Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 2 de 5 · parte 1/4

Páginas do PDF

Terras do Sem Fim

E se enternecia de repente, lem brando-se…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

E se enternecia de repente, lem brando-se de Risoleta e nesses dias dava sem pre um vestido à m ulata, ou um a prata de dois m il-réis. Mas essas conversas sobre Raim unda eram raras, os Badarós nem sem pre tinham tem po de se preocupar com o futuro da "irm ã de criação".

António Vítor fazia m uito que andava de olho nela. Na fazenda m ulher era obj ecto de luxo e seu corpo j ovem pedia m ulher. Não bastava o am or feito com as ram eiras nas viagens aos povoados. Ele queria um corpo que esquentasse o dele nas longas noites de chuva dos m eses de inverno, de m aio a setem bro, a estação das águas.

Esperava-a no bordo da m ata. Não tardará que a voz de Raim unda chegue pela picada, precedendo a m ulata. A cara dela talvez não sej a um a beleza, m as António Vítor tem na cabeça é o seu corpo forte, de nádegas grandes, de seios rij os, de roliças coxas. No céu de crepúsculo a noite se prepara. O rio corre m anso, talvez chuvisque nesta noite. Os grilos iniciam seu canto na m ata. Caem folhas, sobre as águas. Falavam dessa dinheiram a do sul. António prom etera voltar um dia, rico, bem vestido, de botinas rangedeiras Agora, esses pensam entos j á não existem na sua cabeça. Agora ele é um capanga de Juca Badaró, conhecido pela rapidez do seu tiro. A lem brança de Estância, de Ivone se entregando na ponte, se esfum açou na sua m em ória. Os sonhos tam pouco enchem sua cabeça com o na noite de bordo. Só um desej o: casar com a m ulata Raim unda, terem um a casa de barro batido para os dois. Casar com Raim unda, ter um corpo em que repousar do dia árduo do trabalho, das viagens longas pelos cam inhos difíceis, da m orte de um derrubado por ele. Descansar no corpo dela. Corpo em que repousar sua cabeça sem sonhos. A voz de Raim unda na picada. António Vítor levanta a cabeça e o busto, se prepara para aj udá-la e encher a lata de água. A noite envolve a m ata, corre tranquilo o rio. 9

Os hom ens pararam em frente da casa-grande da fazenda dos Macacos. O nom e oficial era outro m uito m ais bonito: Fazenda Auricídia, hom enagem de Maneca Dantas à esposa, gorda e preguiçosa m atrona cuj os únicos interesses na vida eram os filhos e os doces que ela sabia fazer com o ninguém . m as, com grande tristeza do coronel, o nom e não pegara e toda a gente tratava a fazenda por "Macacos", nom e da roça inicial, encravada nas m atas de Sequeiro Grande entre as grandes propriedades dos Badarós e de Horácio, onde os m acacos em bando corriam pela selva. Só nos docum entos oficiais de posse da terra aparecia o nom e "Auricídia". E som ente Maneca Dantas dizia: "Iá, na Auricídia...' Todos os m ais ao se referirem à fazenda falavam dos "Macacos". Os hom ens pararam , descansaram a rede atravessada com um pau, onde o cadáver efetuava sua últim a viagem . De dentro da sala m al ilum inada dona Auricídia perguntou, m ovendo preguiçosam ente as banhas:- Quem é?

- É de paz, dona - respondeu um dos hom ens.

O m enino havia corrido até a varanda e voltou com a notícia:- Mam ãe, é dois hom ens com um m orto.. Um m orto negro... Antes de se alarm ar, dona Auricídia, que fora professora corrigiu m ansam ente:- É dois não, Rui. São dois é com o se deve dizer.. Movim entou-se para a porta, o filho ia agarrado nas suas saias. Os m enores j á dorm iam . Na varanda os hom ens haviam sentado num banco, no chão se abria a rede com o cadáver.

- Jesus Cristo lhe de boa noite... - falou um deles, era um velho de carapinha branca.

O outro tirou o chapéu furado e cum prim entou. Dona Auricídia respondeu, focou esperando. O m oço explicou:

- Nós tá trazendo ele da Fazenda Baraúna, trabalhava lá... Tam os levando pro cem itério de Ferradas..

- Por que não enterraram na m ata?

- Não vê que ele tem três filhas em Ferradas? Tam os levando para entregar a elas. Se vosm ecê consente a gente descansa um tem pinho. A cam inhada é m uita, o tio aqui j á tá dando o prego...

- apontou para o velho.

- De que foi que ele m orreu? - perguntou a senhora.- Febre. . . - agora era o velho que respondia. – Essa febre braba que dá na m ata. Tava derrubando m ata, a febre pegou ele... Foi três dias só. Não teve rem édio que prestasse. .

Dona Auricídia afastou o filho, afastou-se ela m esm a alguns passos. Ficou refletindo. O cadáver do hom em m agro, velho ele tam bém , repousava na rede sobre a varanda.

- Levem para a casa de um trabalhador. Descansem lá... Aqui, não. É só andar um pouco m ais, encontrarão logo as casas. Digam que eu m andei. Aqui, não, por causa dos m eninos...

Tem ia o contágio, aquela febre não conhecia rem édio que servisse. Só m uitos anos depois os hom ens foram saber que era o tifo, endém ico então em toda a zona do cacau. Dona Auricídia ficou espiando os hom ens levantarem a rede, colocarem -na nos om bros e partirem :

Boa noite, dona...

- Boa noite. .

Olhava o lugar onde o cadáver estivera. E então aquela gordura toda se m ovim entou. Gritou pelas negras lá dentro, m andou que trouxessem água e sabão e, apesar de ser de noite, lavassem a varanda. Levou consigo o filho, lavou-lhe as m ãos até a criança quase chorar. E naquela noite não dorm iu, de hora em hora levantava-se para ver se Rui não estava com febre. E ainda por cim a Maneca não se encontrava em casa, fora com er na fazenda de Horácio...

Os hom ens chegaram com rede em frente de um a casa de trabalhadores. O velho ia cansado, o outro falou:

- O finado está pesando, hein, tio?

Aquela idéia de levar o m orto até Ferradas fora do velha. Eram am igos os dois, ele e o que m orrera. Decidira entregar o cadáver às filhas para que estas o "enterrassem com a cristão", explicava ele. Era um a viagem de cinco léguas e há horas que eles andavam sob o luar, baixaram novam ente a rede, o m aço enxugou o suor enquanto o velho golpeava

com seu bastão na porta m al cerrada, de tábuas desiguais. Um a luz se acendeu, a pergunta saiu:

- Quem é?

- É de paz. . . - respondeu novam ente o velho.

Ainda assim o negro que abriu a porta trazia um revólver na m ão, naquelas terras não havia que descuidar. O velho explicou sua história. Term inou dizendo que fora dona Auricídia quem os m andara. Um hom em m agro que surgira por detrás do negro com entou:

- Lá ela não quis... Podia pegar nos filhos a febre... Mas para aqui não faz m al, não é? - e riu.

O velho pensou que o iam m andar m ais um a vez para adiante. Com eçou um a explicação, m as o hom em m agro interrom peu:- Não tem nada, m eu velho. Pode entrar. Na gente a febre não pega m esm o. Trabalhador tem o couro curtido...

Entraram . Os outros hom ens que dorm iam despertaram . Eram cinco ao todo e a casa não tinha m ais que um a peça, as paredes de barro, o teto de zinco, o chão de terra. Ali era sala, quarto e cozinha, a latrina era o cam po, as roças, a m ata. Descansaram o m orto em cim a de um dos j iraus onde os hom ens dorm iam . Ficaram todos em torno, o velho tirou um a vela do bolso, acendeu na cabeceira do defunto. Já estava queim ada pela m etade, ilum inara o corpo no princípio da noite, iria ilum iná-lo quando chegassem tam bém na casa das filhas.- Que é que elas fazem ? - perguntou o negro.

- Tudo é puta nas Ferradas. . . - explicou o velho. As três? - o hom em m agro se adm irou.

- Todas três, sim Sinhô...

Houve um m inuto de silencio. O m orto repousava m agro, a barba crescida, pintada de branco. O velho continuou:

- Um a foi casada... Depois o m arido m orreu...- Era um hom em velho, hein? - fez o m agro apontando o cadáver.- Tinha seus sessenta bem contados...

- Fora os que m am ou. . . - disse um que até então não tinha intervindo na conversa. Mas ninguém riu.

O hom em m agro trouxe a garrafa de cachaça. Havia um caneco que passou de m ão em m ão. Reagiram com o trago. Um dos que m orava na casa havia chegado para a fazenda naquele dia. Quis saber que febre era aquela de que o velho m orrera.

- Ninguém sabe m esm o. E um a febre da m ata, pega um , liquida em dois tem pos. Não há rem édio que de j eito. . . Nem m esm o doutor form ado. Nem m esm o Jerem ias que trata com erva...

O negro explicou para o cearense recém -chegado que Jerem ias era o feiticeiro que m orava nas m atas de Sequeiro Grande sozinho, socado entre as árvores num a cabana em ruínas. Só num últim o caso os hom ens se atreviam a ir até lá. Jerem ias se alim entava com raízes e com frutas silvestres. Fechava o corpo dos hom ens contra bala e contra m ordida de cobra. Na sua cabana as cobras andavam soltas e cada um a tinha seu nom e com o se fosse um a m ulher. Dava rem édio para m ales do corpo e para m ales do am or. Mas com essa febre nem ele podia.

- Me falaram lá no Ceará m as eu não dei crença... Se falava tanta história dessas terras que até parecia coisa de m ilagre...

O trabalhador m agro quis saber o que é que diziam :- Coisa boa ou coisa ruim ?

- Boa e ruim , m ais ruim que boa. De boa só dizia que aqui era um a fartura de dinheiro que o fulano enricava logo que desem barcava. Que dinheiro era calçam ento de rua, era poeira de estrada. . . De ruim , que tinha a febre, os j agunços as cobras... De ruim m uita coisa...

- E ainda assim tu veio...

O cearense não respondeu, foi o velho que vinha trazendo o cadáver quem falou:- Pode ter a ruindade que tiver, se tem dinheiro o hom em não enxerga nada. Hom em é bicho que só vê dinheiro, fica cego e surdo quando vê falar em dinheiro. . . Por isso é que há tanta desgraça nessas terras. . . O hom em m agro apoiou com a cabeça. Tam bém ele deixara pai e m ãe, noiva e irm ã, para vir atrás do dinheiro dessas terras de Ilhéus. E os anos se haviam passado e ele continuava a colher cacau nas roças para Maneca Dantas. O velho continuava:

- Tem dinheiro m uito, m as a gente não v...

A vela ilum inava a cara m agra do defunto. Ele parecia escutar atento a conversa dos hom ens em torno dele. A caneca de cachaça passou m ais um a vez. Com eçaram os chuviscos lá fora, o negro fechou a porta. O velho fitou longam ente o rosto barbado do m orto, sua voz era cansada e sem esperança:- Tão vendo o finado? Pois bem : fazia pra m ais de dez anos que trabalhava nas Baraúnas pro coronel Teodoro. Não tinha nada, nem m esm o as filhas... Passou dez anos devendo pro coronel. .. Agora a febre levou ele, o coronel não quis dar nem um vintém pra aj udar as m eninas a fazer o enterro. . . O m oço concluiu a história que o velho contava:- Inda disse que fazia m uito não m andando a conta que o velho devia pras filhas pagar. Que rapariga ganha m uito dinheiro. . .

O hom em m agro cuspiu com noj o. As orelhas largas do defunto pareciam escutar. O cearense estava um pouco alarm ado. Ele chegara naquele dia, um capataz de Maneca Dantas o contratara em Ilhéus j untam ente com outros que haviam desem barcado do m esm o navio. Haviam chegado j á tarde e tinham sido distribuídos pelas casas dos trabalhadores. O negro esclareceu, enquanto em borcava o caneco de cachaça:

- Am anhã tu vai ver...

O velho que trazia o defunto resum iu:

- Nunca vi destino m ais ruim que o de trabalhador de roça de cacau. . . O hom em m agro considerou:

- Os capangas ainda passam m elhor... - virou para o cearense. - Se tu tem boa pontaria, tu tá feito na vida. Aqui só tem dinheiro quem sabe m atar, os assassinos...

O cearense arregalou os olhos. O m orto o assustava vagam ente, era um prova concreta do que conversavam .

- Quem sabe m atar?

O negro riu, o hom em m agro falou:

Um cabra certeiro na pontaria tem regalias de rico... Vive pelos povoados, com as m ulheres, tem dinheiro no bolso, nunca falta saldo pra ele.. . Mas quem só serve pra roça... Tu vai ver am anhã...

Com o o hom em m agro era o segundo que falava nesse dia de am anhã, o cearense quis saber o que ia se passar. qualquer um podia explicar m as foi m esm o o hom em m agro quem falou:

- Am anhã cedo o em pregado do arm azém cham a por tu para fazer o "saco" da sem ana. Tu não tem instrum entos pro trabalho, tem que com prar. Tu com pra um a foice e m achado, tu com pra um facão, tu com pra um a enxada. . . E isso tudo vai ficar por cem m il-réis. Depois tu com pra farinha, carne, cachaça, café pra sem ana toda. Tu vai gastar uns dez m il-réis pra com ida. No fim da sem ana tu tem quinze m il-réis ganho do trabalho - o cearense fez as contas, seis dias a dois e quinhentos, e concordou. - Teu saldo é de cinco m il-réis, m as tu não recebe, fica lá para ir descontando a dívida dos instrum entos... Tu leva um ano pra pagar os cem m il-réis, sem ver nunca um tostão. Pode ser que no Natal o coronel m ande te em prestar m ais dez m il-réis pra tu gastar com as putas nas Ferradas... O hom em m agro disse aquilo tudo com um ar m eio burlão, entre cínico, desanim ado e trágico. Depois pediu cachaça. O cearense tinha ficado em udecido, olhava o m orto. Falou, por fim :

- Cem m il-réis por um facão, um a foice e um a enxada? Foi o velho quem explicou:

- Em Ilhéus tu tira um facão Jacaré por doze m il-réis. No arm azém das fazendas tu não tira por m enos de vinte e cinco. . .

- Um ano. . . - fez o cearense, e estava fazendo cálculos sobre quando a chuva cairia novam ente na sua terra de secas do Ceará. Ele pretendia voltar logo que chovesse sobre a terra abrasada e pretendia levar dinheiro para poder com prar um a vaca e um bezerro. - Um ano.. repetiu, e fitou o m orto que parecia sorrir.- Isso tu pensa... Antes de term inar de pagar tu j á aum entou a dívida. . . Tu j á com prou m ais calça e cam isa de bulgariana... Tu j á com prou rem édio que é um Deus nos acuda de caro, tu j á com prou um revólver que é o único dinheiro bem em pregado nessa terra... E tu nunca paga a dívida.. . Aqui - e o hom em m agro fez um gesto circular com a m ão abarcando todos eles, os que trabalhavam para os "Macacos" e os dois que vinham com o m orto das "Baraúnas" aqui tudo deve, ninguém tem saldo. . ,

Os olhos do cearense estavam am edrontados. A vela se gastava ilum inando o m orto com sua luz verm elha. Chuviscava lá fora, o velho se levantou:- Eu era m enino no tem po da escravidão... Meu pai foi escravo, m inha m ãe tam bém .. Mas não era m ais ruim que hoj e... A coisa não m udou foi tudo palavras...

O cearense tinha deixado m ulher e filha no Ceará. Viera para voltar com a notícia das prim eiras chuvas, carregado de dinheiro ganho no Sul, dinheiro para recom eçar a vida na sua terra. Agora estava com m edo. O m orto ria, a luz da vela aum entava e dim inuía seu sorriso. O hom em m agro concordou com o velho:

- Não faz diferença...

O velho apagou a vela, guardou no bolso. Levantaram lentam ente a rede, ele e o m oço. O hom em m agro abriu a porta. O negro perguntou:- As filhas dele, as putas. . .

- Sim !. . . - fez o velho.

-...onde m ora

- Na rua do Sapo. .. E a segunda casa..

Depois o velho voltou-se pro cearense:

- Daqui nunca ninguém volta. Fica am arrado no arm azém desde o dia que chega. Se tu quer ir em bora vá hoj e m esm o, am anhã j á é tarde. . . Se tu quer ir, vem com a gente, assim faz tam bém a caridade de aj udar a carregar o finado.. . Depois é tarde...

O cearense duvidava ainda. O velho e o m oço j á estavam com a rede sobre os om bros. O cearense perguntou:

- E pra onde vou? Que vou fazer

Ninguém soube responder, aquela pergunta não havia ocorrido a nenhum deles. Nem m esm o o velho, nem m esm o o hom em m agro que tinha a voz burlona e cínica. O chuvisco caía sobre o m orto. O velho deu boa noite e agradeceu. O m oço tam bém . Ficaram olhando da porta, o negro se benzeu em hom enagem ao cadáver m as logo pensou nas três filhas, ram eiras as três. "Rua do Sapo", segunda casa. . . Iria lá quando fosse a Ferradas... O cearense olhava os hom ens que iam sum indo na noite. De repente disse:

- E eu vou tam bém . . .

Juntou febrilm ente seus trapos, soluçou um a despedida, saiu correndo. O hom em m agro fechou a porta:

- E pra onde vai - E com o ninguém respondesse à sua pergunta ele m esm o respondeu: - Pra outra fazenda, vai ser o m esm o que aqui. Apagou o candeeiro.

10

Apagou o candeeiro com um sopro. Antes Horácio havia desej ado boas noites, desde a porta, ao Dr. Virgílio que dorm ia no quarto em frente. A voz sonora do advogado respondera delicadam ente:- Que durm a bem , coronel.

No silencio do quarto Ester ouviu e prendeu as m ãos sobre o peito, queria prender as batidas do seu coração. Chegavam da sala os roncos com passadas de Maneca Dantas. O com padre dorm ia num a rede arm ada na sala de visitas, cedera ao doutor o quarto em que sem pre se hospedava. Ester, no escuro, espiava os m ovim entos do m arido. Havia nela um a sensação definida: era a certeza da presença de Virgílio no quarto em frente. Horácio despiu-se no escuro, Ester escutou o ruído das botas ao serem descalçadas. Ele estava sentado na beira da cam a e ainda estava alegre, ainda trazia no peito aquela sensação quase j uvenil de felicidade que o acom panhava desde a m esa quando Ester resolvera tocar piano a pedido dele. Da beira da cam a ouvia a respiração de Ester. Arrancou a cam isa e as calças, vestiu o cam isolão de pequenas flores verm elhas bordadas no peito. Levantou-se para fechar a porta que com unicava o quarto deles com aquele onde o filho dorm ia guardado por Felícia. A m uito custo Ester consentira em tirar a criança do seu quarto, em deixá-la dorm ir sob os cuidados da em pregada. E exigira que a porta ficasse sem pre aberta no seu m edo que pela noite as cobras descessem e estrangulassem o m enino. Horácio cerrava a porta devagarinho. Ester seguia, seu olhos abertos no escuro, os m ovim entos do m arido. Sabia que ele a iria tom ar essa noite sem pre que fechava a porta entre os dois quartos era porque a queria possuir. E - era o m ais estranho de quanta coisa estranha acontecera naquela noite - pela prim eira vez Éster não sentia aquela obscura sensação de asco que se renovava todas as vezes que Horácio a procurava para o am or. Das outras vezes se encolhia na cam a, inconscientem ente, um frio a percorria toda, seu ventre, seus braços, seu coração. Sentia seu sexo se fechar num a angústia. Hoj e não sente nada disso. Porque, se bem seus olhos vislum brassem na escuridão do quarto os m ovim entos de Horácio, sua cabeça está no quarto em frente onde Virgílio dorm e. Dorm irá Talvez não, talvez pense nela, talvez seus olhos atravessem a escuridão e a porta, o corredor e a outra porta e procurem ver sob a cam isa de cam braia o corpo de Ester. Estrem ece ao im aginá-lo. Mas não de horror, é um estrem ecim ento doce que desce pelas suas costas, sobe pelas coxas, m orre no sexo num a m orte de delícia. Nunca sentira o que sente hoj e. Seu corpo m agoado das passadas brutalidades de Horácio, seu corpo possuído sem pre com a m esm a violência, se negando sem pre com a m esm a repulsa, seu corpo que se havia trancado para o desej o, acostum ado a receber o adj etivo - "fria" - cuspido por Horácio após a luta de instantes, seu corpo se abriu hoj e com o se abriu seu coração. Não sente no sexo aquela sensação de coisa que se aperta, que se esconde na casca com o um caram uj o. A só presença de Virgílio no outro quarto a abre toda, com o só pensar nele, no seu bigode largo e bem cortado, nos seus olhos tão com preensivos, no seu cabelo loiro, sente um frio no sexo que se banha de m orna sensação. Quando ele lhe dissera aquela com paração do passarinho e da cobra, a sua boca estivera perto do ouvido de Ester m as foi no coração e no sexo que ela ouviu. Cerra os olhos para não ver Horácio que se aproxim a. Vê é Virgílio, ouve suas palavras boas.. e ela que pensara que ele fosse bêbado com o o Dr. Rui... Sorri. Horácio pensa que o sorriso é para ele. Tam bém ele está feliz nessa noite. Ester vê Virgílio, sua m ãos cuidadas, seus lábios carnudos, e sente no sexo, coisa que ela nunca sentiu, um desej o doido. Um a vontade de te-lo, de apertá-lo, de se entregar, de m orrer nos braços dele. Na garganta um estrangulam ento com o se fosse soluçar. Horácio estende as m ãos sobre Ester. Delicadas e doces m ãos de Virgílio, carícias que ele saberá, ela vai desm aiar, Horácio esta por cim a dela, Virgílio é aquele por quem ela esperou desde os dias longínquos de colégio... Estende as m ãos procurando os seus cabelos para acariciá-los, esm aga nos lábios de Horácio os lábios desej ados de Virgílio... E vai m orrer, sua vida escoa pelo sexo em cham as.

Horácio nunca a encontrara assim . Hoj e é outra m ulher a sua m ulher. Tocara m úsica para ele, se entregara com paixão. Parece m orta nos seus braços... Aperta-a m ais, prepara-se para te-la novam ente. Para Horácio é com o m adrugada, um a inesperada prim avera, é a felicidade que ele j á não esperava. Sustenta sua cabeça form osa, soam os golpes na porta da rua. Horácio suspende seu gesto de carinho, ouve de ouvido atento. Ouve Maneca Dantas que se levanta, os golpes que se repetem , a tranca da porta que é aberta, a voz do com padre perguntando quem é. Nas suas m ãos a cabeça de Ester. Os olhos vão se abrindo devagar. Horácio sente os passos de Maneca que se aproxim am , abandona o doce calor do corpo de Ester. E sente um a repentina raiva de Maneca, do im portuno que chegou nessa hora feliz, seus olhos se tornam pequenos. Do corredor vem a voz de Maneca Dantas:

- Horácio! Com padre Horácio

- Que é?

- Venha aqui um m inuto. É coisa séria...

Do outro quarto chega a voz de Virgílio:

-Eu sou preciso?

Maneca responde:

- Venha tam bém , doutor.

Do leito sai a voz estrangulada de Ester:

- Que é, Horácio?

Horácio volta-se para ela. Sorri, leva a m ão ao seu rosto:- Vou ver, volto j á.. .

Eu tam bém vou. . .

E, enquanto ele sai, ela salta da cam a, veste um a bata sobre a cam isa. Recorda-se que assim

pode ver m ais um a vez a Virgílio nessa noite. Horácio saiu com o estava, o candeeiro aceso num a m ão, o cam isolão até os pés, as flores no peito, pequenas e cóm icas. Virgílio j á se encontra na sala com Maneca Dantas quando Horácio chega. Reconhece im ediatam ente o terceiro hom em : é Firm o que tem um a roça j unto das m atas de Sequeiro Grande. Está cansado, se sentou num a cadeira, as botas enlam eadas, o rosto tam bém pingando de lam a. Horácio ouve os passos de Ester, diz:

- Traz um a pinga. . .

Ela m al teve tem po de constatar que Virgílio não veste com o os outros um cam isolão para dorm ir. Veste pij am a m uito elegante, e fum a nervosam ente. Maneca Dantas aproveita a saída de Ester para enfiar um as calças sobre o cam isolão. Fica m ais ridículo ainda, um pedaço das fraldas saindo pelas calças. Firm o volta a explicar para Horácio:

- Os Badarós m andaram m e liquidar..

Maneca Dantas está ridículo e ansioso naqueles traj es. Sua pergunta envolve um profundo conhecim ento dos capangas dos Badarós:- E com o é que você tá vivo ainda?

Horácio tam bém espera a resposta. Virgílio o olha , O coronel tem rugas na testa, está enorm e no cóm ico cam isolão. Firm o conta:- O negro se am edrontou, errou a pontaria...

- Mas era m esm o um hom em dos Badarós? – Horácio queria certeza.- Era o negro Dam ião...

E errou? - a voz de Maneca vinha cheia de incredulidade.- Errou... Parece que tava bêbado... Saiu correndo pela estrada com o doido. A lua tava bonita, eu vi bem a cara do negro...

Maneca Dantas falou pausado:

- Pois pode m andar acender um a vela ao Senhor do Bonfim ... Escapar do tiro do negro Dam ião é m ilagre e dos grandes...

Ficaram todas calados. Ester chegava com a garrafa de cachaça e os copos. Serviu. Firm o bebeu e pediu outro. Em borcou-o tam bém de um trago. Virgílio adm irou a nuca de Ester que se curvara para servir Maneca Dantas. O cangote branco aparecia aos pedaços sob o cabelo solto. Horácio estava parado, agora Ester servia a ele. Virgílio os olhava e teve um desej o de rir, O coronel era ridículo, parecia um palhaço de circo, com aquele cam isolão bordado, a cara picada de bexiga. Na m esa era um hom em tím ido que não entendia a m aior parte do que ele conversava com Ester. Agora era sum am ente cóm ico, Virgílio se sentiu dono daquela m ulher que o acaso j ogara ali, num m eio que não era o dela. O gigantesco fazendeiro parecia-lhe um a coisa frágil e sem im portância, incapaz de ser obstáculo aos proj ectos que nasciam no cérebro de Virgílio. A voz de Firm o o trouxe para a realidade am biente:

- E dizer que estou bebendo essa cachacinha... Podia estar na estrada, estirado... Ester estrem eceu, a garrafa trem eu na sua m ão, Virgílio foi j ogado tam bém , subitam ente, dentro da cena. Estava diante de um hom em que escapara de ser m orto. Era a prim eira vez que ele constatava um daqueles tantos acontecim entos dos quais os am igos lhe haviam falado na Bahia, quando ele se preparava para vir para Ilhéus. Mas ainda assim não se dava perfeita conta da im portância do fato. Julgava que as rugas de Horácio, o olhar ansioso de Maneca Dantas, refletiam apenas as em oções que lhes causava a vista de um hom em que escapara de ser assassinado. No tem po relativam ente curto, em que Virgílio estava na zona do cacau, ouvira falar de m uita coisa m as ainda não se encontrara frente a frente com um fato concreto. O barulho das Tabocas, entre a gente de Horácio e a dos Badarós, se dera quando ele voltara à Bahia, a passeio. Quando chegara, restavam os com entários m as ele duvidara de m uita coisa. Já ouvira falar nas m atas de Sequeiro Grande, j á ouvira dizer que tanto Horácio com o os Badarós as desej avam , m as nunca dera um a grande im portância a tudo aquilo. E dem ais encontrava Horácio igual a um "clown" naquela roupa de dorm ir, presença cóm ica que com pletava um a im agem form ada com a atitude dele no j antar e na sala de visitas. Se não fosse o ar de Firm o ele nem se daria conta do dram ático da cena. Por isso se adm irou quando Horácio se voltou para Maneca Dantas e disse:

- Não há m ais j eito... Eles tão querendo, vão ter.. Virgílio não esperava aquela voz firm e e enérgica de Horácio. Chocava com a im agem que ele form ara do coronel. Olhou interrogativam ente, Horácio falou para ele num a explicação:

- Vam os precisar m uito do senhor, doutor. Quando eu m andei pedir ao Dr. Seabra um advogado bom é que j á previa que isso ia se dar... A gente tá por baixo na política, não conta com j uiz, precisa de um advogado que entenda das leis.. E no Dr. Rui não confio m ais.. ' Um cachaceiro, brigado com todo m undo, com o j uiz, com os escrivães... Fala bem , m as é só o que sabe fazer.. E aqui, agora e preciso um advogado que tenha cabeça e m anha. . .

Aquela franqueza com que Horácio falava dos advogados, da advocacia e da j ustiça, as palavras fortes envoltas em certo desprezo, novam ente chocaram Virgílio. A figura do coronel com o um palhaço torpe e cóm ico ia ruindo na im aginação do advogado. Perguntou:

Mas, de que se trata?

Era um grupo estranho. Estavam todos de pé em torno de firm o que tinha a roupa m olhada do chuvisco e que ainda arfava da corrida a cavalo. Horácio, enorm e no cam isolão branco. Virgílio fum ando nervoso. Maneca Dantas pálido, sem notar o pedaço de cam isa que saia das calças. Éster havia sentado tam bém , só tinha olhos para Virgílio. Tam bém ela ficara pálida, ela sabia que ia com eçar a luta pela posse de Sequeiro Grande. Mas, m ais im portante que esse fato, era a presença de Virgílio, era o pulsar novo do seu coração, era a alegria inédita dentro dela. Quando Virgílio fez a pergunta, Horácio disse:- Vam os sentar.. .

Vinha um a autoridade da voz dele que Virgílio não conhecera antes. Com o se um a ordem sua não pudesse sequer ser discutida. Virgílio se recordou do Horácio de quem falavam em Tabocas e em Ilhéus, o das m uitas m ortes, o das velhas beatas que tinha o diabo preso num a garrafa. Vacilava entre as duas im agens: um a m ostrando um hom em poderoso e forte, dono e senhor; a outra m ostrando um palhaço ignorante e desgraçado, de um a infinita fraqueza. Da sua cadeira Horácio falou, o palhaço foi desaparecendo.

- Se trata do seguinte: essa m ata do Sequeiro Grande é terra boa pra cacau, a m elhor de toda zona. Nunca ninguém entrou nela pra plantar. Só quem vive lá é um m aluco, m etido a curandeiro.. . Do lado de cá da m ata tou eu com m inha propriedade. Já m eti o dente na m ata por esse lado. Do lado de lá tão os Badarós com a fazenda deles. Eles tam bém j á m eteram o dente na m ata. Mas pouca coisa de um lado e de outro. Essa m ata é um fim do m undo, seu doutor, e quem tiver ela é o hom em m ais rico dessas terras de Ilhéus... E m esm o que ser dono de um a vez de Tabocas, de Ferradas, dos trens e dos navios. . . Os outros bebiam as suas palavras, Maneca Dantas apoiava com a cabeça. Virgílio com eçava a com preender. Firm o ia se repondo do seu susto. Horácio continuou:

- Na frente da m ata, entre eu e os Badarós tá o com padre Maneca Dantas com a fazenda dele. Mais arriba ta Teodoro das Baraúnas. Só tem essas duas fazendas grandes. O m ais é roça pequena, com o a do Firm o, um as vinte... Tudo m ordendo a m ata, m as sem coragem de entrar. . . Faz m uito que eu tenho o plano de derrubar a m ata de Sequeiro Grande. Os Badarós bem sabe... Se m ete porque quer...

Olhou em frente, as últim as palavras soavam com o anunciando desgraças irrem ediáveis. Maneca Dantas esclareceu:

Eles tão de cim a na política, por isso se atrevem ... Virgílio queria saber um a coisa:

- Mas que é que Firm o tem que ver?

Horácio voltou a falar:

- E que a roça dele está entre a m ata e a propriedade dos Badarós. . . Faz tem po que eles andavam propondo com prar a roça dele. Ofereceram até m ais do que valia. Mas Firm o e m eu am igo m eu eleitor há m uitos anos, m a consultou, aconselhei que não vendesse. Eu sabia a tenção dos Badarós que era entrar pela m ata. Mas im aginei que eles m andassem liquidar Firm o... Quer dizer que eles tão decididos... Tão querendo...

Vinha um a am eaça na sua voz, os hom ens abaixaram as cabeças. Horácio riu seu riso para dentro, Virgílio via um gigante de força inim aginável. Sob o im pério da sua voz desapareciam até as cóm icas flores do cam isolão. Fez um gesto, Ester serviu outra rodada de cachaça. Horácio virou-se para o Dr. Virgílio:- O senhor acha m esm o, doutor, que o Seabra vai ganhar as eleições?...- Estou certo disso...

- Tá bem ... Acredito no senhor - falou com o se acabasse de tom ar um a resolução definitiva. E era certo porque levantou e andou para Firm o: - Não tem nada, Firm o. Tu, que acha? E tu, com padre? - virava-se para Maneca Dantas. -Tem algum dono de roça na beira da m ata que não estej a com igo? Explicou a Virgílio:

- Os donos de roça tudo sabe que se eu ficar com as m atas não vou botar eles para fora das terras deles... Até dou parte da m ata.. . Se m e aj udarem . Já tem os conversado. Agora, os Badarós querem é tudo, a m ata e as roças j unto... Tudo, querem m ais do que podem engolir..

Olhou para Maneca e para Firm o esperando a resposta da pergunta que fizera antes. Firm o falou prim eiro:

- Tá tudo com vosm ecê. . .

Maneca Dantas tinha um a restrição:

- Não endosso por Teodoro das Baraúnas. É hom em m uito da casa dos Badarós... Só vendo...

Horácio resolvia rapidam ente:

- Tu, Firm o, vai voltar agorinha m esm o. Mando dois hom ens pra lhe garantir... Tu fala com os outros todos: Braz José da Ribeira, com a viúva Miranda, com Colo, com todo o m undo. Não esqueça com padre Jarde que é um hom em valente. Diga que venha tudo alm oçar aqui am anhã. Tá o doutor, a gente bota tudo no preto e no branco. Fico com a m ata até a beira do rio, o m ais, o que tá do outro lado, é pra dividir. . . E tam bém as terras que se tom ar... Tá certo? Firm o concordou j á se levantando para partir. Virgílio se sentia tonto, olhava Ester branca m ais que branca, pálida m ais que pálida, que não pronunciava um a palavra. Horácio falava agora para Maneca Dantas, dava ordens, e era o senhor:- E tu, com padre, vai falar com Teodoro. Explica o caso a ele. Se ele quiser vir, que venha. Faço um acordo com ele. Se não quiser, que se prepare, porque vai chover tiro nessas vinte léguas de terra..

Saiu até o terreiro. Virgílio o seguiu com os olhos prenhes de adm iração. Depois olhou tim idam ente Ester, encontrou-a distante e quase inatingível. La fora Horácio gritava para as casas dos trabalhadores:- Algem iro! José Dedinho! João Verm elho!

Depois foram todos para a varanda. No terreiro os burros eram selados, os hom ens se arm avam . Partiram j untos, Maneca, Firm o e os três capangas, a cavalhada ressoando na m adrugada que chegava. O capataz viera tam bém , Horácio estava explicando o caso para ele. Virgílio e Ester entraram na sala. Ela se aproxim ou, estava lívida, falou em voz rápida, palavras arrancadas do coração:

- Me leve daqui para m uito longe...

Ouviram os passos de Horácio antes que Virgílio respondesse. O coronel entrou, falou para a esposa e para o advogado:

- Essa m ata vai ser m inha nem que tenha de lavar a terra toda com sangue. . . Seu doutor, se prepare, o barulho vai com eçar... Descobriu Ester com m edo:

- Tu vai para Ilhéus, é m elhor. . - m as estava interessado era nos acontecim entos.- Doutor, vosm ecê vai ver com o se liquida uns bandidos.. Porque os Badarós não são m ais que uns bandidos. .

Tom ou Virgílio pelo braço, conduziu-o até a varanda. Na m adrugada que se avizinhava a terra se vestia de um a luz ainda baça e triste. Horácio apontou para longe, um horizonte que m al se via.

- Nessa direcção, seu doutor, estão as m atas de Sequeiro Grande. Daqui uns tem pos vai ser tudo pé de cacau... Tão certo com o eu m e cham ar Horácio da Silveira...

11

Quando o cachorro uivou no terreiro, Don'Ana Badaró se estrem eceu na rede. Não era m edo, na cidade, nos povoados e nas fazendas a gente dizia que os Badarós não sabiam o que era m edo. Mas estava inquieta, assim passara toda a tarde, na certeza de que lhe ocultavam algo, de que, entre o pai e o tio havia um segredo que as m ulheres de casa não conheciam . Notara a ausência da Dam ião e de Viriato, perguntara por eles a Juca que respondera que os hom ens "haviam ido a um recado. Don'Ana percebera a m entira na voz do tio m as nada dissera. Havia um a gravidade espalhada no ar e ela a sentia e se inquietava. O uivo do cachorro se repetiu, chorava ao luar num a angústia de m acho sem fêm ea em noite de desej o. Don'Ana olhou o rosto do pai que, de olhos sem icerrados, esperava que ela iniciasse a leitura. Sinhô Badaró estava tranquilo, um a serenidade descia-lhe pelos olhos e pelas barbas, suas m ãos grandes apoiadas nas pernas, todo ele segurança e paz. Se não fosse Juca se m ovendo inquieto na cadeira, Don'Ana talvez não sentisse tão dentro de si o uivo do cachorro.

Estavam na sala de visitas e era chegada a hora da leitura da Bíblia. Aquele era um hábito de m uitos anos, vinha desde os tem pos da finada dona Lídia, m ãe de Don'Ana. Era religiosa e am ava buscar na Bíblia a palavra conselheira para os negócios do m arido. Quando ela m orrera Sinhô conservou o hábito e o respeitava religiosam ente. Onde quer que ele estivesse, na fazenda, em Ilhéus, m esm o na Bahia a negócio, onde quer que fosse, alguém havia de ler para ele ouvir, cada noite, trechos esparsos da Bíblia onde ele procurava adivinhar conselhos e profecias para os seus negócios. Desde que Lídia m orrera, Sinhô se fazia cada vez m ais religioso, m isturando agora ao seu catolicism o um pouco de espiritism o e m uito de superstição. Principalm ente lhe era arraigado aquele hábito da leitura da Bíblia. As m ás línguas, em Ilhéus, pilheriavam sobre o assunto e contavam nos cafés que certa noite Sinhô Badaró, de passeio na Bahia, resolvera ir a um a casa de prostitutas. E antes de se deitar com a ram eira sacara do bolso a velha Bíblia e fizera com que ela lesse um trecho. Por causa dessa história Juca Badaró arm ara um barulho no café do Zeca Tripa, partindo a cara do farm acêutico Carlos da Silva que a contava entre gargalhadas.

Desde que dona Lídia m orrera, Don'Ana passara a ser leitora, na fazenda ou em Ilhéus, das páginas j á suj as e por vezes rasgadas do velho exem plar de Bíblia. Exem plar que Sinhô Badaró nunca quisera trocar por outro, certo de que aquele era o que tinha capacidade m ágica de o guiar. Nem m esm o quando o Cônego Freitas, num a noite que dorm iu na fazenda, lhe fez notar que aquela era um a Bíblia editada pelos protestantes e que não ficava bem a um católico ler um livro "anatem ado". Sinhô Badaró não entendeu o adj etivo e não pediu explicações. Respondeu que pouca diferença fazia, que ele sem pre se dera bem com aquela e que "Bíblia não era alm anaque que se m udasse todo ano". O Cónego Freitas não encontrou argum entos e preferiu calar, achando que j á era um a grande coisa que um coronel lesse a Bíblia todas as noites. Tam pouco Sinhô Badaró adm itiu que Don'Ana ordenasse a leitura, com o ela o tentou ao substituir Lídia nos cuidados da casa. Don'Ana propusera partir da prim eira página e lerem até o fim . Mas Sinhô protestou, ele acreditava que a Bíblia devia ser aberta ao acaso, para ele era um livro m ágico, a página aberta casualm ente era aquela que tinha o que ensinar. Quando não se satisfazia m andava que a filha abrisse noutro trecho qualquer e m ais noutro e noutro, até que encontrava um a relação entre a página lida e o negócio que o estava preocupando. Prestava um a enorm e atenção às palavras m uitas delas não entendia - buscava-lhes o sentido, interpretava-as ao seu m odo, em função das suas necessidades. Várias vezes deixara de realizar negócios devido às palavras de Moisés ou de Abraão. E costum ava dizer que nunca se havia dado m al. E ai daquele, parente ou visita, que, chegada a hora da leitura, pilheriasse ou protestasse. Sinhô Badaró perdia a calm a e tinha um a explosão de cólera. Nem m esm o Juca se atrevia a reclam ar contra aquele hábito que ele considerava sum am ente m olesto. Ouvia procurando prestar atenção, se divertindo com os trechos que tratavam das relações sexuais, era o único que entendia certas palavras cuj o sentido real escapava a Sinhô e a Don'Ana.

Don'Ana fita o pai sereno na sua cadeira alta. Parece-lhe que, com os seus olhos sem icerrados, ele olha o quadro da parede, aquele quadro que ele trouxera da Bahia quando ela lem brara que a sala precisava de algo que a alegrasse. Ela tam bém olha o quadro e sente toda a paz que desce da oleografia. Mas logo vê que Juca está nervoso, que não se interessa pelo j ornal que lê, um j ornal da Bahia atrasado de quinze dias. O cachorro uivou novam ente e Juca falou:- Quando vier de Ilhéus vou trazer um a cadela. Peri anda sentindo falta. . .

Don'Ana achou que a frase soava falso, que Juca procurava apenas ocultar com o ruído das próprias palavras a sua agitação. Não a enganam , existe algo, algo de grave. Onde estarão Dam ião e Viriato? Muitas noites assim j á passou Don'Ana Badaró, sentindo na casa esse ar perturbado, essa atm osfera de segredo. Por vezes só m uitos dias depois ela ia saber que um hom em m orrera e que as terras dos Badarós haviam aum entado. E ficava terrivelm ente m agoada por lhe haverem escondido o fato, com o se ela fosse um a m enina. Desvia o olhar do tio, a quem ninguém respondeu, e agora invej a a calm a de Olga, a esposa de Juca que faz "crochet" num a cadeira ao lado do m arido. Olga pouco dem orava na fazenda e quando, obrigada por Juca, subia no trem de Ilhéus para passar um m ês com Don'Ana, vinha chorando e se lastim ando. Sua vida eram os cochichos de Ilhéus, era se fazer de m ártir perante as velhas beatas e as am igas, o se queixar dia e noite das aventuras am orosas de Juca. A princípio quisera reagir contra as sucessivas infidelidades do m arido. Mandara cabras am eaçar m ulheres que se m etiam com ele, certa vez m andou raspar a cabeça de um a m ulatinha para quem Juca botara casa. Mas a reacção de Juca foi violenta - as vizinhas diziam que ele a surrara - e ela passou a se contentar com os com entários, com as queixas feitas a todo m undo, com o ar de vítim a resignada que punha nas festas de igrej a. E isso era a sua própria vida, nada lhe agradava m ais que se queixar, que ouvir as m urm urações e as lam entações das velhas beatas, possivelm ente se sentiria defraudada se Juca se convertesse num esposo m odelo. Odiava a fazenda onde Sinhô não queria ouvir suas lam úrias, onde Don'Ana, ocupada todo o dia, tinha pouco tem po para se condoer dela. Dem ais Don'Ana tinha a visão de vida dos Badarós e não chegava a encontrar m al nenhum nas aventuras de Juca desde que ele dava à esposa tudo que ela necessitava. Assim fora seu pai, assim haviam de ser sem pre os hom ens, pensava Don'Ana. Além de que Olga, desinteressada de todos os problem as dos Badarós, inim iga de terra, desconhecendo tudo que se relacionava com o cultivo do cacau, parecia a Don'Ana terrivelm ente estranha à fam ília, distante e perigosa. Don'Ana a sentia com o que respirando outra atm osfera que não a que ela, Sinhô e Juca respiravam . Porém nesse m om ento ela fita Olga com certa invej a da sua calm a, da sua indiferença ante o m istério que perdura na sala. Don'Ana pressente que algum a coisa de m uito sério se está processando. E sente tristeza e raiva porque a afastam do segredo, não lhe dão o lugar que lhe com pete na fam ília Badaró. E dem ora o início da leitura, seus olhos passeiam de rosto em rosto.

Continuar: parte 2 de 4