The Game: O Jogo

Anders de la Motte · Capítulo 7 de 26

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The Game: O Jogo

Jogando o jogo 5

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Jogando o jogo 5

Às vezes, geralmente quando estava sonhando, ela ainda podia ver o rosto dele em sua frente, exatamente como da última vez em que seus olhares se cruzaram. Primeiro, a fúria, depois a surpresa e, finalmente, o terror em seus olhos quando percebeu o que estava acontecendo — ele estava prestes a morrer.

Ela sempre reviveu o momento como um filme passando em câmera cada vez mais lenta. A maneira como ficou quase sem peso entre o céu e a terra, entre a vida e a morte, enquanto seus braços se moviam lentamente em círculos, batendo, inicialmente para recuperar o equilíbrio, depois para tentar se salvar. Mas, por um curto espaço de tempo, a física parecia ter feito uma exceção e permitido que ele se equilibrasse na borda, embora já devesse ter caído. Como se a lei da gravidade tivesse sido suspensa tempo suficiente para que Rebecca pudesse ver seu olhar de terror e acusação. Ela no chão, a apenas um metro e pouco dos pés dele, perto o suficiente para ser capaz de alcançá-lo, para estender a mão para resgatá-lo.

Como tantas vezes antes, a sequência de eventos foi passando cada vez mais lentamente, até que finalmente tudo ficasse inteiramente parado, quase como se alguém tivesse apertado um botão de pausa. E por um único e intenso momento estava lá, de verdade, a chance de ela esticar a mão e tentar desfazer o que tinha sido feito. Salvá-lo. Se quisesse.

Mas, apesar de que tivesse tentado se convencer de que o amava, que se arrependia e que, com certeza, não queria que ele se machucasse, isso não ajudava. Porque, no fundo, dentro dela, em um lugar que a razão não conseguia alcançar, nem acordada nem sonhando, ela ainda queria — apesar de mais de treze anos terem se passado desde aquela noite — nada menos que ele caísse. Que seu rosto fosse esmagado até que não pudesse ser reconhecido, que seus braços e pernas se quebrassem como palitos de fósforo, e que suas mãos, as suaves mãos que ela tinha amado e temido mais do que qualquer outra coisa em todo o mundo, fossem esmagadas até virarem fragmentos sangrentos contra o chão firme lá embaixo.

E no momento em que o ódio novamente se libertou dentro dela, alguém apertou o play e seus desejos se tornaram realidade.

Muitas vezes, era aí que ela acordava, no momento em que ele desaparecia, e ela evitava ter de ouvir o som de seu corpo batendo no chão cinco andares abaixo.

Mas nem sempre.

Não hoje.

O som abafado e suave ainda ecoava em seus ouvidos enquanto engolia um rápido café da manhã na pia da cozinha. Ele quase foi abafado pelo som do trânsito enquanto ela pedalava com rapidez pela Rålambsvägen, mas ainda ecoava fraco no fundo de sua mente quando fez a mountain bike subir no meio-fio na Drottningholmsvägen, e ainda não tinha desaparecido completamente no momento em que parou sem fôlego ao lado da cabine do guarda na entrada do subsolo na Fridhemsplan.

Parou na barreira, mostrou seu distintivo policial para o guarda dentro da cabine que, distraído, fez um sinal para que ela passasse, evidentemente mais interessado em mexer em seu telefone celular do que se concentrar em seu trabalho.

Mais outro idiota incompetente, ela pensou com raiva antes de descer pelo túnel sob o complexo de Kronoberg, com sua escuridão fresca barrando o mundo exterior e todos os seus sons.

“Vamos, se esforcem um pouco, pelo amor de Deus! Esta não é uma aula de ginástica para donas de casa!”

O suor escorria dos seis guarda-costas. Cinco homens, uma mulher. No chão, dez flexões, rapidamente de pé novamente, pronto, chute, soco, soco. Em seguida, para o chão novamente. Vinte abdominais e de volta à posição inicial novamente. Dez repetições no total e, depois, trocar de lugar com o parceiro. Um aperto firme em volta da cintura, chute, soco, soco.

Seu parceiro de treino era forte e seus golpes quase penetravam o protetor acolchoado nos braços de Rebecca.

Bang, bang, bang.

Mais três, depois trocar de novo.

O instrutor de defesa pessoal estava fazendo jus a seu nome hoje. Peter

Pain[5] não tinha ganho esse apelido simplesmente por ser britânico.

Primeira aula de treinamento para os novatos do grupo Alfa. Evidentemente, Vahtola tinha solicitado uma sessão forte para desafiar os recém-chegados ao grupo. Rebecca conseguia ver sua chefe assistindo à aula do corredor de vidro acima da sala de defesa pessoal.

Cerca de quarenta e cinco minutos se passaram e o ritmo tinha sido implacável até o momento. Embora todos estivessem em boa forma, mais de um deles começava a perder a resistência.

“Ok, parem, se reúnam à minha volta.”

Peter Pain chamou todos. Houve um suspiro de alívio coletivo, e Rebecca percebeu, para sua alegria, que vários de seus colegas do sexo masculino tiveram de descansar as mãos no joelho para recuperar o fôlego. Ela estava cansada, mas não tão cansada como o maior dos homens.

“Essa é a vantagem de ter um pouco menos de músculos, meninos, é preciso menos oxigênio para se manter funcionando”, sorriu em silêncio antes que as novas ordens de Pain a interrompessem.

“Imobilizar e soltar, grupos de três, dois segurando, um tentando se soltar. Dúvidas? Ok, comecem, e eu quero ver velocidade! Vai, vai, vai!”

Ela acabou ficando com dois rapazes grandes que já conhecia um pouco. Stefan e Dejan. O primeiro, um cara marombado de cerca de um metro e noventa de altura, o segundo apenas um pouco menor.

“Eu começo”, disse Dejan, e fez um gesto para que Rebecca o pegasse por trás, enquanto Stefan tomava posição para prender os braços de Dejan pela frente.

“Uff!” Dejan se contorceu e se soltou facilmente com algum tipo de técnica avançada de artes marciais, enquanto gritou alto.

“Bom, Savic, mas larga essa besteira de Karate Kid!”, disse o instrutor ao lado do colchonete.

Rebecca olhou para o corredor de vidro. Vahtola continuava observando, e parecia que a chefe da unidade tinha um interesse particular em seu trio.

“Uff!” Dejan estava livre de novo, dessa vez com ainda mais facilidade.

Merda, ela tinha perdido a concentração e Pain não era do tipo que deixava passar.

“Se liga, Normén! Se você quer pertencer à elite, precisa evoluir!”

A terceira tentativa, e agora já ela sabia muito bem como as táticas dele funcionavam. Dejan dava um passo rápido para o lado antes de se contorcer para se soltar, então o que aconteceria se ela desse uma joelhada na parte de trás de seu joelho no meio do passo?

A conclusão foi que ele caiu para trás em seus braços, e ela e Stefan conseguiram facilmente virá-lo de lado e deitá-lo fora do colchonete.

“Bom, Normén, é assim que deve ser!” Pain bateu palmas, e Rebecca não pôde deixar de lançar um olhar presunçoso para a passagem de vidro. A expressão de Vahtola não havia mudado.

“Vamos trocar!”, disse Dejan, laconicamente. Ele estava com o rosto vermelho e claramente nada feliz por ter sido derrotado na frente de sua nova chefe.

“Eu fico atrás.”

Antes que Rebecca tivesse tempo de reagir, ele tinha tomado posição atrás dela e lhe aplicou um tipo de chave de braço. Os dois braços em volta do pescoço dela, seu braço direito sobre a garganta segurando o outro braço, a mão esquerda segurando a parte de trás de seu pescoço.

Ela sentiu como se estivesse presa em um torno de serralheiro.

Rapidamente tentou pegar o braço sobre sua garganta, mas Stefan, de pé em sua frente, pegou seus pulsos e segurou firme seus braços. Ela lutou e empurrou, tentando se libertar, mas Dejan, evidentemente, não estava disposto a deixar que isso acontecesse.

Era hora da vingança, e, em vez de afrouxar o aperto para lhe dar uma chance, ele apertou ainda mais. Os pés dela estavam quase saindo do chão.

“Vamos, Normén”, ele rosnou em seu ouvido. “Mostre pra gente o que você pode fazer!”

Rebecca começou a sentir seus olhos tremerem. O aperto era tão forte que tanto sua respiração quanto sua circulação sanguínea estavam sendo interrompidas. Tentou se libertar de novo, dessa vez mais freneticamente, mas Stefan ainda segurava seus pulsos com força, não parecendo perceber que tudo estava a ponto de sair de controle.

Seu campo de visão diminuía e ela sentia que estava à beira do pânico. Estava presa, não podia respirar, não podia se mover; estava imóvel e sob o poder de outra pessoa, alguém que queria que ela se machucasse. Exposta. Desamparada. E, de repente, já não estava em um ginásio em Kronoberg, mas em um apartamento em um dos subúrbios ao sul, e o homem que a segurava não era mais um colega com o orgulho ferido.

“Eu vou te matar, sua vagabunda”, o homem rosnou em seu ouvido, e ela sabia, a partir do tom de voz que tanto a aterrorizava, que ele falava sério. Dessa vez ela iria morrer com certeza!

O pânico que geralmente conseguia controlar brotou e encheu sua cabeça, bombeando adrenalina para seus músculos enfraquecidos e assumindo o controle de seu corpo. E, de repente, sentiu uma nova explosão de vida.

Ela se deixou cair no chão como um saco, e quando o aperto em seu pescoço relaxou alguns milímetros, levantou-se com os dois pés e deu um impulso tão forte para trás e para cima que quase fez com que todos três caíssem.

Rebecca sentiu a parte de trás de sua cabeça bater em algo duro, sentiu algo se quebrar e, quando deu um chute para frente para atacar um alvo diferente, a força do chute alterou seu centro de gravidade e eles caíram no colchonete.

Por um momento, tudo ficou escuro, mas sua visão gradualmente voltou.

Ela estava sentada no chão, com as costas contra o derrotado Dejan, e as pernas dele de cada lado dela. Poucos metros à frente, Stefan estava enrolado com as mãos na barriga. Num piscar de olhos, ela estava em pé, virando-se para Dejan, que ainda estava deitado. As mãos dele sobre o rosto, mas, a julgar pelos filetes correndo por entre seus dedos, mais do que aquilo seria necessário para conter o fluxo de sangue.

“Que porra é essa, você é louca ou o quê, Normén?”, ele grunhiu enquanto a encarava, em um tom simultaneamente desconfiado e acusador.

Ela não sabia bem o que dizer.

“‘Eu…”, ela começou hesitante, mas Peter Pain a interrompeu.

“Que do caralho, Normén, esse é o jeito de acabar com eles! Savic, você estava pedindo por isso, então é melhor ir para a enfermaria para se costurar. Wikström, você precisa ir também?”

Stefan acenou com as mãos com desdém, enquanto se levantava com força. “Só perdi o fôlego, bom golpe, Normén.” E balançou a cabeça na direção dela.

Rebecca ficou vermelha, sentindo-se ao mesmo tempo culpada e satisfeita. Talvez o nariz de Dejan não tenha tido muita sorte, mas, por outro lado, ele havia pedido por isso com sua postura machista idiota.

Ela tinha feito seu trabalho, conseguido se libertar por conta própria. Não tinha sido uma vítima indefesa.

Não como antes.

Absolutamente não como antes!

Era diferente agora, mais forte, melhor, mais corajosa. Uma pessoa completamente diferente.

Quando finalmente se atreveu a olhar para Vahtola lá em cima, viu um leve sorriso no rosto da outra mulher.

Birkagatan, 32, esteja lá às 18h.

Não era exatamente uma instrução difícil, mas dessa vez ele pelo menos se preparou melhor. Apesar do calor, havia desenterrado um casaco velho do exército que alguém, não conseguia se lembrar quem, havia deixado em seu apartamento depois de uma festa há muito tempo. O casaco tinha um monte de bolsos, que ele recheou com várias coisas úteis, e tinha alças na parte da frente que seriam perfeitas para prender o telefone.

O clipe do número 27 fez com que ele finalmente percebesse onde a câmera deveria estar para filmar os melhores ângulos. Sem mais aquele lixo de imagens tremidas na altura da cintura como no trem ou na NK, a partir de agora somente imagens de rostos.

Os espectadores, ou fãs, como ele os chamava com cada vez mais frequência, tinham ficado impressionado com a façanha da NK.

Mesmo que não soubesse quem eles eram, sentia cada vez mais que eram seu tipo de gente, uns caras legais com quem ficaria feliz em dividir uma cerveja gelada se a oportunidade surgisse.

Até tentou achar uma maneira de entrar na comunidade. Tentou encontrar um portal de entrada onde você pudesse se registrar como um membro e jogar, assistir e talvez até conversar com os fãs. Descobrir um pouco mais sobre quem eram e por que gostavam dele em especial.

Mas falhou. Os termos de busca que tinha usado não traziam nenhum link que funcionasse, então parecia que a única maneira de se associar era recebendo um convite. O que era uma merda, porque ver os clipes de outros jogadores teria sido legal pra caralho, para não falar sobre o contato direto com os fãs, mas não havia muito o que pudesse fazer sobre isso.

O Jogo era mais imparcial dessa forma, ele relutantemente aceitou.

Depois de sua segunda tarefa, intencionalmente caminhou lentamente ao longo do cais de Skeppsbron, andando para trás por pelo menos metade do caminho para que pudesse desfrutar de sua obra o maior tempo possível. Quando ele chegou à sua casa na Maria Trappgränd o Jogo já tinha publicado uma montagem profissional. Primeiro, sua própria filmagem tremida da parte de dentro intercalada com tomadas externas do relógio. Em seguida, uma tela dividida com a contagem regressiva no meio. Sua mão e os botões de um lado, o relógio do outro. Três, dois, um, clique, e o tempo parou sobre o centro de Estocolmo.

Quinhentos adoráveis pontos, uma mensagem pessoal de parabéns do Mestre do Jogo e um monte de novos comentários, bem como uma subida de alguns degraus na lista de pontuação.

Dizer que tinha sido legal não chegava nem perto! Teve de se masturbar não uma, mas duas vezes antes que conseguisse pegar no sono.

Saiu do metrô em St Eriksplan, em direção a Tomtebogatan, e depois à direita na esquina. Conforme ia se aproximando do endereço, sentia sua pulsação acelerar. Decidiu atravessar Birkagatan para observar seu alvo em paz de uma porta quase em frente, e para fumar uma guimba bem merecida.

Não havia nada de estranho com o endereço.

Um edifício residencial perfeitamente comum construído em algum momento no início do século XX, mais ou menos, se tivesse de adivinhar. Quatro fileiras de janelas mais as claraboias no telhado davam cinco andares no total. Pela aparência, o térreo parecia ser principalmente de lojas e escritórios e, provavelmente, o piso superior era uma espécie de apartamento luxuoso do tipo loft.

E agora?

Puxou o telefone da alça no ombro esquerdo, onde, depois de muito pensar, tinha decidido prendê-lo, e filmou todo o prédio, dando zoom na porta da frente, e depois um ângulo maior para ver todo o contexto novamente. Quando terminou, percebeu que a luzinha vermelha tinha começado a piscar.

Atrás da cabine telefônica ao lado do supermercado

era tudo o que dizia, e HP franziu a testa com tristeza quando um minuto depois pegou um saco plástico que tinha sido deixado atrás da caixa cinza de distribuição telefônica do outro lado da rua.

Tinha vindo até Birkastan para pegar uma porcaria de pacote?

Que merda de missão era essa?

Mas, antes que tivesse tempo de olhar dentro do saco, a luz piscou novamente, e, quando terminou de ler a terceira mensagem da noite, sentiu seu coração começar a palpitar de ansiedade novamente.

Era isso que esperava!

Verificou se a câmera estava funcionando e prendeu o telefone em seu lugar.

Em seguida, digitou a senha da porta que tinha acabado de receber e ouviu a fechadura fazer um clique.

Luzes, câmera, ação!, pensou animadamente, enquanto abria a porta e deslizava para dentro.

O primeiro alvo girou com muita rapidez!

“Para a direita”, registrou seu cérebro, enquanto seus instintos faziam o resto. Ela abriu sua jaqueta com a mão direita, sacou a pistola do coldre e, assim que o cano estava livre, apontou para frente.

Levou a mão esquerda até a arma, colocou-a sobre o carregador, enquanto continuava a levantar a outra mão, o que fez com que o mecanismo carregasse uma bala no tambor. Quando seu braço direito estava totalmente estendido, com a mão esquerda apoiando os três dedos sobre o cabo, disparou dois tiros rápidos no centro do alvo.

Todo o movimento não demorou muito mais do que um segundo.

Rebecca se afastou lentamente, ainda com a Sig Sauer pronta para disparar, fazendo uma varredura com os olhos em ambas as direções acima do cano. Quando tinha recuado dez metros de sua posição, o próximo alvo apareceu de repente, dessa vez bem para a esquerda.

Ela se virou rapidamente e, sem sequer pensar, disparou mais dois tiros no meio do movimento.

Bang, bang!

Outro recuo de cinco metros e o último alvo surgiu, baixo e no centro, não muito maior do que uma cabeça. Meio segundo depois esse alvo também tinha dois buracos perfeitos de nove milímetros aceitavelmente perto do centro.

“Pare, cessar-fogo, sem munição!”

“Cessar-fogo, sem munição!”, ela repetiu para o instrutor de tiro, tirou o dedo do gatilho, tirou o carregador e soltou a sétima bala, que já estava no tambor.

Assim que terminou, colocou a arma de volta no coldre e tirou os protetores de ouvido e os óculos de proteção para aguardar a avaliação.

“Boa pontaria, Normén, você precisa melhorar um pouco o ritmo na primeira série e puxar menos na segunda, mas em geral, como disse, boa pontaria!”, disse o instrutor.

Rebecca agradeceu à crítica com a cabeça, ela tinha se atrapalhado um pouco com a jaqueta, perdeu uma fração de segundo e depois tentou compensar o tempo na segunda série.

“Aperte o gatilho, não puxe!”, disse a si mesma, enquanto colava adesivos sobre os buracos do segundo alvo, pouco mais de dez centímetros acima do que pretendia.

Teve dificuldade em atirar quando começou na Academia de Polícia. A arma e, acima de tudo, os estampidos a assustavam, e no início ela tinha de fechar os olhos antes de disparar. Felizmente, a Academia oferecia uma aula extra para qualquer um que não estivesse acostumado com armas, e depois de algumas noites de prática intensiva seu medo havia se transformado em algo inteiramente diferente. Uma vez que havia superado sua aversão e dominado a técnica básica, a pistola a fazia se sentir segura. Como se ninguém no mundo pudesse pegá-la, desde que tivesse a Sig na mão. O tamanho e a força de qualquer oponente de uma hora para outra não importavam mais para alguém segurando uma arma de fogo.

E se os dois estivessem armados, você tinha de atirar primeiro e atirar melhor. Então, ela tinha praticado, de maneira apropriada, no estande de tiro no porão, mas também em casa com a réplica autêntica de sua pistola de serviço que tinha comprado em uma loja de modelismo.

Sacar, destravar, atirar.

Sacar, destravar, atirar.

Cinquenta vezes a cada manhã, e novamente a cada noite.

Aperte o gatilho, não puxe. De novo e de novo, até que o movimento estivesse profundamente enraizado em sua alma e não houvesse ninguém em sua classe ou até mesmo em seu ano que fosse mais rápido. Ela havia usado até estragar duas réplicas de pistolas até agora, mas tinha valido a pena!

Mesmo em sua unidade atual, ela estava entre os mais rápidos, e quando seu instrutor de tiro verificou os resultados do dia em relação a precisão e velocidade, ela ficou em segundo lugar, derrotada apenas por um homem do Distrito Ocidental.

Pouco tempo depois, ligou para sua secretária eletrônica para deixar uma mensagem lembrando a si mesma que aumentasse o treinamento naquela mesma noite.

A escada era larga, feito de mármore cinzento, razoavelmente desgastada depois de um século ou mais de uso. O corrimão era de teca polida, e um pequeno elevador, mais moderno, com capacidade para no máximo duas pessoas, havia sido espremido no centro da escadaria.

Ele verificou a escada com cuidado antes de começar a subir. Estava indo para o segundo andar. O edifício evidentemente tinha outra ala construída no pátio dos fundos, já que havia portas voltadas para aquela direção depois de cada lance de escada. Portas simples para os apartamentos de frente para o pátio, portas duplas para aqueles voltados para a rua, observou quando chegou ao terceiro andar.

Quatro portas, todas com enfeites simples de cobre, e uma delas, a segunda da esquerda, com o nome certo. Por enquanto, tudo bem. A essa altura, seu coração batia acelerado no peito, e não somente por causa das escadas.

Ele olhou em volta da escada e no corredor inteiro mais uma vez antes de continuar.

Primeiro, colocou uma antiga touca de lã azul na cabeça — já tinha cortado buracos para os olhos e a boca, exatamente como o número 27. Depois, tirou as coisas que tinham sido deixadas no saco. Primeiro, um pequeno calço de borracha, que empurrou por baixo da porta que era seu alvo, chutando para ter certeza de que tinha sido devidamente inserido. Então, respirou profundamente e apertou a campainha. Quando a maçaneta foi empurrada para baixo pela parte de dentro, pegou a lata de spray de tinta vermelha que estava no saco junto com o calço de borracha e começou a trabalhar.

Demorou alguns segundos para que o homem no apartamento percebesse o que estava acontecendo, e HP tinha chegado quase na metade do texto quando o homem começou a tentar abrir a porta de verdade.

De repente, a maçaneta parou de se mexer e logo em seguida a porta inteira tremeu, como se o homem que estava dentro tivesse dado um forte empurrão. HP percebeu, para seu horror, que o calço tinha deslizado um pouco no chão de pedra escorregadia e que agora havia uma fresta de um centímetro entre as portas duplas. Conseguiu ver um rosto vermelho furioso e ouviu o homem gritar com ele, mas era tarde demais para parar agora. Em vez disso, deu um pontapé no calço, esperando que isso fizesse com que ele ficasse no lugar por mais alguns segundos, tempo suficiente para que completasse sua tarefa.

“Eu vou pegar você, seu maldito, eu vou te pegar, seu covarde filho da puta!”, berrou o homem do lado de dentro, enquanto continuava empurrando a porta.

A fresta estava aumentando, e HP sentiu que começava a entrar em pânico. Mas não podia parar agora, só faltavam algumas letras para terminar. Ninguém gosta de gente que desiste, e com certeza não os fãs.

De repente, ouviu uma porta à sua direita se abrir e, quando virou a cabeça, viu uma moça de cerca de 20 anos o encarando. Assim que seus olhos se cruzaram, ela fechou a porta novamente desesperada, e ele ouviu o barulho da corrente de segurança sendo colocada.

Merda, ele tinha quase esquecido que estava com a balaclava na cabeça!

Outro empurrão na porta e dessa vez HP viu o calço deslizar pelo chão de pedra. Tudo o que o alvo tinha de fazer era empurrar a porta e ele se soltaria. Um braço tatuado e musculoso e uma cabeça raspada ficaram visíveis pelo espaço entre as portas, e, num súbito lampejo de inspiração, ele levantou a lata de spray e disparou um jorro de tinta no rosto furioso. Foi recompensado com um grito de resposta quando a porta se fechou novamente.

Impacto direto!

Com dois gestos rápidos, completou sua obra de arte e tinha acabado de se virar para as escadas quando o inferno explodiu atrás dele. Sem olhar para trás, jogou-se pelas escadas.

Desceu o primeiro lance em dois passos e, quando alcançou o piso na metade do caminho, ouviu o homem lá em cima urrar e começar a persegui-lo. Mais dois passos, primeiro andar, mais dois para o andar seguinte, depois apenas mais um lance de escadas para a liberdade. Ele podia ouvir batidas e uma respiração pesada atrás dele, mas não perto o suficiente para impedi-lo de fugir. Mas, quando virou para descer o último lance até a saída, viu que sua rota de fuga estava bloqueada. Uma mulher tentava passar um carrinho de bebê enorme pela porta da frente e não havia nenhuma maneira de ele passar por ali. O gorila atrás dele parecia ter percebido o que estava acontecendo, porque soltou um grito triunfante de algum lugar logo atrás de HP.

“Te peguei, seu merda!”

O pânico brotou de dentro dele, mas, em vez de correr para frente e ficar preso como um rato pelo carrinho de bebê, contornou o elevador, continuou em direção à porta dos fundos e saiu para o pátio.

Correu para o quintal murado, sem diminuir a velocidade, e mirou no varal de bater tapetes em um dos cantos. O gorila estava se aproximando, literalmente em seus calcanhares, tão perto que conseguia ouvir sua respiração ofegante.

HP pulou para cima do varal e de lá para o topo do muro. Conseguiu agarrar na borda com as duas mãos e chutou violentamente a parede com as pernas para levantar a parte superior do corpo até em cima.

Funcionou!

Lutou muito para chegar à faixa de estanho acima do muro e conseguiu cruzar uma das pernas. Mas, quando estava prestes a puxar a outra para cima, sentiu alguém agarrar sua calça e ficou pendurado na parede, segurando-se para sobreviver.

Pelo canto do olho, podia ver seu perseguidor e sentia que o homem tentava segurar melhor seu tornozelo.

Em pânico, HP começou a chutar loucamente a perna esquerda em um esforço para se libertar. De repente, seu pé bateu em algo sólido e ele ouviu um grunhido, e a mão que apertava seu tornozelo se soltou. Foi um choque tão grande que HP perdeu o equilíbrio e caiu desamparadamente no canteiro de flores do outro lado do muro.

Aterrissou com o rosto no chão e engoliu um bocado de terra.

Quando se levantou alguns segundos depois e começou a cambalear em direção a uma porta que imaginou que saísse em St Eriksgatan, ainda conseguiu ouvir o gorila berrando do outro lado do muro.

Assim que chegou à rua, não entrou na estação de metrô mais próxima, mas saiu correndo pela Karlbergsvägen em direção a Odenplan. Quando alcançou a entrada quatro minutos depois e reduziu a velocidade, percebeu que todo o seu corpo tremia.

Parabéns, HP!

a tela disse quando ele se sentou em um vagão subterrâneo e conseguiu controlar suas mãos trêmulas.

Você concluiu com sucesso sua terceira missão, que valia 700 pontos. Eu também decidi premiá-lo com 100 pontos extras por seu desempenho genial. Seu clipe deve ficar pronto em 23 minutos.

Saudações do

Mestre do Jogo Portanto, em outras palavras, ele apenas teria tempo de chegar à sua casa para assistir a tudo repetidamente e chafurdar no amor dos fãs. Que foda, isso era legal pra caralho!

Quando a porta do apartamento se fechou atrás de Rebecca, ela estava quase cansada demais para encarar sua nova rotina. Por um momento, brincou com a ideia de não se preocupar dessa vez, tudo estava bom o suficiente do jeito que era. Mas aí sua ansiedade assumiu e ela passou quase três minutos trancando, destrancando e trancando novamente as quatro fechaduras da porta.

Quando finalmente ficou feliz, convencida o suficiente de que tudo estava funcionando e que o apartamento estava seguro, jogou suas roupas de ginástica molhadas na pequena máquina de lavar, cambaleou até a sala e desabou no sofá.

“Alô!”, disse na direção do quarto, mas ninguém respondeu.

Fazia muito tempo que não havia mais ninguém lá.

Ainda assim, não conseguia deixar de dizer algo, qualquer coisa, só para não se sentir tão sozinha.

“Alô…”, uma voz de repente respondeu, e seu coração pulou uma batida antes que ela ouvisse a continuação e percebesse que estava ouvindo sua própria voz.

“…você ligou para a Rebecca. Eu não estou em casa agora, mas deixe uma mensagem e eu te ligo de volta.”

Ela se atirou para o telefone e pegou o fone antes que a secretária eletrônica fizesse qualquer barulho, mas quem quer que tivesse ligado já tinha desligado.

Inferno! Colocou o telefone no mudo, enquanto fazia ioga na noite anterior, e devia ter esquecido de voltar ao normal.

Ah, bem, ligariam de volta se fosse importante.

As chances eram bem pequenas de que seria uma ligação do trabalho para que ela fizesse horas extras, algo que pela primeira vez não se sentia inclinada a fazer.

O treinamento intenso dos últimos dias a tinha deixado desgastada, e essa noite ela só queria dormir. Poderia fazer um treino curto na academia amanhã, mas estava planejando passar o resto do dia de folga colocando em dia um pouco do merecido descanso.

Ouviu suas mensagens. Todas eram lembretes para si mesma:

“Rebecca, lembre-se de agendar um horário na lavanderia e pagar a conta da Nespresso, que vence dia 25.”

“Acelere a rotina de treinamento com a Sig, Normén.”

“Esta noite vai passar aquele documentário sobre assassinos em série que você deve assistir. Discovery, oito horas.”

Ela deu um sorriso irônico para suas próprias ordens, enquanto apagava as mensagens. Era estranho como sua voz soava diferente quando ouvia uma gravação. Quase como se fosse outra pessoa na fita. Um parente distante com algumas características comuns, porém mais severo e frio. Mas também a qualidade do som não era muito boa. Ela até achava que era um hábito besta usar a máquina dessa maneira. Talvez fosse hora de comprar um celular novo? Aí, poderia digitar seus lembretes em vez de continuar com todas essas mensagens sem fim. Um projeto adequado para a próxima vez que tivesse alguns dias de folga.

Pegou o telefone e aumentou o volume novamente, e lutou contra o súbito impulso de ligar para Henke. Tinha saudade dele, mais do que gostaria de admitir. Mas isso teria de ser amanhã, ou em algum momento nos próximos dias, prometeu a si mesma antes de colocar o telefone no gancho e ligar a televisão.

Poucos minutos depois, tinha caído em um sono profundo e sem sonhos.

O clipe superou todas as expectativas! Parecia que alguém tinha montado uma câmera no andar, porque ele não conseguia ver um único movimento que sugerisse uma mão humana por trás das imagens que foram postadas junto com as suas em seu perfil. Embora os acontecimentos só tivessem ocorrido uma hora e pouco antes, a coisa toda parecia ainda mais dramática do que ele se lembrava.

A porta que tremia com os empurrões do gorila, a menina apavorada colocando o rosto para fora e, não menos importante, sua própria figura mascarada pichando toda a porta. Ele parecia pelo menos tão legal quanto o 27 quando cuidou daquele carro de polícia!

E o texto na porta parecia bom pra caralho:

LEMBRE-SE

DA REGRA

NÚMERO

UM!

Essa era uma mensagem que o caguete lá de dentro certamente nunca iria esquecer. Um pequeno lembrete do Mestre do Jogo sobre quais eram as regras, basicamente. O silêncio é de ouro…

Maldição, ele era um fisiculturista ou algo assim, porque parecia enorme pra caralho quando saiu com raiva do apartamento.

A sequência do quintal era quase tão boa quanto. Como só estava meio deitado em cima do muro, a câmera apontava para a direção certa e ele pôde ter uma ideia melhor dos resultados de seus chutes.

Você podia ver um braço poderoso e partes de um rosto furioso entrando e saindo de cena, e depois seu próprio Nike tamanho 43 pousando no meio do rosto do gorila antes que tudo virasse uma bagunça de céu e terra quando caiu do outro lado do muro.

Se pudesse adivinhar, o orc tinha tomado muita bomba de esteroides para ser capaz de subir o muro.

Que pena, otário!

Hora de parar com os anabolizantes.

Deu um largo sorriso e apertou repetir mais uma vez.

Os fãs gostavam quando você fritava ratos. Os comentários já tinham começado a aparecer, e sua classificação média tinha rastejado para mais perto das quatro estrelas. Com um pouco mais de exposição, teria ultrapassado a fronteira do “bom” pela manhã.

E por que não? Afinal, tinha praticamente nascido para isso. Um assassino profissional a serviço do Mestre do Jogo!

O casaco tinha sido um golpe de mestre, o novo clipe era muito melhor do que os anteriores. Você podia até mesmo assistir à corrida por Karlbergsvägen sem sentir enjoo, e ele fez uma nota mental para se lembrar de retirar a balaclava mais cedo da próxima vez. Foi somente quando duas idosas gritaram de medo em algum lugar perto de Hälsingegatan que se lembrou que seu rosto ainda estava coberto.

Tinha certeza de que faria melhor da próxima vez.

Porque definitivamente haveria uma próxima vez!

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