Terra do Gelo
garantiu, e Horace sorriu para ela.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A porta se fechou atrás dele e um suspiro coletivo
de alívio tomou conta do aposento. No mesmo instante, todos os presentes começaram a conversar. Os músicos, percebendo que seu momento tinha acabado por aquela noite, guardaram os instrumentos e, agradecidos, aceita-ram bebidas da empregada.
Horace foi até a viga onde a flecha de Halt tinha
pregado a luva do cavaleiro. Ele soltou a flecha, jogou a luva numa mesa e devolveu a flecha para Halt.
— O que foi tudo isso? — ele perguntou um pou-
co sem fôlego.
Halt voltou para a mesa nas sombras e recostou o
arco na parede novamente.
— Isso — ele disse ao garoto — é o que acontece
quando você começa a ganhar reputação. Obviamente, nosso amigo Deparnieux é a pessoa que controla esta área e viu você como um possível desafio a esse controle. As-sim, ele veio até aqui para matar você.
— Mas... por quê? — Horace perguntou balançan-
do a cabeça espantado. — Não tenho nenhuma desavença com o homem. Eu o ofendi de alguma maneira? É claro que não tive a intenção — ele afirmou.
Halt as sentiu sério.
— Não se trata disso — ele explicou ao jovem a-
prendiz. — Ele não liga a mínima para você. Você sim-plesmente foi uma oportunidade para ele.
— Uma oportunidade? — Horace perguntou. —
Para quê?
— Para reafirmar seu poder sobre as pessoas da re-
gião — Halt explicou. — Gente como ele governa pelo medo na maior parte do tempo. Assim, quando um jovem cavaleiro vem para a cidade com a reputação de campeão, alguém como Deparnieux encara o fato como uma opor-tunidade. Ele provoca uma briga, mata você e a reputação dele fica mais forte. As pessoas o temem mais e têm me-nos probabilidade de desafiar o controle que ele exerce sobre elas. Entendeu?
— Não devia ser assim — o rapaz murmurou com
um tom de desapontamento na voz. — Não é assim que os cavaleiros deveriam agir.
— Nesta parte do mundo é assim — Halt retrucou.
Jarl Erak, capitão e membro do conselho central dos jarls mais antigos, estivera fora de Hallasholm por várias semanas.
Ele estava assobiando, enquanto atravessava os
portões abertos da residência, com uma sensação de satis-fação por um serviço benfeito. Borsa o tinha mandado navegar costa abaixo até um dos povoados do sul para investigar uma aparente queda nos impostos pagos pelo jarl local. Borsa tinha percebido o declínio nos últimos quatro ou cinco anos. Nada repentino demais para desper-tar suspeitas, mas um pouco menos a cada ano.
Tinha sido preciso uma mente esperta como a de
Borsa para notar a lenta discrepância e para perceber que a redução gradativa na renda informada tinha coincidido com a eleição de um novo jarl na vila. Pressentindo uma fraude, o hilfmann tinha escolhido Erak para investigar — e para convencer o jarl local de que a honestidade, no caso de impostos devidos a Ragnak, era definitivamente a me-lhor política.
Deve-se admitir que a ideia que Erak fez de investi-
gar consistiu em agarrar o infeliz jarl pela barba enquanto ele dormia na escuridão antes do amanhecer. Erak então ameaçou arrancar-lhe o cérebro com uma enxada se ele não fizesse um ajuste rápido para melhor a quantia de im-postos que estava pagando para Hallasholm. As táticas eram rudes e rápidas, mas eficazes. O jarl ficara extrema-mente ansioso para pagar os impostos que faltavam.
Foi por puro acaso que Erak atravessou os portões
no exato momento em que Will tropeçou com a pá para limpar a neve alta que tinha caído dos caminhos na noite anterior.
Durante um momento, Erak não reconheceu a fi-
gura magra e trôpega. Mas havia algo conhecido no ema-ranhado cabelo castanho, mesmo manchado e sujo. Erak parou para ver melhor.
— Deus da escuridão, garoto! — ele murmurou. —
É você mesmo?
O garoto se virou para olhar com uma expressão
vazia e indiferente. Ele estava reagindo apenas ao som de uma voz. Não havia sinal de ter reconhecido o capitão. Seus olhos estavam vermelhos e sem brilho quando ele examinou o forte escandinavo. Erak sentiu um grande tristeza tomar conta dele.
Ele conhecia os sinais provocados pelo uso da erva
do calor e, claro, sabia que era usada para controlar os es-cravos do pátio. E ele já tinha visto muitos deles morre-rem por causa dos efeitos combinados do frio, da desnu-trição e da falta de vontade de viver que resultava do vício na droga. Os dependentes da erva do calor não esperavam nem planejavam mais nada. Consequentemente, não ti-nham esperanças para levantar o ânimo. Era isso, além dos outros fatores, que os matava ao longo do tempo.
Erak sofria ao ver que o garoto tinha descido tanto,
de ver aqueles olhos antes tão cheios de coragem e deter-minação e que agora não refletiam nada além do vazio sem brilho da falta de esperança ou expectativa de um vi-ciado.
Will esperou alguns segundos, imaginando que re-
ceberia uma ordem. No fundo de si mesmo, uma leve lembrança se agitou por 1 ou 2 segundos. A lembrança do rosto à sua frente e da voz que tinha ouvido. Então, o es-forço de lembrar se tornou muito grande, a névoa do vício muito espessa e, com um leve dar de ombros, ele se virou e caminhou arrastando os pés até o portão para começar a tirar a neve. Em alguns minutos, ele estaria encharcado do suor provocado pelo trabalho pesado. Então, a umidade iria congelar em seu corpo e o frio iria comer as suas en-tranhas outra vez. Agora ele conhecia o frio. Ele era o seu companheiro constante. E com a lembrança do frio vinha o desejo pelo próximo suprimento da erva. Os seus pou-cos momentos de conforto.
Erak observou Will se curvar lenta e desajeitada-
mente para realizar sua tarefa. Ele praguejou baixinho para si mesmo e se virou Outros escravos do pátio já estavam trabalhando nas pás na fonte de água fresca, esmagando o gelo espesso que tinha se formado durante a noite gelada.
Erak passou por eles depressa, quase sem vê-los. E
não estava mais assobiando.
Dois dias depois, tarde da noite, Evanlyn foi cha-
mada para os aposentos de jarl Erak.
Ela tinha conseguido um lugar para dormir perto o
bastante dos grandes fornos para se manter aquecida du-rante a noite, mas não perto demais para se queimar. Ago-ra, no fim de um longo dia, tinha estendido o cobertor nas tábuas duras, deitado agradecida e se envolvido nele. O travesseiro era um pequeno pedaço de madeira da pilha de lenha enrolado com uma camisa velha. Ela estava recosta-da nele, escutando os barulhos à sua volta: uma tosse oca-sional rouca que era resultado inevitável de se viver na neve e no gelo da Escandinávia, nessa época do ano, e as conversas murmuradas em voz baixa. Essa era uma das poucas ocasiões em que os escravos tinham permissão de conversar. Geralmente, Evanlyn estava cansada demais para aproveitar a ocasião.
Ela ouviu que alguém chamando seu nome e se
sentou com um pequeno gemido. Uma escrava dos quar-tos estava passando entre as fileiras de corpos deitados, ocasionalmente se inclinando para sacudir um ombro e perguntar se alguém sabia onde poderia encontrar a escra-va de Araluen chamada Evanlyn. Na maioria das vezes, ela recebia olhares indiferentes e gestos desinteressados. A vida entre os escravos não era favorável à formação de novos amigos.
— Aqui! — Evanlyn chamou, a escrava dos quar-
tos olhou para ver de onde tinha vindo a voz e então ca-minhou com cuidado entre os corpos para chegar até ela.
— Você tem que vir comigo — ela disse com um
tom de voz pomposo.
Os escravos dos quartos, que cuidavam de quem
vivia na residência, se consideravam seres superiores comparados aos simples escravos da cozinha: uma raça de pessoas que vivia num mundo de gordura, vinho derra-mado e comida.
— Para onde? — Evanlyn quis saber, e a garota
fungou com desdém para ela.
— Para onde mandarem — ela respondeu. Então, como Evanlyn não fez menção de se levan-
tar, ela se viu obrigada a acrescentar:
— Ordens de jarl Erak.
Afinal, ela não tinha autoridade pessoal sobre os
escravos da cozinha, mesmo que se considerasse superior. Os escandinavos não reconheciam essa diferença. Um escravo era um escravo e, exceto os chefes da gangue no pátio, eles eram todos iguais.
Houve um pequeno movimento de interesse dos
outros que estavam sentados e deitados perto dela. Não era novidade que os oficiais superiores recrutassem escra-vas pessoais entre as jovens garotas mais atraentes.
Perguntando-se qual seria o significado de tudo a-
quilo, Evanlyn se levantou e dobrou o cobertor com cui-dado, deixando-o para marcar seu lugar. Depois, fez um gesto para a outra garota mostrar o caminho e a seguiu para fora da cozinha.
A Grande Mansão de Ragnak era, na realidade, um
verdadeiro labirinto de passagens e quartos que saíam do Grande Salão central, com pé-direito muito alto, onde se serviam as refeições e se conduziam os negócios oficiais. A garota levou Evanlyn por uma série de passagens baixas e mal iluminadas até chegarem ao que parecia ser um beco sem saída. Havia uma porta no fim da parede e a escrava de quarto a indicou para Evanlyn.
— Ali dentro — a escrava disse simplesmente. —
É melhor bater primeiro — ela então acrescentou.
Então se virou e correu de volta pelo corredor es-
curo. Evanlyn hesitou um momento, sem saber do que se tratava, e bateu na porta dura de carvalho com o nó dos dedos.
— Entre.
Ela reconheceu, a voz que respondeu à batida. As
cordas vocais de Erak eram treinadas para conduzir seus homens sobre as ondas do Mar Stormwhite. Parecia que ele nunca baixava o volume. Havia um trinco do lado de fora. Ela o levantou e entrou.
Os aposentos de Erak eram simples. Inevitavel-
mente construídos de troncos de pinho, abrangiam uma sala de estar e, fechado por uma cortina tecida em lã, um quarto de dormir num dos lados. A sala de estar tinha uma pequena fogueira queimando numa extremidade, que en-chia o lugar de um calor agradável, e várias cadeiras de carvalho esculpidas. Uma tapeçaria muito cara, e, segundo o que Evanlyn reconheceu, estrangeira, cobria o chão de madeira. Ela adivinhou que era o resultado de uma das pilhagens de Erak em Gálica. Em seus anos no Castelo de Araluen, ela tinha visto muitas peças semelhantes. Tecidas pelos artistas de Tierre Valley durante longos períodos que muitas vezes chegavam a dez ou vinte anos, os tapetes geralmente trocavam de mãos por uma pequena fortuna. Por alguma razão, Evanlyn não acreditava que Erak tives-se pago em dinheiro por ele.
Recostado em uma das cadeiras esculpidas e de as-
pecto confortável, o jarl estava sentado perto do fogo. Ele fez sinal para ela e indicou uma garrafa e copos numa me-sa baixa no centro do aposento.
— Entre, menina. Sirva um pouco de vinho para
nós e sente-se. Temos um assunto para conversar.
Hesitante, ela atravessou o quarto e derramou o vi-
nho tinto em dois cálices. Depois entregou um deles para o escandinavo e se sentou na outra poltrona. Ao contrário de Erak, contudo, ela não se recostou confortavelmente. Ela ficou ereta na beirada como se estivesse preparada para fugir. O jarl a observou com o que pareceu ser um pouco de tristeza e então acenou para ela.
— Relaxe, menina! Ninguém vai machucar você;
muito menos eu. Beba o vinho.
Lentamente, ela deu um gole e o achou surpreen-
dentemente bom. Erak a observava e viu a expressão in-voluntária de surpresa em seu rosto.
— Então você conhece um bom vinho? — ele per-
guntou. — Eu peguei um barril desse de um navio floren-tino na última estação de pirataria. Nada mal, não é?
Ela concordou com um gesto. Ela estava começan-
do a relaxar um pouco e o vinho a deixou um tanto cora-da. Evanlyn se deu conta de que não tinha tocado em ne-nhum tipo de bebida alcoólica por muitos meses. E lhe ocorreu que seria melhor que vigiasse seus passos. E sua língua.
Ela esperou que o capitão escandinavo falasse. Ele
parecia hesitante, como se não tivesse certeza de que devia continuar. O silêncio cresceu entre eles até que, por fim, ela não suportou mais. Evanlyn tomou outro gole de vi-nho e perguntou:
— Por que mandou me chamar?
Jarl Erak estava olhando para as chamas do peque-
no fogo. Surpreso, ele olhou para cima quando a garota falou. Ele devia estar desacostumado a conversar com es-cravos. Então, Evanlyn deu de ombros. Eles podiam ficar sentados ali, em silêncio, a noite toda se ninguém tomasse a iniciativa. Ela estava intrigada por ver um leve sorriso surgir no rosto barbado. Ocorreu a ela que em outro lu-gar, em condições diferentes, ela até poderia gostar do pirata escandinavo.
— Provavelmente não pelo motivo no qual você
está pensando — ele respondeu e, antes que a moça pu-desse responder, ele continuou, quase para si mesmo. — Mas alguém tem que fazer alguma coisa e acho que você é a pessoa ideal para o trabalho.
— Fazer alguma coisa? — Evanlyn repetiu. — Fa-
zer alguma coisa sobre o quê?
Nesse momento, Erak pareceu tomar uma decisão.
Ele soltou um suspiro profundo, tomou a última gota de vinho do copo e se inclinou para a frente, os cotovelos pousados nos joelhos, o rosto barbado e áspero voltado na direção dela.
— Você tem visto o seu amigo ultimamente? — ele
perguntou. — O jovem Will?
Evanlyn desviou o olhar. Sim, ela o tinha visto. Ou
melhor, ela tinha visto a figura trôpega e indiferente na qual ele tinha se transformado. Alguns dias antes, ele tinha trabalhado do lado de fora da cozinha e ela lhe levara al-guma comida. Will arrancou o pão das mãos dela e o de-vorou como um animal. Mas, quando falou com ele, Will apenas a encarou.
Em duas curtas semanas, ele já tinha se esquecido
de Evanlyn, de Halt e da pequena cabana na beira da flo-resta perto do Castelo Redmont. Ele tinha esquecido até os importantes acontecimentos que haviam ocorrido nas Planícies de Uthal, quando o exército do rei Duncan havia enfrentado e derrotado os implacáveis regimentos de Wargals de Morgarath.
No que dizia respeito a ele, esses acontecimentos e
todos os outros de sua jovem vida poderiam muito bem ter ocorrido do lado oculto da lua. Atualmente, sua vida e todo o seu ser se concentravam apenas em um pensamen-to.
Seu próximo suprimento de erva do calor. Um dos outros escravos, uma mulher mais velha,
tinha testemunhado o encontro e falou com suavidade com Evanlyn quando ela voltou à cozinha.
— Esqueça seu amigo. A droga tomou conta dele.
Ele já está morto.
— Eu o vi — ela disse a Erak em voz baixa. — Eu não tive nada a ver com isso — ele retrucou
zangado surpreendendo Evanlyn com a intensidade da resposta. — Nada. Acredite em mim, menina, detesto a maldita droga. Já vi o que ela faz para as pessoas. Nin-guém merece esse tipo de vida obscura.
Evanlyn o encarou outra vez. Era evidente que E-
rak estava sendo sincero e que, igualmente evidente, que-ria que ela reconhecesse isso. Evanlyn assentiu.
— Acredito em você — ela afirmou. Erak se levantou da poltrona inquieto e andou pelo
aposento pequeno e aquecido como se qualquer forma de ação física pudesse aliviar a fúria que estava se formando dentro dele desde que tinha encontrado Will.
— Um garoto como ele, um verdadeiro guerreiro.
Ele pode ter a altura de um anão, mas tem o coração de um verdadeiro escandinavo.
— Ele é um arqueiro — Evanlyn contou em voz
baixa e ele assentiu.
— É verdade. E ele merece mais do que isso. Essa
maldita droga! Não sei por que Ragnak a tolera!
Ele parou por um longo momento, tentando recu-
perar a calma, e então se virou para ela e continuou.
— Quero que saiba que tentei manter vocês dois
juntos. Não tinha ideia de que Borsa iria mandá-lo para o pátio. O homem não tem ideia de como tratar um inimigo honrado. Mas o que se pode esperar? Borsa não é um guerreiro. Ele conta sacos de cereais para viver.
— Entendo — Evanlyn comentou com cuidado. Ela não tinha certeza disso, mas sentia que o capi-
tão esperava alguma resposta dela. Erak olhou para a ga-rota com atenção, avaliando-a. Ele parecia estar tentando tomar alguma decisão.
— Ninguém sobrevive no pátio — ele acrescentou
com delicadeza, quase para si mesmo.
Ao ouvir essas palavras, Evanlyn sentiu uma mão
fria envolver seu coração.
— Assim, depende de nós fazer alguma coisa a res-
peito — ele concluiu.
Evanlyn olhou para ele, a esperança crescendo em
seu peito quando Erak disse essas últimas palavras.
— Exatamente em que tipo de coisa você está pen-
sando? — ela perguntou devagar, desejando, apesar de todas as probabilidades em contrário, que estivesse enten-dendo a conversa corretamente.
Erak fez uma pausa de 1 ou 2 segundos e então
tomou a firme decisão de se comprometer.
— Você vai escapar — ele disse finalmente. — Vai
levá-lo junto com você e eu vou ajudá-los.
Os dois viajantes passaram uma noite agitada, fazendo turnos para montar guarda. Nenhum deles tinha certeza de que o comandante local não voltaria se esgueirando na escuridão. Contudo, eles constataram que seus temores eram infundados. Não houve mais nenhum sinal de De-parnieux naquela noite.
Na manhã seguinte, enquanto selavam os cavalos
no celeiro no fundo do edifício, o dono da pousada se aproximou nervoso de Halt.
— Senhor, não posso dizer que esteja triste por vê-
lo deixar minha pousada — ele falou em tom de descul-pas.
Halt deu-lhe uns tapinhas no ombro para mostrar
que não estava ofendido.
— Posso entender sua posição, meu amigo. Receio
que o seu chefão não tenha gostado de nós.
O dono da pousada olhou em volta inquieto antes
de concordar com Halt, como se tivesse medo de que al-guém pudesse estar observando-os e fosse contar sobre sua deslealdade para Deparnieux. Halt imaginou que pro-vavelmente isso tivesse acontecido várias vezes antes na-quela cidade e sentiu pena do homem que tinha rido no bar na noite anterior e tinha sido surpreendido pelo cava-leiro negro.
— Ele é um homem muito, muito mau, senhor —
o dono da pousada admitiu em voz baixa. — Mas o que gente como nós pode fazer contra ele? Ele tem um pe-queno exército à disposição, e nós somos apenas comerci-antes, não guerreiros.
— Gostaria de poder ajudar vocês — Halt disse,
mas temos que partir.
Halt hesitou apenas um segundo e perguntou com
disfarçada indiferença:
— A balsa em Les Sourges funciona todos os dias? Les Sourges era um rio que passava na cidade e ia
para o oeste, a uns 20 quilômetros dali. Halt e Horace es-tavam viajando para o norte, mas o arqueiro tinha certeza de que Deparnieux iria voltar e tentar saber para onde ti-nham ido. Ele não esperava que o estalajadeiro guardasse segredo sobre sua pergunta, tampouco iria censurá-lo por abrir a boca. O homem agora fazia que sim com a cabeça, confirmando o que Halt tinha perguntado.
— Sim, senhor, a balsa ainda está funcionando nes-
ta época do ano. No mês que vem, quando a água conge-lar, ela vai parar e os viajantes vão ter que usar a ponte em Colpennieres.
Halt pulou para a sela. Horace já estava montado e
segurava a rédea principal que puxava o grupo de cavalos capturados. Depois dos acontecimentos da noite anterior, eles tinham decidido que seria sensato deixar a cidade o mais depressa possível.
— Então vamos para a balsa — Halt avisou em
voz alta. — Acho que há uma bifurcação na estrada al-guns quilômetros ao norte, certo?
— Isso mesmo, senhor — o dono da pousada con-
firmou. — É o principal cruzamento que vai encontrar. Pegue a estrada da direita e vai estar no caminho da balsa.
Halt levantou a mão para agradecer e se despedir e,
cutucando Abelard com o joelho, saiu do pátio do estábu-lo.
Eles viajaram longamente naquele dia. Ao chegar
ao cruzamento, ignoraram a estrada da direita e continua-ram em frente na direção do norte. Não havia nenhum sinal na estrada de que estivessem sendo perseguidos, mas as colinas e os bosques que os cercavam poderiam escon-der um exército, se necessário. Halt não estava totalmente convencido de que Deparnieux, que conhecia o campo, não estava viajando paralelo a eles em algum lugar, talvez usando atalhos para preparar uma emboscada em algum ponto adiante na estrada.
Foi quase um anticlímax quando, no meio da tarde,
eles chegaram a uma pequena ponte onde havia um cava-leiro a espera barrando a passagem e lhes oferecendo a escolha de pagar o pedágio ou lutar com ele.
O cavaleiro, montado num cavalo castanho ossudo
que deveria ter sido aposentado dois ou três anos antes, estava a quilômetros de distância do comandante que ti-nham confrontado na noite anterior. Seu casaco estava enlameado e rasgado. Talvez tivesse sido amarelo um dia, mas tinha desbotado para um branco sujo. Sua armadura tinha sido remendada em vários lugares e era evidente que sua lança era feita com o tronco cortado de uma árvore nova. O escudo tinha a inscrição da cabeça de um javali e parecia apropriado para um homem desbotado, rasgado e todo desgrenhado como ele.
Eles pararam observando a cena. Halt suspirou de-
sanimado.
— Estou ficando muito cansado disso tudo — ele
murmurou para Horace e começou a desamarrar o arco que estava pendurado em seu ombro.
— Um momento, Halt — Horace pediu, enquanto
tirava o escudo redondo das costas e o ajeitava no braço esquerdo. — Por que não deixamos que ele veja a insígnia da folha de carvalho e esperamos para ver se ele muda de ideia sobre a proposta?
Halt fez cara feia para a figura maltrapilha diante
deles, hesitando em estender a mão e pegar uma flecha.
— Bem, está certo — ele disse relutante. — Mas
vamos lhe dar somente uma chance. Depois, vou atraves-sar ele com uma flecha. Estou profundamente cansado dessas pessoas.
Ele afundou na sela outra vez quando Horace ca-
valgou para encontrar o cavaleiro desmazelado. Halt no-tou que, até aquele momento a figura no meio da estrada não tinha emitido nenhum som e isso era incomum. Co-mo regra geral, os guerreiros de estrada não conseguiam esperar para apresentar desafios, geralmente apimentando sua fala com expressões como “ô lacaio!”, “Senhor cava-leiro, queira tomar posição” e outras bobagens antiquadas desse tipo.
E, no exato momento em que o pensamento lhe
ocorreu, sinos de advertência soaram em sua mente e ele chamou o jovem aprendiz que já estava a uns 20 metros de distância, trotando sobre Kicker para encontrar seu desafiante.
— Horace! Volte! É uma...
Mas, antes que pudesse pronunciar a última palavra,
um vulto sem forma caiu dos galhos de um carvalho que pendia sobre a estrada e envolveu a cabeça e os ombros do garoto. Por um momento, Horace lutou inutilmente nas dobras da rede que o prendia. Então, uma mão invisí-vel puxou uma corda e a rede se apertou em volta dele, arrancando-o da sela e fazendo-o cair no chão.
Assustado, Kicker se afastou de costas do cavaleiro
caído, trotou alguns metros e, percebendo que não estava em perigo, parou e observou com as orelhas em pé, caute-loso.
— ...armadilha — Halt terminou devagar e, zanga-
do com a falta de atenção. Distraído pela aparência ridícu-la do cavaleiro mal-arrumado, tinha permitido que seus sentidos relaxassem, levando-os àquela situação difícil.
Ele tinha uma flecha pronta no arco, mas não havia
um alvo visível, exceto pelo cavaleiro no velho cavalo de batalha que ainda estava sentado em silêncio no meio da estrada. Ele não tinha mostrado nenhum sinal de surpresa quando a rede caiu sobre Horace.
— Bem, amigo, você pode pagar a sua parte nessa
trapaça. Halt murmurou e levantou o arco devagar, puxou a corda até que a ponta da pena tivesse encostado em seu rosto, bem acima da curva da boca.
— Eu não faria isso — disse uma voz grave e fami-
liar.
O cavaleiro enferrujado e esfarrapado levantou o
visor, revelando os traços carrancudos de Deparnieux.
Halt praguejou baixinho. Ele hesitou, o arco ainda
totalmente puxado, e ouviu uma série de pequenos baru-lhos vindos dos arbustos de ambos os lados da estrada. Lentamente, diminuiu a tensão da corda ao se dar conta de que pelo menos uma dúzia de vultos tinha se levantado das plantas, todos carregando pequenas bestas mortais. E todas estavam apontadas para ele.
Halt recolocou a flecha na aljava pendurada às cos-
tas e baixou o arco até encostá-lo na coxa. Sem saber o que fazer, olhou para onde Horace ainda lutava contra a malha fina trançada que o envolvia. Agora, mais homens estavam saindo das árvores e arbustos e se aproximaram do aprendiz. Enquanto quatro deles o cobriram com bes-tas, outros trabalhavam para afrouxar as dobras da rede e fazê-lo se levantar com o rosto muito vermelho.
Deparnieux, com um sorriso largo de satisfação no
rosto, fez o cavalo ossudo descer a estrada na direção de-les. Ele parou numa distância em que sua voz podia ser ouvida e fez uma curvatura apressada até a cintura.
— Agora, cavaleiros — ele disse em tom zombetei-
ro —, vou ter o privilégio de ter vocês como convidados no Château Montsombre.
— Como poderíamos recusar? — Halt replicou er-
guendo uma sobrancelha surpreso.
C inco dias se passaram desde que Evanlyn tinha sido convocada aos aposentos de Erak.
Enquanto esperava outro contato dele, continuou
com a outra parte do plano que ele tinha apresentado, queixando-se fortemente da possibilidade de ser destinada a ser uma de suas escravas pessoais. Segundo a história que tinham combinado, ela terminaria a semana na cozi-nha e então assumiria as novas funções. Ela declarava seu desagrado em relação a ele em geral, aos seus padrões de higiene em particular e falava sempre que possível da cru-eldade que ele tinha demonstrado na viagem a Halla-sholm.
Ouvir Erak ser descrito por Evanlyn naqueles pou-
cos dias dava a impressão de que ele era o pior dos demô-nios do inferno e tinha um mau hálito insuportável.
Depois de vários dias dessa encenação, Jana, uma
das escravas da cozinha mais antigas, não se conteve.
— Poderiam acontecer coisas piores para você, mi-
nha menina. Trate de se acostumar.
Ela se afastou, cansada das constantes queixas de
Evanlyn, pois, na verdade, a vida de um escravo pessoal tinha algumas vantagens: roupas e comida melhores, e quartos mais confortáveis para todos.
— Prefiro me matar primeiro — Evanlyn gritou
para ela satisfeita de ter a chance de tornar sua aversão pelo jarl mais pública.
Um ajudante da cozinha, um homem livre, não um
escravo, deu-lhe um forte cutucão na parte de trás da ca-beça, fazendo seus ouvidos assobiarem.
― Se você não voltar a trabalhar agora, eu mesmo
faço isto por você ― ele ameaçou.
Ela balançou a cabeça, olhando-o com raiva pelas
costas e se apressou para servir cerveja a Ragnak e seus companheiros de jantar.
Como sempre, ela sentiu uma inquietante onda de
ansiedade quando entrou na sala de refeições e foi obser-vada por Ragnak. Embora a razão lhe dissesse que era im-provável que ele a distinguisse entre as outras dezenas de escravas ocupadas que serviam comida e bebida apressa-damente, ela ainda vivia sob o constante medo de que, de alguma forma, fosse reconhecida como a filha de Duncan. Era aquela ansiedade, assim como o trabalho ininterrupto, que a deixava esgotada e exausta no final de cada noite.
Depois que terminavam o trabalho da noite, os es-
cravos iam agradecidos para seus espaços de dormir. E-vanlyn notou preocupada que Jana, obviamente aborreci-da com as constantes reclamações da garota sobre Erak, tinha mudado seu cobertor para o outro lado do quarto. Ela estendeu o próprio cobertor e tornou a envolver com pano o tronco que lhe servia de travesseiro. Enquanto fazia isso, um pequeno pedaço de papel caiu das dobras da velha camisa que usava para cobrir a madeira.
Com o coração aos pulos, Evanlyn cobriu rapida-
mente o bilhete com o pé e olhou à sua volta para verifi-car se alguma de suas vizinhas tinha percebido alguma coisa. Aparentemente, ninguém tinha notado. Todas con-tinuavam com os preparativos para dormir. O mais casu-almente que conseguiu, Evanlyn se deitou e, ao mesmo tempo, apanhou o pequeno pedaço de papel e puxou o cobertor até o queixo, aproveitando a oportunidade para dar uma olhada na única mensagem escrita ali:
“Hoje à noite.”
Um ajudante da cozinha entrou alguns minutos de-
pois e apagou as lanternas, deixando apenas as chamas bruxuleantes do fogo. Exausta como estava, Evanlyn fi-cou deitada de Costas de olhos muito abertos, o coração acelerado, esperando o tempo passar.
Aos poucos, as vozes no aposento ficaram em si-
lêncio e foram substituídas pela respiração profunda e re-gular dos escravos adormecidos. Aqui e ali se ouviam ron-cos suaves ou uma tosse ocasional e, uma ou duas vezes, uma voz atrapalhada e indistinta se manifestou quando uma escrava teuta resmungou no sono.
O fogo diminuiu e adquiriu uma cor vermelha sem
brilho e Evanlyn ouviu o relógio do porto batendo a meia-noite. Aquele seria o último toque até o amanhecer, por volta das 7 horas. Ela se recostou para esperar. Erak tinha dito que aguardasse até uma hora depois do toque do re-lógio à meia-noite. “Isso vai dar tempo a eles para se dei-tarem e dormirem profundamente”, ele tinha dito quando apresentou seu plano. “Se deixar para mais tarde, os que têm sono leve e os escravos mais velhos vão começar a acordar para ir ao banheiro.”
Apesar da tensão que sentia, suas pálpebras come-
çaram a se fechar e, com um sobressalto de pânico, ela percebeu que quase tinha caído no sono. “Seria perfeito”, ela pensou com amargura, “fazer o jarl esperar por mim do lado de fora da Grande Mansão enquanto eu roncasse alto debaixo da coberta”. Ela se mexeu no chão duro e escolheu uma posição menos confortável. Enterrou as unhas nas palmas das mãos para que a dor a mantivesse alerta. Ela começou a contar para medir a passagem do tempo e então percebeu, quase tarde demais, que o efeito soporífero da contagem quase a tinha posto para dormir outra vez.
Finalmente, deu de ombros aborrecida e chegou à
conclusão que uma hora já devia ter passado. Parecia não haver ninguém acordado na cozinha quando Evanlyn pu-xou a coberta e se levantou. Ela pensou que, se alguém se mexesse sempre poderia alegar que estava indo ao banhei-ro. Ela tinha ido para a cama totalmente vestida, com ex-ceção das botas. Agora, Evanlyn as levava enroladas no cobertor. Como o fogo tinha diminuído, o quarto tinha ficado muito frio e ela tremeu ao ser atingida pelo ar gela-do.
Ela teve a impressão de que a porta do pátio fez ba-
rulho suficiente para acordar os mortos quando tentou abri-la. A estrutura girou nas pesadas dobradiças com o que pareceu ser um guincho ensurdecedor, encolhendo-se, a garota a fechou com o máximo de cuidado, espantada com o fato de que aparentemente ninguém tinha sido per-turbado pelo ruído.
A Lua não brilhava. A noite estava tomada por
grossas nuvens, mas a neve que cobria o chão ainda refle-tia a pouca luz que havia, facilitando ver os detalhes. A massa negra que era o alojamento dos escravos do pátio, um celeiro frio e sem conforto, estava facilmente visível, a 30 ou 40 metros de distância.
Pulando ora num pé, ora noutro, ela calçou as bo-
tas. Em seguida, colada à parede do prédio principal, ela virou à esquerda e se dirigiu até a esquina como Erak ti-nha instruído. Ao chegar ao fim da parede, soltou um gri-to abafado de susto. Um vulto corpulento a esperava, en-colhido sob a sombra do edifício.
Por um momento, sentiu uma onda de medo per-
correr seu corpo, mas logo percebeu que era jarl Erak.
— Você está atrasada — ele sussurrou zangado. Ela percebeu que possivelmente ele estava tão ten-
so quanto ela. Jarl ou não, ele estava arriscando a vida para ajudar um escravo a escapar e tinha plena consciência des-se fato.
— Alguns deles ainda não tinham dormido — ela
mentiu. Parecia não haver sentido em dizer a ele que não tinha como medir o tempo. Ele grunhiu em resposta e ela entendeu que a desculpa tinha sido aceita.
— Tome — Erak disse, enquanto empurrava um
pequeno saco na mão dela. — Aqui tem algumas moedas de prata. Você provavelmente vai ter que subornar um dos membros do Comitê para tirar o garoto de lá. Isso deve ser suficiente. Se eu lhe der mais, eles vão suspeitar e perguntar de onde veio o dinheiro.
Evanlyn concordou. Eles tinham discutido tudo is-
so nos aposentos de Erak cinco noites antes. A fuga teria que ser realizada sem que desconfiassem dele. Esse era o motivo pelo qual ele tinha mandado que ela passasse os últimos dias se queixando da possibilidade de se tornar sua escrava. Aquilo iria dar um pretexto para sua tentativa de fuga.
— Pegue isso também — ele continuou, e lhe en-
tregou uma pequena adaga num estojo de couro. — Tal-vez você precise dela para que o rapaz cumpra a promessa depois de ser subornado.
Evanlyn pegou a arma e a guardou no cinto largo.
Ela usava calças e uma camisa e tinha enrolado o cobertor nos ombros como uma capa.
— O que faço depois que tirar Will de lá? — ele
perguntou em voz baixa.
Erak apontou para o caminho que levava para o
porto e para a vila de Hallasholm propriamente dita.
— Siga esse caminho. Perto do portão, você vai ver
uma bifurcação para a esquerda subindo a colina. Vá por ela. No caminho, amarrei um pônei com comida e roupas quentes. Você vai precisar do cavalo para manter Will em movimento — Erak hesitou e então acrescentou: — Você também vai encontrar um pequeno suprimento de erva do calor na sacola pendurada na sela.
Evanlyn olhou para ele surpresa. Na outra noite, ele
não tinha escondido sua aversão ao narcótico.
— Você vai precisar dela para Will — ele explicou
simplesmente. — Quando uma pessoa fica viciada nessa coisa, você pode matá-la se parar o fornecimento de uma vez. Você vai ter que tirá-la aos poucos, diminuindo a quantidade a cada semana até que a mente dele se recupe-re e ele possa ficar sem a droga.
— Vou fazer o melhor que puder — ela garantiu e
ele apertou o pulso dela num gesto de encorajamento.
Erak olhou para as nuvens baixas acima deles e
cheirou o ar.
— Vai nevar antes do amanhecer — ele avisou. —
A neve vai cobrir suas pegadas. Além disso, vou criar pis-tas falsas. Simplesmente continue andando para as monta-nhas. Siga o caminho até chegar a uma bifurcação na trilha perto de três pedras grandes, sendo que a do meio é a maior. Então vire à esquerda e você vai chegar à cabana em mais ou menos dois dias.
Havia uma pequena cabana nas montanhas usada
como abrigo dos caçadores durante o verão. Ela estaria desocupada e forneceria um refúgio relativamente seguro para eles durante o inverno.
— Lembre-se, quando o gelo começar a derreter na
primavera, continue a viagem — Erak aconselhou. — O garoto já deverá estar recuperado até lá. Mas você não po-de ser encontrada lá em cima por caçadores. Saia assim que a neve desaparecer e continue andando para o sul.
Ele hesitou e então deu de ombros num tom de
desculpas.
— Sinto não poder fazer mais por vocês — ele dis-
se. — Isso foi o melhor que pude arranjar em tão pouco tempo e, se não fizermos alguma coisa agora, Will não vai viver muito tempo mais.
Evanlyn se ergueu na ponta dos pés e beijou a face
barbada de Erak.
— Você está fazendo muito — ela garantiu. —
Nunca vou me esquecer de você por isso, jarl Erak. Não sei como lhe agradecer pelo que está fazendo.
Desajeitado, ele dispensou o agradecimento. Erak
olhou para o céu mais uma vez e mostrou o alojamento dos escravos com o polegar.
— É melhor você ir andando — ele falou. — Boa
sorte — acrescentou.
Evanlyn sorriu para ele brevemente e atravessou o
terreno deserto até as tendas. Ela se sentiu extremamente exposta ao cruzar o pátio coberto de neve e quase esperou ouvir um chamado às suas costas. Mas conseguiu chegar ao prédio sem incidentes e, agradecida, mergulhou nas sombras junto da parede.
Evanlyn parou por alguns segundos para recuperar
o fôlego e esperar que o coração retomasse o ritmo nor-mal. Em seguida, caminhou ao longo da parede até a por-ta. Naturalmente, ela estava trancada, mas apenas do lado de fora e só com um trinco simples. Ela o puxou para trás e prendeu a respiração quando o metal raspou em outro metal. Então empurrou a porta fraca e entrou.
Estava escuro no alojamento e não havia fogo para
iluminar o ambiente. Ela esperou enquanto deixava os olhos se acostumarem à escuridão. Aos poucos, Evanlyn conseguiu discernir as formas dos escravos adormecidos, espalhados no chão de terra e embrulhados em trapos e tiras de cobertores. A luz, vinda dos espaços das paredes rústicas de pinho do edifício, caía sobre eles formando listras.
Erak tinha lhe dito que os membros do Comitê fi-
cavam num quarto separado no fim do alojamento, onde mantinham um fogo aceso para aquecê-los. Mas havia sempre a chance de que um deles estivesse de guarda no alojamento principal. Foi por esse motivo que tinha lhe dado a prata.
E a adaga.
Evanlyn encostou a mão no cabo frio da arma para
se acalmar. Ela tinha feito um reconhecimento dos aloja-mentos vários dias antes e tinha uma vaga noção de onde Will dormia. Começou a ir até o local, escolhendo o cami-nho com cuidado entre os corpos estendidos. Os olhos de Evanlyn se mexiam de um lado para outro, procurando por ele, e ela sentiu uma crescente sensação de desespero enquanto procurava. Então enxergou um tufo de cabelos inconfundível acima de um cobertor esfarrapado e, com um suspiro de alívio, aproximou-se dele.
Pelo menos, não haveria problemas em fazer Will
se mover. Escravos de pátio, com os sentidos amortecidos e as mentes vagarosas por causa da droga, obedeciam qualquer comando que recebessem.
Ela se agachou ao lado de Will e sacudiu o ombro
dele para acordá-lo: primeiro com delicadeza e depois, percebendo que por estar afetado pela droga ele iria dor-mir como um morto, com força cada vez maior.
— Will! — ela sussurrou inclinando-se perto do
ouvido dele. — Levante-se! Acorde!
O garoto murmurou uma vez, mas seus olhos per-
maneceram firmemente fechados e a respiração pesada. Ela o sacudiu de novo com uma crescente sensação de pânico.
— Por favor, Will — ela implorou. — Acorde! —
ela repetiu batendo no rosto dele com a palma da mão.
Isso resolveu a questão. Ele abriu os olhos e a enca-
rou como se não a enxergasse bem. Não houve sinal de reconhecimento, mas pelo menos ele estava acordado.
— Levante — ela ordenou puxando-o pelo ombro
— e me siga.
O coração de Evanlyn deu um salto de alegria
quando ele obedeceu. Ele se moveu devagar, mas se mo-veu, levantou-se cambaleante e ficou de pé vacilante ao lado dela, esperando mais instruções.
Ela apontou a porta e a abriu, deixando uma faixa