Terra do Gelo

John Flanagan · Capítulo 4 de 4 · parte 2/3

Páginas do PDF

Terra do Gelo

Era incomum ver um homem com aquele…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Satisfeita ao ver a rédea amarrada com firmeza, ela

empurrou a porta mal encaixada e entrou na cabana para conhecer seu novo refúgio e seu conteúdo.

O local era pequeno, somente uma sala principal

com uma mesa rústica e dois bancos, um de cada lado. Na parede dos fundos, havia uma cama de madeira coberta com o que parecia um colchão de palha. O cheiro de mo-fo e bolor a fez franzir o nariz por um instante, mas então ela se deu conta de que assim que acendesse o fogo na lareira de pedra que ocupava quase toda a parede da es-querda, o mau cheiro iria se dissipar.

Empilhado perto da lareira e bem à mão, havia um

suprimento de lenha juntamente com uma pedra-de-fogo e um pedaço de ferro.

Evanlyn gastou alguns minutos para acender o fo-

go. O estalar das chamas e a luz amarela tremeluzente que lançaram para o interior da cabana a deixaram animada.

Num canto que evidentemente era uma despensa,

encontrou farinha, carne seca e feijão. Havia sinais de que pequenos animais tinham remexido os suprimentos, e ela achou que eles provavelmente seriam o suficiente para um ou dois meses. Ela e Will não fariam banquetes, mas iriam sobreviver.

Principalmente se ele recuperasse qualquer uma de

suas antigas habilidades quando se livrasse dos efeitos da droga. Porque naquele momento ela viu que havia um pe-queno arco de caça e uma aljava de couro com flechas penduradas atrás da porta. Mesmo no inverno mais rigo-roso, deveria haver alguma caça pequena disponível — coelhos e lebres, provavelmente. Eles poderiam comple-mentar a comida que estava estocada na cabana.

Caso contrário... ela deu de ombros ao pensar nis-

so. Pelo menos estavam livres e ela teria a chance de liber-tar Will do vício. Enfrentaria os outros problemas à medi-da que surgissem.

O interior da cabana estava ficando mais aquecido e

ela saiu, para dizer a Will que desmontasse. Quando ele obedeceu, ela franziu a testa ao ver o pônei. Evanlyn se deu conta de que ele não poderia ficar do lado de fora, no entanto, o pensamento de dividir a pequena cabana com ele durante o inverno não a atraía muito. Na noite anteri-or, embora tivesse ficado agradecida pelo calor do animal, ela tinha ficado bem consciente do forte cheiro que se desprendia dele.

Havia um alpendre junto da cabana. Ele era aberto

de um dos lados, mas seria suficiente para fornecer abrigo para o pônei durante o inverno. Havia alguns arreios e tiras de couro abandonados e pendurados em pregos de ferro junto com outras ferramentas simples. Era evidente que o lugar era usado como estábulo.

Evanlyn viu com satisfação que ele também tinha

outra utilidade. Ao longo da parede externa da cabana on-de o alpendre tinha sido construído, havia uma enorme pilha de lenha cortada. Ela ficou aliviada com a descober-ta, pois já tinha se perguntado o que iria fazer quando ti-vesse usado todo o pequeno suprimento que havia dentro da cabana.

Evanlyn levou o pônei para o alpendre e tirou a sela

e os arreios. Havia um cocho e um pequeno suprimento de milho, e ela deu um pouco para o animal. Ele mastigou os grãos contente, rangendo os dentes uns contra os ou-tros daquele jeito tranquilo que os cavalos têm.

Evanlyn não conseguiu encontrar água para ele,

mas ela o tinha visto lamber a neve durante o dia e imagi-nou que ele saberia como se satisfazer até que ela encon-trasse outra alternativa. O pequeno suprimento de milho no estábulo não iria durar até a primavera e ela se preocu-pou com o fato por um momento. Então, obedecendo a nova filosofia de não se preocupar com problemas que não poderia resolver, afastou o pensamento.

— Vou resolver isso mais tarde — ela disse para si

mesma e voltou para a cabana.

Evanlyn constatou que Will tinha tido o bom senso

de entrar e estava sentado num dos bancos perto do fogo. Ela viu isso como um bom sinal e preparou uma refeição simples com os restos das provisões que Erak tinha colo-cado na mochila.

Havia uma chaleira amassada pendurada num apoio

na lareira e ela a encheu de neve, colocou-a suspensa so-bre o fogo para que a neve derretesse e a água começasse a ferver. Ela tinha visto uma pequena caixa de algo que lhe pareceu chá na despensa. Pelo menos teriam uma bebida quente para afugentar os últimos sinais de frio e umidade.

Evanlyn sorriu para Will quando o viu mastigar im-

passível a comida que tinha colocado à sua frente. Ela se sentiu estranhamente otimista. Mais uma vez, olhou ao redor da cabana. A luz do lado de fora tinha desaparecido e o lugar era iluminado apenas pelo brilho amarelo incer-to, mas alegre, do fogo. Naquela luz, a cabana parecia a-conchegante e tranquilizadora e, como ela tinha esperado, o calor do fogo e o cheiro da fumaça de pinho tinham dominado a umidade e o bolor que enchiam o aposento quando tinha entrado pela primeira vez.

— Bem — ela disse —, não é muito, mas é um lar. Ela não tinha ideia de que estava repetindo as pala-

vras de Halt, a centenas de quilômetros ao sul.

Halt e Horace não se surpreenderam quando, na noite que se seguiu ao combate injusto, o chefe dos guardas lhes disse que lorde Deparnieux esperava a companhia deles na sala de refeições para o jantar. Era uma ordem, não um convite, e Halt não sentiu necessidade de fingir que fosse outra coisa. Ele não demonstrou ter ouvido a mensagem do soldado e apenas se virou para olhar pela janela. O sar-gento tampouco se incomodou com aquela reação. Ele se virou e retomou o posto no alto da escada em espiral que levava para a sala de jantar. Ele tinha entregado a mensa-gem. Os estrangeiros a tinham ouvido.

Naquela noite, eles tomaram banho, vestiram-se e

caminharam juntos pela escada circular até o andar inferi-or do castelo provocando um barulho agudo com as botas enquanto andavam. Eles tinham passado o final da tarde discutindo um plano de ação para a noite e Horace estava ansioso para pô-lo em prática. Quando chegaram às por-tas duplas de 3 metros de altura, Halt pôs uma das mãos em seu braço e fez que parasse. Ele via a impaciência no rosto do jovem rapaz. Eles estavam presos ali por sema-nas ouvindo as zombarias e os insultos velados de Depar-nieux e vendo o tratamento barbaramente cruel dispensa-do aos empregados. Os incidentes com a cozinheira e o jovem cavaleiro tinham sido apenas dois entre muitos. Halt sabia que Horace, com a impaciência de todos os jovens, estava ansioso para ver Deparnieux punido. Ele também sabia que o plano que tinham arquitetado depen-deria de paciência e da escolha do momento certo.

Halt tinha percebido que a necessidade de Deparni-

eux de parecer invencível para seus homens era uma fra-queza que eles poderiam explorar. O cavaleiro tinha cria-do uma situação em que se via forçado a aceitar qualquer desafio que pudesse ser apresentado, contanto que fosse feito diante de testemunhas. Não poderia haver reclama-ções ou rodeios da parte do comandante. Se ele aparentas-se sentir medo ou relutasse em aceitar um desafio, isso seria o começo de uma longa espiral descendente.

Agora, quando pararam, Halt encontrou o olhar an-

sioso e esperançoso de Horace e o encarou com seu olhar firme, paciente e calculista.

— Lembre-se — ele disse —, só quando eu der o

sinal.

Horace concordou. Suas faces estavam ligeiramente

coradas pelo entusiasmo.

— Entendi — ele disse controlando a ansiedade

com alguma dificuldade.

Ele sentiu a mão do arqueiro no braço e percebeu

que o olhar firme ainda estava preso no dele. Respirou fundo três vezes para acalmar as batidas do coração e fez outro gesto concordando, desta vez com mais firmeza.

— Eu entendo, Halt — ele repetiu, enquanto enca-

rava o arqueiro. — Não vou estragar as coisas — ele ga-rantiu ao amigo. — Esperamos demais por esse momento e estou consciente disso. Não se preocupe.

Halt o analisou por outro longo momento. Então,

satisfeito com a mensagem silenciosa que viu nos olhos do garoto, assentiu e soltou o braço dele. Ele empurrou as portas duplas para a frente, fazendo-as bater nas paredes dos dois lados. Juntos, Horace e Halt marcharam para dentro da sala de jantar onde Deparnieux esperava os dois.

A refeição servida foi outro exemplo decepcionante

da alardeada cozinha galesa. Para o gosto de Halt, os pra-tos dispostos à sua frente dependiam excessivamente de uma combinação um tanto enjoativa de muito creme e alho em excesso. Ele comeu pouco, porém notou que Ho-race, com o apetite de um jovem, engolia toda a comida que era colocada à sua frente.

Durante toda a refeição, o comandante manteve

um constante fluxo de sarcasmo e desdém, referindo-se à falta de jeito e à estupidez, de seus criados e à exibição tola feita pelo cavaleiro desconhecido no dia anterior. Como era seu hábito, Halt tomou vinho com a refeição, enquanto Horace se contentou com água. Quando tinham terminado de comer a comida pesada e excessivamente forte, criados trouxeram jarras de café para a mesa.

Halt tinha que admitir que isso era algo que os gale-

ses faziam com grande habilidade. O café era delicioso, muito melhor do que qualquer outro que já tinha provado em Araluen. Ele sorveu a bebida quente e perfumada o-lhando por cima da borda da xícara para Deparnieux, que observava os dois com o sorriso desdenhoso habitual.

Naquele momento, o cavaleiro galês tinha chegado

a uma decisão sobre Halt. Ele acreditava que não havia nada a temer do estrangeiro de barba grisalha. Era óbvio que o homem tinha habilidade com o arco, provavelmente com trabalhos em madeira e em se movimentar sem ser percebido. Mas, no que se referia aos seus temores origi-nais de que Halt pudesse ter habilidades misteriosas de feitiçaria, tinha certeza de que havia se enganado.

Agora que se sentia seguro, Deparnieux não conse-

guia resistir à tentação de atacar Halt com mais zombarias e insultos do que antes. O fato de ter estado cauteloso com o homem barbado por algum tempo apenas serviu para redobrar seus esforços para deixá-lo desconfortável. O comandante apreciava brincar com as pessoas. Ele ado-rava deixá-las sem saber o que fazer, vê-las sofrer ou se enfurecer diante dos ataques de sua língua sarcástica.

E, à medida que seu desdém por Halt crescia, o

mesmo acontecia com sua total indiferença em relação a Horace. Cada vez que os três jantavam juntos daquela forma, ele esperava ansioso o momento em que pudesse dispensar bruscamente o jovem musculoso e enviá-lo, com o rosto afogueado de raiva e constrangimento, de volta à torre. Ele decidiu que agora era o momento de re-petir a dose.

Ele inclinou a pesada cadeira para trás e esvaziou o

cálice de prata que segurava na mão esquerda. Com des-dém, acenou na direção do garoto com a outra mão.

— Nos deixe, garoto — ele ordenou, recusando-se

até a olhar para Horace.

Ele sentiu uma distinta onda de prazer quando o

rapaz, depois de uma breve pausa e um rápido olhar para o companheiro, se levantou devagar e respondeu com uma palavra.

— Não.

A negativa ficou pairando no ar entre eles. Depar-

nieux exultou com a rebeldia do menino, mas não permi-tiu que nenhum sinal disso aparecesse em seu rosto. Em vez disso, franziu a testa, fingindo aparente desprazer. Ele se virou lentamente para encarar o rapaz. Ele viu que a respiração de Horace estava mais rápida por causa da a-drenalina que corria em suas veias, agora que esse mo-mento vital finalmente tinha chegado.

— Não? — Deparnieux repetiu como se não pu-

desse acreditar no que estava ouvindo. — Sou o senhor deste castelo e aqui minha palavra é lei. Minha vontade é uma ordem para todos os outros. Você tem a indelicadeza de me dizer “não” no meu próprio castelo?

— Já se foi o tempo em que a sua palavra devia ser

obedecida sem perguntas — Horace respondeu com cui-dado, franzindo a testa enquanto se esforçava para se limi-tar às palavras exatas que Halt tinha ensinado. — O se-nhor perdeu o direito de ser obedecido por causa de suas ações não cavalheirescas.

— Está desafiando meu direito ao comando em

meu próprio terreno? — ele indagou ainda fingindo des-prazer.

Horace hesitou mais uma vez, certificando-se de

pronunciar bem sua resposta. Como Halt tinha lhe dito, cuidado naquele momento era de fundamental importân-cia. Na verdade, como Horace sabia muito bem, era uma questão de vida ou morte.

— Chegou o momento de esse direito ser questio-

nado — ele respondeu depois de uma pausa.

Deparnieux, com um sorriso maldoso em sua fei-

ção sombria, levantou-se da cadeira, inclinou-se para a frente sobre a mesa e pousou as duas mãos na superfície lisa de madeira.

— Então está me desafiando? — ele perguntou

sem conseguir esconder o prazer na voz. Horace, contu-do, fez um gesto hesitante.

— Antes de proferir qualquer desafio, exijo que o

respeite — ele disse, e o cavaleiro franziu a testa levemen-te.

— Respeitar? — ele repetiu. — O que quer dizer,

seu cachorro chorão?

Horace balançou a cabeça teimoso, ignorando o in-

sulto.

— Eu quero uma garantia de que você vai cumprir

os termos do desafio. E quero que o faça diante de seus homens.

— Ah, você quer, não é mesmo?

Agora, a raiva na voz de Deparnieux não era uma

suposição. Ela era real. Ele tinha percebido para onde o garoto induzira a conversa.

— Acho que o garoto pensa que o senhor governa

pelo medo, lorde Deparnieux — Halt interrompeu com calma.

— E o que isso tem a ver com você, arqueiro? —

ele perguntou, embora já imaginasse saber a resposta.

— Os seus homens estão com você por causa de

sua reputação de guerreiro — Halt respondeu com indife-rença, depois de dar de ombros. — Acho que Horace pre-feriria ver o desafio ser apresentado e aceito diante de seus homens.

Deparnieux franziu a testa. Como, de certa forma,

o desafio já tinha sido apresentado diante de alguns de seus homens, ele sabia que não tinha escolha senão ceder. Um comandante que só aparentasse mostrar medo de um jovem de 16 anos teria pouco respeito por parte dos ho-mens que comandava, ainda que vencesse a batalha resul-tante.

— Você acha que tenho medo do desafio desse ga-

roto? — ele indagou sarcástico.

— Nenhum desafio foi apresentado... ainda — Halt

retrucou e ergueu a mão num gesto de advertência. — Só estamos preocupados em garantir que o senhor tenha a coragem de honrar qualquer desafio que possa surgir.

Deparnieux resmungou aborrecido diante das pala-

vras cuidadosas do arqueiro.

— Agora estou vendo o que realmente pretende,

arqueiro — ele respondeu. — Pensei que você fosse um feiticeiro, mas percebo que não é mais do que um advo-gado desprezível brincando com palavras.

Halt mostrou um leve sorriso e inclinou um pouco

a cabeça. Ele não respondeu e o silêncio se estendeu entre eles. Deparnieux olhou rapidamente para os dois sentine-las parados ao lado das enormes portas duplas do salão de jantar. Seus rostos mostravam o interesse na cena que se desenrolava. Os detalhes se espalhariam por todo o caste-lo, rapidamente, se ele recusasse o desafio ou tentasse ga-nhar uma vantagem desonesta sobre o garoto. Ele sabia que seus homens tinham pouco apreço por ele e que, caso não tratasse o desafio de forma correta, começaria a per-dê-los. Talvez não imediatamente, mas aos poucos, um depois do outro, à medida que desertassem de seus postos e passassem para o lado de seus inimigos. E Deparnieux tinha muitos inimigos.

Ele olhou para o garoto. Não tinha dúvida de que

podia vencer Horace numa luta justa, mas se ressentia do fato de que tinha sido manipulado para aceitar essa situa-ção. No Chateau Montsombre, era Deparnieux quem pre-feria manipular. Ele se obrigou a sorrir e tentou parecer entediado com toda aquela situação.

— Muito bem — ele disse num tom indiferente —,

se é isso que deseja, vou cumprir os termos do desafio.

— E vai fazer isso diante de seus homens? — Ho-

race ajuntou rapidamente, o que fez o cavaleiro olhar para ele de mau humor e abandonar qualquer fingimento de que gostava do garoto tagarela e de seu companheiro bar-bado.

— Sim — ele disparou para os dois. — Se preciso

dizer isso letra por letra para agradar vocês, garanto minha aceitação na frente de meus homens.

— Então — Horace retrucou suspirando aliviado e

começando a tirar uma das luvas presa ao cinto — o desa-fio pode ser apresentado. O combate vai ocorrer daqui a duas semanas.

— Fechado — Deparnieux respondeu. — ...no campo de grama em frente ao Château

Montsombre...

— Concordo.

A palavra foi dita quase com raiva. — ...diante de seus homens e dos outros ocupantes

do castelo...

— Concordo.

— ...e deverá ser um combate mortal. A voz de Horace hesitou um pouco ao pronunciar

essa frase, mas ele olhou rapidamente para Halt, e o ar-queiro balançou a cabeça levemente para lhe dar coragem. E então o sorriso estreito, amargo e selvagem voltou aos lábios do dono do castelo.

— Concordo — ele disse novamente. No entanto, desta vez a palavra foi quase ronrona-

da.

— Agora continue, garoto, antes que perca a cora-

gem e molhe as calças.

Horace inclinou a cabeça na direção do comandan-

te e, pela primeira vez, sentiu-se no controle da situação.

— Que sujeito desagradável você é, Deparnieux —

ele disse devagar, o que fez o cavaleiro negro se inclinar sobre a mesa e oferecer o queixo para o golpe ritual com a luva que provocaria o desafio e tornaria todo o aconteci-mento irreversível.

— Com medo, garoto? — ele replicou com desdém

e então se encolheu quando uma luva o atingiu como uma ferroada.

Contudo, não foi a dor que o fez se encolher, mas

sim a forma inesperada como tudo aconteceu, pois o ga-roto do outro lado da mesa não se moveu. Em vez disso, o arqueiro grisalho e barbado se levantou com velocidade e agilidade tais que não houve tempo para o cavaleiro rea-gir. Ele foi atingido no rosto com a luva que estivera segu-rando sob a mesa nos últimos minutos.

— Então eu desafio você, Deparnieux — o arquei-

ro afirmou.

E, por alguns segundos, o comandante sentiu a he-

sitação tomar conta dele quando viu o brilho de satisfação

no fundo daqueles olhos firmes e determinados.

Uma pequena mancha de sol se arrastou para dentro do único aposento da cabana. Evanlyn, cochilando na cadei-ra, sentiu o calor do sol no rosto e sorriu sem perceber. Do lado de fora, a neve ainda formava uma camada alta no chão, mas o céu do meio da tarde era de um azul bri-lhante e sem nuvens.

 

Meio adormecida, ela aproveitou o calor enquanto a

luz passava em seu corpo lentamente. Por trás das pálpe-bras fechadas, ela sentiu o vermelho vivo e ofuscante do sol.

Então, abruptamente, a luz foi bloqueada e ela a-

briu os olhos.

Will estava parado à sua frente na posição que tinha

se tornado conhecida para ela na semana passada. As mãos dele estavam juntas e seus olhos castanhos escuros, antes tão vivos, cheios de diversão e alegria, não mostra-vam nada além de um pedido suplicante. Ele ficou ali, pa-ciente, esperando que ela reagisse, e ela sorriu para ele com certa tristeza.

— Tudo bem — ela disse com delicadeza.

Um sorriso muito tênue tocou os lábios dele, pare-

cendo por um momento se refletir naqueles olhos escuros, e ela sentiu uma renovada onda de esperança que vinha crescendo dentro de si nos últimos dias. Aos poucos, mas perceptivelmente, Will estava mudando. Primeiro, quando lhe negava a droga, ele se retorcia naqueles terríveis ata-ques e tremores, recuperando-se apenas quando ela lhe dava uma pequena porção da erva.

Mas, como os intervalos entre as doses tinham fi-

cado maiores e as doses menores, ela tinha começado a ter esperanças de que ele acabaria se recuperando. Os ataques eram coisa do passado. Agora, em vez de ser dominado pelo corpo quando ansiava pela droga, Will estava men-talmente aceitando um suprimento menor. Ainda havia uma pequena necessidade, mas ela se refletia no compor-tamento suplicante, quase infantil, que ela estava vendo naquele momento.

Depois de três dias sem usar a droga, ele se apro-

ximava e simplesmente ficava parado na frente dela com a mensagem clara no olhar. E, em resposta, ela media uma porção do estoque da droga, cada vez menor, que conti-nuava na bolsinha impermeável de algodão. Evanlyn sabia que era uma corrida para ver se a dependência dele seria maior que o suprimento. Se esse fosse o caso, ela podia ver momentos difíceis para os dois no futuro. Ela não ti-nha ideia de qual seria a reação de Will quando lhe recu-sasse a droga, mas imaginava que mais privação iria resul-tar em outro acesso de tremores e gritos.

Ela pensou que talvez esse fosse o próximo passo

necessário na recuperação dele. Mas, certo ou errado, ela simplesmente não podia se obrigar a testemunhar aquela necessidade incontrolável outra vez. “Haverá tempo sufi-ciente para isso quando a erva finalmente acabar”, ela concluiu.

— Fique aqui — ela pediu, levantando-se da cadei-

ra de madeira e indo para a porta.

Mais uma vez, Evanlyn imaginou ver um leve bri-

lho de prazer nos olhos dele que desapareceu numa fração de segundo, mas ela disse a si mesma que ele tinha estado lá, que ela não estava apenas vendo o que esperava ver.

Ela guardava o suprimento de erva no estábulo, a-

trás de uma tábua solta junto de uma das paredes laterais. No início, pensou em esconder a bolsa de tecido imper-meável na pilha de lenha, mas lembrou que iria pedir a Will que apanhasse lenha para o fogo e a possibilidade de ele encontrar a droga era terrível demais para considerar.

Evanlyn não tinha uma ideia clara do que iria acon-

tecer a Will se ele ingerisse uma dose muito grande.

Ela pensou que, no mínimo, a dependência voltaria

a aumentar outra vez. E também havia a possibilidade de ocorrerem mais efeitos colaterais permanentes — até mesmo fatais. O que ela sabia era que, se Will encontrasse a erva e a usasse de uma vez, ela enfrentaria semanas de convulsões e acessos de tremores iguais aos que ele tivera quando tinha sido privado da droga antes.

Evanlyn se perguntou se a mente entorpecida de

Will poderia processar o fato de que ela sempre deixava a cabana e voltava com a erva; se ele era capaz de juntar a sequência de causa e efeito e raciocinar que a erva devia estar guardada em algum lugar fora da cabana. Ela não tinha certeza, mas, em todo caso, não corria riscos e veri-ficava com cuidado se ele não a tinha seguido quando ti-rava a bolsinha do pequeno esconderijo na parede de ma-deira.

Evanlyn olhou sobre o ombro quando entrou no

estábulo. O pônei olhou para ela e relinchou, cumprimen-tando-a. Mas não havia sinal de que Will estava interessa-do em seus movimentos. Aparentemente, ele estava satis-feito em esperar na cabana, sabendo que ela voltaria logo com a droga pela qual ansiava. Como isso acontecia ou onde ela a encontrava pareciam não ser perguntas que o preocupavam. Aquelas eram abstrações e naqueles dias ele lidava apenas com fatos.

Evanlyn mediu uma quantidade minúscula da erva

seca na palma da mão, embrulhou o restante e o recolo-cou atrás da tábua solta. Novamente, durante em meio a esse procedimento, ela se virou de repente para checar se estava sendo vigiada. Mas não havia sinal do companhei-ro; apenas o pônei a observava com seus olhos brilhantes e inteligentes.

— Não diga uma palavra — ela pediu ao cavalo em

voz baixa.

Surpreendentemente, ele escolheu esse exato mo-

mento para balançar a cabeça como os pôneis fazem de tempos em tempos. Evanlyn deu de ombros depois de reagir com espanto por um segundo. Era como se o ani-mal a tivesse ouvido e compreendido. Recolocou a bolsa no buraco e o fechou com um pedaço de tábua para es-condê-la. Ela se abaixou no chão do estábulo, pegou um punhado de terra e o espalhou sobre a linha recortada que marcava a junção da madeira. Então, convencida de que o esconderijo estava oculto da melhor forma possível, vol-tou para a cabana.

Will sorriu quando Evanlyn entrou e, por um mo-

mento, ela pensou que ele a tinha reconhecido, como nos velhos tempos. “Os velhos tempos”, ela pensou com tris-teza. Apenas poucos meses tinham se passado, mas agora pensava neles como se tivessem ocorrido há muito tempo. Então percebeu que o olhar dele disparou para sua mão direita fechada. O sorriso era para a droga, não para ela.

Mesmo assim, era um começo.

Evanlyn estendeu a mão fechada, e ele se aproxi-

mou ansioso, juntando as duas mãos debaixo da dela para que nenhum grão caísse. Evanlyn deixou que a erva verde-acinzentada escorregasse para as mãos dele, observando o rosto dele enquanto os olhos seguiam o fino fio da droga. Inconscientemente, a língua disparou para os lábios, na expectativa. Depois de dar tudo a ele e deixar que limpas-se com cuidado os poucos e minúsculos grãos que tinham ficado presos na palma de sua mão, ele olhou para ela e sorriu outra vez.

Desta vez, teve certeza de que ele tinha sorrido para

ela.

— Bom — ele disse rapidamente e então seu olhar

caiu sobre o pequeno monte de erva seca que tinha na mão.

Ele se afastou dela, curvando-se sobre a mão quan-

do a levou para a boca.

Evanlyn sentiu aquele repentino clarão de esperan-

ça queimar com força dentro dela novamente. Era a pri-meira vez que Will tinha realmente falado com ela desde que tinham escapado de Hallasholm.

Não era muito. Apenas uma palavra. Mas era um

começo. Ela sorriu para Will quando ele se agachou num canto da cabana. Como um animal, ele instintivamente se encolhia enquanto usava a droga, aparentemente nervoso com a possibilidade de que ela a tirasse dele.

— Seja bem-vindo, Will — ela disse baixinho. Mas ele não respondeu. A erva do calor o tinha do-

minado mais uma vez.

Horace se ergueu nos estribos quando Kicker começou a galopar com velocidade. Ele segurava uma longa vara de freixo à direita, num ângulo reto com o corpo e com seu alvo. À sua frente, parado imóvel no meio do campo situ-ado diante do castelo, Halt puxou a corda do arco para trás até que a ponta enfeitada com penas da flecha tocasse o canto de sua boca.

Horace impeliu o cavalo de batalha a aumentar ain-

da mais o ritmo até chegar à velocidade máxima. Ele o-lhou para a direita para verificar se o capacete que tinha prendido no fim da lança de freixo ainda estava na posi-ção correta voltada para Halt.

Ao olhar para o pequeno vulto na grama diante de-

le, viu a primeira flecha ser posicionada e cuspida do arco com uma força incrível e disparar na direção do alvo em movimento. Em seguida, num movimento confuso e qua-se incompreensível, as mãos de Halt se mexeram e outra flecha estava a caminho.

Quase ao mesmo tempo, Horace sentiu um choque

transmitido ao longo da vara de madeira que segurava quando as duas setas atingiram o capacete com um inter-valo de meio segundo.

Ele deixou Kicker diminuir o passo para um meio-

galope e levou o cavalo a fazer um círculo largo até parar na frente do arqueiro. Halt estava parado com o arco a-poiado no chão e esperava pacientemente para ver o resul-tado do treino. Horace deixou a vara e o capacete caírem no chão na sua frente. Incrivelmente, as duas flechas atra-vessaram a abertura do visor e se instalaram no acolchoa-mento macio que Halt tinha posto no interior para prote-ger as pontas afiadas.

Quando Halt pegou o velho capacete nas mãos,

Horace jogou a perna sobre o arção e escorregou para o chão ao lado dele. O arqueiro grisalho fez um gesto com a cabeça enquanto inspecionava o resultado de sua prática de tiro.

— Nada mal — ele disse. — Nada mal, mesmo. Horace soltou as rédeas e deixou Kicker se afastar e

pastar na grama curta e grossa que crescia no campo de torneios. Ele estava espantado e mais do que um pouco preocupado com as ações de Halt.

Depois que o desafio fora apresentado e aceito,

Deparnieux tinha concordado em devolver as armas dos dois. Halt alegou que não atirava uma flecha havia sema-nas e precisaria treinar suas habilidades para o combate. Deparnieux, que praticava diariamente suas técnicas de combate, não viu nada de incomum no pedido. Assim, as armas tinham sido devolvidas, embora os dois araluenses estivessem sendo vigiados de perto por pelo menos uma dúzia de homens armados de bestas sempre que iam trei-nar.

Nos últimos três dias, Halt tinha instruído Horace a

galopar pelo campo com o capacete estendido na ponta de uma vara enquanto ele atirava setas no visor. A cada vez, pelo menos uma das duas flechas encontrava o alvo. Em geral, Halt conseguia pôr as duas flechas nos pequenos espaços que tinha em vista.

No entanto, aquilo não era mais do que Horace es-

perava do arqueiro. A habilidade de Halt com o arco era lendária. Não havia necessidade para ele praticar, especi-almente quando, ao fazer isso, estava revelando suas táti-cas para o comandante galês.

— Ele está olhando? — Halt perguntou em voz

baixa, parecendo ler os pensamentos de Horace.

O arqueiro estava de costas para os muros do caste-

lo e não via o que acontecia lá. Mas Horace, movendo a-penas os olhos, e não a cabeça, conseguia ver a silhueta negra, num dos muitos terraços do castelo, curvada na balaustrada observando-os, como fazia sempre que iam para o campo.

— Sim, Halt — ele respondeu. Ele está olhando.

Mas é sensato a gente fazer isso onde ele possa ver?

O leve sinal de um sorriso pareceu tocar os lábios

do arqueiro.

Possivelmente não — ele respondeu —, mas ele i-

ria garantir que poderia nos observar, não importa onde praticássemos, não é mesmo?

— Sim — Horace admitiu relutante —, mas você

não precisa treinar, precisa?

— Você falou como um verdadeiro aprendiz —

Halt resmungou tristemente. — Treinamento nunca é demais para ninguém, jovem Horace. Tenha isso em men-te para quando voltarmos ao Castelo Redmont.

Horace olhou para Halt desanimado, enquanto ele

soltava as duas flechas do estofo de palha e couro que en-chia a cavidade do capacete.

— Há outra coisa — ele começou, mas Halt levan-

tou a mão para que parasse.

— Eu sei, eu sei — ele disse. — As suas preciosas

regras de cavalaria estão perturbando você outra vez, cer-to?

Horace foi obrigado a concordar com relutância.

Aquele assunto era motivo de discussão entre os dois des-de que Halt tinha desafiado Deparnieux para um duelo.

Primeiro, o cavaleiro tinha ficado enraivecido e de-

pois, sarcasticamente divertido com o fato de que um homem do povo tivesse a audácia de desafiá-lo.

— Sou um cavaleiro consagrado — Deparnieux

disparou para Halt. — Um nobre! Não posso ser desafia-do para combater por qualquer rufião da floresta!

A expressão do arqueiro ficou sombria ao ouvir es-

sas palavras. Sua voz, quando falou, estava baixa e perigo-sa. Inadvertidamente, tanto Deparnieux quanto Horace tinham se inclinado para a frente para ouvi-lo com mais atenção.

— Veja como fala, seu patife malnascido! — Halt

tinha retrucado. — Você está falando com o membro da casa real de Hibernia, sexto na linha do trono e com uma linhagem que era nobre quando você e os seus estavam procurando por restos de comida nos canis!

E, enquanto falava, um inconfundível sotaque hi-

berniano se fez, sentir em suas palavras. Horace olhou para ele surpreso. Ele não tinha a menor ideia de que Halt descendia de uma linhagem real. Deparnieux ficou igual-mente espantado com a notícia. Ele estava certo, e claro. Nenhum cavaleiro era obrigado a honrar um desafio vin-do de um inferior. Mas a alegação do arqueiro grisalho sobre seu sangue real punha o assunto numa outra pers-pectiva. Seu desafio devia ser tratado com seriedade e res-peito. Deparnieux não poderia ignorá-lo, especialmente por ter sido feito na presença de vários de seus homens. Recusar o desafio abalaria seriamente sua posição.

Assim, ele aceitou o combate que foi marcado para

dali a duas semanas.

Mais tarde, em seus aposentos, Horace mostrou

surpresa quando à origem de Halt.

— Eu não sabia que você descendia da realeza hi-

berniana — ele disse.

Halt sorriu com indiferença.

— Não descendo — ele respondeu. — Mas o nos-

so amigo não sabe e não tem como provar que estou mentindo. Portanto, ele teve que aceitar meu desafio.

E foi essa desconsideração pelas rígidas convenções

da cavalaria que deixou Horace tão preocupado, tanto quanto o fato de que Halt parecia permitir que o inimigo soubesse exatamente que táticas usaria no combate para o qual faltava apenas um dia. O treinamento na Escola de Guerra dava muita importância às convenções e obriga-ções da classe dos cavaleiros. Horace tinha aprendido nos últimos dezoito meses que elas eram firmes e inflexíveis. Elas depositavam obrigações naqueles que seriam cavalei-ros e, embora lhes dessem grandes privilégios, esses privi-légios tinham que ser conquistados. Um cavaleiro tinha que obedecer as regras, viver de acordo com elas e, se ne-cessário, morrer por elas.

Entre as convenções mais severas e inflexíveis esta-

va a oportunidade do combate. Para falar a verdade, mesmo Horace, como um guerreiro ainda não promovido a cavaleiro, não estava autorizado a desafiar Deparnieux. Mas Halt certamente estava, e a atitude de cavaleiro do arqueiro diante de um sistema que Horace tinha na mais alta estima havia chocado o garoto — e ainda o perturba-va.

— Escute — Halt disse com certa delicadeza, pon-

do um braço em volta dos ombros fortes de Horace —, eu admito que as regras da cavalaria são ótimas, mas ape-nas para os que vivem para obedecer todas as regras.

— Mas... — Horace começou, porém Halt o inter-

rompeu apertando-lhe o ombro.

— Deparnieux usou essas regras para matar, para

roubar e assassinar por Deus sabe quantos anos. Ele aceita as regras que lhe convém e descarta as que atrapalham. Você já viu isso.

— Eu sei, Halt — Horace concordou infeliz. — É

que me ensinaram a...

— Você aprendeu com homens nobres — o ar-

queiro o interrompeu outra vez com gentileza. — Com homens que seguem e vivem de acordo com todas as re-gras da cavalaria. Vou lhe dizer uma coisa: no que se refe-re a essa questão, não conheço homens melhores do que sir Rodney ou o barão Arald. Homens como eles são a personificação de tudo o que é correto sobre a cavalaria e seus procedimentos.

Ele parou, olhando para o rosto perturbado do ga-

roto com atenção. Horace assentiu com um gesto. Halt tinha escolhido Rodney e o barão por serem modelos para o rapaz. Vendo que ele tinha sido compreendido, Halt continuou.

— Mas um porco assassino e covarde como De-

parnieux não pode alegar seguir os mesmos padrões que esses homens seguem. Não tenho o menor remorso em mentir para ele, contanto que isso me ajude a atrair ele para uma luta. E derrotar, se tiver sorte.

E, nesse momento, Horace se virou para ele com a

expressão ainda preocupada, mas talvez um pouco mais tranquilo.

— Mas como pode pensar em derrotar ele quando

ele sabe exatamente o que pretende fazer? — ele pergun-tou desanimado.

— Talvez eu tenha sorte — Halt respondeu dando

de ombros, sem o menor sinal de um sorriso.

O arco de caça provocava uma sensação estranha na mão de Evanlyn. Ela se atrapalhou ao tentar colocar uma das flechas na corda e quase a deixou cair na neve aos seus pés quando tentou manter os olhos no pequeno animal que se movia lentamente na clareira à sua frente.

Sem pensar, ela assobiou aborrecida e, no mesmo

instante, o coelho se sentou nas patas traseiras remexendo as orelhas para ver se conseguia perceber outro sinal do som estranho que tinha acabado de ouvir, torcendo o fo-cinho de um lado para outro e procurando traços de al-gum cheiro estranho.

Evanlyn ficou paralisada e esperou até que o animal

tivesse se certificado de que não havia perigo imediato e voltasse a raspar a neve com as patas dianteiras para des-cobrir a grama molhada e mirrada que se escondia debaixo dela. Quase sem ousar respirar, observou o coelho reco-meçar a comer e então, olhando para baixo desta vez, des-lizou a flecha para junto da corda, bem abaixo do entalhe que o fabricante tinha feito ali.

Nesse local, a corda era mais grossa e era envolvida

por um fio fino para que o encaixe oferecesse firmeza e prendesse a flecha no lugar sem que se precisasse usar os dedos. Evanlyn conseguia segurar o arco com leveza e a força da corda quando solta faria que ela a soltasse de i-mediato e enviaria a flecha para seu alvo.

Evanlyn levantou o arco e começou a puxar a corda

com a mão direita, mas sabia que não estava fazendo a coisa corretamente. Ela tinha visto vários arqueiros para saber que não era assim que se fazia. Entretanto, como estava começando a perceber, observar um arqueiro expe-riente e imitar seus movimentos eram duas coisas total-mente diferentes. Ela se lembrava de Will pôr a flecha no arco e atirar num único movimento suave, hábil e aparen-temente fácil. Naquele momento, ela visualizou o movi-mento na imaginação, mas estava totalmente além de sua capacidade recriá-lo. Em vez disso, ela segurou o arco pa-ra cima e, tremendo, agarrando 0 entalhe da flecha entre o indicador e o polegar, tentou puxar a corda para trás so-mente com a força dos dedos e do braço.

Agindo assim, ela mal conseguia puxar a flecha a

meia distância. Ela apertou os lábios zangada. Teria que conseguir. Fechou um dos olhos e observou a flecha, ten-tando mirar a pequena criatura que estava se alimentando satisfeita e sem notar o perigo mortal que rondava as ár-vores ao redor da clareira. Com mais esperança do que convicção, ela finalmente soltou a flecha.

Três coisas aconteceram.

O arco se retorceu em sua mão, afastando a flecha

cerca de 3 metros do alvo. A flecha em si saltou do arco com uma força que mal era suficiente para perfurar a car-ne do animal, e a corda bateu doloridamente contra a pele macia do interior de seu braço. Evanlyn gritou de dor e deixou o arco cair. A flecha deslizou pela casca de uma árvore e desapareceu na floresta do outro lado da clareira.

O coelho ergueu o corpo novamente e espiou na

direção dela com um olhar que parecia totalmente confu-so quando inclinou a cabeça para ver melhor. Então, ficou de quatro, afastou-se lentamente da clareira e andou vaga-rosamente para o meio das árvores.

“Que fim para quem estava correndo perigo mor-

tal”, ela pensou com tristeza.

Evanlyn apanhou o arco, esfregou o braço dolorido

onde a corda tinha batido e foi procurar a flecha. Depois de uma busca de dez minutos, chegou à conclusão que a tinha perdido para sempre. Aborrecida, voltou para a pe-quena cabana.

— Acho que vou ter que praticar mais — ela res-

mungou. Aquela tinha sido sua segunda tentativa de caça. A primeira tinha sido igualmente infrutífera e totalmente desanimadora. Pelo que talvez fosse a décima quinta vez, ela suspirou ao pensar que, se Will estivesse bem, ele não teria nenhuma dificuldade em usar o arco para conseguir comida para a mesa deles.

Evanlyn tinha lhe mostrado o arco, esperando que

ele se lembrasse de alguma coisa ao ver a arma. Mas ele não tinha feito nada além de olhar para ela fixamente com a expressão desinteressada e dissimulada que tinha ficado tão conhecida para ela.

Havia nevado na noite anterior e a neve estava na

altura dos joelhos quando ela voltou com dificuldade para a cabana. Era a primeira nevasca em mais de uma semana, e isso a tinha feito pensar. O inverno já devia estar pela metade e, por fim, quando a primavera chegasse, os es-candinavos de Hallasholm recomeçariam a andar por a-quelas montanhas. Talvez alguns até chegassem e usassem a cabana que ela e Will estavam ocupando no inverno. Ele teria que estar recuperado até lá, para que pudessem inici-ar a longa jornada para o sul, e ela não tinha ideia de quan-to tempo essa recuperação iria levar. Ele parecia estar me-lhorando dia a dia, mas Evanlyn não tinha certeza. Tam-pouco ela podia ter certeza de quanto tempo tinham até que o calor da primavera começasse a derreter a neve.

Evanlyn sabia que estavam numa corrida, mas não

conseguia ver a linha de chegada. Ela poderia surgir na sua frente a qualquer momento.

A cabana entrou em seu campo de visão. Ela ficou

aliviada por ver que um fino fio de fumaça ainda saía pela chaminé. Ela tinha acendido o fogo antes de sair pela ma-nhã, esperando ter colocado bastante lenha para que queimasse até sua volta. Ela já tinha descoberto que nada era mais desanimador do que chegar em casa fria e mo-lhada e encontrar o fogo apagado.

Naturalmente, não havia como esperar que Will

cuidasse do fogo na ausência dela. Até mesmo uma tarefa simples como aquela parecia ser demais para ele. Ela se deu conta de que não era má vontade da parte dele. Ele simplesmente não mostrava nenhum interesse em fazer ou dizer qualquer coisa além das funções mais básicas. Ele comia, dormia e ocasionalmente se aproximava dela com a expressão suplicante no olhar, pedindo mais erva. “Pelo menos”, ela se consolou, “faz algum tempo que ele não faz isso”.

Continuar: parte 3 de 3