Terras do Sem Fim
Ainda não haviam sequer esfriado os com…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ainda não haviam sequer esfriado os com entários nascidos da tocaia contra Sinhô Badaró e da m orte dos irm ãos Merenda, quando Ilhéus foi sacudida pelo incidente entre o Dr. Virgílio e Juca Badaró, no cabaré da cidade. Aliás, naquele ano e m eio os acontecim entos se sucederam com tanta rapidez que dona Iaiá Moura, solteirona que zelava por um altar da Igrej a de São Sebastião, disse á sua am iga dona Lenita Silva, que zelava pelo altar em frente:
- Se passa tanta coisa, Lenita, que a gente nem tem tem po de falar direito sobre nenhum a delas... Tá tudo m uito depressa... A verdade é que tanto Horácio com o os Badarós tinham pressa. Um e outro desej avam derrubar a m ata quanto antes e quanto antes plantá-la de cacaueiros. A luta com ia dinheiro, as folhas de pagam ento se elevavam nos sábados a alturas nunca vistas antes, os j agunços recebendo em dia, o preço das arm as aum entando. Tanto os Badarós com o Horácio tinham pressa e, por isso, aqueles m eses foram tão cheios que as beatas não davam conta dos fatos a com entar. Ainda estavam falando de um quando sucedia outro que lhes reclam ava atenção. O que se passava tam bém com os dois j ornais. Acontecia, por vezes Manuel de Oliveira estar escrevendo um artigo descom pondo Horácio por um a arruaça de seus cabras e receber a notícia de outra m uito m aior. A violência de "O Com ércio" e da "A Folha de Ilhéus" não conheceu lim ites nesse ano. Já não havia adj ectivos insultuosos, que não estivessem gastos e foi um a festa na redacção de "O Com ércio" no dia que o dr, Genaro m andou buscar no Rio (as livrarias da Bahia não o tinham à venda) um grande dicionário português, editado em Lisboa, especializado em term os quinhentistas. Foi quando, para gáudio e adm iração dos m oradores, "O Com ércio" passou a cham ar Horácio e seus am igos de "fuão", "m equetrefe", vilão", "flibusteiro", e de outros adj ectivos dessa idade. "A Folha de Ilhéus" respondeu caindo no calão nacional, no qual o Dr. Rui era um a autoridade. O processo que Horácio fazia correr no foro de Ilhéus continuava sem solução. "Correr no foro" era a m ais inadequada das expressões j urídicas quando se tratava de um processo de gente da oposição contra gente do governo, com o era o caso actual. O j uiz estava ali para defender os interesses dos Badarós. E, se não o fizesse bem , o m enos que podia lhe acontecer era o governador do Estado transferi-lo para um a cidadezinha qualquer do sertão, falta de todo conforto, perdida e esquecida de todos onde ele vegetaria anos e anos. Já o j uizado de Ilhéus, ao contrário, era cam inho para a Suprem a Corte do Estado, para trocar o título de j uiz pelo de desem bargador, título m uito m ais sonoro e m uito m elhor pago. Não adiantava a força que o Dr. Virgílio e Dr. Rui faziam , bom bardeando o j uiz com petições, requerim entos pedidos de vistoria. O processo m archava, segundo Horácio, "a passos de cágado", e ele confiava m uito m ais em tom ar as terras à força que pela lei. E fazia com que – ao contrário do processo - os acontecim entos andassem depressa. Tam bém aos Badarós interessava que m archassem o m ais rápido possível. As eleições se aproxim avam , seria no ano seguinte, e m uita gente dizia que era quase certo o rom pim ento entre o governo do Estado e o governo Federal devido à questão da sucessão presidencial. E se o governo do Estado caísse, os Badarós passariam a ser oposição, j á não haviam de contar com o j uiz, então o processo de Horácio "correria" realm ente.
Tudo isso se com entava pelos botequins, pelas esquinas, nas casas de Ilhéus, e até nos navios que paravam no porto, entre os estivadores que os carregavam e os m arinheiros que iam seguir viagem . Nas cidades distantes, em Aracaj u e em Vitória, em Maceió e no Recife, se falava nessas lutas de Ilhéus com o se falava nas lutas do Padre Cícero, em Juazeiro do Ceará. Virgílio havia ido á Bahia e conseguira de um desem bargador, que apoiava a oposição, um parecer favorável a Horácio no caso da posse das terras de Sequeiro Grande. E o )untara aos autos do processo e o Dr. Genaro quebrava a cabeça em cim a dos livros de direito para "esm agar o parecer", com o prom etera ao j uiz que estava aterrorizado com aquela introm issão de um desem bargador num processo que ainda se encontrava em prim eira instância. Porém , m ais que o parecer do desem bargador, o que deve ter levado Juca Badaró a provocar o Dr.Virgílio foi, sem dúvida, a sene de artigos que este havia escrito no diário oposicionista da Bahia sobre as lutas em Ilhéus. Os artigos de "A Folha de Ilhéus" não incom odavam o m ais m ínim o aos Badarós. Mas aqueles artigos num j ornal diário da Bahia tiveram repercussão m esm o fora do Estado e, se bem os diários do governo houvessem defendido Sinhô Badaró, o governador lhe fizera saber que era bom evitar qualquer publicidade sobre "esses incidentes" num m om ento em que o governo estadual não se encontrava em m uito boa harm onia com o federal. Horácio tivera conhecim ento do fato e Virgílio andava nas m as de Ilhéus com o um vitorioso.
Certa noite, ele foi ao cabaré. Há m uito que não aparecia, suas noites agora eram nos braços de Ester, loucas noites de am or e de delírio, a carne dela despertada em sensualidade, se educando nos requintes que ele aprendera com Margot. Mas Horácio estava em Ilhéus e Virgílio ficou sem ter onde ir. Já se acostum ara em não estar em casa à noite, e se dirigiu ao cabaré para tom ar um uísque Ia com Maneca Dantas, o coronel havia chegado com Horácio. Virgílio o convidara.- Vam os dar um pulo no cabaré?
Maneca Dantas riu, pilheriou:
- O senhor quer desviar um pai de fam ília do bom cam inho, doutor? Tenho esposa e filhos, não ando nesses lugares...
Riram os dois, subiram as escadas. Na sala do fundo Juca Badaró j ogava com João Magalhães e outros am igos. Nhozinho dizia, em tom de segredo, aos am igos que "era um pôquer brabo, cacife tão alto ele nunca tinha visto". Virgílio e Maneca Dantas foram para a sala de dança, onde o pianista e o violinista tocavam as m úsicas em voga. Sentaram -se, pediram uísque e Virgílio viu logo Margot que estava num a m esa com Manuel de Oliveira e outros am igos dos Badarós. O j ornalista - que não brigava com ninguém , afirm ando que ele "era um profissional de im prensa e que, aquilo que escrevia no j ornal era a opinião dos Badarós e nada tinha que ver com a sua, particular - eram coisas distintas" – cum prim entou Virgílio. O advogado respondeu. cum prim entando a todos. Margot sorriu para ele, achou-o belo, lem brou-se de outras noites, apertou o lábio num gesto inicial de desej o. Nhozinho trouxe a garrafa.- Esse é do bom ... Escocês... Só sirvo dele aos fregueses escolhidos. Não é para todo m undo...
- Qual é a proporção de água? - pilheriou Maneca Dantas. Nhozinho j urou que era incapaz de m isturar o uísque e quanto m ais aquele, um uísque realm ente... j untava os dedos, levava-os assim até os lábios e soltava sobre eles um beij o estalado, dem onstrando com essas m ím icas a bondade do uísque Depois quis saber por que o Dr. Virgílio não aparecia há tanto tem po... Ele sentira falta. Virgílio resum ia os m otivos por que deixara de vir ao cabaré:- Ocupações, Nhozinho, ocupações.
Nhozinho retirou-se m as Manuel de Oliveira, que vira a garrafa de uísque, se aproxim ou para perguntar ao Dr. Virgílio notícias de outro j ornalista que era am igo com um dos dois e que trabalhava na Bahia, no diário da oposição.- Viu o Andrade por lá, doutor? - perguntou após apertar a m ão de Virgílio e a de Maneca Dantas.
- Jantam os j untos um a vez.
- E, com o vai?
- Ah! o m esm o de sem pre. Bebendo desde que acorda até que deita. Continua com os m esm os hábitos... É form idável!
Manuel de Oliveira lem brou:
- Ainda escreve os sueltos inteiram ente bêbedo?- Caindo. .
Maneca Dantas pedia a Nhozinho outro copo, servia o j ornalista. Agradecendo a gentileza, Manuel de Oliveira lhe explicou:
É um colega, coronel. A m elhor pena da Bahia... Jornalista está ali, com pleto. Mas bebe de fazer m edo. Quando acorda, m esm o antes de lim par os dentes, em borca, ou "saboreia", com o ele diz, um copo de cachaça. E continua... Na redacção nunca ninguém viu o Andrade com o corpo bem equilibrado. Mas a cabeça, coronel, essa é sem pre a m esm a... Cada tópico.. . Um prim or.. . Em borcou o copo, m udou de assunto. - Bom uísque.. Aceitou a nova dose, com o copo cheio despediu-se, ia voltar para sua m esa. Mas antes disse a Virgílio:
- Tem um a conhecida sua na nossa m esa que está com saudades - olharam para Margot. - Diz que gostaria de dançar um a valsa com o senhor... Piscou o olho, foi andando:
- Quem foi rei, sem pre é m aj estade...
Virgílio riu com o com entário. No fundo estava sem interesse nenhum . Viera ao cabaré para beber um pouco e conversar, não viera atrás de m ulher. Muito m enos de um a m ulher que actualm ente era am ante de Juca Badaró, m antida por ele. Dem ais tem ia que Margot, com quem não voltara a falar desde aquela outra noite` nesse m esm o cabaré, com eçasse com recrim inações. ;Não estava interessado nela, para que dançar então, reatar laços partidos? Deu de om bros, bebeu um trago de uísque Mas Maneca Dantas estava interessado. Ele gostaria que a gente do cabaré visse Virgílio dançando com Margot. Assim saberiam que ela vivia louquinha pelo advogado, que só estava com Juca porque Virgílio a deixara. Não haveria m ais quem dissesse que Juca a tom ara do outro. Falou:- A m oça não tira os olhos do senhor, doutor...
Virgílio espiou, Margot sorriu, os olhos presos nele. Maneca Dantas perguntou:- Por que não dança um a rodada com ela?
Ainda assim Virgílio refletia: "não valia a pena". Se m oveu na cadeira. Margot na outra m esa pensou que ele ia se levantar para tirá-la e se pôs de pé. Isso o obrigou a decidir-se. Não tinha outro j eito que dançar. Era um a valsa lânguida, saíram os dois pela sala e logo a gente toda os olhou, as ram eiras com entavam . Da m esa onde estava Margot, um hom em quis se levantar. Houve um princípio de discussão entre ele e Manuel de Oliveira. O j ornalista procurava convence-lo de algo m as o hom em , após ouvi-lo, se desprendeu da m ão de Oliveira que o segurava, e partiu para a sala de j ogo.
A m úsica da valsa se arrastava no piano velho. Virgílio e Margot dançavam sem trocar palavra m as ela ia de olhos cerrados, os lábios apertados. Juca Badaró chegou da sala de j ogo. Atrás dele vinham João Magalhães, o hom em que o fora cham ar, e os outros parceiros de pôquer Da porta que com unicava as duas salas Juca ficou olhando, as m ãos m etidas no bolso, os olhos cintilando. Quando a m úsica acabou, os hom ens que dançavam bateram palm as pedindo bis. Foi nesse m om ento que Juca Badaró atravessou a sala, tom ou Margot por um braço, e a puxou para a m esa. Ela relutou um pouco, Virgílio se adiantou, ia falar, m as Margot im pediu que ele dissesse qualquer coisa:- Não se m eta, por favor..
Virgílio ficou um m inuto indeciso, olhava Juca que esperava, m as se lem brou de Ester. . . que lhe im portava Margot? - cum prim entou a ex-am ante sorrindo:- Muito obrigado, Margot - e voltou para sua m esa onde Maneca Dantas estava de pé, a m ão no revólver, na expectativa do barulho. Juca Badaró arrastara Margot para a m esa onde discutiram os dois em voz alta, todo m undo ouvindo. Manuel de Oliveira procurava intervir, porém Juca Badaró o olhou de tal m aneira que o j ornalista achou m elhor calar-se. A discussão azedou-se entre Juca e Margot, ela quis levantar-se, ele a sentou violentam ente. Nas outras m esas havia um silêncio com pleto, até o pianista espiava. Juca voltou-se:
- Por que diabo não toca a m erda desse piano? - gritou e o velhote se atirou em cim a do piano e os pares saíram dançando.
Não dem orou, Juca tom ou Margot pela m ão, arrastou-a consigo. Quando passava em frente à m esa onde estavam Virgílio e Maneca, Juca disse para a m ulher que ia quase de rastos:
- Vou lhe ensinar a respeitar m acho, sua puta m al-acostum ada... Parece que é a prim eira vez que vive com um hom em . .
Disse para que Virgílio ouvisse e o advogado ia se levantando da m esa, tinha perdido a cabeça. Maneca Dantas é que o segurou, viu que ele ia m orrer nas m ãos de Juca se tentasse um gesto. Juca e Margot saíram pela escada, de dentro da sala se ouvia o som das bofetadas que ele dava na am ante. Virgílio estava pálido. Maneca Dantas lhe explicava que não valia a pena. O incidente não passou disso e no outro dia Virgílio o havia esquecido quase com pletam ente. Já não pensava no assunto, Margot não lhe interessava. Tinha ido viver com Juca Badaró porque quisera, o plano de Virgílio era enviá la para a Bahia, dar-lhe dinheiro para uns quantos m eses. Ela preferira se m eter com Juca na m esm a noite do rom pim ento, se fazer am ante dele, fornecera ao j ornal dos Badarós detalhes sobre a vida de Virgílio com o estudante. Se ela agora apanhava de Juca, se não podia dançar com quem quisesse, era culpa dela, ele, Virgílio, nada tinha com isso. E, de certa m aneira, não deixava de dar razão a Juca. Se Margot ainda fosse sua am ante ele não haveria de gostar de v-la dançando com o hom em que a tivera antes. Por m uito m enos Virgílio, fizera um a arruaça num cabaré da Bahia poucos anos atrás. Encontrava desculpa até m esm o para o insulto de Juca na saída. O coronel devia estar cium ento e se exaltara. Virgílio se encontrava satisfeito com Maneca Dantas por te-lo obrigado a sentar-se quando ele quase ia perdendo a cabeça e se m etendo num a briga por causa de Margot. Não pretendia sequer negar o cum prim ento a Juca se este o saudasse na rua. Não guardava raiva dele, com preendia o que se passara, e principalm ente não se interessava em brigar com ninguém por causa de Margot. Mas de boca em boca, nos com entários da cidade, o incidente crescera. Uns diziam que Juca arrancara Margot dos braços do Dr. Virgílio e a espancara na vista dele. Outros tinham um a versão m ais dram ática. Segundo estes, Juca encontrara Margot aos beij os com o Dr. Virgílio e sacara o revólver. Virgílio porém , não lhe dera tem po para atirar, em bolara com ele, tinham lutado pela posse da m ulher. Essa versão era geralm ente aceita. E, até que os que haviam assistido ao incidente narravam -no com grandes contradições: segundo uns, Juca saíra do cabaré para evitar que o Dr. Virgílio tirasse Margot para dançar novam ente e na passagem pedira desculpas ao advogado. A m aioria, porém , achava o contrário: que Juca convidara Virgílio para brigar e este se acovardara. Apesar de saber de com o coisas carentes de toda a im portância eram aum entadas em Ilhéus, Virgílio se adm irou da seriedade que Horácio concedeu ao incidente. O coronel o m andara, no dia seguinte, convidar para j antar. Virgílio aceitou encantado, procurava m esm o um pretexto para ir à sua casa e assim estar um instante próxim o a Ester, sentindo sua presença, ouvindo sua voz bem -am ada.
Chegou pouco antes do j antar, na porta se encontrou com Maneca Dantas que fora tam bém convidado. O coronel o abraçou e Horácio tam bém o apertou nos seus braços quando entraram . Virgílio os encontrou m uito graves, im aginou que algum a coisa nova houvesse acontecido pras bandas de Sequeiro Grande. Já ia perguntar que novidades havia, quando a criada anunciou que o j antar estava na m esa e Virgílio se esquecia de tudo porque ia ver Ester. Mas Ester o cum prim entou friam ente, Virgílio notou nos seus olhos o vestígio de lágrim as recentes. A prim eira coisa que lhe ocorreu foi que Horácio havia sabido algum a coisa entre ele e Ester e que o j antar não era m ais que um a cilada. Fitou de novo Ester e se deu conta que ela não estava apenas triste, estava ofendida, zangada com ele. E o coronel Horácio estava am ável, m ais am ável do que nunca. Não, não era, com certeza, nada em relação ao caso dele com Ester. Então, que diabo seria?
Horácio e Maneca Dantas gastaram quase toda a conversa do j antar. Virgílio se recordava de outro j antar, na fazenda, quando conhecera Ester. Poucos m eses se haviam passado e ela era dele, ele conhecia todos as segredos daquele corpo am ado, tom ara dele para si, lhe ensinara os m istérios m ais doces do am or. Era sua m ulher, não pensava noutra coisa senão em levá-la em bora para longe daquelas terras de barulhos e m ortes. Para o Rio de Janeiro, onde teriam sua casa, onde viveriam sua vida. Não era apenas um sonho. Virgílio esperava tão-som ente ganhar um pouco m ais de dinheiro e a resposta de um am igo que, no Rio, procurava para ele um a colocação num escritório de advocacia ou um bom em prego público. Só Virgílio e Ester conheciam esse segredo, os seus detalhes planej ados entre beij os na grande cam a que ocupava quase todo o quarto da alcova. Im aginavam esse dia em que seriam um do outro totalm ente, sem que o am or fosse cortado pelo m edo, com o o era nessas noites de agora, as carícias perturbadas pelo receio de que as em pregadas desconfiassem de que ele estava na casa. Sonhavam , esse outro dia quando ela pudesse ir ao lado dele nas ruas, seu braço passado pelo de Virgílio, m ão na m ão, um do outro para sem pre. Enquanto Maneca Dantas e Horácio conversam sobre a safra, o preço do cacau, as chuvas, o cacau m ole que se perdeu Virgílio rem em ora esses m om entos na cam a, entre as carícias, em que planej avam a fuga, estudando os detalhes m ínim os, term inando tudo em beij os alegres e dem orados que acendiam a carne para o am or até que a m adrugada expulsava Virgílio, em passos furtivos, da casa de Horácio.
Foi arrancado dos seus pensam entos quando, aproveitando um m om ento em que o diálogo entre Horácio e Maneca Dantas parara, Ester falou:- Disse que o senhor ontem andou fazendo de cavaleiro andante, doutor Virgílio? -sorna, m as seu rosto estava triste.
- Eu? - fez Virgílio sustentando o garfo no ar.
- Ester tá falando é do barulho de ontem no cabaré... - disse Horácio. - Eu tam bém andei sabendo.
- Mas se não houve barulho nenhum ... – contou Virgílio. E explicou o caso: se sentia infinitam ente triste na véspera, saudade não sabia de que - e olhava Ester - e, tendo encontrado o coronel Maneca, este o convidou para irem ao cabaré..
Maneca Dantas olhou, rindo:
- O senhor m e arrastou, doutor. Conte a história direito. . Chegados no cabaré, estava bebendo um uísque inocente quando veio falar com eles o Manuel de Oliveira. E na m esa dele estava um a m ulher que Virgílio havia conhecido na Bahia, nos seus tem pos de estudante. Dançaram um a valsa, quando ele pedia o bis, Juca Badaró apareceu e carregou com a m ulher. Ele não tinha nenhum interesse pela m ulher e nem teria se im portado se Juca não houvesse, ao passar por ele, dito um as palavras desagradáveis. Mas, ainda assim , o coronel Maneca Dantas o im pedira de reagir, e Virgílio se achava agradecido ao coronel porque evitara que ele fizesse um a besteira por um a criatura que não lhe interessava absolutam ente. Fora isso, m ais nada. Invocava o testem unho de Maneca Dantas. Ester parecia indiferente às explicações, disse com um a voz afetada:
- E que tem dem ais? Cabaré é m esm o para rapaz solteiro, sem responsabilidade de fam ília. O senhor faz bem em se divertir, não tem quem sofra por isso. . . Agora, o com padre Maneca é que não está direito. . . - e am eaçava com o dedo.- Tem esposa e filhos. Vou contar à com adre, hein?- am eaçava sorrindo seu sorriso triste.
Maneca Dantas pediu, rindo m uito, que ela não dissesse nada a dona Auricídia:- É cium enta de fazer m edo...
Horácio encerrava o assunto:
- Deixe disso, m ulher. Todo m undo tem direito de se divertir um a vez que outra, de m atar as m ágoas. . .
Agora Virgílio estava m ais descansado. Já sabia o porque da zanga de Ester, do ar forçado de indiferença, dos vestígios de lágrim as. O que não teria ela sabido através dessas incríveis solteironas da cidade, essas beatas sem o que fazer se não falar da vida alheia? E desej ava te-la nos braços para lhe explicar, em m eio a m il carícias, que Margot não representava nada para ele, que dançara com ela quase por acaso. Sentia um a im ensa ternura por Ester e m esm o certa vaidade de sabe-la triste por ciúm es. Na m esa, a criada serviu o café. Horácio convidou Virgílio a passar ao seu gabinete para conversarem um assunto. Maneca Dantas foi com eles, Éster ficou curvada sobre o crochet. O gabinete era um a peça pequena onde o grande cofre de ferro era o m óvel que m ais cham ava a atenção. Virgílio sentou-se, Maneca Dantes puxou a cadeira de braços:
- Essa é m ais larga para m inhas banhas...
Horácio ficou de pé, fazia um cigarro de palha. Virgílio esperava, pensava que se tratasse de algum detalhe j urídico do processo, sobre o qual Horácio quisesse a sua opinião. O coronel dem orava na fabricação do cigarro, rolando o fum o lentam ente na m ão calosa, raspando a palha de m ilho com um canivete. Por fim falou:
- Gostei de com o o senhor contou o caso a Ester. Se não ela ia ficar assustada, ela lhe estim a m uito, doutor. A pobre aqui não tem quase com quem conversar, tem um a educação m uito diferente das outras m ulheres daqui. . . Gosta de conversar com o senhor, os dois falam a m esm a língua... Virgílio baixou a cabeça e Horácio continuou, após acender o cigarro que term inara de fazer:
- Mas aqui para nós, doutor, esse negócio de ontem tem seu lado feio. O senhor sabe o que é que Juca Badaró anda dizendo por aí?- Não sei e, pra lhe falar a verdade, coronel, não m e interessa. Os Badarós não devem gostar de m im e eu reconheço que tem razão. Sou advogado do senhor e, dem ais, advogado do partido. É j usto que eles falem m al de m im ... Horácio pôs o pé em cim a de um a cadeira, estava quase de costas para Virgílio:- Isso é com o senhor, doutor. Eu não gosto de m e m eter na vida dos outros. Só m esm o quando é um am igo com o o senhor.. .
- Mas o que é que há? - quis saber Virgílio.
- O senhor não se dá conta, doutor, que se o senhor não tom ar um a atitude, ninguém m ais, m e desculpe dizer, vai levar o senhor a sério nessas terras. . .- Mas por que?
- Juca Badaró anda dizendo a Deus e ao m undo que arrancou um a m ulher dos braços do senhor, que lhe insultou e o senhor não reagiu. Que o senhor, m e desculpe repetir, é um cagão.
Virgílio em palideceu m as logo se controlou:
- Quem assistiu ao incidente sabe que não houve nada disso. Eu j á havia parado de dançar, esperava para ver se havia bis. Ainda assim , quando ele pegou no braço de Margot, eu quis intervir, foi ela quem pediu que eu não m e m etesse. Depois, quando ele disse aquela bobagem foi o coronel Maneca quem m e segurou..
Maneca Dantas interveio na conversa pela prim eira vez:- E claro, doutor. Se eu tivesse deixado o senhor levantar a m ão, a essa hora taria todo m undo voltando do seu enterro. Juca j á tava levando a m ão ao revólver. E aqui ninguém quer que o senhor m orra..
Horácio disse:
- Seu doutor, eu vim para essas terras era m enino. Vai m uitos anos que isso se sucedeu.. . Não sei de ninguém que conheça Ilhéus m elhor que eu. Ninguém quer que o senhor m orra, o com padre falou direito, m uito m enos eu que gosto do senhor e preciso do senhor. Mas tam bém não quero que o senhor fique desm oralizado por aqui, com fam a de covarde... Por isso tou lhe falando. Parou com o se tivesse feito um longo discurso. Acendeu outro fósforo, ficou com ele na m ão, queim ando, olhava com a cabeça voltada para o advogado com o esperando palavras suas.
- O que é que o senhor acha que eu devo fazer? Horácio j ogou no chão o fósforo que lhe queim ava o dedo, a ponta do cigarro continuava apagada, pequena, no lábio grosso:- Tenho um cabra aí, hom em de confiança. Na quinta-feira Juca Badaró vai subir para a fazenda, tou inform ado. Com cinquenta m il-réis o senhor resolve o assunto. . .
Virgílio não entendia direito:
- Com o?
Foi Maneca Dantas quem explicou:
- Por cinquenta m il-réis o hom em faz o serviço. Quinta-feira espera Juca na estrada, não há santo que salve ele... E, depois, ninguém m ais se m ete com o senhor. .
Horácio anim ava:
- E não há perigo porque os Badarós vão dizer que fui eu quem m andou. Se houver processo é com igo... Mas, por isso não se preocupe.. Virgílio levantou-se:
- Mas isso não é coragem , coronel. Mandar um j agunço m atar um hom em , a sangue frio, isso não é coragem ... Se fosse eu m e encontrar com Juca na rua, m eter a m ão no rosto dele, está certo. . . Mas m andar um cabra dar um tiro? Pra m im isso não é coragem ...
- Aqui é assim doutor. E se o senhor pensa em fazer carreira aqui, deixe que eu cham e o cabra... Se não, não tem j eito. O senhor pode ser o m elhor advogado do m undo, ninguém vai procurar o senhor...
- E m esm o tem o partido... - disse Maneca Dantas. Virgílio sentou-se de novo. Refletia. Nunca esperava por aquilo. Sabia que Horácio tinha razão. Naquela terra m andar m atar era coragem , fazia um hom em respeitado. Sabia tam bém que não havia nenhum a tram pa naquilo tudo. Se houvesse algum barulho com a j ustiça a culpa seria lançada em cim a de Horácio. Mas apesar disso tudo, ele não via m otivo para m andar assassinar Juca Badaró. Horácio falava:
- Vou lhe dizer um a coisa, doutor, porque sou seu am igo. De qualquer m aneira eu vou m andar liquidar Juca Badaró. Já tava disposto a isso, ele m atou quatro hom ens m eus. . . em endou -. . . isso é, seus hom ens m ataram , m as aqui é com o se ele tivesse m atado. Tocou fogo num a plantação de Firm o e atacou a casa de Braz. Tá fazendo estrepolias dem ais, é m elhor acabar de um a vez. Pra sem ana vou m andar derrubar o com eço da m ata, Juca Badaró não vai assistir... Parou, m ais um a vez acendeu o fósforo, pitou a ponta de cigarro. Olhou Virgílio, sua voz era pesada com o socos:
- Só quero fazer um favor ao senhor. O senhor dá a ordem ao cabra, e todo m undo vai saber, m esm o que eu responda j úri, que foi vosm ecê quem m andou liquidar Juca Badaró. E ninguém se m ete m ais aqui com o senhor, nem com m ulher sua... Vão lhe respeitar...
Maneca Dantas bateu no om bro de Virgílio, para ele era a coisa m ais sim ples do m undo:
- Não custa nada dizer cinco palavras...
Horácio concluiu:
- Gosto do senhor, doutor, é um hom em de saber. Mas aqui nessas terras, o saber só não adianta pra ninguém , seu doutor. . .
Virgílio baixou a cabeça. O coronel ia m andar m atar Juca, m as queria que fosse ele quem desse a ordem ao j agunço, assim ele entraria para o rol dos hom ens valentes de Ilhéus.. Pensou em Ester na outra sala, fazendo croché, roída de ciúm es. Sonhava viver com ela, partir para outras terras, um a terra civilizada, onde a vida hum ana valesse algum a coisa. Ir para longe dali, daquelas m atas, daqueles povoados, daquela cidade bárbara, daquela sala onde os dois coronéis lhe aconselhavam para seu bem - para seu bem que ele m andasse m atar um hom em .. Fugir com Ester e seriam outras as m anhãs de cada dia, m ais belas as tardes, as noites sem outros queixum es que os ais de am or. Noutras terras distantes...
A voz de Horácio voltava a atravessar o gabinete:- Se resolva, doutor...
4
As chuvas longas do inverno eram pesadas, a água cantava nos telhados, escorria pelos vidros da j anela. O vento do m ar sacudia as árvores do quintal derrubando as folhas e os frutos verdes. Ester fechou os olhos e viu a folha voando, rodando loucam ente no ar, os pingos de chuva se acum ulando sobre ela, fazendo-a pesada, derrubando-a no chão. Essa visão lhe deu frio e ainda m ais sono e ela se apertou contra o am ante, as pernas enfiadas por entre as dele, a cabeça no seu peito largo. Virgílio beij ou os cabelos form osos da m ulher, depois cobriu m ansam ente com os lábios os olhos de pálpebras cerradas. Ester estendeu o braço nu, cingiu a cintura do am ante. O sono vinha chegando, cada vez m ais pesado, o corpo cansado da violência da posse recém term inada. Virgílio tentou conversar ainda, contar-lhe casos, a voz apressada e nervosa. Queria que ela não dorm isse, que lhe fizesse com panhia. Era m eia-noite e a chuva não parava, cada vez m ais forte, com ela vinha o sono que am olecia o corpo de Ester. Virgílio falava, relatava-lhe casos acontecidos com ele quando estudante na Bahia. Falou m esm o em outras m ulheres que haviam passado em sua vida para ver se assim ela despertava, reagia contra o sono. Ester respondia por m onossílabos, term inou por virar de barriga para baixo no colchão, o rosto escondido no travesseiro. Ainda m urm urou:
- Conte, am or...
Mas ele logo viu que ela estava dorm indo e então sentiu todo o vazio das palavras que dizia, frases sobre a vida na Faculdade. Vazias, totalm ente vazias de sentido e de interesse. As gotas de chuva escorriam pelo vidro da j anela, Virgílio pensou que eram com o lágrim as. Devia ser bom poder chorar, deixar que o sofrim ento saísse pelos olhos, escorresse pelo rosto... Era assim que Ester fazia. Quando soubera que ele dançara com Margot no cabaré, ela deixara que as lágrim as corressem pelo rosto, e depois lhe fora m uito fácil escutar as explicações de Virgílio, acreditar nelas. Muita gente era assim , se consolava com as lágrim as. Mas Virgílio não sabia chorar. Nem m esm o quando recebera na rua a notícia de que o pai m orrera no sertão, de repente. E queria ao pai com loucura, sabia do sacrifício que custava ao velho m antê-lo nos estudos, sabia do orgulho que o pai sentia por ele. Nem nesse dia chorara. Ficara com um nó na garganta, parado na rua, onde o conhecido lhe entregara a carta da tia com a notícia. Um nó na garganta m as nenhum a lágrim a nos olhos secos, terrivelm ente secos, tão secos que ardiam . Nenhum a lágrim a... Pelos vidros da j anela escorrem as lágrim as da chuva, um a atrás da outra. Virgílio pensou que a noite chorava pelos m ortos todos daquela terra. Eram m uitos, só m esm o um tem poral de chuva pesada para atender a tanta m orte violenta! Que fazia ele naquela terra, por que viera para ali? Agora era tarde, havia Ester, só iria em bora com ela. Quando viera, a am bição enchia-lhe o peito, via rios de dinheiro, um a cadeira no parlam ento, um futuro político, ele m ane)ando toda essa zona fértil do cacau. Nos prim eiros tem pos só pensou nisso e tudo ia bem , tudo com o ele desej ara: ganhava dinheiro, os coronéis confiavam nele, tinha êxito com o advogado, e a questão política m archava bem , o governo estadual se afastava cada vez m ais do federal e era certo, para quem tivesse visão, que não tinha possibilidades de se m anter no poder nas próxim as eleições. Ou talvez m esm o caísse antes. Havia, na Bahia, quem falasse em intervenção federal no Estado. Os seus chefes estavam no Rio tram ando negociações, haviam sido recebidos pelo Presidente da República, a situação se esclarecia cada vez m ais, havia grandes possibilidades de que ele fosse candidato a deputado nas eleições do ano seguinte, e, se houvesse a m udança política, não restavam dúvidas quanto à sua eleição...
Mas aparecera Ester e tudo aquilo deixou de ter im portância. Só ela im portava seu co o seus olhos, sua voz, seus desej os, seu carinho por ele. Afinal podia tam bém fazer carreira desde o Rio, este havia sido seu pensam ento inicial quando se form ara em Direito. Se arranj asse um lugar num escritório de advocacia de boa clientela, não tardaria a ir para diante, aqueles tem pos em Tabocas e Ilhéus de m uito lhe haviam servido. Aprendera m ais naquele ano e oito m eses que nos cinco de Faculdade. Costum avam dizer que "advogado de Ilhéus" podia advogar em qualquer lugar do m undo e era verdade. Ali todas as sutilezas da profissão se faziam necessárias, o conhecim ento com pleto das leis e da m aneira de burlar as leis. Em qualquer parte Virgílio teria, sem dúvida, grandes facilidades para triunfar, não era em vão que, em Ilhéus, o consideravam j á um dos m elhores advogados do foro. E claro que não seria tão fácil e tão rápido quanto ali, onde j á tinha nom e feito e carreira política iniciada.. Rápido e fácil... Virgílio dem orou nas duas palavras que pensara. Rápido, podia ser. Fácil não era... Seria fácil, por acaso, ter que m andar m atar hom ens para se fazer respeitado? Para poder subir no conceito de todos, poder fazer carreira política? Não era fácil... Pelo m enos para ele, Virgílio, educado noutra terra, noutros costum es, com outros sentim entos. Para os coronéis dali, para os advogados que haviam envelhecido naquela terra tam bém , para eles era fácil, para Horácio, para os Badarós, para Maneca Dantas, para o Dr. Genaro com toda sua cultura pernóstica e sua seriedade de hom em que não frequentava casa de m ulher da vida. Mandavam m atar com o m andavam podar um a roça, ou tirar um a certidão de idade no cartório. Sim para eles era fácil e Virgílio nunca havia se dem orado em considerar o estranho desse fato. Só agora olhava com outros olhos para estes hom ens rudes das fazendas, esses advogados m anhosos da cidade e dos povoados, que calm am ente, m andavam cabras esperar inim igos na estrada, por trás de um a árvore. Sua am bição, prim eiro, o am or de Ester e o desej o de partir com ela depois, fizeram com que ele nunca se lem brasse de refletir sobre o terrível daqueles dram as que eram o quotidiano daquela terra. Fora preciso que ele se visse obrigado a ter que m andar, ele tam bém , m atar um hom em , para sentir a desgraça daquilo tudo, o terrível daqueles fatos, o quanto aquela terra pesava sobre os hom ens. Os trabalhadores nas roças tinham o visgo do cacau m ole preso aos pés, virava um a casca grossa que nenhum a água lavava j am ais. E eles todos, trabalhadores, j agunços, coronéis, advogados, m édicos, com erciantes e exportadores, tinham o visgo do cacau preso na alm a, lá dentro, no m ais profundo do coração. Não havia educação, cultura e sentim ento que o lavassem . Cacau era dinheiro, era poder, era a vida toda, estava dentro deles, não apenas plantado sobre a terra negra e poderosa de seiva. Nascia dentro de cada um , lançava sobre cada coração um a som bra m á, apagava os sentim entos bons. Virgílio não estava com ódio nem de Horácio nem de Maneca Dantas, m uito m enos do negro que sorria quando ele lhe ordenara tocaiar Juca Badaró nessa noite de quinta-feira que tanto custa a passar. Tinha ódio era do cacau... Se revoltava porque se sentia dom inado, porque não tivera forças para dizer não e deixar que Horácio sozinho fosse responsável pela m orte de Juca. Não sabia m esm o com o aquela terra, aqueles costum es, tudo que nascia j unto com o cacau, se haviam apossado dele. Um a vez em Tabocas esbofeteara Margot e foi quando se deu conta de que havia outro Virgílio que ele não conhecia, não era o m esm o dos bancos académ icos gentil e am ável, am bicioso, m as risonho, tendo pena das desgraças alheias, sensível ao sofrim ento. Hoj e era um hom em rude, em que se diferenciava de Horácio? Era igual a ele, os sentim entos eram os m esm os. Quando conhecera Ester, pensava que ia salvá-la de um m onstro, de um ser abj ecto e torpe. Mas que diferença havia? Eram os dois assassinos, m andantes de capangas, viviam os dois em função do cacau, do ouro dos frutos dos cacaueiros.
A esta hora - pensa Virgílio - Juca j á terá recebido o tiro e será apenas um cadáver a m ais nas estradas do cacau, não será, com o os outros, enterrado j unto a um a árvore, um a cruz tosca lem brando o acontecim ento. Juca é fazendeiro im portante, o corpo virá para Ilhéus, será enterrado com grande acom panham ento, Dr. Genaro deitará discurso no cem itério, com parará Juca com figuras históricas. Talvez o próprio Virgílio vá ao enterro, não é um fato novo nessas terras que o assassino acom panhe o caixão da vítim a. De alguns contam que até pegaram na alça do caixão, o ar triste, a roupa negra de cerim ónia. Não, ele não irá ao enterro de Juca, com o poderá fitar o rosto de dona Olga? Juca não era um bom m arido, vivia m etido com m ulheres, j ogando pelos cabarés, m as ainda assim dona Olga há de chorar e de sofrer. Com o fitá-la na hora do enterro? Não, o que ele tinha a fazer era ir em bora, viaj ar para longe, onde nada lhe recordasse Ilhéus, o cacau, as m ortes. Onde nada lhe recordasse aquela noite na casa de Ester, no gabinete do coronel, quando Virgílio disse que cham asse o cabra. Por que dissera sim , se não porque estava irrem ediavelm ente ligado àquela terra, o desej o de levar Ester para longe não era m ais que um sonho, que se adiava sem pre? Ligado àquela terra, esperando, ele tam bém , plantar roça de cacau, esperando no fundo que Horácio m orresse naqueles barulhos de Sequeiro Grande e ele pudesse casar m Ester. Só agora tam bém se dá conta de que esse foi um desej o que esteve sem pre no seu coração, que esperou cada dia a notícia da m orte do coronel, derrubado por um a bala de um hom em dos Badarós... Enquanto planej ava um em prego no Rio, ganhar m ais dinheiro para partir, enquanto encontrava argum entos para dem orar a fuga com Ester, estava apenas esperando aquilo que considerava fatal: que os Badarós m andassem m atar Horácio e assim term inar com o problem a. Certa vez pensara nisso e procurou depois esquecer esse m om ento. Pensara que se acontecesse Horácio m orrer ele aconselharia a Ester a entrar num acordo com os Badarós para a divisão da m ata de Sequeiro Grande e a term inação da luta. Naquela tarde enganara a si m esm o dizendo que pensava no fato com o um acontecim ento provável que não podia faltar nos seus cálculos de advogado da fam ília. Mas agora, na cam a, olhando as lágrim as da chuva que deslizavam na j anela, ele confessa que não tem feito nesses m eses outra coisa que esperar a notícia da m orte de Horácio, um tiro no peito, um cabra que foge... Sim , nada m ais lhe resta que esta perspectiva. Agora não pode m ais fugir daquela terra, agora está definitivam ente ligado a ela, ligado por um cadáver, por Juca Badaró que ele m andou m atar. . . Agora é esperar que, m ais dia m enos dia, chegue a vez do tiro de Horácio, do enterro dele. E então terá Ester e terá as propriedades e a m ata de Sequeiro Grande tam bém . Será rico e respeitado chefe político, deputado, senador, o que quiser. Falarão m al dele nas ruas de Ilhéus m as o cum prim entarão servilm ente? se curvarão diante dele. Não havia outro j eito... Não adiantava pensar em fugir, em ir para longe, em recom eçar a vida. Para onde quer que fosse levaria consigo a visão de Juca Badaró caindo do cavalo, a m ão tapando a ferida, visão que Virgílio v refletida no vidro da j anela onde a água corre. V através de seus olhos, secos, sem lágrim as, pensa que seco está seu coração tam bém , coberto pela som bra do cacau.
Não adianta m ais pensar em fugir, agora seus pés estão presos ao visgo daquela terra, visgo de cacau m ole, visgo de sangue tam bém . Nunca m ais será possível sonhar outra vida diferente. Agora ele era tam bém um grapiúna, definitivam ente um grapiúna. "Não é m ais possível sonhar, Ester."
Seus olhos secos, suas m ãos trem ulas, seu coração doído. Ester ressona na noite fresca de chuva. Nessa noite de quinta-feira, na estrada de Ferradas, um hom em derrubou Juca Badaró do seu cavalo. Virgílio se abraça á m ulher. Éster sem i-adorm ecida sorri:
- Agora não, am or.. .
E a angústia aum enta, ele veste a roupa quase correndo, sente um a necessidade de deixar que a chuva caia sobre ele sobre sua cabeça ardente, lave suas m ãos suj as de sangue, lave seu coração m anchado. Se esquece de descer em passos cuidadosos para não acordar as em pregadas. E sai pelo quintal, no leito da estrada de ferro arranca o chapéu e deixa que a chuva escorra sobre o seu rosto, com o se fossem as lágrim as que ele não chorou. 5
Mas não havia m otivo nem para tam anha angústia de Virgílio, nem para a alegria que Dr. Jessé pensava descobrir no rosto de Horácio que pousava naquela noite em sua casa em Tabocas. O coronel, desde que os barulhos de Sequeiro Grande haviam com eçado, desistira de viaj ar à noite, pelas estradas, apesar dos hom ens que o acom panhavam . Com o não pudera seguir para a fazenda à tarde, alguns negócios o haviam retido em Tabocas, deixou para sair na m anhã seguinte e se divertiu no fim da tarde assistindo às consultas do Dr. Jessé. Ficara no consultório do m edico que atendia aos enferm os. E, com o quase todos eles eram conhecidos e eleitores seus, Horácio não estava perdendo tem po. Tinha um a frase para cada um , perguntava pelos negócios, pela vida, pela fam ília. Sabia ser am ável quando queria, e naquele dia se sentia particularm ente alegre, alegria que aum entava à proporção que a tarde caía. Da j anela do consultório, ele vira Juca Badaró, de botas e esporas, andando pelas ruas de Tabocas, saindo da loj a de ferragens de Azevedo. Sorriu satisfeito, dem orou olhando a figura nervosa do inim igo. A esta hora o cabra que ele m andara estaria andando para a tocaia no cam inho de Ferradas. Custara ao Dr. Virgílio decidir. Horácio gostava do advogado e estava certo de que lhe prestava um verdadeiro favor ao lhe dar a fam a, sem os perigos, da liquidação de Juca Badaró. Saiu da j anela para cum prim entar a m ulher de Sílvio Mãozinha, dona de um a pequena propriedade para os lados de Palestina, um dos braços fortes de Horácio naquela zona. A m ulher vinha em busca do Dr. Jessé, havia baixado da roça nesse dia, trazendo o m arido que se consum ia de febre. Paravam na casinha que possuíam do outro lado do rio. A m ulher estava alarm ada com o estado do m arido. Fora preciso traze-lo num a rede, Sílvio não aguentara m ontar.
Horácio acom panhou o Dr. Jessé, aj udou a suspender o doente na cam a enquanto o m édico exam inava. Ofereceu seus préstim os à m ulher, perguntou se ela não precisava de dinheiro. Dr. Jessé sabia que Horácio era am ável com seus eleitores, com seus am igos, m as achava que nesse dia ele estava exagerando. Pois se o coronel até não quis sair, ficou aj udando a m ulher a por o urinol para o doente, a m udar-lhe a roupa pegaj osa de suor, a lhe dar rem édios que haviam m andado buscar na farm ácia! Ao sair, Dr. Jessé puxou o coronel para um lado, lhe avisou:
- É um caso perdido. . .
- Não m e diga. .
O m édico não tinha esperança:
- Essa febre se não se atalha logo, não adianta. Ele não passa de hoj e.. E o senhor deve vir
com igo e tom ar um banho, lavar as m ãos com álcool. Essa febre não brinca para pegar...
Mas Horácio rira e se dem orara na casa de Sílvio até a hora do j antar, prom etendo voltar depois. E só antes de sentar à m esa é que lavou as m ãos, rindo dos receios do Dr. Jessé, dizendo que a febre o respeitava. Dr. Jessé se dem orou em explicações científicas, aquela febre desconhecida era um a das suas preocupações. Matava em poucos dias, não havia rem édio para ela. Mas nada alterava a alegria de Horácio nessa noite. Tão alegre estava que voltou à casa de Sílvio para aj udar ao doente. E foi ele quem veio correndo cham ar o Dr. Jessé na hora em que o hom em entrou em agonia. No cam inho avisou ao padre. Quando chegaram Sílvio j á estava m orto, a m ulher chorava pelos cantos. Horácio se lem brou que àquela hora Juca Badaró j á estaria tam bém m orto, estirado na estrada, os olhos abertos e fixos com o os de Sílvio. Ofereceu à viúva pagar as despesas do enterro e aj udou a m udar a roupa do m orto.
Mas a verdade é que Horácio se alegrava sem m otivo e Virgílio sofria tam bém sem m otivo. O m otivo dessa alegria e desse sofrim ento, Juca Badaró, cavalgava para a fazenda, na estrada tinha ficado o cadáver do hom em que fora esperá-lo na tocaia. E, dobrado no burro que m ontava e que era levado pela rédea por Virgílio, ia António Vítor ferido, que salvara, pela segunda vez, a vida do seu patrão. Desta vez por acaso. Quando j á o cabra na tocaia preparava a sua repetição para o tiro, o ouvido atento aos passos da cavalhada que se aproxim ava, os olhos fitos no cavaleiro que vinha na frente e em quem ele reconhecera Juca Badaró, quando o hom em ia levar a repetição ao om bro para firm ar a pontaria, António Vítor percebera um rum or levíssim o ao lado da estrada, e, pensando que fosse algum a paca ou algum tatu, dirigiu o burro para dentro do roçado, o revólver na m ão para levar a caça m orta de presente para Don'Ana. Viu o cabra levantando a arm a. Atirou im ediatam ente, m as errou. O hom em se voltou então para ele, e acertou o tiro na perna de António Vítor que só não o recebeu no peito porque estava saltando do burro. Com o ruído dos tiros, Juca e Viriato se aproxim aram e o cabra não teve tem po de fugir. Antes de m atá-lo e antes m esm o de atender a António Vítor, Juca apertou o hom em com perguntas:
- Diga quem foi e eu lhe deixo ir em paz...
O cabra confessou:
- Foi Dr. Virgílio m ais o coronel Horácio...
Quando ele j á se afastava, Viriato suspendeu a repetição, o clarão do tiro ilum inou a noite, o hom em caiu para a frente. Juca, que estava am arrando a perna de António Vítor com um trapo arrancado da sua própria cam isa de seda, ao ouvir o tiro, se levantou:
- Não disse que ele podia ir em paz? - gritou irritado. Viriato se desculpou:
- E um de m enos, patrão...
- Eu devia lhe ensinar a m e obedecer. Quando eu digo um a coisa é para ela ser feita. Palavra
de Juca Badaró não volta atrás.
Viriato baixou a cabeça sem responder. Andaram até o hom em , ele acabava de m orrer. Juca fez um a careta de aborrecim ento:- Venha aj udar - disse a Viriato.
Puseram António Vítor em cim a do burro, Viriato tom ou da rédea, seguiram a passo. Assim chegaram à fazenda, onde as placas de querosene ainda acesas revelavam a inquietação de Sinhô que esperava o irm ão m uito m ais cedo. Saíram todos para o terreiro, vieram j agunços e trabalhadores, aj udaram António Vítor a desm ontar. Havia um a confusão de perguntas, de gente que se apertava para atender ao ferido. O próprio Sinhô Badaró pegou nos om bros de António Vítor para levá-lo para dentro. Deitaram -no sobre um banco. Don'Ana gritou por Raim unda pedindo álcool e algodão. Ao ouvir o nom e da m ulata, António Vítor voltou a cabeça. E som ente ele e Don'Ana notaram que as m ãos de Raim unda trem iam quando ela entregou o pacote de algodão e a garrafa de álcool. Ficou depois aj udando Don'Ana nos curativos (a bala apenas rasgara a carne, sem atingir nenhum osso) e suas m ãos rudes e pesadas se tornaram delicadas e ternas, tam bém elas eram suaves m ãos de m ulher. Para António Vítor eram m uito m ais doces, ternas e suaves, que as m ãos leves e finas de Don'Ana Badaró.