The Game: O Jogo

Anders de la Motte · Capítulo 8 de 26

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The Game: O Jogo

Todos os cavalos do rei… 6

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Todos os cavalos do rei… 6

De: Aquisição de Talentos

Para: Mestre do Jogo

Assunto: Avaliação do Candidato 128

Nome: Henrik Pettersson

Apelido: HP

Idade: 31

Altura: 179 cm

Peso: 72 kg

Porte: Esguio

Cabelo: Louro médio

Olhos: Azuis (veja fotografia do passaporte em anexo) Estado civil: Solteiro

Família: Uma irmã (com quem apenas mantém contato esporádico) Ambos os pais falecidos

Profissão: Várias, atualmente desempregado Endereço: Maria Trappgränd, 7, Södermalm, Estocolmo, um apartamento de dois cômodos que herdou da mãe

Número de tarefas concluídas: 5

Total de pontos: 2.200

Classificação atual: 23

Nível atual: 3

Forma de recrutamento: Recomendação Educação: 9 anos de ensino sueco básico, notas irregulares

Começou mas não concluiu um curso de 3 anos de economia numa escola sueca de ensino

médio

Iniciou por duas vezes, mas nunca terminou cursos adultos de educação

Outras qualificações: Nenhuma

Lazer e interesses: O candidato passa a maior parte do tempo assistindo a filmes e televisão, principalmente seriados norte-americanos de TV, filmes de ação, comédias e pornografia. Joga Counterstrike frequentemente, mas não pertence a nenhum grupo ou clã em particular. Joga menos World of Warcraft, em que seus avatares são geralmente foras da lei que pertencem à Horda.

Hábitos na internet: thefragarena.com, vários sites de compartilhamento de arquivos para download de filmes e música, o Block (site de comércio sueco frequentemente utilizado para o descarte de produtos roubados), YouTube, vários sites pornográficos. Usa muito o MSN. Abriu recentemente uma conta do Hotmail com o nome de Badboy.128

Histórico médico: Um braço e duas costelas quebradas em sucessão relativamente rápida durante os anos 1980. O caso foi repassado para os serviços sociais, sob suspeita de abuso infantil. Apêndice removido, 1992. Último exame médico, 2007 (realizado antes da liberdade condicional), não mostrou anormalidades além de THC no sangue (substância ativa relacionada com drogas como haxixe e maconha). Sem histórico de alergias, problemas cardíacos, debilidade no sistema imunológico ou intolerância a medicamentos.

Registros no serviço social: Após o encaminhamento do serviço de saúde (veja acima), as crianças foram colocadas sob custódia durante inquérito. Essa decisão foi revogada pouco tempo depois e o caso foi arquivado. Outros casos de suspeita de abuso infantil se seguiram, mas o único resultado foi uma série de visitas feitas pelos assistentes sociais. Uma notificação no registro refere-se a um relatório da polícia, mas isso não pode ser identificado. Pai falecido, 1995 (derrame), mãe, 1997 (câncer).

Os registros também mencionam o uso que o candidato faz de narcóticos (haxixe e maconha), bem como evasão escolar e comportamento delinquente na escola. Há também um plano de saúde estabelecido após um julgamento no tribunal distrital (veja abaixo).

Registro policial e criminal: A primeira condenação do candidato ocorreu pouco depois de seu aniversário de 17 anos e envolveu inúmeros casos de pequenas ofensas de narcóticos e roubo de veículo: recebeu uma pena de liberdade condicional sob a supervisão do serviço social.

Pouco depois de seu décimo oitavo aniversário, foi condenado por homicídio culposo e

sentenciado a dez meses em uma instituição de alta segurança para jovens infratores. Registros posteriores na vigilância policial apontam ofensas menores envolvendo narcóticos, suspeita de tráfico de bens roubados e pequenos furtos.

Sua condenação mais recente foi há quase dois anos, quando esteve envolvido em um caso

de negociação de bens roubados, uma situação em que foi pego conduzindo ilegalmente, e outra situação envolvendo delitos relacionados com narcóticos. Como resultado, recebeu uma pena branda e uma multa.

Outros registros oficiais: O candidato tem cinco notificações registradas no serviço público por falta de pagamento, principalmente em contas domésticas de luz e telefone, bem como encargos não pagos relacionados com o prédio em que vive. Vale ressaltar que todos os casos foram resolvidos sem a necessidade de acionar oficiais de justiça, porque sua irmã liquidou as dívidas.

Características pessoais: Todas as fontes descrevem o candidato de forma semelhante. Ele é inteligente, de pensamento rápido e criativo, mas também é descrito como preguiçoso, não confiável e egoísta. Geralmente prefere soluções simples a compromissos de longo prazo, tem óbvios problemas com a autoridade e poucas amizades ou relações familiares significativas. Missões: Além da missão de teste (cenário 12a), o candidato realizou com sucesso quatro missões (até o nível de dificuldade C3).

Assiste a seus próprios clipes regularmente, checa os comentários com frequência e é

rápido em responder positivamente aos convites para novas missões. Até agora, o candidato não mostrou nenhum sinal de dúvida ou ansiedade sobre possíveis consequências, sejam as de sua própria conta ou as geradas pelas missões.

Recomendação: O candidato 128 demonstra quase todas as qualidades exigidas por um Jogador de sucesso. É impulsivo, inteligente e dinâmico, enquanto exibe pouca ou nenhuma empatia por outros candidatos.

O candidato parece se considerar uma vítima infeliz ou um intruso. Alguém que, por razões

desconhecidas, está sempre sendo tratado injustamente ou simplesmente não tem sorte. Portanto, acredita que tem o direito de fazer o que é melhor para si próprio em todas as circunstâncias, geralmente em detrimento dos outros ou da sociedade, e pela mesma razão sem ter de assumir qualquer responsabilidade por seus atos.

O candidato não tem família para se apoiar, tem problemas com relacionamentos de longo prazo e intimidade, bem como de confiar ou ter a confiança dos outros.

Mesmo que o dinheiro desempenhe um papel em sua motivação, seu principal incentivo é o

reconhecimento e a atenção (chamados “cred”) de seus pares. Para alguém que detesta autoridade, 128 é surpreendentemente fácil de ser conduzido, mas somente sob a condição de que perceba que todas as escolhas e decisões sejam suas, e que tudo o que está acontecendo em seus termos.

À luz disso, o abaixo-assinado recomenda que o candidato seja elevado para o nível dois e

que uma avaliação mais aprofundada ocorra após uma missão de nível de dificuldade D1.

Atenciosamente,

Donovan

Aquisição de Talentos

HP fodia como se estivesse em transe.

Ele era Rocco Sifredi, Paul Thomas e, obviamente, o lendário Ron “Porco-Espinho” Jeremy, todos num só. Essa noite ele era o Imperador da Foda, e torceu e virou sua disposta mas ainda surpresa parceira a fim de explorar todas as variações imagináveis de cópula.

A terceira foda em duas horas ou mais, muito além de sua média habitual. Eles já tinham dado uma cavalgada rápida no sofá, depois um papai e mamãe de pé na mesa da cozinha com as longas pernas dela descansando nos ombros dele e agora ele estava ocupado freneticamente penetrando por trás a senhora em questão com tanta força que a cama inteira parecia prestes a entrar em colapso.

Suas mãos apertavam firme seus amplos quadris. Peitos e bundas, saltando no ritmo dos gemidos de prazer dela, enquanto ele lhe fincava cada vez mais firme com seu pau duro de pop star pornô.

“Mais, mais, quase”, ela gemia, sem fôlego. Mas ele não estava nem aí. Porque ele era o Rei da Foda, o Príncipe da Penetração, o Aiatolá do Fode-e-Rola! Mas, mais importante do que isso, ele também foi o Senhor Clipe da Semana, o líder da corrida e o número 128, porra! O cara mais legal do Jogo, e pensar nisso lhe deixou mais duro do que jamais sua parceira e seus indiscutíveis encantos femininos poderiam ter feito.

Com um par de golpes finais poderosos, concluiu sua obra-prima, e na hora tirou e despejou uma cascata gosmenta de amor pelas costas suadas dela com apenas um pensamento em mente: ele deveria ter ligado a câmera!

Ela se deitou a seu lado no escuro e observou sua silhueta a dormir. Talvez não fosse propriamente o cara mais esperto do mundo, mas pelo menos ele era bem bom de cama e naquela noite parecia inspirado de forma incomum.

Haviam se conhecido há uns seis meses num bar qualquer do centro da cidade, e como ela se sentia particularmente solitária e com necessidade de intimidade física, foi, contra todos os seus princípios habituais, para o apartamento dele naquela mesma noite. O sexo tinha sido bom desde o começo e depois ficou difícil de parar.

Havia algo nele que a atraía, que a havia fisgado. Não que ele fosse especialmente bonito ou exageradamente sexy, ele provavelmente estava em algum lugar no meio de ambas as escalas. Talvez fosse o simples o fato de que ele não era um policial, mas apenas um cara completamente normal que vivia no mundo completamente normal que mais a atraía. De qualquer maneira, eles se encontravam de vez em quando, geralmente quando ela estava a fim. Ela não queria um relacionamento e ele nunca havia se manifestado contra o acordo que haviam feito. Mas ela ainda não conseguia afastar a sensação de que o estava usando. Rebecca suspeitava, ou possivelmente esperava, que ele já estivesse em um relacionamento de fato, mas optou por não perguntar, e ele nunca havia se sentido obrigado a lhe dizer qualquer coisa sobre si mesmo. Fosse o que fosse, não havia sentimentos envolvidos, apenas atração física, e aquilo não exigia nenhum detalhe ou ao menos era o que ela gostava de pensar.

Mas, bem, provavelmente não importava. Ele era um pau-amigo, sendo bem franco, mesmo que ela não gostasse daquela expressão em particular. Acariciou suas costas com culpa e o ouviu murmurar algo enquanto dormia.

O Mestre do Jogo havia lhe prometido um mundo inteiramente novo e até agora ele não estava nem um pouco decepcionado! Podia ver os clipes quantas vezes quisesse e já havia feito isso o quanto queria.

A missão número quatro era bem rápida. Ele havia tirado as porcas de uma das rodas de uma Ferrari que pertencia a um advogado desprezível, enquanto a vítima sentava-se a dez metros de distância bebendo um drinque pós-trabalho com seus amigos bacanudos num café na calçada de Sturehof. É claro que o carro estava estacionado na vaga de carga e descarga do lado do cogumelo de concreto no meio da Stureplan, para que todos pudessem ver sua escandalosa extensão peniana, mas, apesar disso, ninguém havia notado nada.

As ferramentas estavam à sua espera, adequadamente embrulhadas em um saco plástico, dentro da caixa d’água de uma das privadas num dos banheiros da Galeria Sture. E, uma vez que HP as tinha em mãos, levou menos de três minutos para remover as porcas nas rodas que ficavam de frente para a rua.

Mesmo que fosse sexta à noite e o lugar estivesse lotado, ninguém reagiu ao que estava fazendo, nem mesmo o policial que passeava a apenas meio metro de suas costas. Era verdadeiramente bizarro o fato de que ninguém se importava com o que os outros estivessem fazendo, até que o senhor Advogado Desprezível tentou fazer um retorno cantando pneu para voltar a Kungsgatan.

Ambas as rodas voaram mais ou menos instantaneamente, e de repente o burro idiota ganhou bem mais atenção do que estava esperando. Além dos cento e poucos que riam e apontavam para ele numa tempestade em escárnio, HP contou pelo menos outras cinco pessoas além dele que estavam filmando o belo carro, enquanto ele estava parado na Sturegatan. Os discos de freio brilhantes e presumivelmente absurdamente caros estavam afundados no asfalto e, de acordo com a reportagem no Dagens Nyheter do dia seguinte, foi preciso mais do que uma hora para que o caminhão-guincho retirasse o veículo do caminho.

Mas então HP já tinha sumido fazia tempo. Ele odiava Stureplan, principalmente nos fins de semana, e não queria passar mais tempo do que o necessário ali.

A última vez que viu o dono do carro ele estava de pé chorando como uma menina, inclinando-se sobre os pés de seu arruinado carro querido, mas HP não sentia a menor pena de sua vítima. O senhor Desprezível deve ter merecido esse castigo, dava pra dizer só de olhar em seu rosto arrogante, seu cabelo penteado para trás todo sebento de Gumex em seu terno chama-atenção. Com um carro daqueles, você praticamente pedia para ter problemas, e isso foi exatamente o que HP lhe forneceu.

Fora que HP nunca havia gostado de advogados. A única vez que havia sido burro o suficiente para contratar um entortador de leis, ele não propriamente o ajudou. O idiota mostrou-se completamente incompetente, não havia feito seu dever de casa, continuava chamando-o de Håkan e fedia a bebida disfarçada com balas de menta no próprio tribunal. HP devia ter pensado melhor antes de aceitar o primeiro nome sugerido pelo tribunal, mas havia acabado de completar 18 anos, e mesmo que já reconhecesse todos os sinais de bebedeira naquela época, demoraria mais tempo antes que desenvolvesse um entendimento parecido em relação ao sistema judiciário.

Tudo era uma puta zona naquela época.

Dez meses numa instituição para jovens delinquentes — esse foi o resultado.

Defensor público o caralho! Estava mais para “profanador público”, como se lembrava.

E agora ele tinha a chance de devolver algum troco para aqueles nojentos seguidores de ambulância, e a sensação era ótima.

Chupa meu pau, seus punheteiros de Stureplan!

E bandidos, pensou consigo mesmo, a julgar pelo carro ridiculamente caro do senhor Bebê-Chorão.

Seguindo suas instruções, enviou as porcas da roda anonimamente para o escritório de advocacia na semana seguinte, e pela primeira vez ficou claro para ele que tudo, todo o lance com o Jogo, era bem maior do que havia imaginado.

Porque, qual era o ponto de enviar as porcas da roda de volta ao senhor Desprezível? Era quase como lhe fazer um favor, fazendo-o economizar algumas milhares de coroas na conta do conserto. Por que não jogá-las nas águas do Nybroviken e terminar com aquilo?

A única resposta em que conseguia pensar era que alguém queria ver a cara do advogado quando ele recebesse o pacote. Foi aí que a ficha finalmente caiu. Que talvez houvesse outros jogadores como ele por aí, não só nos EUA, mas aqui na Suécia, e provavelmente em outros países também.

Ele já havia entendido que provavelmente o gorila de Birkagatan estava envolvido de alguma forma, e que o filho da puta idiota não tinha mantido sua boca calada e abriu o bico sobre o Jogo. Era sobre aquilo, obviamente, o texto que havia escrito com spray na porta. E provavelmente não era o próprio Lewis Carroll que havia deixado o cartão de acesso no livro ou que entendeu como desligar o relógio no teto da NK…

Mas o panorama completo só foi entendido antes que ele percebesse que alguém havia sido selecionado para concluir a missão com o advogado. Esse alguém estaria ali filmando quando o pequeno punheteiro leitor da GQ abriu o pacote e ficou vermelho ao descobrir suas próprias porcas das rodas que haviam sumido. Alguém como ele, com uma missão a cumprir, uma câmera para registrar — e o mesmo a ser dito sobre quem quer que tivesse conseguido arrumar uma chave de boca de porcas de uma roda Ferrari e escondê-la na caixa d’água de um dos banheiros da Galeria Sture. Eram três tarefas pequenas e igual número de Jogadores, tudo o que a organização precisava para dar ao Senhor Desprezível um fim de semana que ele nunca esqueceria.

O pensamento envolvido era refinado pra caralho, e ele tinha de tirar o chapéu para quem fosse a pessoa que tinha organizado tudo aquilo.

A missão havia lhe conseguido mil pontos, e na manhã seguinte ele encontrou um cartão de crédito estrangeiro no capacho em frente à porta. Dessa vez, acertou a senha logo de cara.

No total, sua conta tinha 2.300 dólares americanos, que equivalia ao número de pontos que tinha na lista. Ele só tinha de enfiar o cartão no caixa eletrônico mais próximo e retirar o quanto quisesse.

Era mais do que precisava para comprar tanto o box-set dos Sopranos que estava morrendo de vontade de conseguir e um pacote tamanho família do melhor marroquino vendido pelo simpático traficante da vizinhança. Em seguida, desabou no sofá, fez uma fumaça e explodiu os miolos de alguns novatos no Counterstrike. Depois, aquele disque-pizza e um pouco de vínculo masculino com os carinhas da máfia de Jersey. A vida era ótima!

E, mesmo com isso tudo, a quinta missão era a verdadeiramente legal. Foi ela que transformou o senhor Clipe da Semana em vice-campeão e, algumas horas depois, no Papa Onipotente em Todas as Bocetas.

Além de tê-lo deixado de pau duro direto, a tarefa número cinco lhe deixou com 2.500 novos e agradáveis dólares em sua conta, mas para sua surpresa o dinheiro se tornava cada vez mais um subproduto agradável. Bem mais importante que o dinheiro era todo o amor que ele recebia em sua seção de comentários: “128 já ganhou!”, “nem os cavalos do rei conseguiram te parar ;-)” ou “AÊ UM-DOIS-OITO!!!”, apenas para listar alguns. Ele tinha uma classificação média de 4,8 estrelas e havia recebido uma mensagem de congratulações do próprio Mestre do Jogo.

Nada mal para um novato!

Ele era o sabor do mês!

Ele estava na área!

Ele estava indo rumo ao topo!

Ela acordou cedo, deslizou para fora da cama e, sem acordá-lo, silenciosamente recolheu suas roupas e as vestiu. Realmente não gostava de passar a noite, mas havia adormecido de uma vez, exausta por todo o treino e pelas atividades anteriores da noite.

Isso desde aquela primeira noite em que foram ao apartamento dele, o que, para ela, estava tudo bem. Ela gostava dele, com certeza, mas não se sentia bem em deixá-lo vir a seu apartamento. Seria como enviar os sinais errados, dando-lhe uma falsa esperança. Era muito mais fácil se encontrar assim, fazer e terminar e depois ir pra casa. Culpe ter de acordar cedo, como ela sempre fez.

Ele era um cara decente de verdade. Talvez meio desarrumado, com um apartamento que precisava de uma faxina, e um corte de cabelo não lhe faria mal.

Mas era fundamentalmente um bom sujeito, consideravelmente melhor do que ela merecia.

Ela realmente não devia ter adormecido.

Ele se moveu dormindo e por poucos momentos de pânico achou que ele fosse acordar. O que ela diria se isso acontecesse? Como ela explicaria que estava para fugir feito um ladrão na noite, sem mesmo dizer adeus? Ou, pior, o que aconteceria se ele tentasse puxá-la de volta pra cama para os dois amanhecerem agarradinhos? Dormir de conchinha e trocar segredos?

Ela sentiu sua pulsação disparar.

Acalme-se, pelo amor de Deus, Normén!

Então ele ficou quieto, e pelo som de sua respiração ela pode perceber que dormia profundamente.

Graças a Deus!

Hora de ir. Estava levando tudo?

Checou rapidamente os bolsos de seus jeans.

Chave — sim, distintivo policial — sim, celular — não…

Procurou rapidamente pelo quarto mal iluminado, com pressa de ir. Lá estava ele, na escrivaninha. Aliviada, ela o pegou, percebendo que o celular dele estava ao lado. Design esperto, fino e de aço escovado, menor do que a palma de sua mão, exibindo apenas uma tela sensível ao toque. Uma pequena luzinha vermelha era a única coisa que indicava que estava ligado. Não conseguia lembrar de ter visto um daquele modelo antes, ou mesmo aquele especificamente. Ele deveria ter acabado de pegá-lo. Provavelmente, custava uma fortuna, pensou ao cuidadosamente fechar a porta às suas costas.

Quando HP abriu o armário de bagagem na Estação Central, a princípio não entendeu o que era aquilo que estava olhando. O objeto cilíndrico verde lembrava-lhe uma lata de aerossol e por um momento ele quase se sentiu decepcionado. Havia outro rato que precisava de um lembrete sobre a regra número um? Ele esperava algo melhor.

Enfiou o objeto dentro da bolsa que havia trazido e, como o metrô estava cheio de gente, não pôde olhar direito até fechar a porta de seu apartamento às suas costas. Sentiu-se como se tivesse sido levado para um passeio, a missão começando de forma tão promissora com a chave do armário presa debaixo de uma mesa numa filial do Wayne’s Coffee, na parte alta da Götgatan. Sentado entre incautos sorvedores de café com leite, era uma cena clássica de filmes de espionagem, a ansiedade sentida sob a mesa, a excitação quando seus dedos tocaram em algo duro.

Ele já tinha uma ideia sobre para que servia a chave antes que seu celular dissesse onde encontrar o armário em que ela se encaixava.

E aí todo esse movimento de capa e espada de James Bond só para uma lata de spray?

Mas agora que tinha a oportunidade de inspecionar seu achado, tudo de repente passava a ficar mais excitante. Percebeu de cara que não era um aerossol. Era de fato um pouco ridículo que estivesse pensando nisso ao ver aquelas linhas. Bastava ver a manivela que acompanhava a lateral e o pino no topo para perceber que aquilo era bem mais perigoso do que uma lata de tinta. De repente, seu pulso começou a acelerar com a antecipação.

“Granada de atordoamento M84”, dizia em tipografia militar, e uma rápida visita à Wikipédia foi suficiente para confirmar para o que algo como aquilo era utilizado. A granada, que também era conhecida como Flash & Bang, era chamada de “arma não letal”. Para qualquer um que não entendesse aquele linguajar fresco militar ou não jogasse Counterstrike, era uma arma que não era utilizada para matar pessoas.

Diferente das granadas de mão comuns, a M84 não estourava estilhaços que mutilam e matam quem estiver por perto, mas em vez disso produzia um estrondo infernal e um brilho tão intenso que fazia o sol parecer uma lâmpada de 15 watts. A função da granada era nocautear o inimigo, cegando-o, ensurdecendo-o e fazendo-o cagar nas calças por tempo suficiente para ser pego vivo. A maioria das forças policiais e antiterroristas no mundo civilizado parece carregar M84s em seus arsenais, e as descrições sobre a eficácia da granada são esmagadoramente positivas: “muito forte”, “extremamente útil” ou “altamente eficiente” eram algumas das críticas brilhantes que vários usuários haviam dado para a M84, e agora HP de repente tinha uma só para ele.

Uma de verdade!

A única questão era: o que o Mestre do Jogo queria que ele fizesse com aquilo?

De: Controle do Jogo

Para: Mestre do Jogo

Assunto: Extratos do relatório da polícia 0201-K246459-10 (candidato 128, missão 1006-009)

Na data acima, o carro patrulha 1054, que levava o inspetor de polícia Janson e o policial Modéer, foi enviado para a esquina das ruas Kungsträdgårdsgatan e Arsenalgatan, como resultado de um incidente ainda não classificado que envolveu a polícia montada. Um número de patrulheiros e ambulâncias foi enviado simultaneamente para o mesmo local, e o inspetor de polícia Janson foi denominado o chefe interino da operação policial.

No local, a patrulha encontrou o tenente Arne Wolff do batalhão de dragões salva-vidas de

Svea, que lhes contou o seguinte:

Woff foi designado para formar uma escolta montada composta por doze oficiais que

totalizavam quarenta recrutas que acompanhavam um cortejo dos Estábulos Reais ao Palácio Real. Era um evento oficial em razão da visita do governo grego.

O cortejo era composto pelo presidente da Grécia e sua esposa, bem como por suas

majestades, o rei e a rainha.

Wolff registra que, ao sair dos Estábulos Reais, eles estavam na seguinte formação: Primeiro, havia dois policiais montados que eram primeiramente responsáveis por lidar

com questões de trânsito. Em seguida, vinha a cúpula da escolta com sua guarda adjunta e colorida (2 + 4 homens), seguidos da primeira tropa da escolta (2 + 20 homens), que Wolff agia como comandante interino de uma posição ao final.

Atrás do tenente Wolff, seguiam a primeira carruagem do cortejo, levando o presidente e

sua majestade o rei, enquanto a segunda carruagem levava a esposa do presidente e sua majestade a rainha. Atrás das carruagens reais, vinham ainda mais dois policiais da guarda montada e só então a segunda tropa de escolta, que consistia em dois oficiais e vinte soldados.

Normalmente, a rota seguiria por Nybroplan, Hamngatan, Regeringsgatan, chegaria à ponte

Norrbro pela praça Gustav Adolfs, então pela Skeppsbron até o Palácio. Mas, como a ponte estava fechada para reparos, uma rota alternativa foi escolhida, passando por Kungsträdgårdsgatan e atravessando o rio por Strömbron dessa vez.

Quando HP finalmente recebeu suas instruções, soube na hora que aquela missão era mais difícil em magnitude do que qualquer outra que havia realizado anteriormente. Tinha o risco de ser pego, e se isso acontecesse ele estaria em problemas consideravelmente maiores com o sistema judiciário do que desligar um relógio, pichar uma porta ou remover algumas porcas de uma roda de carro. Aquilo era coisa séria, e ele não tinha uma ficha criminal propriamente imaculada em que se apoiar. E provavelmente acabaria atrás das grades se algo desse errado…

Isso deveria realmente lhe fazer desistir, mas já conseguia sentir a emoção borbulhando por dentro. Isso proporcionaria fotos fodaças. Material de primeira classe, talvez fosse material para o clipe da semana! Ele nunca havia ouvido falar de alguém fazendo algo desse tipo, então talvez devesse ser o primeiro. E não conseguia dar para trás de um desafio desses.

Uma oferta que você não pode recusar…

Seria importante planejar a operação cuidadosamente. Completar a missão, tirar boas fotos e encontrar uma forma de escapar sem que ninguém descobrisse quem havia sido. Achou que tinha uma boa ideia sobre como aquilo poderia funcionar, mas precisaria fazer algumas coisas trabalharem juntas.

Quando a primeira tropa de escolta estava à altura de Wahrendorffsgatan, Wolff notou de

sua posição na procissão que um objeto veio rolando como se tivesse sido atirado em sua direção de algum lugar do meio da multidão de curiosos que se juntavam na calçada do lado esquerdo. O objeto parecia ser uma espécie de cilindro de metal, algo que parecia uma lata de spray, e parou no meio da parte da frente da tropa, quando então alguns cavalos começaram a se sacudir e a causar alguma ansiedade nas fileiras.

A mobilete do Bode era um golpe de gênio. HP a havia tomado emprestado anteriormente, e seu amável vizinho e fornecedor legal nunca tiveram nenhum interesse no que ele queria.

“Pode pegar, sem problemas, olha aqui a chave”, era a resposta que sempre recebia, e em menos de meia hora ele afanou um capacete preto decente com um visor escuro de uma moto que estava estacionada na praça abaixo do Medborgarplatsen.

Checou a rota do cortejo na internet e então desceu para fazer o reconhecimento e chegou à conclusão que no final do Wahrendorffsgatan era o melhor lugar para colocar em prática uma missão.

Todo o cortejo chegaria até Kungsträdgårdsgatan por aquela hora, e com um pouco de sorte tanto o reu quanto a vossa maionesa a rainha iriam começar a desfrutar de um bom passeio de parque de diversões quando seu novo amigo M84 fosse disparado. Então, poderia voltar para Wahrendorff, estar em Nybroplan antes que soubesse para, em seguida, ir até Birger Jarlsgatan e depois virar à esquerda no túnel Klara — e de lá teria muitas opções.

Ele estaria de volta no território seguro de Södermalm antes que os detalhes sobre os suspeitos começassem a aparecer, e até então já teria se livrado do capacete negro na água, tiraria sua jaqueta e usaria apenas uma camiseta branca com o capacete vermelho básico que o Bode usava para andar de mobilete.

Não havia como alguém o vincular à descrição do suspeito — e mesmo que isso acontecesse, e daí?

Quantas provas eles tinham?

De repente, houve uma forte explosão e uma luz ofuscante que juntas causaram o caos no

cortejo.

A maioria dos cavalos na primeira tropa, incluindo o de Wolff, ergueu suas patas ao mesmo tempo, tanto os que estavam na Kungsträdgårdsgatan quanto os que estavam diretamente em Kungsträdgården.

Wolff se descreve como um cavaleiro muito habilidoso, mas o flash de luz e a explosão o

deixaram tão atordoado que, junto com a maioria dos dragões, ele foi derrubado de seu cavalo de uma vez só e ficou deitado na calçada de Kungsträdgården.

Quando voltou a si alguns momentos depois, percebeu que os cavalos que puxavam a

carruagem de sua majestade o rei estavam andando para trás e começavam a refugar. Instintivamente, segurou o bridão de um dos cavalos para ajudá-lo a se acalmar. Isso, contudo, não funcionou, e a carruagem andou uns vinte metros pela Kungsträdgårdsgatan com Wolff pendurado nos estribos.

Jesus, que porra de explosão gigante! Mesmo que tivesse atirado vários flashbangs no Counterstrike, lido sobre os efeitos dele na internet ou mesmo tendo visto vídeos no YouTube com a M84 em ação, nada fazia justiça ao estrago feito por aquela pequena lata maldita.

Ergueu a manivela, retirou o pino e deixou-a rolar entre os cavalos. Ok, um pouco mais difícil na Vida Real do que na On-line, mas não tão difícil. Mesmo que estivesse usando seus fones de ouvido, óculos de sol e o visor puxado para baixo, a explosão e a luz ainda tiravam o fôlego. Era como se alguém tivesse apertado o botão de pause na TV e a imagem congelasse enquanto o som e o próprio programa continuassem passando.

Teve de piscar algumas vezes para apagar o efeito de suas retinas e fazer seus olhos voltarem à realidade. O que havia visto excedeu todas as expectativas! A rua virou uma porra de um campo de batalha! Cavaleiros derrubados por toda parte, cavalos fora de controle, andando para trás e refugando. Um cavalo atravessou um vidro de um desses cafés ao ar livre, outros dois ceifaram árvores recém-plantadas na avenida em Kungsträdgården e continuaram cegamente por um parque, passando por cima de algumas bicicletas que estavam estacionadas. Quem passeava no sábado à tarde no parque teve de pular para fora do caminho daquelas criaturas em pânico para não ser atropelado ou levar um coice na cabeça. As pessoas berravam, os cavalos relinchavam, as crianças choravam, e no meio daquilo tudo uma das carruagens reais veio correndo rua abaixo, com um sujeito pendurado de um dos lados dos cavalos. Era como um filme de Hollywood, só que melhor.

Bem, bem melhor.

HP não conseguia parar de observar a destruição, e isso deve ter lhe tomado uns bons trinta segundos antes que lembrasse que era o responsável por aquilo e provavelmente estava atrasado para ir embora.

Após alguns minutos de caos entre os dragões, cavalos e transeuntes feridos, foi apurado

que a explosão havia sido causada por uma chamada “arma não letal” e que os casais presidencial e real não haviam sido atingidos, apesar de abalados, e que não parecia ter sido um ataque que mirasse diretamente neles.

Ver depoimentos de diferentes testemunhas registrados por Wolff para mais informações. Quando a patrulha 1054 chegou à cena, uma dúzia de cavalos ainda estava correndo

livremente ao redor. Pelo menos quinze integrantes da tropa de escolta e outros sete transeuntes foram considerados pelos paramédicos como tendo ferimentos que requeriam tratamento médico imediato, por isso a Kungsträdgårdsgatan foi fechada em ambas as direções e uma operação de evacuação foi colocada em ação com um batalhão extra.

O superintendente Nilsson assumiu o papel de chefe da operação policial às 12h04.

Seguindo o conselho da polícia de segurança, veículos foram chamados dos Estábulos Reais, e estes, sob escolta de viaturas que datavam de 1920 e 1917 — bem como membros da unidade de proteção pessoal —, assumiram o transporte da comitiva real rumo ao Palácio de Estocolmo.

As fotos ficaram incríveis! Até mesmo as suas, agora afiadas e quase sem borrões de movimentos — graças principalmente à nova correia que ele havia feito a partir de uma velha mochila —, o que fez o Mestre do Jogo posicionar apenas dois outros câmeras em Kungsträdgården.

Como diabos eles sabiam exatamente de onde HP iria atacar ele não tinha a menor ideia, mas desde então havia parado de se surpreender com o Jogo. Talvez alguém o tivesse seguido quando fez a sondagem de reconhecimento, ou talvez o celular tenha um rastreador GPS embutido. O que quer que fosse, os resultados excederam todas as expectativas, e em algumas horas mais tarde ele seria o Senhor Clipe da Semana, o Senhor Número Um e o Aiatolá do Fode-e-Rola.

As TVs e os jornais ficariam ocupados por pelo menos uma semana, e ele ria sozinho, quase sempre cerrando os lábios, enquanto os chamados peritos teorizavam sobre o autor e os motivos que estariam por trás daquele que, rapidamente, se tornou conhecido como “o incidente de Kungsträdgården”.

De acordo com um dos tabloides noturnos, tinha sido um extremista de extrema direita; de acordo com outro, ele era um ativista de esquerda. Tudo dependia da posição ideológica do jornal em questão.

As emissoras de TV, por outro lado, abordaram a partir do ângulo do terrorismo internacional. A estação mais comercial que havia contratado o especialista mais caro chegou até mesmo a se atrever a identificar uma nova rede sueca com “ligações com a Al-Qaeda”.

O único problema é que esses espertinhos sabe-tudo com suas milhões de notas altas no segundo grau tinham uma coisa em comum — todos estavam errados!

Total e completamente errados pra porra, na real!

Não havia conspiração, rede de terror, agenda política. Era só ele.

Um atirador solitário. Um homem com uma missão.

Henrik HP Pettersson, o homem, o mito, a lenda — e ele havia humilhado todos eles! Entre milhares de outros vagabundos, o Jogo o havia selecionado especificamente. Todos haviam visto seu potencial, avaliaram seus talentos e o colocaram em ação.

E, como agradecimento, ele partiu para cima e fez a porra de um golaço!

Só de pensar nisso, já ficava excitado de novo!

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