Terras do Sem Fim
Os m eninos cham avam os vendedores…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Tudo em Ilhéus term ina em barulho... – respondeu o j ornalista. Juca chegava j unto à m esa, João Magalhães quis fazer as apresentações, m as Margot não deu tem po:
- Nós j á nos conhecem os. Um a vez o coronel m e m arcou de beliscão. Juca riu tam bém .
- E vosm ecê fugiu, nunca m ais pus os olhos em cim a de sua carnação... Sabia que andava por Tabocas, tenho ido lá m as não lhe vi. Diz que tava casada, eu respeitei..
- Se divorciou.. . - anunciou João Magalhães.
- Brigou?
Margot não queria dar grandes explicações:
- Me deixou por um negócio, não sou m ulher pra se trocar por negócios... Juca Badaró riu de novo:
- Ilhéus inteiro sabe que negócio é esse...
Margot franziu o rosto:
- Que é?
Juca Badaró não tinha papas na língua:
- É a m ulher de Horácio, a dona Ester.. O doutorzinho anda m etido com ela... Margot m ordeu os lábios. Houve um silencio, aproveitado por João Magalhães para se retirar e voltar para a sua m esa. Margot perguntou:- É verdade?
Não sou hom em pra m entiras...
Ela então riu largam ente e perguntou com a voz afetada:- Não m e oferece nada para beber?
Juca Badaró cham ou por Nhozinho:
- Baixe cham panha...
Quando encheram as taças, ele disse para Margot:- Um a vez lhe fiz um a proposta no navio. Se arrecorda?- Me lem bro, sim .
- Tou fazendo ela de novo. Boto casa pra vosm ecê, lhe dou de tudo. Só que m ulher m inha é m inha só e de m ais ninguém . . . Ela viu o anel no dedo dele, tom ou-lhe a m ão, elogiou:- Bonito!
Juca Badaró tirou o anel, enfiou num dedo de Margot:- E para vosm ecê. . .
Saíram bêbedos os dois pela m adrugada, eles e m ais Manuel Oliveira, que, m al vira o espoucar das garrafas de cham panha, se chegara para a m esa e bebera m ais que os dois j untos. Ia um frio m atinal pelo cais de Ilhéus. Margot cantava, o j ornalista fazia coro, Juca Badaró dava pressa pois tinha de sair no trem das oito. Os pescadores j á chegavam das suas pescarias no alto m ar. 5
Um a ordenança m unicipal proibia que as tropas de burros que traziam cacau chegassem até o centro da cidade. As ruas centrais de Ilhéus eram calçadas todas elas e duas o eram de paralelepípedos, num sinal de progresso que inchava de vaidade o peito dos m oradores. As tropas paravam nas ruas próxim as à estação e o cacau entrava na cidade em carroças puxadas par cavalos. Era depositado nos grandes arm azéns próxim os ao porto. Aliás, um a grande parte do cacau, que chegava a Ilhéus para ser em barcado, não descia m ais no lom bo dos burros: vinha pela Estrada de Ferro ou baixava em canoas desde o Banco-da-Vitória, pelo rio Cachoeira, que desem bocava no porto.
O porto de Ilhéus era a preocupação m aior dos m oradores. Naquele tem po existia apenas um a ponte onde atracar os navios. Quando coincidia chegar m ais de um navio na m esm a m anhã, a m ercadoria de um deles era desem barcada em canoas. Porém j á se fundara um a sociedade anônim a para beneficiar e explorar o porto de Ilhéus, falava-se em construir m ais pontes de atracação e grandes docas. Falava-se tam bém , e m uito, em m elhorar a entrada perigosa da barra, em fazer vir dragas que a aprofundassem .
Ilhéus nascera sobre ilhas, o corpo m aior da cidade num a ponta de terra, apertado entre dois m orros. Ilhéus subira por esses m orros - o do Unhão e o da Conquista - e invadira tam bém as ilhas vizinhas. Num a delas ficava o arrabalde de Pontal onde a gente rica da cidade tinha suas casas de veraneio. A população crescia assustadoram ente desde que a lavoura do cacau se estendera. Por Ilhéus saía para a Bahia quase toda a produção do sul do Estado. Havia apenas um outro porto - Barra do Rio-de-Contas - e esse era um porto pequeníssim o, onde só os barcos a vela davam calado. Os m oradores de Ilhéus sonhavam em exportar algum dia o cacau directam ente, sem ter que m andá-lo para a Bahia. Era um assunto que estava sem pre nos j ornais: o aprofundam ento da barra que não dava passagem a navios de grande calado. O j ornal da oposição o aproveitava para atacar o governo, o j ornal governista usava dele tam bém noticiando de quando em vez que o "m uito digno e operoso prefeito m unicipal estava em negociações com os governos estadual e federal para conseguir, finalm ente, um a solução satisfatória para a questão do porto de Ilhéus". Mas a verdade é que o assunto nunca ia adiante, o governo estadual punha travas, protegendo a renda do porto da Bahia. Mas a questão das obras do porto servia para encher, quase com as m esm as palavras, as plataform as governam entais de am bos os candidatos à Prefeitura: o governista e o da oposição. Mudavam som ente o estilo: a plataform a do candidato dos Badarós era escrita pelo Dr. Genaro, a do candidato de Horácio se devia à pena, m uito m ais brilhante, do Dr. Rui.
Em Ilhéus podia se m edir a fortuna dos coronéis pelas casas que possuíam . Cada qual levantava um a casa m elhor e aos poucos as fam ílias iam se acostum ando a dem orar m ais na cidade que nas fazendas. Ainda assim essas casas passavam fechadas grande parte do ano, habitadas som ente por ocasião das festas da Igrej a. Era um a cidade sem diversões, apenas os hom ens tinham o cabaré e os botequins onde os ingleses da Estrada de Ferro m atavam a sua m elancolia bebendo uísque e j ogando dados e onde os grapiúnas trocavam discussões e tiros. As m ulheres restavam com o únicas diversões as visitas de fam ília a fam ília, os com entários sobre a vida alheia, o entusiasm o posto nas festas da Igrej a. Agora, com o início da construção do colégio das freiras, algum as senhoras se haviam organizado para conseguir fundos para as obras. E realizavam querm esses e bailes onde faziam coletas. A Igrej a de São Jorge, padroeiro da terra, grande e baixa, sem beleza arquitectónica m as rica em ouro no seu interior, dom inava um a praça onde se plantara um j ardim . Existia tam bém a Igrej a de São Sebastião, próxim a ao cabaré, em frente ao m ar. E no m orro da Conquista estava na frente do cem itério a capela de Nossa Senhora da Vitória, dom inando a cidade desde o alto. Existia tam bém um culto protestante que servia aos ingleses da Estrada e ao qual haviam aderido uns quantos m oradores. O m ais, em m atéria religiosa, eram as várias "sessões espíritas" nas ruas de canto, proliferando cada dia m ais. Aliás, a cidade de Ilhéus com os seus povoados e as suas fazendas de cacau, tinha m á fam a na Arcebispado da Bahia. Muito se com entava ali a falta de religiosidade dos habitantes, as m issas desertas de hom ens, a prostituição sendo enorm e, a falta de sentim entos religiosos verdadeiram ente assom brosa: um a terra de assassinos. Era pequeno o núm ero de padres da cidade e do m unicípio, em relação ao núm ero de advogados e m édicos. E vários desses padres se convertiam , com o correr do tem po, em fazendeiros de cacau, pouco se preocupando com a salvação das alm as. Citava-se o caso do Padre Paiva, que levava sob a batina um revólver e não se perturbava se acontecia um barulho perto dele. O Padre Paiva era caudilho político dos Badarós em Mutuns, nas eleições trazia levas de eleitores, diziam que ele prom etia verdadeiros pedaços do paraíso e m uitos anos de vida celestial aos que quisessem votar com ele. Era vereador em Ilhéus e não se interessava o m ínim o pela vida religiosa da cidade. Já o cónego Freitas se interessava. Certa vez fizera um serm ão que ficara célebre porque com parava o dinheiro gasto pelos coronéis no cabaré, com as m ulheres de m á vida, com o pouco dinheiro recoletado para as obras do colégio das freiras. Fora um serm ão violento e apaixonado m as sem nenhum resultado prático. A Igrej a vivia das m ulheres e estas viviam dela, das m issas, das procissões, das festas de Sem ana Santa. Misturavam o com entário da vida alheia com o enfeitar os altares, com o fazer novas túnicas para as im agens dos santos.
A cidade ficava entre o rio e o m ar, praias belíssim as, os coqueiros nascendo ao largo de todo o areal. Um poeta que certa vez passara por Ilhéus e dera um a conferência, a cham ara de "cidade das palm eiras ao vento", num a im agem que os j ornais locais repetiam de quando em vez.
A verdade, porém , é que as palm eiras apenas nasciam nas praias e se deixavam balançar pelo vento. A árvore que influía em Ilhéus era a árvore do cacau, se bem não se visse nenhum a em toda a cidade. Mas era ela que estava por detrás de toda a vida de São Jorge dos Ilhéus. Por detrás de cada negócio que era feito, de cada casa construída, de cada arm azém , de cada loj a que era aberta, de cada caso de am or, de cada tiro trocado na rua. Não havia conversação em que a palavra cacau não entrasse com o elem ento prim ordial. E sobre a cidade pairava, vindo dos arm azéns de depósito, dos vagões de estrada de ferro dos porões dos navios, das carroças e da gente, um cheiro de chocolate, que é o cheiro do cacau seco.
Existia outra ordenança m unicipal que proibia o porte de arm as. Mas m uito poucas pessoas sabiam que ela existia e, m esm o aqueles poucos que o sabiam , não pensavam em respeitá-la. Os hom ens passavam , calçados de botas ou de botinas de couro grosso, a calça cáqui, o paletó de casim ira, e por baixo deste o revólver. Hom ens de repetição a tiracolo atravessavam a cidade sob a indiferença dos m oradores. Apesar do que j á existia de assentado, de definitivo, em Ilhéus, os grandes sobrados, as ruas calçadas, as casas de pedra e cal, ainda assim restava na cidade um certo ar de acam pam ento. Por vezes, quando chegavam os navios abarrotados de em igrantes vindos do sertão, de Sergipe e do Ceará, quando as pensões de perto da estação não tinham m ais lugar de tão cheias, então barracas eram arm adas na frente do porto. Im provisavam -se cozinhas, os coronéis vinham ali escolher trabalhadores. Dr. Rui, certa vez, m ostrara um daqueles acam pam entos a um visitante da capital:- Aqui é o m ercado de escravos. . .
Dizia com um ' certo orgulho e certo desprezo, era assim que ele am ava aquela cidade que nascera de repente, filha do porto, am am entada pelo cacau, j á se tornando a m ais rica do Estado, a m ais próspera tam bém . Existiam poucos ilheenses de nascim ento que j á tivessem im portância na vida da cidade. Quase todos, fazendeiros, m édicos, advogados, agrónom os, políticos, j ornalistas e m estres de obras eram gente vinda de fora, de outros Estados. Mas am avam entranhadam ente aquela terra aventurosa e rica. Todos se diziam grapiúnas e quando estavam na Bahia, em toda parte eram facilm ente reconhecíveis pelo orgulho com que falavam .
- Aquele é um ilheense... - diziam .
Nos cabarés e nas casas de negócios da capital eles arrotavam valentia e riqueza, gastando dinheiro, com prando do bom e do m elhor, pagando sem discutir preços, topando barulhos sem discutir o porque. Nas casas de ram eiras, na Bahia, eram respeitados, tem idos, e ansiosam ente esperados. E tam bém nas casas exportadoras de produtos para o interior, os com erciantes de Ilhéus eram tratados com a m aior consideração, tinham crédito ilim itado.
De todo o Norte do Brasil descia gente para essas terras do Sul da Bahia. A fam a corria longe, diziam que o dinheiro rodava na rua, que ninguém fazia caso, em Ilhéus, de prata de dois m il-réis. Os navios chegavam entupidos de em igrantes, vinham aventureiros de toda a espécie, m ulheres de toda a idade, para quem Ilhéus era a prim eira ou a últim a esperança.
Na cidade todos se m isturavam , o pobre de hoj e podia ser o rico de am anhã, o tropeiro de agora poderia ter am anhã um a grande fazenda de cacau, o trabalhador que não sabia ler poderia ser um dia chefe político respeitado. Citavam -se exem plos e citava-se sem pre Horácio, que com eçara tropeiro e agora era dos m aiores fazendeiros da zona. E o rico de hoj e poderia ser o pobre de am anhã se um m ais rico, j unto com um advogado, fizesse um "caxixe" bem feito e tom asse sua terra. E todos os vivos de hoj e poderiam am anhã estar m ortos na rua, com um a bala no peito. Por cim a da j ustiça. do j uiz e do prom otor, do j úri de cidadãos, estava a lei do gatilho, últim a instância da j ustiça de Ilhéus.
A cidade por aquele tem po com eçava a se abrir em j ardins, o m unicípio contactara um j ardineiro fam oso na capital. O j ornal da oposição atacara dizendo que "m uito m ais que de j ardins Ilhéus precisava de estradas". Mas, m esm o os oposicionistas m ostravam orgulhosos aos visitantes as flores que cresciam nas praças antes plantadas de capim . E quanto às estradas, os hom ens e os burros as iam abrindo no seu passo em busca de cam inhos para trazer o seu cacau até o porto de Ilhéus, até o m ar dos navios e das viagens. Era assim o porto de São Jorge dos Ilhéus, que com eçava a aparecer nos m apas económ icos m ais novos, cobertos por um a planta de cacau.
6
O j ornal da oposição, "A Folha de Ilhéus", que saía aos sábados, ressum ava naquele núm ero um a violência inaudita. Era dirigida por Filem on Andréia um ex-alfaiate que viera da Bahia para Ilhéus, onde abandonara a profissão. Constava na cidade que Filem on era incapaz de escrever um a linha, que m esm o os artigos que assinava eram escritos por outros, ele não passava de um testa-de-ferro. Por que ele term inara director do j ornal da oposição ninguém sabia. Antes fazia trabalhos políticos para Horácio, e, quando este com prou a m áquina im pressora e as caixas de tipos para o sem anário, toda a gente se surpreendeu com a escolha de Filem on Andréia para director.
- Se ele m al sabe ler...
- Mas tem um nom e de intelectual. .. - explicou Dr. Rui. - Soa bem ... E um a questão de estética... – enchia a boca para pronunciar - Filem on Andréia! Nom e de grande poeta. - concluía.
A gente de Ilhéus responsabilizava em geral o Dr. Rui pelos artigos de "A Folha de Ilhéus". E se form avam verdadeiros grupos torcedores quando, em época de eleições, "A Folha de Ilhéus" e "O Com ércio" iniciavam um a daquelas polem icas cheias de adj ectivos insultuosos. De um lado o Dr. Rui, com seu estilo palavroso e de frases redondas e em poladas, de outro lado Manuel de Oliveira e por vezes Dr. Genaro. Manuel de Oliveira era profissional de im prensa. Trabalhava em vários j ornais da Bahia até que Juca Badaró, que o conhecera nos cabarés da capital, o contratara para dirigir "O Com ercio". Era m ais ágil e m ais directo, quase sem pre fazia m ais sucesso. quanto aos artigos do Dr. Genaro, eram cheios de citações j urídicas, o advogado dos Badarós era geralm ente considerado o hom em m ais culto da cidade, falava-se com adm iração das centenas de livros que ele possuía. Adem ais levava um a vida m uito reservada, vivendo com seus dois filhos sem quase sair de casa, sem aparecer nos botequins, sem ir ao cabaré. Era abstém io, e, quanto a m ulheres, diziam que Machadão ia um a ou duas vezes por m ês à sua casa e dorm ia com ele. Machadão j á estava velha, viera para a cidade quando ela apenas com eçava a crescer, fora a grande sensação fem inina de Ilhéus há vinte anos passados. Agora tinha um a casa de m ulheres, não fazia m ais a vida. Abria exceção apenas para o Dr. Genaro que, segundo ela, não se acostum ava com outra m ulher.
Talvez fosse por isso que o artigo de fundo de "A Folha de Ilhéus", que ocupava quase toda a prim eira página do pequeno sem anário da oposição, neste sábado, cham ava o Dr. Genaro de "j esuíta hipócrita". E ele era, nesse dia, o m enos atacado de todos os am igos dos Badarós. O artigo se devia ao incêndio do cartório de Venâncio em Tabocas. "A Folha de Ilhéus" condenava de um a m aneira violenta aquele "ato de barbarism o que depunha contra os foros de terra civilizada de que gozava o m unicípio de Ilhéus no conceito do país". O coronel Teodoro reunia em torno a seu nom e, nas colunas do sem anário, um a m agnífica colecção de substantivos e adj ectivos insultantes: "bandido", "ébrio habitual", "j ogador de profissão e tendências", "alm a sádica", "indigno de habitar um a terra culta", "sedento de sangue". Ainda assim restava para os Badarós. Juca aparecia com o "conquistador barato de m ulheres fáceis", com o "despudorado protetor de ram eiras e bandidos" e a Sinhô o j ornal fazia as acusações de sem pre: "caxixeiro", "chefe de j agunços", "dono de fortuna m al adquirida", "responsável pela m orte de dezenas de hom ens", "chefe político sem escrúpulos".
O artigo reclam ava j ustiça. Dizia que legalm ente não havia com o discutir a propriedade da m ata de Sequeiro Grande. Que a m ata fora m edida e o seu título de propriedade registrado no cartório. E que não era propriedade de um só e, sim , de diversos lavradores. Havia entre eles dois, fazendeiros fortes, é verdade. Mas a m aioria – continuava o j ornal - eram pequenos lavradores. O que os Badarós desej avam era se apossar da m ata para eles só, prej udicando assim não só os legítim os proprietários com o tam bém o progresso da zona, a subdivisão da propriedade que "era um a tendência do século, com o se podia com provar com o exem plo da França". Afirm ava que o coronel Horácio, progressista e adiantado, ao resolver derrubar e plantar de cacau a m ata de Sequeiro Grande, pensara não som ente nos seus interesses particulares. Pensara tam bém no progresso do m unicípio e associara à sua em presa civilizadora todos os pequenos lavradores que lim itavam com a m ata. Isso se cham ava ser um cidadão útil e bom . Com o pensar em com pará-lo com os Badarós, "am biciosos sem escrúpulos", que olhavam apenas os seus interesses pessoais? "A Folha de Ilhéus" term inava seu artigo anunciando que Horácio e os dem ais legítim os proprietários de Sequeiro Grande iriam recorrer aos tribunais e que, quanto ao que sucedesse se os Badarós tentassem im pedir a derruba e o plantio da m ata, eles, os Badarós eram os responsáveis. Eles haviam iniciado o uso da violência. A culpa era deles pelo que viesse depois. O artigo term inava com um a citação em latim : "alea j acta est".
Os leitores habituais das polem icas ficaram excitadíssim os. Além de que se anunciava um a polem ica de violência sem precedentes, notavam que este artigo não era do Dr. Rui, conheciam o estilo deste de longe. Dr. Rui era m uito m ais retórico, m uito bom num discurso no j úri m as sem a m esm a força no j ornal. E este artigo revelava um hom em m ais enérgico, de raciocínio m ais claro e adj ectivos m ais duros. Não tardou que se soubesse que o autor do artigo era o Dr. Virgílio, o novo advogado do partido que residia em Tabocas m as que estava em Ilhéus naqueles dias. Fora o próprio Dr. Rui, a quem alguns haviam dado os parabéns pelo artigo, quem revelara a identidade do autor. Acrescentava que Virgílio era directam ente interessado no assunto, j á que fora ele o autor do registro da m ata de Sequeiro Grande no cartório que Teodoro incendiara. As m ás-línguas não deixaram de dizer que ele estava interessado era na esposa de Horácio. E gozavam de antem ão a m aneira com o, sem dúvida, "O Com ércio", na sua edição de quinta-feira, com entaria esse aspecto da vida íntim a do advogado e de Horácio.
Mas, para surpresa geral, "O Com ércio" na sua resposta ao artigo, resposta que não pecava pela serenidade, desconheceu o assunto fam iliar que a cidade com entava. Aliás, no início do seu artigo, "O Com ércio" anunciava aos seus leitores que não iria usar da "linguagem de ,esgoto" do "pasquim " que tão vilm ente atacara os Badarós e os seus correligionários. Nem tam pouco se envolver na vida privada de quem quer que fosse, com o era hábito do suj o órgão da oposição. Em relação a essa últim a afirm ativa não a cum priu senão a m eias, j á que rem em orava toda a vida de Horácio "esse ex-tropeiro que enriquecera ninguém sabe com o", m isturando casos públicos com o processo pela m orte dos três hom ens ("escapou da j usta condenação devido à chicana de advogados que desm oralizavam a profissão, m as não escapou da condenação pública") com coisas m uito pessoais com o a m orte de sua prim eira esposa ("os m isteriosos casos fam iliares de parentes desaparecidos subitam ente e enterrados à noite"). E, quanto à questão da linguagem , aí então "O Com ércio" não cum pria absolutam ente a prom essa feita. Horácio era tratado de assassino para baixo. O Dr. Rui era o "cachaceiro inveterado", o "cão de fila que latia e não sabia m order", o "m au pai de fam ília que vivia nos botequins sem se preocupar com os filhos e a esposa". Mas quem levava os adj ectivos m ais violentos era o Dr. Virgílio. Manuel Oliveira com eçara o trecho sobre o advogado dizendo que "desej ara m olhar sua pena num esgoto para escrever o nom e do Dr. Virgílio Cabral". Com essas palavras iniciava "O Com ércio" um a "resum ida biografia do advogado", que não era tão resum ida assim . Vinha dos tem pos de académ ico, relem brava as farras de Virgílio na Bahia, "a cara m ais conhecida em todos os prostíbulos da capital", as suas dificuldades para term inar o curso: "tendo que viver das m igalhas caídas da m esa deste corvo que é Seabra". Margot entrava em cena, se bem seu nom e não aparecesse. Dizia o trecho:
"Não foram , no entanto, som ente políticos de m á fam a que encheram a pança do estudante m alandro e desordeiro. Um a elegante cocote f oi vitim a dos seus hábitos de chantagista. Tendo enganado a j ovem beleza, o estudante salafrário viveu às custas dela e, às custas deste dinheiro adquirido na cam a, o Dr. Virgílio Cabral conseguiu seu título de bacharel em direito. Não é preciso acrescentar que; depois de form ado e de estar a serviço do tropeiro Horácio, o m alagradecido abandonou a sua vitim a, aquela boa e bela criatura que o aj udara, nos vaivéns da sorte."
O artigo enchia página e m eia, apesar de "O Com ércio" ser bastante m aior que "A Folha de Ilhéus". Exam inava dem oradam ente o caso do cartório de Venâncio. Explicava ao público o "inom inável caxixe" que era registrar um título de propriedade á base de um a velha m edição j á sem valor legal e que, adem ais, fora rasurada para substituir o nom e de Mundinho de Alm eida pelo de Horácio e "seus sequazes". E atribuía o incendi do cartório ao próprio Venâncio, "falso servidor da j ustiça que, ao lhe pedir o coronel Teodoro para ver a m edição, preferiu incendiar seu cartório destruindo assim as provas da sua vileza". Apresentava os Badarós com o uns santos, incapazes de fazer m al a um a m osca. Avisava que os "insultos m iseráveis" do "pasquim oposicionista" estavam longe de atingir o bom nom e de pessoas tão conceituadas com o os Badarós, o coronel Teodoro e "esse ilustre lum inar da ciência do direito, que é o Dr. Genaro Torres, orgulho da cultura grapiúna". Por últim o se referia às "am eaças de Horácio e seus cães de fila". O público j ulgaria, no futuro, de quem partiram prim eiro aquelas am eaças de fazer correr sangue e pesaria as responsabilidades "na balança da j ustiça popular". Porém , que Horácio soubesse que as suas "fanfarronadas ridículas" não m etiam m edo a ninguém . Os Badarós estim avam lutar com as arm as do direito e da j ustiça, m as sabiam tam bém - afirm ava "O Com ércio" - lutar com qualquer arm a que o "desleal adversário" escolhesse. Em qualquer terreno os Badarós sabiam dar o m erecido a gente "da laia desses bandidos sem consciência e desses advogados sem escrúpulos". E, respondendo ao "alea j acta est", o artigo de "O Com ércio term inava tam bém com um a citação latina: "Quousque tandem , Tropeiros, abutere patientia nostra" Essa citação fora a colaboração do Dr. Genaro ao artigo de Manuel de Oliveira. Ilhéus se deliciava pelas esquinas.
7
Quando, calçado de botas enlam eadas, a barba crescida, o capitão João Magalhães voltou da m ata de Sequeiro Grande, diversos sentim entos desencontrados andavam dentro dele. Fora para passar oito dias, levara quinze, dem orando-se na fazenda dos Badarós m esm o depois de term inado o serviço. Se arranj ara de qualquer m aneira com os instrum entos do agrónom o - com o teodolito, a trena, o om iôm etro, a baliza - instrum entos que ele nunca havia visto antes na sua vida de j ogador de profissão. O cálculo real da m edição das terras se devia m uito m ais aos trabalhadores que o haviam acom panhado e a Juca Badaró do que a ele, que só fizera apoiar tudo que os outros afirm avam , rabiscando cálculos sobre quadrados e triângulos. Haviam passado dois dias na m ata, os negros carregando os instrum entos, Juca a acom panhá-lo exibindo seu conhecim ento da terra:
- Capitão, boto a m ão no fogo que no m undo inteiro não há terra igual a essa para o plantio do cacau.. .
João Magalhães se curvava, enchia a m ão com a terra húm ida:- É de prim eira, sim ... Bem adubada ela vai ser ótim a. . .- Nem precisa estrum e nenhum .. . Isso é terra nova, terra forte, seu Capitão. As roças aqui vão carregar com o nunca carregou roça nenhum a. João Magalhães ia aprovando, não se m etia m uito pela conversa no receio de dizer besteira. Juca Badaró continuava, m ata adentro, fazendo o elogio das terras onde as árvores cresciam agrestes.
Porém m ais que a bondade das terras de Sequeiro Grande, interessara ao Capitão a figura m orena de Don'Ana Badaró. Já em Ilhéus ele ouvira falar nela, diziam que fora Don'Ana quem dera ordens a Teodoro para que incendiasse o cartório de Venâncio. Em Ilhéus se falava de Don'Ana com o de um a m oça estranha pouco chegada ás conversas das com adres, pouco am iga das festas da Igrej a (apesar da m ãe tão religiosa), pouco am iga de bailes e nam orados. Raras pessoas se lem bravam de havé-la visto dançando e nenhum a delas saberia respeitar o nom e de um nam orado seu. Vivera sem pre m ais interessada em aprender a m ontar a cavalo, a atirar, a saber dos m istérios da terra e das plantações. Olga com entava com as vizinhas o desprezo com que Don'Ana tratava os vestidos que Sinhô m andava buscar na Bahia ou no Rio, vestidos caros realizados por costureiros de fam a. Don'Ana não se preocupava com eles, queria era saber dos potros novos que haviam nascido na fazenda. Sabia o nom e de todos os anim ais que a fam ília possuía, m esm o dos burros de carga. Tom ara a si a contabilidade dos negócios dos Badarós e era a ela que Sinhô se dirigia cada vez que necessitava de um a inform ação. A esposa de Juca dizia sem pre que "Don'Ana devia ter nascido hom em ".
João Magalhães não pensou o m esm o. Talvez tivessem sido os olhos dela, que lhe lem bravam outros olhos adorados, que prim eiro ganharam sua atenção. Enquanto a cum prim entava, requintando nas palavras, ele se perdeu na contem plação daqueles olhos m eigos onde, de súbito, surgiram fulgurações intensas, iguais àqueles outros olhos que o fitavam com tanto desprezo um dia. Depois esqueceu m esm o os olhos da m oça que ficara no Rio de Janeiro, quando, com o correr dos dias, fez m ais intim idade com Don'Ana. Não havia outra conversa na casa dos Badarós, naqueles dias, que a m ata de Sequeiro Grande e os propósitos de Horácio e sua gente. Faziam conj eturas, levantavam hipóteses, calculavam possibilidades. Que faria Horácio quando soubesse que os Badarós estavam m edindo a m ata e iam registrar a m edição e retirar um título de propriedade? Juca não tinha dúvidas: Horácio tentaria entrar na m ata im ediatam ente, enquanto faria correr no foro de Ilhéus um processo pela posse da terra, baseado no registro feito no cartório de Venâncio. Sinhô duvidava. Pensava que, estando Horácio sem apoio do governo, com o oposicionista que era, tentaria prim eiro legalizar a situação com um "caxixe" qualquer, antes de recorrer a força. De Ilhéus, Juca trouxera as últim as novidades: o caso escandaloso de Ester com Dr. Virgílio, obj ecto de m urm urações da cidade toda. Sinhô não acreditava:
- Isso é conversa de quem não tem o que fazer. ..- Se ele até deixou a m ulher que tinha, Sinhô. É um fato. Estou bem inform ado...- e ria para João Magalhães lem brando Margot. João Magalhães se envolvia naquelas discussões e conversas, tom ava parte nelas com o se fosse um hom em dos Badarós, igual a Teodoro das Baraúnas, na noite que o coronel dorm iu lá. Se sentia com o um parente. E cada vez que Don'Ana o olhava e pedia, respeitosam ente, a "opinião do Capitão", João Magalhães se extrem ava em insultos à gente de Horácio. Certa vez em que notou m ais doces e interessados os olhos dela, ele pôs m em o à disposição dos Badarós o "seu conhecim ento m ilitar, de capitão que tom ara parte em um as oito revoluções". Estava ali, estava ás ordens. Se houvesse luta podiam contar com ele. Era hom em para o que quisessem . Disse, e fitou Don'Ana e sorriu para ela. Don'Ana correu para dentro, subitam ente tím ida e envergonhada, enquanto Sinhô Badaró agradecia ao Capitão. Mas esperava que não fosse preciso, que tudo se resolvesse em paz, que não tivesse que correr sangue. E verdade que ele estava se preparando - dizia - m as com esperanças de que Horácio desistisse de disputar com ele a posse da m ata. Recuar não recuaria, era chefe da fam ília, sabia das suas responsabilidades, dem ais tinha com prom issos com am igos, gente com o o com padre Teodoro das Baraúnas que estava se sacrificando por ele. Se Horácio fosse para diante, ele iria tam bém . Mas ainda tinha esperanças. . . Juca encolhia os om bros, para ele era certo que Horácio tentaria entrar na m ata à força e que m uito sangue seria derram ado antes que os Badarós pudessem plantar em paz seu cacau nessas terras. O capitão João Magalhães novam ente se pôs à disposição:
- Para o que quiserem . . . Não gosto de arrotar valentia m as estou acostum ado com essas encrencas. . .
Naquele dia, ele só viu Don'Ana Badaró quando chegou a hora noturna da leitura da Bíblia. Ela foi recebida com um a gargalhada de Juca, que a apontava com o dedo:
- Que é que há? E o fim do m undo?
Sinhô olhou tam bém . Don'Ana estava séria, o rosto fechado em severidade. Tanto trabalhara com a aj uda de Raim unda para fazer aquele penteado parecido com um que Ester exibira em Ilhéus num a festa, e agora se riam dela... Vestia um dos vestidos de sair, que ficava estranho na sala da casa-grande da fazenda. Juca continuava a rir, Sinhô não entendia o que se passava com a filha. Só João Magalhães se sentia feliz, e se bem percebesse o ridículo da figura de Don'Ana, ataviada com o para um baile, se pôs sério tam bém e dobrou os olhos num a languidez agradecida. Mas ela não olhava ninguém e pensava que todos estavam rindo dela. Por fim suspendeu os olhos e quando viu que o capitão a m irava enternecido, teve forças para dizer a Juca:
- De que tá rindo? Ou pensa que só sua m ulher é que pode se vestir bem e se pentear?
- Minha filha, que palavras são essas? – repreendeu Sinhô, adm irado da veem ência dela m ais ainda que dos traj es.
- O vestido é m eu, foi o senhor quem m e deu. Ponho ele quando quero, não é para ninguém se rir...
- Parece um espantalho. . - gozou Juca.
Então João Magalhães resolveu intervir:
- Está m uito elegante.. Parece um a carioca, assim se vestem as m oças do Rio... Juca está é brincado.
Juca Badaró olhou o capitão. Prim eiro pensou em brigar, seria que aquele suj eito estava tentando lhe dar um a lição de boa educação. Mas depois refletiu que devia ser obrigação dele, com o visita, ser gentil com a m oça. Encolheu os om bros:- Gosto é gosto, não se discute...
Sinhô Badaró pôs fim á discussão:
- Leia, m inha filha. .
Mas ela saiu correndo para dentro, não queria chorar na vista dos outros. Foi nos braços de Raim unda que deixou que os soluços abafados saíssem do seu peito. E nessa noite, foi o capitão João Magalhães quem , profundam ente pensativo, leu os trechos da Bíblia para Sinhô Badaró que o olhava pelo rabo do olho, com o que a m edi-lo e exam iná-lo.
No outro dia, quando o capitão levantou-se e saiu num passeio m atinal, j á encontrou Don'Ana no curral, aj udando a pear as vacas que davam leite para a casa-grande. Cum prim entoua e se aproxim ou. Ela suspendeu o rosto, largou por um m om ento o peito da vaca, falou:
- Ontem eu fiz um papel triste. . . O senhor deve estar pensando um bocado de coisas... Tabaroa quando se m ete a m oça de cidade é sem pre assim ... - e riu m ostrando os dentes brancos e perfeitos.
O capitão João Magalhães sentou-se na cancela:- A senhora estava linda. . . Se estivesse num baile, no Rio, não haveria outra m ulher tão bonita. Lhe j uro.
Ela o olhou, perguntou:
- Não gosta m ais assim com o eu sou todos os dias?- Para falar a verdade, sim - e o capitão estava falando a verdade. - Assim é com o eu gosto. É um a beleza. .
Então Don'Ana ergueu-se, tom ou do balde com leite:- O senhor é um hom em direito. . . Gosto de quem fala a verdade... - e o fitou nos olhos e era a m aneira dela declarar seu am or. Raim unda apareceu rindo, risadinha curta de cum plicidade, recebeu os baldes que Don'Ana segurava, saíram as duas. João Magalhães falou em voz baixa para as vacas do estábulo:
- Parece que vou m e casar - olhou a fazenda em torno, a casa-grande, o terreiro, as roças de cacau, com um ar de proprietário. Mas lem brou-sé de Juca e de Sinhô, dos j agunços que se j untavam na fazenda, e estrem eceu. Pela fazenda ia um m ovim ento fora do com um . Os trabalhadores partiam todas as m anhãs para as roças, a colher cacau, outros pisavam cacau m ole nos cochos ou dançavam sobre o cacau seco nas barcaças, cantando suas tristes canções: "Vida de negro é difícil ' difícil com o qué. . . "
Lam entos que o vento levava, gem idos sob o sol nas roças de cacau, no trabalho da m anhã à noite:
"Eu quero m orrer de noite Bem longe, num a tocaia. .. Eu quero m orrer de açoite
Dos bordados de tua saia..."
Os trabalhadores gem iam seus cantos nos dias de trabalho,seus cantos de servidão e de am or im possível, .m as, ao m esm o tem po, se reunia na fazenda um a outra população. Parecidos com os trabalhadores no físico e na rudeza da voz, na m aneira de falar e no m odo de se vestir, esses hom ens que chegavam diariam ente á fazenda, abarrotando as casas dos trabalhadores, vários dorm indo j á nos depósitos de cacau, outros espalhados pela varanda da casa-grande, eram os j agunços que vinham , m andados por Teodora, recrutados por Juca, m andados pelo cabo Esm eraldo, de Tabocas, ou por seu Azevedo, pelo padre Paiva, de Mutuns, guardar a fazenda dos Badarós e esperar os acontecim entos. Alguns chegavam m ontados, eram poucos. Os m ais vinham a pé, a repetição no om bro, o facão no cinto. Chegavam e na varanda da casa-grande esperavam ordens de Sinhô Badaró, enquanto sorviam o copo de cachaça que Don'Ana m andava servir. Eram , em geral, hom ens calados, de poucas palavras, de idade quase sem pre indefinida, negros e m ulatos, de quando em vez um loiro contrastando com os outros. Sinhô e Juca conheciam a todos e Don'Ana tam bém . Aquele espetáculo se repetia diariam ente, João Magalhães calculava que uns trinta hom ens haviam chegado na fazenda depois dele. E se perguntava o que sairia daquilo tudo, com o andariam os preparativos na fazenda de Horácio. Se sentia interessado, preso àquela terra com o se de repente houvesse botado raízes nela. Agora, seus proj ectos de viagem se esfum açavam , não via com o sair de Ilhéus, não via por que seguir adiante.
Foi assim , cheio desses pensam entos, que chegou a Ilhéus. No trem , ao lado de Sinhô Badaró que dorm ira a viagem toda, ele reflectia largam ente. Na véspera se despedira de Don'Ana na varanda:
- Vou em bora am anhã.
- Já sei. Mas vai voltar, não vai?
- Se você desej a, eu volto...
Ela olhou, fez que sim com a cabeça, correu para dentro sem lhe dar tem po ao beij o que ele tanto esperava e desej ara. No outro dia não a vira. Fora Raim unda quem lhe dera o recado:
- Don'Ana m anda dizer a vosm ecê que na festa de São Jorge ela vai em Ilhéus. .- lhe deu um a flor que ele agora trazia na carteira. No trem vinha pensando. Procurou refletir seriam ente e chegou à conclusão de que estava se m etendo em funduras. Prim eiro aquela história de m edir terras, de assinar docum entos. Não era nem engenheiro, nem capitão, aquilo podia lhe dar um a com plicação com processo e cadeia. Era o bastante para ele arribar no prim eiro navio, j á tinha ganho dinheiro suficiente para vários m eses sem preocupações. Mas o pior era esse nam oro com Don'Ana. Juca j á desconfiava da coisa, dissera um as piadas, rira, parecia estar de acordo. Lhe avisara que quem casasse com Don'Ana teria que andar direitinho se não era capaz até de apanhar da esposa. E Sinhô o olhava com o que a estudá-lo, certa noite perguntara m uito por sua fam ília, suas relações no Rio, o estado dos seus negócios. O capitão João Magalhães se enfiou num a m onum ental série de m entiras. Agora no trem , aquilo tudo lhe dava m edo, seus olhos instintivam ente procuravam de quando em vez o cano da parabélum que aparecia sob o paletó de Sinhô. Pensando bem , o que ele devia fazer era ir em bora, em barcar para a Bahia, e m esm o lá não dem orar por causa daquela história de m edição` de terras. Não podia voltar ao Rio, m as tinha todo o Norte à sua disposição, os usineiros de açúcar de Pernam buco, os donos de seringais, da Am azónia. Tanto em Recife com o em Belém ou em Manaus, poderia m ostrar suas habilidades no pôquer e continuar a viver sua vida sem m aiores com plicações que a desconfiança de um parceiro de j ogo, a expulsão de um cassino, ou um cham ado à polícia sem consequências. E, no trem , o capitão João Magalhães decidiu que em barcaria no prim eiro navio. Tinha uns quinze ou dezasseis contos livres, era o bastante para se divertir uns tem pos. Mas, quando Sinhô Badaró despertou e ele viu-lhe os olhos, recordou os de Don'Ana e com preendeu que a m oça j ogava um papel nesse assunto. Sem pre procurara pensar no caso de um a m aneira cínica, vendo apenas a possibilidade de entrar, pelo casam ento, na fam ília dos Badarós, na fortuna dos Badarós. Mas agora sentia que não era apenas isso. Sentia falta dela, do j eito brusco que ela tinha ora m eiga, ora severa, trancada na sua virgindade sem beij os e sem sonhos de am or. Ela viria à festa de São Jorge, em Ilhéus, m andara lhe dizer. Por que não esperá-la e decidir da sua partida depois da festa que estava próxim a? Até lá não havia perigo. O perigo estaria em Sinhô Badaró m andar pedir no Rio inform ações sobre ele. Então não escaparia, com certeza, da vingança daquela gente rude e sensível, seria feliz se escapasse com vida. Olha o cano do revólver. Mas os olhos de Sinhô Badaró trazem Don'Ana para j unto dele.. O capitão João Magalhães está sem saber o que decidir. O trem apita entrando na estação de Ilhéus.