The Game: O Jogo

Anders de la Motte · Capítulo 23 de 26

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The Game: O Jogo

Fase Final 21

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Fase Final  21 

Isso era uma grande merda. Eles tinham passado quase duas horas ali. Já era mais de meia-noite e ele estava começando a ficar puto com esse jogo em particular.

A tensão que havia sentido mais cedo já tinha evaporado há muito tempo e ele estava ficando com frio de ficar sentado por tanto tempo sem se mexer no ar úmido da noite.

Então, o que devia fazer agora?

Ou desistir de tudo e voltar, esperar até amanhã e fazer outra visita para Hasselqvist. Ou continuar esperando até que sua bunda criasse raízes no banco da mobilete.

Ele daria mais trinta minutos e depois tentaria pensar numa nova estratégia.

O Boeing 757 pousou cinco minutos mais cedo e taxiou para a área particular do aeroporto. Alguns minutos mais tarde, o avião parou e os veículos de cor escura foram buscar seus eminentes passageiros.

Rebecca e a maior parte da escolta esperavam fora do Portão 1.

Eles assistiram ao avião aterrissar e um dos seus colegas os manteve informados sobre o progresso na transferência para os carros. Mas, apesar da expectativa em torno dela, ela não conseguia sacudir a sensação de desconforto. Precisava falar com Micke, descobrir o que realmente estava acontecendo.

“Alfa Um-zero-dois, carregado e pronto. Estamos indo.”

“Entendido, Alfa Um”, respondeu o operador na sede da polícia.

“Ok, vamos”, disse Wikström, colocando o carro em movimento e saindo atrás do carro de polícia marcado que iria liderar o comboio.

Cinco minutos até seu prazo final. Ele tinha acabado de começar a esticar as pernas, preparando-se para partir, quando as luzes da van da polícia de repente apareceram. Segundos depois, ela saiu novamente e HP se apressou em ligar a mobilete.

Ela pegou a via de ligação de Kymlinge na direção a Kista, e por um momento HP se perguntou se o 58 tinha recebido ordens de voltar para a nave-mãe em Torshamnsgatan. Mas ele passou direto pela estrada de acesso e continuou em direção à E4.

“Merda”, HP murmurou dentro do capacete quando percebeu para onde eles estavam indo.

Quando a van da polícia entrasse na autoestrada, ele estaria fodido. Uma noite inteira completamente desperdiçada.

Eles já tinham chegado a Märsta. Nem um único carro em qualquer lugar, podiam correr juntos. Cento e trinta era a velocidade acordada, e o carro de patrulha em frente a eles seguia as ordens à risca.

Wikström aliviou um pouco o pé do acelerador para deixar o carro marcado ficar uma centena de metros à sua frente. Isso lhe daria espaço suficiente para manobrar e seria mais fácil para Rebecca, no banco do passageiro, ficar de olho na estrada à frente sem ser constantemente cega pelas luzes azuis piscando do carro de patrulha.

Stora Wäsby, depois Upplands Väsby.

À medida que avançavam, ela podia ver a luz das chamas que a polícia havia acendido nos acessos à autoestrada para parar o trânsito. O carro de patrulha, em seguida, Rebecca e Wikström, depois uma van cheia de tropas da URR. Atrás dela, um Suburban e ambos os BMWs, e, em seguida, o resto do comboio, que mal dava para ver pelo espelho retrovisor.

Bredden, Rotebro, não faltava muito para eles chegarem aos arredores de Sollentuna.

Quando ele viu as chamas, ficou confuso. Coisas vermelhas cintilantes que lembravam fogos de artifício espalhadas por todas as pistas. E, no meio de tudo aquilo, havia um carro policial estacionado com as luzes azuis piscando.

Será que tinha acontecido um acidente?

Mas o 58 não deixou que aquilo o desencorajasse, foi até o bloqueio da estrada, piscou as luzes e foi liberado para passar pelos policiais.

HP chegou o mais perto que ousava e freou bruscamente, num esforço para ver, pelo menos, para qual direção Hasselqvist estava pensando em ir. Mas, para sua surpresa, o 1710 fez uma curva acentuada à esquerda e desceu pelo acesso de saída da via sul da E4. Que diabos o idiota filho da puta estava fazendo?

Ele estava indo para o lado errado, contra o fluxo do tráfego!

A van continuou lentamente pelo acesso em direção à autoestrada, mas, assim que estava quase desaparecendo de vista, pareceu parar.

HP esperou por cerca de um minuto, mas como a van ficou parada lá, ele rapidamente tomou uma decisão. Alguma coisa estava acontecendo, estava convencido disso agora.

A autoestrada parecia que tinha sido bloqueada, e não apenas nesse cruzamento. Ele não tinha visto um único veículo passar na E4 no minuto ou mais que ficou parado acima dela. O 58 nem chegou a cutucar o freio quando viu os policiais e o bloqueio, então evidentemente estava esperando por eles.

O que quer que o Jogo tinha em mente para o 58 e aquela van da polícia, estava obviamente ligado a o que quer que estava acontecendo na autoestrada, e a única maneira de HP descobrir o que estava acontecendo era descendo lá.

Virou a mobilete e voltou no sentido de Kista. Depois de cerca de uma centena de metros, desligou o farol e parou no acostamento. Uma rápida olhada para trás para verificar se os policiais na barreira não estavam olhando para ele. Em seguida, caminhou para dentro da floresta escura.

Norrviken passou pelo lado direito, e não havia cruzamentos há um bom tempo. A autoestrada estava completamente vazia, não havia nenhum sinal de movimento em qualquer lugar, além dos reflexos das luzes azuis piscando, e ela de repente se pegou pensando nas palavras de uma canção que costumava ouvir anos antes.

Transforme meu mundo novamente, o rádio está tocando a nossa música

Estocolmo encontra-se deserta e o mundo prende a respiração

Os galhos batiam em seu rosto enquanto ele tropeçava pelas árvores.

“Ideia brilhante pra caralho, esta, HP, dar uma volta na floresta no meio da noite”, murmurou para si mesmo, pouco antes de cair de cara no chão sobre uma raiz saliente.

Ele se levantou, limpou a terra e as folhas dos pinheiros de suas roupas e continuou, xingando baixinho, em direção à E4. De repente, a floresta se abriu num corredor para algumas linhas de energia, e, do outro lado, através da estreita faixa de árvores remanescentes, ele podia ver as luzes da autoestrada.

Quase lá, só tinha de apertar os dentes e seguir em frente.

Encontrou uma trilha e seguiu-a através da clareira, depois se abaixou entre as árvores novamente para olhar as luzes azuis que tinha acabado de ver à sua esquerda. Não poderia estar a mais de cinquenta, no máximo setenta e cinco metros da E4 agora. Mas, fora o chiado dos seus tênis ensopados, era um silêncio quase total.

O tráfego tinha sido interrompido completamente, então, o que quer que estivesse acontecendo, era algo grande pra caralho.

As árvores diminuíram e ele foi ficando cada vez mais perto do 1710. A van tinha descido quase para o final da estrada de acesso e parecia estar estacionada perto da borda da pista da autoestrada. Ele conseguia ver o 58 sentado do lado de dentro, inclinado para a frente e olhando para um objeto brilhante que segurava acima do volante.

HP percebeu na hora o que era.

O telefone celular dele.

Transforme meu mundo novamente, por tudo o que uma vez sonhamos

Tudo que você faz tornam-se gotas de suor em minha testa

ela cantarolava para si mesma. Que porra de música boa aquela! O que ela tinha feito com o CD?

Ele saiu da vala em três passos rápidos. A lata de spray na mão direita, a mão esquerda sobre a maçaneta da porta.

Um puxão rápido, a porta se abriu, então ele soltou um forte esguicho de gás lacrimogêneo na cara do desavisado senhor-número-um-do-caralho.

Diga oi para o meu amiguinho!

O spray se espalhou por todo lado e uma nuvem atingiu seu próprio rosto. Ele fechou os olhos por reflexo.

Que merda, isso arde! Seus olhos queimavam, devia ser mil vezes pior para o 58 Hasselqvist. O cara gritava como um porco, esfregando o rosto em pânico com os braços inferiores.

Mesmo que seus olhos estivessem ardendo, não foi nenhum problema agarrar as roupas do 58 e puxá-lo do banco para o asfalto e, em seguida, para a vala. HP piscava como um louco, seus olhos ainda ardiam, mas se lembrou de uma coisa que tinha aprendido numa demonstração do Reclaim the Streets alguns anos antes.

Pelo fato de o gás lacrimogêneo não ser de verdade um gás, mas sim um pó, a última coisa que você não deve fazer é esfregar os olhos, porque isso só vai piorar as coisas. Em vez disso, ele virou a cabeça em direção ao vento, piscou rapidamente algumas vezes e recuperou o suficiente de sua visão para ser capaz de dar um belo chute na barriga do 58, enquanto ele estava deitado no chão.

“Agora nós vamos ter uma conversinha”, murmurou com os dentes cerrados, puxando a meia com a bola de bilhar dentro.

“Eu reconheço essa”, sorriu Wikström. “Isso é Kent, não é?”

“Mmm…”, ela murmurou concordando, embora não tivesse sido realmente capaz de pensar no nome da banda até que ele disse isso.

Kent — sim, é claro que era!

“Kent!”

“S-sim”, bufou o 58.

“Você está me dizendo que seu nome é Kent?”

Outro gemido de confirmação.

Isso não estava certo.

“Então, quem é Micke?”, rugiu HP.

“O quê?”

Hasselqvist, cujo primeiro nome era aparentemente Kent, piscava feito louco, enquanto vários fluidos corporais jorravam de seu rosto.

HP respirou fundo. Ele tinha vontade de esmagar a cabeça do babaca, mas isso teria de esperar. Tinha mais perguntas para as quais queria respostas antes de acabar com o patético Menino de Ouro do Mestre do Jogo.

“A garota naquele seu clipe, ela te chama de Micke?”

Hasselqvist olhou sem entender nada, enquanto continuava deitado e chorando.

“Alta, morena, em boa forma. Parecia ter sido filmado em um café, não te lembra alguma coisa?”

Finalmente, um sinal de vida.

“Não era eu, ela estava falando com o namorado. Eu só tinha que filmá-los, foi uma missão muito fác…”

De repente o Cinco Oito pareceu ter se lembrado da regra número um, e sua mandíbula se fechou como uma ratoeira.

HP deu de ombros, e em seguida deu um chute no saco dele. Depois de esperar alguns segundos para que Hasselqvist se recuperasse, inclinou-se sobre ele.

“Eu sei tudo sobre o Jogo, meu querido 58, incluindo a regra número um. Mas, se eu fosse você, estaria consideravelmente mais preocupado em sobreviver aos próximos minutos do que com o nosso amigo em comum, o Mestre do Jogo, ficar puto com você abrindo o bico, certo?”

Hasselqvist apenas balançou a cabeça com firmeza, enquanto segurava as joias da coroa.

“Bom! Então estou certo em pensar que sua missão era filmar a garota e seu namorado?”

Hasselqvist balançou a cabeça novamente.

“Então você o conhece, esse Micke?”

Hasselqvist negou com a cabeça, mas não foi muito convincente.

“Você está mentindo!”

HP ergueu o pé e mirou para chutar outra vez.

“Espere!”, choramingou Hasselqvist, colocando uma das mãos para cima para se defender.

Limpou a garganta e continuou.

“Eu não o conheço, mas eu o reconheci. Ele mora a algumas quadras de mim. Eu já o vi no ônibus, acho.”

“Ele está metido no Jogo?”

Outro aceno de cabeça, consideravelmente mais convincente dessa vez.

HP expirou.

O Micke e o 58 não eram a mesma pessoa!

Eles só moravam na mesma área e se pareciam um pouco, mas era isso. Becca não estava envolvida no Jogo. Ela estava a salvo!

Eles tinham acabado de começar a fazer a curva à esquerda em Sollentuna. O comboio estava bem espaçado, a estrada à frente estava completamente vazia.

Isso estava indo como um relógio.

“Então, qual é essa missão?”, perguntou HP, balançando a bola de bilhar na meia na frente do rosto do Kent cinquenta-e-oito-maldito Hasselqvist. Mais fungadas. O gás lacrimogêneo já devia ter acabado, mas o cara parecia o maior bebê chorão do mundo. Que maldito fracassado eles tinham escolhido! Esse pentelho com pinto de camarão era realmente o melhor que eles conseguiram encontrar?

Alguém que tinha o que era necessário para uma Fase Final?

HP balançou a cabeça em exasperação e deu uma batida fraca em Hasselqvist com a bola de bilhar.

“Ok, você quer fazer isso da maneira mais fácil, ou prefere uma bola oito no seu cu?”

Ele balançou a meia em volta de sua cabeça algumas vezes, fazendo um barulho de assobio aterrorizante.

“Era só estacionar a van aqui e esperar as instruções”, Hasselqvist bufou. “Isso é tudo, eu prometo!”, gritou, quando HP lhe lançou um olhar cético. “Era apenas um Jogo, uma coisa legal, sabe? Eu sou um ninguém, só um cara comum”, disse, enquanto tentava agarrar os pés de HP, suplicando. “Por favor, não me mate”, ele chorou sobre os tênis já encharcados de HP.

HP girou a meia mais algumas vezes, então a abaixou.

“Cai fora!”

“O quê?”

Hasselqvist olhou para cima, com o rosto vermelho, coberto de lágrimas.

“Você ouviu, vaza!”, rosnou, balançando a cabeça em direção às árvores. “Se você não tiver desaparecido em cinco segundos eu vou esmagar seu crânio, entendeu?”

Ele não precisou de mais explicações. Hasselqvist se precipitou para o mato e, a julgar pela velocidade que estava indo, provavelmente não iria desacelerar até ter chegado ao centro de Kista.

O que fazer agora?

De repente, ouviu um celular tocando. Bateu no bolso da camisa e estava quase pegando seu novo Sony quando percebeu que era o toque errado. O barulho estava vindo de dentro da van da polícia.

Claro, o celular do 58!

Estava no chão, Hasselqvist deve ter deixado cair quando recebeu o jato de gás lacrimogêneo na cara.

A tela estava acesa e uma mensagem curta dizia que uma chamada estava esperando.

Por alguma razão, ele realmente não sabia por quê, apertou o ícone de “atender” e lentamente levantou o telefone até a orelha.

“Alô?”

“Boa noite, meu caro HP, aqui é o Mestre do Jogo falando”, disse a voz do outro lado.

“Alfa 101 passando por Sollentuna”, ela relatou ao Controle.

“Entendido, Alfa 101”, respondeu o operador.

Olhou para Wikström. As mãos no volante, quinze para as três, olhos fixos bem à frente. Velocímetro travado no 120.

Ele era um bom colega, um verdadeiro profissional, pensou.

HP abriu a boca, mas era como se estivesse mastigando ar fino e as palavras não saíram.

“Você realmente trabalhou duro esta noite, meu amigo. Mas infelizmente terá mais um pouco de trabalho antes de poder ter seu bem merecido descanso.”

A voz era suave, quase terna. Sueco, com uma pitada de sotaque. Uma nota metálica fraca sugeria que a pessoa do outro lado da linha estava usando algum tipo de dispositivo de distorção de voz, ou talvez um daqueles aparelhos de tradução? Ele sempre havia assumido que o Mestre do Jogo era do sexo masculino, mas essa voz poderia muito bem pertencer a uma mulher.

“A missão desta noite vale 25 mil pontos. Se você conseguir, terá acumulado 33.200 no total, e, porque chegamos ao final desta rodada, isso significa que você será nosso vencedor e que o prêmio será, portanto, seu.”

“Q-q-quê!?”, balbuciou HP, tentando absorver essa nova informação.

“Entãão, se eu fizer isso, se eu te ajudar, você vai me deixar voltar? Quero dizer… vai me deixar voltar para o Jogo?”, disse ele depois de alguns segundos de pensamentos confusos.

“HP, HP, HP”, riu o Mestre do Jogo, e por alguma razão o riso fez os pelos de trás do pescoço de HP se levantarem.

“O que faz você pensar que nos deixou?”

Tudo estava indo bem, o comboio ainda estava perfeitamente agrupado atrás deles. Distância de segurança quase perfeita. Logo o cruzamento de Kymlinge, depois a Academia de Polícia, Järva Krog, e eles praticamente estariam na cidade.

Dez minutos, no máximo.

“Olhe a seu redor, meu amigo. Olhe para onde você está! Bem no meio dos acontecimentos.

O cenário para o ponto culminante do drama. E por quê? Bem, porque você se colocou aqui. Totalmente por sua própria vontade! Uma conquista bastante excepcional, como todos nós que temos seguido suas aventuras concordamos. E, obviamente, você deve ser recompensado!”

A voz era suave como mel, e HP não podia deixar de acreditar na mensagem.

“O papel principal é seu, HP, você foi até o fim, como você, sem dúvida, colocaria. Esta é a sua Fase Final, sua chance merecida de escrever seu nome na história do Jogo, para não mencionar na da própria humanidade.”

O Mestre do Jogo fez uma pausa, e HP tentou em vão digerir o que ele tinha acabado de ouvir e o que aquilo significava. Mas não conseguia administrar isso, era uma supersobrecarga de informação!

“Agora, ouça com atenção, HP, porque esta é a sua última missão. É isso o que vai transformá-lo numa lenda viva”, continuou o Mestre do Jogo. “Por 25 mil pontos você deve estacionar o carro da polícia o mais próximo possível da pista da autoestrada. Você vai abrir a porta traseira e lá vai encontrar um cabo que deve ligar neste telefone. Quando tiver feito isso, sugiro que procure um lugar seguro. Nós cuidamos do resto. O tempo está começando a se esgotar, então é uma questão urgente, mas é claro que vamos esperar até que você tenha ido longe o suficiente. Sua segurança é nossa prioridade. Você entendeu a missão, HP?”

“S-sim”, murmurou, enquanto sua cabeça começou a girar em velocidade dupla e, em seguida, tripla.

Isso era totalmente absurdo!

A porra do Além da Imaginação tomando esteroides!

Mas, ao mesmo tempo, era tudo o que ele sempre quis — e muito mais!

Ele estava… sem palavras!

“Bom. Eu gostaria de concluir salientando que a escolha é sua. Assim como antes, você mesmo deve decidir se quer levar a cabo a missão ou não. A bola está com você, HP. Ganhar, ou desaparecer?

Em outras palavras, você tem uma decisão muito importante para fazer, e eu te desejo muito boa sorte!”

A linha ficou muda abruptamente.

Ele ficou onde estava por alguns segundos, depois deu alguns passos vacilantes em direção às portas de trás da van da polícia. Assim que viu as sacolas pretas, percebeu o que o Jogo realmente queria que ele fizesse.

Isso era uma merda louca da porra!

O viaduto do cruzamento de Kymlinge estava se aproximando, e ao longe ela podia distinguir as luzes azuis. Parecia que havia um veículo da polícia na parte inferior do acesso de saída da autoestrada. Um micro-ônibus, a julgar pelos faróis. De repente, e sem uma boa razão, ela começou a se sentir inquieta. Havia algo sobre aquela imagem que não fazia sentido, mas demorou alguns segundos antes de entender o que era.

Ele abriu o zíper de uma das sacolas e suas suspeitas foram confirmadas na hora. Dynamex, estava escrito em letras vermelhas nos pequenos pacotes. A sacola estava cheia até quase estourar, deveria haver pelo menos cinquenta quilos lá ao todo.

Fechou o zíper. Cinquenta quilos em cada sacola, um total de cem quilos, o que daria… bem, o quê? Um big-bang do inferno, isso era óbvio! Mas o que eles estavam tentando explodir?

Quando viu as luzes azuis se aproximando, de repente percebeu o quão profunda a toca do coelho realmente era…

Déjà-vu!

O controle de velocidade da secadora tinha entrado na zona vermelha.

Uma van da polícia voltada em direção a eles. Dificilmente da maneira como ela teria estacionado num bloqueio-padrão de estradas. Mas era consideravelmente mais preocupante o fato de que não tinha nenhuma outra van estacionada desse jeito até agora, assim, na beira da autoestrada. Eles estavam muito longe para que ela fosse capaz de ver o número com o olho nu, mas se lembrou de que eles tinham binóculos no porta-luvas. Levou alguns segundos até localizar a van e ajustar o foco.

Havia um cabo saindo de uma das sacolas. Uma mini-USB, ele só tinha de plugá-la e dirigir a van alguns metros mais perto da pista, depois correr para a floresta. O Mestre do Jogo cuidaria do resto. Uma última ligação, trimmm-trimmm na sacola, então…

CA-BUUM!!

E depois disso?

“Ao vencedor pertencem os despojos”, de acordo com o gorducho Bacala na Família Soprano. Todos os seus sonhos se tornariam realidade. Ele ia ser famoso pra caralho, pelo menos se acreditasse no Mestre do Jogo.

A única pergunta era: ele acreditava?

As luzes azuis estavam se aproximando.

Não tinha muito tempo.

A decisão era realmente muito simples. Tinha percebido alguns dias atrás, mas a ficha não tinha caído antes, que só havia uma alternativa. O botão azul ou o vermelho? Jogar com cautela ou apostar tudo? Ganhar ou desaparecer?

Senhoras e senhores, o tempo está passando; por favor, façam suas apostas…

Ele pegou seu novo Sony do bolso, plugou-o no cabo e fechou com força as portas traseiras.

Em seguida, correu de volta para o banco do motorista, engatou a marcha e pisou fundo no acelerador.

“Pare!”, ela gritou de repente.

“O quê?”, disse Wikström, torcendo a cabeça com um olhar questionador para ela.

“Pare, pelo amor de Deus, pare o carro!”, ela gritou, pegando o microfone do rádio.

A estrada de acesso ia ficando cada vez mais perto, e agora era possível ler o número sem binóculos, 1710, a van que deveria estar na oficina. A que Henke alegava ter sido roubada. De qualquer maneira, a maldita não deveria estar aqui! Não agora!

Absolutamente, não!

“Parem todos os carros!”, ela gritou no microfone, enquanto Wikström pisava com força no pedal do freio. À medida que o cinto de segurança travava e a segurava, ela viu a van da polícia começar a se mover em direção a eles.

Piscar é supostamente o movimento mais rápido que o corpo humano é fisicamente capaz de fazer.

Ainda assim, isso mal se compara às sinapses elétricas do cérebro.

“Agora não!” foi o pensamento que passou pela cabeça dele quando a luz o atingiu.

E, do seu ponto de vista, ele estava absolutamente certo. Deveria haver mais tempo, muito tempo — que era o que havia sido prometido. Afinal, ele tinha seguido as instruções ao pé da letra, tinha feito exatamente o que tinha sido pedido.

Então, isso não deveria estar acontecendo. Agora não! Absolutamente, não!

Então, quando a tela do telefone se iluminou de repente e o celular começou a tocar, ele ficou realmente espantado.

Mas não, contudo, particularmente surpreso!

“Ameaça à frente, retroceder e recuar!”, ela ordenou, e tanto Wikström quanto os condutores dos outros veículos obedeceram imediatamente.

O comboio saiu em marcha a ré, andou algumas centenas de metros e, em seguida, quase como se alguém tivesse ordenado, os carros começaram a virar de uma só vez. Eles estavam indo tão rápido que nunca realmente pararam antes de continuar, agora voltando pelo caminho por que tinham vindo.

“Alfa 102, assuma a liderança”, ela concluiu assim que a manobra estava completa e eles iam em direção ao norte novamente.

Ele virou o volante, fazendo um retorno brusco, depois correu até o acesso da autoestrada com o motor uivando. Uma curva acentuada para a direita com as chamas dançando em volta das rodas e ele estava de volta à estrada de acesso de Kymlinge.

Podia ver as luzes azuis da van piscando contra as árvores escuras. Poucos segundos depois, elas foram acompanhadas por outras.

Suas mãos tremiam, mas ela não estava tendo nenhum problema para controlá-las. Eles já tinham passado Sollentuna.

“Controle, temos uma van da polícia roubada, 1710, dirigindo pela estrada de Kymlinge em direção a Kista. Sugiro que você envie nossos colegas de farda, mas fale para eles manterem uma distância segura, câmbio!”

O carro de patrulha que escoltava o bloqueio já o estava seguindo, e logo haveria mais.

Mas ele não deu a mínima. O celular do 58 ainda estava tocando no banco do passageiro, e a luz fantasmagórica da tela iluminava toda a cabine. Ele pegou a saída para Kista em duas rodas, dirigindo furiosamente para evitar o monte de grama no centro da rotatória, finalmente recuperando o controle antes de colocar o pé no chão, seguindo em frente.

O celular ainda estava tocando.

Sem tirar os olhos da estrada, ele estendeu a mão para pegá-lo.

A voz do Mestre do Jogo era fria.

“Você está nos decepcionando, HP!”

“Quer dizer que você preferia ter me visto explodir em pequenos átomos crocantes por toda a E4?”, retrucou. “Então, isso é problema seu, porra! Você disse que iria esperar até que eu estivesse longe, você prometeu. Você realmente esperava que eu acreditasse nessa merda? A realidade é um Jogo, alguém me disse uma vez. Um maldito app de celular em que você só me mostra coisas que quer que eu veja. Coisas que me levarão a pular quando você puxar as cordas. Mas agora é a minha vez de mostrar uma coisa a você. Agora é a minha vez de puxar as cordas. É hora de levar um pouco da porra da realidade ao Jogo, filho da puta! Diga ao segurança que ele tem trinta segundos para sair!”

“Ah, e mais uma coisa”, acrescentou, concluindo.

“Sim…?”

“Yippikayee, filhos da puta!!!”

Ele enfiou o telefone no bolso, girou o volante e derrubou o portão, depois a grade que bloqueava a entrada da garagem da Torshamnsgatan, 142.

Na colisão, sua testa bateu no para-brisas.

O airbag explodiu e jogou-o de volta no assento, a van derrapou violentamente e a parte de trás bateu num pilar de concreto. HP foi novamente quase atirado de seu assento, salvo dessa vez pela alavanca saliente do câmbio.

A van deu uma guinada em outra direção, batendo em outro pilar antes de HP finalmente recuperar o controle do volante que girava descontroladamente. Ele pisou no freio e a van da polícia derrapou até parar dois andares abaixo do lugar mais sagrado do Jogo.

HP saiu cambaleando, passou as mãos pelo corpo e descobriu, para seu alívio, que não tinha nenhum osso saindo para fora, nem nenhuma fonte jorrando sangue.

Os policiais pareciam ter sido inteligentes o suficiente para ficar na estrada, porque ninguém o tinha seguido para a garagem. Ele olhou ao redor como um animal selvagem e descobriu uma saída de emergência de frente para o trecho de floresta atrás do edifício, e subiu correndo as escadas.

Quando estava seguro, pegou o celular do 58 e digitou um número. De dez metros dentro da floresta apertou o botão de ligar e a parte traseira da van da polícia de repente ganhou vida.

Trim-trim!

Essa é pra você, Erman!, só teve tempo de pensar antes que a onda de pressão o derrubasse e tudo ficasse preto.

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