The Game: O Jogo

Anders de la Motte · Capítulo 11 de 26

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The Game: O Jogo

Eu perdi o Jogo 9

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Eu perdi o Jogo 9

“Ok, Rebecca, nós já passamos pelos detalhes algumas vezes, mas você poderia falar um pouco mais sobre como se sente?”

Ela teve de se impedir de olhar para o teto.

Como ela se sentia?

Psicopapinho sobre um tema-padrão do tipo que ela tinha ouvido tantas vezes antes e que nunca levou a nada de positivo.

Será que ele realmente queria ouvir a verdade?

Que ela se sentia uma merda?

E mesmo se ela fosse totalmente honesta e contasse toda a sua história, e virasse seus sentimentos, pensamentos e reflexões de dentro para fora — isso iria ajudar? Isso poderia desfazer tudo? Dificilmente, então ela teria de colocar a velha máscara.

“Obrigada, mas eu me sinto bem comigo mesma”, ela conseguiu dizer, com algo que era para ser um sorriso complacente.

Ela olhou para o relógio, haviam se passado vinte minutos mais ou menos desde que começaram o depoimento, e ela teria sorte se conseguisse fugir em menos de meia hora.

Tinha sido Rebecca quem havia insistido na sessão das oito horas. Ela queria tirar da frente a conversa com Anderberg, para que pudesse ir até Maria Trappgränd antes que o vagabundo de seu irmão tivesse sequer aberto os olhos…

Anderberg suspirou e folheou as anotações.

“Você já teve a oportunidade de falar com alguém sobre o que aconteceu? Amigos, família, colegas, talvez?”

Ele a olhou por cima dos óculos estreitos.

“Não”, ela disse, de maneira um pouco abrupta demais, mas logo percebeu seu erro e tentou se corrigir. “Não, ainda não tive tempo de falar com ninguém, além do que, aconteceu ontem à noite, e eu queria ver você primeiro.”

Um sorrisinho no final da mentira valeria o truque?

Boa jogada! Anderberg estava pensando.

Uma menina esperta, essa aqui, mas não esperta o suficiente para enganá-lo, pelo menos não no dia seguinte a uma experiência tão traumática como a que ela tinha acabado de passar. Um acidente de carro e seu parceiro na UTI, isso não era o tipo de coisa que você poderia simplesmente esquecer.

Essa foi a segunda vez em apenas duas semanas que eles se encontraram, e suas preocupações anteriores sobre Rebecca Normén não tinham exatamente diminuído. Tanto quanto ele entendia, ela tinha mais uma vez agido de forma irrepreensível, mas dessa vez não parecia nem de longe tão calma.

Em contraste com a conversa anterior, dessa vez ela soava mais como um robô, como se estivesse em piloto automático. Isso não era um bom sinal. Se ele não conseguisse fazer com que ela se abrisse e falasse sobre seus sentimentos agora, as coisas seriam muito diferentes, e seu relatório seria consideravelmente mais fácil de escrever. Ele tinha visto oficiais mais durões do que ela se destruírem como resultado de experiências não processadas, e ele não tinha nenhum desejo de adicionar o nome de Rebecca a essa lista trágica.

“Mas você tem alguém com quem possa falar se precisar? Às vezes, pode levar alguns dias depois de uma experiência assim, e de repente todas as coisas vêm à tona borbulhando. Você pode ficar com meu número, é claro, mas é importante poder falar com outras pessoas, acima de tudo família e amigos”, continuou.

Ela balançou a cabeça em silêncio.

“Mas você não tem nenhum problema nessa frente?”

Ele olhou para ela novamente por cima do aro dos óculos.

Ela respirou fundo e fez um esforço para parecer calma.

“Não, não tenho.”

Anderberg assentiu e folheou suas anotações novamente.

“Você tem um Henrik Pettersson listado como seu parente mais próximo. Ele é seu parceiro?”

Ela estava a ponto de saltar de sua cadeira! Anderberg não era estúpido, isso estava claro.

Um pouco de bate-papo inofensivo e, em seguida, bang, direto em seu ponto fraco. Evidentemente, sua defesa habitual não estava funcionando, então ela tinha de escolher as palavras com cuidado…

Outra respiração profunda. Cuidado agora, Normén!

“Henrik é meu irmão. Normén era o nome de solteira de mamãe, eu passei a usar depois que…” Ela mordeu o lábio involuntariamente.

“… ela faleceu”, concluiu ela, com o que esperava que fosse um sorriso triste.

O psicólogo assentiu.

“Então você é próxima de seu irmão?”

“Não mais,” escorregou de sua boca.

Merda, a falta de sono e a dor de cabeça estavam lhe fazendo mal, e Anderberg não era qualquer um. Hoje estava extraordinariamente difícil manter a guarda levantada, principalmente porque em sua mente ela já estava batendo na porta de Henrik. Ela tinha de reagrupar e tentar uma nova tática.

“Você gostaria de falar sobre isso?”

Evidentemente, Anderberg tinha sentido algo no ar. Ela tinha de pisar com cuidado agora.

Deu de ombros para se dar mais alguns segundos para pensar. Que diabos poderia dizer?

Não, querido psiquiatra, eu não gostaria de falar com você sobre o inútil do meu irmãozinho criminoso que não dá a mínima sobre qualquer coisa e destrói tudo o que toca, mas com quem eu vou estar em dívida para o resto da minha vida.

“As coisas eram muito difíceis quando estávamos crescendo”, ela disse em vez disso, na esperança de que algumas confissões graves, mas inofensivas, iriam tirá-lo do caminho.

Anderberg assentiu, encorajando-a, evidentemente interessado.

“Bem, para começar era, principalmente, papai, eu acho. Mas depois de um tempo ele arrastou mamãe com ele, pode-se dizer. Especialmente depois que ela ficou doente.”

Ela respirou fundo antes de continuar.

“Papai era bastante incomum. Ele era um pouco mais velho do que mamãe quando eles se casaram. Era seu apartamento e ele já tinha suas rotinas estabelecidas. Tudo tinha que ser exatamente do jeito que ele queria, até os mínimos detalhes, e papai ficava furioso com as coisas mais ínfimas. Um molho de chaves no lugar errado ou uma marca no espelho do banheiro eram o suficiente para deixá-lo fora de si. Quando ele estava em casa, o resto de nós tinha que andar na ponta dos pés para não deixá-lo irritado ou perturbado”, disse ela. “Henke, meu irmão, é três anos mais novo que eu. Quando as coisas estavam ruins, pelo menos, tínhamos um ao outro. Eu costumava protegê-lo, confortá-lo e levá-lo para fora até que as coisas se acalmassem. Acho que dá pra dizer que nós dávamos um ao outro um pouco de estabilidade.”

Ela sorriu inconscientemente.

“Eu costumava levá-lo comigo sempre que podia, não queria que ele ficasse em casa sozinho com papai. Você nunca sabia o que poderia acontecer, e se alguma coisa acontecesse, por alguma razão, meu irmão mais novo sempre era o culpado, talvez porque fosse menor e mais fraco. Papai não se segurava, exatamente, especialmente depois de beber um pouco, e, mesmo que mamãe fizesse o seu melhor, ela nunca ousou enfrentá-lo e tomar o nosso lado quando havia problemas. Provavelmente, já era demais pra ela ter que lidar com os humores dele. Mas papai nunca encostou um dedo em mim, por outro lado. Eu estava segura, de alguma forma, os homens de sua geração não batiam em meninas, então talvez foi por isso que eu comecei a tentar proteger o Henke.” Ela deu de ombros e pegou o aceno de encorajamento de Anderberg.

Ele evidentemente havia mordido a isca. Mas, para sua surpresa, ela também descobriu que não tinha qualquer problema em continuar…

“Henke era muito paciente, estava sempre junto, nunca reclamava, mesmo que na maioria das vezes tivesse que brincar de coisas de meninas. Às vezes, ele tinha que ser a boneca, enquanto eu e as outras meninas do quarteirão o fantasiávamos. Mamãe, papai, bebê e tudo aquilo… Todas as coisas que não tínhamos em casa.”

Ela sorriu novamente e olhou para suas coxas, pensativa.

O psicólogo não a forçou; na verdade, ele parecia bastante satisfeito.

Era irônico, realmente, que tudo o que ela havia tentado esconder até agora tinha se transformado em uma cortina de fumaça perfeita. Uma nova linha de defesa, agora que a antiga parecia ter esfacelado. Ela não falava sobre isso há… bem, devia fazer treze anos agora, e ela se sentiu muito bem em se abrir.

Um rápido olhar no relógio, vinte e cinco minutos tinham se passado. Agora, ela só tinha de acabar com isso e pegar o metrô no sentido sul. Como antigamente.

“Mas vocês tiveram menos contato desde que cresceram?”

Seu tom era amigável, mais favorável do que interrogatório.

Ela balançou a cabeça, confirmando.

“Sim, infelizmente perdemos um pouco da nossa proximidade quando eu saí de casa. Papai tinha morrido subitamente no ano anterior e Henke tinha 16 anos na época, por isso me senti bastante segura em deixá-lo com mamãe. É verdade que ela também estava bastante doente e passava a maior parte do tempo na cama. Mas eu conheci um rapaz e nós fomos morar juntos. Primeiro amor e tal.”

Ela encolheu os ombros, em um esforço para parecer indiferente.

“Eu vinha cuidando da casa praticamente sozinha, e cuidando da mamãe também, então pensei que era a vez do Henke assumir mais responsabilidade agora que o papai estava fora da jogada… Meu namorado e eu arrumamos um apartamento para eles em Södermalm, perto de Mariatorget. Menos espaçoso e mais perto do hospital. E visitas de uma faxineira para tornar as coisas mais fáceis. Eu estava apaixonada e tinha pressa para ir embora, me livrar da responsabilidade de uma vez por todas. No lugar dela, eu me prendi ao meu relacionamento com Dag, e Henke provavelmente se sentiu um pouco abandonado. Afinal, ele estava acostumado comigo lá, nós dois contra o mundo. E ele não se dava exatamente bem com o meu namorado, por isso…”

Ela parou. Esse era um território perigoso, melhor não se perder no meio de um monte de mentiras desnecessárias.

“De qualquer forma, só durou uns dois anos, então mamãe morreu de câncer. Henke ainda mora no apartamento, mas o nosso relacionamento nunca se recuperou… Pode-se dizer que estamos trabalhando nisso…”, ela concluiu, com uma expressão resoluta.

Grande parte do que disse era realmente verdade. De um ponto de vista puramente técnico, não mentiu, apenas omitiu certos detalhes. A questão era se a história se sustentaria.

Anderberg assentiu com empatia, evidentemente feliz com as confidências que tinha conseguido extrair.

“Então vocês ainda se veem, você e Henrik?”

“É claro”, respondeu ela, com um sorriso de alívio. “Na verdade, vou vê-lo assim que terminarmos aqui.”

…e vou torcer seu maldito pescoço!, acrescentou silenciosamente para si mesma.

Quem estava tocando sua campainha era um maldito teimoso. Ele tentou puxar o travesseiro sobre a cabeça, fingindo que não estava em casa para que o filho da puta fosse embora. Mas, ah, não. O idiota lá fora era pior que qualquer testemunha de Jeová. Ele ou ela apertava a campainha em intervalos dolorosos, quase tortuosos, e estava fazendo isso há pelo menos dez minutos já. HP tinha tido muito tempo para acompanhar.

Primeiro, dez segundos de toque insistente, trrrrrriiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmm!

Depois, uma pausa de dez segundos.

E aí, mais uma vez, trrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmm!

Aquilo o estava deixando louco. No final, não teve outra escolha a não ser ir lá e abrir.

Com o rosto vermelho e vestindo apenas um par de calças de moletom que pescou de uma cadeira no caminho, abriu a porta com raiva para dizer poucas e boas ao filho da puta. E, um segundo depois, sem que entendesse o que tinha acontecido, estava deitado de costas no tapete da sala.

Anderberg tinha comprado sua nova tática defensiva, mordido a isca completamente… Nada funcionava melhor com psiquiatras do que uma infância trágica. O médico tinha ficado muito feliz com o rumo inesperado que a conversa tomara. Ele elogiou sua honestidade, chamou-a de pessoa forte e concordou em deixá-la voltar ao trabalho na semana seguinte. Alguns dias de descanso seriam bons pra ela, daria tempo para que conseguisse resolver algumas coisinhas…

Ela levou quase dez minutos para tirá-lo da cama. Foi o suficiente para abrir a caixa de correio e ouvir os barulhos do apartamento para saber que ele estava em casa. Mesmo que o quarto ficasse do outro lado do apartamento, não era longe o suficiente para confundir o som de um ronco.

Usou a conhecida tática da polícia com a campainha: um toque de dez segundos, dez de silêncio, depois outro toque.

Ninguém aguentava isso por muito tempo.

Ela ouviu-o vindo pelo corredor e se mexeu para o lado para escapar do olho mágico. Como tinha imaginado, ele planejou abrir a porta de uma vez, e como ela já estava segurando a maçaneta do lado de fora, não foi difícil deixá-lo começar a abrir, depois empurrar a porta com força pelo seu lado e fazê-lo cambalear até a escada. Então, enquanto ele ainda estava em choque e tentando recuperar o equilíbrio, tudo o que ela tinha a fazer era empurrá-lo suavemente no peito para fazê-lo voar de volta para o tapete da sala.

Um passo rápido e ela fechou a porta atrás de si.

Táticas policiais básicas, exercício 1A.

“Que porra você está fazendo, Becca?”, ele gemeu quando se levantou e descobriu quem era o intruso.

“Eu poderia te perguntar a mesma coisa”, disse ela secamente, e apontou para a cozinha.

“Você tem algum café no apartamento ou você gasta todo o seu dinheiro em outros produtos vegetais?”

Ela já tinha sentido o doce cheiro de haxixe no apartamento que exalava da caixa de correio na porta.

Ele não respondeu, apenas entrou na cozinha antes dela e começou a remexer na pia.

“Serve Nescafé?”, murmurou, acenando com um pote de vidro marrom.

“Na verdade, não, mas tudo bem”, respondeu ela, empurrando uma pilha de jornais Metro velhos de uma das cadeiras da cozinha.

Ela viu que o apartamento estava uma bagunça completa. Roupas e diversos tipos de outras coisas empilhados em montes. Jornais antigos, cinzeiros cheios e copos sujos praticamente em todos os lugares em que ela olhou. As paredes e o teto eram amarelos de fumaça de cigarro, e a vasilha de plástico gordurosa e transbordante na pia lhe dizia que fazia um bom tempo que qualquer louça tinha sido lavada. Estava alguns níveis pior, até, que nos últimos dias de mamãe. Parecia o muquifo de um drogado, tirando a televisão de tela plana e o computador que ela tinha visto na sala.

Como diabos ele poderia viver nesse tipo de sujeira?

“Então… como vai você, mana?”, ele perguntou, alguns minutos depois, de um jeito mais calmo e menos ranzinza, enquanto servia o café instantâneo em canecas diferentes.

“Depende do que você quer dizer”, ela respondeu bruscamente. “A vida em geral ou o meu atual estado de saúde?”

“‘Er… você sabe”, ele balançou a cabeça apontando os curativos na cabeça dela. “Após o acidente, eu quero dizer.”

Ela suspirou.

“Ah, eu estou bem, obrigada por perguntar. Um pouco de dor de cabeça, alguns hematomas menores e alguns dias de folga, mas isso é praticamente tudo.”

“E seu parceiro?”

Os olhos dela apertaram, mas não deixou de perceber o tom constrangido da pergunta. Ele com certeza parecia preocupado, quase de verdade.

“Um pouco melhor, obrigada, eu liguei esta manhã e ele está progredindo. Parece que vai sobreviver.”

“Graças a Deus!”

Tanto sua linguagem corporal quanto seu tom de voz davam a entender que ele realmente queria dizer isso.

A questão era: por quem ele estava mais aliviado? Ela tinha certeza de que não era por Kruse.

“Ok, agora que já fizemos as cortesias, talvez você gostaria de me explicar o que diabos aconteceu ontem? Liguei para três unidades de detenção diferentes por sua causa e praticamente todos riram da minha cara.”

Ele olhou para baixo imediatamente.

“Nada”, murmurou.

“Nada?”, ela repetiu da maneira mais severa que pôde.

“Só uma brincadeira de bêbado, eu tomei umas cervejas em Kvarnen e depois fumei um na casa de um amigo. Eu vi tudo no noticiário e ouvi que era você. Quando os outros descobriram que minha irmã era uma policial, eles me fizeram te ligar e dizer que fui eu quem jogou a pedra e tal… Eles provavelmente não achavam que eu realmente iria ligar. E não deveria mesmo.”

“Desculpe!”, acrescentou, olhando para cima com um sorriso bobo. “Foi realmente estúpido e imaturo, eu sei.”

Ele jogou os braços em um gesto de desarmamento.

Ela não respondeu, apenas olhou para ele por alguns segundos.

Henke sempre foi bom em esticar a verdade, inventando coisas, contando mentiras inofensivas, ou simplesmente mentindo descaradamente. Primeiro para seus pais quando eram pequenos, na maior parte das vezes para papai, claro: Não, pai, eu não tenho ideia de onde você deixou sua carteira. Depois para seus professores na escola, e finalmente para o resto do mundo, com uma exceção. Foi somente depois de tudo o que aconteceu e ele saiu da prisão que começou a mentir para ela também, o que provavelmente não era tão estranho, pensando bem. Na maior parte do tempo, ele era muito bom nisso, tão bom que, geralmente, levava alguns dias para ela perceber que tinha caído em uma de suas mentiras novamente. Mas não hoje.

Hoje havia algo faltando.

Para começar, a mentira não tinha os detalhes certos e era muito fácil de ser derrubada com alguns fatos, como o de que a Polícia de Segurança nunca divulgaria seu nome para a imprensa, por isso ele não poderia saber que ela estava envolvida se ele tivesse visto algo sobre o acidente na televisão. E ela duvidava seriamente que um bando de maconheiros estaria sentado assistindo ao noticiário…

Curiosamente, a história patética dele só a deixava mais irritada. Como se ele estivesse tentando livrar-se dela e dizer que ela era uma idiota ao mesmo tempo. Mas então percebeu que os detalhes tinham uma importância secundária.

A principal coisa que estava faltando era seu habitual sorriso convincente e o brilho em seus olhos que sempre fazia com que acreditasse nele. Seu olhar de irmão mais novo, ela chamava. Henke estava longe de parecer tão autoconfiante como sempre, ela podia ver isso claramente. E não era apenas o cansaço da manhã visível em seu rosto. Ele também tinha um olho roxo e um curativo no nariz que ela tinha visto, mas não tinha se ligado de verdade até que começou a olhá-lo corretamente.

Ele tinha sido espancado, seus instintos policiais lhe disseram, mas a irmã mais velha dentro dela esperava que tivesse apenas caído da escada. Mas, qualquer que tenha sido a causa, Henke parecia desgastado, abalado, quase como se estivesse seriamente preocupado com alguma coisa, o que era incomum para ele, para dizer o mínimo. Se ela não o conhecesse tão bem, quase poderia dizer que ele estava com… medo?

“Não minta para mim, Henrik”, disse ela com calma, tentando prender seu olhar errante.

“O que você quer dizer, eu não estou mentindo!” Ele ergueu as mãos e passou por seu roteiro habitual. Mas não era nem de perto tão convincente como normalmente.

Ele podia entender como tudo parecia tão inacreditável. Mas que porra ele deveria fazer? Dizer a verdade?

Já tinha quebrado a regra número um uma vez, e duas vezes em 24 horas definitivamente não seria uma boa ideia.

Além disso, quais eram as chances de ela acreditar nele?

Eu estava jogando um reality game, eles me testaram e eu perdi. Me desculpe por ter metido você no meio, foi mal!

Até parece!

Era uma má sorte do caralho ele ter acertado ela. De todos os carros de polícia da cidade, ele tinha que bater bem no da irmã! Quais eram as chances disso?

Na verdade…

Merda, como ele era estúpido! Que completo idiota da porra por não perceber…! A sorte não tinha nada a ver com isso!

Ele voou da cadeira, agarrou o braço dela e tentou arrastá-la em direção à porta.

“Você tem que ir embora!”, murmurou com firmeza, enquanto ela o empurrava.

“Me solta, Henke, o que você tem agora?”

“Por favor!”, implorou, quando percebeu que ela era muito forte e ele nunca conseguiria expulsá-la à força.

“Por favor, Becca, você tem que ir embora. Agora mesmo!”

Ela se soltou do aperto dele com bastante facilidade. Que diabos ele estava fazendo agora? De repente, parecia ter enlouquecido. Quanta maconha estava fumando hoje em dia, a menos que tivesse mudado para algo mais pesado?

“Por favor, Becca, eu estou te implorando. Você tem que sair. Eu estou com um problema, mas vou resolvê-lo, eu prometo. Mas, se você não for… eles têm pessoas… Você tem que sair, imediatamente!”

Ele podia ouvir como parecia assustado, mas não fez nenhum esforço para fazer algo sobre isso. Realmente estava apavorado. Eles a tinham usado para testá-lo. Eles o manipularam para ferir a própria irmã, a única pessoa com quem ele… bem… se importava.

E só por diversão!

Quanto mais pensava nisso, mais óbvio parecia. Ontem, tudo parecia muito confuso, mas agora que tinha tido tempo de pensar melhor, entendeu o que tinha acontecido. O que ele realmente era. Um peão no Jogo, nada mais, nada menos. Uma porra de peão!

E lá estava ele, imaginando que era uma espécie de superastro, quando era apenas um na multidão. Um peãozinho patético que poderia facilmente ser sacrificado para que o jogo pudesse seguir em frente. E isso foi exatamente o que eles tinham feito. As imagens dele confessando tudo para Bolin, o policial de mentira, provavelmente já estavam por aí.

Nós fizemos esse idiota quase matar a irmã e depois confessar tudo para os meninos de azul! Malditos sem coração.

Então, o que não seriam capazes de fazer se ele continuasse a quebrar as regras? Se, apesar do aviso, ele não respeitasse a regra número um?

“Por favor, Becca, por favor! Você tem que ir, agora!”, ele gritou.

Ok, pelo menos ele estava sendo honesto agora, ela podia perceber. E estava absolutamente aterrorizado, mas a pergunta era: por quê? Com quem ele tinha problemas? Ela abriu a boca para perguntar, mas ele foi mais rápido.

“Você me deve, Becca”, disse ele, mais calmo agora, de repente encarando-a diretamente.

“Você sabe por quê”, acrescentou, seu coração afundando como uma pedra sobre o limite que ele tinha cruzado.

Poucos segundos depois, ouviu a porta da frente fechar com uma batida. Pela primeira vez em anos, ele quase…

Lágrimas! Era o que parecia, como se ela estivesse prestes a chorar. Ela não chorava desde o enterro de mamãe.

Maldito Henke do caralho!

Mesmo antes, quando tudo estava acontecendo, ela não havia derramado uma única lágrima, mas agora podia senti-las queimando atrás de seus olhos. e piscou com força para se recompor. Ela não iria começar a chorar agora, isso era certo!

Eles nunca tinham conversado devidamente sobre tudo o que aconteceu em Bagarmossen, os dois sempre andando na ponta dos pés em torno do assunto, mas agora, do nada, ele subitamente jogou tudo na sua cara. Fazendo com que se lembrasse que sua dívida não tinha de modo algum sido esquecida e que treze anos não eram nem de perto suficientes para que as coisas se resolvessem.

Como ela podia ser estúpida o suficiente para pensar o contrário?

Ele estava certo, é claro, tinha sido culpa dela, mas ele tinha sofrido as consequências. Ela tinha uma dívida com ele, e sempre teria.

Porque ela era uma putinha assassina.

Apesar de serem 10 horas, HP voltou para a cama e colocou a cabeça entre os travesseiros. Estava cansado, enfraquecido, totalmente exausto, mas ainda assim não conseguia voltar a dormir.

Os pensamentos giravam em sua cabeça como se estivessem naquela secadora enorme da lavanderia.

Dando voltas e voltas lentamente.

O Jogo, as missões, a lista, o dinheiro, o negócio em Lindhagensplan, os policiais falsos, sua irmã, e o tambor completou seu ciclo, e ele estava de volta onde tinha começado.

O Jogo.

Eles o tinham enganado, fizeram-no pensar que era alguém apenas para puxar o tapete de debaixo dele. Bolin e os macacos eram provavelmente atores contratados que deviam seguir um roteiro. Ou, pior ainda: outros jogadores que tinham recebido a tarefa de fazê-lo confessar! E eles tinham feito um trabalho bom pra caralho… Jesus, em que merda de armadilha monumental tinha caído!

A coisa mais doente era que, mesmo que ele soubesse que tinha sido regiamente fodido no cu, que ele era a putinha particular do Jogo, ainda não conseguia parar de pensar que…

E se tudo pudesse ser corrigido? Pedir desculpas, fazer as pazes e restabelecer o número 128?

Voltar para o Jogo.

Até mesmo quando estava no corredor do Além da Imaginação e tinha quase se mijado, parte dele ainda se recusava a aceitar que estava acabado, que tinha fodido com tudo. Provavelmente, foi por isso que não havia deixado o celular lá.

Porque ele ainda estava com ele, não estava?

Ele tinha de se levantar e verificar.

Sim, o pequeno retângulo prata ainda estava na mesa da sala onde o havia deixado. A luz do LED estava apagada, o que era de se esperar. Ele agora era uma não pessoa.

Fredo Corleone do caralho.

Caçou irritado por vários bolsos de casacos e finalmente desenterrou um maço amassado de Marlboro.

Sentado à mesa da cozinha, fumou três, um após o outro, enquanto a secadora em sua cabeça continuava girando.

Então que diabos ia fazer agora?

Foi acordado por um barulho na caixa de correio.

Que horas eram, porra?

O rádio-relógio na mesa de cabeceira dizia 15h36. Ele estivera dormindo a maior parte do dia.

A secadora finalmente diminuiu a velocidade o suficiente para que ele voltasse para a cama e aproveitasse mais algumas horas de um mais que necessário sono.

Um barulho ainda vinha da caixa de correio.

Ou ele estava recebendo um monte de contas, ou então o novo catálogo da Ikea não cabia.

Ele se virou e puxou o travesseiro sobre a cabeça. O barulho continuou por mais alguns segundos, então tudo ficou em silêncio.

Ele se perguntou se devia se levantar, mas não conseguia pensar em uma boa razão para isso. Sua cabeça e braço ainda doíam após o tratamento do dia anterior, ele não tinha dinheiro, e como o Jogo tinha acabado, não havia nenhuma razão para se rastejar para fora da cama.

Que vida maravilhosa!

Era tudo muito trágico, na verdade…

Então, notou o cheiro. Um fraco, mas inconfundível cheiro de queimado. Algo ferveu até secar, pensou. Ele tinha deixado o fogão aceso quando ferveu a água para o café? Não seria a primeira vez.

Ok, filho da puta, você queria um motivo para se levantar e agora tem um!

Ele rolou relutantemente para fora da cama, coçou a barba por fazer e outros lugares estratégicos antes de cambalear para a cozinha. O fogão estava vazio, nenhuma das bocas estava ligada.

Franziu a testa.

O cheiro estava ficando mais forte, então o que diabos estava queimando?

Alguns instantes depois, as sinapses em seu cérebro fizeram a conexão certa, e ele saiu correndo para a sala.

Uma fumaça grossa e acre o atingiu quando se virou para o canto.

O tapete de plástico gasto em que tinha se encontrado deitado algumas horas mais cedo estava completamente aceso, e as altas chamas já lambiam as paredes e a parte interna da porta da frente. Seus olhos ardiam, e ele instintivamente deu alguns passos para trás.

Saia!, seu cérebro gritava para ele.

O apartamento está em chamas, pelo amor de Deus, saia, discar um-um-

dois[6] é fácil, saia já!

Mas ele estava paralisado pelas chamas, que cresciam cada vez mais à medida que se espalhavam pelo piso de madeira.

Mesmo que percebesse o perigo, havia algo de bonito, quase encantador, nele. As chamas alaranjadas, a fumaça preta e o som crepitante de fogo se apossando de seus bens davam uma sensação quase libertadora.

Como se, no fundo, ele desejasse essa destruição…

De repente, escutou o som de batidas na porta.

“Fogo!”, ele ouviu alguém gritar do corredor. “Você pode me ouvir, seu apartamento está pegando fogo, pelo amor de Deus!”

O feitiço foi quebrado imediatamente, e seu cérebro e corpo estavam novamente em sincronia.

“Se proteja, soe o alarme, apague-o”, uma voz infantil ecoou em sua cabeça.

Ok, se proteger já era impossível, não havia para onde ir se não quisesse saltar da janela do segundo andar para a rua.

Próxima!

Correr através das chamas estava fora de questão, e, de qualquer maneira, a porta estava trancada e ele estaria frito antes que conseguisse abri-la.

Próxima!

Soar o alarme?

Inútil, já que não tinha um telefone.

A menos que…

Ele correu de volta para a cozinha, pegou o celular e tocou a tela.

Voltou à vida imediatamente.

“Apenas chamadas de emergência”, dizia a tela.

“Não é essa a verdade?”, rosnou com os dentes cerrados, enquanto fazia a ligação.

“Serviço de emergência, qual é sua emergência?”

“Meu apartamento está pegando fogo, Maria Trappgränd, 7, uma pessoa presa dentro”, conseguiu dizer antes que a chamada fosse cortada.

Estava prestes a ligar novamente, quando a luz de LED começou a piscar.

Com um dedo trêmulo, tocou a tela e ela voltou à vida mais uma vez.

Lembre-se da regra número um, HP!

O Mestre do Jogo

Olhou para o telefone por alguns segundos, como se estivesse tendo dificuldade para entender o que estava acontecendo.

Então, lembrou-se de onde estava e atirou o celular de lado, pegou a vasilha da pia com as duas mãos e, com alguns passos largos, voltou à sala, onde esvaziou-a na direção do fogo.

“Apague, apague, apague”, a vozinha animadora em sua cabeça cantava, e com um estrondo uma semana de sujeira de molho e alguns litros de água suja caíram no chão da sala.

O fogo chiou e cuspiu uma nuvem de fumaça branca, mas HP não viu nada.

Ele já estava de volta à cozinha, desesperadamente enchendo a vasilha vazia com mais água.

Depois, esvaziou-a, então, novamente, e novamente, e agora podia ver claramente o fogo diminuindo.

Seus olhos ardiam, seus pulmões queimavam e sua respiração estava ficando difícil, mas não estava disposto a desistir agora.

Quando estava esvaziando a vasilha pela quinta vez, a porta da frente foi escancarada com um estrondo e instantes depois uma nuvem de espuma e fumaça branca tomou conta dele, antes mesmo que pudesse colocar as mãos sobre o rosto.

Tossindo loucamente, cambaleou para trás em direção à cozinha e piscou para conter as lágrimas o suficiente para conseguir abrir uma janela antes de cair no chão. Estava arfando desesperadamente para respirar, mas sua garganta tinha encolhido até ficar do tamanho de um canudo.

Tudo estava começando a ficar preto.

Da rua, dava para ouvir o som de sirenes e pessoas dando ordens.

“Discar um-um-dois é fácil”, a voz de criança dentro de sua cabeça cantava pouco antes de ele perder a consciência.

“Você teve sorte, Henrik”, disse o médico, sem saber que estava repetindo o que seu colega em St Göran tinha dito na noite anterior.

“Você inalou um pouco de fumaça e tem uma pequena queimadura na mão esquerda, mas é mais ou menos isso.”

Ele balançou a cabeça, em silêncio, da maca. Era consideravelmente mais fácil respirar agora, provavelmente graças à máscara de oxigênio.

“Nós vamos lavar seus olhos mais uma vez, você ficou coberto com um bom tanto de espuma, mas não há nenhum perigo real. Sua visão pode ficar um pouco embaçada por alguns dias, mas vai passar.”

Ele balançou a cabeça novamente.

Não havia por que tentar falar com a máscara, e, além disso, o que diria?

“Bem, então”, disse o médico, enquanto se levantava. “Se você não tem nenhuma dúvida, eu preciso ir. Mesmo que se sinta bem, fique com a máscara até que a enfermeira tenha lavado os seus olhos. Você precisa respirar oxigênio puro para expulsar o monóxido de carbono que inalou. Cuide-se, Henrik!”

Ele acenou com a cabeça uma terceira vez, para concordar e se despedir.

Então estava finalmente sozinho.

A secadora começou novamente, dessa vez em uma configuração avançada. Mas, antes que tivesse tempo para se concentrar nisso, bateram na porta e dois policiais uniformizados entraram. Perfeito, exatamente do que ele precisava.

King of the Mounties, o Cling e o Clang estão aqui para arruinar seu dia. Merda!

Seus nomes eram Paulsson e Wöhl, e, depois que ele pediu para ver seus distintivos e os examinou cuidadosamente, apesar de estarem de uniforme completo, eles tinham algumas perguntas para ele.

Por acaso ele tinha inimigos? Não, senhor, ele não tinha.

Conseguia pensar em qualquer outra razão para que alguém quisesse derramar parafina através de sua caixa de correio e atear fogo em sua sala?

Sim, ele certamente conseguia pensar em uma razão, mas não tinha nenhuma intenção de compartilhá-la com dois policiais de pés chatos, ou com qualquer outra pessoa. Ele não precisava de mais nenhuma lembrança das regras, muito obrigado!

“Não, senhor, infelizmente não”, respondeu ele em vez daquilo, com a cabeça inclinada para um lado e seu olhar honesto no rosto. Nenhum deles pareceu acreditar, mas que diabos!

Além do que ele lhes tinha dito sobre o início do fogo, havia qualquer outra coisa que pudesse lhes dizer que poderia ser relevante para a investigação?

A mesma resposta novamente, pela terceira vez: Não, nada!

Os policiais trocaram um olhar de cumplicidade, segurando suas anotações, e depois de algumas pérolas finais de sabedoria finalmente desistiram.

“O caso será investigado pela polícia de Södermalm.” Ótimo, muito obrigado!

Ele já sabia qual seria o resultado. Absolutamente nada.

“Oi, sou eu… Micke…”, acrescentou ele, caso ela não reconhecesse sua voz.

“Oi”, ela disse secamente, então percebeu que, na verdade, estava feliz que ele tinha ligado.

“Como você está?”

Ele parecia um pouco inseguro, como se não soubesse realmente o que dizer. Geralmente, era ela quem telefonava.

“Bem, obrigada, apenas um pouco cansada. Tenho estado um pouco ocupada com o trabalho”, ela se percebeu dizendo, surpresa com sua honestidade.

“Ah, entendo… Você provavelmente não quer me encontrar, então?”

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. A dor de cabeça não tinha passado, suas costelas ainda estavam doloridas, e as últimas palavras de Henke ainda ecoavam em sua cabeça. Então, não, realmente não!

“Claro, eu consigo chegar aí em meia hora”, respondeu ela, e pela segunda vez na conversa, ela se surpreendeu.

“Eu pensei que talvez pudéssemos sair… conversar um pouco?”, ele continuou rapidamente.

Seu cérebro disse que era hora de puxar o freio de mão.

Transar, sim, conversar, não! Não temos tempo para esse tipo de coisa, Normén!

“Claro!”, sua boca respondeu desobedientemente, e quarenta e cinco minutos depois eles estavam sentados em um pequeno tailandês em Vasastan, e, para sua surpresa, ela descobriu que era muito, muito bom apenas conversar um pouco por um tempo.

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