Terras do Sem Fim
Os m eninos cham avam os vendedores…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Os m eninos cham avam os vendedores de queim ados quase aos gritos. Riam , conversavam , discutiam , trocavam pontapés. As professoras prom etiam castigos para o dia seguinte. A professora Irene suspendia um braço baixava e suspendia o outro:
"Árvore bendita que dásom bra e fruta..."
O tropel dos cavalos aum entou e eles irrom peram na Pra ça da Matriz. Era o coronel Teodoro das Baraúnas, àfrente de doze hom ens arm ados. Entraram dando uns tiros para o ar, os cavalos pisando o capim da Praça. Teodoro atravessou entre os colégios, os m eninos corriam , corriam as m ulheres e os hom ens. Parou bem em frente ao grupo reunido em torno à árvore. A professora Irene engoliu o verso que ia dizer, ainda estava com o braço levantado. Teodoro tinha o revólver na m ão:
- Que fuá é esse? Tão plantando um a roça aqui na Praça? Jessé explicou a com em oração em palavras trem ulas. Teodoro riu, pareceu concordar:
- Então plantem logo. Quero ver...
Apontou o revólver, os cabras chegaram m ais para perto, seguravam as repetições. Jessé e m ais dois hom ens plantaram o cacaueiro. É verdade que a cerim ónia foi m uito diversa da que o Dr. Jessé im aginara. Não tivera m esm o solenidade nenhum a, apenas em purraram , às pressas, o cacaueiro dentro do buraco, cobriram -no com a terra que se acum ulava ao lado. Restava pouca gente na Praça, a m aioria correra.
- Já está? - perguntou Teodoro.
- Já. .
- Agora vou orvalhar ele. . . - riu Teodoro.
E,, de cim a m esm o do cavalo, abriu a braguilha, puxou o sexo, urinou em cim a do cacaueiro. Mas não acertava direito, a urina respingava em todo m undo. A professora Irene tapou os olhos com a m ão. Antes de acabar, Teodoro deu um j eito com : m ão, o resto da urina caiu em cim a do Dr. Jessé. Depois cham ou pelos seus hom ens, saíram num galope pela rua central. Os assistentes que não tinham podido fugir ficaram sem gestos, olhando uns para os outros. Um a professora lim pava o rosto onde caíram uns pingos de urina. Outra se assom brava:
-- Ora, j á se viu?
Teodoro atravessou a rua dando tiros. Ao final, fazendo esquina com um beco, ficava o cartório de Venâncio. Ali pararam , saltaram dos cavalos, Venâncio e os em pregados só tiveram tem po de escapulir pelos fundos. Teodoro cham ou por um dos seus hom ens, oste chegou com um a garrafa, com eçou a derram ar querosene no chão e nas estantes pej adas de papéis. Quando term inou, j ogou a garrafa ao acaso.
- Mete fogo. . . ; ordenou Teodoro.
O cabra riscou um fósforo, a cham a andou pelo chão, se elevou por um a estante, encontrou um a folha de papel, engordou nos docum entos arquivados no cartório. Teodoro saiu com o cabra, agora os seus hom ens guardavam a esquina, esperando que o fogo tom asse corpo. Teodoro vestia um paletó branco sobre a calça de brim cáqui, tinha um solitário enorm e no dedo m ínim o. Na rua ia j untando gente. Teodoro ordenou aos cabras que m ontassem . Com as patas dos cavalos espalhavam os curiosos m ais próxim os. Na rua iam aparecendo hom ens de Horácio, arm ados. Teodoro dobrou a esquina com seus capangas, procurando a estrada de Mutuns. Quando eles partiram , a gente encheu a rua, Venâncio apareceu arrancando os cabelos, os hom ens de Horácio correram com as arm as. Da esquina atiraram , os cabras de Teodoro respondiam . Estes iam abrindo cam inho entre o povo que chegava, correndo pelo beco para ver o incêndio. Antes que Teodoro se perdesse no com eço da estrada, um dos seus hom ens caiu baleado. O cavalo continuou a correr sem cavaleiro, j unto com o resto da com itiva. Os hom ens de Horácio andaram para o ferido e term inaram com ele a facão.
O m ar
1
O hom em de colete azul não respondeu. Ficava m iudinho com o enorm e colete azul desabando sobre as calças de brim pardo, m ais pardas ainda da suj eira.
Ia um a noite lírica lá fora. A poesia da noite chegava até o balcão seboso da venda através dum pedaço de luar que caia sobre as pedras da rua, as estrelas entrevistas pelas portas abertas, o longínquo som de um violão que alguém tocava ao m esm o tem po que um a voz de m ulher, m orna voz soturna, cantava certa m úsica sobre am ores perdidos num a distante m ocidade. Talvez m ais que o luar e que as estrelas, que o cheiro pecam inoso dos j asm ineiros no sobrado próxim o, que as luzes do navio ilum inado, talvez m ais que tudo isso, a voz m orna da m ulher, que cantava na noite, perturbou os corações cansados dos hom ens que dorm iam , sentados em caixotes ou encostados no balcão. O de anelão falso repetiu a pergunta, j á que o hom em de colete azul não respondia:
- E você, seu lesm a, nunca teve um a m ulher. ..? Mas foi o loiro quem falou:
- Ora, um a m ulher.. Dezenas de m ulheres em todos os portos. Mulher é bicho que não falta para m arinheiro. Eu, por m im , tive ás dúzias. . . - fazia um gesto com as m ãos, abrindo e fechando os dedos.
A prostituta cuspiu por entre os dentes podres, olhou com interesse o loiro m arinheiro:
- Coração de m arinheiro é com o as ondas do m ar que vão e vem . Bem que conheci José de Santa. Um dia foi em bora seu calado num navio que nem era dele. . .
- Ora - continuou o m arinheiro - um m arítim o não pode ancorar m esm o em carne de m ulher nenhum a. Um dia vai em bora, a doca fica vazia, vem outro e atraca. Mulher, m eu bem , é bicho m ais traiçoeiro que tem poral de vento. Agora um pedaço de luar forcej ava entrar pela porta, ilum inando o chão de tábuas grossas. O de anelão falso cutucou o colete do outro com a faca de partir carne seca:
- Fala, lesm a. Não é verdade que é direitinho um a lesm a? Vocês j á viram alguém tão parecido com um a lesm a?
Tu j á teve m ulher?
A prostituta riu ás gargalhadas, passou o braço pelo pescoço do m arinheiro loiro e riram j untos então. O de colete azul bebeu o resto da cachaça que estava no copo, lim pou a boca com a m anga do paletó e contou:- Daí vocês não sabem onde foi, foi m uito longe daqui, noutro porto, noutra terra bem m aior. Foi num botequim , m e lem bro o nom e: "Novo Mundo". O de anelão pediu m ais cachaça dando um m urro na m esa.- Eu conhecia a am iga dela, estavam as duas m ais um rapaz, eu tom ava um trago com um com panheiro e tava se conversando das ruindades da vida. Diz que não há paixão de prim eiro olhar, bem que é m entira... A prostituta apoiou com a cabeça e apertou um pouco m ais o braço forte do m arinheiro loiro. A voz da m ulher que cantava encheu de súbito a cena suj a da venda:
"Partiu para nunca m ais voltar..."
Ficaram ouvindo. O de anel ão sorvia a cachaça em pequenos tragos com o se fosse um licor caro, enquanto esperava, o rosto ansioso, que o hom em do colete azul continuasse.
- Que im porta? - disse este e lim pou a boca com a m anga do paletó.- A lua está grande e bonita. Há m uito tem po não vej o ela assim - sussurrou a prostituta se chegando m ais para o loiro.
- Conta! Conta o resto. . . - pediu o de anelão falso.- Pois foi. Com o eu tinha falado, tava sentado com um am igo virando um trago. E ele tava se queixando da vida, a patroa dele andava com um as m azelas, o aram e apertado, m uito curto. Tava triste, eu tam bém j á tava ficando triste, foi quando ela entrou. Vinha com outra, eu j á disse?- Disse, sim - exclam ou o m arinheiro loiro que com eçava a se interessar pela história. Tam bém o espanhol, dono da venda, se encostou no balcão para ouvir. A voz da m ulher que cantava vinha em surdina do fundo m isterioso da noite. O de colete azul agradeceu, com um gesto, ao m arinheiro loiro e continuou:- Pois foi. Vinha com a outra e um fulano. A outra eu conhecia, m e dava com ela desde outros tem pos. Mas, gentes!, quase não via a conhecida, só via m esm o ela.- Era m orena? - perguntou o do anelão falso que tinha um a queda pelas m orenas.- Morena? Não. Não era m orena, nem loira tam bém , m as, é engraçado, parecia um a estrangeira, gente de outra terra.
- Sei com o é... - falou o loiro que era m arinheiro de um cargueiro que varava m ar largo. O de colete azul agradeceu com um outro gesto. A prostituta m urm urou, m uito chegada ao m arinheiro:- Tu sabe tudo... - sorriu. - Vê com o a lua está... Grande, grande e tão am arela..- Com o esse m oço disse... - o de colete azul apontou o m arinheiro com o beiço. -Parecia em barcadiça de um navio vindo de longe. Não sei m esm o com o cheguei perto. Parece que foi o am igo que estava com igo que se chegou para falar com a outra. Daí, a outra disse quem nós era, ficou conversando com a gente... O que foi que conversou j uro que não sei.. Só vi ela e ela não falou, só que ria, uns dentes brancos, brancos, que nem areia da praia... Vai o m eu am igo falava, contava as tristezas dele. A outra falava tam bém , penso que consolava. Verdade, não sei. Ela e o fulano tavam calados m as ela ria - sorriu lem brando e sorrindo falou - e ria depressa, tão depressa nunca vi ninguém rir. Os olhos dela... - parou se recordando. - Não sei com o eram os olhos dela... - abanava as m ãos. – Mas parecia a m ulher de um a história que o negro Astério contava a bordo do navio sueco, aquele que afundou na barra dos Coqueiros. . . O de anelão falso passou o pé na réstia de luar, cuspiu, perguntou:- E o porreta que tava com ela era dono dessa em barcação tão m aneira?- Sei lá... Não tinha porte não... Parecia m ais am igo sei la.. . So sei m esm o que ela ria, ria, os dentes brancos, o rosto branco, os olhos. . . Agora m etia os dedos pelos bolsos do colete azul, sem j eito para as m ãos até que resolveu em borcar o copo de cachaça.
- E depois? - quis saber o de anelão.
- Pagaram , foram em bora os três. Tam bém fui em bora, voltei ao botequim tantas vezes. . . Um a vez vi ela de novo. Vinha de longe, tinha certeza. De m uito longe, não era daquela terra. .
- Tão bonita a lua. . . - disse a ram eira e o m arinheiro reparou que ela tinha os olhos tristes. Ela queria dizer outra coisa m as não encontrou as palavras.- De longe, quem sabe se do fundo do m ar? Só sei m esm o que veio e foi em bora. E só m esm o o que sei. Ela nem reparou em m im . Mas até hoj e m e lem bro do j eito dela rir, dos dentes, da brancura dela. E o vestido - quase gritou de alegria ao recordar do novo detalhe -, o vestido de m angas abertas. . . Em borcou o copo, esticou o beiço, não estava m ais alegre. A voz da m ulher que cantava na noite lírica ia subindo devagarinho: "Partiu para nunca m ais voltar. . ."
- E depois? - perguntou novam ente o de anelão falso.
O de colete azul não respondeu e a prostituta não sabia se ele estava olhando para a lua ou para algum a coisa que ela não via, la, m ais além da lua, e das estrelas, m ais além do céu, m ais além da noite tão tranquila. Tam bém nunca soube por que lhe deu aquela vontade de chorar. E antes que as lágrim as viessem , partiu com o loiro m arinheiro para a festa da noite de luar.
O espanhol se encostou no balcão para ouvir as aventuras do de anelão falso, m as o de colete azul agora estava de novo indiferente, fitando a lua am arela no céu. O de anelão parou a história de um a cabrocha, que contava com grandes gestos, virou-se para o espanhol, apontou o de colete azul:- Não parece direitinho um a lesm a?
2
Na noite de conversas no cais, a cidade de Ilhéus dorm ia seu sono inquieto, cortado de boatos que chegavam de Ferradas, de Tabocas e de Sequeiro Grande. Com eçara a luta entre os Badarós e Horácio. Os dois sem anários que se publicavam na cidade trocavam descom posturas violentas, cada qual fazia o elogio dos seus chefes, arrastava no lodo a vida dos chefes contrários. O m elhor j ornalista era aquele que sabia xingar com m ais violência. Não se respeitava nada, nem a fam ília, nem a vida privada.
Manuel Oliveira, o director do "O Com ércio", o j ornal dos Badarós, estava peruando o j ogo de pôquer, sentado por detrás de Juca. Os outros parceiros eram o coronel Ferreirinha, Teodoro das Baraúnas, e o capitão João Magalhães. Fora Ferreirinha, que o conhecia desde que haviam viaj ado j untos da Bahia para Ilhéus, que apresentara o capitão a Juca.
- Um m oço educado. . . - dissera. - Muito rico, viaj a por desfastio... Capitão reform ado. De engenharia...
Juca Badaró tinha vindo por um assunto da m ata de Sequeiro Grande. É que o Dr. Roberto, o agrónom o, não estava em Ilhéus, havia viaj ado para a Bahia, e Juca tinha pressa em fazer a m edição da m ata para poder registrar a propriedade. Quando ouviu falar que havia um engenheiro na cidade pensou que o problem a estava resolvido. Ferreirinha fez as apresentações. Juca foi logo propondo:- Capitão, m uito prazer em conhece-lo. Tenho um negócio pro senhor ganhar dinheiro. . .
João Magalhães se interessou, talvez aquela fosse a oportunidade que ele tanto procurava. Viera para Ilhéus em busca de dinheiro, m as de dinheiro grande, não apenas do que lhe deixavam as m esas de pôquer Procurou ser gentil com Juca:- O prazer é todo m eu. Aliás, eu j á conheço o senhor. Viem os da Bahia no m esm o navio... Apenas não houve ocasião de serm os apresentados...- Isso m esm o... - recordou Ferreirinha. – Você tam bém vinha no navio, Juca. Só que tava m uito ocupado com um a dona' que vinha tam bém . . . - bateu com a m ão na barriga de Juca e riu.
Juca lam entou que não se houvessem conhecido antes e entrou no assunto que lhe interessava:
- Capitão, o que se passa é o seguinte: nossa fazenda faz divisa com um a m ata que não e de ninguém , m as é m ais da gente que de qualquer pessoa, porque nós é quem prim eiro entrou nela. A m ata de Sequeiro Grande. Agora nós quer derrubar ela pra plantar cacau. Vem daí, um chefe de j agunço que tem aqui, um tal de Horácio da Silveira, quis fazer um trabalho suj o: arranj ou um a m edição velha e registrou a m ata no nom e dele e de uns am igos dele... Mas não teve nada porque a gente desfez o "caxixe" em dois tem pos.- Ouvi falar... Incêndio num cartório, não foi? Trabalho coraj oso, bem feito. Fiquei adm irado... - o capitão João Magalhães acom panhava suas palavras de gestos expressivos. - Foi o senhor? Se foi, m eus parabéns. Gosto de hom ens decididos.
- Não. Foi o com padre Teodoro, dono das Baraúnas. E um hom em de brio e de coragem .. .
- Tá se vendo. . .
- Agora nós tam os procurando um engenheiro agrônom o pra fazer a m edição da m ata. Mas, por desgraça, o Dr. Roberto viaj ou e é o único que há aqui que sirva. Os outros dois são uns covardes, não quiseram se m eter. Então, se passou que eu ouvi que o senhor é engenheiro e vim consultar se o senhor quer fazer a m edição. A gente paga bem .. . E quanto à vingança de Horácio, não tenha m edo, a gente lhe garante.
O capitão João Magalhães riu superior:
- Ora, pelo am or de Deus... Falar de m edo a m im ? Sabe em quantas revoluções j á tom ei parte, coronel? Mais de um a dúzia... Agora não sei é se eu posso, legalm ente, - frisava o term o - fazer a m edição. Eu não sou engenheiro agrónom o. Sou engenheiro m ilitar. Não sei se tem valor.. .- Antes de vir lhe falar eu consultei m eu advogado e ele disse que sim , que o senhor podia. Que os engenheiros m ilitares podem exercer. . .- Não estou tão certo assim .. . Dem ais, m eu título não é registrado na Bahia. Só no Rio. O cartório não vai aceitar m edição m inha...- Isso não tem im portância... A gente arranj a com o escrivão. Por isso não... João Magalhães ainda duvidava. Não era nem m ilitar nem engenheiro, sabia bem era j ogar qualquer espécie de j ogo, sabia era trabalhar com um baralho e tam bém ganhar a confiança dos dem ais. Mas desej ava um a oportunidade m aior, desej ava fazer um dinheiro grande, não viver na dependência eterna das m esas de j ogo, um dia com m uito, no outro sem um tostão. Afinal, que perigo corria? Os Badarós estavam por cim a na política, todas as possibilidades de ganhar a luta eram deles, e se eles a ganhassem , a propriedade da m ata de Sequeiro Grande não seria nunca discutida. E, m esm o que viessem a saber que a m edição era ilegal, feita por um charlatão, ele j á estava longe, gozando noutras terras o dinheiro recebido. Valia a pena arriscar. Enquanto pensava, olhava Juca Badaró que diante dele, im paciente, batia com o rebenque na bota. João Magalhães falou:
- A verdade é que eu sou de fora e não queria m e m eter em encrencas daqui... Se bem a verdade é que sim patizo m uito com a causa do senhor e do seu irm ão. Principalm ente depois do incêndio do cartório. Esses atos de coragem m e conquistam . . . Enfim . . .
- Pagam os bem , capitão. O senhor não vai se arrepender.- Não estou falando em dinheiro. . . Se fizer é por sim patia. .- Mas é que a gente tem que acertar isso tam bém . Negócio é negócio, apesar do favor a gente ficar devendo sem pre. . .
- Isso é verdade...
- Quanto o senhor pede pelo trabalho? Vai ter que passar uns oito dias na fazenda. .
- E os instrum entos? - perguntou João Magalhães para ganhar tem po e poder calcular quanto podia pedir. – Os m eus ficaram no Rio. . .- Não tem nada. Consigo os do Dr. Roberto com a m ulher dele.- Se é assim ... - pensou. - Bem , eu não venho aqui para trabalhar, venho a passeio. . . Deixe ver: oito dias na fazenda, vou ter que perder o navio de quarta-feira...falou directam ente para Juca. - Eu ia para a Bahia quarta-feira - voltou a m urm urar. - Talvez não alcance m ais o negócio de m adeiras no Rio a tem po de fechá-lo... Um transtorno... Enfim ... - falou para Juca novam ente que esperava nervoso, am iudando os golpes do rebenque na bota. - Vinte contos, creio que não é m uito. . .
- É m uito dinheiro. . . - fez Juca Badaró. - Daqui a oito dias chega Dr. Roberto e faz o serviço por três contos...
João Magalhães fez um gesto com o rosto expressando sua com pleta indiferença, com o a dizer que então esperassem .
- E m uito dinheiro. . . - repetiu Juca Badaró.
- Vej a: três contos lhe cobra o agrónom o. Mas ele tem o título registrado na Bahia, vive disso, só volta daqui a oito dias, se voltar. Eu vou arriscar m inha carreira profissional, posso até ser processado e perder m eu título e até m inha patente... Dem ais estou a passeio, vou perder o navio e talvez um grande negócio de centenas de contos... Se fico é m ais por sim patia que pelo dinheiro...- Reconheço isso, capitão. Mas é m uito dinheiro. Se o senhor quer dez contos, é trato feita, vam os am anhã m esm o. . .
João Magalhães propôs um acordo:
- Quinze contos..
- Seu capitão, eu não sou sírio nem m ascate. Posso pagar os dez contos e é pela pressa que eu pago. Se o senhor quer, pode receber hoj e m esm o e am anhã a gente em barca. . .
João viu que não adiantava discutir:
- Bem , j á que vou fazer o favor, faço com pleto. Está certo.- Vou lhe ficar devendo a vida toda, capitão. Eu e m eu irm ão. O senhor pode contar com a gente pro que quiser..
Antes de se despedir perguntou:
- Quer receber agora m esm o ? Se quer, vam os até em casa...- Ora, por quem m e tom a.. Quando o senhor quiser pagar... Não há pressa...- Então podíam os nos encontrar hoj e à noite. . .- O senhor j oga pôquer?
Ferreirinha aplaudiu entusiasm ado:
- Boa idéia... Farem os um a m esinha no cabaré.- Tá certo - disse Juca. - Lhe levo o dinheiro lá... E depois vou ganhar ele no j ogo e fica de graça a m edição. .
João Magalhães pilheriou tam bém :
- Eu é que vou ganhar m ais dez pacotes e cobrar os vinte que queria... Venha forrado, seu Juca Badaró...
- Falta um parceiro - avisou Ferreirinha.
- Eu levo Teodoro - resolveu Juca.
E agora estavam ali, na sala dos fundos do cabaré de Nhozinho, j ogando aquele pôquer Juca Badaró cada vez gostava m ais do Capitão. Era um tipo dos dele, conversador, experiente em m ulheres, contador de anedotas picantes, vivido. O j ogo se dividia entre os dois. Teodoro e Ferreirinha perdiam , Teodoro perdia m uito dinheiro. Ganhava Juca algum , João Magalhães ganhava m uito. O cacife era alto, Manuel Oliveira foi à sala de danças cham ar Astrogildo, um outro fazendeiro, para vir apreciar o tam anho das apostas. Ficaram os dois peruando:- Seus 160 m ais 320. . - dizia Teodoro.
- Já está perdendo m ais de dois contos. .. – m urm urou Manuel de Oliveira a Astrogildo. Nunca vi peso igual.
Juca Badaró pagou para ver. Teodoro m ostrou um a trinca de nove. A de Juca era de dez:
- Na cabeça, com padre...
Recolheu as fichas. Nhozinho entrava m uito cheio de cum prim entos e pilhérias. Trazia um a rodada de uísque. Manuel de Oliveira tom ou seu copo. Peruava o j ogo para pegar esses biscates: um uísque, um a ficha perdida no bacarat ou na roleta.
- Bom uísque . . - disse.
O capitão João Magalhães estalou a língua, aprovando:- Melhor que esse só m esm o um que m e vendiam no Rio, que vinha de contrabando... Um néctar..
Teodoro pedia silencio. Toda a gente dizia que Teodoro não sabia perder, o que era um a pena, j á que ele j ogava m uito e de toda classe de j ogo. Diziam tam bém que ele podia estar m uito rico se não fosse esse vício. Nos dias que ganhava pagava bebida para todo m undo, dava dinheiro a m ulher, fazia ceias com cham panha, no cabaré. Mas quando perdia se punha im possível, reclam ava contra tudo.
- Pôquer se j oga é calado - protestou.
Ferreirinha deu cartas. Todos foram ao j ogo. Manuel de Oliveira saboreava seu uísque sentado atrás da cadeira de Juca Badaró. Nem reparava no j ogo, dedicado totalm ente à bebida. Por detrás de Teodoro, em pé, o coronel Astrogildo seguia o pôquer No seu rosto, que se apertava de desaprovação, João Magalhães lia o j ogo de Teodoro. Este pediu duas cartas, Astrogildo fez um a careta de desacordo. João Magalhães então não pediu nenhum a se bem só tivesse um par vagabundo. Teodoro largou as cartas em cim a da m esa:
- Quando quero passar um blefe encontro um de j ogo feito. . . Os outros correram tam bém , João recolheu as fichas. Nhozinho apareceu querendo saber se desej avam algum a coisa m ais. Teodoro o correu de m aus m odos:
- Vá am olar a m ãe.. .
Ia a todas as m ãos e perdia sem pre. Certa hora quando ele abandonou um par de ases para pedir um a carta para flush, Astrogildo não se conteve e com entou:- Tam bém assim você só tem m esm o que perder. . . Isso não é j ogar pôquer, é j ogar dinheiro fora.. . Desm anchar um j ogo desse... Teodoro pulou da cadeira, queria brigar:
- E você o que é que tem com isso, seu filha da puta? O dinheiro e m eu ou é seu? Por que não se m ete na sua vida. .
Astrogildo replicava:
- Filho da puta é você, seu valentão de m erda. . . - sacava o revólver querendo atirar.
Juca Badaró e Ferreirinha se m eteram . João Magalhães procurava aparentar calm a, não dem onstrar o m edo que sentia. Manuel de Oliveira nem se m ovia da cadeira, saboreando seu uísque indiferentem ente. Aproveitou a confusão para derram ar no seu copo m etade da bebida do copo de Ferreirinha que ainda estava cheio.
Tinham tom ado o revólver de Astrogildo, tam bém o de Teodoro. Juca Badaró pedia calm a:
- Dois am igos... Que besteira é essa... Deixe as balas pra gastar com Horácio e os hom ens dele. . .
Teodoro voltou a sentar, ainda reclam ando contra os "perus". Lhe davam azar, dizia. Astrogildo, um pouco pálido, se sentou tam bém , desta vez ao lado de João Magalhães. Jogaram m ais um as m ãos, Ferreirinha propôs que fossem dançar um bocado na sala da frente. Contaram as fichas, João Magalhães ganhava quase três contos, Juca Badaró tinha um lucro de conto e tanto. Antes que saíssem Juca fez um apelo a Teodoro e Astrogildo:
- Vam os acabar com isso... Isso é coisa m esm o de j ogo. . . A gente fica de cabeça quente. . .
- Ele m e ofendeu - disse Astrogildo.
Teodoro ofereceu a m ão, o outro apertou. Saíram para a sala da frente m as Teodoro não dem orou, disse que estava com dor de cabeça, foi para casa. Ferreirinha com entou:
- Esse vai m orrer assim por um a besteira... De um tiro sem porque.. . Juca o desculpava:
- Tem seus repentes m as é um hom em bom . .. A sala do cabaré estava anim ada. Um negro velho se rebentava em cim a de um piano, ainda m ais velho que ele, enquanto um suj eito de cabeleira loira fazia o que podia com um violino.
- Orquestra ruinzinha. . . - falou Ferreirinha.
- Infam e. . - reforçou Manuel de Oliveira.
Pares dançavam um a valsa m uito agarrados. Mulheres de diversas idades estavam espalhadas pelas m esas. Em geral se bebia cervej a, num a ou noutra m esa havia copos de uísque e gim . Nhozinho veio servir. Juca Badaró tinha antipatia aos dois garçons do cabaré porque eram am bos pederastas. Era sem pre servido pelo próprio dono. E, com o ele costum ava fazer despesas grandes, Nhozinho servia m uito hum ilde, gastando m esuras. Ferreirinha saiu dançando com um a m ulher m uito nova, não devia ter m ais de quinze anos. Fazia pouco que aparecera na prostituição e Ferreirinha era doido por m eninas assim , "verdinhas e tenras", com o explicou a João Magalhães. Um a m ulher velhusca veio se sentar ao lado de Manuel Oliveira:
- Paga um pra m im , Mano? - perguntou apontando o uísque. Manuel de Oliveira consultou Juca Badaró com os olhos. Com o esse aprovasse, cham ou por Nhozinho e m andou autoritário:
- Baixe depressa um uísque aqui para a dam a. . A orquestra parou, Ferreirinha com eçou a contar um caso que se passara com ele, fazia tem pos:
- Aqui a gente tem que ser de tudo, seu Capitão. O senhor, que é engenheiro m ilitar, vai fazer serviço de agrónom o... E eu, que sou lavrador e ignorante, j á tive que ser até m édico operador. . .
- Operador?
- Pois assim foi. Um trabalhador da m inha fazenda engoliu um osso de cotia, o bicho atravessou no estôm ago do desgraçado, ia m atando ele. Não podia fazer suas necessidades, não dava tem po tam bém de trazer pra cidade. Não tive outro j eito, operei eu m esm o. .
- Mas com o?
- Arranj ei um aram e com prido e grosso, dobrei a ponta com o um anzol, lavei com álcool prim eiro, virei o hom em de bunda pra cim a e sapequei o aram e no cu do desinfeliz. Deu trabalho, saiu um bocado de sangue m as o osso saiu tam bém e até hoj e o hom em tá vivo.. .
- Form idável, hein!
- Esse Ferreirinha. . .
- O pior foi a fam a depois, seu capitão. Vinha gente de longe m e procurar para se tratar. . . Se eu desse de botar consultório arruinava m uito m édico bom .. . Riu, riram todos com ele. Juca Badaró falou:
- A gente tem m esm o que ser tudo. Tem tabaréu daqui, capitão, que dá lição em advogado. . .
- Terra de futuro. . . - elogiou João Magalhães. Manuel de Oliveira com binava encontros com a prostituta velha. Juca Badaró só tinha olhos para Margot que estava noutra m esa com Dr. Virgílio. Astrogildo acom panhou o seu olhar, pensou que ele estivesse m irando o advogado:- Esse é o tal Dr. Virgílio que fez o "caxixe" da m edição. . .- Já sei - respondeu Juca. - Conheço ele.
João Magalhães olhou tam bém e cum prim entou Margot com a cabeça. Juca Badaró quis saber:
- O senhor conhece ela?
- Se conheço... Se dava m uito com um a pequena que eu tinha na Bahia, de nom e Violeta. Tá com doutor Virgílio há dois anos.
- É bonita. . . - fez Juca Badaró.
João Magalhães com preendeu que ele estava interessado na m ulher. Via nos olhos que ele punha, na voz com que dizia que ela era bonita. Pensou em tirar partido:
- E um pedaço. . . Muito m inha am iga. . .
Juca virou para ele. João Magalhães disse num tom de indiferença, com o que no acaso:
- Ela se hospeda em casa de Machadão. Am anhã quando ela tiver só, vou lhe fazer um a visita. Não gosto de ir quando está o doutor, porque ele é m uito cium ento. Ela é m uito dada, boa m enina.. .
- Am anhã o senhor não vai poder, capitão. De m anhãzinha sai para a roça. No trem das oito da m anhã.
- E verdade. Então vou quando voltar. . .
Astrogildo com entava:
- E um m ulherão.
Na m esa próxim a Margot e Virgílio conversavam anim adam ente. Ela estava agitada, m ovia os braços e a cabeça.
- Estão discutindo. . . - disse Juca.
- Vivem brigando. . . - inform ou a velha que estava com Manuel de Oliveira.- Com o é que tu sabe?
- Machadão m e contou... E cada escândalo...
Mandaram vir m ais uísque A orquestra tocou, Margot e Virgílio saíram dançando, m as ainda na dança discutiam . No m eio da m úsica Margot largou o braço de Virgílio e sentou-se. O advogado ficou um m om ento sem saber o que fazer, m as logo cham ou o garção, pagou a despesa, tom ou o chapéu que estava num a cadeira e saiu.
- Estão brigando. . . - disse Juca Badaró.
- Desta vez parece coisa séria. . . - falou a m ulher. Margot agora olhava a sala procurando aparentar indiferença. Juca Badaró curvou-se na cadeira falou baixinho para João Magalhães:- O senhor quer m e fazer um favor, Capitão?
As ordens...
- Me apresente a ela...
João Magalhães olhou o fazendeiro com profundo interesse. Fazia planos. Desta terra do cacau, sairia rico.
3
Na noite lírica de lua cheia, Virgílio seguia pelo leito da estrada de ferro. Seu coração ia aos pulos, j á nem se lem brava da cena violenta com Margot no cabaré. Quando, por um m inuto, pensou nela, foi para encolher os om bros com indiferença. Era m elhor que aquilo term inasse de um a vez. Ele a quisera levar para casa, dissera que tinha um negócio que o prenderia fora até m uito tarde, por isso não podia ficar com ela. Margot, que j á andava desconfiada, com a pulga atrás da orelha, não aceitou desculpas: ou ele ia com ela para casa ou ela ficaria no cabaré e estaria tudo acabado entre eles. Sem saber m esm o por que, ele procurava convence-la de que existia um negócio im portante, de que ela devia ir para casa e dorm ir. Ela se negara, term inara brigando e ele saíra sem sequer se despedir. Talvez agora ela estivesse sentada à m esa de Juca Badaró. Com a presença dele Margot o havia am eaçado:
- Que m e im porta? Hom em não m e falta. É só ver os olhos que Juca Badaró tá m e botando... Aquilo não o m olestava. Era m elhor assim , que ela se fosse com outro, seria a m elhor das soluções. Quando pensou nisso, sorriu. Com o as coisas m udavam com o tem po! Se um ano antes ele pensasse em Margot com outro hom em , era capaz até de perder a cabeça e fazer um a besteira. Certa vez, na "Pensão Am ericana", na Bahia, ele fez um escândalo, brigou e acabou na polícia, só porque um rapaz qualquer dissera um a piada a Margot. Agora se sente até aliviado ao saber que Juca Badaró está interessado nela, que vive de olho espichado para as carnes da sua am ante. Sorriu novam ente. Juca Badaró só tinha m otivos para odiá-lo, Virgílio era o advogado de Horácio. E, no entanto, sem o saber, Juca lhe estava prestando um grande favor.
Mas, no leito da estrada, procurando acertar o passo pela distância dos dorm entes, ele j á não pensava em Margot. Nessa noite seus olhos enxergavam a beleza do m undo: a lua cheia se derram ando sobre a terra, as estrelas enchendo o céu da cidade, os grilos que cantavam no m atorral em torno. Um trem de carga apitou ao longe e Virgílio abandonou o leito da estrada. Ia j unto aos fundos das casas, grandes quintais silenciosos. Num portão um casal se am ava. Virgílio se desviou para que não o conhecessem . Num portão m ais adiante Ester o esperava.
A casa nova de Horácio em Ilhéus, "o palacete", com o ?o cham ava toda gente, ficava na cidade nova, construções que nasciam na praia, derrubando os coqueiros. Todas estas casas davam os fundos para a estrada de ferro. Um a com panhia se organizara, com prara os terrenos plantados de coqueiros e os vendia em lotes. Aí Horácio, depois de casado, construíra seu sobrado, um dos m elhores de Ilhéus, os tij olos feitos especialm ente na olaria da fazenda, cortinas e m oveis m andados vir do Rio de Janeiro. Nos fundos do palacete, Ester estará esperando trem ula de m edo, ansiosa de am or.
Virgílio apressa o passo. Já está atrasado, a briga com Margot fizera com que ele saísse depois da hora. O trem de carga passa por ele ilum inando tudo com seus holofotes poderosos. Virgílio pára, esperando que ele se vá, e tom a de novo pelo leito da estrada. Dera trabalho convencer a Éster que o viesse esperar no portão, para poderem falar tranquilam ente. Ela tinha m edo das em pregadas, das m ás-línguas de Ilhéus, e tinha m edo que um dia Horácio viesse a saber. O caso de am or deles dois até então não passara de um nam oro de longe, palavras trocadas rapidam ente, um a carta que ele escrevera, longa e ardente, um bilhete de resposta de Ester com duas ou três palavras apenas: "Te am o, m as é im possível", apertos de m ão no cruzar de portas, olhares fundos de desej o. E pensavam que, com o era tão pouco, ninguém tinha ainda se dado conta, não im aginavam sequer que toda Ilhéus com entava o caso, considerando-os am antes, rindo de Horácio. Depois da carta, quando Horácio voltara para a fazenda, ele fizera um a visita a Ester. Era um a verdadeira loucura desafiar assim o poder de m urm uração da cidade. Ester o disse, pedindo que ele fosse em bora. E para que ele fosse, ela prom etera se encontrar com ele, na noite seguinte, no portão. ele quisera beij á-la, ela fugira.
O coração de Virgílio está com o o de um adolescente enam orado. Pulsa com a m esm a rapidez, sente a beleza da noite com a m esm a intensidade. Ali é o portão dos fundos do palacete de Horácio. Virgílio se aproxim a trem ulo e com ovido.
O portão está sem i-encostado, ele em purra e entra. Sob um a árvore envolta num a capa, banhada pela lua, Éster o espera. Corre para ela, tom a-lhe das m ãos:- Meu am or!
O corpo dela trem e, se abraçam os dois, as palavras são inúteis ao luar.- Quero te levar com igo, em bora. Para longe daqui, para longe de todos, construir outra vida.
Ela chora m ansam ente, sua cabeça no peito dele. Dos cabelos dela vem um perfum e que com pleta a beleza e o m istério da noite. O vento traz o ruído do m ar que está do outro lado e se confunde com o choro dela.- Meu am or!
E o prim eiro beij o, tem todo o m istério do m undo, toda a beleza da noite, grande com o a vida e com o a m orte.
- Meu am or!
- E im possível, Virgílio. Tem m eu filho. A gente não pode fazer isso..- Nós levam os ele tam bém ... Vam os para longe, para outras terras... Onde ninguém conheça a gente...
- Horácio irá atrás da gente até no fim do m undo. . . Mais que as palavras, os beij os loucos de am or sabem convencer. A lua dos nam orados se debruça sobre eles. Nascem estrelas no ,céu da cidade de Ilhéus. Ester pensa em soror Angélica: voltava os tem pos em que era possível sonhar. E realizar os sonhos tam bém . Fechou os olhos sob as m ãos de Virgílio no seu corpo. Debaixo da capa, Virgílio encontrou nuinho o corpo de Ester. Cam a de luar, lençol de estrelas, suspiros da hora da m orte que são os suspiros e os ais da hora extrem a do am or.
- Vou contigo, m eu am or, para onde tu quiseres. . . Com pletou m orrendo nos braços dele:
Até para a m orte. .
4
O capitão João Magalhães sorria da outra m esa. Margot sorriu tam bém . O capitão levantou-se, veio apertar sua m ão:
- Sozinha?
- Pois é. . .
- Brigaram ?
- Tá tudo term inado.
- De verdade? Ou é com o das outras vezes?
- Desta vez se acabou. Não sou m ulher pra sofrer desfeitas... João Magalhães tom ou um ar conspirativo:
- Pois eu, com o am igo, te digo, Margot, que isso é um alto negócio para ti. Sei de gente daqui, cheia de dinheiro, que está de orelha m urcha por você. Agora m esm o. . .
- Juca Badaró... - atalhou ela.
O capitão João Magalhães fez com a cabeça que sim :- Tá pelo beiço...
Margot estava cansada de saber:
- Não é de hoj e que sei disso.. . Desde o navio ele deu em cim a de m im . Eu não topei, tava m esm o enrabichada com Virgílio...- E agora?
Margot riu:
- Agora é outra conversa. Quem sabe...
O capitão tom ou um ar protetor, deu conselhos;- Deixe de ser boba, m enina, trate de encher seu pé-de -m eia enquanto é m oça. Esse negócio de am ante pobre, m inha filha, só serve para m ulher casada com hom em rico. . .
Ela se deixara convencer:
- Eu fui boba m esm o. Na Bahia tava assim – j untava os dedos num gesto - de gente rica atrás de m im . Tu sabe...
O capitão apoiou com a cabeça. Margot se lam entava:- E eu, feito trouxa, atrás de Virgílio. Me soquei nessas brenhas, vivia rem endando m eia em Tabocas... Agora acabou..- Tu quer ser apresentada a Juca Badaró?
- Ele pediu?
- Tá doidinho. . .
O capitão João Magalhães voltou-se na cadeira, cham ou com o dedo. Juca Badaró se levantou, abotoou o paletó, veio sorrindo. Quando ele saía da m esa, Astrogildo com entou para Manuel de Oliveira e Ferreirinha:- Isso vai term inar em barulho. . .