The Game: O Jogo
Voltando 17
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Voltando 17
Ela estava com raiva. Não, raiva não era a palavra certa, ela estava furiosa. Apesar de suas tentativas de ser honesta, de tomar a responsabilidade por aquilo que realmente tinha acontecido naquela noite, os bilhetes continuavam chegando. Os mesmos post-its brancos com o logotipo da força policial, a mesma caligrafia familiar em tinta vermelha.
Nada menos do que quatro pontos de exclamação acusatórios dessa vez, como se a própria mensagem já não estivesse clara como cristal. Ok, chega dessa merda agora!
Então, o que ela deveria fazer?
A única coisa em que conseguia pensar era tentar resolver essa maldita confusão mais uma vez. Tentar colocar tudo para fora, de uma vez por todas, sem desculpas ou evasivas.
Tentou algumas vezes, discava o número, mas sempre dava para trás na última hora, quando a secretária eletrônica atendia.
Mas isso teria de esperar até depois do trabalho.
Eles passavam a maior parte do tempo esses dias em um constante vaivém entre Arlanda e o centro da cidade. Na maioria das vezes, eram figurões da UE indo e vindo, enquanto a presidência da UE se agitava. Agricultura e Pesca já estavam definidas, os ministros do Meio Ambiente circulando a toda hora, e dentro de alguns dias o nível de ameaça aumentaria significativamente, quando os chanceleres se encontrassem.
Vahtola já havia sinalizado que alguém muito importante viria, provavelmente dos EUA ou da Rússia. Talvez dos dois?
Estacionou do lado de fora do Grand Hotel, saiu rapidamente do carro, varreu o cais através dos óculos de sol, depois deu um rápido aceno para a equipe fixa que estava à espera na entrada.
Tudo calmo, entrou com os VIPs, depois uma marcha rápida para a próxima entrega. Sem tempo a perder e com pouco tempo para pensar. Convinha-lhe perfeitamente!
Farook diz: Ei mano, taí?
HP ouviu o ping de seu laptop e voou da cama.
Badboy.128 diz: Claro, o que você descobriu? Farook diz: Um monte de coisas diferentes. Parece que vc está certo sobre o edifício, tem algo de estranho com ele. A câmara municipal caracterizou as plantas como confidenciais, a construtora disse que houve um arrombamento e um monte de coisas foi levada de seus arquivos. A empresa que fez o cabeamento foi à falência e nosso amigo em comum que instalou os computadores parece ter virado fumaça…
“Você não tem ideia de como você está certo, Manga”, HP murmurou com os dentes cerrados.
Badboy.128 diz: Mas ??
Farook diz: Então vc se ligou que tem um “mas” ☺? Farook diz: Bem, com um pouco de mágica nós conseguimos pegar uma planta, não pergunte como. :-x E eu acho que conheço um cara que pode te ajudar. Badboy.128 diz: Boa ☺ cara :-s
Badboy.128 diz: Da última vez que você apareceu com um pequeno ajudante de Papai Noel, eu acabei no meio de uma porra do Alfred Hitchcock, por isso fico um pouco preocupado… Farook diz: Eis a diferença. Rehyman é um irmão, eu conheço ele da mesquita. Vem com a minha recomendação pessoal, um amigo nosso, capisce?
Badboy.128 diz: Ok, estou ouvindo…. Farook diz: Ele é um especialista em sistemas de segurança, com certeza um dos melhores do país, talvez do mundo. Bom de verdade! Faz isso como trabalho, ganha uma fortuna. Projeta sistemas para a polícia, a defesa, o que você imaginar!!
Badboy.128 diz: Por que eu sinto que tem um grande Mas chegando??? Farook diz: ele eh um pouco exótico… ;-) Badboy.128 diz: Lá vamos nós… a última vez que você falou isso eu quase tive meu crânio esmagado por um Cessna. Obrigado, mas não, obrigado, só me manda as plantas, se não for problema…
Farook diz: Não é tão ruim quanto parece, ele só tem péssimas habilidades sociais. Problemas com interação interpessoal.
Badboy.128 diz: Linguagem simples, por favor, Doutor Sandström…! Farook diz: Pode-se dizer que é um pouco autista. Brilhante em sua área de especialização, mas não é bom de papo. Um pouco como você, apenas o oposto ☺ Badboy.128 diz: Engraçado, Manga |:-) Farook diz: Sim, não foi, você e Rehyman são como gêmeos do mal, um cruzamento entre vocês dois daria um gênio falastrão 8-)) !!
Farook diz: Para mim, ele é a única pessoa que pode te colocar lá dentro, porque eu acho que você quer entrar. Eu vi as plantas e não existe um pingo de esperança que vc consiga fazer isso sozinho, irmão, e digo isso como um amigo preocupado. Rehyman é sua melhor aposta! Badboy.128 diz: *suspiro*
Badboy.128 diz: ok manda o celular dele com as plantas… Farook diz: boa garoto!
Badboy.128 diz: Algo me diz que eu vou me arrepender disso… :-/
Cinco dias, e ainda nem um pio de Henke. Ele prometeu que entraria em contato assim que chegasse lá. Ok, disse algo sobre não pegar o caminho mais curto, mas cinco dias sem uma palavra? Claramente, um motivo de preocupação.
Outra coisa que a preocupava quanto mais ela pensava eram os telefones celulares. Não havia dúvida de que eles eram muito parecidos. Então, o que isso queria dizer?
Na melhor das hipóteses, nada. Talvez você pudesse comprar celulares como aqueles nas lojas, e Micke só tinha comprado um. Ou talvez ela tivesse visto errado.
O telefone não precisava significar qualquer coisa. Micke e Henke nunca tinham se encontrado e um não sabia da existência do outro. Até onde ela sabia, eles não tinham uma única coisa em comum.
Então, com o que ela realmente deveria se preocupar?
Manga realmente tinha razão em um ponto, sem dúvida, ele pensou depois de dar uma olhada nas plantas.
Torshamnsgatan, 142 era um Forte Knox. Ele não tinha certeza, mas, se tivesse interpretado corretamente todas as abreviaturas, o edifício era equipado com praticamente todo tipo de segurança que existe. Câmeras ativadas por movimento com visão noturna, detectores de alarme infravermelhos, sensores que captavam som e vibração, e leitores biométricos em todas as portas. Você precisava das impressões digitais certas para entrar, então sua ideia de conseguir de alguma maneira um cartão de acesso tinha ido por água abaixo.
Merda!
Ele só tinha a esperança de que esse tal de Rehyman soubesse o que estava fazendo, porque ele não tinha ideia.
Deixou as plantas de lado e suprimiu o desejo de sair para a escada de incêndio para dar umas tragadas de fim de noite. Em vez disso, abriu outra Jolt e pegou seu caderno. Alguns dias rabiscando o haviam deixado a meio caminho de uma ideia decente do que queria conseguir com sua visita em Kista.
Era, na verdade, bastante simples.
Mas seus sentimentos sobre o Jogo ainda eram ambivalentes, para dizer o mínimo. Por um lado, ele estava realmente puto com a maneira como o haviam tratado. A armadilha em Lindhagensplan com sua irmã, a pedra, o falso Bolin e todo o resto. Eles tinham colocado fogo em seu apartamento e haviam mandado dois idiotas fazerem o mesmo com a loja do Manga. Sem falar no pesadelo com o Erman, o avião e o inferno lá no mato. Não conseguia parar de se perguntar se a polícia já tinha conseguido juntar os restos bem passados do pobre maluco.
A gota d’água tinha sido a bomba que tinham plantado sob o sofá da tia, que era, obviamente, destinada a ele, mas poderia facilmente ter explodido sua irmã em átomos. Vingança era uma motivação muito forte.
Forte pra caralho, na verdade!
Ele deu alguns goles profundos da lata de refrigerante.
Por outro lado — essa parte não chegava a ser tão clara, na verdade, estava quase beirando a doença.
Mas os fatos não podem ser ignorados.
Se ele conseguisse entrar no santíssimo sagrado edifício do Jogo, passar por todos os sistemas avançados de segurança e alarmes, e se apossar de informações que eles tinham feito de tudo para proteger — isso não iria provar que talento notável ele tinha? Que ninguém poderia detê-lo, nem mesmo o próprio Jogo, e que era digno de outra chance?
Ele estava realmente tão desesperado pela porra de uma aprovação que estava preparado para voltar à ação novamente, mesmo que tivesse começado a descobrir quão megadesagradável a viagem poderia ser?
Mas alguns dias com os teóricos de conspiração da internet como sua única companhia haviam lhe dado muito no que pensar. Isso podia ser incrivelmente enorme!
Havia vários sites que pareciam sugerir, com toda a seriedade, que a gripe suína veio de um laboratório. Que alguém tinha pegado um pouco de gripe espanhola, alguma doença suína e diluído com a mesma quantidade de gripe aviária, e tudo para iniciar uma pandemia global.
Era uma ideia interessante. De acordo com essa teoria, a indústria farmacêutica estava por trás de tudo, e o Jogo poderia muito bem ter feito isso acontecer.
Por 200 pontos, injete-se com esta seringa e passe a próxima semana em transportes públicos, sem cobrir a boca quando espirrar. Toque o máximo de superfícies que conseguir e certifique-se de não lavar as mãos mais do que o necessário.
Algumas centenas de missões como essa em cidades cuidadosamente selecionadas, e de repente as vendas de Pandemrix, Tamiflu e álcool gel subiria em cerca de um milhão por cento…
Havia outras pessoas no ciberespaço que duvidavam que a doença existisse de verdade e pensavam que a coisa toda era uma farsa para dar mais dinheiro aos epidemiologistas, ou assustar as pessoas para ficar em casa e assistir a mais televisão.
E o que realmente estava por trás do Climagate?
Quem desenterrou os e-mails em que os cientistas da mudança climática decidiram, com uma unanimidade comovente, exagerar a ameaça do aquecimento global? Eles eram mesmo autênticos e, em caso afirmativo, quem se beneficiou?
Como é que a princesa Diana morreu, quem fez o espião Litvinenko
brilhar com radiação,[21] quem apagou as luzes sobre o Rei do Pop, assumindo que Jacko estava realmente morto e não apenas fingindo…?
Quantos pontos valiam algo assim?
E isso estava longe de ser tudo…
Por agora, ele tinha um laptop cheio de eventos e interpretações que, de uma forma ou de outra, se encaixavam na clara conclusão que seu cérebro sobrecarregado eventualmente cuspiu.
Independentemente de os malucos da conspiração culparem a CIA, a OMS, a KGB ou alguma outra excitante combinação de letras, um fato permanecia e todos pareciam querer ignorá-lo.
Apesar dos orçamentos de bilhões e proteção política das mais altas autoridades, a lista de encobrimentos fracassados ainda era terrivelmente longa: Watergate, o caso IB, Echelon, Lillehammer, Irã-Contras e Abu Ghraib eram apenas alguns exemplos. Quanto maior a organização, mais vazamentos e azar pareciam estar sempre à espreita virando a esquina. Não era apenas uma questão de arrumar alguém para fazer o trabalho, mas, provavelmente mais importante, conseguir manter uma cobertura sobre isso depois, agora e para sempre.
E quem poderia garantir qualquer coisa do tipo? Veja só o que aconteceu
com a Stasi,[22] e isso foi antes da legislação de delação e a Wikileaks.[23] Os riscos das conspirações globais pareciam ser maiores do que os benefícios na maioria dos casos — por uma margem clara!
Mas, e se houvesse um operador obscuro disfarçado como uma distração exclusivamente social que estivesse preparado para assumir praticamente qualquer tarefa? Um esquema que, por sua vez, empregasse ainda mais figuras anônimas para fazer o trabalho sujo, um Sirhan ou um Mark ou um Lee Harvey? Bodes expiatórios ansiosos que dificilmente seriam capazes de explicar o que estavam fazendo, mesmo que fossem pegos? Enfim, quem no mundo acreditaria neles?
Sim, realmente tudo fazia sentido, as peças do quebra-cabeça se encaixavam e a cadeia lógica se mantinha!
Não havia necessidade de qualquer conspiração global, organização formada por acrônimo ou um disfarce gigantesco! Apenas uma ideia, dinheiro suficiente para colocá-la em ação e a aprovação do Mestre do Jogo.
Então as rodas começavam a girar.
Começa o jogo!
Mesmo que ele examinasse sua conclusão de todos os ângulos por esse ponto, isso ainda fazia os pelos na parte de trás de seu pescoço se levantarem.
Vai se foder, que esquema!
Fazia todo sentido, mas ao mesmo tempo era além do inacreditável!
Será que ele estava pensando seriamente, mesmo por um segundo, em voltar para algo assim, ou isso, na verdade, tornava o Jogo ainda mais atraente agora que ele tinha descoberto o verdadeiro papel dele? E, por consequência, seu próprio?
Esvaziou a lata, jogou-a alegremente em direção ao lixo e imediatamente abriu outra.
Sem tempo para dormir, precisava ficar alerta e pensar um pouco mais a sério!
A melhor coisa sobre seu plano de ataque era que não precisava decidir nada ainda. Os pré-requisitos básicos permaneciam os mesmos, e ele os havia listado cuidadosamente em seu caderno.
Entrar no prédio, de preferência sem ser visto.
Descobrir o que está acontecendo, quem ainda está jogando e qual é a Fase Final. Tentar conseguir o número da conta com todo o dinheiro.
Sair inteiro.
O resto iria se resolver por si só.
Se falhasse, poderia fazer algumas denúncias anônimas para os jornais da noite ou um programa policial da TV antes de deixar o país. Ele já tinha o e-mail em sua pasta de Rascunhos, um rápido clique em Enviar e estava feito.
Infelizmente, as ferramentas que tinha disponíveis para a missão não eram exatamente as melhores.
Um gênio antissocial, seu próprio conhecimento variável sobre o Jogo, detalhes de registros antigos de Erman e, sendo otimista, um pouco de boa sorte à moda antiga. As chances de sucesso não eram exatamente animadoras.
Mas que diabos…
Sem coragem, sem glória!
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