Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 1 de 5 · parte 1/4

Páginas do PDF

Terras do Sem Fim

Terras do Sem Fim

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

JORG E AMADO

http://groups.google.com /group/digitalsource

 

TERRAS DO SEM FIM

JORG E AMADO

“Para Matilde, lem brança do inverno”.

“Hom enagem a D. Chostakóvitch, com positor e soldado de Leningrado”. “Para Carm en Ghioldi e Teresa Kelm an, para Aparecida e Paulo Mendes de Alm eida e para Rem i Fonseca”.

Há dez anos passados escrevi um rom ance, pequeno e violento; sobre o m esm o tem a do cacau, ao qual volto hoj e. Tinha eu então dezenove anos e iniciava m inha vida de rom ancista. Nesses dez anos escrevi sete rom ances, duas biografias, alguns poem as, centenas de artigos, dezenas de conferências. Nesses dez anos lutei duram ente, viaj ei, fiz discursos, vivi com m eu povo a sua vida. Constato com im ensa alegria que um a linha de unidade j am ais quebrada liga não só toda a m inha obra realizada nesses dez anos com o a vida que durante eles vivi: a esperança - m ais que esperança, certeza, de que o dia de am anhã será m elhor e m ais belo. Em função desse am anhã, cuj a m adrugada j á se levanta sobre a noite da guerra nos cam pos do este europeu, tenho vivido e escrito. Montevidéu, agosto de 1942.

“Eu vou contar um a história, um a, um a história de espantar”. (Rom anceiro popular)

1

1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecim ento a quem não pode pagar e tam bém proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.

Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com /group/Viciados_em _Livros, será um prazer recebêlo em nosso grupo.

A terraadubada com sangue

O Navio

1

O apito do navio era com o um lam ento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade. O capitão João Magalhães encostou-se na am urada e viu o casario de construção antiga, as torres das igrej as. Os telhados negros, ruas calçadas de pedras enorm es. Seu olhar abrangia um a variedade de telhados, porém da rua só via um pequeno trecho onde não passava ninguém . Sem saber por que achou aquelas pedras, com que m ãos escravas haviam calçado a rua, de um a beleza com ovente. E achou belos tam bém os telhados negros e os sinos das igrej as que com eçaram a tocar cham ando a cidade religiosa para a bênção. Novam ente o navio apitou rasgando o crepúsculo que envolvia a cidade da Bahia. João estendeu os braços num adeus. Era com o se estivesse se despedindo de um a bem -am ada, de um a m ulher cara ao seu coração.

Dentro do navio hom ens e m ulheres conversavam . Fora, ao pé da escada, um senhor de preto, chapéu de feltro na m ão, beij ava os lábios de um a rapariga pálida. Ao lado de João um suj eito gordo, encostado no espaldar de um banco, iniciava um a palestra com um caixeiroviaj ante português. Outro consultava o relógio e dizia para quem o quisesse ouvir:

- Faltam cinco m inutos. . .

João pensou que o relógio do viaj ante estava atrasado, porque o navio apitou um a últim a vez, os que ficavam saltaram , os que iam se debruçaram na am urada.

O resfolegar das m áquinas lhe deu de repente a certeza de que partia e então se voltou com um a estranha com oção para a cidade, fitou novam ente os velhos telhados, o trecho de rua calçada com pedras colossais. O sino repicava e João im aginou que aquele cham ado era para ele, convite para correr novam ente as ruas da cidade, para descer as suas ladeiras, tom ar m ingau nessa m adrugada no Terreiro, beber cachaça com plantas arom áticas, j ogar ronda nos cantos do Mercado pela m anhã, j ogar sete-e-m eio à tarde na casa de Violeta onde ia um a turm a boa, j ogar pôquer à noite no cabaré com aqueles ricaços que o respeitavam . E pela m adrugada sair novam ente pelas ruas, a cabeleira desabada sobre os olhos, dizendo piadas para as m ulheres que passavam de m ãos cruzadas sobre o peito por causa do frio, procurando encontrar com panheiros para um a farra de violão na cidade baixa. Depois eram os suspiros de Violeta, no quarto da rapariga a lua entrando pela j anela aberta, o vento balançando os dois coqueiros do quintal. Os suspiros de am or iam com o vento, até a lua, quem sabe? Os soluços da m oça pálida desviaram seus pensam entos. Ela dizia, num a voz de certeza infalível:

- Nunca m ais, Robério, nunca m ais. . .

O hom em a beij ava num a excitação cheia de dor e respondia com dificuldade:- Para o m ês eu volto, m eu am or, trago os m eninos. E você vai ficar boa. .. O m édico m e disse...

A voz da m oça era dorida, João teve pena:

- Eu sei que m orro, Robério. Não vej o m ais você nem os m eninos. - Repetiu baixinho: - Nem os m eninos...e rebentou em soluços. O hom em quis dizer algo, não pôde, balançou a cabeça, olhou a escada, desviou os olhos para João com o quem pedia socorro. A voz da m ulher era um soluço: "nunca m ais lhe vej o...' O hom em de preto continuava a olhar João, estava só com a sua dor. João ficou um m om ento indeciso, não sabia m esm o com o iria acudir o hom em de preto, depois quis descer a escada m as j á m arinheiros a retiravam , pois o navio iniciava as m anobras. O hom em só teve tem po de beij ar m ais um a vez os lábios da m oça, um beij o ardente, prolongado e profundo com o se ele tam bém quisesse adquirir a m oléstia que com ia o peito da esposa. Pulou no navio. Mas a sua dor foi m ais alta que seu orgulho e os soluços saltaram do seu peito, encheram o navio que partia, e até o coronel gordo parou a conversa com o viaj ante. De fora, alguém dizia quase aos gritos:- Me escreva. Me escreva...

Havia outra voz:

- Não vá m e esquecer...

2

Raros lenços deram adeuses, só de um a face correram lágrim as, face j ovem de m ulher que soluçava arfando o peito. Não existia ainda o novo cais da Bahia e as águas penetravam quase pela rua. O navio foi se afastando devagar, nas prim eiras m anobras. A m oça que chorava sacudia o lenço m as j á não distinguia dentre os que respondiam de bordo aquele a quem dera seu coração. Logo depois o navio tom ou velocidade, os que estavam a vê-lo partir, se retiraram . Um senhor velho pegou no braço da m oça e foi com ela, resm ungando palavras de consolação e de esperança. O navio se distanciava.

Grupos se confundiam nos prim eiros m inutos da viagem . Mulheres com eçavam a se retirar para os cam arotes, hom ens espiavam as rodas que cortavam o m ar, porque naquele tem po os navios que iam de Bahia para Ilhéus tinham rodas com o se em vez de irem vencer o grande m ar oceano onde cam peia o vento sul tivessem apenas que navegar num rio de águas m ansas. O vento soprou m ais forte e trouxe para a noite da Bahia fragm entos das conversas de bordo, palavras que foram pronunciadas em tom m ais forte: terras, dinheiro, cacau e m orte.

3

As casas desapareciam . João rodou o anel no dedo, querendo desviar a vista do hom em de preto que lim pava os olhos e que dizia, com o um a explicação de toda a cena:

- Tá tísica, coitadinha. O m édico não deu esperanças. . . João olhou o m ar de um verde-escuro e só então se lem brou dos m otivos por que fugia assim de cidade. O anel de engenheiro estava perfeito no seu dedo e parecia até feito

propositadam ente para ele. Murm urou de si para si:- Nem que fosse de encom enda..

Riu, se recordando do engenheiro. Um pato. Nunca vira pato tão grande. Aquele, de pôquer não entendia nada, deixara m esm o tudo que tinha, até o anel. tam bém naquela noite, fazia um a sem ana, João lim para a m esa, só do coronel Juvêncio levara um conto e quinhentos. Que culpa tinha ele? Estava m uito bem do seu, estirado sem inu na cam a da Violeta, que cantava com sua voz delicada e enfiava os dedos nos seus cabelos, quando o m enino do Tabaris apareceu dizendo que j á tinha corrido a cidade toda atrás dele. Rodolfo sem pre lhe arranj ava um a banquinha. Quando um a m esa não estava com pleta, ele perguntava aos parceiros:

- Os senhores conhecem o Capitão João Magalhães? Um capitão reform ado? Sem pre havia um que conhecia, que j á tinha j ogado com ele. Os outros perguntavam :

- Não é rato, não?

Rodolfo bancava indignação:

- O Capitão j oga sério. Joga bem , não se nega a verdade. Mas para um suj eito j ogar sério é preciso que j ogue com o o Capitão. Mentia com a cara m ais cínica desse m undo e ainda com pletava:- Um a m esa sem o Capitão não tem graça...

Para passar essa cantada, Rodolfo tinha a sua com issão e sabia que m esa onde João Magalhães estava era m esa onde a bebida corria e o barato da casa era pesado. Mandava o m enino atrás de João, preparava os baralhos. Fora assim naquela noite. João estava m ole-m ole, os dedos de Violeta nos seus cabelos, quase adorm ecendo ao som da sua voz, quando o garoto apareceu. Só houve m esm o tem po de botar a roupa e num instante estava aboletado na sala dos fundos do cassino. Do Coronel Juvêncio levou um conto e quinhentos e do engenheiro levou tudo que ele tinha no bolso, levou até o anel de form atura que o rapaz apostou na hora que se viu com um four de dam as na m ão, m esm o num a hora em que João Magalhães dera as cartas. Perdeu, porque o four do Capitão João Magalhães era de reis. Só o outro parceiro, um com erciante da cidade baixa, tivera lucro tam bém ; duzentos e poucos m il-réis. Em m esa em que João j ogasse, outro parceiro ganhava sem pre, era da sua técnica. E com o o Capitão tinha um gênio esquisito (diziam os íntim os), escolhia o ganhador pela cor dos olhos, olhos que m ais se aproxim assem de uns que haviam ficado no Rio, olhando a figura do profissional com desprezo e noj o. Era de m anhã quando todos se levantaram e Rodolfo avaliou o anel em m ais de um conto. O engenheiro j ogara por trezentos e vinte no four de dam as. João ri no tom badilho do navio. "Só gente besta acredita nas dam as..."

Tinha ido para a casa de Violeta bem descansado, pensando na satisfação que a rapariga teria no dia seguinte quando ele lhe levasse aquele vestido de seda azul que ela vira num a vitrine. Pois não é que o engenheiro, em vez de perder calado, no outro dia se botou para a policia, contou um a história atrapalhada, disse cobras e lagartos de João, perguntou de que exército era a sua patente de Capitão, e a polícia só não o cham ou para um a conversa porque não o encontrou? Rodolfo o escondera bem escondido, Agripino Doca dissera-lhe m aravilhas de Ilhéus e do cacau e agora ele estava naquele navio, depois de ter passado oito m eses na Bahia, a cam inho de Ilhéus, onde surgira o cacau e com ele fortunas rápidas, o anel de engenheiro no dedo, um baralho num bolso, um cento de cartões no outro:

CAPITÃO Dr. João MAGALHÃES

ENGENHEIRO MILITAR.

Aos poucos, a tristeza de abandonar a cidade que tanto am ara naqueles oito m eses, foi desaparecendo. João com eçou a se interessar pela paisagem , árvores vistas ao longe, casas que ficavam pequeninas. O navio apitou e a água respingou o chapéu de João. Ele o tirou, passou o lenço perfum ado pela palhinha da copa e o colocou sob o braço.

Depois alisou o cabelo revolto, propositadam ente descuidado, fazendo ondas. E relanceou um olhar por todo o tom badilho, indo desde o hom em de preto que tinha a vista presa ao cais que j á não se via, até o gordo coronel que narrava ao caixeiro-viaj ante atos de bravura nas terras sem ibárbaras de São Jorge dos Ilhéus. João rodava o anel no dedo, estudava a fisionom ia dos outros viaj antes. Será que encontraria parceiro para um a m esinha? É verdade que levava um a bolada regular no bolso, m as dinheiro nunca fez m al a ninguém . Assobiou devagarinho.

No navio a conversa com eçava a se generalizar. João Magalhães sentia que não tardaria a ser envolvido pela conversa e pensava em com o conseguir parceiros a bordo. Tirou um cigarro, bateu com ele na am urada, riscou um fósforo. Depois se interessou novam ente pela paisagem , porque agora o navio ia bem próxim o á terra na saída da barra. Na frente de um a casa triste de barro, dois garotos nus, de enorm es barrigas, gritavam para o navio que passava. Do claro de outra casa, m eio escondida pela j anela, um a m oça, de rosto bonito, acenou um adeus. João calculou que aquele adeus devia ser ou para o foguista ou para toda a gente que ia no navio. Mas assim m esm o respondeu, estendendo sua m ão m agra num gesto cordial.

O coronel gordo espantava o caixeiro-viaj ante narrando um barulho que tivera num a pensão de m ulheres na Bahia. Uns m alandros fizeram -se de besta, tinham querido correr em cim a dele por causa de um a m ulatinha. Ele puxou o parabélum e bastou gritar:

- Vem com coragem que eu sou é de Ilhéus. . . - para que os m alandros recuassem acovardados.

O viaj ante se assom brava com a coragem do coronel.- O senhor foi m acho pra burro!

O Capitão João Magalhães foi se aproxim ando vagarosam ente. 4

Margot saiu de um cam arote e atravessou o navio de ponta a ponta rodando a som brinha de m uito pano, arrastando a cauda do vestido de m uito roda, se deixando adm irar pelos caixeirosviaj antes que diziam piadas; pelos fazendeiros, que arregalavam os olhos; até pelo pessoal que ia na terceira em busca de trabalho nas terras do sul da Bahia. Margot atravessou os grupos, pedindo licença com sua voz quase sussurrada e em cada grupo se fazia silêncio para m elhor a verem e a desej arem . Porém , m al ela passava, as conversas recaíam no tem a de sem pre: cacau. Os caixeiros-viaj antes olhavam Margot passando entre os fazendeiros e riam . Bem sabiam que ela ia em busca de dinheiro, ganhar facilm ente o que m uito custara aqueles hom ens rudes. Só não riram quando Juca Badaró saiu da escuridão, tom ou Margot por um braço e a conduziu para a am urada de onde viam Itaparica que desaparecia, o casario longínquo da cidade da Bahia, a noite que chegava rapidam ente, a roda do navio levantando água.

- Vosm icê de onde vem ? - Juca Badaró corria o corpo da m ulher com os olhos m iúdos, se dem orando nas pernas, nos seios. Levou a m ão às nádegas de Margot e as beliscou para sentir a dureza da carne.

Margot tom ou um a atitude de ofensa:

- Não lhe conheço... Que liberdade é essa?

Juca Badaró a segurou por debaixo do queixo, levantou sua cabeça de cachos loiros e disse

com voz pausada, os olhos penetrando nos dela:- Se nunca ouviu, vosm icê vai ouvir falar m uito em Juca Badaró.. E fique sabendo que 'ta

desde agora por m inha conta. Vej a com o se com porta porque eu não sou hom em de duas

conversas.

Largou bruscam ente o queixo de Margot, voltou-lhe as costas e partiu para a popa do navio, onde os passageiros de terceira se aglom eravam e de onde vinham sons m elodiosos de harm ônica

e violão.

5

A lua agora com eçava a subir para o alto do céu, um a lua enorm e e verm elha que deixava na negrura do m ar um rastro sanguinolento. António Vítor encolheu m ais as pernas com pridas, descansou o queixo sobre os j oelhos. A toada da canção que o sertanej o cantava perto dele se perdia na im ensidão do m ar, enchia de saudades o coração de António Vítor. Recordava as noites de lua de sua cidadezinha, noites em que os candeeiros não eram acesos, nas quais ele ia com tantos outros rapazes, e com tantas m oças tam bém pescar do alto da ponte banhada de luar. Eram noites de histórias e risadas, a pescaria era apenas pretexto para aquelas conversas, aqueles apertos de m ão quando a lua se escondia sob um a nuvem . Ivone estava sem pre perto dele, era um a m enina de quinze anos m as j á estava na fábrica, na fiação. E era o hom em da fam ília, sustentando a m ãe doente, os quatro irm ãos pequenos, desde que o pai abalara um a noite, ninguém sabia para onde. Nunca m ais dera notícia, Ivone caiu na fábrica, fazia para todas aquelas bocas. E as conversas na ponte eram sua única diversão. Descansava a cabeça de cabelos m ulatos no om bro de António e dava-lhe os lábios grossos todas as vezes que a lua se escondia. Ele plantava um a roça de m ilho com m ais dois irm ãos nas im ediações da cidade. Mas deixava tão pouco e tantas eram as notícias de farto trabalho e farto pagam ento nas terras do sul, onde o cacau dava um dinheirão, que ele um dia, igual ao pai de Ivone, igual a seu irm ão m ais velho, igual a m ilhares de outros, deixou a pequena cidade sergipana, em barcou em Aracaj u, dorm iu duas noites num a pensão barata da beira do cais da Bahia e agora estava na terceira classe de um naviozinho com destino a Ilhéus. É um caboclo alto e m agro, de m úsculos salientes e grandes m ãos calosas. Tem vinte anos e seu coração está cheio de saudade. Um a sensação que antes ele não conhecera invade seu peito. Virá da grande lua cor de sangue? Virá da m elodia triste que o sertanej o canta? Os hom ens e m ulheres espalhados no tom badilho conversam sobre as esperanças dessas terras do sul.

- Eu m e boto para Tabocas... - diz um hom em que j á não é m uito m oço, de barba rala e cabelo encrespado. - Diz que é um lugar de futuro.- Mas diz que tam bém que é um a brabeza. Que é um tal de m atar ?gente que Deus m e perdoe... - falou um pequenininho de voz rouca.- Já ouvi contar essa conversa... Mas não acredito nem um tiquinho. Se fala m uito no m undo...

- Será o que Deus quiser. . . - agora era a voz de um a m ulher que trazia a cabeça coberta com um xale.

- Eu vou é pra Ferradas... - anunciou um j ovem . - Tenho um irm ão por lá, tá bem . Tá com o coronel Horácio, um hom em de dinheiro. Vou ficar com ele. Já tem lugar pra m im trabalhar. Depois volto pra buscar a Zilda..- Tua noiva? - perguntou a m ulher.

- Minha m ulher, tá com um a filhinha de dois anos, outro no bucho. Um a lindeza de m enina.

- Tu não volta é nunca... - falou um velho envolto num a capa. - Tu não volta é nunca, que Ferradas é o cu do m undo. Tu sabe m esm o o que é que tu vai ser nas roças"o coronel Horácio? Tu vai ser trabalhador ou tu vai ser j agunço. Hom em que não m ata não tem valia pro coronel. Tu não volta é nunca.. - e o velho cuspiu com raiva.

António Vítor ouve? as conversas m as a m úsica que vem de outro grupo, harm ónica e violão, o arrasta novam ente para a ponte de Estância onde é belo o luar e a vida é tranquila. Ivone sem pre lhe pedia que não viesse. A roça de m ilho bastaria para eles dois, para que essa ânsia de vir buscar dinheiro num lugar do qual contavam tanta coisa ruim ? Nas noites de lua, quando as estrelas enchiam o céu, tantas e tão belas que ofuscavam a vista, os pés dentro da água do rio, ele planej ava a vinda para estas terras de Ilhéus. Hom ens escreviam , hom ens que haviam ido antes, e contavam que o dinheiro era fácil, que era fácil tam bém conseguir um pedaço grande de terra e plantá-la com um a árvore que se cham ava cacaueiro e dava frutos cor de ouro que valiam m ais que o próprio ouro. A terra estava na frente dos que chegavam e não era ainda de ninguém . Seria de todo aquele que tivesse coragem de entrar m ata adentro, fazer queim adas, plantar cacau, m ilho e m andioca, com er alguns anos farinha e caça, até que o cacau com eçasse a frutificar. Então era a riqueza tanto dinheiro que um hom em não podia gastar, casa na cidade, charutos, botinas rangedeiras. De quando em vez tam bém a notícia de que um m orrera de um tiro ou da m ordida de um a cobra, apunhalado no povoado ou baleado na tocaia. Mas que era a vida diante de tanta fartura? Na cidade de António Vítor a vida era pobre e sem possibilidades. Os hom ens viaj avam quase todos, raros voltavam . Mas esses que voltavam - e voltavam sem pre num a rápida visita vinham irreconhecíveis após os anos de ausência. Porque vinham ricos, de anelões nos dedos, relógio de ouro, pérolas nas gravatas. E j ogavam o dinheiro fora, em presentes caros para os parentes, dádivas para as igrej as e para os santos padroeiros, em apadrinham ento das festas de fim de ano: "Voltou rico", era só o que se ouvia dizer na cidade. Cada hom em daqueles que chegava e logo partia, porque não m ais se acostum ava com a pacatez daquela vida, era m ais um convite para Antonio Vítor. Só Ivone é que ainda o prendia ali. Os lábios dela, o calor dos seus seios, os rogos que ela fazia com a voz e com os olhos. Mas um dia rom peu com tudo aquilo e partiu. Ivone soluçara na ponte onde se haviam despedido. ele prom etera:

- Enrico num ano, venho lhe buscar.

Agora a lua de Estância está sobre o navio m as não tem aquela cor am arela com a qual cobria os nam orados na ponte. Ela está verm elha, tinta de sangue e um velho diz que ninguém volta destas terras do cacau. António Vítor sente um a sensação desconhecida. Será m edo? Será saudade? Ele m esm o não sabe o que sej a. Aquela lua recorda-lhe Ivone de lábios suplicando que ele não parta, de olhos cheios de lágrim as na noite da despedida. Não havia lua naquela noite, não havia ninguém sobre a ponte, pescando. Estava escuro e o rio m urm urava em baixo, ela se encostou nele, seu corpo quente, seu rosto m olhado de lágrim as.

- Tu vai m esm o?

Ficou em silencio um longo m inuto, triste.

- Tu vai e não volta m ais.

- Juro que volto.

Ela fez que não com a cabeça, se deitou depois na m argem do rio e o cham ou. Abriu o corpo para ele com o um a flor se abre para o sol. E deixou que ele a possuísse, sem dizer um a palavra, sem soltar um lam ento. Quando ele term inou, os olhos ainda esbugalhados pelo im previsto da oferta, ela baixou o vestido de chita onde agora o seu sangue coloria novam ente as flores j á desbotadas, cobriu o rosto com a m ão e disse com a voz entrecortada:- Você não vai voltar m ais, outro ia m e pegar um dia qualquer. E m elhor ser m esm o com tu. Assim tu fica sabendo quanto eu gosto de você.- Juro que volto...

- Tu não volta m ais. . .

E ele veio apesar do gosto do corpo de Ivone o prender ali, de saber que deixara nela um filho. Dizia para si m esm o que ia fazer dinheiro para ela e para o filho, voltaria com um ano. A terra era fácil em Ilhéus, plantaria um a roça de cacau, colheria os frutos, voltaria por Ivone e pela criança. O pai dela não voltou, ninguém sabia m esm o onde ele estava. Um velho está dizendo que ninguém volta destas terras, nem m esm o os que tem m ulher e dois filhos. Por que essa harm ónica não pára de tocar, por que essa m úsica é tão triste? Por que é verm elha com o sangue essa lua sobre o m ar?

6

A canção é triste com o um presságio de desgraça. O vento que corre sobre o m ar a arrasta consigo e a espalha em sons m usicais que parecem não term inar. Um a tristeza vem com a m úsica, envolve os hom ens da terceira, tom a conta da m ulher grávida que aperta o braço de Filom eno. Os sons da harm ónica acom panham a m elodia que o j ovem canta com um a voz forte. António Vítor se fecha m ais em si m esm o, dentro dele as im agens de Estância quieta, de Ivone se entregando sem um gem ido, se confundem com novas im agens de um a terra ainda inconquistada, de barulhos com tiros e m ortes, dinheiro, m aços de notas. Um hom em que vai sozinho e não fala com ninguém , atravessa os grupos, vem se debruçar na am urada. A lua deixa um rastro verm elho sobre o m ar, a canção rasga corações.

“Meu am or, eu vou-m e em bora Nunca m ais eu vou voltar.”

Outras terras ficam distantes, visões de outros m ares e de outras praias ou de um agreste sertão batido pela seca, outros hom ens ficaram , m uitos dos que vão no pequeno navio deixaram um am or. Alguns vieram por esse m esm o am or, buscar com que conquistar a bem -am ada, buscar o ouro que com pra a felicidade. Esse ouro que nasce nas terras de Ilhéus, da árvore do cacau. Um a canção diz que j am ais voltarão, que nessas terras a m orte os espera atrás de cada árvore. E a lua é verm elha com o sangue, o navio balança sobre as águas tranquilas.

O velhote veste capa e traz as pernas nuas, os pés descalços. Tem os olhos duros, pita um a ponta de cigarro de palha. Alguém lhe pede fogo, o velho puxa um a baforada para avivar a brasa do cigarro.

- Obrigado, m eu tio.

- Não por isso...

- Parece que vai cair tem poral...

- E tem po de vento sul. . . Tem vez que é um a disgram a, não tem em barcação que arrisista... A m ulher se envolveu:

- Tem poral tem é no Ceará... Parece um fim de m undo. . .- Já ouvi falar - disse o velho. - Diz que é m esm o.

Se j untaram a um grupo que conversava em torno de hom ens que j ogam baralho. A m ulher quer saber.

- Vosm ecê é de Ilhéus?

- Tou em Tabocas vai fazer cinco anos. Sou do sertão...- E que veio fazer pra essas bandas com essa idade?- Não vê que prim eiro veio m eu filho Joaquim ... Se deu bem , fez um a rocinha, a velha m orreu, ele m andou m e buscar...

Ficou calado, agora parecia prestar m uito atenção à m úsica que o vento levava para os lados da cidade escondida na noite. Os outros estavam esperando. Mas só o rum or das conversas na prim eira classe e a toada que o negro cantava quebravam o silencio.

“Nunca m ais eu vou voltar. Nessas terras vou m orrer.”

A voz cantava e os hom ens se encolhiam com frio. O vento passava rápido, vinha do sol e era violento. O navio j ogava sobre as ondas m uitos daqueles hom ens nunca tinham entrado num navio. Tinham atravessado as ásperas catingas do sertão num trem que arrastava vagões e vagões de im igrantes. O velho olhava-os com seus olhos duros.

- Tão vendo essa m odinha? "Nessas terras vou m orrer". Tá aí um a coisa verdadeira... Quem vai pra essas terras nunca m ais volta. . . Tem um a coisa que parece feitiço, é feito visgo de j aca. Segura a gente...- Tem dinheiro fácil, não é? - o j ovem se atirou para a frente de olhos acesos.- Dinheiro. . . Tá aí o que prende a gente. A gente chega, faz algum dinheiro, que dinheiro há m esm o, Deus sej a servido. Mas é dinheiro desgraçado, um dinheiro que parece que tem m aldição. Não dura na m ão de ninguém , a gente faz um a roça..

A m úsica vinha em surdina, os j ogadores haviam parado a "ronda". O velho fitou o j ovem bem dentro dos olhos, depois relanceou a vista pelos dem ais hom ens e m ulheres que estavam presos às suas palavras:

- Já ouviram falar em `caxixe"?

- Diz que é um negócio de doutor que tom a a terra do? outros..- Vem um advogado com um coronel, faz caxixe, a gente nem sabe onde vai parar os pés de cacau que a gente plantou. .

Espiou em volta novam ente, m ostrou as grandes m ãos calosas:- Tão vendo? Plantei m uito cacaueiro com essas m ãos que tão aqui... Eu e Joaquim enchem os m ata e m ata de cacau, plantam os m ais que m esm o um bando de j upará que é bicho que planta cacau... Que adiantou? – perguntava a todos, aos j ogadores, à m ulher grávida, ao j ovem . Ficou novam ente ouvindo a m úsica, fitou longam ente a lua:- Diz que a lua quando tá assim cor de sangue que é desgraça na estrada nessa noite. Tava assim quando m ataram Joaquim . Não tinham por que, m ataram só de m alvadez.

- Por que m ataram ele? - perguntou a m ulher.- O coronel Horácio fez um caxixe m ais Dr. Rui, tom aram a roça que nós havia plantado. Que a terra era dele, que Joaquim não era dono. Veio com os j agunços m ais um a certidão do cartório. Botou a gente pra fora, ficaram até com o cacau que j á tava secando, prontinho pra vender. Joaquim era bom no trabalho, não tinha m esm o m edo do pesado. Ficou acabado com a tom ada da roça, deu de beber. E um a vez, j á bebido, disse que ia se vingar, ia liquidar com o coronel. Tava um cabra do coronel por perto, ouviu, foi contar. Mandaram tocaiar Joaquim , m ataram ele na outra noite, quando vinha pra Ferradas. . O velho silenciou, os hom ens não ?perguntaram m ais nada. Os j ogadores voltaram ao seu j ogo, o que estava com o baralho botou duas cartas no chão, os outros apostaram . A m úsica m orria aos poucos na noite. O vento aum entava de m inuto a m inuto. O velho voltou a falar:

- Joaquim era um hom em de paz, ele não ia m atar ninguém . O coronel Horácio bem sabia, os cabras tam bém sabia. Ele disse aquilo porque tava bêbedo, não ia m atar ninguém . Era um hom em do trabalho, queria era ganhar com que viver... Sentiu que tom assem a roça, isso sentiu. Mas só falou porque tinha bebido.. Não era hom em pra m atar.. Liquidaram ele pelas costas...- Foram presos?

O velho olhou com raiva:

- Na m esm a noite que m ataram ele, tavam bebendo num a venda, contando com o o caso tinha se dado..

Fez-se silencio no grupo, só um j ogador falou: ?- Sete...

Mas o .outro nem recolheu o dinheiro, absorto na figura do velho que agora estava dobrado e parecia esquecido do m undo, sozinho na sua desgraça. A m ulher grávida perguntou baixinho:

- E vosm ecê?

- Me tocaram pra Bahia, que eu não podia ficar m ais lá... Mas agora tou voltando...

O velho se alterou de súbito, seus olhos adquiriram novam ente aquele brilho duro que haviam perdido no fim da sua narração, falou com voz decidida:- Agora vou pra não voltar m ais. . . ninguém agora vai m e botar pra fora. . . É o destino que faz a gente, dona. . . Ninguém nasce ruim ou bom , o destino é que entorta a gente..

- Mas... - e a m ulher calou.

- Pode falar sem susto.

- Com o é que vosm ecê vai viver?... Já não tá em idade de pegar no pesado...- Quando a gente tem um a tenção, dona, a gente sem pre se arranj a... E eu tenho um a tenção... Meu filho era um hom em bom , ele não ia m atar o coronel. Eu tam bém nunca suj ei essas m ãos m ostrava as m ãos calosas do trabalho na terra -com sangue. Mas m ataram m eu filho...

- Vosm ecê? - fez a m ulher com espanto.

O velho virou as costas e saiu devagar.

- Mata m esm o... - com entou um hom em m agro. A m úsica cresceu m ais um a vez dentro da noite, a lua subia rapidam ente para o céu. O que estava com o baralho balançou a cabeça apoiando o com entário do hom em m agro, voltou a dar cartas. A m ulher grávida apertou o braço de Filom eno, falou baixinho:

- Tou com m edo. . .

A harm ónica cessou sua m úsica. O luar se derram ava em sangue. 7

José da Ribeira dom inava outro grupo. Contava casos da terra do cacau, histórias e m ais histórias. Cuspia a todo m om ento, estava feliz em poder falar, dizer para aquela gente o que sabia. Ouviam -no atentam ente, com o se ouve a um a pessoa que tem o que ensinar.

- Quase que eu não vinha - diz um a m ulher baixa que am am enta um a criança - porque m e contaram que dava um a febre por essas boas das que m ata até m acaco.

José riu, os outros se voltaram para ele. ele tom ou um a voz de conhecedor:- Não contaram m entira, não, siá dona. Já vi tanto hom em cair com essa febre, hom em forte que nem cavalo. Com três noites de febre, força do hom em era um dia.

- Não é a tal da bexiga?

- Bexiga tem m uito tam bém , m as não é dela que tou falando. Tem bexiga de toda espécie, m as a que tem m ais é a negra que é a pior de todas. Nunca vi m acho escapar da bexiga negra. Mas não é dela que tou falando. Tou falando é da febre, ninguém sabe que febre é, que nom e a desgraçada tem . Vem sem o cuj o esperar, liquida ele num fechar de olhos.

- T'esconj uro... - fez outra m ulher.

José cuspiu, relem brou:

- Apareceu um doutor, tinha tirado diplom a de m édico, era m ocinho, nem barba possuía ainda, um a lindeza de rapaz. Diz que ia acabar com a febre lá em Ferradas. A febre acabou antes com ele, acabou toda a lindeza; foi o defunto m ais feio que eu j á vi. Mais feio m esm o que o finado Garangau que m ataram nos Macacos a faca e cortaram todo e arrancaram os olhos, a língua e a pele do peito.

- Pra que fizeram isso com o pobrezinho? – perguntou a m ulher que am am entava.

- Pobrezinho? - José da Ribeira riu e sua risada era para dentro, parecia que ele estava se divertindo enorm em ente - Pobrezinho? Se j á apareceu j agunço ruim pelas bandas do sul foi Vicente Garangau. Num dia só ele liquidou sete hom ens de Juparana... Cabra m alvado com o Deus não fez dois... O grupo estava im pressionado m as um cearense troçou:- Sete é a conta do m entiroso, seu José.

José riu de novo, pitou seu cigarro, não se aborreceu:- Tu é criança, que é que tu j á viu nessa vida? Tu m e vê aqui, tou com m ais de cinquenta no costado, j á andei m uita terra, tenho dez anos dentro dessas m atas. Já fui soldado do exército, j á vi m uita desgraça. Mas não tem nada no m undo que chegue perto das desgraceiras daqui. Tu j á viu falar em tocaia?- Já, sim - gritou outro hom em . - Diz que um fica esperando o outro atrás de um pau para atirar no desinfeliz.

- Pois olhe. Tem hom em de alm a tão danada que se posta na tocaia e aposta dez m il-réis m ais o am igo pra ver de que lado o finado vai cair. E o prim eiro que vem na estrada recebe chum bo que é pra aposta se decidir. Tu j á ouviu falar disso?

O cearense estrem ece, um a das m ulheres não quer acreditar:- Só pra ganhar um a aposta?

José da Ribeira cospe, explica:

- Tou aqui, j á corri m uito m undo, fui soldado, vi coisa de arrepiar. Com o por essas bandas nunca vi nada... terra de hom em m acho, m as tam bém dinheiro é cam a de gato. Se o cuj o é bom no gatilho passa vida regalada...- E vosm ecê o que é que faz por lá?

- Fui pra lá de sargento da polícia, pus um a rocinha que é bem m elhor que as dragonas, tou vivendo dela. Vim na Bahia agora arej ar, com prar um as coisas que tava precisando.

- E tá voltando de terceira, tio? - chasqueou o cearense. Ele riu novam ente seu riso para dentro, confessou:- As brancas com eram o dinheiro todo, m eu filho. Dentro daquela m ata, onça é que é m ulher da gente... De m odo que quando o cuj o vê um rabo branco, na capital, fica de m iolo virado... Fiquei m ais lim po que pedra de rio. . . Mas ninguém com entou porque agora um hom em baixo de rebenque na m ão e chapéu Chile, estava parado diante deles. José se voltou, cum prim entou hum ildem ente:

- Com o vai vosm ecê, seu Juca?

- Com o vai, Zé da Ribeira? Com o vai tua roça?- Tou fora, vai fazer trinta dias. . Este ano vou derrubar m ais m ata, assim Deus m e aj ude...

Juca Badaró assentiu com a cabeça, olhou o grupo:- Você conhece essa gente, Zé da Ribeira?

- Tou conhecendo agora, seu Juca. Por que, se m al lhe pergunto? Juca em vez de responder andou m ais para o m eio dos hom ens, perguntou a um deles:

- Você de onde vem ?

- Do Ceará, patrão. Do Crato...

- Era tropeiro?

- Não, sinhô. . . Tinha um a plantaçãozinha. . . - e sem esperar a pergunta: - A seca acabou com ela.

- Tem fam ília ou é sozinho?

- Tenho m ulher e um filho pra nascer...

- Quer trabalhar pra m im ?

- Inhô, sim .

E assim Juca Badaró foi contratando gente, o j ogador que dava cartas, um dos seus parceiros, o cearense, o j ovem António Vítor que olhava o céu de m il estrelas. Muitos hom ens se ofereceram e Juca Badaró os recusou. Ele tinha um a grande experiencia dos hom ens e sabia conhecer facilm ente aqueles que serviriam para as suas fazendas, para a conquista da m ata, para o trabalho da terra e pra garantir a terra cultivada.

8

O Capitão João Magalhães m andou descer vinho português. - O caixeiro-viaj ante aceitou-O coronel disse que não, O j ogo do navio atacava seu estôm ago:- Tá um vento brabo. . . Se eu tom ar vinho boto os burrinhos n'água...- Cervej a, então? Um conhaque?

O coronel não queria nada. João Magalhães contava grandezas, sua vida no Rio, capitão do exército m as tam bém hom em de negócios e rico.- Sou proprietário de m uitas casas... De apólices tam bém ... Rapidam ente estava inventando a história de um a herança recebida de um a tia m ilionária e sem filhos. Falava em políticos em inentes da época, seus am igos -dizia -, gente que ele tuteava, com quem bebia e j ogava. Deixara o exército, se reform ara, agora andava viaj ando o seu país. Estava vindo desde o Rio Grande do Sul, pretendia ir até o Am azonas Antes de viaj ar no estrangeiro queria conhecer bem o Brasil, não era com o essa gente que pega um dinheirinho, vai logo gastar com as francesas em Paris... O coronel aprovava, achava m uito patriótico e quis saber se era verdade que as "tais francesas" que existiam no Rio, se elas faziam m esm o "tudo" ou se isso era conversa de gente descarada. Porque j á tinham dito a ele que no Rio havia um a espécie de m ulheres assim . . João Magalhães confirm ou e se alongou em detalhes escabrosos, apoiado pelo caixeiro-viaj ante que tam bém queria m ostrar conhecim entos (j á estivera no Rio um a vez e essa viagem era o fato m ais im portante da sua vida). O coronel se deliciava com os detalhes.

- O que é que m e conta, Capitão? Mas isso é um a porcaria. . O Capitão João Magalhães então carregava nas tintas. Mas não se dem orou m uito nessas descrições, voltou a falar na sua fortuna, nas suas boas relações. O coronel não precisava de nada no Rio. De algum em penho j unto a algum político im portante? Se precisasse era só dizer. Ele estava ali para servir aos am igos e, se bem tivesse conhecido o coronel fazia pouco, tinha sim patizado im ensam ente com ele, seria feliz de servi-lo. O coronel não precisava de nada no Rio m as ficou m uito agradecido e com o Maneca Dantas ia passando, pesadão e gorducho, a cam isa suada e as m ãos pegaj osas, ele o cham ou e fez as apresentações:- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é m esm o que m ato...

João Magalhães se levantava, m uito gentil:

- Capitão João Magalhães, engenheiro m ilitar para o servir. Dobrava o canto de um dos cartões, entregava ao coronel Maneca. Depois ofereceu um a cadeira, fez que não ouviu o com entário do caixeiro-viaj ante para o coronel Ferreirinha:- Moço distinto...

- De educação...

O coronel Maneca aceitava vinho. Enj oo não ia com ele:- Tou aqui é com o se tivesse em m inha cam a lá na Auricídia. Auricídia é o nom e lá de m inha rocinha, Capitão. Se quiser passar uns dias lá com endo carne seca... Ferreirinha riu escandalosam ente:

- Carne seca... Capitão, na Auricídia, alm oço é banquete, j antar é festa de batizado. Dona Auricídia tem um as negras na cozinha que tem m ão de anj o... - e o coronel Ferreirinha passava a língua nos lábios gulosam ente, com o se estivesse vendo os pratos. - Fazem um sarapatel que é de deixar um cristão vendo o paraíso...

Maneca Dantas sorria, inchado, com os elogios à sua cozinha. E explicava:- É o que se leva da m undo, Capitão. A gente vive num as brenhas danadas, derrubando m ata pra plantar cacau, labutando com cada j agunço desgraçado, escapando de m ordida de cobra e de tiro de tocaia, se a gente não com er bem , o que é que vai fazer? Lá não tem esses luxos da cidade, teatro, pensão de m ulher, cabaré, nada disso. É trabalho dia e noite, derrubar m ata e plantar roça... Ferreirinha apoiava:

- O trabalho é duro, sim .

- Mas tam bém o dinheiro é de fartura. . . - atalhou o caixeiro-viaj ante lim pando os lábios suj as de vinho.

Maneca Dantas sorriu de novo:

- Que isso é verdade, é m esm o. A terra é boa, Capitão, paga a pena. Dá m uito cacau e a lavoura é boa, deixa bom lucro. Disso a gente não pode se queixar. Dá sem pre para se poder oferecer um alm oço aos am igos...- Vou alm oçar lá no dia 16 -- avisou o viaj ante. Quando eu passar para o Sequeiro Grande vou pernoitar lá.

- As ordens... - fez Maneca. - E o senhor tam bém aparece, Capitão? João Magalhães disse que sim , era bem possível. Pensava se dem orar na zona algum tem po, ia m esm o ver se valia a pena em pregar algum dinheiro em terra, em roças de cacau. Desde o Rio que vinham lhe falando desta zona, da dinheiram a que havia por lá. Estava tentado a em pregar um a parte do seu capital em fazendas de cacau. É verdade que ele tam bém não podia se queixar, tinha a m aior parte do seu dinheiro em prédios no Rio e davam boa renda. Mas restava-lhe algum no banco, um as dezenas de contos e m uita apólice da dívida pública. Se valesse a pena...

Maneca Dantas falou sério, aconselhando:

- Pois vale, seu Capitão. Vale a pena.. . Cacau é um a lavoura nova m as a terra daqui é a m elhor do m undo para cacau. Já veio m uito doutor por aqui estudar e isso é coisa assentada. Não há terra m elhor pro cacau. E a lavoura é o que há de bom , eu não troco por café nem por cana de açúcar. Só que a gente ainda é um bocado braba m as isso não há de m eter m edo a um hom em com o o senhor. Seu Capitão, eu lhe digo: dentro de vinte anos Ilhéus é um a grande cidade, um a capital e todos esses povoados de hoj e vão ser cidades enorm es. Cacau é ouro, seu Capitão.

A conversa foi assim se prolongando, falaram da viagem , João Magalhães falou de outras paisagens, viagens de trem , de navios enorm es, seu prestígio crescia de m om ento para m om ento. A roda foi aum entando tam bém , contavam histórias, o vinho corria. João Magalhães foi conduzindo a conversa subtilm ente para o terreno dos j ogos, acabaram por fazer um a m esinha de pôquer. O coronel Totonho, dono do Riacho Seco, aderiu, e o caixeiro-viaj ante desistiu porque o cacife era m uito alto e o "hand" tam bém . Ficaram os três coronéis e m ais João, os outros peruando. Maneca Dantas tirou o paletó:- Não sei j ogar isso. . .

Ferreirinha estrugiu de novo na sua gargalhada:- Não vá atrás disso, Capitão. . . O Maneca é um m estre no pôquer... Não há parceiro que se aguente com ele.

Agora Maneca botava o revólver no bolso de dentro do paletó para que não ficasse à vista no cinto, e João Magalhães cogitava se valia a pena perder nesse prim eiro j ogo, não m ostrar de vez as suas qualidades. O rapaz do bar trouxe um baralho, Maneca perguntou:- Curingado?

Continuar: parte 2 de 4