The Game: O Jogo

Anders de la Motte · Capítulo 18 de 26

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The Game: O Jogo

Quem está jogando com quem? 16

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Quem está jogando com quem?  16 

Ela tinha chegado à terceira curva quando aconteceu. Estava a uns cem por hora e tinha acabado de passar o obstáculo quando o pneu da frente estourou e o volante começou a tremer desesperadamente em suas mãos.

Mesmo que estivesse esperando por isso, seu pulso acelerava enquanto ela lutava para recuperar o controle do veículo. Freando com força, o choque no pedal lhe dizia que o ABS estava funcionando.

“Pare de derrapar, coloque o volante na direção em que quer ir e não lute contra ele”, disse o instrutor a seu lado.

Quando o carro parou na beira da estrada, ela percebeu que estava molhada de suor.

“Boa! Sem nenhum problema, Normén!”, resumiu o instrutor.

Ela concordou com a cabeça e tentou parecer calma e composta.

Aulas de direção no campo de aviação de Tullinge eram obrigatórias, então ela só tinha de cerrar os dentes e passar por isso mesmo que seu coração começasse a dar cambalhotas de pânico no peito no momento em que se sentava no banco do motorista.

O estouro do pneu em alta velocidade foi a última tarefa do dia, e ela iria para casa imediatamente após fazer o relatório. O que era ótimo.

Kruse estava melhor, bem melhor, na verdade. Parecia que iria se recuperar completamente.

Era um grande alívio, e fez com que tudo ficasse um pouco mais fácil de lidar, agora que sabia quem tinha jogado a pedra no para-brisas e, possivelmente, até mesmo por quê. Mas, obviamente, não podia contar a ninguém toda aquela história sobre o Jogo. Nem mesmo Anderberg conseguiria ficar quieto sobre algo assim, ela tinha certeza disso.

Então, teria de lidar com seus demônios do jeito que sempre tinha feito. Com uma terapia de choque.

O que não o mata o faz mais forte, e toda aquela besteira machista… Se você tivesse medo, deveria se juntar à polícia. Se se sentisse insegura, deveria se tornar uma guarda-costas, e se sofresse um acidente de carro, deveria apenas voltar para o banco do motorista assim que pudesse. Pegar o touro pelos chifres e pisar com força no pedal.

Yippikayee!, como Henke teria dito.

Ela se perguntou o que ele estaria fazendo agora?

Ele já deveria ter chegado à Tailândia por agora, mas ela não tinha tido notícias.

Não que isso fosse uma grande surpresa.

Eles tinham se escondido muito bem, ele tinha de lhes dar crédito por isso. O edifício parecia completamente normal à primeira vista. Um prédio de escritórios comum de tijolos, padrão sueco de design, nada demais. Assim como todos os outros da mesma rua. Dois andares, uma entrada principal, garagem subterrânea e uma pequena portaria envidraçada. Duas bandeiras surradas penduradas em frente à entrada, seus cabos balançando no ritmo da brisa de verão.

Bang-bang bang-bang.

Uma jogada inteligente pra caralho, na verdade, se esconder em plena vista assim, onde todos podiam ver, mas ninguém via. Muito melhor do que alguma fortaleza secreta que só provocaria um monte de perguntas.

O maior truque já realizado pelo diabo…

Conseguir um carro não tinha sido um problema. Um Saab 900 do estacionamento de longa permanência em Arlanda. Você consegue ligar um desses com um palito de pirulito, se souber o que está fazendo. A cancela do estacionamento foi tão fácil quanto. O sr. Sensato havia naturalmente deixado o ticket no cinzeiro para ter certeza de que não o perderia enquanto ficava bêbado em Mallorca. Ele só tinha de pagar um pouco de dinheiro para a máquina e depois sair dirigindo na total legalidade. Duzentas e cinquenta coroas por um carro com o tanque cheio que não seria reportado como roubado por pelo menos seis dias. E esse era um preço bem bom, muito menor do que na Hertz, e com menos burocracia, principalmente para alguém que não queria ser visto. E que também não tinha carteira de motorista…

Sua consciência não lhe deu muito problema também. Na Suécia, o roubo de carros não aparece no Código de Leis sob esse título. “Aquisição ilícita de transporte” era uma ofensa sem importância, praticamente em pé de igualdade com atravessar a rua com o homenzinho vermelho ainda aceso. Não era o tipo de coisa com que o Big Brother realmente se importava. Então HP também não.

Ele passou dirigindo pelo lugar um total de três vezes, tirando fotos com seu celular novo a cada vez que passava. Depois, parou para esperar a alguns quarteirões de distância, vigiando o edifício por algumas horas.

Assim que parou, conectou o cabo USB no laptop e abriu o Media Player.

E roda o filme!

Se você pudesse se sentar e se concentrar em paz e silêncio, era muito mais fácil captar qualquer coisa incomum. As câmeras discretas cobrindo todos os ângulos do edifício, a porta de aço na rampa que descia até a garagem subterrânea. O guarda responsável pela cancela, em vez de Lisa-a-recepcionista-de-Bredäng. Tudo isso eram pequenos indícios de que estava no lugar certo.

Não notou a coisa mais importante por um bom tempo. Não era uma coisa, na verdade, mas sim o contrário.

Além do orc de guarda que ocasionalmente dava uma volta em torno do edifício, nada estava acontecendo dentro ou perto de Torshamnsgatan, 142.

Zippo, nada, niente!

Não havia clientes, visitantes, nem mesmo um bando de funcionários sedentos por nicotina amontoados ao lado da porta lateral.

Zero tráfego, nenhuma entrega e nem um único carro dentro ou fora da garagem, embora ele estivesse observando tanto às quatro como às cinco horas.

Em outras palavras, não havia ninguém trabalhando no interior do edifício. Nem uma alma, além do guarda. Mas provavelmente uma fazenda de servidores praticamente funcionava sozinha? Tudo podia ser feito remotamente. A não ser que houvesse pessoas que morassem lá para cuidar da sala de controle? Técnicos branquelos que nunca viam a luz do dia?

De qualquer forma, ele tinha cada vez mais certeza. Esse era o lugar!

Era a partir daqui que tudo era controlado: as Formigas, os funcionários, os Jogadores e as missões. Um jogo de realidade, e a realidade do Jogo, tudo em um único e perfeito app. Escondido atrás daquelas paredes anônimas estava o Controle da Missão, e tinha sido ele, Henrik HP Pettersson, quem o havia encontrado.

A Houston da Porra do Ciberespaço!

E ele tinha certeza de mais uma coisa.

Tinha de entrar.

Rebecca abriu a porta da frente e aspirou com cuidado pela sala, mas o único cheiro que podia detectar era o de tinta. Ela tinha pegado a chave na associação dos moradores, onde ouviu um discurso de dez minutos sobre “como eles levavam esse incidente a sério”. Como se Henke fosse de algum modo responsável por alguém tentar atear fogo a seu apartamento.

Essa não era uma conclusão totalmente irracional, mas não era algo que ela gostaria de discutir com um completo estranho. Pelo menos, o velho pareceu aliviado quando ela disse que estava lá para esvaziar o apartamento antes de vendê-lo, e se apressou em deixá-la ir antes que ela tivesse tempo de mudar de ideia. Maria Trappgränd era consideravelmente mais valorizada agora do que quando eles tinham comprado o apartamento no meio dos anos 1990.

A rua na verdade era completamente inadequada para mamãe, com suas pedras e degraus estreitos.

Mas, assim que ela viu o apartamento e a área, teve a sensação de estar em um sonho romântico baseado em um antigo filme sueco, Anderssonskans Kalle, e não quis acordar. O seguro de vida de papai tinha sido apenas o suficiente para a entrada e uns poucos móveis novos.

Pessoalmente, Rebecca achava que a área estava mais para O Terceiro Homem que qualquer outra coisa. Como se algum perigo desconhecido estivesse à espreita por entre os becos sombrios e os quintais escuros. Ela nunca tinha gostado de vir aqui, e hoje não era nenhuma exceção.

A porta era nova, a sala tinha sido pintada, e o carpete de madeira, consertado, mas fora isso tudo no apartamento parecia igual sempre. A mesma velha bagunça de Henke. E, como sempre, ela estava brincando de ser a cavalaria, o ajudando a resolver tudo.

Manobrou as caixas de mudança dobradas para a cozinha e começou a montá-las. Levou apenas meia hora mais ou menos para esvaziar a cozinha. A maioria das coisas tinha evidentemente se quebrado durante o incêndio, o que, pelo menos, a livrou de ter de lavar a louça. A geladeira e o freezer estavam praticamente vazios, com exceção de um pouco de queijo mofado e um pacote de tortas congeladas, então foi para a sala de estar. Os equipamentos tecnológicos, no fim, eram coisas bem simples. As caixas estavam todas no canto, provavelmente porque Henke não podia ter o incômodo de levá-las para as lixeiras lá embaixo. Não conseguiu deixar de se perguntar de onde tinha vindo o dinheiro para todos esses brinquedos. Computador, TV de tela plana, home theater e videogames: juntos, deviam custar pelo menos uns 40 mil. Mas claro que Henke provavelmente não os tinha comprado numa loja…

Além dos eletrônicos, a mobília do apartamento não era nada demais. Um sofá-cama molengo, duas frágeis estantes Billy e uma pequena mesa de centro. Tudo coisas que eles tinham comprado quando se mudaram.

O quarto ainda tinha a velha cama de pinheiro que rangia da mamãe. A colcha e os lençóis estavam no chão. Ela não podia acreditar que ele tinha guardado. Ok, a mamãe tinha morrido na clínica Ersta, mas ainda assim…

Um cartaz velho de uma feira de jogos de computador era o único enfeite nas paredes nuas.

“Dreamhack-07, a Maior Feira de Jogos do Mundo”, murmurou, enquanto reunia os montes de roupas e os enfiava em vários sacos. Até mesmo sua boa vontade tinha limites, por isso a maior parte dessas coisas poderia ir para a caixa de doações mais próxima.

As estantes tinham um monte de DVDs, muitos deles claramente cópias piratas.

Correu os dedos ao longo de suas caixas empoeiradas. Parecia haver uma preponderância de filmes de gângster, seguidos de perto por filmes de ação americanos, com uma impressionante coleção de filmes adultos em um fácil terceiro lugar. Mas havia também um grande número de clássicos antigos, e por um momento ela pensou em levar alguns para casa. Mas quando iria encontrar tempo para assisti-los?

Havia alguns livros nas prateleiras também, o que realmente não a surpreendeu. Henke gostava de ler desde que era pequeno.

Ela o ajudou a começar, mas ele logo pegou o jeito e já lia tão bem quanto ela quando tinha 6 anos. Papai tinha um monte de clássicos antigos ilustrados numa caixa em casa, e Henke os devorou mais de uma vez. As versões em quadrinhos de Robinson Crusoé e Moby Dick haviam ajudado suas notas de sueco praticamente durante todos os anos da escola. Dez minutos com a versão ilustrada do Reader’s Digest e ele parecia superculto.

Tão absolutamente típico de Henke!

O mestre em criar atalhos.

Rebecca não pôde deixar de sorrir. Apesar de seus erros óbvios, pelo menos ninguém nunca teve um momento de tédio na companhia de seu irmão mais novo. Ela costumava levá-lo para a biblioteca quando eles ficaram um pouco mais velhos. Ficavam por lá, em vez de ir para casa. Ela costumava suborná-lo para fazer a lição de casa antes que ele pudesse olhar os quadrinhos. A biblioteca tinha sido um refúgio, um porto seguro onde eles podiam sonhar por algumas horas, especialmente depois que a mamãe ficou doente e tudo começou a piorar. Ela ainda associava o cheiro de livros a segurança.

Muitas vezes, eles se sentavam lá até a biblioteca fechar e os bibliotecários simpáticos os enxotarem.

Parecia que fazia cem anos.

O álbum de fotografias estava na prateleira de baixo. Folhas de plástico amarronzadas, com páginas grudadas. Ela tinha visto as fotos amareladas muitas vezes antes, mas mesmo assim não podia deixar de folheá-las. Não tinha sido de todo ruim. Às vezes, a vida tinha sido quase normal. Como o acampamento de férias em Rättvik, com ela, mamãe e Henke vestindo tamancos de madeira tradicionais e apertando os olhos para a câmera. Os outros dois eram loiros e felizes, enquanto ela tinha o cabelo escuro como o pai, e uma atitude mais séria. Obviamente, papai estava por trás da câmera, a longa sombra era a única coisa que traía sua presença. Ela tinha certeza de que isso era o mais próximo de ele aparecer em qualquer uma das fotos no álbum de Henke.

Percebeu que aquela fotografia de verão do início dos anos 1980 em especial dizia muito sobre sua família, na verdade. Henke e mamãe sempre foram muito próximos, enquanto ela era mais a garota do papai. Como mamãe, tinha feito tudo o que podia para mantê-lo feliz, mesmo que ele geralmente a ignorasse. Papai era um homem sério, que pensava muito, e normalmente preferia a própria companhia. Raramente sorria, quase nunca ria, pelo menos não como ela lembrava. O trabalho era provavelmente a única coisa que realmente lhe interessava, algum tipo de trabalho com vendas de que ela não conseguia se lembrar muito bem, exceto que ele viajava um bocado. Às vezes, eles recebiam um cartão-postal, e muito ocasionalmente as sacolas dele do free shop traziam algo além de garrafas de bebidas. Doces, perfume, ou talvez um brinquedo de plástico barato da loja de suvenires do aeroporto, se a viagem tivesse ido muito bem e ele estivesse de bom humor.

Nos raros dias em que papai estava em casa, ele nunca queria ser incomodado. Geralmente, trancava-se em seu cubículo com um livro e uma garrafa de alguma coisa. O resto da família simplesmente não lhe interessava. Uma distração necessária que ele era obrigado a tolerar, principalmente pelas aparências. Durante seus últimos anos, foi ficando cada vez mais amargurado com o jeito que sua vida tinha se tornado. Como nunca tinha sido respeitado da maneira que achava que deveria ter sido.

Tinha começado algum projeto de memórias que deveria provar que ele estava certo, mas, em vez disso, só parecia fazê-lo se sentir ainda mais maltratado, especialmente quando ninguém se interessou em publicá-lo. Eles queimaram a coisa toda quando ele morreu. Dirigiram até Lida e jogaram o grande saco de papéis em uma das churrasqueiras de lá.

Levou apenas alguns minutos para que todas as detalhadas páginas queimassem.

Nenhum deles — nem mesmo mamãe — tinha lido uma única palavra.

Mas não importava o que Henke pensasse, papai não era realmente uma pessoa ruim — longe disso! Somente quando ela cresceu que percebeu que seu comportamento era uma espécie de muleta. Que algumas pessoas simplesmente não têm empatia e são, portanto, incapazes de demonstrar amor.

Pobre mamãe, que provavelmente tinha dado o seu melhor. Obedecendo a seu menor comando e andando na ponta dos pés em volta dele num esforço para mantê-lo de bom humor. Depois, a doença e o conforto da bebida tomaram conta do mundo de mamãe e de repente ela ficou responsável por fazer com que a casa funcionasse da maneira que papai queria.

Realmente, não era tão estranho que ela tenha se apaixonado por Dag. No final, ele não passava de uma versão mais jovem de seu pai. Um pouco de interesse pelo lado dele foi tudo o que foi preciso. Ao contrário de papai, Dag podia ser extremamente sensível quando estava de bom humor. Aparecia com flores e presentes, dizendo ao mundo inteiro o quão maravilhosa ela era, se saindo muito bem no papel de namorado dedicado. Obviamente, ela se apaixonou cegamente, e ele a pediu em casamento depois de apenas alguns meses. E então ela tinha arrumado uma nova figura autoritária a que se juntar, alguém cujo amor ela teria mais uma vez de tentar conquistar pelo autossacrifício.

Como se houvesse realmente algo errado com ela.

Caramba, era fácil ser sábia olhando para trás…

Henke, por outro lado, tinha sido bastante barulhento e animado quando era pequeno. Gostava de brincadeiras arriscadas que, às vezes, acabavam estragando os móveis, e esse tipo de coisa não pegava bem com papai, especialmente não se ele já tivesse tomado sua bebida depois do trabalho… Às vezes, o cinto aparecia, e papai não era do tipo que se continha. Batia sem parar, mesmo que ela e mamãe implorassem. Até que uma das duas se colocasse entre ele e Henke, para protegê-lo, para colocar um fim em tudo aquilo.

Ela se lembrava muito bem do hospital. O olhar dos médicos e enfermeiros, e como ela apertava a mão de papai.

A falsa calma dele:

“Não, doutor, Henrik só caiu da escada. Nosso rapazinho é muito propenso a acidentes…”

Ela mordeu o lábio inferior, inconscientemente.

Você tinha de ser rápida, tirar Henke do caminho antes que a situação saísse de controle. Manter papai e seu irmãozinho de bom humor para que tudo em casa corresse sem problemas. Embora mamãe tivesse dado seu melhor, pelo menos inicialmente, a doença passou a exigir mais de sua atenção, e ela não tinha mais condições de tentar, ou talvez nem quisesse. Papai tinha finalmente começado a enxergá-la. Por mais estranho que parecesse, talvez tivesse sido a bebida e a autopiedade o que finalmente aproximou mamãe e papai. Deram-lhes um interesse comum, algo que podiam compartilhar? Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais com Rebecca a responsabilidade de manter o equilíbrio em casa. Estar sempre alerta, constantemente pronta para entrar em cena, quase como no trabalho. No início, tentando proteger Henke de papai; depois, mais tarde, para protegê-lo de si mesmo.

Henke. A vadiagem, sua turma, a maconha, tudo isso deve ter sido algum tipo de vingança, pelo menos no começo. Mais tarde, era provavelmente apenas uma desculpa para não dar a mínima para o resto do mundo…

Rebecca não se preocupou em tentar separar as páginas que estavam grudadas, por isso, na próxima página que olhou, mais de dez anos tinham se passado. Tinha acabado de se formar no ensino médio e estava sentada a uma mesa muito pesada em seu apartamento antigo.

Ela e Dag estavam sorrindo para a câmera, com o frescor do amor adolescente. Ele estava com o braço em volta dos ombros dela e ela estava se inclinando sem jeito, e talvez muito de perto, no peito largo dele. Quase parecia que ele a mantinha presa.

Ela parecia feliz, alegre mesmo, em seu boné de estudante e vestido de verão branco. Embora fizesse apenas seis meses mais ou menos desde que haviam se conhecido, o anel de noivado brilhava em seu dedo. Poderia ser uma construção retrospectiva, mas, se ela olhasse perto o suficiente, imaginou que podia ver que seu sorriso não chegava a seus olhos. Como se a felicidade naquela imagem fosse apenas uma fachada.

A próxima fotografia mostrava as outras pessoas na mesa. Mamãe, com olhos fundos e magra, como sempre. Henke e Manga, a mãe de Dag e Nilla, e alguns amigos seus de cujos nomes ela mal conseguia se lembrar agora. Eles estavam todos sorrindo e acenando para a câmera, que ela devia estar segurando. A saudação alegre de um passado aparentemente feliz.

“Agora vamos todos sorrir e acenar. Olá, Rebecca!”

“Olá”, ela se pegou resmungando, sentindo-se triste de repente.

Quando aquela foto foi tirada, não poderia fazer mais de um ano desde que papai tinha ido para a Espanha para uma conferência e voltou para casa num caixão. E dez meses depois o câncer teria matado mamãe e ela se juntaria a ele no Jardim da Lembrança. Mas antes disso Dag estaria morto e Henke iria terminar na prisão.

E ela?

Bem, como Manga tinha dito, ela não escapou ilesa também…

Mas nada disso era visível na fotografia do álbum. Naquele momento congelado, o futuro ainda era brilhante. Somente seus próprios olhos de 19 anos de idade pareciam sugerir algo diferente.

Ela fechou o álbum com força e jogou-o numa das caixas de livros; em seguida, tentou sacudir o inquietante sentimento. Só faltava o closet com as roupas agora, depois poderia chamar a empresa de mudanças e se livrar de tudo. O corretor de imóveis viria na semana seguinte para avaliar o apartamento, e em umas duas semanas mais ou menos ele teria sido vendido, sem dúvida, e a cavalaria poderia finalmente descansar.

Ela abriu a porta e viu, para seu alívio, que o quartinho estava quase vazio.

Isso não era tão surpreendente, já que a maior parte das roupas parecia estar em vários montes pelo apartamento.

Havia algumas caixas numa prateleira na parte de trás do quarto, e ela deu alguns passos para a frente para pegá-las. No caminho, seu pé pisou num pedaço de pano listrado no chão. Ela o pegou e estava prestes a jogá-lo no saco de lixo quando percebeu o que era.

O velho saco de ginástica de Henke, aquele que ele fez na aula de costura. Ainda estava bem marcado com seu nome e número de telefone, mas o interior do saco estava pegajoso, com algum tipo de óleo. Ela se perguntou o que ele tinha guardado ali.

Pensou por alguns segundos e o colocou num dos sacos de roupas que tinha decidido manter. Henke provavelmente tinha algum tipo de ligação sentimental com o saco, então teria um indulto de alguns meses. Ela, na verdade, duvidava que ele voltaria, e mesmo se voltasse era pouco provável que iria querer suas coisas antigas. Ela iria dar seis meses a ele, então deixaria todo o lote ir para leilão, incluindo o álbum de fotografias.

Quando pegou a última caixa, algo caiu em cima de seu pé. Era bastante pesado e ela teve de fazer uma dança de guerra em uma perna só até o quarto antes que a dor diminuísse o suficiente para que pudesse voltar para o closet.

Era uma caixinha de madeira, provavelmente feita na aula de marcenaria de Henke. Suas iniciais tinham sido perfeitamente gravadas na parte superior com tinta preta. Não havia fechadura, mas a madeira devia ter inchado, porque ela não conseguia abri-la.

Balançou seu achado e ouviu um chocalho metálico em resposta, mas o som não era intrigante o suficiente para fazê-la ir pegar algo para abri-la. Colocou-a ao lado do álbum de fotografias em uma das caixas.

Quando tinha terminado e estava lavando as mãos na pia da cozinha, seu celular tocou.

“Oi, é o Micke!”

“Olá!”

Ela percebeu que sua voz parecia mais feliz do que pretendia.

“Como… como estão as coisas?”

“Bem.”

Ela provavelmente deveria estar brava.

Ele disse que ligaria, mas isso foi na semana passada. Muito para sua indignação, ela notou que estava, na verdade, esperando que ele ligasse. Mas agora que ele tinha telefonado, não conseguia manter seu tom de voz tão calmo como tinha planejado. Porque estava realmente feliz de ouvir sua voz.

“Você quer me encontrar?”

Ele parecia feliz, quase eufórico.

“Em algum lugar na cidade?”, acrescentou antes que ela tivesse tempo de responder.

“Claro”, disse ela de forma neutra.

“Bom, há algo que preciso falar com você. Sturekatten às cinco, tudo bem?”

“Claro”, ela repetiu. “Cinco está bom.”

“Ok, te vejo depois, tchau!”

“Tchau”, disse e clicou para desligar a ligação.

O que foi aquilo?

Algo que eu preciso falar com você…? Soava tão inocente. Como se não fosse nada importante. Mas eles não compartilhavam conversinhas ou qualquer outra coisa do tipo além de seu relacionamento físico. Então, era disso que ele provavelmente queria falar. Queria terminar com ela. Ela já tinha imaginado que ele tinha outra pessoa. Talvez tivesse decidido de uma vez por todas ficar com a outra mulher? Dar o fora em quem só aparecia quando queria transar? Isso soava lógico. Realmente, ela não deveria se preocupar.

Mas havia outra coisa que estava começando a intrigá-la. Alguém tinha começado a ligar pra ela de um telefone fixo com o número bloqueado, deixavam o telefone tocar, mas sempre desligavam sem deixar uma mensagem quando a secretária eletrônica atendia. Durante algum tempo, tinha pensado que era Micke ligando e não tinha tido a moral de deixar uma mensagem. Tinha quase começado a ficar irritada com ele, até que se lembrou de que nunca tinha lhe dado seu telefone de casa, apenas o celular.

As ligações tinham sido esporádicas no início, mas nos últimos dias estavam acontecendo com mais frequência. Como se alguém realmente quisesse se comunicar com ela para lhe dizer algo importante. A menos que houvesse algum outro motivo.

O que mais a incomodava era que quem ligava sempre conseguia escolher os horários em que ela estava no trabalho.

Primeiro, pensou que era coincidência, mas como as ligações aumentaram, percebeu que havia um padrão. Como se sua ausência fosse uma condição prévia para os telefonemas, e que a falta de mensagens era uma mensagem em si.

Mas, quando pensou sobre isso um pouco mais, realmente não era tão estranho. Ela na verdade sabia perfeitamente bem quem estava por trás disso. E que a outra mulher não tinha intenção nenhuma de deixá-la escapar.

Ele precisava de ajuda, isso estava claro. A questão era só que tipo de ajuda?

Ok, então conhecia alguns rapazes no ramo de assaltos a residências, mas havia uma grande diferença entre usar um pé de cabra para abrir a porta da varanda de alguém e fazer uma visita desapercebida para o Jogo. Câmeras de segurança, um sistema de cartão de acesso, um guarda em tempo integral e com certeza havia alarmes em todo o edifício.

Coisa séria!

Então, quem poderia ajudar com algo assim?

Bem, ele poderia atravessar essa ponte um pouco mais tarde.

Para começar, tinha de fazer algumas pesquisas, desenterrar as plantas e quaisquer outras informações úteis que pudessem estar escondidas em diferentes documentos e bancos de dados. E, para um trabalho como esse, havia realmente apenas um candidato óbvio.

Manga, o Vendedor de Tapetes, é claro. Quem mais?

Entrar em contato com ele não oferecia nenhum risco. Manga era totalmente paranoico em relação à segurança de internet.

Ele havia escrito cartas e convocações contra a FRA[20] e a IPRED, e tinha até se envolvido com aquele partido político imbecil. Todos os clichês sobre integridade pareciam um pouco fracos vindo de um bando de liberais café com leite que passavam o dia todo no Google, em blogues, no Twitter ou no Facebook para depois passar seus cartões de fidelidade de supermercados para que não perdessem um desconto de 5 coroas em macarrão orgânico ou no papel higiênico sem alvejantes.

Esta oferta foi especialmente selecionada para você! Até parece!

Então era isso que valia toda aquela integridade.

Por que não dizer o que realmente era?

Tudo deveria ser de graça — tudo se resume à porra do dinheiro!

Ele não teria nenhuma dificuldade em votar em um partido com um slogan de campanha como esse! Mas a principal vantagem era que a comunicação eletrônica do Manga, assim como sua própria nos dias de hoje, tinha a garantia de ser livre de Big Brothers, independentemente de que família eles viessem.

Ele saiu do posto de gasolina e partiu em direção a Tensta. Após dirigir por alguns minutos com seu laptop nos joelhos, encontrou o que estava procurando. Uma rede sem fio desprotegida com um sinal decente. Basta estacionar e entrar, muito obrigado.

Badboy.128 diz: Oi Manga, tá online?

Esperou um minuto mais ou menos e estava pensando em acender um cigarro quando a tela piscou.

Farook diz: Salaam-Aleikum, irmão HP sdds ☺ não está mais no chalé? Badboy.128 diz: Não, a aldeia modelo ficou um pouco apertada, pensando em deixar a cidade por um tempo, mas descobri uma coisa que tenho que fazer primeiro preciso de uma ajuda…?? Farook diz: a qualquer hora irmão, você sabe disso. Como posso ajudar? Badboy.128 diz: Preciso de algumas plantas e informações gerais sobre um lugar em Kista Torshamnsgatan, 142, qualquer coisa que você encontrar na real. Farook diz: Ok ??

Badboy.128 diz: Você tem que pisar leve, tá? Badboy.128 diz: Não deixar nenhum rastro, não acordar os cães de guarda, certo? :-x Farook diz: Afirmativo entendido! :-x Farook diz: É sobre aquilo que conversamos antes ?? Badboy.128 diz: isso…

Farook diz: ok então você encontrou as pessoas que iam incendiar a minha loja? Badboy.128 diz: isso…

Farook diz: Me dá umas duas horas !! Badboy.128 diz: Obg!

Farook diz: O prazer é meu, irmão, promete dar uma neles por mim. }:) Badboy.128 diz: Afirmativo!

Farook diz: Ah recebi uma visita da sua irmã outro dia… Badboy.128 diz: eu fiquei sabendo… Farook diz: Ela não parecia muito bem, vc não meteu ela nisto neh?? Badboy.128 diz: Sem chance…

Farook diz: Ok, só queria saber. Sempre gostei da Becca! Badboy.128 diz: Jura???!!1

Farook diz: Tá na cara??

Badboy.128 diz: Só um pouco… ;-)

Farook diz: *suspiro!*

Badboy.128 diz: Desencana, td certo! Obg por ajudar! Farook diz: Sem problema irmão Ma’a Salama! Badboy.128 diz: até, sr M!

Sturekatten, um clássico café antigo cheio de salas pequenas e móveis antigos. Mais café caseiro e bolos de amêndoa da vovó que biscoitos americanos gigantes e café com leite em copos de papelão.

Velhinhas de cabelo roxo, famílias com crianças, professores nas mesas, e, claro, o obrigatório viciado em Twitter com o nariz afundado em seu melhor amigo eletrônico. Obviamente, seus amigos precisavam saber como estava o café, em tempo real, como o mundo poderia viver sem isso…

Mas a localização não importava muito, melhor apenas acabar logo com isso e seguir em frente.

Olá, dois beijinhos e tudo aquilo quando ele apareceu com três minutos de atraso. Por alguma razão, de repente eles pareciam quase tímidos um com o outro. Talvez porque fizesse tanto tempo desde a última vez que tinham dormido juntos?

E fazia mesmo?

Duas ou três semanas, talvez. Ela não teve tempo de pensar nisso depois dos cumprimentos e antes que a garçonete voltasse com seu pedido. Salada de macarrão e água mineral para ela, um sanduíche de camarão e cerveja de baixo teor alcoólico para ele. Algumas mordidas para matar a fome e depois, bang, direto ao assunto.

Ele estava ansioso, quase agitado.

Provavelmente, apenas queria acabar logo com aquilo também.

“Tem uma coisa que eu queria falar com você, Rebecca.”

“Mmh, sim, você disse…”

Ela podia adivinhar para onde isso ia.

“Eu não tenho sido totalmente honesto com você”, disse ele, contorcendo-se em sua cadeira.

Ela não disse nada e esperou que ele continuasse.

“Não é que eu menti ou nada…”, acrescentou rapidamente para antecipar-se a ela. “Mas nós nunca falamos de verdade sobre relacionamentos ou qualquer coisa.”

Ela concordou com a cabeça, tanto para si como para ele.

Aqui vamos nós…

“É só”, ele começou, contorcendo-se como se o assento estivesse pinicando. “É só que eu tenho… ou melhor… Eu tinha…”

“Você já tem uma namorada!”, ela interrompeu, para colocar um fim naquilo.

“Sim!” Ele pareceu aliviado por alguns segundos, mas logo sua expressão mudou. “Quero dizer, não!”

De repente, ela ficou confusa.

“Eu não estou te entendendo agora, Micke, você tem ou não tem uma namorada? Não pode ser tão difícil?”

Ele respirou fundo e pareceu se recompor.

“Para ser preciso, eu tinha uma namorada até segunda-feira. A gente estava saindo desde que me mudei para cá, mas nunca moramos juntos, pelo menos não de forma permanente.”

Ele olhou suplicante para Rebecca, como se esperasse um sinal para continuar.

“Então… O que isso tem a ver comigo? Nós nunca prometemos qualquer coisa um para o outro, não é?”

Ela estava se esforçando para manter a voz neutra. O que ele quis dizer com… tinha uma namorada até segunda-feira? O que ele estava tentando dizer?

“Não, é só isso!”, ele disse, aliviado. “Nós nunca conversamos sobre qualquer coisa assim, e é por isso que eu não disse nada, mas… Ah, eu não sei!”

Ele esfregou a testa.

“Ela e eu tínhamos nos distanciado, mas nenhum de nós fez nada a respeito. Eu realmente deveria ter terminado um tempão atrás, antes que você e eu nos conhecêssemos, mas nunca parecia acontecer.”

Ele suspirou de novo.

“O que realmente estou tentando dizer…”, começou, imitando a pergunta não formulada dela, “…é que na segunda-feira eu finalmente falei, e acabou. Não foi tão ruim, no fim ela já estava saindo com outras pessoas, e conseguimos terminar e ficar amigos.”

Por alguma razão, o pulso dela estava acelerado, e ela realmente não estava gostando disso. A menos que ela na verdade gostasse?

Ele limpou a garganta e começou de novo.

“O que estou tentando dizer, não muito bem, é que sou solteiro, mesmo, quero dizer, e queria saber se poderíamos talvez nos ver um pouco mais… normalmente, se você entende o que quero dizer?”

Ele sorriu, e, de repente, ela não pôde deixar de fazer o mesmo.

HP precisava de um lugar para dormir. Algum lugar para deitar a cabeça e pensar em seus planos. O carro não era uma opção; para pensar com clareza é preciso dormir, comer e cagar como um devido ser humano.

Um hotel barato em Solna teria de servir. Dinheiro adiantado, acesso wi-fi, sem câmeras de segurança e — até mais importante — sem perguntas.

Manga tinha encontrado problemas. Evidentemente, as plantas do edifício não eram acessíveis ao público, embora houvesse formas de contornar isso, é claro. Seria preciso somente um pouco mais de tempo. Sempre havia alguém com acesso a coisas assim. Se a prefeitura não quisesse ajudar, então você poderia tentar com os construtores, os eletricistas, os encanadores, ou mais alguém. Em algum lugar da Suécia de acesso público você poderia sempre encontrar o que estava procurando, mais cedo ou mais tarde, desde que cavasse fundo o suficiente. E Manga conhecia as pessoas mais fodas da escavação.

Quase como se ele tivesse sua própria fazendinha de Formigas no ciberespaço.

Então, até que seu BFF viesse com algo, ele só tinha de ficar quieto e lapidar seu plano.

Para começar, tinha de decidir exatamente o que iria fazer quando estivesse lá dentro.

O encontro não tinha sido nada como ela estava esperando. Mas que diabos, isso era muito melhor. Por um momento ela estava quase… feliz.

Eles ficaram sentados ali, sorrindo um para o outro. Nonsense clichê, o tipo de coisa que ela normalmente odiava. Sem responder à pergunta dele diretamente, tinha conseguido fazer isso apenas sorrindo.

Então, o que exatamente isso significava?

Que eles estavam em um relacionamento, um relacionamento sério?

Ela achava que sim, mas não tinha certeza. Parecia ao mesmo tempo agradável e preocupante.

E, falando em coisas que eram preocupantes…

Quando a conta chegou, ele teve de esvaziar os bolsos da jaqueta para encontrar sua carteira.

Por alguns momentos confusos, mas bem divertidos, ele pensou que a tinha perdido, mas é claro que ela apareceu no último bolso em que procurou.

Foi quando ela viu o celular: prata, brilhante, sem botões, e se lembrou que já o tinha visto uma vez antes, na mesa dele, há algumas semanas. E de repente ela percebeu outra coisa — que a fez lembrar de outro telefone que ela tinha encontrado recentemente, um que estava agora no setor de achados e perdidos da polícia.

O design deles era muito semelhante, possivelmente até mesmo idêntico. Mas, quando ela estava prestes a colocar a mão e virá-lo para ver se havia um número na parte de trás, ele o pegou e colocou de volta no bolso. Ela não conseguia decidir se ele tinha feito isso de propósito ou apenas como parte de voltar tudo ao normal.

Mas a coisa toda tinha deixado nela uma sensação desconfortável.

E depois a história com o bilhete mais recente…

Você não merece isso!!!!

ele gritava de dentro de seu armário, e mais uma vez ela não conseguiu realmente discordar dele.

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