Terra do Gelo
garantiu, e Horace sorriu para ela.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
de luz branca entrar no alojamento.
— Vá. Para a porta — ela mandou. Ele começou a se arrastar naquela direção, sem se
importar com onde punha os pés, chutando os outros es-cravos adormecidos e tropeçando neles. Surpreendente-mente, quase não reagiram, apenas resmungavam ou se mexiam em seu sono. Ela se virou para segui-lo, mas uma voz fria vinda do outro lado do aposento a fez parar.
— Só um momento, senhorita. Onde pensa que
vai?
Era um membro do Comitê. Até pior, era Egon.
Jarl Erak estava certo. Eles faziam turnos para vigiar os outros escravos. Ela se virou para encará-lo enquanto o rapaz atravessava o quarto lotado. Como Will, ele não prestou atenção aos vultos adormecidos no chão, trope-çando neles ao se aproximar.
Evanlyn endireitou o corpo, respirou fundo e pro-
curou falar com a foz mais firme que conseguiu.
— Jarl Erak me mandou buscar esse escravo. Ele
precisa de lenha em seus aposentos.
O chefe da gangue hesitou. Não era impossível que
ela estivesse falando a verdade. Se um dos jarls mais anti-gos ficasse sem lenha no meio da noite, ele não pensaria duas vezes em mandar um escravo levar um novo supri-mento de madeira. Contudo, ele ficou desconfiado e pen-sou ter reconhecido a garota.
— Ele pediu esse escravo em especial? — ele per-
guntou.
— Isso mesmo — Evanlyn respondeu, enquanto
tentava parecer despreocupada. Essa era a parte da histó-ria que não tinha muita lógica.
Não havia motivos para que Erak, ou qualquer ou-
tro escandinavo, especificasse que um determinado escra-vo do pátio realizasse uma tarefa tão simples.
— Por que este escravo? — ele insistiu, e ela soube
que o blefe não iria funcionar.
Ela tentou outra estratégia.
— Bem, ele não disse realmente este aqui. Ele ape-
nas disse um escravo. Mas Will é meu amigo e ele vai po-der trabalhar do lado de dentro, onde está quente, por al-gumas horas e talvez receba uma refeição decente. Por isso pensei... — ela deixou a sentença no ar, dando de ombros, esperando que ele ficasse satisfeito.
Egon, porém, simplesmente continuou a olhar para
ela. Então, finalmente, os olhos dele se estreitaram quan-do a reconheceu.
— É isso mesmo — ele disse. — Você esteve aqui
dentro no outro dia. Eu vi você dando uma olhada por aí, não foi?
Evanlyn o amaldiçoou em pensamento. Ela sentiu
que tinha que encontrar uma saída depressa. Ela procurou o pequeno saco de moedas e o balançou.
— Olhe, só estou tentado fazer o bem para um a-
migo — ela afirmou. — Vai valer a pena.
Ele olhou rapidamente por cima do ombro para se
certificar de que nenhum outro membro do Comitê esti-vesse testemunhando a cena. Então estendeu a mão rapi-damente e tirou o saco dela.
— Assim está melhor — ele disse. — Você faz
uma coisa por mim, e eu faço outra por você.
Ele empurrou as moedas para dentro da camisa e se
aproximou dela, ficando a somente alguns centímetros de distância. Olhando sobre o ombro, Evanlyn viu que Will esperava perto da porta como um espectador indiferente. De repente, Egon a agarrou pelos ombros e a puxou para perto.
— Talvez você possa encontrar mais algumas moe-
das escondidas em algum lugar — ele sugeriu.
Então ele fez uma careta quando sentiu uma dor
aguda no estômago e algo quente escorrendo pela pele, saindo de onde a dor começava. Evanlyn sorriu sem sim-patia.
— Talvez eu possa estripar você como um peixe, se
não me soltar ela disse enfiando a adaga afiada na pele dele mais uma vez.
Ela não sabia com certeza se peixes eram estripa-
dos, mas ele também não sabia disso. O rapaz se afastou rapidamente, acenando para a porta e praguejando.
— Tudo bem — ele disse. — Saia daqui, mas vou
fazer seu amigo pagar por isso quando ele voltar.
Com um grande suspiro de alívio, Evanlyn correu
até a porta, agarrou o braço de Will e o arrastou para fora. Uma vez lá, ela se virou e tornou a fechar o trinco.
— Venha, Will. Vamos sair daqui — ela disse an-
dando até o caminho que levava ao porto.
Das sombras, jarl Erak observou os dois vultos par-
tirem e também soltou um suspiro de alívio.
Dez minutos depois, ele os seguiu. Ele ainda tinha
trabalho a fazer naquela noite.
O pequeno cortejo seguiu a estrada para o norte. Halt e Horace cavalgavam no centro com Deparnieux, que tinha vestido os habituais casaco e armadura negros. O velho pangaré avermelhado que ele tinha montado estava agora no fim da fila e, como Halt tinha imaginado, o cavaleiro estava na sela de um cavalo de batalha negro, grande e agressivo.
Eles estavam cercados por pelo menos uma dúzia
de homens armados que marchavam em silêncio à frente e atrás deles. Além disso, havia dez guerreiros montados, divididos em dois grupos de cinco e posicionados em cada extremidade da coluna.
Halt notou que os homens mais perto deles manti-
nham as bestas carregadas e prontas para o uso. Ele não tinha dúvida de que, ao primeiro indício de que quisessem escapar, ele e Horace seriam cravados com flechas antes de ter dado dez passos.
O seu arco estava pendurado no ombro, enquanto
Horace tinha conservado a espada e a lança. Deparnieux tinha feito um gesto de indiferença para eles quando os prendeu, mostrando o grupo de homens armados que os cercava.
— Vocês podem ver que não tem sentido resistir
— ele afirmou — portanto vou deixar que fiquem com suas armas.
Então ele olhou de um jeito significativo para o ar-
co apoiado na sela de Halt.
— Entretanto — ele acrescentou — acho que eu
me sentiria mais tranquilo se você tirasse a corda desse arco e o pendurasse no ombro.
Halt deu de ombros e obedeceu. Seu olhar disse a
Horace que havia um tempo para lutar e um tempo para aceitar o inevitável. Horace tinha assentido e eles se posi-cionaram ao lado do comandante galês, vendo-se imedia-tamente cercados por seus captores. Halt notou aborreci-do que a generosidade de Deparnieux não se estendia para o grupo de cavalos que tinham capturado e a armadura. De mau humor, ele ordenou que o cavalo-guia fosse en-tregue a um dos ajudantes montados, que agora cavalga-vam na parte posterior da coluna. Seu captor notou com interesse que o pequeno e desgrenhado cavalo de carga não tinha uma corda-guia e ficava calmamente ao lado do cavalo de Halt. Deparnieux mostrou uma expressão curio-sa, mas não fez nenhum comentário.
Para surpresa de Halt, o cavaleiro vestido de negro
virou a cabeça de seu cavalo para o norte e eles começa-ram a marchar.
— Posso perguntar para onde está nos levando? —
ele disse. Deparnieux se curvou na sela com uma cortesia fingida.
— Estamos indo para meu castelo em Montsombre
— ele contou —, onde vocês vão ser meus convidados por um breve período.
Halt assentiu digerindo as informações. — E por que vamos fazer isso? — Halt indagou
logo depois.
— Por que você me interessa — o cavaleiro negro
respondeu sorrindo para ele. — Você viaja com um cava-leiro e carrega armas de fazendeiro. Mas você não é um simples criado, é?
Halt nada disse e simplesmente deu de ombros.
Deparnieux, olhando-o com atenção, assentiu como se confirmasse o próprio pensamento.
— Não, não é. Você é o líder aqui, não o seguidor.
E suas roupas me interessam. Essa sua capa... — ele se inclinou para o lado da sela e passou o dedo nas dobras da capa manchada de arqueiro de Halt. — Nunca vi nada parecido.
Ele parou pensando que Halt iria fazer algum co-
mentário desta vez. Mas isso não aconteceu, e Deparnieux não pareceu surpreso.
— E você é um arqueiro experiente — ele conti-
nuou. — Não, você é mais do que isso. Não conheço ne-nhum arqueiro que tivesse dado um tiro como o de ontem à noite.
Desta vez, Halt fez um pequeno gesto de modéstia. — Não foi um tiro tão bom assim — ele retrucou.
— Eu estava mirando sua garganta.
O riso de Deparnieux foi alto e longo. — Ah, acho que não meu amigo. Acho que a sua
flecha atingiu exatamente o ponto que queria.
E ele riu novamente. Halt percebeu que aquela ale-
gria, apesar de espalhafatosa, não tinha atingido os olhos.
— Então, decidi que uma pessoa tão incomum de-
veria merecer uma análise mais profunda — Deparnieux continuou. — Você pode ser muito útil para mim, meu amigo. Afinal, quem sabe que outras técnicas e habilidades podem estar escondidas debaixo desse seu casaco estra-nho?
Horace observou os dois homens. O cavaleiro galês
parecia ter perdido interesse nele e esse fato não o deixou insatisfeito. Apesar das palavras leves ditas em tom de zombaria, ele podia sentir o significado grave e mortal da conversa. Tudo aquilo estava ultrapassando seu entendi-mento e ele estava contente em seguir a orientação de Halt e ver aonde aquela mudança nos acontecimentos os levaria.
— Duvido que possa ser útil para você — Halt re-
plicou com calma diante da última declaração do coman-dante.
Horace se perguntou se Deparnieux tinha compre-
endido a mensagem oculta ali: que Halt não tinha intenção de usar suas habilidades a serviço de seu captor.
Parecia que sim, pois o cavaleiro negro encarou o
homem baixo que cavalgava ao seu lado por um momen-to, antes de responder.
— Bem, isso nós vamos ver. Por enquanto, permita
que eu lhe ofereça minha hospitalidade até que o braço de seu jovem amigo esteja curado.
Ele se virou e sorriu para Horace, incluindo-o na
conversa pela primeira vez.
— Afinal, não é seguro percorrer essas estradas
quando não se está totalmente em forma.
O grupo acampou de noite numa pequena clareira
perto da estrada. Deparnieux colocou sentinelas, mas Halt notou que a quantidade de homens destinada para montar guarda do lado de dentro era maior do que a que recebeu a tarefa de defender o acampamento de ataques. Deparni-eux devia se sentir relativamente seguro naquelas terras. Foi interessante observar que, ao se prepararem para a noite, por precaução seu captor ordenou que suas armas fossem entregues. Sem outra alternativa, os dois araluen-ses foram obrigados a obedecer.
Pelo menos, o comandante não fingiu mais cordia-
lidade, pois preferiu comer e dormir sozinho no pavilhão de lona preta que seus homens haviam erguido especial-mente para ele.
Halt se viu diante de um dilema. Se estivesse via-
jando sozinho, poderia simplesmente desaparecer na noi-te, recuperando as armas antes de sair.
Contudo, Horace não conhecia a arte dos arqueiros
de se mover e fugir sem ser notado, e não havia como Halt pudesse fazê-lo desaparecer. Ele não tinha dúvida de que, se tivesse que fugir sozinho, Horace não sobreviveria por muito tempo. Portanto, Halt se contentou em esperar e ver o que iria acontecer. Pelo menos, eles estavam indo para o norte, que era a direção que pretendiam seguir.
Além disso, ele tinha descoberto na pousada, na
noite anterior, que os grandes desfiladeiros entre a Teutô-nia, as terras vizinhas do norte e a Escandinávia, logo aci-ma, estariam bloqueados pela neve naquela época do ano. Assim, seria bom se achassem um lugar onde passar os próximos dois meses. Ele concluiu que o Château Mont-sombre atenderia essa necessidade como qualquer outro local. Halt não tinha dúvida de que Deparnieux tinha al-guma noção de sua verdadeira ocupação. Era óbvio que ele esperava incluí-lo em sua batalha contra os líderes vi-zinhos. Halt refletiu que, por ora, eles estavam bastante seguros e indo na direção certa.
No momento certo, ele teria que lazer algumas mu-
danças. Mas esse momento ainda não tinha chegado.
Eles chegaram ao castelo no dia seguinte. Depois
da demonstração inicial de boa vontade, Deparnieux tinha resolvido não devolver as armas pela manhã e Halt se sen-tiu estranhamente despido sem o peso conhecido e con-fortante das facas no cinto e da dúzia de flechas pendura-das no ombro.
O Château Montsombre se erguia atrás da floresta
que os cercava sobre urna planície à qual se chegava por um caminho estreito e sinuoso. À medida que subiam pela trilha, o chão desaparecia de ambos os lados formando um declive íngreme. O caminho mal era largo o bastante para quatro homens viajarem lado a lado. Era uma largura que permitia acesso razoável a forças amigas e evitava que invasores se aproximassem em grande número. Era um lembrete sombrio da situação em Gálica, onde comandan-tes vizinhos batalhavam constantemente pela supremacia, e a possibilidade de um ataque estava sempre presente.
O castelo em si era baixo e impressionante, tinha
paredes grossas e torres grandes em cada um dos quatro cantos. Ele em nada lembrava a elegância sublime de Redmont ou do castelo de Araluen. Ao contrário, era uma estrutura escura, ampla e ameaçadora, construída para a guerra e por nenhuma outra razão. Halt tinha dito a Hora-ce que a palavra Montsombre significava “montanha escu-ra”. Parecia um nome adequado para o edifício de paredes grossas no fim da trilha tortuosa e sinuosa.
O nome ficou ainda mais expressivo quando subi-
ram mais pelo caminho. Havia postes enfileirados do lado da estrada de onde pendiam estruturas quadradas e estra-nhas. Quando se aproximaram, Horace conseguiu ver horrorizado que as estruturas eram gaiolas de ferro estrei-tas que continham os restos do que antes eram homens.
Elas estavam penduradas bem acima da trilha, ba-
lançando levemente com o vento que soprava em volta da planície.
Era evidente que alguns estavam ali por muitos me-
ses. As figuras dentro das gaiolas eram restos ressecados, escurecidos e enrugados pela longa exposição ao tempo e enfeitados de trapos de tecido podre. Mas outros eram mais novos, e os homens eram reconhecíveis. As gaiolas quadradas eram construídas com barras de ferro e deixa-vam espaço para urubus e corvos entrarem e rasgarem a carne dos homens. Os olhos de quase todos os corpos tinham sido arrancados pelos pássaros.
Ele olhou enojado para o rosto sombrio de Halt.
Deparnieux viu o movimento e, deliciado com a impres-são que os horrores da beira de sua estrada provocavam no garoto, sorriu para ele.
— Somente alguns criminosos — ele disse com
tranquilidade. — É claro que todos foram julgados e con-denados. Insisto em seguir normas legais rígidas em Montsombre.
— Quais foram os crimes? — o garoto perguntou. Sua garganta estava seca e apertada, e as palavras
saíram com dificuldade. Deparnieux lhe deu outro sorriso despreocupado e fingiu que estava tentando pensar.
— Digamos que tenham sido “vários” — ele res-
pondeu. — Resumindo, eles me incomodaram.
Horace observou o olhar divertido do outro ho-
mem por alguns segundos e então, balançando a cabeça, virou-se. Ele tentou afastar o olhar das figuras esfarrapa-das e tristes penduradas acima dele. Devia haver mais de vinte ao todo. Então, seu horror aumentou quando perce-beu que nem todos estavam mortos. Em uma das gaiolas, ele viu a figura presa se movendo. No início, pensou ser uma ilusão provocada pelo movimento das roupas do homem ao vento. Mas uma das mãos atravessou as barras, quando eles se aproximaram, e um som rouco e lamentá-vel saiu da gaiola.
Era um pedido inconfundível de socorro. — Ah, meu Deus — Horace murmurou em voz
baixa e ouviu Halt respirar fundo ao seu lado.
Deparnieux puxou as rédeas de seu cavalo e apoiou
o peso do corpo num dos lados da sela.
— Reconhecem esse homem? — ele perguntou
num tom divertido. — Vocês o viram outra noite, na ta-verna.
Horace franziu a testa confuso. Não conhecia o
homem, mas havia pelo menos uma dúzia de pessoas na taverna, na noite em que viram o comandante pela primei-ra vez. Ele se perguntou por que deveria se lembrar desse homem mais do que de qualquer outro.
— Foi ele quem riu — Halt disse com frieza.
— É isso mesmo — Deparnieux retrucou rindo. —
Ele era um homem com um tipo raro de humor. É estra-nho como o senso de humor dele parece ter desaparecido agora. Era de se esperar que ele matasse o tempo com seu estranho senso de humor.
E ele sacudiu as rédeas, batendo-as no pescoço do
cavalo, e recomeçou a cavalgar. O grupo o acompanhava, parando quando ele parava, movendo-se quando ele se movia, o que obrigava Halt e Horace a manter o mesmo ritmo.
Horace olhou para Halt mais uma vez, procurando
uma mensagem de conforto. O arqueiro encontrou seu olhar por alguns segundos e acenou com a cabeça deva-gar. Ele entendia como o garoto se sentia enojado pela depravação e crueldade desprezíveis que estava testemu-nhando. De alguma forma, Horace se sentiu um pouco consolado com o gesto de Halt. Ele tocou a barriga de Kicker com o joelho e o fez andar.
E juntos eles cavalgaram na direção do castelo es-
curo e desolador que esperava os dois.
O pônei estava no lugar marcado por Erak.
Ele estava amarrado a uma árvore nova com a tra-
seira virada pacientemente na direção do vento gelado que trazia nuvens cheias de neve para cima de Hallasholm. Evanlyn desamarrou a corda, e 0 pequeno cavalo a acom-panhou documente. Acima de suas cabeças, o vento sus-pirava por entre as agulhas dos pinheiros, emitindo um som parecido com uma arrebentação estranha enquanto agitava os galhos carregados de neve.
Will a seguia mudo, cambaleando na trilha coberta
de neve que ia até o meio da perna. Andar ali era difícil para Evanlyn, mas era ainda mais penoso para Will, exaus-to e esgotado depois de semanas de trabalho árduo e co-mida e calor insuficientes. Ela sabia que logo iriam parar e encontrar as roupas quentes que Erak tinha dito que esta-riam dentro da mochila no lombo do pônei. E ela prova-velmente teria que deixar Will montar o animal, se quises-sem percorrer uma boa distância antes do amanhecer. Mas, por ora, não queria se atrasar, mesmo que só um pouco. Todos os seus instintos lhe diziam para continuar, aumentar o máximo a distância entre eles e a cidade es-candinava, o mais depressa possível.
A trilha sinuosa subia as montanhas, e Evanlyn se
inclinava para a frente, enfrentando o vento, levando o pônei com uma das mãos e segurando a mão fria de Will com a outra. Juntos, eles seguiam tropeçando, escorregan-do na neve alta, caindo sobre raízes de árvores e pedras escondidas debaixo da superfície lisa.
Depois de viajar meia hora, Evanlyn sentiu os pri-
meiros flocos de neve hesitantes roçarem seu rosto. Logo depois, eles ficaram grandes, pesados e grossos. Ela parou e olhou para a trilha atrás deles e para suas pegadas já qua-se invisíveis. Erak sabia que iria nevar muito naquela noi-te. Ele tinha esperado até que sua intuição de marinheiro o avisasse que todos os sinais de sua passagem seriam co-bertos. Pela primeira vez desde que tinha passado pela porta aberta da residência, ela sentiu o coração se aquecer de esperança. Talvez, afinal, as coisas dessem certo para eles.
Atrás dela, Will tropeçou e, murmurando palavras
incoerentes, caiu de joelhos na neve. Ela se virou para ele e constatou que ele tremia e estava roxo de frio, totalmen-te exausto. Evanlyn andou até a mochila pendurada nas costas do pônei, desamarrou as tiras e remexeu em seu interior.
Entre outras coisas, lá dentro ela encontrou um co-
lete de pele de carneiro e o usou para cobrir os ombros do garoto trêmulo, ajudando-o a passar os braços pelas cavas. Will olhou para ela com indiferença. Ele parecia um ani-mal silencioso, que aceitava calado tudo o que lhe aconte-cia. Evanlyn sabia que ele não tentaria evitar ou revidar o golpe se tentasse bater nele. Com tristeza, ela o observou, lembrando-se de como ele era. Erak tinha dito que sua recuperação era possível, embora muito poucos viciados na erva do calor tivessem essa chance. Isolados nas mon-tanhas como ficariam, Will teria todas as oportunidades de quebrar o círculo vicioso da droga. Agora ela rezava para que o jarl escandinavo estivesse certo e que fosse possível para um viciado, longe da droga, se recuperar completa-mente.
Ela empurrou o menino submisso na direção do
pônei, fazendo que montasse no animal. Por um momen-to, ele hesitou e então, desajeitado, ele subiu para a sela e lá ficou sentado, balançando sem firmeza, enquanto ela recomeçava a andar, seguindo a trilha da floresta que leva-va para o alto da montanha.
Em volta deles, os flocos pesados continuavam a
cair.
Erak observou as duas figuras se afastarem furti-
vamente na floresta e tomarem a bifurcação que ele tinha descrito para Evanlyn. Satisfeito por estarem a caminho, ele os seguiu para fora do cercado, mas continuou além do ponto em que tinham virado e, em vez. disso, foi até o porto.
Não havia sentinelas postadas na Grande Mansão
naquela época do ano. Não se tinha medo de ataques, pois as nevascas fortes que cobriam as montanhas ao redor eram mais eficientes do que qualquer sentinela humana. Mas Erak ficou mais cuidadoso quando se aproximou do início do porto. Ali havia um vigia para garantir que os navios encostassem com segurança nos ancoradouros. Uma tempestade repentina podia surpreender os navios e arrastar as âncoras e jogá-los na costa. Por esse motivo, alguns homens eram postados para dar o aviso e chamar as tripulações em serviço em caso de perigo.
Mas eles podiam vê-lo com igual facilidade e se
perguntar o que estava fazendo àquela hora da noite, de modo que ficou nas sombras sempre que pôde.
Seu navio, o Wolfwind, estava ancorado no porto e
ele subiu a bordo em silêncio, sabendo que não havia tri-pulação de serviço. Ele a tinha dispensado naquela tarde, confiando em sua reputação como conhecedor da previ-são do tempo para garantir a eles que soprariam ventos fortes naquela noite. Ele se inclinou sobre o parapeito da popa e ali, flutuando num lugar protegido do navio, estava o pequeno barco que ele tinha ancorado mais cedo naque-le dia. Ele observou como os botes no porto balançavam nos ancoradouros e percebeu que a maré ainda estava bai-xando. Ele tinha programado sua chegada para que coin-cidisse com a maré baixa e desceu rapidamente para a em-barcação menor, procurou na popa a tampa do dreno e a soltou. A água gelada entrou como se fosse uma cascata sobre suas mãos. Quando o bote se encheu até a metade, ele recolocou o tampa e voltou a pular o parapeito para dentro do navio. Empunhando a adaga, cortou o cabo que prendia a embarcação.
Por um momento, nada aconteceu. Então, o pe-
queno barco, já mais baixo na água, começou a deslizar para trás, primeiro lentamente e depois com velocidade cada vez maior à medida que era arrastado pela maré. Ha-via um remo no bote, preso na forqueta. Ele o tinha ajei-tado desse jeito para o caso de o bote ser encontrado nos próximos dias. A combinação de um barco vazio aparen-temente furado e quase cheio de água com um remo fal-tando apontaria para um acidente.
O bote deslizou porto abaixo e se perdeu de vista
entre os barcos maiores que enchiam os ancoradouros. Satisfeito por ter feito tudo o que podia, Erak voltou à terra firme e retornou para a Grande Mansão. Enquanto andava, percebeu com satisfação que a neve pesada já ti-nha coberto as pegadas que fizera. Pela manhã, não have-ria nenhum sinal de que alguém tivesse passado por ali. O barco perdido e o cabo cortado seriam as únicas pistas sobre a direção que os escravos teriam tomado.
A caminhada ficava mais difícil à medida que a tri-
lha na floresta se tornava mais íngreme. A respiração de Evanlyn estava ofegante e formava nuvens de vapor no ar gelado. A leve brisa que agitava os pinheiros mais cedo tinha desaparecido quando a neve começou a cair. A gar-ganta e a boca estavam secas e ela sentia um gosto desa-gradável e metálico. Ela tinha tentado aliviar a sede várias vezes com punhados de neve, mas o conforto tinha sido breve. O frio intenso da neve desfazia qualquer benefício que ela poderia ter tirado da pequena quantidade de água que escorregava pela garganta quando derretia.
Evanlyn olhou para trás. O pônei estava seguindo
seus passos com dificuldade e de cabeça baixa, aparente-mente indiferente ao frio. Will era um vulto encolhido no dorso do animal, bem embrulhado nas dobras do colete de pele de carneiro. Ele gemia baixinho e continuamente.
Ela parou por um momento, respirando com difi-
culdade, e encheu os pulmões com o ar gelado que lhe arranhava quase dolorosamente a garganta. Os músculos da parte posterior de suas coxas e pernas doíam e tremiam do esforço de caminhar na neve espessa, mas ela sabia que tinha que continuar enquanto pudesse. Ela não tinha ideia da distância que tinha percorrido desde a residência em Hallasholm, mas desconfiava que não estava longe o sufi-ciente. Se a tentativa de Erak de plantar uma pista falsa fosse malsucedida, ela não tinha dúvida de que um grupo de escandinavos fortes poderia atravessar em menos de uma hora a distância que ela e Will tinham percorrido.
Segundo as instruções de Erak, eles deveriam subir
a montanha o máximo que pudessem antes do raiar do dia. Em seguida, deveriam deixar a trilha e procurar abrigo entre as árvores grossas, onde ela e Will poderiam se es-conder durante o dia.
Ela olhou para a abertura estreita entre as árvores
acima dela. As nuvens pesadas escondiam qualquer vestí-gio de luar ou de luz de estrelas. Ela não tinha ideia de que horas eram ou de quando o dia iria nascer.
Angustiada e sob o protesto de todos os músculos
das pernas, ela recomeçou a subir, seguida pelo apático pônei. Por um momento, pensou em subir na sela ao lado de Will e cavalgar em dupla, mas logo afastou a ideia. Era só um pequeno pônei e, embora ele pudesse carregar uma pessoa e as mochilas sem reclamar, uma carga dupla nes-sas condições iria cansá-lo rapidamente. Sabendo o quanto dependiam do pequeno animal desgrenhado, decidiu, com relutância, que seria melhor que ela continuasse a pé. Se o pônei ficasse esgotado, poderia muito bem representar uma sentença de morte para Will. Ela nunca conseguiria fazê-lo andar, exausto e fraco como estava.
Ela continuou se arrastando, levantando e baixando
os pés na neve, deslizando levemente quando eles atraves-savam a cobertura cada vez mais espessa do chão, com-pactando-a até encontrar terra firme outra vez. Pé esquer-do. Pé direito. Pé esquerdo. Pé direito. A boca cada vez mais seca. A respiração formando vapor no ar e pairando na noite quieta atrás dela, marcando brevemente por onde tinha passado. Sem pensar, começou a contar os passos à medida que andava. Não havia motivo para isso. Ela não estava inconscientemente tentando medir distâncias. Era uma reação instintiva ao ritmo constante e repetitivo que tinha adotado. Ela chegou a 200 e recomeçou do número 1. Então, depois de várias outras vezes, Evanlyn se deu conta de que não tinha ideia de quantas vezes tinha che-gado à marca de 200 e parou de contar. Depois de 20 pas-sos, percebeu que estava contando outra vez. Ela deu de ombros. Desta vez, decidiu contar até 400 antes de reco-meçar. “Faço qualquer coisa para variar um pouco”, pen-sou de mau humor.
Os flocos grossos de neve continuavam a cair, ro-
çando seu rosto e manchando seus cabelos de branco. Seu rosto estava ficando entorpecido e ela o esfregou com vi-gor com as costas da mão. Constatou que a mão também estava dormente e parou para examinar a mochila mais uma vez.
Ela tinha visto luvas dentro dela quando encontrara
o colete para Will. Evanlyn as encontrou novamente, grossas luvas de lã com espaço para o polegar e um espa-ço único para os outros dedos. Ela as calçou nas mãos geladas, agitou os braços, bateu as mãos contra as costelas e sob as axilas para estimular a circulação. Depois de al-guns minutos, sentiu um leve formigamento quando o calor começou a voltar e recomeçou a andar.
O pônei tinha parado quando ela fez a pausa. Ago-
ra, pacientemente, tornou a seguir os passos dela.
Evanlyn chegou a 400 e recomeçou a contar.
Halt olhou em volta dos amplos aposentos a que tinham sido levados.
— Bem, não é muita coisa, mas é uma casa — ele
comentou.
Na verdade, sua declaração não era muito justa. E-
les estavam no alto da torre central do Château Mont-sombre, a torre que Deparnieux dissera que mantinha ex-clusivamente para uso pessoal — e de seus convidados, ele tinha acrescentado ironicamente. O quarto em que es-tavam era grande e mobiliado com bastante conforto. Ha-via uma mesa e cadeiras que serviriam bem para fazer re-feições, além de duas poltronas de madeira de aspecto confortável colocadas ao lado da enorme lareira. Dos la-dos, duas portas conduziam para quartos de dormir me-nores e havia até um pequeno quarto de banho com uma banheira de estanho e um lavatório. Havia um par de bons cabides nas paredes de pedra e um bom tapete que cobria grande parte do chão. Havia um pequeno terraço e uma janela de onde se podia ver a trilha sinuosa que tinham subido para chegar ao castelo e a floresta abaixo. A janela não tinha vidros, apenas venezianas de madeira no lado de dentro para impedir a entrada do vento e da chuva.
A porta era a única nota dissonante no quadro. Não
havia maçaneta do lado de dentro. Os aposentos eram muito confortáveis, mas eles não passavam de prisionei-ros, Halt sabia disso.
Horace largou a mochila no chão e, satisfeito, se
deixou cair numa das poltronas de madeira. Um vento frio entrava pela janela, apesar de ainda estarem no meio da tarde. Estaria frio e ventaria à noite, mas a maioria dos aposentos nos castelos eram frios. Aquele não era melhor ou pior do que a média.
— Halt — ele chamou — andei me perguntando
por que Abelard e Puxão não nos avisaram sobre a em-boscada. Eles não são treinados para perceber esse tipo de coisa?
— Pensei a mesma coisa — Halt retrucou balan-
çando a cabeça devagar. — E acho que isso teve algo a ver com sua série de conquistas.
O garoto olhou para ele sem entender. — Nós tínhamos uma dezena de cavalos de batalha
trotando atrás de nós, carregados com peças de armadura que chacoalhavam e batiam como a carroça de um funilei-ro — Halt deduziu. — Na minha opinião, todo o barulho que estavam fazendo encobrira os sons que os homens de Deparnieux poderiam estar produzindo.
O rosto de Horace ficou sério. Ele não tinha pen-
sado nisso.
— Mas eles não poderiam ter sentido o cheiro de-
les? — ele perguntou.
— Sim, se o vento estivesse soprando na direção
certa. Mas estava soprando de nós até eles, se é que se lembra.
Halt observou Horace, que parecia um tanto desa-
pontado com a incapacidade de os cavalos superarem es-sas dificuldades sem importância.
— Às vezes — Halt continuou — costumamos es-
perar demais dos cavalos dos arqueiros. Afinal, eles são só humanos.
Um débil sinal de um sorriso tocou a boca do ar-
queiro quando ele disse isso, mas Horace não notou. Ele mal assentiu e passou para a próxima pergunta.
— Então, o que vamos fazer agora? — ele quis sa-
ber.
O arqueiro deu de ombros. Ele tinha aberto a mo-
chila e estava tirando alguns objetos: uma camisa limpa, o aparelho de barbear e artigos de higiene.
— Vamos esperar — ele afirmou. — Não estamos
perdendo nenhum tempo... ainda. As passagens que levam para a Escandinávia vão estar cobertas de neve por pelo menos mais um mês. Assim, podemos muito bem apro-veitar o conforto deste lugar por alguns dias até desco-brirmos o que o galante cavaleiro quer de nós.
Horace usou um pé para tirar a bota do outro e agi-
tou os dedos, deliciado, aproveitando a repentina sensação de liberdade.
— Isso é um problema — ele retrucou. — O que
você acha que Deparnieux pretende, Halt?
— Não tenho certeza — Halt respondeu depois de
hesitar um instante. — Mas acho que vai mostrar suas in-tenções nos próximos dias. Penso que ele tem uma vaga ideia de que sou um arqueiro — acrescentou pensativo.
— Existem arqueiros aqui? — Horace perguntou
surpreso.
Ele sempre tinha acreditado que o Corpo de Ar-
queiros existia somente em Araluen. Agora, quando Halt balançou a cabeça, percebeu que estava certo.
— Não, não existem — Halt respondeu. — E
sempre nos esforçamos para não difundir a existência da corporação. A gente nunca sabe quando vai acabar parti-cipando de uma guerra contra alguém — ele acrescentou. — Mas é claro que é impossível manter uma coisa dessas totalmente em segredo, portanto ele pode ter ouvido al-guma coisa.
— E se isso aconteceu? — Horace quis saber. —
Primeiro pensei que ele estivesse interessado em nós por-que queria lutar comigo... sabe, como você tinha dito.
— Acho que foi isso que aconteceu no início —
Halt concordou — mas agora ele descobriu alguma coisa e acho que está tentando pensar em algum jeito de me usar.
— Usar você? — Horace repetiu preocupando-se
com a ideia. Halt fez um gesto indiferente.
— Normalmente pessoas como ele pensam desse
jeito — ele disse ao rapaz. — Elas estão sempre procu-rando uma forma de tirar vantagem das situações. E pen-sam que todos podem ser comprados se pagarem o preço certo. Você acha que pode calçar a bota de novo? — ele acrescentou com delicadeza. — A janela deixa entrar ape-nas um pouquinho de ar fresco e as suas meias estão com um cheiro um tanto estranho, se é que me entende.
— Ah, desculpe! — Horace retrucou puxando a
bota de montaria sobre a meia.
Agora que Halt tinha falado no assunto, ele perce-
beu o cheiro forte que enchia o quarto.
— Os cavaleiros deste país não fazem um juramen-
to? — ele perguntou, voltando ao assunto de seu captor. — Cavaleiros fazem votos para ajudar uns aos outros, não é mesmo? Eles não devem “usar as pessoas”.
— Eles fazem um juramento — Halt garantiu. —
Cumpri-lo é outra questão. E a ideia de cavaleiros ajuda-rem pessoas comuns funciona num lugar como Araluen, onde há um rei forte. Aqui, se você tem poder, faz o que bem entende.
— Bem, isso não está certo — Horace resmungou. Halt concordou, mas não parecia haver sentido em
dizer isso.
— Apenas tenha paciência — ele recomendou ao
garoto. — Não há nada que a gente possa fazer para a-pressar os acontecimentos. Vamos descobrir logo o que Deparnieux quer. Enquanto isso, vamos relaxar e nos a-calmar.
— Outra coisa... — Horace acrescentou ignorando
a sugestão do companheiro. — Não gostei daquelas gaio-las na beira da estrada. Nenhum cavaleiro de verdade po-deria punir alguém daquela maneira, por mais grave que fosse o crime. Aquilo foi terrível e desumano!
Halt encontrou o olhar franco do garoto. Não ha-
via nada que ele pudesse dizer para consolá-lo.
Desumano era uma descrição apropriada da puni-
ção.
— Sim — ele disse finalmente. — Eu também não
gostei daquilo. Acho que, antes de partirmos, o senhor Deparnieux tem que nos dar algumas explicações sobre isso.
Naquela noite, eles jantaram com o cavaleiro galês.
A mesa era imensa com lugar para trinta ou mais convi-vas, e os três pareceram muito pequenos por causa do es-paço vazio ao redor. Criados e copeiras corriam para reali-zar suas tarefas trazendo porções adicionais de comida e vinho conforme exigido.
A refeição não estava boa nem ruim, o que surpre-
endeu Halt um pouco. A cozinha galesa era conhecida por ser exótica. A comida simples que lhes foi servida parecia indicar que a reputação era infundada.
Halt notou que os criados serviam os pratos com
olhos baixos, evitando contato visual com qualquer um dos convivas. Havia um visível clima de medo no ar, acen-tuado quando qualquer um cios criados tinha que se apro-ximar do patrão para lhe servir mais comida ou encher seu cálice.
Halt também percebeu que Deparnieux não só sen-
tia a tensão no ambiente, como também a apreciava. Um meio sorriso satisfeito se mostrava nos lábios cruéis sem-pre que um dos empregados se aproximava, desviava o olhar e prendia a respiração até a tarefa ter sido concluída.
Eles falaram pouco durante o jantar. Deparnieux
parecia satisfeito em observá-los como um garoto obser-varia um inseto interessante e desconhecido que tivesse capturado. Naquelas circunstâncias, nem Hall nem Horace estavam dispostos a conversar sobre assuntos banais.
Depois que comeram e a mesa foi tirada, o cavalei-
ro finalmente falou sobre o que tinha em mente. Ele dis-pensou Horace com um olhar e com um gesto lânguido mostrou as escadas que levavam para seu quarto.
— Não vou tomar mais o seu tempo, garoto — ele
disse. — Tem minha permissão para subir.
Corando levemente diante do tom mal-educado,
Horace olhou rapidamente para Halt e viu que o arqueiro assentiu com a cabeça. Ele se levantou tentando conservar a dignidade e não mostrar sua confusão ao cavaleiro galês.
— Boa-noite, Halt — ele disse em voz baixa, e Halt
balançou a cabeça outra vez.
— Boa-noite, Horace — ele respondeu. O aprendiz de guerreiro se levantou, encarou De-
parnieux, virou-se de repente e deixou a sala. Dois guardas armados que estavam parados nas sombras instantanea-mente se postaram atrás dele e o acompanharam nas esca-das.
“Foi um gesto insignificante e provavelmente in-
fantil”, Horace pensou enquanto subia os degraus até o quarto, mas ignorar o dono do Château Montsombre o fez se sentir um pouco melhor.
Deparnieux esperou até o som dos passos de Hora-
ce nos degraus de pedra desaparecer. Então, empurrando a cadeira para longe da mesa, ele se virou e olhou para o arqueiro de um jeito calculista.
— Bem, mestre Halt — ele disse devagar —, che-
gou a hora de termos uma pequena conversa.
— Sobre o quê? — Halt perguntou sério. — Re-
ceio que não sou muito bom com conversa fiada.
— Tenho certeza de que pode ser um convidado
divertido — o cavaleiro respondeu com um sorriso frio. — Agora me diga quem é você exatamente?
Halt deu de ombros com indiferença. Ele brincou
com o cálice que estava quase vazio na mesa diante de si, girando-o em sua direção e observando o jeito como o fogo da lareira refletia no cristal.
— Sou uma pessoa comum — ele afirmou. — Eu
me chamo Halt. Sou de Araluen e viajo com sir Horace. Na verdade, não tenho muito mais a contar.
O sorriso permaneceu no rosto de Deparnieux en-
quanto ele continuava a observar o homem barbado sen-tado à sua frente. De fato, ele parecia bastante desinteres-sante. As roupas eram simples, quase relaxadas na verda-de. A barba e os cabelos eram mal cortados. “Parece que ele apara o cabelo e a barba com a faca de caça”, Deparni-eux pensou, sem saber que ele era um dos muitos que ti-nham a mesma opinião sobre Halt.
Além disso, ele era um homem pequeno. A cabeça
mal chegava ao ombro do cavaleiro, mas ele era musculo-so e, apesar da barba e dos cabelos grisalhos, suas condi-ções físicas eram excelentes. Mas havia algo em seus olhos — escuros, seguros e calculistas que desmentia a alegação de simplicidade que o homem fazia naquele momento. Deparnieux se orgulhava de conhecer o olhar de um ho-mem acostumado a comandar, e aquele homem o possuía, com certeza.
Além do mais, havia algo sobre seu equipamento.