Terras do Sem Fim
Ainda não haviam sequer esfriado os com…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No cais de Ilhéus os am igos de Horácio apertavam a sua m ão, lam entavam as barbaridades dos Badarós. Horácio não dizia nada. Procurava Braz entre os presentes, foi com ele que conversou longam ente na sala da delegacia. Prom etera ao interventor que tudo seria feito legalm ente. Daí os j agunços que assaltaram a fazenda dos Badarós, e cercaram a casa-grande, aparecerem nos j ornais que noticiaram o fato transform ados em "soldados da polícia que procuravam capturar o incendiário Teodoro das Baraúnas, que segundo constava, estava acoitado na fazenda Sant'Ana".
O cerco da casa-grande dos Badarós foi o fim da luta pela posse das terras de Sequeiro Grande. Teodoro quis se entregar para assim tirar o pretexto legal de que Horácio se valia. Sinhô não adm itiu, fez com que ele em barcasse escondido para Ilhéus, onde am igos o m eteram num navio que saía para o Rio de` Janeiro. Depois se veio a saber que Teodoro fixara residência em Vitória do Espírito-Santo, com um a casa de com ércio. Talvez Horácio tenha sabido da fuga de Teodoro. Mas, se o soube, nada disse, continuava a cercar a casa-grande da fazenda Sant'Ana com o se nela Teodoro estivesse escondido. A m ata de Sequeiro Grande estava derrubada, agora as queim adas se confundiam com as roças incendiadas, não havia lim ites entre elas. Não existiam m ais nem onças nem m acacos, não m ais assom brações tam bém . Os trabalhadores haviam encontrado os ossos de Jerem ias e os haviam enterrado. Em cim a plantaram um a cruz.
Sinhô Badaró resistiu, com seus cabras, quatro dias e quatro noites. E só quando ele caiu ferido e foi, por ordem de Don'Ana, conduzido para Ilhéus, é que Horácio pode se aproxim ar da casa-grande. Sinhô descera pela m anhã num a rede levado nos om bros dos hom ens, e, à noite, o capitão João Magalhães fez com que Olga e Don'Ana m ontassem e viaj assem tam bém . Raim unda ia com elas, cinco j agunços as acom panhavam . Devia naquela noite dorm ir na fazenda de Teodoro, no dia seguinte alcançar o trem para Ilhéus.
João Magalhães, com os hom ens que lhe restavam , se entrincheirou na beira do rio. António Vítor, ao seu lado, de quando em vez suspendia a repetição e disparava. O capitão, olhos acostum ados á luz da cidade, não distinguia nada nas trevas daquela noite sem lua. Sobre quem o m ulato atirava? Mas o tiro que respondia provava que António Vítor tinha razão, os olhos do m ulato estavam habituados á escuridão das roças, via perfeitam ente dentro da noite os hom ens que se aproxim avam .
Foram , por fim , cercados, tiveram que recuar para a estrada, a m aioria caiu na m ão dos cabras de Horácio. Recuaram João Magalhães e seis hom ens, cada vez para m ais longe, cada vez um núm ero m enor de cabras, até que foram quatro som ente. Então António Vítor desapareceu, quando voltou trazia um burro selado:
- Seu capitão, m onte e vá em bora. Aqui não há m ais o que fazer.
Era verdade. Os cabras de Horácio, com Braz á frente, entravam no terreiro da casa-grande dos Badarós. João Magalhães perguntou:- E vocês
- Nós vai a pé guardando vosm ecê...
No m esm o m om ento que eles partiram , Braz entrava na varanda da casa deserta. Havia um silencio com pleto na noite sem lua. Os cabras de Horácio estavam reunidos no terreiro, prontos para entrar na casa. Um deles, obedecendo a um a ordem , riscou um fósforo para acender um fifó. O tiro veio de dentro da casa, raspou na luz, não m atou o hom em por um m ilagre. Os outros se atiraram no chão, foram entrando de rastros na casa. De dentro alguém atirava, procurando visar Horácio no m eio dos capangas, Braz avisou o coronel:- E m ais de um ...
Entraram na casa, as arm as na m ão, os olhos atentos, procurando. Iam ,com ódio, queriam fazer a estes últim os defensores m ais ainda do que haviam feito aos que caíram na beira do rio e na estrada e dos quais haviam arrancado os olhos e os beiços, as orelhas e os ovos. Correram a casa toda sem encontrar ninguém . Os tiros haviam cessado, Braz com entou:- Term inou a m unição. . .
Braz ia na frente, dois cabras a seu lado, Horácio vinha logo atrás. Só restava o sótão. Foram subindo a escada estreita, Braz abriu a porta com um pontapé. Don'Ana Badaró atirou, um cabra caiu. E com o era a últim a bala que lhe restava, ela j ogou o revólver para o lado de Horácio e disse com desprezo:- Agora m ande m e m atar, assassino...
E deu um passo à frente. Braz abria a boca num espanto. Ele tinha visto quando ela passara com Olga e Raim unda, guardada por uns poucos hom ens, fugindo. Ele deixara que a com itiva passasse ao alcance das balas, sem atirar. Com o diabo tinha voltado? Don'Ana deu outro passo à frente, seu voltou encheu a pequena porta do sótão.
Horácio saiu para um lado da escada:
- Vá em bora, m oça... Eu não m ato m ulher..
Don'Ana baixou a escada, atravessou a sala, olhou a óleo-gravura, um a bala quebrara o vidro, rasgara o peito da m oça que bailava. Saiu para o terreiro, os hom ens a fitavam m udos. um m urm urou:
- Diabo de m ulher coraj osa!
Don'Ana tom ou um dos cavalos que estavam arreados, olhou m ais um a vez a casa-grande, m ontou, esporeou o anim al e partiu na noite sem lua e sem estrelas. Só então, depois do seu vulto ter se perdido na estrada, Horácio levantou o braço e a voz, deu um a ordem , os hom ens puseram fogo na casa-grande dos Badarós. 15
O Dr. Genaro, que era am igo de frases brilhantes, costum ava dizer, anos depois, quando se m udara para a Bahia onde podia educar m elhor os filhos, ao se referir aos barulhos de Sequeiro Grande:
- Toda aquela tragédia term inou num a com édia...
Ele queria se referir ao j ulgam ento de Horácio pelo j úri de Ilhéus. Pouco antes o j uiz lavrara sentença no processo m ovido por Horácio em defesa dos seus direitos de propriedade das terras de Sequeiro Grande. A sentença reconhecia os direitos do coronel Horácio da Silveira e dos seus associados e entregava Teodoro das Baraúnas à prom otoria pública para ser processado pelo incêndio do cartório de Venâncio em Tabocas. Tam bém Sinhô Badaró e o capitão Magalhães eram acusados por haverem registrado um título ilegal de propriedade. Esse novo processo não seguiu adiante porque Horácio, a conselho de Virgílio, não se interessou por ele. A fam ília Badaró econom icam ente estava m al, devendo dinheiro aos exportadores, com duas safras sacrificadas, as suas fazendas não haviam aum entado nesse ano de barulho. Ao contrário, não só a casa-grande, as barcaças e as estufas estavam destruídas com o as m udas de cacaueiro tinham sido queim adas, algum as roças sofreram grandes danos. Os Badarós levariam m uitos anos a reconstruir um a parte daquilo que fora a sua grande fortuna. Já não eram adversários para Horácio.
E o j úri foi apenas um consagração do coronel. Ele se entregou á prisão na véspera do j ulgam ento. A m elhor sala da Prefeitura Municipal, que era onde funcionavam tam bém o foro e a cadeia, foi transform ada em dorm itório. Braz dispensou os soldados, ele m esm o fazia com panhia a Horácio. Os am igos encheram a sala, o coronel conversava, m andava vir uísque, foi um a farra a noite toda.
O j úri se iniciou no outro dia às nove horas da m anhã, durou até as três da m adrugada do dia seguinte. Os Badarós haviam feito vir da Bahia um advogado de m uito renom e, Dr. Fausto Aguiar para, com Dr. Genaro, servir de aj udante da prom otoria. O novo prom otor, toda gente sabia, ia fazer um a acusação m uito deficiente, era correligionário político de Horácio.
O Juiz entrou na sala, acom panhado do prom otor, dos escrivães e dos m eirinhos, vestia a toga negra, sentou-se na alta cadeira sobre a qual um a im agem de Cristo crucificado vertia sangue de um verm elho escuro. Ao lado do j uiz sentou-se o prom otor, puseram cadeiras para o Dr. Genaro e o Dr. Fausto, aj udantes de prom otoria. Na tribuna da defesa se encontravam Virgílio e Dr. Rui. O j uiz pronunciou as palavras regulam entares, a sessão do j úri estava aberta. Um a m ultidão invadiu a sala sobrava gente pelos corredores. Um m enino, que anos depois iria escrever as histórias dessa terra, foi cham ado por um m eirinho para sacar da urna o nom e dos cidadãos que iriam constituir o conselho de sentença. Sacou um cartão, o j uiz leu o nom e, um hom em se levantou, atravessou a sala, tom ou assento num a das sete cadeiras reservadas aos j urados. Mais outro cartão saiu da urna. O j uiz leu:
- Manuel Dantas.
O coronel Maneca Dantas se levantou, m as nem chegou a andar. A voz do Dr. Genaro atravessou a sala:
- Recuso...
- Recusado pelo órgão de acusação... - anunciou o j uiz. Maneca Dantas sentou-se, o m enino continuava a tirar os cartões. De vez em vez um nom e era recusado, ora pela prom otoria, ora pela defesa, por fim o conselho de j urados ficou constituído. Entre os assistentes se trocavam com entários:- Absolvido por unanim idade.. .
- Não sei não... Há dois votos duvidosos... - ciciavam nom es.- Talvez três - disse outro. - José Faria não é m uito de Horácio, não... Pode votar contra...
- Ontem Dr. Rui estava em casa dele. Vota pela absolvição.- Vai haver apelação. . .
- Unanim idade na certa, que apelação que nada As apostas eram sobre a possibilidade ou não de apelação. O Suprem o Tribunal do Estado respondia ainda ao governo derrubado. Se houvesse apelação talvez Horácio fosse condenado ou, pelo m enos, enviado a novo j úri. A m aioria dos assistentes, porém , achava que o coronel seria absolvido por unanim idade não havendo, por consequência lugar para a apelação. Os j urados prestaram j uram ento de "j ulgar com j ustiça, de acordo com as provas e a sua consciência" e se sentaram . O m enino que tirara os cartões da urna deixou o estrado do j uiz e veio se sentar por detrás da tribuna de defesa. E desse lugar assistiu a todo o j ulgam ento, escutando de olhos acesos os debates. Mesm o pela m adrugada, quando alguns assistentes cochilavam nos bancos, o m enino seguia nervoso o desenrolar do espetáculo.
Os com entários pararam de súbito e um silencio se elevou na sala porque o j uiz ordenava ao delegado que fizesse entrar o réu. Braz saiu para logo voltar acom panhando o coronel Horácio da Silveira. Dois soldados o ladeavam . Horácio vestia um fraque negro, o cabelo penteado para trás, o rosto sério, quase com pungido. Parou em frente ao j uiz, o silencio era pesado, os assistentes se dobraram para a frente. O j uiz perguntou:
- Seu nom e?
- Horácio da Silveira, coronel da Guarda Nacional.- Profissão?
- Agricultor.
- Idade?
- Cinquenta e dois anos.
- Residência?
- Fazenda Bom Nom e, no m unicípio de Ilhéus.- Sabe do que é acusado?
A voz do coronel era clara e forte:
- Sim .
- Tem algum a coisa a aduzir em sua defesa?
- Os m eus advogados o farão. . .
- Tem advogados? Quais?
- O Dr. Virgílio Cabral e o Dr. Rui Fonseca.
O j uiz apontou o pequeno banco dos réus:
- Pode sentar-se.
Mas Horácio se m anteve de pé. Braz com preendeu retirou o banco hum ilhante, trouxe um a cadeira. Ainda assim Horácio não se sentou. Foi um a sensação pela sala. Dr. Rui peticionou ao j uiz para que concedesse ao acusado o direito de assistir ao j ulgam ento de pé e não sentado naquele sim bólico banco dos crim inosos. O j uiz concedeu e de todos os cantos da sala se podia ver a figura gigantesca do coronel, as m ãos cruzadas sobre o peito, os olhos fitos no j uiz. O m enino se levantara para v-lo m elhor e o encontrou soberbo j am ais o esqueceria.
O escrivão lia o processo. A leitura durou três longas horas, os depoim entos das testem unhas desfilando um a um . De quando em vez os advogados tom avam notas em papéis. Ao lado do Dr. Genaro se elevava um a pilha de livros gordos de direito. Quando term inou a leitura do processo era um a da tarde e o j uiz suspendeu a sessão por um a hora para o alm oço. O conselho de j urados ficou na sala, sem poder se avistar com ninguém , o alm oço para eles veio do hotel, pago pela Prefeitura. Apenas para Cam ilo Góis veio de casa, j á que ele sofria do estôm ago e tinha um a dieta especial.
O m enino que assistia ao j úri, saíra pela m ão do pai, m as j á estava na porta da sala quando o m eirinho badalou a grande sineta cham ando os advogados e os escrivães. Novam ente Horácio entrou e se postou de pé ante o j uiz. Foi dada a palavra ao representante da prom otoria pública. Com o se esperava, não foi um a grande acusação. O prom otor falou m eia hora, deixou inúm eras saídas para os advogados de defesa. Mas, com o de hábito, term inou pedindo a pena m áxim a, que eram trinta anos de prisão. Dr. Genaro, ocupou a tribuna da prom otoria depois dele. Falou durante duas horas m isturando citações lidas nos livros, algum as em francês, outras em italiano, com o exam e dem orado das declarações das testem unhas que provavam , segundo ele de m odo indiscutível, que o assassino era um cabra a serviço de Horácio. Fez cavalo de batalha das declarações do hom em de anelão falso que conversara com o assassino na véspera do crim e. Historiou os barulhos de Sequeiro Grande, term inou dizendo que se "o m andante não fosse condenado, a j ustiça em terras de Ilhéus não seria senão a m ais trágica das farsas". Citou um as frases em latim e se sentou. Pelos assistentes, que pouco haviam entendido daquela confusão de línguas citadas pelo Dr. Genaro, ia um a adm iração pela cultura do advogado. Não discutiam a sua posição: estim avam -no com o algum a coisa de valor que pertencia a Ilhéus. Teve a palavra o Dr. Fausto e as cabeças se adiantaram curiosas. Esse advogado vinha precedido da fam a de grande orador, defesas suas ficaram célebres na Bahia. Verdade que o povo de Ilhéus teria preferido escutá-lo num a defesa que num a acusação. Constava que Sinhô Badaró o contratara por quinze contos de réis. Dr. Fausto não falou longam ente, se guardava para a réplica. Foi um discurso sonoro, dito com um a voz cortada de em oção. Falava na esposa sem m arido, no irm ão sem irm ão, fez o elogio de Juca Badaró, cavaleiro andante da terra do cacau". Sua voz ora subia, ora baixava, se enchia de ódio ao falar de Horácio, "j agunço que se tornou chefe de j agunços", se enchia de delicadeza ao falar de Olga "a pobre esposa inconsolável". Fez um apelo final aos sentim entos nobres de j ustiça do conselho de j urados E com o seu discurso a sessão foi suspensa para o j antar.
A noite a assistência foi m uito m aior e o m enino teve dificuldades para ocupar o seu lugar. Os em pregados no com ércio, que não haviam podido vir de m anhã e à tarde, lotavam agora até as escadas da prefeitura. Toda gente queria ouvir os discursos dos advogados da defesa. Prim eiro falou Virgílio e o seu discurso respondia ao Dr. Genaro. Esm agou as testem unhas. Provou a fraqueza do processo todo e fez sensação quando, ao se referir ao hom em de anelão falso, que era a pedra angular da acusação, revelou que se tratava apenas de um ladrão, de nom e Fernando, chegado a Ilhéus há alguns anos onde se transform ara num m alandro de m eios de vida desconhecidos. Esta "testem unha tão cara à acusação" se encontrava naquele m om ento nos cárceres de Ilhéus, preso por vagabundagem e arruaças. Que valor podia ter a palavra de um hom em destes? Um ladrão, um vagabundo, um m entiroso. Dr. Virgílio leu declarações que ele colhera do espanhol, dono da venda onde o cabra estivera conversando com o hom em do anelão falso. O espanhol dizia que o de anelão falso sem pre tivera fam a de m entiroso, gostava de contar histórias, de inventar casos, e o espanhol desconfiava que fora ele o responsável pelo desaparecim ento, em duas ocasiões do dinheiro para troco, guardado na gaveta do balcão da venda. Que valor legal, testem unhal, podia ter a palavra de um tipo desta ordem ? O Dr. Virgílio relanceava os olhos desde o j uiz, passando pelo conselho de sentença, até aos assistentes. Narrou ele tam bém , a seu m odo, os barulhos de Sequeiro Grande. Lem brou o outro processo, pela posse das terras, perdido pelos Badarós. Lem brou o incêndio do cartório de Venâncio. Pediu j ustiça ao fim de duas horas e sentou-se. Dr. Rui respondeu ao Dr. Fausto. Sua voz poderosa, um pouco trem ula devido á bebida, ressoou na sala. Trem eu, chorou, se em ocionou, acusou, defendeu, fez a gente chorar, fez a gente rir, foi violento com o Dr. Fausto que "ousara cuspir palavras m esquinhas sobre a personalidade sem m ácula desse Bay ard de Ilhéus que era o coronel Horácio da Silveira". Excepto os advogados e o m enino, ninguém sabia quem era Bay ard, m as todos acharam a im agem m uito bonita. Horácio, de e os braços sobre o peito, não dem onstrava nenhum cansaço. Por vezes sorria, quando as ironias do Dr. Rui contra o Dr. Fausto eram m ais ferinas e venenosas. E vieram as réplicas, falaram todos m ais um a vez, repetindo o que j á haviam dito. De novo, apareceu apenas um depoim ento trazido pelo Dr. Genaro para contrapor ao do espanhol, dono da venda citado pelo Dr. Virgílio. Dr. Genaro tam bém conversara com um conhecido do hom em do anelão falso, um outro frequentador da venda, um de colete azul. Este dissera que o de anelão falso "era um a boa pessoa, se bem não parecesse". Suas histórias podiam parecer inventadas m as m uitas delas tinham acontecido m esm o. E o Dr. Genaro clam ou contra a "m iséria da polícia local que m etera no cárcere um inocente só porque depusera no processo". Dr. Fausto fez seu grande discurso. Procurou trem er a voz m ais que Dr. Rui, conseguiu que alguns assistentes chorassem tam bém , deu o m áxim o que pode. Dr. Virgílio falou dez m inutos som ente sobre o hom em do anelão falso. Dr. Rui encerrou os discursos fazendo im agens entre a j ustiça e a estátua de Cristo que pendia sobre a cabeça do j uiz. Term inou com um a grande frase, que estudara dois dias antes.
"Ao absolver o coronel Horácio da Silveira provareis, senhores do conselho de sentença, a todo o m undo civilizado; cuj os olhos estão voltados para esta sala, que em Ilhéus não existe apenas o cacau, a terra fértil e o dinheiro, provareis que em Ilhéus existe a Justiça, m ãe de todas as virtudes de um povo!"
Apesar do exagero de todo o m undo voltado para aquela sala de j úri em Ilhéus, ou talvez por isso m esm o, a frase arrancou palm as que o j uiz fez calar por interm édio do m eirinho que sacudia a sineta. O conselho de sentença se retirou da sala para j ulgar da culpabilidade ou da inocência do réu. Horácio foi retirado tam bém , ficou no corredor conversando com seus advogados. Quinze m inutos depois os j urados voltaram á sala, Braz chegou para conduzir Horácio. Este acabara de receber a notícia pelo Dr. Virgílio:
- Unanim idade
O j uiz leu a sentença absolvendo o coronel Horácio da Silveira por unanim idade de votos. Alguns assistentes com eçaram a se retirar. Outros abraçavam Horácio e os advogados. Braz lavrou a ordem de liberdade, Horácio saiu entre os am igos que o iam acom panhar à casa.
O pai do m enino tom ou o filho pelo braço, viu que ele estava cansado, suspendeu-o no om bro. Os olhos do m enino ainda olharam Horácio que saía.- De que foi que gostou m ais? - perguntou-lhe o pai. O m enino sorriu levem ente, confessou:
- De tudo, de tudo, gostei m ais foi do hom em de anelão falso, o que sabe histórias. . Dr. Rui que passava perto ouviu, acariciou a cabeça loira do m enino. Depois desceu as
escadas correndo, para alcançar Horácio que saía pela porta principal da Prefeitura penetrando na m anhã clara que se elevava no m ar sobre a cidade de Ilhéus.
O Progresso
1
Meses depois, num princípio de tarde, inesperadam ente o coronel Horácio de Silveira desm ontou de um cavalo na porta da casa-grande de Maneca Dantas. Dona Auricídia apareceu arrastando as banhas, m uito solícita, querendo saber se o coronel j á havia alm oçado. Horácio disse que sim , tinha o rosto cerrado, os olhos pequenos, a boca repuxada num gesto duro. Um trabalhador foi cham ar Maneca Dantas que andava pelas roças, dona Auricídia ficou fazendo sala. Falava quase sozinha, Horácio apenas soltava um "sim " ou um "não" quando ela parava. Dona Auricídia contava histórias dos filhos, louvava a inteligência do m ais velho, o que se cham ava Rui. Por fim Maneca Dantas chegou, abraçou o coronel, ficaram conversando. Dona Auricídia se retirou para providenciar um a "m erenda".
Então Horácio levantou-se, olhou pela j anela as roças de cacau. Maneca Dantas esperava. Sucederam -se os m inutos em silencio. Horácio tinha o olhar perdido na estrada que passava nas im ediações da casa. De repente se voltou e falou:
- Andei arrum ando um as coisas no palacete de Ilhéus. Um as coisas de Ester...
Maneca Dantas sentiu o coração bater m ais apressado. Horácio o olhava com seus olhos baços, quase sem expressão. Só a boca estava cortada com um traço duro.
- Encontrei um as cartas...
Com pletou com a m esm a voz em surdina:
- Era am ante do doutor Virgílio. . .
Disse, e voltou a olhar através do vidro da j anela. Maneca Dantas se levantou, botou a m ão no om bro do com padre:
- Eu sabia, faz tem po. Más, nessas coisas, não vale a pena a gente se m eter. . . E a pobre da com adre pagou com j uros m orrendo daquela m aneira... Horácio deixou a j anela, sentou num banco da sala. Olhava o chão. Parecia recordar fatos antigos, m om entos bons, lem branças felizes:- É engraçado... Prim eiro, eu sabia que ela não gostava de m im . Vivia chorando pelos cantos dizia que era m edo das cobras. Na cam a se encolhia quando eu tocava nela... Me dava raiva m as eu não dizia nada, a culpa era m inha m esm o, eu fui casar com m ulher m oça e educada...
Balançou a cabeça, olhando Maneca Dantas. Este ouvia em silencio, o rosto descansando nas m ãos, sem um gesto.
- De repente ela m udou, ficou boa, eu cheguei a acreditar que ela tava gostando de m im . Antes eu m e m etia na m ata, m e m etia em barulhos, era só pelo dinheiro, um pouco pelo m enino. Mas depois fiz tudo, era por ela, tava certo que ela gostava de m im ...
Estendeu o dedo:
- Tu não te im agina, com padre, o que eu senti quando ela m orreu. Tava ali dando ordens aos hom ens m as tava pensando em m e m atar. E só não dei um tiro na cabeça por causa do m enino, filho m eu e dela, filho do tem po ruim , é verdade, m as tudo tinha passado, ela ficara carinhosa e boa. Senão tinha m e m atado quando ela m orreu...
Riu para dentro seu riso am edrontador:
- E dizer que tudo era pelo outro, pelo doutorzinho. Tava boa e carinhosa, era por ele. Eu com ia os restos, era as sobras. . .
Dona Auricídia entrava na sala, cham ava para a m erenda. A m esa atestada de doces, de queij os, de frutas. Com eram ouvindo o papaguear de dona Auricídia que puxava pelo filho m ais velho, obrigando a criança a responder a perguntas históricas, a ler corrido para o padrinho ouvir, a recitar uns versos. Depois voltaram para a sala de visitas e Horácio não falou m ais. Sentou-se num a cadeira, escutava sem atenção. Maneca Dantas encheu o tem po com conversas sobre a safra, sobre o preço do cacau, sobre as m udas plantadas na terra de Sequeiro Grande. Dona Auricídia se desconsolava porque o com padre não ia ficar para j antar. Já havia m andado pegar uns frangos para preparar um m olho pardo que "era um a especialidade.
- Não posso, com adre...
Assim correra a tarde. Horácio m ascava um a ponta apagada de cigarro que enegrecera ao contacto com a saliva. Maneca Dantas falava, sabia que sua conversa não tinha interesse m as não conseguia outras palavras, tinha a cabeça oca. Sabia apenas que Horácio não queria estar sozinho. Outra vez, num dia j á distante, fora Virgílio quem estivera assim , com m edo de ficar sozinho. Maneca Dantas parou de falar, se lem brando.
E veio o crepúsculo, os trabalhadores retornavam das roças. Horácio se levantou, m ais um a vez olhava pela j anela a estrada que o crepúsculo cobria de tristeza. Foi lá dentro, se despediu de dona Auricídia, deu um a prata ao afilhado. Maneca Dantas saiu com ele para o terreiro onde o cavalo o esperava. Quando pôs o pé no estribo, Horácio voltou-se, avisou a Maneca:- Vou m andar liquidar ele...
2
Maneca Dantas tinha vontade de arrancar os cabelos. "Doutorzinho teim oso!" Já gastara todos os argum entos para convence lo de não ir a Ferradas nessa noite e Virgílio estava ali em pacado naquela idéia de ir, de ir por cim a de tudo, em pacado que nem um j um ento que é o bicho m ais burro do m undo. E isso que não havia duas opiniões em Ilhéus: Dr. Virgílio era um hom em inteligente
Maneca Dantas nem sabia m esm o por que gostava tanto do doutor... Mesm o quando tivera certeza de que ele era am ante da com adre, que botava os cornos no com padre Horácio, nem então deixara de estim á-lo, apesar de que Horácio era quase venerado por Maneca, devia ao coronel m uito do que possuía. Horácio lhe dera a m ão quando ele estava m al, lhe aj udara a subir na vida. Pois nem quando descobriu que o Dr. Virgílio dorm ia com Ester, nem assim Maneca Dantas tom ou raiva dele. Passou dias de agonia, no m edo de Horácio descobrir tudo, de tom ar um a vingança terrível contra Ester e Virgílio. Quando a com adre m orrera, a sua tristeza estava m isturada com um a certa alegria, fora um a m orte triste, sem dúvida: porém seria pior, m uito pior, se Horácio descobrisse tudo e ela m orresse ainda m ais tragicam ente. Com o m orreria, Maneca Dantas não sabia. Mas im aginava, apesar de sua im aginação não ser grande, coisas horrorosas. Ester posta num quarto com cobras, com o num a história que o j ornal publicara certa vez. Quando a febre a levou, Maneca Dantas sentiu m uito, m as respirou aliviado: o caso estava resolvido. E não é que agora, tantos m eses passados, Horácio havia de descobrir cartas de am or, e de, com toda razão querer m atar o advogado?... Tam bém Maneca Dantas não sabe por que diabo essa gente que engana m arido, com tanto perigo, ainda se dá o luxo de escrever cartinhas de am or. Coisa de idiota. . . Ele de quando em vez tinha um a am ante, é claro que nunca m ulheres casadas. Era um a que outra rapariga bonita que enchia o olho de Maneca Dantas e ele lhe m ontava casa. Ia lá, dorm ia, com ia e bebia, m as escrever carta, nunca... As vezes recebia um a ou outra... Eram quase sem pre pedidos de dinheiro, m ais ou m enos urgentes. Pedidos de dinheiro que vinham m isturados com beij os e frases carinhosas. O Coronel Maneca Dantas rasgava logo as cartas, antes que o olfato fino de dona Auricídia sentisse o cheiro im puro de perfum e barato que sem pre as im pregnava... Pedidos de dinheiro, nada m ais...
Maneca Dantas se lem bra dessas cartas enquanto Virgílio na sala de j antar serve um a pinga nos cálices. Destruía todas? A verdade é que um a carta ele nunca destruíra e a levava na carteira, até hoj e, escondida entre papéis. Era um perigo diário que corria: im aginem se dona Auricídia descobrisse! O m undo vinha abaixo, com certeza. Maneca Dantas, apesar de estar só na sala, olha em redor, se certifica de que ninguém o espia, abre a carteira e saca, de entre contratos de venda de cacau, um a carta garatuj ada com um a letra feia, cheia de borrões e de erros de ortografia. Fora Doralice, um a pequena que ele tivera na Bahia, certa vez que se dem orara dois m eses na capital fazendo um tratam ento na vista. Conhecera-a num cabaré, viveram j untos aqueles m eses, de todas as m ulheres que ele tivera ela fora a única que lhe escrevera um a carta sem pedir dinheiro, do princípio ao fim . Por isso ele a guardara, apesar de Doralice ser apenas um a recordação vaga e distante, ainda assim doce recordação. Ouve os passos de Virgílio, m ete a carta no bolso. O advogado entrou, os cálices e a garrafa se equilibrando num a bandej a.
Maneca Dantas bebe a cachaça, volta a bater na pobre história que fora o m áxim o que sua im aginação conseguira: "que ouvira um boato de que Sinhô Badaró ia m andar tocaiar Dr. Virgílio nessa noite, no cam inho de Ferradas, para se vingar da m orte de Juca". Virgílio ri:
- Mas isso é idiota, Maneca... Totalm ente idiota. E logo no cam inho de Ferradas, um a estrada do coronel Horácio... Se há um lugar seguro é o cam inho de Ferradas... E eu não vou deixar m eu cliente esperando. Além de que, é um eleitor...
O que lhe parecia cóm ico era a idéia de um a tocaia contra ele no cam inho de Ferradas, feita por gente dos Badarós:
- E no cam inho de Ferradas, nas barbas de Horácio? Manecas Dantas se levantou:
- O senhor quer ir por cim a de tudo?
- Vou, não tenha dúvida...
Então Maneca Dantas perguntou:
- E se fosse o próprio com padre quem quisesse...- O coronel Horácio?
- Ele descobriu tudo.. - Maneca Dantas olhava para o lado, não queria ver o rosto do advogado.
- Descobriu o que?
- Os negócios de vosm ecê m ais a com adre.. Tam bém essa m ania de carta... Ele foi rem exer nas coisas dela.. - olhava para o lado, a cabeça baixa, parecia o culpado de tudo, não tinha coragem de fitar o rosto de Virgílio. Mas este não sentia nenhum a vergonha do acontecido. Fez Maneca Dantas sentar-se ao seu lado e lhe contou tudo. As cartas? Sim , escrevia cartas, recebia dela tam bém , era um a m aneira de estarem próxim os naqueles dias em que não podiam se ver, não podiam estar j untos, entregues um ao outro. . Narrou todo o rom ance, disse da sua felicidade, dos proj ectos de fuga, das noites de am or. Falou palavras apaixonadas, lem brou a m orte dela. Sim , ele tinha com preendido o desespero de Horácio naquele dia em que ela m orrera e por isso se ligara a ele, não havia ido em bora, ficara ali para fazer-lhe com panhia.- Era um a m aneira de estar perto de Ester, com preende? O coronel não com preendia direito, m as essas coisas de am or são sem pre assim ... Virgílio fala sem parar. Por que não ia em bora? Por que queria estar ali, perto de Horácio, aj udando o coronel nos negócios? Ali tudo lhe lem brava Éster a m orte dela o prendera ali para sem pre. Os outros era o cacau que prendia, a am bição de dinheiro. Ele estava preso pelo cacau tam bém , m as não por interm édio do dinheiro. Estava preso pela lem brança dela, o corpo que estava no cem itério, a sua presença que estava em toda parte, no palacete de Ilhéus, na casa do Dr. Jessé, ali em Tabocas, na fazenda, e em Horácio, principalm ente em Horácio. . . Virgílio não tinha am bições, gastava o dinheiro com o um louco, tudo o que ganhava, nunca quisera com prar roça de cacau, queria apenas estar perto dela e ela estava ali naqueles povoados e naquelas fazendas, cada vez que um a rã gritava na boca de um a cobra ele a tinha nos braços novam ente, com o naquela prim eira vez na casa-grande da fazenda.
- Com preende, Maneca?
E ri m elancólico, e diz que Maneca Dantas não pode com preende-lo. So quem teve um am or doido na vida, um am or desgraçado, poderá entender o que ele está dizendo. Maneca Dantas não encontra nada m elhor que m ostrar-lhe a carta de Doralice, única m aneira de expressar sua solidariedade.
Virgílio a lê, as palavras um edecem os olhos de Maneca Dantas:
“Saudações”
Meu querido Maneca estim o que esta m al traçada linha vá Li encontrar gozando perfeita saúde. Maneca vosse foi m uito ingrato para m im não escreveu a sua sem pre esquecida Doralice que está a sua espera. Maneca eu m ando Li perguntar quando vosse vem para eu li esperar no caes de desem barque. Maneca todas as noites quando eu vou dorm ir sonho com vosse. De todos nossos passeio que nós dava eu vosse, Editi e a Danda cantando o m axixe de nom e Dei Meu Coração. Maneca vosse tá em Ilhéus não vá pra rua das putas para não vim fraco. Tum ara que vosse j á chegue que é para nós gozá. Meu filinho quando é que eu tenho a sorte de gozá u seu belo corpo???!!! Mas não tem nada u que é seu está guardado. Maneca escreva para m im quanto m ais breve m ilhor. Maneca vosse m eadisculpe os erro nada m ais, aceiti m uito beij o da sua preta DORALICE. Nada m ais. Olhe u endereço 98 rua 2 de Julho. Adeus da sua ESQUECIDA DORALICE".
Quando term inou de ler, Virgílio perguntou:
- Era bonita?
- Era um a boneca... - a voz de Maneca Dantas está trém ula. Ficaram sem assunto, Virgílio
olhando o coronel que guardava a carta no m eio dos papéis que enchiam a carteira. Até ele, um coronel de Ilhéus, tinha a sua história de am or... Virgílio serve m ais cachaça. Maneca Dantas volta a insistir:
- Eu gosto do senhor, doutor, eu lhe peço que não vá. Tom e um navio, vá para a Bahia, o senhor é um m oço inteligente, em qualquer parte faz carreira... Mas Virgílio diz que não. Não deixará de ir a Ferradas nessa noite. Morrer não lhe im porta, o triste é viver sem Ester. O coronel com preende? Que lhe im porta viver? Se sentia suj o, m etido naquele visgo de cacau até o pescoço. . . Quando Ester era viva, restava a esperança de ir em bora com ela. . . Agora, nada m ais im porta... Maneca Dantas lhe oferece tudo o que pode oferecer:- Se e for m ulher, Doutor, eu lhe dou, se o senhor quiser, o endereço novo de Doralice... É um a beleza, o senhor vai esquecer... Virgílio agradece:
- Você é um hom em bom , Maneca Dantas. . . É curioso com o vocês podem fazer tantas desgraças e, apesar disso, serem hom ens bons. . . Concluiu de um m odo definitivo:
- Vou hoj e a Ferradas... Se tiver tem po m orrerei com o m anda a lei daqui, a lei do cacau, levando um com igo. . . Não é assim m esm o? E, pela noite Maneca Dantas o viu partir m ontado, sozinho, rum o de Ferradas, seu riso triste. Com entou para si m esm o:
- Tão m oço, coitado!
Na estrada, Virgílio ouve a voz que canta sobre os barulhos de Sequeiro Grande: “Eu vou contar um a história Um a história de espantar. . .”
Um a história de espantar, a história daquelas terras, a história daquele am or. Um a rã grita na boca de um a cobra. Um a vez Virgílio sonhara um sonho rom ântico: aparecera à noite, num cavalo preto, na varanda da casa-grande. Seria a enorm e lua am arela no céu, sobre os cacaueiros e sobre a m ata. Ester o esperaria m edrosa e tím ida, afoita porém no seu m edo e na sua tim idez, ele nem pararia o cavalo. Tom aria dela pela cintura e a poria na garupa, partiriam por entre as roças de cacau, cortariam as estradas, os povoados e as cidades, cortariam no seu cavalo negro o m ar dos transatlânticos e dos cargueiros, iriam no seu galope para outras terras distantes. Silva a cobra, grita a rã assassinada. Ester vai na garupa do cavalo, de onde veio ela? Virgílio solta a rédea, deixa que o cavalo corra. O vento corta seu rosto. Ester vai segura na sua cintura. Um a história de espantar. Irão para o fim do m undo, os pés livres do visgo de cacau m ole que os prende ali... esse cavalo tem asas, irão para m uito longe das cobras, das rãs assassinadas, para m uito longe das roças de cacau, dos hom ens m ortos na estrada, das cruzes ilum inadas por velas nas noites de saudade. Pelos ares vai o cavalo negro sobre as roças, sobre as m atas, sobre as queim adas e clareiras. Ester vai com Virgílio, gem erão de am or na noite de luar. Vão pelos ares, é desenfreado o galope do cavalo. . . O luar envolve a noite, chega um a m úsica de longe. Um hom em canta:
"Eu j á contei um a história, Um a história de espantar. .."
E com o um a m archa nupcial. Nunca ninguém saberá que o últim o verso daquela história seria escrito nessa noite, na estrada de Ferradas. Que im porta a m orte, um tiro no peito, um a cruz na estrada, um a vela acendida por Maneca Dantas, se Ester vai com ele na garupa do seu cavalo negro para outras terras que não sej am essas terras do cacau? A m úsica o acom panha com o um a m archa nupcial. Um a história de espantar.
3
A cidade de Ilhéus despertou em ocionada. As ruas estavam atapetadas de flores, bandeiras pendiam das j anelas dos sobrados, os sinos repicavam festivos na m anhã alegre. A m ultidão se encam inhava para o cais, enchia a ponte de desem barque. Vinham os colégios: as m oças do Ginásio Nossa Senhora da Vitória que era o colégio das freiras, recém -term inado e que dom inava a cidade do alto do m orro, os m eninos e m eninas dos colégios particulares, os m ais pobres do Grupo Escolar. Vinham todos nos uniform es de festa, as m oças do colégio das freiras traziam um a fita azul sobre os vestidos brancos, sím bolo de congregações religiosas. A Banda de Música passou tam bém , no vistoso uniform e verm elho e negro, tocando m archas na m anhã m ovim entada. Braz com andava os soldados de polícia que levavam os fuzis ao om bro. Na ponte se apertavam os hom ens m ais im portantes da cidade, envergando os fraques negros das grandes ocasiões. Dr. Jessé, actual prefeito de Ilhéus, suava sob o colarinho duro, recordando as frases do discurso que ia pronunciar dentro em pouco e que levara dois dias decorando. Sinhô Badaró veio tam bém , com a filha e o genro, o coronel coxeava um pouco da perna direita, a que fora ferida no assalto à casa-grande. No porto, governistas e oposicionistas se confundiam , m isturados entre padres e freiras. Até Frei Bento descera de Ferradas, conversava com as freiras na sua língua atrapalhada. O com ércio fechara nesse dia, a m ultidão se espalhava pelo cais.
A venda do espanhol, que era perto da ponte, estava cheia de gente. O de anelão falso, que perdoara generosam ente ao espanhol as suas inform ações á polícia, dizia ao de colete azul:
- Ora um Bispo... E o que é um Bispo para se fazer tanto barulho? Um a vez eu conheci um Arcebispo no Sul. Sabe o que parece? Parece um a lagosta cozida... O de colete azul não discutia. Podia ser verdade, quem sabe? Nesse dia chegava o prim eiro Bispo de Ilhéus. Um recente decreto papal prom overa a paróquia de Ilhéus a diocese. Um cónego da Paraíba fora sagrado Bispo. Os j ornais da Bahia diziam que era um hom em de grandes virtudes e grande saber. Para Ilhéus era o Bispo, era a im portância adquirida pela cidade, era o progresso. Apesar da falta de religiosidade que, segundo o cónego Freitas, caracterizava essa terra, Ilhéus estava orgulhosa de possuir um Bispo e se preparava para recebê-lo regiam ente. Gente veio correndo pela praia, j á se avistava o navio perto da pedra do Rapa. Pelas ruas estreitas passavam hom ens e m ulheres apressados, a cam inho do porto. As beatas levavam xales negros na cabeça, não podiam sequer falar de tão nervosas. As m oças e os rapazes aproveitavam para nam orar. Até prostitutas tinham vindo, m as olhavam de longe, so haviam j untado em um grupo alegre por detrás das barracas de venda de peixe. Passavam padres, os habitantes da cidade se perguntavam de onde haviam saído tantos. Chegaram , dos povoados do interior, os vigários de Itapira e de Barra do Rio de Contas, haviam feito um a viagem difícil para vir cum prim entar o Bispo. Um grande tapete se estendia na ponta de desem barque, era o tapete da escadaria nobre da Prefeitura. Sobre ele o Bispo pisaria. O navio com eçou a cruzar a barra, vinha em bandeirado, apitou longam ente. Foguetes espoucaram no ar, na ilha do Pontal. Os soldados disparavam seus fuzis, num arrem edo de salva. Os padres, o Prefeito, os coronéis e as freiras, os com erciantes ricos tam bém se adiantaram pela ponte. O navio atracou entre vivas, os foguetes subiam , explodiam por cim a da cidade. Os sinos badalavam , o Bispo desceu, era um hom enzinho baixo e gordo. Dr. Jessé iniciou seu discurso de boas-vindas.
A m ultidão acom panhou o Bispo até á casa do cônego Freitas, onde houve um alm oço íntim o, as pessoas gradas apenas. A tarde rezou-se bênção solene na Catedral de São Jorge. Maneca Dantas levou os filhos, o que se cham ava Rui declam ou uns versos saudando o "pai espiritual". O prelado louvou a precoce inteligência da criança. Sinhô Badaró tam bém visitou o Bispo, pediu sua bênção para o neto que ia nascer.
A noite houve fogos de artifício, enquanto na Prefeitura se celebrava o grande banquete que a cidade de Ilhéus oferecia ao seu prim eiro Bispo. O novo prom otor falou em nom e do povo, o Bispo agradeceu em breves palavras, dizendo de sua satisfação em se encontrar entre os grapiúnas. Logo depois do banquete, o bispo se retirou, estava cansado. Mas a festa se prolongou, e, por volta das duas da m adrugada, Dr. Rui saiu inteiram ente bêbedo. Ia tropeçando pela rua, não encontrava ninguém , no cais deparou com o hom em do anelão falso e, á falta de outro, lhe explicou a sua teoria:- Em roça de cacau, nessas terras, m eu filho, nasce até Bispo, nasce estrada de ferro, nasce assassino, caxixe, palacete, cabaré, colégio nasce teatro nasce até cobra .. Essa terra dá tudo enquanto der cacau... O que não concordava com o artigo que o Dr. Rui publicara nesse dia em "A Folha de Ilhéus". Aliás, pela prim eira vez, o pensam ento de "A Folha de Ilhéus" coincidia com o de "o Com ércio". Exaltavam am bos o progresso do m unicípio e da cidade, ressaltavam a im portância da vinda do Bispo faziam am bos profecias sobre o futuro esplendoroso reservado a Ilhéus. Manuel de Oliveira escrevia: "A elevação a diocese não é senão um ato de reconhecim ento ao progresso vertiginoso de Ilhéus, conquistado pelos grandes hom ens que sacrificaram tudo ao bem da pátria:' E Dr. Rui concordava no outro j ornal: "Ilhéus, berço de tantos filhos trabalhadores, de tantos hom ens de inteligência e de carácter que abriam clareiras de civilização na terra negra e bárbara do cacau." Era a prim eira vez que os dois j ornais estavam de acordo.
O entanto, se equilibrando no cais, Dr. Rui repetia, aos berros, ao hom em do anelão falso:
- Tudo é o cacau, m eu filho... Nasce até Bispo em pé de cacaueiro. . . até Bispo. . Para o do anelão falso nada era im possível no m undo:- E daí, quem sabe?
4
E, após as eleições que levaram o Dr. Jessé Freitas à Câm ara Federal com o deputado do governo ("que irá fazer lá essa cavalgadura?", perguntara o Dr. Rui aos conhecidos), e que transform ara o interventor em governador constitucional do Estado, um decreto criou o m unicípio de Itabuna, desm em brando-o do de Ilhéus. A sede do novo m unicípio era o ex-arraial de Tabocas, agora cidade de Itabuna. Um a ponte sobre o rio ligava os dois lados da j ovem cidade.
Horácio, que tinha elegido Maneca Dantas para Prefeito de Ilhéus na vaga de Jessé, elegeu para Prefeito de Itabuna o seu Azevedo, aquele m esm o da loj a de ferragens que fora hom em devotado dos Badarós e por eles se arruinara. Seu Azevedo não sabia estar por baixo em política e entrara em acordo com Horácio. Seus eleitores haviam votado para Dr. Jessé na chapa de deputados, seu Azevedo em troca ganhou a nova Prefeitura.
No dia da posse arm aram com flores e folhas de coqueiro um arco-de-triunfo na Praça da Matriz. Num recorde de tem po havia sido construído um prédio m oderno para a Prefeitura. De Ilhéus chegara um trem especial trazendo Horácio, o Bispo, Maneca Dantas, o j uiz, o prom otor, fazendeiros e com erciantes, senhoras e m oças. Toda a gente im portante daquela que passou a ser a "cidade vizinha". Na estação, os habitantes da Itabuna se em purravam para apertar a m ão de Horácio.
A posse do prim eiro Prefeito foi solene. Seu Azevedo ao prestar j uram ento, j urou tam bém , no discurso que pronunciou, eterna fidelidade política ao Governador do Estado e ao coronel Horácio da Silveira, "benfeitor da zona cacaueira". Horácio o olhava com seus olhos m iúdos. Alguém m urm urou ao lado do coronel, se referindo à pouca fidelidade de seu Azevedo aos partidos:
- Quem não te conhece que te com pre, cavalo velho... Mas Horácio acrescentou:
- Ele vai andar com a rédea curta..
A tarde houve querm esse na praça, leilão de prendas, retreta. A noite o grande baile no salão principal da Prefeitura. As m oças e os rapazes dançavam . O Bispo não achou conveniente ficar no salão de danças, foi para outra sala, onde estavam servindo o buffet. Doces finos encom endados às irm ãs Pereiras, "verdadeiras artistas", segundo Maneca Dantas que era conhecedor. E toda classe de bebidas desde cham panha até cachaça. Em torno ao Bispo se form ou um a roda, Horácio, Maneca Dantas, seu Azevedo, o j uiz, Braz, vários outros. Encheram se as taças m ais finas com o m ais fino cham panha. Alguém brindou pelo Bispo, depois o prom otor de Ilhéus, que queria agradar a Horácio, levantou sua taça para brindar pelo coronel. Fez um breve discurso exaltando a figura de Horácio. Term inou lam entando inocentem ente que "não estivessem ali ao lado do coronel Horácio da Silveira, nesta hora do seu grande triunfo de cidadão, nem a sua dedicada esposa, a sem pre recordada dona Ester, vítim a abnegada do seu devotam ento e am or ao esposo, nem aquele inesquecível cidadão que tanto trabalhara pelo progresso do novel m unicípio de Itabuna, Dr. Virgílio Cabral, que m orrera nas m ãos de m esquinhos inim igos políticos!" O orador afirm ou que isso se dera nos tem pos, próxim os e j á tão distantes, em que todavia a civilização não alcançara essas terras, quando Itabuna ainda era Tabocas. "Hoj e esses fatos, disse, são apenas recordações tristes e lam entáveis:'
Suspendeu a taça brindando. Horácio estendeu a m ão, levantou sua taça tam bém , bateu com ela na do prom otor bebendo em lem brança de Ester e de Virgílio. Quando os cálices se encontraram , sonoridades claras e pequenas se elevaram no ar.
- Cristal bacarat... - disse Horácio ao Bispo que estava a seu lado. E sorriu um sorriso cheio de doçura e de satisfação.
5
Cinco anos dem oravam os cacaueiros a dar os prim eiros frutos. Mas aqueles que foram plantados sobre a terra de Sequeiro Grande enfloraram no fim do terceiro ano e produziram no quarto. Mesm o os agrónom os que haviam estudado nas faculdades, m esm o os m ais velhos fazendeiros que entendiam de cacau com o ninguém , se espantavam do tam anho dos cocos de cacau produzidos, tão precocem ente, por aquelas roças.
Nasciam frutos enorm es, as árvores carregadas desde os troncos até os m ais altos galhos, cocos de tam anho nunca visto antes, a m elhor terra do m undo para o plantio do cacau, aquela terra adubada com sangue. Montevidéu, agosto de 1942.