Traçando caminhos em uma sociedade violenta
2 Explicando os Materiais e Métodos Adotados no Estudo Quantitativo
Hierarquia do Tráfico
Olheiro - pessoa que fica, geralmente, na subida do morro ou entrada da favela para avisar da chegada da polícia.
Fogueteiro - responsável por soltar fogos comunicando a chegada de inimigos.
Avião - leva a droga até o "cliente".
Vapor - responsável pela venda de uma parcela da droga.
Endolador - separa e embala a droga.
Segurança - responsável pela segurança da boca de fumo, são os homens que ficam na linha de frente nas guerras de morro.
Gerente - gerencia a venda da droga. Em alguns lugares, existe um gerente responsável pela maconha e outro pela cocaína. Nesses lugares, existe, ainda, o gerente geral.
Dono - chefe geral do tráfico.
2 Explicando os materiais e métodos adotados
no estudo quantitativo
A abordagem traçada a seguir faz parte de um estudo exploratório. Trata-se de uma primeira tentativa de encampar o estudo da delinqüência pela ótica da epidemiologia. Como não era nossa proposta implementar um trabalho desta ordem, buscamos, dentro do possível em uma análise qualitativa, efetuar um pequeno recorte quantitativo com finalidade de subsidiar um estudo posterior, já a partir de um conhecimento prévio e de boa qualidade.
Para tanto, definimos investigar os diferentes fatores de risco para delinqüência existentes entre os infratores e os não-infratores, o que restringiu esta análise a 31 infratores e 31 não-infratores (irmãos/primos), já que não conseguimos localizar irmãos/primos dos demais infratores. Como toda a seleção dos entrevistados foi baseada em critérios qualitativos, a análise efetuada a partir destes 62 casos jamais poderia ser extrapolada para nenhum outro universo, e seus resultados não podem ser generalizados.
Por outro lado, o pequeno número amostrai nos dificulta encontrar significâncias estatísticas entre associações. Isto significa que, se tivéssemos uma amostra quantitativamente planejada, poderíamos encontrar associações diferentes das aqui apresentadas. Portanto, os dados a seguir devem ser observados com cautela e considerados como uma primeira aproximação ao tema.
Inicialmente foram selecionadas muitas variáveis independentes como fatores de risco para a infração (variável dependente), algumas das quais foram descartadas no decorrer do estudo pela baixa concordância que apresentaram (dados apresentados mais à diante). Apresentamos, a seguir, a definição das variáveis finais que permaneceram em nosso modelo, discriminadas segundo os três níveis teóricos apresentados na introdução ao trabalho.
Definição das Variáveis Utilizadas
Estudo de Concordância
O procedimento adotado para este estudo de concordância foi o seguinte: o grupo de pesquisadores definiu as variáveis a serem utilizadas e as categorizou com critérios objetivos, conforme já foi descrito. A partir daí, três pesquisadoras do grupo leram as 62 entrevistas, sem qualquer pista que as identificasse e posteriormente discutiram caso a caso, visando a dirimir as diferenças e a chegar a um consenso. Paralelamente, uma profissional externa ao grupo de pesquisa, psicóloga como larga experiência em avaliação de jovens infratores na Vara da Infância e Juventude, lia as mesmas entrevistas, não identificadas, dando seu parecer mediante os mesmos critérios.
Posteriormente, criamos um banco de dados em microcomputador com os critérios do grupo de pesquisa e os da consultora externa. Para medir a concordância entre estas duas fontes utilizamos o Índice de Kappa. Este índice mede a concordância entre duas medidas, retirando-se uma parcela de concordância que se daria pelo acaso. Se o k=0 indica que a concordância obtida é igual a esperada pelo acaso; se k=l a concordância é perfeita. Gutterman
(1987), 1 analisando estudos de confiabilidade em psiquiatria infantil reconhece kappa menor do que 0,4 como baixa concordância; kappa entre 0,4 e 0,59 como moderado; e kappa acima de 0,6 como boa concordância.
As variáveis apresentadas foram as que apresentaram kappa entre 0,49393 e 0,74197, portanto demonstrando moderada a boa concordância. Apenas a variável círculo atual de amigos não se enquadra nestes limites, tendo sido encontrado k=0,29046, mostrando baixa concordância entre os avaliadores. Resolvemos deixá-la em nosso modelo pela relevância que possui na teoria causal da delinqüência, para ser testada no próxima etapa, no estudo de associação, que será descrito mais adiante.
Estudo de Associação Para verificar a associação entre as variáveis, foi utilizado o Coeficiente de Contingência de Pearson, que mede a relação entre dois conjuntos de atributos. Para comprovarmos a significância desta medida de associação foi utilizado o teste do Χ 2 com (k-1)*(r-1) graus de liberdade, onde k representa o número de linhas e r o número de colunas da tabela de contingência. Foi considerada uma significância de 5%, assim para p<0,05 concluímos que a associação observada em nossa amostra não é resultado do acaso, indicando, ao contrário, a existência de uma relação genuína na população. Coeficiente=l é concordância máxima. Este teste tem como limitação a incapacidade de se poder verificar o sentido da associação, e sim apenas a sua presença ou ausência. É a primeira etapa da análise dos dados aqui apresentados.
No Quadro 11, podemos observar o Coeficiente de Contingência para as variáveis em estudo.
Quadro 11 - Estudo de associação entre as variáveis componentes
do modelo
Observamos que 31 coeficientes foram estatisticamente significativos no nível de 5%. Podemos notar que a variável drogas foi a que mais se mostrou associada às variáveis estudadas (maior número de coeficientes significativos), associando-se, mais fracamente, ao tipo de lazer do adolescente (0,34948), e mais intensamente a presença de parentes envolvidos com a criminalidade (0,70827) mensurada pela variável parente preso. Associase também claramente ao fato à questão da infração. A variável infração apresentou 8 coeficientes significativos, assim como a variável princípios éticos. Elas duas se mostram associadas com um coeficiente de contingência de 0,60471. As variáveis violência na comunidade, violência entre os irmãos e violência entre ospais foram aquelas que apresentam um menor número de coeficientes significativos, somente um para cada uma delas. Violência na comunidade se associou a condições econômicas da família (0,31515); violência entre os irmãos se associou com drogas (0,41176) e violência entre os pais com relação familiar (0,49456).