Terra do Gelo

John Flanagan · Capítulo 4 de 4 · parte 3/3

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Terra do Gelo

Era incomum ver um homem com aquele…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Durante o resto do tempo, ele simplesmente ficava

sentado em qualquer lugar, olhando para o chão, para as mãos, ou um pedaço de madeira, ou qualquer coisa em que seus olhos quisessem se concentrar no momento.

As velhas dobradiças de couro da porta da cabana

rangeram quando ela a abriu. O barulho foi suficiente para chamar a atenção de Will. Ele estava sentado de pernas cruzadas no chão, no meio da cabana, quase na mesma posição de quando ela tinha saído, horas antes.

— Oi, Will. Voltei — ela avisou, obrigando-se a

sorrir.

Ela sempre tentava, vivendo na esperança de que

um dia ele iria reagir.

Mas aquele não era esse dia. O garoto não mostrou

sinal de reação ou interesse. Suspirando, ela recostou o pequeno arco na parede ao lado da porta. Vagamente, ela percebeu que deveria tirar a corda do arco, mas estava de-sanimada demais para fazer isso naquele momento.

Evanlyn foi até a despensa e apanhou uma pequena

quantidade de seu reduzido suprimento de carne seca. Havia arroz também e ela começou a preparar o arroz temperado com carne que tinha se tornado a refeição principal nas últimas semanas. Pôs água para ferver para que pudesse cozinhar a carne e preparar um caldo ralo com pelo menos um pouco de sabor.

Evanlyn tinha medido uma xícara de arroz e a esta-

va colocando em outra panela quando ouviu um leve ba-rulho atrás dela. Ao se virar, percebeu que Will tinha saído da posição em que tinha ficado quase toda a tarde. Naque-le momento, ele estava sentado perto da porta e ela se perguntou o que o tinha feito se mexer, mas chegou à conclusão de que tinha sido apenas uma decisão tomada ao acaso.

Então, ela percebeu o que tinha acontecido e deu

um salto de surpresa, derramando parte do precioso arroz na mesa.

O pequeno arco ainda estava encostado à parede

junto da porta. Mas Will tinha tirado a corda.

Os homens de Deparnieux tinham estado fora desde ce-do, naquela manhã, passando o rastelo na grama comprida que cobria o campo na frente do Château Montsombre. O cavaleiro galês não queria correr riscos no combate plane-jado. Ele tinha visto cavalos de batalha caírem por causa de grama emaranhada e queria garantir que o terreno da luta estivesse livre desse perigo.

Agora, uma hora após o meio-dia, ele saiu pela por-

ta falsa que tinha usado na ocasião de seu último combate. Ele não tinha dúvidas de que iria derrotar Halt, mas tam-bém não se deixava enganar pelo pequeno estranho. Ele tinha observado as constantes sessões de treinamento que Halt e Horace tinham conduzido e sabia que o araluense era um arqueiro de habilidades raras. Ele não tinha dúvida sobre as táticas que o oponente usaria. As sessões de trei-namento tinham deixado isso claro. Deparnieux sorriu para si mesmo. Ele pensou que as táticas psicológicas de Halt eram interessantes. A visão constante da flecha pas-sando pelo visor de um capacete em rápido movimento podia muito bem ser suficiente para amedrontar a maioria dos oponentes. Mas, embora Deparnieux tivesse poucas dúvidas sobre as habilidades de Halt, tinha menos ainda sobre as próprias. Seus reflexos eram tão rápidos quanto os de um gato e ele tinha certeza de que poderia desviar as flechas de Halt com o escudo.

Ele concluiu que parecia que o araluense grisalho o

tinha julgado mal como oponente, e ficou vagamente de-sapontado com o fato. Deparnieux tinha esperado muito do desconhecido. Parecia agora que as primeiras impres-sões tinham se reduzido a quase nada. Halt era um arquei-ro experiente, isso era tudo. Ele não tinha poderes sobre-naturais ou habilidades misteriosas. O comandante pensou que, na verdade, ele era bastante limitado e um homem desinteressante que se tinha em alta conta. Ele duvidava da alegação do arqueiro de ter uma linhagem real, mas isso não importava mais. O homem merecia morrer, e Depar-nieux ficaria feliz em lhe fazer esse favor.

Não havia nenhum dos habituais toques festivos de

trompetes ou o rufar de tambores quando Deparnieux levou seu cavalo negro lentamente para o campo de bata-lha. Aquele não era um dia para cerimônias. Aquele era um dia de trabalho comum para o cavaleiro negro. Um intruso tinha desafiado sua autoridade e sua superioridade na região. Era necessário despachar esse tipo de gente com a máxima eficiência.

Por causa de tudo isso, praticamente todos os

membros da equipe do Château Montsombre e muitos dos guerreiros de Deparnieux estavam presentes para tes-temunhar o combate. Ele sorriu com crueldade quando se perguntou quantos deles estariam ali na esperança de vê-lo derrotado. E concluiu que muitos deles. Mas eles estavam fadados ao desapontamento. Na verdade, matar o arquei-ro iria servir a um objetivo conveniente para ele. Nada seria tão bom para a disciplina quanto a visão do dono e senhor do castelo provocando a morte rápida de um in-truso arrogante.

E, por falar no diabo, lá estava ele. O arqueiro esta-

va cavalgando na extremidade oposta do campo em seu pequeno cavalo parecido com um barril. Ele não usava armadura, apenas um colete de couro ornamentado com tachões que não lhe daria nenhuma proteção contra a lan-ça e a espada de Deparnieux. E, naturalmente, a sempre presente capa manchada de cinza e verde.

Seu jovem companheiro cavalgava alguns passos a-

trás dele. Ele usava uma malha de ferro e seu capacete es-tava pendurado na sela do cavalo de batalha. Ele carregava a espada e levava o escudo redondo adornado com o sím-bolo da folha de carvalho.

“Interessante”, Deparnieux pensou. Obviamente,

no caso da derrota inevitável de Halt, seu jovem compa-nheiro de viagem tentaria vingara morte do amigo. “Me-lhor assim”, pensou o cavaleiro negro. Se uma morte iria servir como um exemplo salutar aos seus criados mais in-disciplinados, duas seriam duplamente eficientes. Afinal, tinha sido assim que todo esse acontecimento decepcio-nante tinha começado.

Ele fez o cavalo parar e testou a empunhadura da

lança na mão direita para garantir que a segurava no ponto ideal de equilíbrio. No lado oposto do campo, seu opo-nente continuava a cavalgar para a frente, devagar e com firmeza. Ele parecia ridiculamente pequeno, diminuído pelo jovem musculoso e o imenso cavalo de batalha que andavam ao lado dele.

 

— Espero que saiba o que está fazendo — Horace

disse, tentando falar sem mover os lábios, no caso de De-parnieux estar observando, coisa que, naturalmente, ele estava.

Halt se virou na sela e quase sorriu para ele. — Pois eu sei — ele disse devagar. Ele percebeu que a mão direita de Horace soltou a

espada dentro do estojo mais uma vez. Ele tinha feito a mesma coisa pelo menos uma dúzia de vezes enquanto cavalgavam.

— Relaxe — ele acrescentou com calma. Horace olhou para ele abertamente, sem se impor-

tar se Deparnieux o via ou não.

— Relaxar? — ele repetiu sem acreditar. — Você

vai lutar só com um arco contra um cavaleiro vestido com uma armadura e você me pede para relaxar?

— E você sabe que só vou ter uma ou duas flechas

— Halt disse com suavidade, fazendo Horace olhá-lo es-pantado.

— Bem... só espero que você saiba o que está fa-

zendo — ele repetiu.

— Se é o que você acha — ele retrucou, e cutucou

Abelard com o joelho, fazendo-o parar.

Halt sorriu para ele. Era apenas o leve clarão de um

sorriso. Os olhos de Halt se concentraram na figura dis-tante na armadura negra, ele passou a perna direita por sobre a sela e desceu do cavalo.

Tire ele do caminho para não se machucar — ele

pediu ao aprendiz.

Horace se inclinou e pegou a rédea do cavalo do

arqueiro. Abelard agitou as orelhas e olhou para seu dono com olhar inquisidor.

— Vá com ele — Halt ordenou em voz baixa, e o

cavalo se permitiu ser conduzido para longe.

Halt olhou mais uma vez para o jovem sentado no

cavalo de batalha e viu preocupação em cada centímetro do corpo do garoto.

— Horace? — ele chamou, e o aprendiz parou e

olhou para ele.

— Fique tranquilo, eu sei o que estou fazendo. Ho-

race conseguiu mostrar um fraco sorriso.

— Se você diz... — ele replicou.

Enquanto falavam, Halt selecionou cuidadosamente

três flechas entre as várias que levava na aljava e as colo-cou com a ponta para baixo dentro da bota direita. Horace viu o movimento e se perguntou o que o arqueiro preten-dia. Não havia necessidade de Halt deixar as flechas à mão daquele jeito. Ele podia pegá-las na aljava em suas costas e atirá-las numa fração de segundo.

Ele não teve tempo de pensar mais no assunto, pois

Deparnieux chamava do outro extremo do campo.

— Caro lorde Halt — Horace ouviu claramente

Deparnieux cumprimentá-lo com forte sotaque enquanto se afastava com o cavalo. — Você está preparado?

Sem se preocupar em falar, Halt ergueu a mão em

resposta. Horace achou que ele parecia muito pequeno e vulnerável, parado sozinho no centro do campo aparado, esperando a aproximação do cavaleiro vestido de negro montado no seu enorme cavalo de batalha.

— Então, que o melhor homem vença! — Depar-

nieux gritou zombeteiro.

— É o que pretendo fazer — Halt respondeu desta

vez, enquanto Deparnieux batia as esporas no cavalo que começou a se aproximar a galope.

Ocorreu a Horace que Halt não tinha dito nada so-

bre o que deveria fazer se Deparnieux vencesse. Ele tinha alguma esperança de que o arqueiro o mandasse fugir. Ele certamente esperava que Halt o proibisse de desafiar De-parnieux imediatamente após o combate, o que era exata-mente o que Horace pretendia fazer se Halt perdesse. Ele se perguntou naquele momento se Halt não tinha dito na-da porque sabia que iria ignorar essa ordem ou se era sim-plesmente porque estava totalmente confiante em sua vi-tória.

Não que parecesse haver essa possibilidade. A terra

tremeu sob os cascos do cavalo de batalha negro, e o olho experiente de Horace viu que o cavaleiro galês era um guerreiro de grande capacidade e habilidade naturais. Per-feitamente equilibrado em sua sela sobre o cavalo, ele ma-nuseava a lança longa e pesada como se fosse um objeto leve, inclinando-se para a frente e erguendo-se ligeiramen-te nos estribos enquanto a ponta da lança se aproximava cada vez mais da pequena figura vestida na capa cinza-esverdeado.

Era a capa que provocava uma sensação de apreen-

são na mente de Deparnieux. Halt oscilava levemente en-quanto esperava, e as manchas irregulares na capa tendo como fundo a grama de inverno cinza-esverdeado recém-cortada pareciam fazer o vulto entrar e sair de foco. O efeito era quase hipnotizador. Zangado, Deparnieux afas-tou o pensamento perturbador e tentou concentrar a aten-ção no arqueiro. Ele estava perto, a menos de 30 metros de distância, e mesmo assim o arqueiro ainda não...

Deparnieux sentiu sua aproximação: um movimen-

to confuso quando o arco foi erguido e a primeira flecha disparou na direção dele com uma velocidade incrível, in-do diretamente para as fendas do visor em seu capacete e provocando uma sensação de vazio.

No entanto, apesar da velocidade da flecha, Depar-

nieux foi ainda mais rápido e conseguiu levantar o escudo a tempo. Ele sentiu a flecha bater no escudo e ouviu o retinir de aço se chocando com aço quando ela abriu um longo sulco no esmalte preto e brilhante e depois saiu sibi-lando quando o escudo a desviou.

Mas então o escudo não o deixava ver o pequeno

homem, e Deparnieux rapidamente o abaixou.

“Que todos os diabos do inferno o levem!”, foi o

que Halt desejou ao disparar uma segunda flecha. Mas os incríveis reflexos de Deparnieux o salvaram outra vez, fazendo que ele usasse o escudo para desviar o segundo arremesso traiçoeiro. Ele se perguntou como alguém po-dia atirar tão depressa e então praguejou quando percebeu que, por não conseguir enxergar, já tinha passado do pon-to em que o arqueiro estava parado, calmamente saindo do alcance da ponta da lança.

Deparnieux fez o cavalo de batalha diminuir o pas-

so e dar uma grande volta. Não valeria a pena se arriscar a ferir o animal fazendo-o virar depressa demais. Ele agiria com calma e...

Nesse momento, ele sentiu uma pontada aguda de

dor no ombro esquerdo. Desajeitado e torcendo o corpo, a visão prejudicada pelo capacete, ele percebeu que, ao passar a galope, Halt tinha disparado outra flecha em sua direção, desta vez mirando a abertura na armadura na altu-ra do ombro.

A malha de ferro que cobria essa abertura tinha su-

portado quase todo o impacto da seta, mas a ponta afia-díssima ainda tinha conseguido cortá-la e penetrar na car-ne. Deparnieux se deu conta de que o ferimento era dolo-roso, mas superficial, e moveu o braço rapidamente para se certificar de que nenhum músculo ou tendão importan-te tinha sido machucado. Se a luta fosse prolongada, o braço poderia ficar rígido e afetar a defesa com o escudo.

Do modo como as coisas caminhavam, o ferimento

era um incômodo. “Um incômodo doloroso”, ele corrigiu ao sentir o sangue quente escorrendo pela axila. Ele pro-meteu a si mesmo que Halt pagaria por isso. E pagaria caro.

Pois, naquele momento, Deparnieux pensou que

tinha entendido o plano de Halt. Ele iria continuar a im-pedir sua visão ao atacar, obrigando-o a levantar o escudo para proteger os olhos no último minuto, afastando-se então para o lado quando Deparnieux passasse para inves-tir contra ele.

Mas o cavaleiro não tinha intenção de jogar o jogo

de Halt. Ele iria trocar o ataque desenfreado em alta velo-cidade com a lança por uma aproximação lenta e delibera-da. Afinal, ele não precisava da força e do impulso de uma investida. Ele não estava enfrentando outro cavaleiro de armadura que tentava derrubá-lo da sela. Ele estava en-frentando um homem parado sozinho no meio do campo.

Enquanto percebia o plano, jogou a pesada lança

no chão, pegou a flecha do ombro, quebrou-a e a jogou atrás da lança.

Em seguida, empunhou a espada e começou a tro-

tar lentamente para perto de Halt e esperou por ele.

Ele manteve o arqueiro à sua esquerda para que o

escudo ficasse em posição de desviar as flechas. A longa espada na mão direita balançava facilmente em círculos enquanto ele sentia o peso conhecido e o equilíbrio perfei-to.

Enquanto olhava a cena, Horace sentiu o coração

bater mais forte no peito. Agora só podia haver um fim para aquela luta. Quando Deparnieux abandonou o ataque impetuoso e o substituiu por uma aproximação mais cau-telosa, Halt ficou com sérios problemas. Horace sabia que 9 entre 10 cavaleiros teriam continuado a atacar, indigna-dos pelas táticas de Halt e determinados a esmagá-lo com sua força superior. Ele via agora que Deparnieux era um dos 10 que veriam rapidamente a tolice de seguir esse ru-mo e encontrariam uma tática para anular a vantagem do arqueiro.

O cavaleiro montado estava a somente 40 metros

de distância da pequena figura e se movimentava lenta-mente em sua direção. Como antes, o arco subiu e a flecha estava a caminho. Com habilidade, quase com desdém, Deparnieux levantou o escudo para desviar a seta. Desta vez, ele ouviu o guincho agudo do impacto e tornou a a-baixar o escudo.

Ele viu a próxima flecha, já apontada para a sua ca-

beça. Ele viu a mão do arqueiro começar a soltar a corda e novamente levantou o escudo quando a flecha disparou em sua direção.

Mas havia um detalhe importante que ele não viu.

Aquela flecha era uma das três que Halt tinha colo-

cado no cano da bota. E essa flecha era diferente, pois tinha uma cabeça muito mais pesada feita de aço tempera-do. Ao contrário das flechas de guerra normais da aljava de Halt, ela não tinha a cabeça larga em formato de folha. Em vez disso, ela tinha a forma da ponta de um formão frio cercado por quatro esporas que impediriam que fosse desviada e deixariam que atravessasse e penetrasse a carne atrás da armadura de Deparnieux.

A ponta da flecha era planejada para perfurar arma-

duras, e Halt tinha aprendido seus segredos anos antes com os fortes arqueiros montados das estepes do leste.

A flecha saiu voando do arco. Quando Deparnieux

levantou o escudo, não conseguiu ver o peso adicional da ponta que já a fazia cair abaixo do local desejado. A flecha formou um arco para baixo do escudo inclinado e bateu no peito ali exposto como se quisesse apenas testar sua velocidade e força.

Deparnieux ouviu o baque. Um impacto surdo de

metal contra metal — mais um golpe metálico do que um tinido. Ele se perguntou 0 que era. E então sentiu o co-meço de uma dor intensa, uma agonia ardente, que come-çou em seu lado esquerdo e se espalhou rapidamente até tomar conta de todo o seu corpo.

Ele não chegou a sentir o impacto da queda de seu

corpo no gramado.

Halt baixou o arco. Ele afrouxou a corda e guardou

a segunda flecha preparada para perfurar armaduras, já posicionada e pronta, na aljava.

O senhor do Château Montsombre estava deitado

imóvel. Um silêncio assombrado tomou conta da pequena multidão de espectadores que tinha saído do castelo para assistir ao combate. Nenhum deles sabia como reagir. Ne-nhum deles esperava esse resultado. Os criados, cozinhei-ros e cavalariços sentiram uma cautelosa sensação de pra-zer. Deparnieux nunca tinha sido um patrão querido. O uso do chicote e das gaiolas de ferro em qualquer criado que o desagradasse tinha sido o responsável por isso. Mas as expectativas em relação ao homem que tinha acabado de matá-lo não eram necessariamente mais altas.

Logicamente, eles imaginaram que o estrangeiro

barbado tinha matado seu patrão para que pudesse assu-mir o controle de Montsombre. Era assim que as coisas aconteciam em Gálica, e experiências anteriores tinham mostrado a eles que uma mudança de dono não trazia me-lhorias para suas vidas. O próprio Deparnieux tinha derro-tado um antigo tirano alguns anos antes. Assim, embora estivessem satisfeitos em ver o sádico e cruel cavaleiro negro morto, eles encaravam seu sucessor com pouco o-timismo.

Para os soldados que tinham servido Deparnieux, o

assunto era um pouco diferente. Eles, pelo menos, tinham uma ligação mais próxima com o homem morto, embora classificar esse sentimento como lealdade fosse um exage-ro. Mas ele os tinha conduzido a muitas vitórias e a um prêmio considerável ao longo dos anos, de modo que ago-ra três deles começaram a andar na direção de Halt mo-vendo as mãos na direção do punho da espada.

Ao ver o movimento, Horace bateu com as esporas

em Kicker e ficou entre eles e o arqueiro vestido com a capa cinzenta. Ouviu-se um tinido de aço sobre couro quando ele desembainhou a espada, fazendo a lâmina bri-lhar debaixo do sol do começo da tarde. Os soldados hesi-taram. Eles conheciam a reputação de Horace, e nenhum deles se considerava um espadachim habilidoso o bastante para acertar contas com o jovem rapaz. O campo de bata-lha ao qual estavam acostumados era a confusão de uma batalha campal, não a atmosfera fria e calculista de um duelo como esse.

— Pegue o cavalo — Halt pediu a Horace. O aprendiz olhou em volta surpreso. Halt não tinha

se mexido. Ele estava parado com os pés ligeiramente se-parados, voltado para os soldados que se aproximavam. Mais uma vez, uma flecha estava preparada na corda do arco, embora ele continuasse abaixado.

— O quê? — Horace perguntou confuso, e o ar-

queiro virou a cabeça na direção do cavalo de batalha do comandante, apoiando o peso do corpo ora num pé, ora noutro, agitando a cabeça vagamente.

— O cavalo. Agora ele é meu. Pegue ele para mim

— Halt repetiu, e Horace fez Kicker trotar lentamente até onde pôde se inclinar e pegar as rédeas do cavalo negro.

Ele teve que embainhar a espada para isso e olhou

preocupado para os três soldados e para os outros 12 que estavam atrás dele, como se ainda não soubesse o que fa-zer.

— Capitão da guarda! — Halt chamou. — Onde

você está?

Um homem robusto usando meia armadura deu

um passo à frente, afastando-se do grupo maior de guer-reiros. Halt olhou para ele por um momento.

— Seu nome? — ele perguntou.

O capitão hesitou. Ele sabia que, no curso normal

dos acontecimentos, o vitorioso de um combate como aquele simplesmente exigiria que as coisas continuassem como eram, e a vida em Montsombre iria continuar com poucas mudanças. Mas o capitão também sabia que, ge-ralmente, o novo comandante podia decidir rebaixar ou até eliminar os oficiais graduados. Ele estava preocupado com o arco na mão do estranho, mas não viu sentido em não se apresentar. Os outros iriam isolá-lo rapidamente, se isso significasse um possível progresso para eles. Ele to-mou uma decisão.

— Philemon, senhor — ele disse.

Os olhos de Halt pareciam atravessá-lo e se seguiu

um silêncio longo e desconfortável.

— Venha até aqui, Philemon — Halt ordenou fi-

nalmente e, depois de recolocar a flecha na aljava, pendu-rou o arco no ombro esquerdo.

Esse gesto foi encorajador para o capitão, embora

não tivesse dúvida de que, se Halt quisesse, poderia apa-nhar o arco e disparar várias flechas antes que ele pudesse piscar. Com cautela e com os nervos a flor da pele por causa da expectativa, ele se aproximou do homem peque-no.

— Não pretendo ficar aqui mais que o necessário

— Halt disse quando o capitão estava bem perto. — Den-tro de um mês, as passagens para Teutônia e a Escandiná-via estarão abertas, e meu companheiro e eu vamos seguir viagem.

Ele parou e Philemon franziu a testa, tentando

compreender o que estava ouvindo.

— O senhor quer que nós vamos com vocês? —

ele perguntou finalmente. — O senhor deseja nossa com-panhia?

— Não tenho desejo de ver nenhum de vocês outra

vez — ele disse simplesmente. — Não quero nada deste castelo, nada de seus habitantes. Vou levar o cavalo de batalha de Deparnieux porque tenho esse direito tomo vitorioso neste combate. Quanto ao resto, você pode ficar com tudo: o castelo, os móveis, o dinheiro, a comida, as terras. Se puder esconder isso dos seus amigos, é tudo seu.

Philemon olhou para ele sem acreditar no que ou-

via. Aquela era uma sorte imensa! O estranho estava indo embora e entregando o castelo e tudo o mais para ele, um simples capitão da guarda. Ele assobiou baixinho para si mesmo. Ele iria substituir Deparnieux como controlador da região. Ele seria um proprietário, dono de um castelo, com soldados e criados para atendê-lo!

— Duas coisas — Halt interrompeu seus pensa-

mentos. — Você vai soltar as pessoas das gaiolas imedia-tamente. Quanto aos outros criados e escravos do castelo, vou dar permissão para ficarem ou partirem. Não vou o-brigar ninguém a ficar com você, de jeito nenhum.

A expressão sombria do capitão se intensificou di-

ante dessa declaração. Ele abriu a boca para protestar, mas hesitou ao perceber o olhar de Halt. Era um olhar frio, determinado e totalmente sem compaixão.

— Com você ou seu sucessor — ele corrigiu. — A

escolha é sua. Critique minha decisão e vou apresentar essa opção a quem quer que substituir você depois que eu o matar.

E, ao ouvir essas palavras, Philemon percebeu que

Hall não iria hesitar em cumprir a ameaça. Ele ou o jovem e musculoso espadachim montado no cavalo de batalha não teriam dificuldade em acabar com ele.

O soldado analisou as alternativas: joias, ouro, um

castelo bem abastecido, um grupo de homens armados que iriam segui-lo porque teria os recursos para pagá-los e uma possível falta de empregados.

Ou a morte, aqui e agora.

— Eu aceito — ele declarou.

Afinal de contas, Philemon pensou que a maioria

dos criados e escravos não tinha para onde ir. As chances de que quase todos preferissem ficar no Château Mont-sombre eram boas, caso confiassem que as coisas não po-deriam realmente ficar piores do que eram e que talvez pudessem até ser um pouco melhores.

— Pensei mesmo que iria — Halt retrucou devagar.

Evanlyn estava se concentrando muito. Aponta de sua língua se espichava entre os dentes e ela franzia um pouco a testa quando começou a cortar o pedaço de couro macio na forma correta.

Ela não podia cometer erros. Tinha encontrado o

pedaço de couro no estábulo e havia apenas o suficiente para o propósito que tinha em mente. Ele era macio, fle-xível e fino. Havia outros objetos entre os arreios, mas eles estavam secos e duros. Aquele era o pedaço de que precisava.

Evanlyn estava fazendo um estilingue. Ela finalmente tinha desistido de tentar a aprender

a manejar o arco. Quando finalmente conseguisse atingir alguma coisa, ela e Will já estariam mortos de fome há muito tempo. Ser criada como princesa tinha grandes des-vantagens. Ela sabia fazer trabalhos de costura e bordado delicados, apreciar um bom vinho e ser anfitriã de um jan-tar para 12 nobres e suas esposas. Ela sabia organizar o trabalho dos empregados e ficar sentada, por horas, de costas eretas e aparentemente atenta durante as cerimônias oficiais mais aborrecidas.

Todas habilidades valiosas no lugar certo, mas ne-

nhuma delas era muito útil na atual situação. Ela desejou ter passado algumas horas aprendendo os rudimentos do manejo do equipamento dos arqueiros. Ela admitiu abor-recida que o arco estava além de sua capacidade.

Mas um estilingue! Aquela era uma questão diferen-

te. Quando criança, ela e dois primos tinham feito estilin-gues e passeavam pelos bosques fora do Castelo Araluen atirando pedras em alvos aleatórios.

Ela também se lembrava de que tinha boa pontaria. No seu décimo aniversário, para seu grande desa-

pontamento, o pai tinha decidido que era tempo de a filha parar de ser um moleque e começar a aprender a se com-portar como uma dama. Os passeios e os tiros de estilin-gue pararam. Os bordados e o treinamento como anfitriã começaram.

Ainda assim, pensou que, com um pouco de práti-

ca, provavelmente se lembraria de algumas técnicas que lhe serviriam naquele momento.

Evanlyn sorriu um pouco, lembrando daqueles dias

privilegiados no Castelo Araluen. Eles estavam a séculos de distância de tudo aquilo. Ela pensou com ironia que atualmente tinha aprendido novas habilidades. Ela conse-guia arrastar um pônei na neve que chegava aos quadris, dormir no chão duro, tomar muito menos banhos do que uma sociedade educada iria achar adequado e, com alguma sorte, até matar, limpar e cozinhar a própria comida.

Isso, é claro, se conseguisse montar o bendito esti-

lingue. Ela moldou o pedaço de couro macio em volta de uma grande pedra redonda, embrulhando a pedra nele e puxando o couro macio de forma a criar uma bolsa. Ela repetiu o procedimento várias vezes, forçando o couro a tomar a forma da pedra. Suas mãos estavam começando a doer com o esforço e ela pareceu se lembrar de que, quando criança, os criados tinham feito essa parte para ela.

— Não sou muito útil, sou? — perguntou para si

mesma.

Na verdade, ela estava subestimando as habilidades

que possuía. Suas reservas de coragem, determinação e lealdade eram enormes, assim como sua criatividade.

Ao contrário de alguém criado naquelas condições,

ela nem sempre encontrava a melhor forma de resolver seus problemas. Mas, de alguma forma, encontrava uma saída. Ela nunca desistia. E eram essa firmeza de propósi-tos e capacidade de adaptação que fariam dela uma grande governante, caso algum dia voltasse a Araluen.

Ela ouviu um barulho atrás de si e se virou. Seu co-

ração ficou apertado no peito quando viu Will parado ao seu lado. O olhar dele estava vazio, a expressão perdida. Por um terrível momento, pensou que ele estava querendo outra dose de erva e sentiu uma forte onda de medo. Fazia duas semanas que tinha usado a droga pela última vez e quando lhe tinha dado aquela porção, a bolsa ficara prati-camente vazia. Ela não tinha ideia do que iria acontecer na próxima vez que a necessidade surgisse.

Assim, misturado com uma esperança desesperada

e crescente de que talvez ele estivesse curado do vício, Evanlyn vivia o tempo todo com o constante medo de que ele fosse pedir mais. Desde o dia em que ele tinha de-samarrado o arco, ela tinha procurado outros sinais de consciência ou memória nele. Mas tinha sido em vão.

Will apontou para a jarra de água no banco e ela

suspirou aliviada. Evanlyn lhe serviu uma caneca de água e ele se afastou, arrastando os pés, com a mente ainda presa naquele lugar longínquo que apenas os viciados conhe-cem. Ele não estava curado, mas o momento que ela te-mia tinha sido adiado um pouco mais.

As lágrimas fizeram os olhos de Evanlyn se turva-

rem. Ela as secou e voltou ao trabalho. Um pouco antes, ela tinha cortado duas liras compridas da mochila e as prendeu em cada um dos lados da bolsa. Ela colocou a pedra na bolsa e balançou o estilingue. Fazia muito tempo, mas a sensação era vagamente familiar. O peso da pedra era confortável e ela se aninhava com segurança na bolsa. Ela olhou para Will. Ele estava de olhos fechados enco-lhido contra a parede da cabana, perdido para o mundo. Podia ficar assim durante horas.

— Não faz sentido perder mais tempo — ela disse

a si mesma. — Vou caçar, Will. Vou demorar um pouco — ela avisou o companheiro.

Evanlyn reuniu um suprimento de pedras e saiu.

Suas tentativas anteriores com o arco lhe ensinaram que os animais selvagens locais, agora que a cabana estava ha-bitada, costumavam ficar bem afastados. Ela pensou que eram experiências desagradáveis do passado, e que certa-mente nada tinham a ver com suas tentativas de caça.

Enquanto andava, aproveitou a oportunidade para

treinar sua técnica e colocou uma pedia no estilingue, pu-xando-o para trás até ouvir um zunido, e então o soltou para atingir uma das árvores próximas.

Primeiro, os resultados não foram nada encorajado-

res. A velocidade era boa, mas a pontaria estava péssima. Mas, porque continuou a praticar, a velha habilidade co-meçou a voltar. As pedras que atirava bateram nos alvos várias vezes.

Ela teve resultados ainda melhores quando carre-

gou duas pedras no estilingue, dobrando suas chances de acerto. Por fim, sentindo que estava preparada, continuou a andar na direção da clareira perto do riacho, onde tinha visto coelhos se alimentando e tomando sol nas rochas aquecidas.

Evanlyn estava com sorte. Um grande coelho de

olhos fechados estava sentado nas rochas, agitando as ore-lhas e o focinho enquanto se esquentava deitado no calor da pedra aquecida pelo sol.

Ela sentiu um arrepio de satisfação ao carregar duas

das pedras maiores no estilingue e começou a ajeitá-lo a-cima da cabeça. O som surdo e sussurrante aumentou à medida que as pedras ganharam velocidade e o coelho abriu os olhos ao ouvi-lo. Mas ele não percebeu nenhum perigo e permaneceu onde estava. Evanlyn viu os olhos dele se abrirem e resistiu à tentação de atirar no mesmo instante. Ela deixou o estilingue girar mais duas ou três vezes e então soltou a ponta, acompanhando o movimen-to com o braço, direto para o alvo.

Talvez tenha sido sorte de iniciante, mas as duas

pedras atingiram o coelho com toda a força. A maior delas quebrou a pata traseira e, quando ele tentou escapar, man-cou desajeitadamente na neve. Evanlyn, impelida pela for-ça da vitória, atravessou a clareira, agarrou o animal que lutava pela vida e torceu o pescoço dele para acabar com o sofrimento.

A carne fresca seria um complemento bem-vindo à

sua pobre dieta. Entusiasmada pelo sucesso, decidiu que poderia tentar outro local de caça e verificar se a sorte iria continuar. Dois coelhos certamente seriam melhores do que um.

Ela se moveu com cuidado e a neve macia debaixo

de seus pés a ajudou a avançar sem ser ouvida. À medida que se aproximava da outra clareira, começou a andar com mais cuidado, pisando com atenção e garantindo que, de-pois de empurrar três galhos para passar, eles voltassem à posição inicial sem barulho.

É quase certo que seu cuidado exagerado salvou

sua vida.

Ela estava para sair das árvores quando o sexto sen-

tido a fez hesitar. Alguma coisa estava errada. Ela tinha ouvido ou sentido algo que estava fora do lugar ali. Recu-ou, ficou nas sombras atrás das árvores i esperou para ver se conseguia identificar a causa de sua inquietação. I então ouviu o barulho de novo e desta vez o reconheceu. Era a batida macia dos cascos de um cavalo na neve espessa que ainda cobria o chão.

Com a boca seca e o coração acelerando de repen-

te, Evanlyn ficou paralisada. Ela se lembrou das instruções de Will em Skorghijl.

Ela ainda estava escondida de todos e de tudo na

clareira. Os pinheiros cresciam juntos uns dos outros e o sol do meio-dia jogava sombras escuras entre as árvores. Os cabelos de sua nuca ficaram arrepiados enquanto ela ficou ali parada, imóvel. Seus olhos dispararam de um lado para outro, esforçando-se para ver entre as manchas alter-nadas de neve brilhante iluminada pelo sol e as sombras profundas. Em seguida, ouviu o leve resfolegar de um ca-valo e soube que não tinha se enganado. Do outro lado da clareira, uma nuvem de vapor estava suspensa no ar e, en-quanto a observava, viu o cavalo e o cavaleiro surgirem das sombras escuras.

Durante um breve momento, sentiu uma onda de

alegria ao pensar que se tratava de Puxão, o cavalo de ar-queiro de Will. Pequeno, robusto e com pelo desgrenha-do, era pouco maior que um pônei. Quando o viu, quase deu um passo à frente para a luz do sol, mas então, no momento exato, parou ao ver o cavaleiro.

Ele usava peles de animal, um chapéu também de

pele achatado e um arco pequeno no ombro. Ela viu o rosto com bastante clareza: pele morena e maltratada pelo frio e maxilares altos e salientes que faziam os olhos acima deles parecerem um pouco mais que frestas. Ele era pe-queno e atarracado como o cavalo, e algo nele transmitia uma sensação de perigo. Ele virou a cabeça e olhou para as árvores à direita e Evanlyn aproveitou a oportunidade para recuar ainda mais no esconderijo oferecido pela flo-resta. Satisfeito por não haver ninguém observando, o ca-valeiro fez o cavalo dar alguns passos para o centro da clareira.

Ele parou ali e seus olhos pareceram atravessar as

sombras até onde estava a garota: escondida atrás do tron-co áspero de um enorme pinheiro. Durante alguns segun-dos assustadores, ela pensou que tinha sido vista. Mas en-tão o cavaleiro tocou o flanco do cavalo com o calcanhar de uma das botas enfeitadas com pele de animal e saiu trotando rapidamente da clareira para dentro do bosque. Ele desapareceu num instante, o único sinal de sua pre-sença eram as nuvens de vapor que pendiam no ar conge-lante deixadas pela respiração quente do animal.

Durante vários minutos, Evanlyn ficou encolhida

de encontro ao pinheiro, temendo que o cavaleiro voltasse de repente. Então, muito tempo depois que o ruído surdo provocado pelos cascos do cavalo na neve tinha desapare-cido, ela se virou e correu de volta para a cabana.

Will tinha dormido.

Ele despertou devagar, a consciência tomando con-

ta dele aos poucos enquanto percebia que estava sentado no chão duro de madeira. Ele abriu os olhos e franziu a testa diante do ambiente desconhecido. Ele estava numa pequena cabana em que a luz brilhante do sol do Final de inverno passava por uma janela sem vidros e formava um quadrilátero alongado no chão, mais largo na base do que no topo.

Atordoado, ainda meio adormecido, ele se levan-

tou, sentindo que por algum motivo tinha dormido senta-do no chão e recostado numa das paredes. Ele se pergun-tou por que teria escolhido esse lugar, quando podia ver que a cabana tinha uma cama rústica e duas cadeiras. Ao se levantar lentamente, alguma coisa caiu com ruído de seu colo para o chão. Ele olhou para baixo e viu um pe-queno arco de caça. Curioso, ele o apanhou e examinou. Era uma arma pouco potente não recurvada e com os braços compridos e pesados de um arco longo, útil para caçar animais pequenos e coisas semelhantes. Ele se per-guntou onde estaria o arco dele. Ele não se recordava de ser dono daquele brinquedo.

Então ele se lembrou. O arco não estava mais com

ele, pois tinha sido tomado pelos escandinavos na ponte. E, à medida que a memória voltava, outras imagens apare-ciam: a fuga pelos pântanos e brejos quando prisioneiro dos escandinavos; a viagem pelo mar de Stormwhite no navio de Erak; o porto em Skorghijl, onde tinham se pro-tegido da pior tempestade da estação, e a viagem para Hal-lasholm.

E então... então, nada.

Ele puxou pela memória, tentando se lembrar de

alguma coisa que tinha acontecido depois de terem chega-do à capital escandinava. Mas não havia nada ali. Nada além de uma parede vazia que desafiava todos os seus es-forços para penetrá-la.

De repente, foi tomado pelo medo. Evanlyn! O que

tinha acontecido tom ela? Ele lembrou, como que em meio a um nevoeiro, que havia um grande perigo envol-vendo a amiga. Sua identidade nunca deveria ser revelada aos captores. Eles tinham realmente chegado a Halla-sholm? Se tivessem chegado, Will tinha certeza de que se lembraria. Mas onde estava a garota loira de olhos verdes que tinha passado a significar tanto para ele? Será que ele a tinha traído por descuido? Teria ela sido morta pelos es-candinavos?

Um vallasvow! Agora ele lembrava. Ragnak, ober-

jarl dos escandinavos, tinha jurado vingança a todos os membros da família real de Araluen. E Evanlyn era, na verdade, Cassandra, princesa do reino. Numa agonia de incerteza e perda de memória, Will bateu com os punhos na testa, tentando lembrar, tentando se tranquilizar e se convencer de que Evanlyn não tinha sofrido por causa de alguma falha dele.

E então, no momento em que pensava nela, a porta

da cabana se abriu nas dobradiças de couro e ela estava lá, emoldurada pela luz forte do sol que se refletia da neve, incrivelmente linda como sempre lembraria que ela era, não importava quanto tempo vivesse ou com que idade estivesse.

Will andou na direção dela com um sorriso de

completo alívio iluminando seu rosto, estendeu as mãos para ela, que ficou parada, sem palavras, olhando para ele como se fosse um fantasma.

— Evanlyn! — ele disse. — Graças a Deus você

está bem!

E, ao dizer isso, ele se perguntou por que os olhos

dela tinham ficado úmidos e por que seus ombros se sa-cudiam enquanto as lágrimas escorriam incontroláveis pe-lo seu rosto.

Afinal, para ele não havia motivo para chorar.

Halt e Horace desceram com cuidado o caminho sinuoso que saía do Château Montsombre. Nenhum dos dois fala-va, mas ambos sentiam a mesma e intensa satisfação. Es-tavam na estrada novamente. O pior do inverno já tinha passado e, quando chegassem à fronteira, as passagens para a Escandinávia estariam abertas.

Horace olhou para trás uma vez para ver o prédio

sombrio onde ficaram presos por tantas semanas e prote-geu os olhos com a mão para enxergar melhor.

— Halt — ele chamou — olhe aquilo. Halt fez Abelard parar e se virou. Havia uma fina

coluna de fumaça cinzenta se levantando da fortaleza do castelo e, enquanto observavam, ela ficou mais espessa e negra. Vagamente, ouviram os gritos dos homens de Phi-lemon enquanto corriam para combater o fogo.

— Parece que alguma pessoa descuidada deixou

uma tocha ardendo numa pilha de trapos embebidos em óleo na despensa do porão — Halt murmurou com cui-dado.

— Você sabe disso só de olhar, não é mesmo? —

Horace retrucou sorrindo.

Halt concordou, mantendo uma expressão indife-

rente.

— Nós, arqueiros, somos dotados de poderes de

percepção misteriosos — ele explicou. — E acho que Gá-lica vai ficar bem melhor sem esse castelo, não concorda?

Apenas o comandante tinha realmente morado na

fortaleza. Os soldados e os empregados viviam em outras partes do edifício e teriam tempo suficiente para impedir que o logo se espalhasse até lá. Mas a fortaleza e a torre central onde estavam os aposentos de Deparnieux esta-vam destruídas. E era assim que deveria ser. Montsombre tinha sido palco de muita crueldade e horror durante mui-tos anos, e Halt não tinha intenção de deixá-lo intacto pa-ra que Philemon continuasse a agir como o antigo mestre.

— É claro que as paredes de pedra não vão quei-

mar — Horace ajuntou com uma ponta de desaponta-mento.

— Não — Halt concordou. — Mas os pisos de

madeira e as vigas de sustentação vão. E todos os tetos e escadas vão queimar e cair. E o calor também vai danificar as paredes. Não ficaria surpreso se algumas delas sim-plesmente cedessem.

— Ótimo — Horace afirmou, e havia um mundo

de satisfação naquela única palavra.

Juntos, eles viraram as costas à lembrança de De-

parnieux e fizeram os cavalos continuarem a andar. O pe-queno grupo se afastou seguido de perto por Puxão.

— Vamos embora, vamos encontrar Will — Halt

disse.

 

Digitalização: villie

Revisão: Yuna

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John Flanagan

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