Terras do Sem Fim

Jorge Amado · Capítulo 4 de 5 · parte 2/3

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Terras do Sem Fim

Ainda não haviam sequer esfriado os com…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Na m anhã de sol claro e brando, a m ulata Raim unda entrou na casa dos trabalhadores. Trazia um a garrafa de leite, trazia pão que Don'Ana m andava para António Vítor. A casa estava vazia, os trabalhadores andavam pelas roças colhendo cacau. António Vítor dorm ia um sono inquieto de febre. Raim unda parou ao lado da cam a, contem plou o hom em que dorm ia. A perna am arrada de curativo saía de baixo da colcha velha, m ostrando o pé enorm e, coberto de visgo de cacau que havia secado. Nessa tarde, ele não a esperaria na beira do rio para aj udá-la a levantar a lata d'água. Raim unda sente m edo. Será que ele vai m orrer? Sinhô Badaró disse que a ferida é sem im portância, que, com três ou quatro dias, António Vítor estará de pé pronto para outra. Mas, ainda assim , Raim unda tem m edo e, se o negro Jerem ias não tivesse m orrido, ela se atreveria a atravessar a m ata e ir em busca de um rem édio do feiticeiro. Aquele rem édio de farm ácia, que está ao lado do j irau do doente e que ela tem que lhe dar agora, não m erece a confiança de Raim unda. Ela sabe um a oração contra febre e m ordida de cobra que sua m ãe lhe ensinou na cozinha da casa-grande. Junta os j oelhos no chão e reza, antes de acordar António Vítor para lhe dar o rem édio:

"Febre m aldita, três vezes te enterro nas profundezas da terra. A prim eira em nom e do Padre; a segunda em nom e do Filho; a terceira do Espirito Santo; com as graças da Virgem Maria e a de Todos os Santos. Te esconj uro, febre m aldita e m ando que tu volte pras profundezas da terra deixando m eu...”

Segundo a negra velha Risoleta ao chegar aí era preciso dizer o parentesco do doente com a pessoa que pedia: "m eu irm ão", "m eu m arido", "m eu pai", "m eu patrão. Raim unda ficou um instante indecisa. Talvez se não fosse tão grave e se ele não dorm isse, talvez a m ulata Raim unda não continuasse a oração: “. . . deixando m eu hom em curado de todos os m ales, am ém ".

Acordou António Vítor. Seu rosto estava novam ente zangado, seus m odos bruscos:

- E hora do rem édio. .

Segurou a cabeça dele sob seu braço roliço. António Vítor engoliu a colherada da m edicação,

olhava Raim unda com os olhos febris. A m ulata andou para aquilo que era cham ado de fogão: três pedras em m eio das quais estavam um as brasas apagadas e uns pedaços de m adeira m eio queim ados. Em cim a, um a lata com um pouco de água. Jogou a água fora, derram ou o leite na lata, acendeu o fogo. António Vítor a acom panhava com os olhos. Não sabia com o com eçar. Raim unda acocorou-se ao lado do fogo, esperando que o leite fervesse. António Vítor se decidiu e cham ou:

- Raim unda!

Ela virou a cabeça, olhando.

- Vem cá.

Veio de m á vontade, com passos pequenos, dem orados.- Sente aqui - pediu ele fazendo lugar no j irau.- Não.

António Vítor olhou para a m ulata, reuniu forças, perguntou:- Tu quer casar com igo?

Ela ficou m ais zangada ainda. Fechou o rosto, as m ãos pegavam nas pontas da saia, olhava o

chão de barro batido. Não respondeu, correu para o leite que fervia:- Quase derram a.

António Vítor se derreou na cam a, cansado do esforço. Ela agora fervia água para o café,

servia num a caneca, m olhou o pão para ele não ter trabalho. Depois lavou a caneca, apagou o fogo:

- Na hora do alm oço eu volto.

António Vítor não dizia nada, só a olhava. Antes de sair, ela parou de novo ante ele, os olhos novam ente no chão, novam ente as m ãos ocupadas com a saia, o rosto zangado, zangada a voz tam bém :

- Se padrinho Sinhô deixar, eu quero, sim . . .

E desapareceu pela porta, António Vítor sentiu a febre aum entar. 7

Juca Badaró acabara de com binar com Sinhô os últim os detalhes da derrubada da m ata. Na segunda-feira com eçariam . Já haviam sido escolhidos os hom ens, os que iam derrubar a floresta, iniciar as queim adas, e os que iam garantir, com suas repetições, o trabalho dos outros.- Segunda-feira m e toco pra m ata. . .

Sinhô estava sentado na sua alta cadeira austríaca. Juca ainda tinha o que dizer, Sinhô esperava:

- Bom caboclo esse António Vítor. . .

- E boa coisa... - assentiu Sinhô.

Juca riu:

- Essa gente é engraçada. Fui lá conversar com ele. E a segunda vez que ele m e tira de um apuro... Prim eiro foi em Tabocas, tu lem bra?- Me lem bro...

- Ontem , de novo. Fui lá perguntar o que ele queria. Disse que pensava em lhe dar aquele pedaço de terra que restou da queim ada do ano passado e que não foi plantado ainda. Nos lados do Repartim ento. Terra boa, ali dá um a roça grande. Sabe o que ele disse?

- Que foi?

Juca riu de novo:

- Disse que só queria um a coisa. Que tu deixasse ele casar com Raim unda. Ora, j á se viu... Tem cada um a... Vou dar terra ao desgraçado e ele prefere essa bruxa horrorosa. . . Eu prom eti que tu ia consentir...

Sinhô Badaró não fez obj ecções:

- E quando ele casar fica com a terra tam bém . Quando tu for em Ilhéus de ordem a Genaro pra registrar no cartório. E um m ulato bom ... E Raim unda tam bém tem direito, prom eti a nosso pai que não deixaria ela deserdada quando ela fosse casar. Dou m eu consentim ento.

Ia levantar a voz cham ando Raim unda e Don'Ana para dar a notícia quando um gesto de Juca o fez parar.

- E que eu tenho outro pedido de casam ento a fazer. . .- Outro? Tu agora virou Santo António dos trabalhadores?- Dessa vez não é trabalhador, não. . .

- E quem é?

Juca procurava um a m aneira de entrar no assunto:- E engraçado... Raim unda e Don'Ana são da m esm a idade, m am aram as duas nos peitos da negra Risoleta... Cresceram j untas, era bom que casassem j untas..- Don'Ana? - Sinhô Badaró apertou os olhos, passou a m ão na barba.- E o capitão João Magalhães. Me falou agora em Ilhéus :. . Parece um hom em direito. . .

Sinhô Badaró fechou os olhos. Quando os reabriu, falou:- Já tava vendo que ia dar em coisa... Bem que vi Don'Ana toda assanhada no lado do capitão. Aqui e ná procissão. . .

- Que tu acha?

Sinhô refletia:'

- Ninguém conhece ele direito... Diz que é não sei quanta coisa no Rio, que faz e acontece, m as ninguém conhece ele direito. Tu que sabe?- Não sei m ais que tu: Mas acho que não tem nada. Aqui tudo é de novo, Sinhô, tu bem sabe. Aqui tudo com eça e depois é que se vai m edir o hom em . Pra trás, quem sabe o que ficou? O que tá pra frente é que vale. E o capitão m e. parece um hom em capaz de se j ogar nessa vida com coragem . . .- Pode ser. . .

- Mediu as terras sem ter registro do título dele, eu sei que foi pelo dinheiro, não foi por am izade. Mas Don'Ana ele não quer pelo dinheiro, é por am izade. Eu conheço as pessoas tão bem com o conheço as terras... Ele tá querendo casar, pode ser que não tenha um vintém , sej a lim po, e vá com eçar. Mas vai com coragem , é m elhor que outro que queira e descansar. . . Sinhô refletia, os olhos sem icerrados, as m ãos alisando a barba negra. Juca continuou:

- Tem um a coisa, Sinhô. Tu só tem essa filha, eu não tenho filho nenhum , a não ser na rua, filho que não leva m eu nom e. Olga não serve pra parir, o m édico j á disse. Um dia desse eu fico derrubado com um tiro, tu sabe que vai ser assim . Inim igo m e sobra... Não vou chegar no fim desses barulhos... E, depois, quando tu tiver velho, qual é o Badaró que vai colher cacau, que vai eleger o intendente de Ilhéus? Qual é?

Sinhô não respondia, Juca com pletou:

- Ele é um hom em com o a gente. . . Quem sabe se não é só um j ogador? Talvez que sej a, j á m e disseram . E isso tudo é um j ogo, j ogo com barulho no fim , a gente precisa de um hom em assim ... Um que possa tom ar m eu lugar quando m e liquidarem .. .

Andou pela sala, pegou do rebenque que estava sobre um banco, batia nas botas:- Tu podia casar ela com um doutor, que adiantava? Ia com er os lucros do cacau, nunca m ais plantava raça, nunca m ais derrubava m ata. Ia gozar pelo m undo o que nunca gozou. O capitão j á fez isso tudo, agora quer é plantar roça. o isso é que acho bom . . .

Raim unda entrou na sala para varre-la, um gesto de Sinhô a expulsou. Juca narrava:

- Disse a ele: só tem um a coisa, capitão. Quem casar com Don'Ana tem que levar o nom e dela. É ao contrário de todo m undo que o hom em dá o nom e á m ulher. Quem casar com Don'Ana tem que virar um Badaró...- E ele que disse?

- Prim eiro não gostou, não. Disse que os Magalhães tinham feito e acontecido. Depois, quando viu que não tinha j eito, disse que sim . Sinhô Badaró gritou para dentro:

- Don'Ana! Raim unda. Venham cá!

Chegaram as duas. Don'Ana parecia desconfiada do que conversavam seu pai e seu tio. Raim unda trazia a vassoura na m ão, pensava que a cham avam para varrer a sala. E foi a ela que Sinhô se dirigiu prim eiro:- António Vítor quer casar com você... Eu disse que sim . Dou as terras que tão por trás das roças do Repartim ento de dote. Tu quer? Raim unda não vinha para onde olhar:

- Se padrinho acha bom ...

- Então vá se preparando pro casam ento. Vai ser logo pra não dar tem po de se perder antes... Pode ir pra dentro.

Raim unda saiu. Sinhô cham ou Don'Ana para m ais perto da sua cadeira.- Mandaram pedir tam bém tua m ão, m inha filha. Juca acha bom , eu não sei que achar... Foi esse capitão que teve aqui. . . Que tu acha? Don'Ana estava igual a Raim unda na frente de António Vítor. Os olhos no chão, as m ãos na saia, sem j eito para falar:

- Foi o capitão João Magalhães?

- Esse m esm o. Tu gosta dele?

- Gosto, sim , pai.

Sinhô Badaró cofiou a barba lentam ente:

- Pegue a Bíblia, vam os ver o que ela diz..

Então Don'Ana tirou os olhos do chão, as m ãos da saia, sua voz era forte e decidida.

- Diga o que disser, m eu pai, eu só m e caso com um hom em no m undo: é com o capitão. Mesm o que sej a sem sua bênção...

Disse e se j ogou aos pés do pai, abraçando suas pernas. 8

Dr. Jessé largou a representação no m eio, os am adores do Grupo Taboquense ficaram sem seu director que era tam bém o ponto. Isso estragou um pouco o espetáculo j á que alguns artistas não sabiam perfeitam ente as suas partes, declam avam com a aj uda do ponto. O que não teve grande im portância, porque a população de Tabocas pouco se dem orou a com entar a representação de "Vam piros Sociais", inteiram ente entregue que ficou á com oção da notícia trazida pelo hom em que viera buscar o Dr. Jessé: Horácio estava doente, derrubado pela febre. Dr. Jessé abandonara o espetáculo pelo m eio, reunira na m aleta m edicam entos vários e m ontara em seguida. O cabra o acom panhou, m as a notícia ficou, correu pelas filas de espectadores de boca em boca. E, no outro dia, quando às onze horas Ester desem barcou do trem e, na estação, sem alm oçar sequer, m ontou no cavalo que a esperava, cercada pelos cabras que haviam vindo buscá-la, j á toda Tabocas sabia que Horácio pegara a febre quando atendia a Sílvio que m orrera fazia três dias. A viúva de Sílvio iniciava um a novena pelo restabelecim ento de Horácio "um hom em tão bom ", dizia. Virgílio acom panhara Ester até Tabocas, indiferente aos com entários, m as não foi para a fazenda de Horácio nesse dia. Subiria se o coronel piorasse. Agora ele tam bém usava revólver, desde que soubera que Juca Badaró escapara da tocaia. Tabocas vivia na espera de cada portador que chegava da fazenda em busca de rem édios. O consultório do Dr. Jessé estava fechado e sua esposa avisava aos clientes que o "doutor só voltaria quando o caso do coronel Horácio tivesse se decidido". Frase que era traduzida pelos m oradores com o um aviso de que Dr. Jessé só voltaria acom panhando o cadáver de Horácio, pois ninguém escapava daquela febre. Citavam casos, eram inúm eros, trabalhadores e coronéis. doutores e com erciantes. Circulavam m ais um a vez, entre as beatas, aquelas histórias do diabo preso num a garrafa saindo um dia para levar consigo a alm a de Horácio. Diziam que Frei Bento j á viaj ara de Ferradas para a fazenda, levando a extrem a-unção para Horácio, pronto para confessá-lo e absolve-lo dos pecados.

Mas Horácio não m orreu. Sete dias depois a febre com eçou a dim inuir até cessar com pletam ente. Mais que as m edicações do Dr. Jessé, talvez o tenha salvo o seu corpo forte, de hom em sem vícios e sem enferm idades, de órgãos perfeitos. E, m al a febre com eçou a abandonálo, ele ordenou que seus hom ens iniciassem a derrubada da m ata de Sequeiro Grande. Virgílio foi cham ado à fazenda, o coronel queria consultá-lo sobre detalhes j urídicos. Viera antes um a vez, o coronel delirava, sua febre cheia de visões de cacau, m atas se derrubando, roças que eram plantadas. Dava ordens aos gritos, plantava e colhia cacau no seu delírio. Ester não abandonava a cam a do enferm o, estava m agra, era de um a dedicação sem lim ites. Quando Virgílio chegara, da prim eira vez, ela apenas lhe perguntou se sabia notícias do filho que ficara em Ilhéus, ele não conseguiu quase v-la só. E quando a viu e a beij ou, foi por um m om ento, quando ela voltava da cozinha para o quarto com um a bacia de água quente. Pouco se falavam e Virgílio sofrera com o se tivesse sendo traído. Mas tam bém ele tinha os olhos cobertos por certa inquietação, se sentia culpado da doença de Horácio, da sua m orte que encontrava inevitável, com o se o coronel houvesse adoecido devido aos seus desej os. Com preendia que Ester sentia a m esm a coisa, m as, ainda assim , aquilo lhe doía com o um a traição.

Quando Horácio, j á fora do perigo; o m andou cham ar, ele procurou se m ostrar triste com o Ester, tinha a fisionom ia cansada e abatida. No quarto onde, sobre os alvos lençóis, o coronel estava vestido com o seu cam isolão, Ester se destacava, sentada na cam a, um a m ão de Horácio entre as suas. Horácio nunca se sentira tão feliz com o no fim dessa febre, que lhe provara a dedicação da esposa. E isso o fazia ativo, dando ordens não só aos trabalhadores com o a Maneca Dantas e a Braz que, naquele dia, o haviam vindo visitar. Virgílio entrou no quarto, abraçou o coronel por cim a da cam a, apertou friam ente a m ão de Ester, abraçou Maneca Dantas, deu os parabéns a Jessé "pelo seu m ilagre". Mas Horácio riu:

- Abaixo de Deus quem m e salvou foi essa aqui, seu doutor - m ostrava Ester ao seu lado. Depois se desculpava com o Dr. Jessé.- É claro que o com padre fez tudo, rem édio, tratam ento, o diabo. Mas se não fosse ela que

não dorm iu esse tem po todo, eu nem sei...

Ester levantou-se, saiu do quarto. Virgílio, sem o notar, ocupou o lugar que ela deixara vago na cam a. Sentou-se sobre o calor que restara da am ante e um a súbita raiva de Horácio tom ou conta dele. Não m orrera... Virgílio deixou por um m om ento que os seus m ais rem otos e escondidos pensam entos viessem até seu coração. Não m orrera... Ah! se ele pudesse m andar m atá-lo...

Durante alguns m inutos nem prestou atenção ao que conversavam , todo entregue aos seus pensam entos. Foi preciso um a pergunta de Maneca Dantas para cham á-lo à conversa:

- Que acha, doutor?

Encontrou Ester, depois para os lados da barcaça. Ela se abraçou nele, soluçava:- Tu não achas que eu devia fazer assim ? Não podia ser de outro m odo. Se com oveu, acariciou o corpo am ado por cim a dos vestidos. Beij ou-lhe os olhos, as faces, interrom peu alarm ado:

- Tu estás com febre!

Ela disse que não, era cansaço. Beij ou-o m uito, pediu-lhe que ficasse naquela noite, ela conseguiria ir ao quarto dele nas suas idas e vindas pela casa, atendendo ao doente. Ele prom eteu, com ovido e saudoso das carícias dela, só a deixou quando viram o grupo de trabalhadores que vinha pela estrada. Mas, na hora do j antar, Ester j á não suportou estar ali sentada, com endo. Se queixou de arrepios de frio, saiu às pressas para vom itar. Virgílio voltou-se m uito pálido para o Dr. Jessé:

- Ela pegou a febre.

O m édico se levantou, andou para dentro, Ester estava trancada na latrina. Virgílio se levantou tam bém , pouco se im portava com Maneca Dantas e com Braz. Ficou ao lado do m édico no corredor. Ester abriu a porta, seus olhos ardiam , Virgílio pegou no braço dela.

- Estás sentindo algum a coisa?

Ela sorriu m eigam ente, apertou de leve a m ão dele:- Não é nada, não.. . Só que não aguento em pé. Vou deitar um pouco. Depois volto...

Ainda deu um a ordem a Felícia, entrou para o quarto onde Virgílio dorm ira naquela noite distante da sua prim eira visita à fazenda, deitou na cam a, ele ficou olhando do corredor. Dr. Jessé entrou tam bém , pediu licença, fechou a porta do quarto. Em frente, Horácio queria saber que m ovim ento era aquele. Virgílio entrou no quarto do coronel anunciou com voz entrecortada:- Ela pegou a febre tam bém ...

Quis dizer m ais algum a coisa e não pode, ficou olhando Horácio. O coronel arregalou os olhos, a boca sem i-aberta, tam bém ele queria dizer algum a coisa e tam bém ele não podia. Estava com o um hom em que rolasse solto no ar e não visse nada em que se pegar. Virgílio teve vontade de abraçá-lo, de se lastim ar com ele, de chorarem os dois j untos, dois desgraçados. . . 9

Os com entários eram unânim es em Ilhéus: os Badarós levavam evidente vantagem nos barulhos pela posse de Sequeiro Grande. E não eram só os com entários das velhas beatas, nas sacristias das igrej as, que o afirm avam . Os entendidos, nos botequins, até os advogados no foro, estavam de acordo que os irm ãos Badarós tinham a partida quase ganha, para o que concorrera em m uito a enferm idade de Horácio. O processo estava parado no foro, atravancado com petições opostas pelo Dr. Genaro e reconhecidas pelo j uiz. E Juca Badaró havia entrado pela m ata e abrira clareiras na zona que lim itava com a fazenda Sant'Ana, iniciando as queim adas.

E verdade que tiroteios se sucediam , que o coronel Maneca Dantas por um a arte e arde, Braz, Firm o, e Zé da Ribeira e os dem ais pequenos lavradores da vizinhança, por outra parte, faziam o possível para dificultar o trabalho dos hom ens dos Badarós. Maneca Dantas arm ou um a tocaia para os trabalhadores que iam derrubar um pedaço da m ata, que resultou num tiroteio grande. Braz invadiu com alguns hom ens o acam pam ento na beira da m ata, num a noite em que Juca não estava. Mas, apesar disso, o trabalho prosseguia, os Badarós se estabeleciam na m ata.

E revidavam com violência os ataques da gente de Horácio. Enquanto Juca acom panhava e guardava os trabalhadores, Teodoro das Baraúnas atacava. Apareceu um a noite na roça de José da Ribeira, incendiou o depósito de cacau seco botando a perder duzentas e cinquenta arrobas de cacau j á vendido, incendiou a casa-grande, m atou um trabalhador que deu o alarm e, iniciou um incêndio nas plantações de m andioca, dificilm ente dom inado depois por Zé da Ribeira.

Em Ilhéus j á se dizia que Teodoro das Baraúnas, depois que incendiara o cartório de Venâncio, tom ara am or aos incêndios. Para a "Folha de Ilhéus" ele passou a ser exclusivam ente o "incendiário". O Dr. Rui escreveu um célebre artigo em que com parava Teodoro a Nero, cantando depois do incêndio de Rom a. José da Ribeira e seus trabalhadores eram com parados aos "prim eiros cristãos", vítim as da loucura crim inosa e sanguinária do novo Nero, "m ais m onstruoso ainda que o degenerado im perador rom ano". De todos os artigos publicados durante os barulhos de Sequeiro Grande, este foi que obteve m aior sucesso, chegou a ser transcrito pelo diário da oposição na Bahia sob o título de "Os crim es dos governistas em Ilhéus". Foi iniciado um processo contra Teodoro.

Mas, o que em definitivo tornou os com entários favoráveis aos Badarós foi o fato de Horácio não ter podido, m esm o quando m elhorou, iniciar a derruba da m ata do lado em que esta lim itava com sua fazenda. Havia quem atribuísse a pouca energia de Horácio à doença de Ester, m as, fosse com o fosse, a verdade é que os trabalhadores e os j agunços enviados pelo coronel haviam voltado um a e duas vezes sem conseguir se estabelecer na m ata e iniciar a abertura das clareiras para as queim adas. Desta vez fora o próprio Sinhô Badaró quem chefiara os hom ens que haviam acom etido por duas noites seguidas, contra o acam pam ento chefiado por Jarde. Os trabalhadores de Horácio term inaram por abandonar a em presa. Apenas Braz, com alguns hom ens seus, abria um a pequena clareira nos seus lim ites com a m ata e iniciava um a queim ada, m as coisa reduzida, infinitam ente m enor que as queim adas j á feitas pelos Badarós.

Ainda assim havia quem apostasse em Horácio. Estes baseavam -se principalm ente na m aior fortuna do coronel, hom em de m uito dinheiro no Banco, capaz de sustentar a luta por m uito tem po. Não só a derruba e o plantio da m ata com iam dinheiro, com o tam bém , e m ais que tudo, o com iam os j agunços em arm as. Sem esquecer que Sinhô Badaró se preparava para casar a filha e a queria casar com todo luxo, m andava vir um a m ultidão de coisas do Rio de Janeiro, estava reform ando por com pleto sua casa em Ilhéus, acrescentando toda um a ala onde o novo casal ia residir, pintando de novo tam bém a casa-grande da fazenda. Trabalhavam costureiras, trabalhavam m ulheres que faziam rendas, o casam ento da filha de um coronel era um acontecim ento. A m oça tinha que levar roupa para m uitos anos, roupa de cam a que serviria depois para filhos e netos. Colchas, lençóis e cobertores, fronhas e toalhas de m esa, ricam ente bordadas. Portadores foram ao sertão para com prar as rendas m ais finas. O dinheiro saía fácil, fosse para pagar j agunços encarregados de m atar, fosse para pagar costureiras e sapateiros que vestiam e calçavam a noiva. Em Ilhéus se falava nesse casam ento quase tanto com o nos barulhos de Sequeiro Grande. João Magalhães deixara a cidade, andava pela fazenda aj udando Juca na derruba da m ata, de quando em vez baixava a Ilhéus, form ava sua rodinha no cabaré, ia j untando dinheiro no pôquer Na fazenda não tinha despesa, fazia econom ias.

Porém várias pessoas sabiam que o dinheiro da safra deste ano, Sinhô Badaró j á o havia gasto quase todo. Maxim iliano contava aos íntim os que o coronel j á propusera m esm o vender adiantado, por preços bastante m ais baixos, a safra do ano seguinte. Enquanto que Horácio não vendera sequer m etade do seu cacau j á colhido nesta safra. Ainda assim eram poucas as pessoas que apostavam em Horácio. A m aioria era pelos Badarós, não viam possibilidade deles perderem , e por isso m andavam fazer roupa nova para com parecer ao casam ento de Don'Ana. As beatas e as m ulheres casadas, se reuniram pelas tardes na casa de Juca Badaró, onde Olga exibia a riqueza dos vestidos chegados do Rio, das anáguas de cam braia bordadas, das cam isas de dorm ir que eram um sonho. Mostrava os espartilhos elegantíssim os, as rendas finas vindas do Ceará. As bocas se abriam em "ohs" de adm iração. Havia coisas que Ilhéus nunca tinha visto, num requinte que afirm ava o poder da fam ília Badaró.

E, quando Sinhô atravessava as ruas estreitas da cidade, o rosto m elancólico em oldurado na barba negra, os com erciantes se dobravam em cum prim entos e o m ostravam aos caixeirosviaj antes chegados da Bahia ou do Rio de Janeiro- É o dono da terra... Sinhô Badaró.

10

Ester m orreu num a m anhã clara de sol, quando os sinos repicavam na cidade, convidando os habitantes para um a m issa festiva. A doença havia-lhe com ido quase toda a beleza, o cabelo caíra, era um fantasm a da form osa m ulher que fora antes, os olhos saltando no rosto m agro, certa de que ia m orrer e desej ando viver. Na fazenda, nos prim eiros dias da febre, teve delírios horríveis, encharcava os lençóis de suor, falava palavras soltas, certa vez se abraçou a Horácio gritando que um a cobra estava enrolada no seu pescoço e a ia estrangular. Maneca Dantas, que estivera uns dias na fazenda de Horácio e que tinha grandes suspeitas acerca das relações entre Virgílio e Ester, trem ia de m edo que ela falasse no advogado durante as noites de febre. Mas, ela não parecia ver nada m ais que as cobras nos charcos da m ata, silenciosas e traiçoeiras, prontas para o bote em cim a de um a rã inocente. E gritava e sofria, afligia todos os assistentes, a m ulata Felícia chorava.

Dr. Jessé, quando viu que a febre não cedia, aconselhou que Ester fosse transportada para Ilhéus. Foi um a cena triste quando a rede saiu da fazenda no om bro dos trabalhadores. Dr. Jessé disse a Virgílio, quando m ontava:- Até j á parece enterro... Coitada da com adre...

Horácio acom panhou a esposa. Iam calados os três, Virgílio não tinha palavras desde que ela adoecera. Andava m udo pelos cantos da casa-grande, todos os dias encontrava um pretexto para não descer para Tabocas. Tam bém ninguém reparava nele, ia um a confusão pela casa, cabras que partiam m ontados, em busca de rem édios, negras que ferviam bacias de água, Horácio que dava ordens sobre as entradas na m ata e que corria para a cam a onde Ester delirava.

Quando a foram transportar para a rede, ela teve um m om ento de lucidez, tom ou da m ão de Horácio, com o se ele fosse dono dos destinos do m undo, e rogou:

- Não deixe que eu m orra...

Virgílio saiu desesperado para o terreiro, o olhar dela fora para ele, era um olhar suplicante, um desej o doido de viver. Viu naquele olhar de um segundo todo o sonho de outra vida noutra terra, livres os dois no seu am or. Agora ele não sentia ódio de ninguém , só daquela terra que a m atava, que a prendia ali para sem pre. Mais que ódio, tinha m edo. Ninguém se libertava daquela terra, ela prendia todos os que queriam fugir.. . Am arrava Ester com as cadeias da m orte, am arrava a ele tam bém , nunca m ais o largaria. . . Andou por dentro das roças até que gritaram por ele, era hora de m ontar. Na frente ia a rede coberta por um lençol. Eles m archavam atrás, um a viagem terrivelm ente longa. Pararam em Ferradas, a febre aum entava, Ester agora gritava que não queria m orrer.. . Chegaram a Tabocas no princípio da noite, a casa do Dr. Jessé se encheu de visitas. Virgílio não dorm iu toda a noite, rolou na sua cam a de solteiro na qual não se deitava havia m uito tem po... Lem brava as noites com Ester, as carícias sem fim , os corpos vibrando no am or, noites de paixão na casa de Ilhéus. E a viu partir no outro dia num vagão especial, deitada num a cam a im provisada, Horácio sentado de um lado, Dr. Jessé quase dorm indo do outro. O m édico tinha um a fisionom ia cansada e abatida, os olhos fundos na cara gorda. Ester olhou Virgílio e ele sentiu que ela se despedia. A curiosidade enchera a estação e, quando ele saiu do vagão e abriram alas dando-lhe passagem , os com entários o seguiram rua a fora.

No outro dia não resistiu, foi para Ilhéus. Bebia nos botequins, quando voltava da casa de Horácio, num a visita que ele dem orava o m ais que podia. Não tinha cabeça para acom panhar os processos que patrocinava na foro. Andava sonolento e irritado, se sentia só, sem um am igo. Maneca Dantas, que se apegara a ele, fazia-lhe falta. Gostaria de conversar com alguém , de desabafar, de contar tudo, o que sucedera e o que haviam sonhado, o que era belo - a vida noutra terra, os dois entregues ao seu am or - e tam bém , o que era m iserável - o desej o de que Horácio m orresse de um tiro para bem deles. Pensava por vezes em ir em bora, m as sabia que j am ais iria, que estava ligado àquela terra em definitivo. E a única coisa que o arrancava da sua sonolência eram as conversas sobre os barulhos de Sequeiro Grande. Com o que aquelas conversas o ligavam m ais a Ester, por causa da m ata de Sequeiro Grande eles se haviam conhecido e am ado. Horácio por m ais que sofresse com a doença da esposa, não descuidava um m om ento dos negócios. Dava ordens, fazia com que os lavradores e os capatazes descessem a Ilhéus para conversarem com ele. Maneca Dantas veio um a vez, trouxe dona Auricídia para aj udar na casa, para tom ar conta da criança. Virgílio se dem orava em diálogos com os coronéis sobre as possibilidades politicas sobre com o conduzir o processo no foro, sobre os artigos de "A Folha de Ilhéus. Horácio j á lhe falara na sua candidatura a deputado. E, durante a doença de Ester, o advogado term inara por estim ar Horácio, sentia-se ligado a ele, agradecido pelo coronel – que parecia incapaz de sentir e de sofrer- estar sofrendo tam bém , de todos os esforços que ele fazia para salvar Ester: j untas m édicas, prom essas à Igrej a, m issas m andadas rezar. Som ente um a vez Virgílio conseguiu falar a sós com Ester. E ela parecia esperar exclusivam ente por isto para m orrer. Foi na véspera do falecim ento. Aproveitando Horácio ter saído, e dona Auricídia estar cochilando na sala, ele entrou no quarto para substituir Dr. Jessé que não se aguentava de cansaço. Ester dorm ia, seu rosto banhado de suor. Escaldava de febre, Virgílio pousou a m ão na sua testa. Depois tirou o lenço lim pou-lhe o suor. E ela se m oveu na cam a, gem eu, term inou por acordar. Dem orou a reconhece-lo e a ver que estavam sós. Quando o com preendeu, tirou de sob o lençol a m ão descarnada, tom ou a m ão dele e a pôs sobre o seio. Depois sorriu, fez um esforço e disse:- Que pena eu m orrer...

- Você não vai...

Fez um esforço enorm e:

-. . . m orrer não...

Ela sorriu de novo, era o sorriso m ais triste do m undo:- Deixa eu te ver...

Virgílio aj oelhou-se nos pés da cam a, a cabeça sobre a dela, beij ou-lhe no rosto, nos olhos, na boca queim ando de febre. E deixou que as lágrim as viessem e m olhassem as m ãos dela, lágrim as m ornas descendo sobre o rosto. Foram m inutos sem palavras, a m ão febril nos cabelos dele, a boca am argurada beij ando o rosto que a febre desfigurara.

O ruído de dona Auricídia, que despertava, o fez levantar-se, m as antes ela o beij ou se despedindo. Ele saiu para chorar lá fora onde ninguém o visse. Dona Auricídia entrou no quarto, Ester parecia m uito m elhor. "Era a visita da saúde", disse dona Auricídia no dia seguinte quando ela m orreu. Era a despedida do am or, som ente Virgílio sabia. Veio m uita gente para o enterro. De Tabocas chegou um trem especial, veio gente de Ferradas, Maneca Dantas, os lavradores de j unto da m ata de Sequeiro Grande, vieram am igos do Banco-da-Vitória, toda Ilhéus com pareceu. No caixão negro, o rosto da m orta recuperara algum a beleza e Virgílio a viu com o na véspera, sorrindo, feliz de ser am ado

e de am ar.

O pai de Ester chorava, Horácio recebia os pêsam es vestido de negro, dona Auricídia fazia guarda j unto ao cadáver. O caixão saiu pelo fim da tarde, o crepúsculo alcançou o enterro no cam inho do cem itério. Dr. Jessé disse um as palavras, o cónego Freitas encom endou o corpo, os assistentes procuravam descobrir a dor no rosto pálido de Virgílio.

Maneca Dantas se desculpou de não aceitar quando Virgílio o cham ou para j antarem j untos: tinha que fazer com panhia a Horácio nessa prim eira noite de noj o. Virgílio andou só pelas ruas, bebeu num botequim onde sentiu a curiosidade que o cercava, andou pelo cais, dem orou na ponte onde um navio era descarregado, trocou um as palavras com um hom em de colete azul que estava bêbedo, procurava onde ir, alguém com quem falar longam ente, alguém sobre cuj o peito pudesse chorar todo o pranto que lhe enchia o coração. E term inou indo bater em casa de Margot que j á dorm ia e que o recebeu surpresa. Mas quando o viu tão triste e desgraçado, seu coração se abrandou e o acolheu no seu seio com o m esm o carinho m aternal com que o acolhera naquela outra noite, na Bahia, quando ele soubera que seu pai m orrera no sertão. . . 11

E passaram as chuvas do inverno e chegaram os dias quentes do verão. As flores do cacau com eçaram a nascer nos troncos e nos galhos, na floração da nova safra. Grandes levas de trabalhadores, que agora não tinham roça para colher nem cacau para secar, foram em pregadas na derruba da m ata de Sequeiro Grande pelos Badarós e por Horácio. Porque Horácio, após a m orte de Ester se entregara por com pleto à luta pela posse da m ata. E ele tam bém entrara pela floresta, repelira ataques dos cabras dos Badarós, abrira clareiras, fizera enorm es queim adas. Progrediram de um e de outro lado da m ata, num a corrida para ver quem chegava m ais cedo. Os barulhos haviam parado um pouco, os entendidos diziam que eles recom eçariam quando Horácio e os Badarós se encontrassem nas m argens do rio que dividia a m ata. Horácio tinha em Virgílio o m ais eficiente colaborador. Não só o processo m archava, devagar é verdade, obrigado pelo bom bardeam ento de petições com que o advogado brindava diariam ente o j uiz, com o a peça de acusação que ele escrevera, com o advogado de Zé da Ribeira, contra Teodoro das Baraúnas, era um a obra-prim a j urídica. Ao dem ais, Virgílio estudava o registro de propriedade da m ata feito por Sinhô Badaró, e descobria nele grandes deficiências legais. A m edição, por exem plo, era incom pleta, não determ inava os lim ites verdadeiros da m ata, era um a coisa vaga e im precisa. Virgílio fez um a longa exposição ao j uiz que foi j untada ao processo de Horácio.

E term inaram os dias cálidos do verão e voltaram as chuvas longas do inverno, am adurecendo os frutos dos cacaueiros, ilum inando de ouro as roças fechadas de som bra. Term inados os m eses do paradeiro, os caixeiros-viaj antes encheram os cam inhos de Tabocas, Ferradas, Palestina e Mutuns, cortavam o m ar no rum o de Ilhéus. Vinham em igrantes tam bém , levas e levas nas terceiras classes dos navios superlotados, chegavam sírios que subiam para a m ata com a m ala de m ascate am arrada nas costas. Muitos dos troncos carbonizados pelas queim adas na m ata de Sequeiro Grande floresciam novam ente em brotos verdes, alegrando as clareiras. Novas estradas j á existiam , com as chuvas nasciam flores em torno das cruzes plantadas no chão no inverno passado. Nesse ano a m ata de Sequeiro Grande dim inuíra de quase m etade. Estava cercada de clareiras e queim adas, vivia seu últim o inverno. Pelas m anhãs de chuva, os trabalhadores passavam , as foices nos om bros, seu canto triste ia m orrer no m istério da m ata:

"O cacau é boa lavra... Já chegou a nova safra..." 12

E na entrada do inverno Don'Ana casou-se com o capitão João Magalhães. Juca e Olga eram padrinhos do noivo, Dr. Genaro e a esposa do Dr. Pedro Mata eram os da noiva. O cónego Freitas quando abençoou o casal, ligou tam bém "para a vida e para a m orte" a António Vítor e Raim unda. António Vítor calçava um as botinas negras que o incom odavam m uitíssim o. Raim unda tinha o rosto zangado de sem pre. E, á noite, por m ais que Don'Ana lhes dissesse que eles não deviam trabalhar naquele dia, ela ficou na cozinha aj udando e ele serviu bebida aos convidados capengando um pouco devido ás botinas novas.

Foi um a festa que fez época em Ilhéus. Don'Ana estava linda no seu vestido branco, o grande véu da viagem , as flores de laranj eiras, a aliança larga de ouro. João Magalhães, m etido num fraque m uito elegante, arrancava exclam ações de adm iração das m ocinhas casadoiras. Sinhô Badaró presidia a festa, um pouco triste, acom panhando com o olhar a filha que ia de um lado para outro, atendendo aos convidados.

No quarto dos noivos, ante a cam a repleta de presentes, desfilavam os convidados. Havia aparelhos de chá, bibelôs, talheres, j ogos de roupas, um revólver Colt 38, cano longo, de aço crom ado com cabo de m arfim , um a obra-prim a, presente de Teodoro ao capitão João Magalhães. Teodoro bebia cham panha, fazia pilhérias com o capitão sobre a m aciez do colchão. Os convidados saíam do extasiam ento no quarto para a sala de baile, onde a banda de m úsica, em fardam ento com pleto, tocava valsas e polcas, de quando em quando um m axixe.

Na hora que os recém -casados foram se recolher, pela m adrugada, Juca Badaró segurou a sobrinha e o am igo, recom endou-lhes rindo:- Quero um m enino, hein Um Badaró de lei!

A lua-de-m el, passada na fazenda, foi bruscam ente interrom pida pela notícia do assassinato de Juca, em Ilhéus. Depois do casam ento ele subira para a fazenda com os sobrinhos, se dirigira logo para dentro da m ata com um a turm a de hom ens. Voltara á cidade para passar o sábado e o dom ingo, tinha saudades de Margot.

No dom ingo fora alm oçar com um m édico recém -chegado a Ilhéus que trouxera um a carta de apresentação para Juca, de um am igo da Bahia. O m édico m orava na pensão de um sírio, num a rua central. A antiga sala de visitas havia sido transform ada em refeitório e Juca e o m édico ocupavam a prim eira m esa da sala, ao lado da porta da entrada. As costas de Juca Badaró davam exactam ente para a rua. O cabra encostou o revólver na porta e deu um único tiro. Juca Badaró foi caindo lentam ente em cim a da m esa, o m édico estendeu os braços para segurá-lo, m as ele de súbito se levantou, com um a m ão se am parava na porta, com a outra sustentava o revólver. O cabra corria rua a fora, pelo passeio, m as os tiros o alcançaram , foram três, ele se abateu com o um fardo. Juca Badaró escorregou pela porta, o revólver saltou-lhe da m ão ao bater nas pedras do calçam ento. Se passara tudo num a rapidez de m inutos, os hóspedes corriam para Juca, na rua se j untava gente em torno ao cabra caído. Juca Badaró m orreu três dias depois, cercado pela fam ília, tendo antes suportado com estoicism o a operação que o m édico tentara para extrair a bala. Faltavam todos os recursos em Ilhéus para um a operação sem elhante. Nem clorofórm io havia. Juca Badaró sorriu enquanto durou a operação. O m édico novo fez tudo para salvá-lo, Sinhô lhe havia dito:

- Se salvar m eu irm ão, pode pedir quanto quiser. Mas não adiantou, com o não adiantaram os outros m édicos de Ilhéus, nem Dr. Pedro que veio de Tabocas. Antes de m orrer, Juca cham ou Sinhô em particular, pediu que ele desse um dinheiro a Margot. Depois falou com o capitão e Don'Ana, agora o quarto estava cheio de gente:- Quero um m enino, hein, não se esqueçam ! Um Badaró! - e pediu a Don'Ana alisando sua m ão: - Ponha m eu nom e...

Olga fazia um berreiro escandaloso, m as Juca não ligou im portância, m orreu tranquilam ente. Apenas lam entou nas suas últim as palavras, não poder ver a m ata de Sequeiro Grande plantada de cacau.

Depois do de Ester, não houvera em Ilhéus enterro com tam anho acom panham ento. Tam bém para ele viera um trem especial de Tabocas, António Vítor voltara a calçar as botinas rangedeiras, chorava com o um m enino. Manuel Oliveira escrevera um necrológio cheio de adj ectivos no "O Com ércio", Dr. Genaro botou discurso na beira da sepultura, discurso violento contra Horácio. Teodoro das Baraúnas j urava vinganças. Quando desceram o caixão á sepultura, Don'Ana j ogou um ram alhete de flores, Sinhô atirou a prim eira pá de terra. A noite, na casa triste, Sinhô andava de um lado para outro. Im aginava com o se vingar. Sabia que de nada adiantava m andar derrubar cabras de Horácio, os lavradores que com ele se haviam associado, só adiantava m andar acabar com o coronel. Só um a vida poderia pagar a vida de Juca, e era a de Horácio da Silveira. Decidiu que o m andaria m atar fosse com o fosse. Teve um a conversa com Teodoro e com o capitão, à dual Don'Ana assistiu. Dr. Genaro e o delegado achavam que Horácio devia ser processado. O cabra que m atara Juca era um Jagunço de Horácio, toda gente sabia que trabalhava na sua fazenda. Mas Sinhô faz um gesto violento com a m ão não era caso para processo. Não só não ficava fácil provar a responsabilidade de Horácio j á que o cabra m orrera, com o Sinhô Badaró não se sentiria vingado com ver Horácio no banco dos réus. Don'Ana era da m esm a opinião e o capitão concordou tam bém . ele estava um pouco assustado, não sabia com o tudo aquilo ia term inar. Teodoro das Baraúnas subiu no dia seguinte para tratar do assunto.

Mas, m atar Horácio, não era tarefa fácil. O coronel sabia que, tanto as estradas com o a cidade de Ilhéus, eram lugares perigosos para ele. E não saia quase nunca da fazenda. Quando vinha a Ferradas ou a Tabocas, um a com itiva de m uitos hom ens o rodeava, cabras de pontaria certeira, quase sem pre Braz vinha a seu lado. A Ilhéus não voltou durante m eses, Virgílio era quem subia à fazenda para inform ar ao coronel sobre a m archa dos processos. Porque, com o correr dos dias, Dr. Genaro convencera Sinhô de processar Horácio. Sinhô veio a concordar, tinha agora as suas razões. O delegado fez um inquérito, se transportou a Tabocas, arrolou um a série de testem unhas que afirm avam que o cabra que assassinara Juca era trabalhador da fazenda de Horácio. E um hom em do cais, que usava um anelão falso no dedo, não teve dúvidas em relatar ao delegado a conversa que m antivera na véspera do crim e, na venda de um espanhol, com o assassino. este tinha bebido m uito e o de anelão falso puxou pela sua língua. O hom em estava cheio de dinheiro, exibia um a nota de cem m il-réis, narrara em segredo que ia "fazer um trabalho de im portância a m ando do coronel Horácio". Esta era a testem unha m ais im portante contra Horácio. O prom otor aceitou a denúncia, Sinhô Badaró pressionava sobre o j uiz, tudo que Virgílio pode conseguir foi que Horácio não sofresse prisão preventiva. O j uiz se desculpava perante Sinhô Badaró: "quem se atreveria a ir prender Horácio na sua fazenda? Para bem do respeito que a j ustiça devia m erecer era m elhor que Horácio só fosse preso nos dias do j úri. Virgílio prom etera que Horácio com pareceria ao j ulgam ento”.

Dr. Genaro tinha grandes esperanças de conseguir um corpo de j urados que condenasse o coronel. Os Badarós estavam por cim a na politica, era possível até a pena m áxim a. Mas Sinhô tinha esperança era de liquidar com o coronel antes dele entrar em j úri. Ou, no últim o caso, com o dissera a João Magalhães, no próprio dia do j úri. Por isso adm itira o processo. Horácio parecia não se preocupar um m inuto sequer com aquele processo. Queria notícias era do outro, do que ele fazia correr contra Sinhô e Teodoro pela propriedade da m ata de Sequeiro Grande. No m eio de todos esses processos os advogados enriqueciam , se insultavam nas petições, preparavam os discursos para o j úri.

Apesar de todas as dificuldades por duas vezes, a vida de Horácio correu perigo. Prim eiro foi um hom em de Teodoro que conseguiu chegar até um a goiabeira perto da casagrande do coronel. Esperou aí várias horas até que Horácio apareceu na varanda e sentando-se num banco, com eçou a cortar cana para um a besta que possuía, m uito m ansa. O tiro pegou no anim al, Horácio, saiu correndo atrás do cabra m as não o alcançou m ais. Noutra ocasião foi um velho que apareceu na fazenda dos Badarós se oferecendo a Sinhô para liquidar Horácio. Não queria pagam ento, tudo que queria era um a arm a. Tinha contas a aj ustar com o coronel, inform ou. Sinhô m andou que lhe dessem um a repetição. O velho foi m orto quando tentava se aproxim ar da casa-grande de Horácio num a noite de lua. Alguém lem brou que ele era o pai de Joaquim , que fora dono de um a roça que hoj e pertencia a Horácio.

Diante dessas am eaças, Horácio reforçou a guarda da fazenda, saía raram ente, m as, nem por isso seus hom ens deixaram de abrir clareiras na m ata de Sequeiro Grande. Não tardaria, e se encontrariam com os hom ens dos Badarós que vinham pelo outro lado. Cada vez era m enos espessa a floresta, as m udas de cacau que deviam ser plantadas na m ata enchiam arm azéns num a e noutra fazenda. Quando acontecia cabras de Horácio se encontrarem com cabras dos Badarós havia tiroteio na certa, corria sangue nas estradas. 13

E, quando j á os hom ens na m ata ouviam o ruído dos m achados dos adversários no outro lado do rio, Ilhéus despertou num a m anhã com a notícia sensacional que o telégrafo trouxera: o governo Federal decretara a intervenção no Estado da Bahia. As tropas do exército haviam ocupado a cidade, o governador renunciara, o chefe da oposição, que chegou do Rio num vaso de guerra, tom ara posse com o interventor. Horácio agora era governo, Sinhô Badaró estava na oposição. O telegram a do novo interventor dem itia o prefeito de Ilhéus, nom eava o Dr. Jessé para o posto. No prim eiro navio vindo da Bahia, chegaram o novo j uiz e o novo prom otor e, com eles, a nom eação de Braz para delegado do m unicípio. O antigo j uiz fora designado para um a pequena cidade do sertão, m as não aceitou e pediu renúncia do cargo. Murm uravam que ele j á estava rico e não precisava m ais da m agistratura para viver. A "Folha de Ilhéus publicou um núm ero especial, a prim eira página em duas cores.

Foi só então que Horácio apareceu em Ilhéus, atendendo a um telegram a do interventor que o convidava a ir a Bahia para conferenciarem . Recebeu os cum prim entos dos am igos e dos eleitores, Virgílio em barcou com ele, um a m ultidão veio traze-los ao cais. A bordo, Horácio disse ao advogado:- Pode-se considerar deputado federal, doutor... Sinhô Badaró tam bém veio a Ilhéus. Conversou à noite com Dr. Genaro, com o ex-j uiz, com o capitão João Magalhães. Ordenou a seus hom ens que apressassem a derruba da m ata. Voltou no outro dia, Teodoro das Baraúnas o esperava na fazenda Sant'Ana 14

O telegram a de Braz arrancou Horácio das conversas políticas com o interventor, dos braços das m ulheres nos cabarés da Bahia, dos aperitivos com políticos nos bares m ais chiques, e o trouxe de volta no prim eiro navio. Os hom ens dos Badarós não só haviam caído sobre os trabalhadores de Horácio que derrubavam a m ata, fazendo um a verdadeira carnificina, com o haviam incendiado um a quantidade de roças de cacau. Durante toda aquela luta as roças de cacau haviam sido respeitadas, com o se os adversários obedecessem a um tácito com prom isso. O fogo devorava cartórios, plantações de m ilho e m andioca. arm azéns com cacau seco, m atavam -se hom ens m ão se respeitavam os cacaueiros.

Porém Sinhô Badaró sabia que estava j ogando sua últim a cartada. A m udança da situação política roubara seus m elhores trunfos. Um a prova disso era a desagradável surpresa que tivera ao ir vender a safra vindoura, por adiantado, a "Zude, Irm ão oz Cia." estes se m ostraram desinteressados falaram em dificuldades de dinheiro, propuseram finalm ente com prar o cacau m as com um a garantia hipotecária. Sinhô se enfurecera: pedir um a hipoteca de roças a ele, Sinhô Badaró! Maxim iliano tem era que o coronel o agredisse, de tão violento que ficara. Mas se recusou a com prar o cacau j á que Sinhô não queria dar as garantias pedidas. "Eram ordens", dizia. E Sinhô Badaró teve que vender o cacau á casa exportadora de uns suíços, por preços m iseráveis. Diante disso tudo, deu carta branca a Teodoro para agir com o quisesse em relação à m ata. Teodoro, então, pegara fogo nas roças de Firm o, de Jarde, e m esm o em algum as de Horácio. O incêndio durara dias, o vento o propagava, as cobras fugiam silvando.

Continuar: parte 3 de 3