto a outra serão devedoras de invenções que possibilitaram o seu desenvolvimento, muitas vezes com pontos de cruzamento, e outras de desencontro. Observa-se, por exemplo, que os equipamentos e suportes utilizados inicialmente, como câmeras 16 mm com a necessidade de películas, dificultava e encarecia a realização dos produtos. A partir principalmente dos anos 1980, com o avanço da tecnologia das câmeras de vídeo, tanto os programas de televisão como os documentários passarão a ser realizados com este equipamento.
A questão do som também será um facilitador. A partir de 1960 poder-seá captar diretamente o som simultaneamente com a imagem, o denominado som direto. A partir daí a produção tanto do cinema documentário como da televisão poderá ser mais leve, ágil, com a necessidade de equipes menores, que vão às ruas a fim de captar o real, não restringido a gravação em estúdio. A pessoa filmada pode agora se expressar com liberdade, pois teremos não somente a imagem em movimento, mas igualmente o som ambiente e as suas palavras.
Após este preâmbulo, serão pontuadas algumas estratégias vinculadas ao cinema documentário e à televisão. Deve-se partir inicialmente de definições, como o que vem a ser o produto documentário e como esse é visto pelos diferentes canais de televisão, já que frequentemente os canais de televisão criam categorias próprias para designar seus produtos. Desta forma, um produto que tenha por base a representação da realidade, e uma duração superior aos poucos minutos da reportagem, ou da denominada grande reportagem, será alocado sob a categoria "documentário". Deve-se distinguir também a formatação do produto (estilo, duração etc.), assim como as instâncias de realização do mesmo. Este pode ter sido realizado pelos diretores do canal televisivo, ou ter sido produzido ou coproduzido exteriormente ao canal. Deve-se observar também se este é exibido isoladamente na grade da emissora ou se fará parte de um programa já existente. Outras questões importantes serão: de que televisão estamos falando? Dos canais abertos ou fechados? TVs públicas ou privadas? Analógica ou digital? Deve-se pensar ainda nas formas de programação e exibição derivadas da busca de convergência tecnológica que serão disponibilizadas em breve, algumas já atualmente disponíveis. É bastante difícil abordar esta questão no abstrato sem levar em consideração alguns estudos de caso. Desta forma serão pontuados aqui exemplos de programas exibidos nas televisões brasileiras, e de forma comparativa a situação vivenciada pelas TVs francesas, a título de contraponto. Assim, será que o produto denominado documentário, no Brasil, quando vinculado à televisão, é o mesmo da França?
Algumas questões podem nos levar a melhor compreender o gênero documentário e sua relação, muitas vezes conflituosa, com a televisão. Um dos elementos mais marcantes do "documentário" exibido na televisão diz respeito a uma formatação pré-estabelecida, com duração frequentemente oscilando entre 26 ou 52 minutos, apresentando também uma estrutura narrativa muitas vezes previsível. A realização fará frequentemente uso de um narrador em voz over, que será o fio condutor da narrativa. Este narrador (repórter/jornalista) também pode estar presente visualmente. Este persona-gem, em voz over, ou in, terá por função assegurar ao telespectador que ele não se perderá pelos meandros da narrativa, e que a situação será explicada, muitas vezes de forma didática. É quase de praxe igualmente a presença de um ou mais especialistas sobre a questão abordada, o que de alguma forma legitimaria as imagens e a fala das "pessoas comuns" entrevistadas. Esta narrativa no mais das vezes é acompanhada de outros elementos extradiegéticos, como por exemplo música, sons, grafismos, efeitos especiais. Bill Nichols aloca este tipo de produto na categoria de "documentário de exposição", ou seja, "aquele diretamente dirigido ao mundo histórico, abertamente didático". (NICHOLS, 2001, p. 138)
Para a teórica Claudine de France este tipo de filme
[...] tem como alvo principal – assumido ou não – apresentar ao
espectador a idéia que o cineasta faz de um processo, mais do
que apresentar o próprio processo em sua confusa fluência e
seus transbordamentos [...] Resulta então que os filmes de
exposição mais convincentes o são em grande parte porque se
beneficiam, por sua concisão e aparente simplicidade, das
qualidades de construção próprias aos melhores textos.
(FRANCE, 1998, p. 336)
Observa-se que este tipo de produto é o mais comumente encontrado nas realizações documentais, tanto para a televisão como para o cinema. Estes documentários são no mais das vezes realizados segundo uma série de ingredientes pré-estabelecidos. Os depoimentos, os especialistas e o narrador são elementos narrativos presentes em praticamente todo produto documental dessa categoria.
A televisão é na atualidade uma grande aliada do cinema tanto ficcional quanto documental em diversos países europeus, sobretudo na França. Praticamente toda a produção fílmica francesa é produzida ou coproduzida pela televisão, seja por canais públicos (A2, Fr3, Arte), como privados (TF1, Canal Plus). Sem este investimento da televisão no cinema, certamente não seria observada a grande quantidade de primeiros filmes que são produzidos anualmente na França (aproximadamente 200). O acordo consiste em se produzir o filme, e este ser exibido no cinema; após alguns meses, este vem a ser comercializado em DVD, para em seguida ser exibido no canal que o produziu ou comprou os direitos de exibição. É importante observar que os diretores nesses casos podem não fazer parte do corpo de profissionais dos canais televisivos. Eles podem ser convidados a realizar um filme ficcional ou documental, a depender de suas competências profissionais. Há, nesse sentido, uma liberdade maior de atuação do profissional, que poderá realizar o produto seguindo um roteiro estabelecido por ele ou sua equipe, porém de acordo com o solicitado pelo canal de televisão. No caso do documentário, pode-se vender uma ideia, um projeto, e caso este interesse ao canal, o diretor terá liberdade e dinheiro para realizá-lo.
O realizador poderá igualmente integrar um grupo de diretores que realiza um filme de encomenda sob um determinado tema, por exemplo, documentários sobre escritores (Un siècle d'écrivains), cineastas (Cinéastes de notre temps), ou a série Visages d'Europe. Não é assim tão simples realizar um produto para a televisão, mas nesse caso, a ideia ou projeto inicial certamente será realizado. No que diz respeito aos canais fechados, há o canal Planète, pertencente ao grupo Canal Plus, criado em 1999, que exibe em sua grade 24 horas de documentários das mais diversas temáticas e estilos. Em decorrência do grande sucesso desse canal televisivo, hoje ele conta com mais quatro canais temáticos: Justice, Thalassa, No Limit, Juniors. Este é sem dúvida um dos casos mais interessantes de programação diversificada do gênero documental presente na televisão. É também um aspecto importante a entrada da TV digital na França no inicio dos anos 2000, e a grande quantidade de canais locais, regionais e temáticos que surgiram a partir de então, com a produção de uma grade diversificada, onde o gênero documentário encontra-se bem representado.
No caso brasileiro, a situação é bastante diferente. Contamos principalmente com alguns canais abertos, e uma grande quantidade de canais fechados, pertencentes em sua maioria (pelo menos os canais nacionais) à maior rede de televisão da América Latina, a Rede Globo. Como se processa então a produção, realização e exibição do documentário em nossa televisão? Observa-se em um primeiro momento uma ambigüidade no que diz respeito à categorização do produto pelos canais televisivos. No mais das vezes, qualquer produto que aborde o real e que ultrapasse os 15 minutos de duração é denominado como documentário. É interessante observar esta categorização dada pela própria emissora televisiva, mas pode-se questionar se essa seria correta, já que frequentemente estes produtos utilizam-se do estilo da reportagem, só variando a duração do programa.
Há um caso insólito na Rede Globo de Televisão, que em 3 de abril de 1973 iniciou a exibição de um dos programas mais peculiares e originais vinculados ao real, o Globo Repórter, que continua a ser transmitido até os dias atuais. Na sua fase inicial, a direção do programa era de Paulo Gil Soares, que levou para a televisão alguns dos maiores cineastas brasileiros: Eduardo Coutinho, Walter Lima Júnior, Luiz Carlos Maciel, Maurice Capovilla, João Batista de Andrade, Hermano Pena, Jorge Bodansky, Oswaldo Caldeira e Alberto Salva. Os primeiros programas abordavam temáticas bastante variadas, como questões sociais e políticas, arte, ciências, história. Pode-se observar nitidamente um viés documental e criativo que foge à estética televisiva e da reportagem. Analisando-se a passagem de Eduardo Coutinho pelo programa (dos citados acima, um dos únicos que se dedicará quase exclusivamente ao cinema documentário), observa-se em dois de seus filmes para o Globo Repórter, uma grande mudança no estilo. Em Seis dias em Ouricuri (1976), filme realizado no estado de Pernambuco que aborda a questão da seca na região, Coutinho, ainda que timidamente, tenta mostrar a realidade miserável dessas pessoas, filmando as diversas atividades que a população realiza na busca pela alimentação. Tem-se ainda uma formatação clássica, com a locução em over de Sérgio Chapelin, mas o cineasta nos surpreende quando, no final do documento, nos apresenta um planosequência de mais de três minutos, onde pode-se observar a terrível miséria da população. Um dos jovens, personagem do filme, mostrando as raízes que são obrigados a comer, diz que nem os porcos comem tais alimentos.
Vanda Viveiros de Castro, chefe de produção do Globo Repórter, justifica as escolhas estéticas e a forma do programa dizendo que
[...] por este ser um programa exibido em horário nobre, na
televisão aberta, com uma grande audiência, é dirigido a um
público extremamente heterogêneo, formado por várias faixas
de idade e de formação muito diversa. O desafio é atender a
interesses tão variados e variar sem desinteressar a um público
fiel – esse alto índice de audiência, que assegura o sucesso do
programa, de certa forma acaba por restringir a escolha de
temas que devem necessariamente ser bem abrangentes.
(CASTRO, 2006, p. 191-192)
Em 1978, Coutinho realizou o que viria a ser um de seus trabalhos mais importantes para o Globo Repórter: Theodorico, o Imperador do Sertão, que tinha por tema o coronel Theodorico Bezerra, grande latifundiário do Rio Grande do Norte. Nesse filme, Coutinho gozou de grande liberdade formal, já que não utiliza o recurso da narração em over para nos acompanhar ao longo do conhecimento deste oligarca nordestino. Será o próprio personagem o narrador do filme. Coutinho, de forma muito astuciosa e audaciosa, passa a palavra ao coronel e deixa que este mesmo se mostre em todo seu autoritarismo, tradicionalismo e machismo. Temos aqui certamente não uma reportagem, mas um excelente produto documental, onde o realizador teve liberdade na criação. Pode-se igualmente citar os trabalhos realizados por João Batista de Andrade, o docudrama Wilsinho Galiléia (1978), ou o ensaio pessoal e um tanto poético de Gregório Basic, Retrato de classe (1977). Infelizmente esta fase áurea do real na televisão terminará com a reestruturação do programa, a partir de 1983, quando o repórter Roberto Feith passa a dirigir o Globo Repórter. O programa se aproxima mais da reportagem, o seu formato atual: presença de um repórter, eleição de só um tema para o programa, que é dividido em cinco blocos, com duração total aproximada de 45 minutos. Outros canais televisivos utilizarão este modelo em um programa de cunho jornalístico, Documento Especial, veiculado pela extinta TV Manchete de 1989 a 1991, no SBT de 1992 a 1995 e na Bandeirantes de 1998 a 1999. O programa era dirigido por Nelson Hoinnef e apos-tava em temáticas "fortes", como a homossexualidade feminina, o suicídio entre os índios Kaiwa, vida de gordo, Igreja Universal, prostituição masculina etc. A fase áurea do programa será a primeira, quando estará vinculado a TV Manchete.
Atualmente os canais abertos de nossa TV exibem programas do real que tem como modelo o Globo Repórter. Ou seja, trata-se de reportagens jornalísticas, similares tanto em sua forma (repórter, narrador) como também nas temáticas apresentadas de forma pouco polêmica: animais, questões econômicas, saúde, alimentação etc.
Desde 2003, existe uma nova proposta de realização de documentários para a televisão, criada pelos Ministério da Cultura, TV Cultura e a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC). O DOC TV seleciona um grande número de projetos para serem realizados e exibidos em rede pública de televisão durante o ano subseqüente ao da premiação. Até 2007 foram realizados 115 filmes, e na edição do DOC TV de 2008, foram premiados 57 projetos, sendo 6 na Bahia. A partir de 2005 houve uma descentralização do projeto, com um alargamento das fronteiras, atingindo cerca de 15 países latino-americanos, que participaram do DOC TV Ibero-América em 2006, com a realização de 15 documentários, que foram exibidos ao longo de 2007 pelas redes de televisão pública dos países envolvidos no projeto. Os filmes do DOC TV conseguem ainda, em decorrência da sua grande qualidade, ser selecionados em festivais de cinema do mundo, como por exemplo, Festival de Biarritz, É Tudo Verdade, Sundance, Locarno, entre outros. Podemos, então, nos indagar se não seria este o caminho a ser seguido para se buscar realizar produtos originais e de qualidade voltados para a televisão. Os realizadores se sentiriam confortáveis em realizar produtos que não sofreriam a ingerência dos canais televisivos, e estaria garantida a exibição dos mesmos em rede nacional. No entanto, alguns teóricos vislumbram um futuro sombrio para a televisão, quiçá seu próprio desaparecimento. É o caso de Jean-Louis Missika ao observar que,
A televisão esta desaparecendo sob nossos olhos, sem que
estejamos totalmente conscientes. Ela se afoga em um oceano
de telas, terminais, redes, aparelhos portáteis e telefones
celulares. Ela explode na grande quanti-dade de programas; ela
se fragmenta em canais ultratemáticos; ela se desarticula em
vídeo sob demanda (VOD); ela está presente no serviço push
dos celulares, ela é "baixada"(download) da Internet; ela está
no podcast do i-Pod, ela se individualiza no blog e no vlog [...]
(MISSIKA, 2006, p. 7)
Apesar da visão pessimista desse autor, pelo menos a curto e médio prazo os diversos canais de TV ainda produzem e disponibilizam, nos mais diferentes meios e suportes, uma grande e variada quantidade de programas, e ainda assim o documentário não se encontra representado de forma satisfatória.
Nesse trabalho buscou-se ressaltar a grande variedade de produtos que podem estar vinculados a esta categoria "documentário". É importante que se compreenda o que os canais de televisão denominam como produto documentário, como também se deve estar atento para esta questão divergente e espinhosa das diferenças existentes entre uma reportagem e um documentário. A priori, este último goza de uma maior liberdade em sua realização, não necessitando se moldar ou adaptar a uma forma préestabelecida. Nesse sentido, o DOC TV pode vir a ser uma das saídas para este cul-de-sac que se tornou a realização documental veiculada pela televisão, tendo em vista que seus produtos atingem não somente os telespectadores como também platéias mais amplas presentes nos grandes festivais de cinema ou mesmo nas salas comerciais. Deve-se também observar as novas formas de produção e distribuição que já estão surgindo com o advento do digital em nossa televisão, quando poderemos então ter mais canais disponíveis e quem sabe uma diversidade maior de produtos audiovisuais e, nesse caso, talvez o documentário possa vir a encontrar um nicho onde venha a se expressar de forma mais criativa e original.
Referências
CASTRO, Vanda Viveiros de. Reportagem. In: DUARTE, Elizabeth Bastos; CASTRO, Maria Lília Dias de (Org.). Televisão, entre o mercado e a academia. Porto Alegre: Sulina, 2006. p. 189-192.
FRANCE, Claudine de. Cinema e antropologia. Campinas: Unicamp, 1998.
MISSIKA, Jean-Louis. La fin de la télévision. Paris: Editions du Seuil, 2006.
NICHOLS, Bill. Introduction to documentary. Bloomigton: Indiana University, 2001.
1 Em 1909 foi criado o Pathé Journal, que marca a invenção das atualidades cinematográficas. Em 1910, outra grande produtora francesa, Gaumont, se lança na produção de atualidades. As atualidades e cinejornais estarão presentes nas telas de cinema até os anos 1980.