Traçando caminhos em uma sociedade violenta

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 6 de 14

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Traçando caminhos em uma sociedade violenta

3 Vivendo a adolescência

 

O adolescente pode reagir de várias maneiras, dependendo de

muitos fatores, sendo que o mais importante são seus próprios

traços de personalidade.

(Vilarreal, 1998)

Tentaremos mostrar alguns aspectos do comportamento adolescente dos entrevistados, lembrando que estão em uma fase normal de transição e conflitos, que, comumente, tendem a se estabilizar com o decorrer do desenvolvimento. Aberastury & Knobel (1981) denominam esta etapa da vida de 'síndrome normal da adolescência', com as seguintes características: busca de si mesmo e da identidade; tendência grupai; necessidade de intelectualizar e fantasiar; crises religiosas, deslocalização temporal, em que o pensamento adquire as características de pensamento primário; evolução sexual manifesta; atitude social reivindicatória com tendências anti ou a-sociais de diversas intensidades; contradições sucessivas em todas as manifestações de conduta, dominada pela ação, que constitui a forma de expressão conceituai mais típica desse período de vida; separação progressiva dos pais; constantes flutuações de humor e do estado de ânimo.

Procuraremos apresentar um pouco do universo pessoal e relacionai dos entrevistados e a forma como buscam conciliar a turbulência do próprio estado emocional, com a do ambiente social.

 

O jovem e a comunidade

Eu acho que uma pessoa crescer ali, o difícil é a pessoa ser

honesta.

(Edson)

A maioria dos jovens entrevistados nas duas cidades morava em comunidades de baixo poder aquisitivo, sabidamente com precária infra-estrutura de serviços de atendimento. Entretanto, os adolescentes infratores comentaram que estas eram bem assistidas, no que se referia a serviços de saúde, delegacia ou posto policial, escola, transporte fácil, associação de moradores, supermercados, farmácia, padaria, água, esgoto, luz e outros serviços. Quando ocorria de não existir determinado serviço no seu bairro, freqüentemente alegavam existir em local próximo, tal como Ciro: "posto policial tem no bairro vizinho, tem restaurante e condução. E só descer e lá embaixo pegar o ônibus".

Já na visão dos irmãos e primos, a percepção da comunidade foi diferenciada. Mostraram-se mais críticos sobre as necessidades do bairro: como falam Alan e Adilson, respectivamente:

posto de saúde é mesma coisa que nada. Funciona até o meio-

dia e só infantil. Se estiver passando mal, nem adianta. Ah, tem

um matadouro lá, é o [hospital] Dom Pedro II, vai pra lá e

morreu.

É mal assistida, necessitaria de um posto de saúde, uma

escola, uma área de lazer.

Demonstram, também, ter uma visão mais política da situação de carência de suas comunidades:

Tem, mas não adianta a associação de moradores lá não,

porque só sabe precisar do voto da pessoa. Pra fazer os

bagulhos pra favela, pra comunidade mesmo não faz. (Edgar)

Tem posto de saúde, mas fechou. Fechou porque é assim, é

mais briga política, quem colocou lá foi um deputado, aí o

deputado e esse tal de J.P., aí sendo que pro outro partido e o

partido tem que mandar dinheiro, assinar uns papel lá pra

mandar dinheiro, não manda. Aí fecha o posto. (Elias)

Quando questionados sobre o que gostariam de mudar em suas comunidades, a resposta mais usual foi não verem necessidade de alterações: "eu não sei como deveria ser a comunidade, eu não sei o que passa pela cabeça dos outros" (Danilo). Comportamento diferente ficou evidenciado por parte dos irmãos e primos entrevistados, que mostraram maior consciência de seus direitos, manifestos através da percepção mais aguçada sobre mudanças para a comunidade, como esclarece Ademar:

se eu pudesse, mudaria, botava escola, arrumava um lugar pra

botar um campo bem grande pra todo mundo jogar bola, mais

creche, supermercado. Que lá tem espaço pra fazer tudo isso.

A demanda por mais áreas de lazer na comunidade foi outra reivindicação destes jovens:

Lá é desanimado, não tem diversão pra gente. (Afonso)

Necessita de área de lazer, que só assim as crianças teriam

mais ocupação, em vez de ficar lá assistindo guerra deveria

estar fazendo educação física. (Adilson)

Em geral, apreciam a comunidade em que vivem, porque lá são conhecidos, aceitos e respeitados, conforme exemplifica Ricardo: "eu gosto porque eu conheço tudinho, não tem um que eu não conheço, porque eu nasci lá". Desta forma, a relação com os moradores, sejam eles traficantes ou 'bandidos', é mais apreciada do que a com os policiais, agentes externos à comunidade.

A rejeição a policiais, manifesta tanto pelos infratores quanto pelos irmãos/primos, foi claramente percebida na quase totalidade dos entrevistados, exceto os que tinham familiares policiais. Nestes casos, notaram-se maior tolerância e aceitação. Em alguns relatos de infratores com policiais na família, observou-se uma certa proteção quando do cometimento dos primeiros atos infracionais. Outro fato constatado foi um certo 'acordo' por parte dos policiais que moram nas próprias comunidades onde se verificam vários tipos de violência. Estes não denunciam os autores, embora possam prestar atendimento às vítimas. Ficam em situação delicada, já que foram - e muitas vezes ainda são - amigos dos traficantes e 'bandidos' locais.

O sentimento voltado para os policiais foi, para a maioria dos entrevistados, um só: o ódio. Episódios de violência policial foram relatados tanto por infratores como pelos irmãos e primos não-infratores:

Na favela, os moradores gostam mais da gente que da polícia,

os moradores respeitam a gente, mas se a gente não respeita

eles, eles não respeitam a gente não. Eles não têm medo da

gente. Eles viram a gente desde pequeno, lá eu não tenho

coragem de fazer nada contra ninguém que cresceu comigo,

nem com alguma senhora que me viu pequenininho. (Cleiton)

Não gosto de ficar enturmado [na rua] porque chega os policiais

cheio de gracinha. (Afonso)

Melhor ter bandido do que ter policial. Porque chega lá eles

quer esculachar os outros, quer dar tapa na cara dos outros.

(...) A minha mãe ganhou um tapa na cara (...). Os PM entra na

sua casa, tem que abrir. Tu tá dormindo, a porta esdver

encostada, eles sai empurrando, sai entrando e não quer nem

saber. Se falar alguma coisa, eles mete a porrada. Eu acho que

melhor ter vagabundo do que ter polícia. Eu, pelo menos,

detesto polícia. (...) Nunca tive problema com os traficantes.

Eles nunca se meteram comigo. Eles não se metem com

ninguém, só os PM lá que são cheio de marra, perturba pra

caramba. (Alan)

A injustiça da atuação policial, marcada pela violência, foi destacada por vários relatos, como o de Eli - que estava perto de casa, sentado no banco da praça com namorada, quando foi abordado por policiais que lhe exigiram documentos de identidade. Como tinha apenas 14 anos de idade, ainda não os havia tirado. Não houve argumento que o poupasse de sofrer a humilhação verbal pela qual passou. Relatos como este surgiram em muitos momentos da entrevista, mas especialmente quando questionávamos sobre humilhações que porventura tivessem sofrido em suas vidas. A humilhação perpetrada por policiais foi a mais apontada, tanto por infratores quanto por seus irmãos.

Um dia o policial me fez tirar a roupa de madrugada e ficou me

esculachando. (Cássio)

(...) a polícia chegou e botou a gente para fora do ônibus, eu

levantei, ele disse senta! E me deu um tapa (...) de leve, mas

todo mundo ficou olhando. (Ademar)

Ah, momento ruim a gente sempre tem mas, lembrar um aqui,

quando, quando eu fui assaltado pelos policiais, um momento

ruim. (Alan)

Além da injustiça, o que causa revolta em relação aos policiais é a corrupção - especialmente presente nos relatos dos infratores. Apenas para ilustrar estes fatos, rotineiramente mencionados, apresentam-se as seguintes falas:

Os polícia é louco para apanhar dinheiro. Pega a gente com

arma, dava dinheiro, ele soltava. (Benjamim)

Fui pego uma vez, mas toda vez que eu era pego eu conseguia

me sair pagando, o pessoal me pegava, os policiais, eu pagava

eles, eles me soltava. (Rodrigo)

Ele era sangue de verme [policial]... pra gente eles são vermes,

eles não servem pra nada, são pagos pra defender a população

e são corruptos. Todas semana vão pegar dinheiro com a

gente, cheiram cocaína mais do que a gente. São mais ladrão

do que o ladrão (...). Se eu fosse policial, seria pra matar todos

os companheiros e liberar todos os presos da cadeia. Eles são

mentirosos, roubam dinheiro da gente, eles tomam o dinheiro e

a droga. E, quando prendem a. gente, eles ficam com tudo

nosso, não entrega na delegacia. A maioria é viciada. E o

governo não vê isso. E eles não percebem que isso não

adianta, porque morre um de nós e vem mais três pra essa

vida, porque todo mundo gosta de ganhar dinheiro fácil. E dizer

que alguém confia em polícia é mentira. Eles matam também.

(Cláudio)

A percepção de violência na comunidade mostrou-se muito presente nos adolescentes do Rio de Janeiro, podendo ser sintetizada pelo comentário de Dario: "é normal, faz parte da vida do pobre."

As opiniões dos jovens se dividiram quanto à violência em suas comunidades. Entre os que a consideraram violenta, o argumento utilizado era a presença de brigas, mortes, batida policial/tiroteio, tráfico, roubo, bebida, exemplificado na fala de Brian: "era guerra todo dia dos traficantes, eu achava aquilo o máximo".

Curiosamente, muitos dos jovens que afirmavam não haver violência na comunidade reconheciam a existência dos mesmos problemas como briga, morte, batida policial/tiroteio, tráfico, mostrando a internalização e banalização da violência em suas vidas, tal qual fala Amauri, "naquele lugar todo mundo passa por isso", além de outros entrevistados:

é tranqüilo até demais. (...) Costumo ver morte de vez em

quando. (Cleiton)

o lugar onde eu moro é tranqüilo, tia. (...) Tem tráfico de drogas

na rua,... tá andando assim é revistado por polícia. (Ronaldo)

a comunidade é tranqüila, às vezes tem algo violento, mas todo

lugar é violento. (Rui)

sempre convivi com isso. (Breno)

é um bairro tranqüilo, agora é mais agitado pra quem se

envolve. (Cleiton)

É possível perceber, analisando-se estes depoimentos, que a violência está impregnada em suas vidas e que parece funcionar como princípio ordenador de suas comunidades.

A maioria dos jovens de Recife afirma não existir violência em suas comunidades. Entretanto, também relatam brigas, mortes, batidas policiais e tiroteios em seus locais de moradia:

é normal como todo bairro é. Tem pouca violência. (...) Já levei

bala no pé, levei um tiro. (Ronaldo)

é tranqüilo, é calmo... Todo lugar tem gente com arma. (Raí)

É interessante destacar que, em Recife, o tráfico não é mencionado como fenômeno presente nas comunidades.

A maioria dos jovens nasceu e viveu no próprio estado e cidade em que foram entrevistados. Entretanto, cerca de 40% deles relataram ter mudado de casa e/ou bairro, no mínimo uma e no máximo cinco vezes em suas vidas. Constatamos que muitos não mantinham residência fixa, circulando em diferentes bairros ou mesmo entre casas da mesma localidade. As razões apresentadas foram a separação dos pais, morar alternadamente com mãe, pai e avós, a fuga do tráfico (causa mais citada no Rio de Janeiro) e fuga de ameaças (principal razão em Recife).

Eu era da boca de Vigário, aí eu saí, fui morar no Andaraí, onde

eu não tenho envolvimento com nada. (Davi)

A minha mãe achou que se mudasse de lá porque, do jeito que

eles fizeram comigo, podiam fazer com meu irmão. (Raul)

Nos motivos citados por irmãos ou primos, verifica-se uma diferença marcante em relação aos adolescentes infratores, pois reduziram a importância do tráfico ou da violência e incluíram o trabalho como motivo relevante para mudarem de residência: "estou morando na Barra com a minha patroa" (Alan).

A permanência dos infratores nas ruas da comunidade por longos períodos ficou mais evidenciada do que a dos seus irmãos ou primos. Entretanto, essa permanência se dava mais pela ligação com os amigos, tema abordado mais a seguir.

Educar filhos em comunidades como as descritas por nossos entrevistados nos remete ao que Garbarino (1995) chama de ambientes "socialmente tóxicos", cujas influências afetam, certamente, a visão de mundo de todos esses jovens.

 

O jovem e a escolaridade

O nível de escolaridade dos adolescentes infratores é baixo, dois jamais freqüentaram a escola e são totalmente analfabetos (capítulo 1).

Entretanto, muitos jovens de escolaridade entre a 1ª e 2 séries do 1º grau afirmavam não saber ler e escrever, ou fazê-lo com muita dificuldade. Cerca de metade dos entrevistados tinha cursado até a 4ª série do 1º grau, no máximo, e nenhum deles chegou ao 2º grau.

Em relação aos irmãos e primos entrevistados, o nível de escolaridade também é baixo para a idade, mas melhor do que o dos infratores. Cinco haviam alcançado o 2º grau e 20 estavam entre a 5 e 8ª séries do 1º grau.

Muitos jovens infratores relataram início da vida escolar após os 10 anos de idade, devido a fatores como: a mãe fez a matrícula mas o adolescente não freqüentou, o pai ensinava em casa, a mudança de domicílio. A dificuldade de rememorar eventos da infância ficou evidente na fala de muitos jovens - como Dagmar, de 17 anos, que nunca teve vida escolar:

não cheguei nem a estudar não. Minha mãe (...) me matriculou.

Eu pedi pra ela me matricular (...). Na hora que eu ia estudar,

aconteceu esse negócio comigo. Esse problema aí [a

internação].

Pouco mais da metade dos adolescente infratores sabe ler e escrever, diferentemente dos mais de 80% dos irmãos e primos. Os problemas mais relatados dentre aqueles que relatam dificuldades são do tipo:

Sei escrever só o meu nome só. (Denilson)

Não, ler eu ainda estou assim, né, tia, meio que meio,

tonteando. Mas escrever o meu nome legal eu escrevo. (Danilo)

Não. Ler eu leio com dificuldade e escrever também (...). Sai

tudo torto, mas eu consigo escrever. (Ademar)

Mais de 70% de todos os jovens entrevistados já tinham abandonado os estudos. As principais alegações foram a necessidade de trabalhar e a dificuldade de conciliar escola e trabalho. Cassiano explica:

minha irmã falou assim: (...) eu arrumei um serviço pra você,

você quer ir?. Eu falei (...): trabalhar é bom, né, aí eu peguei e

fui. Comecei a trabalhar de caseiro (...). Não dava [para

estudar]. Eu pegava lá de 6, de 7, acho que era 6 da manha e

largava 7 horas. No colégio, eu pegava de 6 da noite, e eu

largava às 7, eu chegava em casa era 10 horas. A condução

demorava. Eu chegava 10 horas.

Um segundo motivo para o abandono escolar foi o desentendimento com professores e colegas, incluindo agressão física:

Sei lá, quando alguém me provocava (...). Inclusive unha até os

moleques grandes, porque eu era pequeno, ficavam me

provocando. Sabiam que eu ficava nervoso... Ficavam me

provocando, só pra mim brigar com eles. (...) Aí eu começava a

tacar pedra neles. Eles era maior, mas não corria não, eu

ficava. Tomava cascudo e ia pra casa chorando. (Carlos)

Só a professora. E porque ela costumava ter uma régua.

Quando a gente bagunçava, dava umas tapadas e reguadas na A dificuldade da supervisão familiar à freqüência escolar do jovem ficou evidente. Muitos relataram que passavam o dia na rua brincando, engajando-se em atividades ilícitas e entrosando-se com 'más influências', ainda que dissessem para a mãe que iam para estudar. Estas somente saberiam que seus filhos haviam abandonado a escola algum tempo depois do fato consumado.

gente. Aí eu baguncei e ela veio dar umas reguadas em mim,

eu peguei e saí correndo. (...) Aí pronto, e desse dia pra cá eu

fiquei gazeando na aula. (Rodrigo)

a professora que batia. Teve até um colégio que eu estudei aqui

que a professora enfiou a unha aqui em mim. (Adriano)

Nas atitudes das professoras de Rodrigo e Adriano - agressão em sala de aula - ficam latentes, mais uma vez, o despreparo e a deficiência da escola em atender às necessidades destes adolescentes.

Outras razões apontadas, em menor escala, foram: reprovação, o fato de não se sentirem atraídos pela escola, o envolvimento com atos infracionais, as dificuldades de aprendizagem, a instabilidade na moradia, os problemas emocionais e de saúde e a entrada para o quartel. Cabe ressaltar que estas razões, muitas vezes, aparecem mescladas com a dificuldade em conciliar trabalho e estudo, como mostra Clemer:

trabalhava, a minha mãe se mudava de lugar também. Eu tinha

que trabalhar, se eu estudasse e não trabalhasse, não comia

dentro de casa. Eu tinha que trabalhar.

Os relatos dos irmãos e primos, especialmente os mais velhos,

foram mais enfáticos ao mostrar a responsabilidade familiar que

tinham sobre si: na 5 ª série eu parei e comecei a estudar à

noite. (...) Aí começou a pesar muito, trabalhar e estudar, aí

você vai ter que escolher ou o estudo ou o trabalho. Na época,

era uma fase muito difícil que a gente estava levando, então

tinha que dar preferência ao trabalho. Aí parei, não estudei

mais. (Alberto)

eu não me lembro muito bem da minha infância não. Eu

trabalhei mais do que estudei. Eu estudei até a 7 ª série

incompleta, aliás, é, incompleta. Eu trabalhava mais do que

estudava. (Álvaro)

A repetência escolar foi regra comum entre os entrevistados, pelas mais variadas razões. Edmundo comenta:

eu já rui reprovado cinco vezes. (...) Quando era mais pequeno,

tive um problema. (...) caí dentro de uma canaleta que (...)

estava aberta ainda. (...) passei uns dois meses indo no hospital

da Restauração... fiquei repousando um ano... (...). Fiquei mais

desligado, aí ficou meio dificultoso pra eu aprender.

Observamos como regra que os jovens se culpabilizavam pelo fracasso escolar, mesmo quando questionavam certos comportamentos de professores, colegas ou as mudanças familiares. Falta de interesse, brincadeiras e dificuldades próprias foram apontadas como causas das sucessivas repetências.

Apenas 21% dos infratores entrevistados ainda estudavam no momento em que cometeram a infração. Deve-se ressaltar que, embora os irmãos e primos sejam, em média, mais velhos do que os infratores, 39% deles ainda freqüentavam a escola no momento da entrevista, reforçando a maior persistência no estudo como forma de ascender socialmente. Estes demonstraram mais clareza e discernimento quanto ao que esperam dos estudos, como fala Alencar:

uma coisa que eu pretendo fazer é nunca largar de estudar, eu

vou fazer faculdade. Se Deus quiser, eu vou fazer faculdade.

Os irmãos/primos também manifestaram mais interesse em sugerir mudanças na escola para maior benefício do aluno: necessidade de entrosamento entre a escola e a família, maior comodidade das instalações físicas, segurança, limpeza e maior qualificação dos professores.

Muita gente vai pra sala de aula pra brincar, não estuda, vai

repetindo de ano... Eles não tomam uma providência, a mãe

não sabe nada e daí por diante ele vai (...). Aí podia, assim, ter

uma orientação, os professores, todo mês, de quatro em quatro

meses, fazer uma visita em casa, na casa dos alunos pra dar

uma orientação à mãe, pra dizer a eles como que é a vida.

(Edmundo)

Devia ser uma escola que não fosse suja, que não fosse

pichada, que tivesse segurança e que tivesse merenda certa.

Precisa ter segurança porque o bairro lá é muito perigoso.

(Elton)

Devia mudar as classes porque é muito apertado, é um calor,

faz um calor enorme, a gente fica tudo invocado porque um

calor. (Edilson)

A demonstração de algum sentimento positivo em relação aos estudos se fez presente em 54 dos adolescentes entrevistados. Esse sentimento veio, muito freqüentemente, relacionado a lembranças de colegas e professores apontados como especiais e dos quais guardaram boas recordações. Poucos se referiram à escola como aprendizado:

tudo que vem da escola eu gosto, tia, estudar e aprender eu

gosto. (Clodoaldo)

eu sou uma pessoa que eu não tenho muito estudos mas eu sei

de muitas coisas. Leio vários livros, adoro ler em inglês. Eu

gosto muito de estudar. (Eli)

Entre os que não tinham boas lembranças do ensino, destacamos Afonso, que associa a escola ao sentimento de discriminação social:

às vezes (...) eu não tinha nem sapato pra ir pro colégio. Não

tinha nem sapato, sapato rasgado. Aí eu ficava pensando, olha

só, os colegas tudo rindo de mim. Eu com o sapato furado, [e] a

minha mãe sem poder assim comprar um sapato pra mim. Eu

me sentia mal, envergonhado (...) perante aos colegas (...) que

têm mais condições de ir bonitinho pro colégio (...).

A escola freqüentada pelos jovens entrevistados certamente apresenta muitos problemas, que não são alvo de interesse para este estudo. Entretanto, não podemos nos escusar de comentar sobre como ela está alienada e distante da vida de boa parte dos entrevistados, que não podem ser responsabilizados pelo grau de fracasso demonstrado. Leca (1996), estudando as carências cognitivas de delinqüentes juvenis, mostra que eles têm dificuldade

de alcançar um pensamento lógico formal adulto,18 instrumento fundamental para se socializarem, ao invés de se alienarem. Essa alienação é alimentada pela diferença cultural entre o que oferecem o meio escolar e o familiar.

A importância do fracasso escolar na vida dos entrevistados, principalmente dos infratores, deve ser vista sob diversos ângulos. Os jovens com mais problemas familiares tendem a ir mal na escola; o mau desempenho estimula a ampliação do grupo de amigos, em muitos casos, ligados ao mundo infracional, e também contribui para o sentimento de fracasso na vida e para a baixa auto-estima, importantes fatores associados à delinqüência.

 

O jovem, os amigos e o lazer

O adolescente tem necessidade de pertencer a um grupo, e o

destino dessa necessidade depende muito das possibilidades que

lhe são oferecidas pelo ambiente em que cresce, do tipo de grupos

que estão à sua disposição. Podem ser benéficas, podem ajudar o

adolescente a realizar seus anseios e aspirações ou, pelo contrário,

podem ser nefastas, um lugar onde, amparado pelo grupo, pode dar

rédea solta à sua agressividade.

(Vilarreal, 1998)

Os grupos de amigos citados pela maioria dos jovens infratores integram o mundo infracional - não necessariamente da própria comunidade em que vive o adolescente. Poucos infratores conseguem manter amigos sem qualquer envolvimento com a vida infracional e participantes de experiências de vida em comunidade. Percebe-se que, à medida que o jovem vai se envolvendo em atos infracionais, seu universo de amigos passa a ser mais restrito.

O sentido de amizade parece ser aquele de convivência cotidiana. Entre os que têm maior consideração por suas relações, percebe-se a manutenção de amizades de infância - importante referência emocional e afetiva para o jovem, como se pode perceber pela fala de Cristiano, "por causa que a gente é nascido e criado desde pequeno". Entretanto, a manutenção de amigos de infância foi pouco relatada por fatores como mudança de moradia do adolescente entrevistado ou do amigo; a eventual morte do amigo pelo envolvimento na vida infracional e pelo fato de os amigos de infância não terem se dirigido à vida do crime.

Em Recife, pode-se perceber mais claramente a definição da amizade no sentido de uma divisão entre amigos bons e ruins, em virtude da inserção no mundo infracional,

os meus amigos é muito bom, é da Invasão. Quando eu

passava... mas era tudo trabalhador e os outros tudo do prédio

era ruim. (Rai)

Alguns jovens infratores relataram desconfiança dos amigos, por vezes distinguindo-os dos parceiros do ato infracional:

Pra mim ficar comigo c parceiro, porque amigo não existe

amigo. (...) Amigo que é amigo não leva pra matar não. (Célio)

Eles são amigo só com quem a gente fica na rua. (Cristóvão)

Amigo, pra mim, é meu pai e minha mãe. (Bernardo)

(...) muitos amigos, mas não significa nada. (Bruno)

As amizades escolares não foram mencionadas, exceto por um único entrevistado, provavelmente, pelo fato de a grande maioria dos adolescentes infratores não freqüentar a escola regularmente.

O caráter efêmero deste relacionamento não passa despercebido pelos jovens, como aponta Décio: "os que estão vivos são meus amigos até hoje, são meus conhecidos até hoje".

Podem-se constatar, ainda, relatos de amizades por interesse financeiro, tema abordado por Raul:

no mundo não tem amigo não. Amigo só quando a pessoa está

com dinheiro. Eles dizem que é amigo.

Outra forma de relação por interesse foi relatada, desta vez tendo como alvo o poder, especialmente no tráfico de drogas. Assim, ao estar envolvido com pessoas do tráfico, o adolescente se atribui e lhe é atribuído um certo status. Seguindo a lógica infracional, o convívio e a relação estreita com os gerentes, por exemplo, permitem realizar uma 'carreira profissional' com mais facilidade. Há que se ressaltar que a lógica do mundo infracional, embora ilegal e inaceitável, repete os modelos da sociedade, no sentido da hierarquia de cargos a ser percorrida. Crístian comenta sobre essa hierarquia, "um é gerente do tráfico, o irmão é dono, ele é sobrinho do dono, e o outro é matador".

Já os irmãos e primos incluem como amigos jovens da comunidade, da escola, da família, da praia e da rua. A convivência comunitária parece ser mais próxima, como falam Ademir e Aloísio, respectivamente: "fiz muita amizade lá onde eu moro"; "hoje, meu melhor amigo é um garoto que estudou comigo, vai casar agora em setembro." Além disso, alguns demonstram claras relações de amizade fora do local de moradia. Em menor escala, esses jovens também valorizam a amizade da família em detrimento da dos colegas:

que eu acho mais amigo mesmo é meu pai e minha mãe, só.

Colega assim de rua assim eu não considero não. Porque o

meu pai e minha mãe estão sempre me ajudando, eles não.

(Arnaldo)

Reafirmam a noção de convivência cotidiana como o mais importante na amizade:

ando junto com ele, vou pro shopping, brinco com ele, a gente

vai pra uma praia, sair com as meninas. (Edilson)

A confiança e ajuda mútua foram observadas em alguns

relatos:

poxa, pra mim ser amigo não é ter falsidade quando está

precisando ajuda, essas coisa assim. (Arnaldo)

Também foi mencionada a amizade por interesse financeiro por parte de Afonso:

tenho os amigos verdadeiros e também, pô, tem os amigos

falsos. Amigo falso é quando a gente estamos assim na

situação ruim, sem trabalhar, não tem nenhum amigo. Aí

quando está trabalhando e com dinheiro, pô, um montão de

amigos.

A maior parte dos irmãos e primos relata que os amigos não têm qualquer envolvimento com a ilegalidade. Não utilizam drogas, não fazem parte do tráfico e nem cometem crimes:

nenhum deles tem envolvimento com crime, droga (...). Eu

conheço quem faz, mas eu não me misturo não. (Alexandre)

não, nunca teve não. O pessoal que eu ando é bem diferente,

tudo calmo igual a mim. (Eli)

Essa separação pretendida não evita que, eventualmente, sejam obrigados (embora não sem receio) a se relacionar com os infratores da comunidade, junto dos quais foram criados. Essa relação lhes é fundamental para que continuem vivendo na comunidade.

Outros jovens relatam ter amigos em ambos os universos:

Alguns amigos meus estão envolvidos, outros não estão.

(Afonso)

Um colega meu. Ele matou um rapaz aí, aí... que a galera dava

em cima dele pra deixar essas coisas, ele foi o único que não

deixou. (Edson)

Meus amigos foi tudo embora, uns morreram e outros foi-se

embora. (...) E tem um que que tá preso, mas eu não

enfrentava a dele não. (Edgar)

Alguns entrevistados mencionam que os amigos que usam drogas, ou que têm algum envolvimento infracional, já lhes propuseram tais rumos na vida, entretanto, há sempre uma recusa dessas ofertas. Eles se mostram constrangidos com a situação:

eles não usavam não, do começo, né, não usavam não, aí

agora passaram a usar. Só fumar maconha. Aí, tanto que, que

eles não são amigos que eu só considero colega, que no

começo eles me ofereceram muito, bastante. (Arnaldo)

Já, teve um que até me chamou pra, pra fumar, falei com ele

que eu não entro nessa, a minha cabeça é outra, o meu destino

não é fumar esse negócio. (Davi)

Alguns entrevistados apontam um distanciamento dos amigos de infância que se envolveram no mundo infracional. Tais amigos passam a ser considerados apenas conhecidos:

alguns estão usando muito droga, eu procurei cortar um pouco.

Falo quando eu passo, paro um pouco pra não desfazer e falar

que está ficando metido, não sei o quê. Aí eu procuro me

destacar um pouco deles. Acho é bom pra não ficar muito

visado, né.

Comparando-se os relatos dos entrevistados percebemos uma associação distinta dos grupos de jovens do Rio de Janeiro e de Recife. No Rio, a influência do tráfico predomina e os grupos formados são muito mais voltados para os interesses econômicos de cada 'boca de fumo'. Em Recife, os jovens se agregam mais em função do bairro e dos interesses comuns aos grupos de cada localidade.

Essas diferenças poderiam se incluir dentro do que Zaluar (1997:44) define como quadrilhas e 'galeras', respectivamente. Segundo a autora, "as quadrilhas são compostas por um número relativamente pequeno de pessoas que se organizam com a finalidade de desenvolver atividades ilegais para o enriquecimento de seus membros" e com hierarquia bem definida. Já as galeras se caracterizariam por serem organizações sem "chefia instituída, regras explicitadas e rituais iniciáticos, embora tenham (...) estreita relação com os bairros em que vivem". Reúnem-se muito mais para atividades recreativas.

As opções de lazer relatadas pelos entrevistados são, em sua maioria, realizadas em grupos. As mais citadas foram: baile funk, baile charme, pagode, futebol, praia, namoro, cinema (filmes de ação), pipa e shopping.

O único lazer citado por todos os entrevistados foi o futebol. DaMatta (1982) fala sobre a importância do esporte como forma de ascensão possível para o brasileiro.

o esporte fascina justamente porque veicula liberdade e

igualdade, porque tornapossível o exercício da escolha sem o

constrangimento do sistema social brasileiro, onde o lugar de

todos está pré-estabelecido - o dos pobres e o dos ricos, o

dasfamílias com nome, o dasfamílias sem nome -e os direitos

livres e iguais ainda não são plenamente reconhecidos.

O baile funk foi preferido pelos adolescentes infratores, ao passo que seus irmãos e primos alegaram gostar mais de pagode (Recife) e de baile charme (Rio de Janeiro). Alguns infratores relatam gostar de baile funk, justamente pela violência: "vale tudo, a gente entrava armado, brigando um com o outro" (Ronaldo). Outro fator observado nas entrevistas dos infratores é a reprodução da hierarquia do tráfico nesses locais: "ia todo mundo armado, eu ia com o dono e tinha segurança, uns dez cabeças armados" (Bruno).

A possibilidade de violência iminente é exatamente o que atrai os jovens infratores e afasta os seus irmãos e primos - que optam pelo pagode e pelo baile charme: "funk é só violência, não vou" (Afonso).

Aloísio relata seu conflito sobre os bailes:

eu gostava muito mais por causa da música, adoro dançar funk,

adoro música, eu parei de ir porque, pô, se esbarrar em alguém

neguinho vem me dar uma porrada; eu parei de ir. Porrada não

é nada, pior é estar armado. Porrada sara. Vou mais pra baile

assim, clube.

Os irmãos e primos também manifestaram uma preocupação em dividir seu tempo com o trabalho, estudo e lazer: "agora só saio no sábado, porque eu trabalho e estudo" (Edson); "jogo bola, vou à praia, só final de semana porque trabalho" (Arnaldo).

A importância dos bailes funk no Rio de Janeiro foi inicialmente relatada por Vianna (1988), como uma forma relevante de lazer e sociabilidade juvenil, além de representarem momentos importantes na evolução da reputação de grupos rivais. Cechetto (1997:114) afirma que alguns bailes "permitem aos jovens lutarem sem se matarem, ainda que a manutenção do prestígio interno e externo das galeras funk seja assegurada pela perpetuação dos confrontos através de um ciclo de rivalidades interminável".

Outra característica do comportamento dos jovens em grupo é o consumo de drogas. A maioria dos infratores entrevistados relata ser usuário constante de drogas e álcool. Entretanto, alguns relatam já terem interrompido o consumo: "um dia eu, sabe, pernoitado, sabe antigamente eu cheirava, agora eu não cheiro mais não" (Benedito) e outros dizem apenas terem experimentado: "não uso nenhum tipo de droga, eu já fumei uma vez, fumei maconha só uma vez" (Bartolomeu). Apenas uma pequena parte dos infratores entrevistados relata nunca ter experimentado drogas/álcool: "não sei nem o que é maconha nem o que é cocaína" (Cássio).

A faixa etária mais citada pelos infratores como de início do uso de drogas/álcool foi por volta dos 13 anos de idade.

Entre as drogas usadas e experimentadas pelos infratores do Rio de Janeiro, em ordem de freqüência, estão: maconha, cocaína, álcool, cola, haxixe e crack. Já em Recife a ordem das mais usadas é: maconha, álcool, rohipinol, cola, cocaína, crack, loló e haxixe.

Os efeitos provocados pelas drogas foram citados diversas vezes. Os infratores relataram ter sensações diferentes quando estão sob o efeito da droga: com o uso da maconha sentem fome, sono, calma e ficam distraídos; com a cocaína ficam 'espantados', violentos, ativos, nervosos e com 'sensação ruim' (principalmente quando misturam com álcool).

No Rio de Janeiro, as drogas são compradas facilmente dos traficantes. Em Recife, os jovens as adquirem de conhecidos da comunidade, sendo que um jovem disse que plantou um pé de maconha para consumo próprio.

A família é comumente citada como cerceadora do consumo de drogas pelos adolescentes, especialmente a mãe:

Pô, eu chegava em casa assim tarde. A minha mãe falava.

Minha mãe falou uma vez só comigo, eu disse assim, chega,

para mim parou. (Clodoaldo)

(...) que a gente não podia comprar na mesma favela que a

gente morava, porque aí todo mundo ia saber, a nossa mãe ia

saber, então fomos para outra favela. (Bartolomeu)

Os irmãos e primos entrevistados tinham um conhecimento reduzido sobre a utilização de drogas pelos infratores. Qualificaram este comportamento como um ato negativo, sobre o qual tentaram, quando possível, intervir: "eu fui e falei com ele pra ele parar com esse negócio e coisa e tal" (Augusto); "eu chamei, acordei ele, mostrei a ele e falei que ia jogar no sanitário" (Alessandro). Esses jovens reconheceram a influência dos colegas como a principal causa para iniciar o infrator no uso de drogas/álcool.

A maioria deles nunca experimentou e recusa-se terminantemente a ter algum contato com drogas, embora muitos tenham recebido ofertas de consumo: "a gente acabou a amizade todinho, ele queria fazer de todo jeito eu cheirasse" (Erick); "nunca na minha vida e nem quero usar" (Edilson). Outros já experimentaram, mas não se tornaram usuários:

sempre passava assim e via os colegas na rua, via fumando, né

(...). Só foi ali mesmo, sabe, porque sei lá, não gostei. Assim,

como se diz, a lombra da maconha, né, eu sei lá, não deu pra

mim.

Apenas quatro dos trinta e um primos e irmãos entrevistados afirmaram fazer uso constante das mesmas drogas utilizadas pelos infratores.

 

O jovem, as namoradas e os filhos

Todos os infratores entrevistados relataram ter ou já terem tido namorada, sendo que cinco deles já viviam com suas mulheres. Alguns deles revelam ter começado a namorar muito precocemente, como Célio, que teve sua primeira namorada aos 8 anos de idade e iniciado a vida sexual entre 10 e 13 anos. Maior quantidade de jovens define a faixa dos 14 a 15 anos de idade como o início de suas atividades sexuais. As namoradas eram colegas da rua, do colégio ou mesmo conhecidas. Todos os adolescentes entrevistados e questionados a esse respeito descreveram a relação sexual como uma experiência positiva: "me senti cheio de vida, assim alegre, muito feliz" (Ramon).

A relação com as namoradas é efêmera e o relato de gravidez foi muito comum. O número elevado de gravidez das namoradas e o de filhos nascidos evidencia, de um lado, a pouca utilização de métodos para evitar a concepção, de outro, a ausência de medidas preventivas contra a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. Em Pernambuco, 50% dos infratores vivenciaram esta situação. A maioria das garotas não chegou a ter o filho, mostrando a freqüência com que o aborto é feito por esse grupo social: "teve uma aí, uma que gosta de mim mesmo (...) que ficou grávida de mim. A mãe dela mandou ela tirar e ela tirou" (Romário).

Além do aborto, episódios de agressão física às namoradas foram relatados por vários entrevistados. Raimundo, que já engravidou duas delas, conta que bateu na coxa de uma, fazendo com que perdesse o filho que esperava. O motivo alegado por ele para a violência foi o nervosismo.

Entre os infratores que têm filhos, nenhum vive junto com eles e a mãe, tampouco registrou a criança. Denilson nos demonstra o tipo de relação normalmente estabelecida por estes jovens, ao comentar sobre a namorada: "ela estava morando lá em casa. Depois eu briguei com ela, aí ela foi embora". Benício, indagado sobre sua filha de "dois anos e pouco", da qual não sabe nem o nome, afirma: "eu fico com vontade de ver, eu não sei nem onde ela mora, não tem nem como ver."

Quase todos os adolescentes que já são pais relataram a experiência como algo positivo e apenas um a sentiu como algo difícil:

Foi uma emoção muito grande. Eu não sabia que eu tinha a

possibilidade de ter um filho. Eu fiz exame de sangue, aí deu

que o filho é meu. Aí eu acreditei. (Cláudio)

Cláudio nos traz uma questão sempre presente para os jovens, a incerteza sobre a paternidade da criança, já que as relações com as namoradas são instáveis. Os critérios são semelhança física, a opinião dos familiares ou exames laboratoriais. Muitos permanecem com dúvidas - um motivo a mais que os faz não assumirem o filho.

Percebemos, também, uma idealização sobre o próprio desempenho no papel de pai. Os adolescentes sustentam que querem o melhor para seus filhos, que se preocupam com eles: "Eu não vou querer pra eles [filhos] o que eu quero pra mim" (Cleiton); "ficava pensando...pô, o que eu fui eu não posso deixar ele ser" (Davi). Porém, na realidade, não provêm para os filhos o sustento, nem lhes dedicam tempo ou atenção constante.

O início precoce da vida sexual faz com que tenham sido grandes as queixas sobre a ausência de relações sexuais na instituição onde estão acautelados. Rui disse que não pode tocar em sua namorada no dia da visita e reivindica que, nas instituições para jovens, o pernoite das mulheres seja permitido, tal qual ocorre nos presídios de adultos.

Entre os irmãos e primos entrevistados, apenas três já conviviam com suas mulheres. Têm o mesmo comportamento dos parentes infratores no que se refere à alta rotatividade nos relacionamentos e envolvimentos paralelos. Entretanto, iniciaram-se sexualmente entre os 15 e 18 anos, um pouco mais tarde do que os infratores.

O comportamento destes jovens em relação à prevenção foi diferenciado. Alguns se preocupavam:

Eu lembro que era bem novinho, eu tinha uns 12 anos, e meu

pai me ensinou como que era, que tinha que usar preservativos,

que a AIDS é uma doença que não tem cura... Ele até alugava

fita de pornô pra ficar me ensinando como é que era (...).

Falava que eu tenho que me preservar, se a mulher vir com

essa história de não querer usar a camisinha, tem que usar.

(Ademir)

Uso [preservativol, com certeza... Não abro mão disso não. Se

um dia eu sair com uma pessoa ela disser não, não quero

isso... então, pronto, saio do quarto, não tem problema não,

descurto. (Eli)

Outros desconheciam a necessidade de se cuidarem, nunca utilizando métodos de prevenção ou utilizando às vezes, ainda que conscientes dos riscos de tal comportamento.

Não, não, é porque não é com todas que o cara usa, mas quem

eu sei o procedimento dela, aí eu vou sem camisinha, mesmo

sabendo que corre risco sem dúvida. Mas acho que é mais por

causa delas, que elas são mais experientes, né, tem mais

macete. (Elias)

Porque eu tinha certeza que essas pessoas não era de estar

com todo mundo nem ter doença assim. (Elói)

Porque não gosto, ela também não gosta, quando elas vê

assim que eu não sou um rapaz namorador, nem essas coisas,

aí eu não uso camisinha não, agora quando eu ou ela é muito

namoradeira, namora com um e com outro, mas é raro, eu

nunca usei não. (Elton)

Quase não houve relatos de gravidez interrompida, ao contrário do que se verificou entre os infratores. Seis irmãos e primos já têm filhos, o que consideram como uma experiência positiva. Alessandro assumiu a criação da filha. Fala assim desta sua relação:

ela é minha paixão (...) eu que cuidei da criança. Dou graças a

Deus, Deus me deu força, né, com a ajuda da minha família,

porque meu pai e minha mãe nunca nos abandonou.

Notamos uma planejamento diferenciado no que se refere à preparação para a constituição da vida familiar. Colocam como pré-requisitos:

Só vou ter filho quando eu tiver uma casa minha, mesmo,

própria e quando eu tiver um padrão de vida bem elevado (...).

Pra pessoa hoje em dia ter um filho tem que ter um padrão no

mínimo uns 800, 600 reais pra você dizer, está dando pra me

manter legal... Porque esse Plano Real o povo diz que é bom, é

bom pra quem tem, pra quem ganha bem, acima de mil reais...

Agora, pra pessoa que ganha salário mínimo, dois salários, hoje

sofre muito, passa fome. (Eli)

Casar, agora, não. Filho, também, agora não. Só quando eu me

firmar profissionalmente eu penso nisso. (Edson)

Pretendo, quando eu estiver com um emprego maneiro, seguro.

Pretendo ter um filho, sim. (Anderson)

Considerando a rotatividade da figura masculina nas famílias de origem de muitos dos jovens entrevistados, podemos perceber uma repetição do comportamento masculino nas novas relações dos entrevistados. Muza (1996), estudando jovens consumidores de drogas, relata a reprodução da experiência de abandono na infância ao estabelecer suas próprias relações na adolescência, pois o modelo paterno introjetado pode ser o único modelo a que o jovem teve acesso.

 

O jovem e o trabalho

Dos 92 jovens entrevistados na pesquisa, 90% já haviam trabalhado, em algum momento de suas vidas, especialmente em biscates como ajudante de pedreiro, balconista, em oficina mecânica, feira, padaria, farmácia, supermercado, banca de jornal, entre outros. Foi verificada a inserção precoce, com passagem por vários tipos de atividades, como mostra Clemer, "trabalhei de pedreiro, de eletricista, de lanternagem. Trabalhei em ótica, trabalhei entregando caminhão de areia, de tijolo".

Edilson relembra quando começou a trabalhar "desde que mainha começou a vender cinto na rua, eu tinha uns 4 ou 5 anos de idade". Para cerca de 20% dos jovens, essa inserção laborai se deu na faixa de 7 a 9 anos de idade, para poucos, inicialmente por curiosidade, como Dalton:

eu gostava, eles consertavam carro aí eu ficava só olhando, ele

foi e me chamou pra trabalhar com ele. Aí eu trabalhava ali, só

que ele não me dava nada não, e depois eu comecei a

trabalhar direito, pegava a chave certa, sabia a chave, ele me

dava um dinheiro no final de semana.

Outro motivo para o início precoce no trabalho foi a necessidade familiar, como é o caso de Benício - "trabalho desde os 9 anos, trabalhava vendendo picolé, vendia doce, depois arrumei um serviço no Califórnia, estudava de manhã e trabalhava de tarde" - e Amauri- "porque a gente precisava na época".

A necessidade de independência financeira foi outra razão, citada mais freqüentemente pelos primos e irmãos não-infratores, como Ângelo e Anderson, respectivamente:

eu queria ter o meu dinheiro sem precisar depender de

ninguém.

achava que precisava, porque quer uma roupa, quer um

calçado, quer sair, não tem dinheiro, tem que trabalhar (...). A

minha mãe não pode dar, que recebe só uma pensão só e tem

muito filho.

Dois outros jovens complementam sua independência com o

apoio à mãe:

Roupa, essas coisas a minha mãe nunca se preocupou, porque

sempre eu dava o meu jeito, né, trabalhava e comprava. Desde

pequeno eu que sempre me mantinha, né. Mas eu ajudei muito

em casa já... Ajudo bastante mesmo. (Adilson)

todo mundo trabalhava, eu trabalhava pra ajudar a minha mãe

mais um pouco, né. Na comida, uma roupa que eu comprava

pra mim. Eu sempre trabalhei desde pequeno. (Cassiano)

Apenas 13% dos jovens infratores haviam tido trabalho com carteira assinada, a metade em atividades administrativas como operador de máquina de xerox e office boy. Cinqüenta por cento dos irmãos e primos dos infratores cariocas têm atualmente trabalho oficializado, em atividades como: cabeleireiro, servente, vendedor, office boy e operador de máquina de xerox. Em Recife, predominaram os biscates em serralheria, segurança, lanternagem, pintura.

A preocupação com a qualidade do emprego mostrou-se presente, principalmente entre os irmãos e primos:

Uma coisa que me assina a carteira, está entendendo.

(Eduardo)

ele queria que eu trabalhasse por 25 reais por semana, eu digo

não quero não, melhor tá parado dentro de casa a tá

trabalhando pros outros por 25 reais, arriscando a minha vida

(...) Ele arrumou emprego de segurança de rua (...). Hoje em

dia os ladrão não querem nem considerar a pessoa, tem gente

que usa droga, quando pega um revólver quer ficar matando,

como eu vejo lá... (Edgar)

Em relação ao trabalho, os entrevistados, de modo geral, afirmaram gostar:

Me arrependo até hoje de ter abandonado esse emprego, sabe,

que era muito bom, todo mundo gostava de mim. (Décio)

Nossa! Adoro, cada dia que passa eu aprendo mais (...). O

estudo não foi muito bom pra mim não, mas, se depender de

mim e do meu trabalho, eu tenho certeza de que eu - pelo

menos eu estou tentando - eu acho que ainda vou chegar lá.

(Álvaro)

Entre os que não gostavam, as principais razões apontadas foram a má adaptação e as dificuldades inerentes ao tipo de atividade realizada, tais como falam Clemer e Cláudio: "porque eu tinha que levantar muito cedo, cinco horas, aí eu também, pra mim não dava pra levantar muito cedo, porque pela minha idade, né [12 anos]", "porque era muito peso".

Além dessas causas, os irmãos e primos complementaram com o fato de não conseguirem conciliar trabalho e estudos, citando, com mais clareza, os efeitos negativos do ingresso precoce no trabalho.

As dificuldades de ajuste ao trabalho também estiveram relacionadas aos problemas de relacionamento interpessoal.

No começo eu gostava, depois, quando eles começaram a me

massacrar (...), aí eu fui falar com ela, pra eu saber mais ou

menos onde é que ficava, pra ver se ela sabia. Ela falou comigo

cheia de ignorância. (Cristiano)

eu não me dava bem (...). Os patrão quer mandar demais,

então eu não gosto. Com o dinheiro que paga pode até mandar,

mas é que fica falando em cima, pressionando, gritando.

(Cristóvão)

Outros motivos foram citados com menor freqüência, tais como: ter sido chamado de 'viado' porque trabalhava como cabelereiro, ausência de pagamento, mudanças familiares e envolvimento com o tráfico.

Quanto à ambição profissional, observamos uma diferença fundamental entre os infratores e seus parentes. Os primeiros se mostraram mais acomodados às ocupações menos qualificadas, como Dano: eu gosto de ser pedreiro mesmo"; "pô, trabalhar em uma profissão que eu ganhe bem, trabalhar pra ficar no sofrimento (...) boy, boy é interessante". Os irmãos e primos revelaram maior interesse de ascensão profissional. Procuram um emprego com carteira assinada e que possibilite conciliar trabalho e estudos. Ademir e Alencar comentam:

Estou trabalhando demais aqui e estou vendo os meus estudos

indo pra trás, então é melhor eu sair e procurar os meus

estudos e procurar um serviço mais (...) menos horas pra

trabalhar, né, pra (...) poder estudar. (Ademir)

Eu trabalhei lá das 7 e meia às 10 da noite, quando eu não

tinha aula, aí era muito puxado, estava me prejudicando até na

escola, por causa da farmácia. (Alencar)

Embora pareça totalmente contrário ao senso comum, os jovens infratores que vivem do tráfico consideram como trabalho as atividades que desempenham. Dali se origina a própria sobrevivência, e, às vezes, a da família. O 'trabalho' no tráfico assemelha-se ao trabalho formal no que se refere a questões como compromisso, responsabilização, lugar no processo, técnicas, hierarquia e normas de ascensão profissional.

 

O jovem e o consumismo

o preço mais elevado da sociedade de consumo é o sentimento de

insegurança generalizada que ela engendra.

(Lisle, apud Baudrillard)

O apelo ao consumo que a mídia direciona ao público jovem ou teen foi estudado por Fischer (1997), que distingue a mensagem veiculada nos meios de comunicação dirigida ao adolescente 'normal' da que é direcionada ao adolescente pobre, com imagem associada à violência e à criminalidade. Essa autora constata que, por não perceberem essa forma de exclusão operada pela mídia, os jovens são atingidos da mesma maneira pelos apelos do consumo em uma sociedade desigual e excludente.

Esse fato pode ser observado ao se averiguar a principal utilização do dinheiro pelos jovens cariocas (especialmente aquele oriundo dos atos infracionais), gasto com vestuário, com roupas de marcas como Nike, Reebok, Redley, Company, Cyclone e Taco. Um

adolescente declara: "só compro roupa no Rio Sul19 (...), roupa da Cyclone, TCK e Taco" (Cláudio). Os gastos com diversão, como baile, hotel, motel, namoradas e amigos são apresentados em seguida, quando se percebe a rapidez da circulação do dinheiro adquirido por meio de atos infracionais:

Eu pago três, quatro meses de diária no hotel. (...) Todo dia a

gente come em restaurante, faz aquela reunião só de ladrão,

mas todo mundo arrumadinho, limpinho. Come só coisa boa.

(Cláudio)

A ostentação parece ser outra questão primordial que influencia nos seus gastos, como fica evidente na fala do mesmo adolescente: "a gente se veste feito doutor e chega de táxi e só entra porque o segurança conhece a gente".

Este consumismo, característica do atual movimento de globalização, estimula a inserção de jovens das favelas e das periferias no crime organizado, resultando em uma alternativa econômica de sobrevivência de extraordinária rentabilidade, a que jamais teriam acesso, de outro modo.

Já em Recife, os adolescentes colocam como primeiro canal de investimento os gastos com diversão: passear, sair, beber, ir à praia e se reunir com amigos, "dinheiro, eu roubava mais pra mim, só pra beber, farrear, ir pra baile" (Raí). Os gastos com vestuário são apresentados em segundo plano e os adolescentes não valorizam roupas de marca, principalmente em função da preocupação que têm de que suas famílias descubram o envolvimento infracional, como fala Rogério:

uma roupa assim que minha mãe não se ligasse, porque se ela

se ligasse, ela ia saber que eu tava roubando, essa coisa. Aí eu

procurava mais gastar com curtição, saía pra beber, tirava

onda.

Esta preocupação dos adolescentes pernambucanos em esconder da família seus atos também ficou evidente ao responderem sobre se cooperavam financeiramente com a família. Apenas cinco deles ajudavam em casa, porém com a preocupação de que a família não soubesse de onde vinha o dinheiro.

O comportamento dos jovens cariocas ficou dividido. Alguns disseram que auxiliavam a manter suas famílias e outros afirmaram que utilizavam o dinheiro apenas para consumo próprio. O principal argumento para não ajudarem na casa fica evidente na fala dos seguintes jovens:

Mesmo se eu for dar, a minha mãe não aceita não porque ela

sabe que é roubado. Sabe que eu não estou trabalhando.

(Ramon)

Sujo... é um dinheiro sujo, porque ali você está traficando, é

ilegal o que você está fazendo. (Bernardo)

Outra forma de gastar o dinheiro relatada por alguns infratores do Rio, especialmente os envolvidos com o tráfico de drogas, são as doações e auxílios à comunidade onde vivem, forma pela qual obtêm respeito e aceitação dos moradores e se sentem valorizados. Djair explica:

eu sou maneiro com todo mundo, ria. Tinha gente lá que não

tinha nada pra comer dentro de casa, pra mim ganhar um

dinheiro, fazia uma compra grandona e levava pra casa deles.

O consumo das drogas foi outra fonte de gastos, embora não muito valorizada pelos entrevistados.

Irmãos e primos dos infratores parecem ter uma relação diferente com o dinheiro. Metade deles investe parte do rendimento do trabalho na própria família, assim como Arnaldo - "o que eu faço na semana eu dou a metade" - e Edson - "meu irmão dá a feira, eu dou a parte da carne, verdura". Relatam, com orgulho, a possibilidade de colaborar e valorizam suas contribuições externalizando o teor positivo de determinadas experiências, "dar a casa pra minha mãe, eu me senti muito bem e orgulhoso por isso" (Alan).

Os gastos com diversão e vestuário também foram comentados por esse grupo de entrevistados, mas com uma crítica às roupas de marca, citando esse tipo de escolha como algo dispensável.

Não tenho preferência por roupa de marca, porque eu acho que

desde o momento que a gente está vestido não precisa ser de

marca. (Alencar)

Não, não. Não tem nada a ver não. Muitos aí só usa roupa de

marca. Eu uso o que eu posso. (Anderson)

Nos irmãos e primos percebemos um comportamento não verificado em seus parentes infratores: a existência de uma escala de prioridades para o gasto do dinheiro e a preocupação com o futuro. Edilson poupou seu dinheiro por longo tempo para poder sair de férias. Anderson guarda parte do seu dinheiro em banco como fator de segurança e garantia aos seus estudos:

eu boto lá, quando preciso eu vou lá e pego, pago o curso,

compro algum material pra escola. E a escola, o negócio da

escola, quem sustenta a escola, o material, tudo eu que

sustento.

Apenas um destes irmãos e primos informou gastar o dinheiro com drogas.

 

O jovem e seus planos

Você tem algum sonho? (pesquisadora)

De ser muito feliz (Cosme)

O que você precisa fazer para ser feliz? (pesquisadora)

Ah, mudar. Mudar é o meu sonho. (Cosme)

Os projetos de vida dos adolescentes entrevistados refletem a forma como interpretam o futuro, a partir dos acontecimentos do presente. O adolescente costuma ter projetos de vida ricos e abrangentes, ainda alicerçados pela fantasia. Entretanto, os jovens de baixa renda entrevistados evidenciaram aspirações restritas a um momento mais imediato e limitadas pela posição social que são obrigados a assumir desde o seu nascimento.

Constituir família e conseguir trabalho foram os principais projetos relatados. Quase todos os jovens sonham em ter sua própria família. Porém, para tanto, verbalizam a necessidade também de um emprego que garanta o sustento próprio, da esposa e dos filhos. Notamos que mesmo aqueles jovens que já geraram filhos e não os assumiram explicitam esse mesmo discurso, como se estivessem em busca de uma família idealizada.

Para os jovens infratores, o trabalho aparece como forma de amenizar os erros cometidos e de se redimirem perante a sociedade. Foram suas principais representações do trabalho - que repetem o padrão de seu meio cultural: forma de sobrevivência e de ascensão social. A maioria dos adolescentes vê o trabalho como forma de adquirir dinheiro para o seu sustento e o de sua família. Nesses casos, o sentido é de ocupação não-especializada, não havendo preocupação por nenhuma atividade específica.

Ah, qualquer um que desse pra mim ter a minha família, me

vestir bem e comer bem. (Brian)

Qualquer emprego. (Cleiton)

Uma coisa que eu achar que é fácil, que dê para mim fazer.

(Roberto)

A profissão mais comentada por aqueles que demonstram o desejo de ascensão social foi a inserção nas Forças Armadas, por sete jovens, e no futebol profissional, por outros dois. O desejo de participar das Forças Armadas pode refletir duas tendências: a necessidade de introjeção da autoridade ou o treinamento para aperfeiçoamento no crime.

Apenas três irmãos e primos dos infratores sonhavam com profissões que requerem formação de nível superior.

Eu quero ser dentista. (...) Estudar bastante. Eu posso não ser

muito inteligente, mas eu sou esforçado. (Alexandre)

Eu queria ser, meu apelido já é doutor, eu queria ser doutor. (...)

Médico. (...) Hoje em dia não sei nem ler, nem escrever, nem

nada... mas eu não tenho vergonha não, quando eu arrumo um

emprego, às vezes manda eu assinar e eu nem sei assinar.

(Edgar)

A fala de Edgar dimensiona o quanto o sonho parece estar distante da realidade concreta que o cerca.

Somente jovens do Rio mostraram o desejo de inserção nas Forças Armadas. Três dos quatro infratores com esse sonho pertenciam ao tráfico de drogas, aparentemente valorizando o manejo com as armas de fogo como interesse principal, como informa Brian:

mesmo estando envolvido, eu pretendo servir, quero servir o

quartel. (...) os caras ficam muito mais sinistro ele dá tiro à

pampa, aí a gente só dá tiro sem errar, tiro certo... Treina lá e

pratica na boca.

Outra meta foi a ascensão na vida do crime, declarada por três adolescentes inseridos no tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Esses adolescentes já desempenham funções com certo poder dentro do mundo do narcotráfico. A hierarquia que aí existe, assim como o jogo de poder, alimenta nos jovens um certo desejo de status e uma vontade de chegar ao topo, a todo custo.

Minha vida eu não mudo não. Deixa do jeito que está mesmo.

(...) O dono rodou e eu vou assumir. (Denilson)

continuar até o posto mais alto. (...) Quando chegar a ser o

dono da favela ou então responsável, gerente geral. (Brian)

Um diálogo estabelecido entre a pesquisadora e Dener ilustra a tênue ambição desses jovens, cujo sonho é chegar a ser dono do morro. Questionado sobre se tinha alguma outra expectativa responde negativamente, afinal "a melhor escola é a vida, eu já sei ler e escrever, tá bom."

Este quadro já foi analisado por Zaluar (1994:9), que comenta:

para afugentá-los do trabalho, esses jovens não contam apenas

com as dificuldades de conseguir emprego. Forma-se entre

eles, a partir de suas próprias experiências e da observação de

vida dos seus pais, uma visão negativa do trabalho, termo que

equiparam à escravidão. Escravidão é trabalhar de segunda a

segunda por irrisórios salários durante quase todo tempo em

que se está desperto. Escravidão é também submeter-se a um

patrão autoritário que humilha o trabalhador com ordens

ríspidas, que não o ouve nunca, que o vigia sempre. Sem

serem formados por escola ou religião que lhes passe uma

ética rígida de trabalho, esses jovens cedo aprendem os

valores do machismo, o que exacerba ainda mais o caráter

humilhante da submissão, negação da marca de um homem...

Seus heróis são outros. Na falta de um movimento operário

forte de onde saiam líderes trabalhadores com fama, eles se

voltam para os eternos valentes da nossa cultura popular que

desafiam, passam rasteira e se negam a esse mundo do

trabalho. Se antes, por lá, os valentes eram os simpáticos

malandros, hoje são os perigosos e armados bandidos. A

navalha foi substituída pelo "oitão" ou minimetralhadora, o leal

corpo a corpo pela tocaia traiçoeira, a lei do mais valente pela

lei do mais armado.

 

O jovem e a visão de si mesmo

De maneira geral, os jovens infratores se vêem de maneira muito positiva, considerando-se bons, justos, calmos, amigos, sinceros, legais, caseiros, bem-humorados, corretos, leais, comunicativos, humildes e pensam antes de agir. Cléber relata:

Sou um menino direito, só errei agora. Porque todo mundo tem

um erro, né... Sempre fui um menino direito e vou continuar

sendo.

Os irmãos e primos usam adjetivos um pouco diferentes, mas também positivos, ao se descreverem para as pesquisadoras: alegres, esforçados, bem-humorados, teimosos, levados, pensativos, sonhadores, compreensivos, com força de vontade, tímidos, amigos e introvertidos. Anderson se descreve:

me considero até muito calmo, muito calmo em casa, assim.

Sou meio bobo, sempre de bom humor, sempre um pouco

alegre.

Alencar também se define:

eu sou uma pessoa muito sonhadora. Eu acho que eu sou uma

pessoa assim que compreende todo mundo.

A visão positiva de si próprio foi relativizada por muitos, que têm clareza da oscilação de humor que possuem - característica própria da idade, período de mudanças e de 'turbulências', em que o adolescente está reconhecendo e redescobrindo as potencialidades, o que interfere nas suas ações e na visão que tem de si mesmo. Neste sentido, os infratores também se dizem impulsivos, agressivos, rebeldes, ruins, agitados, nervosos, violentos, explosivos, maldosos, tristes, irritados e impacientes. A maior dificuldade relatada é com o controle da agressividade. Cassiano mostra esta labilidade:

quando as pessoas tentam me irritar, eu fico fora do normal. A

pessoa me provoca muito aí não tem aquela energia de

segurar, de segurar o corpo. Desabafo, começo a discutir, então

eu fico discutindo muito. Eu até paro, aí vou pro meu canto, fico

quieto, nervoso, fico tremendo.

Carlos também manifesta essa ambigüidade, ao contar o

seguinte fato:

quando eu tô numa boa, eu sou uma pessoa superboa. Todo

mundo gosta de mim. (...) Mas, eu fico nervoso. Se você tá me

provocando, eu não tô nem aí. A partir do momento que a

senhora me encosta a mão, aí eu não me responsabilizo pelos

meus atos. Só escurece a vista.

Indagados sobre as características de que mais gostavam em si, os adolescentes infratores ressaltaram inteligência, bondade, justiça, calma, pureza, humildade, lealdade, coragem, "saber dizer não", facilidade de se comunicar e de se socializar, persistência, bom-humor e capacidade de ajudar as pessoas. De modo geral, esses adolescentes mencionaram estar satisfeitos consigo mesmos; com sua maneira de se vestir, de sorrir e outras características físicas, apontando para a presença de uma visão positiva sobre si mesmo.

Esses dados diferem dos encontrados na literatura sobre delinqüência. Entretanto, não utilizamos escala de auto-estima alguma que nos possibilitasse mensurar este atributo de personalidade de modo a compará-lo com outros estudos.

O único senão a essa visão positiva de si próprio se dá pelo reconhecimento da dificuldade em controlar os impulsos agressivos. Esses fatos nos fazem perceber que a visão da sociedade sobre o adolescente que comete infração é muito distante da que ele tem de si mesmo.

As qualidades mais valorizadas pelos irmãos e primos foram as características emocionais: ser comunicativo, alegre, bem-humorado, amigo e ajudar os outros. Há também referências, em menor proporção, a caráter, maneira de lidar com as pessoas, bondade, reconhecer os limites, saber escolher as amizades, ter vontade de viver, de ser observador, agradável, legal, honesto, ter vontade de vencer na vida, ser ingênuo, justo, receptivo, fiel e sincero. Estes jovens se descrevem assim:

Eu gosto muito, eu sou muito observador, penso duas vezes

antes de falar qualquer coisa. Eu tenho meu próprio limite, sei o

que estou fazendo, sabe, eu gosto disso. (Edson)

Eu adoro o meu jeito de pensar em vencer. (Alencar)

Ah, sou franco assim, falo mesmo, sou amigo, gosto de todo

mundo, não desejo o mal pra ninguém, quero só ver o bem de

todo mundo, ajudo todo mundo... (Ademar)

Nesse grupo, foi seguidamente ressaltada a vontade de vencer na vida, motivo pelo qual os jovens planejam o que vão realizar para melhorar suas condições de vida, priorizando os meios legais para atingir o que desejam. As características físicas também foram mencionadas, denotando também uma elevada auto-estima para o grupo como um todo.

Apenas sete infratores e um irmão relataram não ter ou não saber as características de que gostam mais em si mesmos, apontando para uma baixa auto-estima. Bruno, adolescente com parte do corpo queimado em rebelião na EJLA, comenta sobre o que gostava mais em si: "eu não gosto de nada, tia. Estou feio, queimado, não gosto nada mais em mim". Dagmar é outro jovem que pensa de forma semelhante, "gosto nada (...) eu não valho nada mesmo. Pô, nessa vida ninguém vale nada".

Questionados sobre se teriam alguma característica que desejariam modificar, a maioria dos infratores relata estar satisfeita com seu jeito de ser. Nove citaram o desejo de sair da vida infracional como aspectos que gostariam de mudar, tentando construir um novo caminho: "é, mudar, não entrar mais nessa vida, né, deixava de mão, procurar sair daqui e ir pra outro lugar, construir uma outra vida" (Rodrigo).

Alguns entrevistados afirmaram que gostariam de aprender a manter o controle das situações. Atitudes como rudeza, impulsividade, maus-tratos às pessoas foram questionadas: "às vezes eu passo por ali e xingo, fico tratando mal as pessoas, às vezes, quando eu estou nervoso aí eu não gosto não, aí depois eu paro e penso" (Clóvis).

Além das características emocionais, mencionaram o desejo de fazer alterações físicas como um tipo de cabelo ou de cor diferente. Dener e Antônio ressentem-se da cor das suas peles: "a minha cor. Todo mundo tem preconceito pelo preto, mas se eu fosse branco seria melhor" ; "preto não tem futuro". Antônio continua, "pode me zarar mas eu não sou tão preto assim. Sou um moreno escuro".

Outra forma de discriminação sentida, além da racial, foi a desigualdade social. Bartolomeu é um exemplo:

gostaria só de sair do morro mesmo. (...) Porque, pô, o morro é

o maior atraso de vida. Você sai na rua, os outros falam, pô, os

outros mora no morro, não pode se dar com as pessoas da rua.

Acha que a gente é isso ou aquilo.

Apenas dois adolescentes relataram total insatisfação consigo mesmos, a ponto de Bruno comentar: "tenho, tenho muito ódio por Deus ter me dado a vida."

As características mais freqüentes que os irmãos e primos gostariam de mudar em si mesmos também foram as de fundo emocional, valorizando, entretanto, aspectos como desconfiança, excesso de sensibilidade e de preocupação com o outro, timidez, introversão, orgulho, preguiça e relaxamento. Estas características ficam evidentes na fala dos seguintes rapazes:

Você fala uma porção de coisa e às vezes eu não, sem poder,

eu podendo, podendo dar uma resposta pra você, às vezes eu

engulo aquilo calado. Aí, às vezes, depois eu fico parado, aí fico

pensando, falo o que é isso, eu fico quieto, falou isso tudo.

(Alan)

Ser assim calmo, chorar à toa. Eu choro, choro à toa. (Amauri)

Eu sou muito bom para os outros... Tudo que me pedem eu

faço. Às vezes a gente faz papel de otário. (Alexandre)

Em menor escala, alguns jovens gostariam de modificar algumas características físicas, a situação infracional que envolve seus irmãos e de interromper o seu consumo de drogas, demostrando a sua impotência: "eu queria deixar de usar droga, mas tento deixar e não deixo não" (Edgar).

A maioria dos jovens entrevistados se considerou otimista. Os infratores assim se declararam tanto ao executarem os atos infracionais quanto na visão futura, evidenciando uma avaliação superficial das situações:

ah, eu acredito, tudo que eu faço, eu faço já pensando, né, que

vai dar tudo certo, se for já ficar com o pensamento negativo, aí

que dá errado mesmo. (Crístian)

Já os irmãos e primos têm um otimismo mais fundamentado nas próprias possibilidades, assumindo para si a responsabilidade de mudar de vida.

Não, eu sou otimismo mesmo, eu acho que tudo que eu faço

assim com o coração, com coragem, com vontade dá certo sim.

(Eli)

Sempre sou positivo, porque nós sempre tem que andar pra

frente, nunca pra trás. Porque se nós andar pra trás nós nunca

vamos recuperar um alguém. (Alessandro)

No caso de Alencar, seu desejo de ascender socialmente foi enfaticamente comentado:

a minha irmã chega às vezes de dar raiva nela, de tanto eu ficar

sonhando, vai dar certo, eu vou conseguir, eu vou conseguir, eu

vou vencer na vida, eu vou conseguir.

Relatos de pessimismo surgiram somente por parte de dez infratores. Eles argumentaram não ter esperança de melhorar e que, freqüentemente, desistem quando seus esforços são em vão ou encaram conflitos. Um dos rapazes, Cássio, classifica sua vida como total fracasso: "pra mim nunca deu certo não. Quando eu nasci não deu certo."

 

O jovem e as recordações da infância

Os bons momentos vividos pelos entrevistados referem-se, primordialmente, a situações familiares agradáveis, como: a união familiar (quando os pais viviam juntos), o nascimento de um familiar querido, a saudade de alguém que já falecera e o bom convívio. Adilson e Erick relembram, "a lembrança que eu às vezes eu paro pra pensar muito, assim, nós cinco em casa, entendeu, eu, meu pai e meus dois irmãos" ; "gosto mais de lembrar assim o momento quando eu estava com o meu pai." Estes momentos familiares também foram recordados ao citarem as datas comemorativas como Natal, Ano-Novo e aniversário, como épocas em que havia um certo ambiente de felicidade na casa, com todos reunidos e sem brigas ou discussões.

Os momentos de lazer foram a seguir citados como lembrança das boas situações vividas, especialmente pelos adolescentes de Recife, como Dionísio e Alberto:

acampava direto pra surfar. Gostava muito, ficava na ilha,

acampar, fumava maconha, ia pegar onda, surfar.

lembro que a gente ia pra praia, ia pra Quinta [da Boa Vista]20 -

há muito tempo, a gente fazia aqueles piquenique na Quinta,

levava frango, aquela farofa, era todos os irmãos lá então.

As lembranças de bons momentos vividos na escola, foi relatada por pouco jovens, em especial os irmãos e primos dos infratores:

é minha professora de português. É a única da minha infância

que eu lembro, eu gosto dela. Que era professora legal, quando

a gente fazia coisa errada, ela vinha e dava conselho pra gente,

não botava a gente de castigo. (Cristiano)

a gente lembra as coisas que nós já fizemos na escola e foram,

foram boas lembranças. (Augusto)

Outras recordações menos comuns foram as namoradas, a experiência de ser pai, o trabalho realizado e as conquistas decorrentes do dinheiro. Dener lembra seu momento feliz: "quando eu assaltei uma joalheria e pegamos muito dinheiro." Célio citou como seu momento bom: "ficava, né, com dinheiro e podia, tinha namorar também, ficava na rua, tinha liberdade".

Um vislumbre da vida difícil que muitos jovens tiveram fica evidente no fato de que doze deles não tiveram nenhum momento bom em suas vidas, alegando que não se lembravam ou nunca o tinham tido. Cléber é um desses jovens: "nunca tive nenhum dia especial, não. Sempre foi tudo a mesma coisa (...), não gosto de lembrar nada do passado". Em alguns momentos, percebemos a dificuldade de rememorar eventos passados, provavelmente situações muito dolorosas. Douglas é um destes jovens: "eu não tenho não, tia... Eu nem falo da minha mãe. Não liga pra mim, não vem nem me visitar."

Os jovens foram também indagados sobre os momentos ruins que haviam vivido. A resposta mais freqüente foi a referência à morte de pessoas queridas, especialmente familiares:

Quando a minha mãe faleceu, ela estava dentro de casa... pô,

dá vontade até de se matar. Vira e mexe eu penso no meu

irmão, na minha mãe, eu era muito ligado na minha mãe e no

meu irmão. (Davi)

foi quando o meu pai e minha mãe morreu, isto nunca vai

mudar na minha vida... eu sinto muita falta. (Alencar)

foi o dia pior da minha vida, só chegar em casa e não ver o

pai... E ruim demais a pessoa sem pai. (Edilson)

Há que se enfatizar que alguns adolescentes justificam a entrada no mundo infracional, pela experiência da perda de uma pessoa considerada muito importante em sua vida.

A segunda fonte de más lembranças foram as brigas e discussões familiares, especialmente as agressões físicas e psicológicas, a separação dos pais, a doação de um membro da família e doenças de alguém muito próximo.

Quando a minha mãe teve uma irmãzinha pequena, que eu

queria que ela tivesse, mas sendo que ela doou... Não tinha

mais condição de criar mais um na família. (Denis)

Só teve uma coisa que a minha mãe fez comigo, que eu, a

primeira coisa que ela fez quando eu cortei a minha mão. Essa

mão aqui. Ela me deu um tapa na mão quando ela estava

cortada, só essa coisa só. (Benício) Ruins é só quando

discussão, né, a gente virava e mexia, o meu pai gostava de

beber, aí ficava aquela agitação dentro de casa, todo mundo

brigava. Brigava não, discutia. (Ademar)

Em menor escala, foram relatadas doenças e acidentes pessoais, término de noivado, dificuldades econômicas da família, correr da polícia, o momento da acusação do ato infracional, tentativa de homicídio sofrida e o envolvimento com as infrações em si.

 

O jovem e as redes sociais de apoio

Na origem da delinqüência juvenil, tem sido tradicionalmente debatida a falha das instituições sociais no apoio e proteção ao jovem, que dificultariam sua entrada no mundo infracional. Elementos dessa fragilidade ficaram evidentes ao se fazerem duas perguntas para os adolescentes: em quem confiavam e quem podia ajudá-los.

A maioria dos entrevistados deposita uma grande confiança na família, especialmente nos irmãos/irmãs, os mais citados: "o meu irmão, pode confiar eu tenho mais ligação com ele" (Rafael). Pai, mãe, tio(a), avó, primo(a) e sobrinho(a) não foram tão citados: "Pra minha mãe eu não tenho segredo nenhum, tia" (Clodoaldo) ; "tem a minha avó (...) Ela é minha amiga e eu sou amigo dela" (Edmundo). É comum perceber a dificuldade dos entrevistados em conversar com os pais, preferindo outros familiares: "a minha tia não, já é mais mente aberta. Se eu tiver que conversar alguma coisa, eu converso mais com a minha tia do que com a minha mãe" (Augusto); "com a minha mãe eu não falo nada não. A minha mãe é, já vai já pra uns 52 anos, ela não, não guarda segredo não" (Anderson).

O segundo grupo merecedor da confiança dos entrevistados - muito aquém da que dispensam à família - foi o dos amigos. Benjamim e Alencar revelam as dificuldades de estabelecer relacionamentos em suas casas, ao optaram pelo apoio dos amigos:

dentro de casa não tem ninguém, mas eu fico conversando com

um vizinho.

eu confio mais neles, aqui, amigos, de um modo geral, do que

na família, morar com a família é a pior coisa que tem porque é

uma fofoca tremenda, é uma coisa que eu não gosto disso.

Sete jovens declararam desconfiança total nas pessoas

próximas:

porque nessa vida a gente tem que desconfiar de todo mundo.

Um dia são seus amigos, no outro querem te matar. (Dener)

eu não gosto de... é de mim mesmo, porque eu não gosto de

contar mesmo e nem de perguntar. E de mim mesmo. (Edgar)

O sentido de confiança evidenciado pelos entrevistados é aquele em que existe uma relação de compreensão e reciprocidade, sem discussões, mas diálogos francos e sigilosos, com um sentimento de carinho: "eu conto muito com ele, o que eu tenho vontade ou o que eu já fiz" (Ademir). As pessoas escolhidas pelos infratores têm como característica escutar e compreender os segredos dos adolescentes, até mesmo, em alguns casos, as infrações cometidas por eles. Além disso, cabe a tais pessoas orientar e dar conselhos aos adolescentes, que nem sempre são levados em consideração:

às vezes fala, quando o negócio é bom ela [irmã] vai me dar

conselho pra mim continuar fazendo. Mas quando o negócio é

ruim, ela mesmo fala: meu irmão, pára com isso, não sei o

quê... Às vezes eu escuto (...) [sempre ela], mas às vezes

quando eu estou assim com a cabeça quente, eu escuto assim

mas não, deixa esse bagulho pra lá... (Cristiano)

No que se refere à pergunta quem pode lhes ajudar, as respostas também se direcionaram, sistematicamente, às suas famílias, especialmente às mães.

A minha família só mesmo, porque a sociedade não, arrumar

um emprego vai ser difícil. (Rui)

Esse meu tio advogado e minha tia que está aí fora, e o que é,

o que é técnico em refrigeração, eles sempre dão muita força

para mim. (Elói)

é minha avó, que é a minha mãe que me cria, ela quem me deu

apoio. (Edgar)

Assim, é importante enfatizar o papel que a família desempenha para o adolescente, mesmo para aqueles que não têm um vínculo familiar preservado. Em alguns casos, embora os adolescentes acreditem no poder da família em ajudá-los, também mencionam a falta de vontade desta mesma família em auxiliá-los: "minha mãe assim, meus tios, eles podem me ajudar, tia. Eles podem, mas ele não me ajudam" (Clóvis). A segunda possível fonte de apoio a que quatorze jovens recorreram foi Deus:

a única pessoa que pode me ajudar mesmo, qualquer coisa que

pode me ajudar assim, ajudar a me tirar daqui, me ajudar a

melhorar a minha vida, ajudar um dia eu ser alguém, é Deus.

(Décio)

Foram menos citados os grupos de amigos: "a gente hoje sempre precisa de alguém pra ajudar a gente pra alguma coisa, até porque é difícil, né, a gente sozinho. Mas tem sim, tem um amigo meu." (Álvaro)

O apoio esperado da família, amigos e, em um caso, de um juiz, é, essencialmente, para conseguir um emprego ao sair da instituição de internamento:

acho que eu só ia mudar se eu tivesse emprego, tia, que aí ia

ter o meu dinheiro, não ia precisar traficar. O tempo que eu ia

ficar na favela de bobeira, ou envolvido no tráfico eu ia estar

trabalhando, só ia voltar pra casa de noite cansado pra dormir...

pra chegar no mês ter o meu dinheiro... construir uma casa,

uma família. (Brian)

Parcela significativa dos entrevistados relata não contar com ninguém para apoiá-los, acreditando apenas em si próprios, como Edson e Romário: "não. Só eu mesmo até agora. (...) daí pra frente é só comigo, agora é estudar pra conseguir notas boas e aprender"; "alguém, só quem pode ajudar, só eu mesmo, só eu." Raimundo, um jovem de 15 anos, após refletir um bom tempo, disse que apenas um filho (idealizado) poderia ajudá-lo: "ele [um filho] é uma pessoa que me ajuda e eu vou ter a ajuda dele (...), estabilidade. A responsabilidade do cara vem".

Analisando-se os relatos apresentados, conclui-se que a única rede de apoio que ainda dá suporte aos infratores e seus irmãos ou primos é a família, já tão fragilizada. Essa vulnerabilidade faz com que a capacidade real de atuação familiar, em favor dos jovens, seja extremamente relativa.

Em nenhum relato foi comentada alguma instituição da comunidade, como a escola ou mesmo a própria Vara da Infância e Juventude como podendo lhes facilitar a inserção no mercado de trabalho ou a readaptação em suas comunidades de origem, no caso dos infratores. Isso denota a pouca presença, a inoperância e o distanciamento destas instituições na vida dos entrevistados; o desconhecimento dos jovens quanto às possibilidades e potencial de ajuda, bem como a descrença nas ditas instituições sociais de apoio e ajuda.

 

O jovem e a religiosidade

Os dados referentes à inserção religiosa dos entrevistados e de suas famílias mostraram-se díspares. Enquanto se observou o maciço pertencimento de suas famílias a igrejas evangélicas -

especialmente à Igreja Universal do Reino de Deus21 -, a maioria dos jovens não tem religião. Além da adesão às confissões evangélicas, aparecem a seguir a crença no catolicismo, seguida pela prática de religiões afro-brasileiras e budismo, citadas pelos jovens sobre suas famílias. Essas distintas opções de práticas religiosas agravam ainda mais os atritos entre pais e filhos, já comuns em lares com adolescentes pelos mais variados motivos e relatados por Aberastury & Knobel (1992) como lutas e rebeliões externas do adolescente, que "não são mais do que reflexos dos conflitos de dependência infantil que intimamente ainda persistem".

A contradição de muitos adolescentes que não têm religião com as escolhas de seus familiares pode ser vista nas seguintes falas:

A minha avó me levava, sendo que o dia que eu não queria ir

ela me levava do mesmo jeito. Aí agora eu não gosto mais... Aí

agora eu detesto. (Breno)

Eu ia sempre lá em Botafogo, eu ia na Igreja Universal com a

minha mãe dia de domingo, mas eu nem gostava de ir na igreja

toda sexta, sábado e domingo (...). Também não gosto dessa

Igreja Universal não... Muito chata, só vive falando no demônio,

só vive falando, gosto de escutar um culto jovem. (Dionísio)

A religião traz um modo de conhecer e explicar o mundo, de construir um cotidiano de existência, ou simplesmente de superar (ou suportar) o cotidiano associando-o à esperança. Esta necessidade de conforto se magnífica nas famílias dos jovens entrevistados, em sua maioria de baixa renda, chefiadas por mulheres e com sérias dificuldades econômicas. Macedo (1989:15) reconhece a importância da religião, especialmente em situações de crise, ao afirmar: "em qualquer sociedade, a religião define um modo de ser no mundo em que transparece a busca de um sentido para a existência. Nos momentos em que a vida mais parece ameaçada, o apelo religioso se torna mais forte."

A influência que os jovens entrevistados tiveram, especialmente da Igreja Universal do Reino de Deus, nos ajuda a compreender um pouco da visão de mundo e práticas que possuem. Estas igrejas estimulam os fiéis a se afastarem das coisas do mundo, adotando um estilo de vida baseado na sobriedade, na ascese moral e corporal. Além disto, valorizam "a luta mítica entre Deus e Diabo, na qual esta igreja se inclui (...) para a realização de seu objetivo de extermínio, no mundo, do Diabo e de todos os seus agentes" (Guimarães, 1997:13).

Esta rigidez de pensamento e atitudes se manifestou em atos radicais, como os mencionados a seguir:

Eu tava lá na casa dela, aí ela entrou pra igreja e falou que ia

expulsar todos os demônios da casa dela. Aí teve um dia que

eu cheguei com o olho meio vermelho em casa e ela começou

a me esculachar e me botou pra fora de casa. Eu tinha até

saído dessa vida. Eu perguntei duas vezes pra ela se era isso

que ela queria, e saí com a roupa do corpo, fui chorando pela

rua. Nunca pensei que a minha mãe fosse fazer isso comigo.

(Cláudio)

ultimamente ela [avó] tem ido nessa Igreja Universal... sempre

passa na televisão assim, que é muita situação financeira, ter

que dar dinheiro, eles vão pedindo dinheiro assim: quem dá mil,

quem dá quinhentos...é assim que eles pedem, aí eu não gosto,

eu não tenho nada contra a minha avó ir, só que ultimamente

ela está dando muito dinheiro à igreja, muito dinheiro... Ela

pegou o salário dela e do meu avô, aí teve uma campanha lá do

tudo ou nada... e deu tudo... Minha avó tudo bem, ela dá porque

ela vai... a força dela é a fé dela. O que eu achei mais errado foi

o meu avô ter dado o salário dele todinho - ele nem vai na

igreja. (Alencar)

Foi relatada a tentativa de mudar a conduta do filho através de orações e do exorcismo dos supostos demônios que o habitam e que causam suas ações transgressoras. Ângelo fala sobre sua mãe: "ela é trabalhadora, cuida legal de nós". Logo a seguir, questionado se ela era carinhosa com ele, afirma: "ela até era, mas depois que ela virou crente, eu não sei o que aconteceu com ela. (...) tudo que ela diz é que a gente tá com o diabo no corpo". Essa responsabilização do demônio poderia contribuir para aliviar a família de sentimento de culpa por suas possíveis falhas, tirando do filho a responsabilidade por suas ações e protegendo sua imagem. Mariz (1997:47) escreve, nesta linha de pensamento,

para os pentecostais, somente Deus e o demônio podem agir

neste mundo. Isto não significa que o sobrenatural esteja

menos presente no cotidiano pentecostal. Vara compensar,

tanto Deus como o Diabo são bastante ativos. Ambos podem

estar tão próximos das pessoas que, por vezes, tomam o seu

corpo e agem em seu lugar. Tanto um fiel pode receber o

Espírito Santo como um pecador pode ser possuído pelo diabo.

Tanto é o diabo que causa as doenças, conflitos, desemprego,

alcoolismo, leva ao roubo ou a qualquer crime, como são Jesus

e o Espírito Santo que curam, acalmam, dão saúde, dão

prosperidade material e libertam do vicio e do pecado. Nesta

visão se nega, por um lado, a ação de outros seres espirituais,

por outro, a responsabilidade humana e, conseqüentemente, as

origens do mal e do bem.

A introjeção da figura do mal mostrou-se presente em algumas falas, como Cléber, que reage ao falar de sua mãe, da seguinte forma: "eu falei, então vou deixar ela [irmã] dormir essa noite que eu estou com o diabo no corpo. Aí ela: então eu vou tirar o diabo de cima de você; foi, pegou um pedaço de pau e começou a me bater".

Paralelamente ao elevado número de entrevistados sem religião, a figura de Deus apareceu de forma significativa, não diferindo se infrator ou não, se natural do Rio de Janeiro ou de Recife.

A visão de Deus como Pai foi verificada na maioria dos casos: " Ah, Deus é o Pai, o Criador. Só ele dá a vida, só ele tira. Tenho muita fé nele" (Bartolomeu); "Deus pra mim é como Pai" (Cristiano). É importante notar essa analogia de Deus à figura do pai, pois boa parte dos entrevistados não conviveram com seus genitores. Depositam na imagem de Deus algo que no seu cotidiano parece distante. Outras visões de Deus foram citadas: "Deus é tudo... é quem nos dá a vida" (Djalma); "pra mim é o meu melhor amigo" (Carlos).

Segundo Aberastury & Knobel (1992), são comuns na adolescências as crises religiosas, que podem ir desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso. Os jovens entrevistados, mesmo que não pratiquem religião alguma, mostram-se tomados por uma religiosidade oriunda de suas famílias e do meio em que vivem, exibindo uma grande variedade de posicionamentos religiosos e mudanças freqüentes.

O sincretismo religioso no País se mostrou evidente na fala de 15 infratores ligados ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro, que

acreditam e pedem proteção ao Zé Pilintra, 22 figura oriunda dos cultos afro-brasileiros. Este fenômeno já foi anteriormente relatado por Zaluar (1985:45), que apontou uma relação de cumplicidade entre entidade e infrator:

Os bandidos assumidos, que carregam arma na cintura e vivem

do rendoso comércio de drogas, andam-se. Formam quadrilhas,

armam-se e devotam-se aos exus que os protegem. Seus

patuás são carregados ao pescoço, mas não são sempre

identificados com o Diabo. Mane Galinha, famoso bandido de

cidade de Deus, era devoto de Maria Padilha, mulher de Exu.

Mas a devoção lhe impunha respeito: não usar o seu patuá

parafazer sexo, por exemplo.

Na definição de Crístian, pode-se perceber a apropriação que fez do mito: "Zé Pilintra ele é um espírito de uma pessoa que já foi traficante, antes quando ele era de carne igual a gente. Ele chega no centro, ele fala igual a malandro com a gente."

Já Alkimin (1992:3) define esta entidade da seguinte forma:

quando vivente, andando por este mundo, seu Zé Pilintrafora

malandro, jogador inveterado, defensor das prostitutas, amado

por todos que o conheciam. Sempre bem vestido a casimira ou

linho branco, chapéu panamá na cabeça, sapato de cromo e

gravata vermelha de sedapura, seu Zé Pilintra não levava

desaforopra casa. Falecido e envolto em muitas histórias,

atinge oplano espiritual e se manifesta quando é solicitado para

continuar uma missão.

A identificação do jovem do tráfico e a reinterpretação que faz da história do mito é realizada, segundo Trindade (1982:30), "através de suas experiências sociais. Ele reconstrói os elementos extraídos do candomblé utilizando os modelos fornecidos pela sociedade. Projeta, nessa interpretação, a posição social que ocupa na sociedade."

A identificação de Cláudio com o "santo maligno, Seu Zé Malandrinho, Seu Zé Pilintra" fica evidente na sua fala: "são santos que não ficam do lado de Deus", denotando novamente a influência pentecostal de uma terra dividida em domínios de Deus e do diabo. Cláudio prossegue falando sobre o assunto,

a música do Zé Pilintra já diz tudo. Eu só sei um pedacinho que

fala assim: quem é aquele homem de branco, que vem pela rua

de boteco em boteco, bebendo cachaça e caindo na rua. Ele é

Seu Zé Pilintra. Aí ele fala que matou pai, mãe e matou filha e

saiu pela linha... a gente segue o caminho dele mesmo, de ser

uma pessoa má. Eles dão coragem, ele e seu Tranca Rua, de

agir.

O contato dos jovens do tráfico com essa entidade se faz por meio de oferendas e objetos para lhes trazerem sorte (guias personificadas em cordão, anel, figa, pedra). As guias têm a função primordial de proteção, como fala Cláudio, "se fosse acontecer alguma coisa de mal comigo, ela estourava primeiro. Ela estourou uma vez comigo, quer dizer, já arrebentou mais de uma vez".

As oferendas que dedicam à entidade são bebidas, drogas, o sacrifício e a morte dos inimigos:

pro seu Zé, seu Zé a gente sempre lá no morro lá, tinha vez que

ele incorporava lá (...). Aí ele ia cheirava com a gente, bebia

cachaça dele com a gente, tudo no corpo de um cara lá...Eu

pedia proteção e ele falava que não ia acontecer nada de ruim

comigo. Então foi quando aconteceu esse negócio de homicídio

comigo, ele até me orientou: vão te chamar pra roubar antes do

carnaval mas você não vai não, não vai roubar com ninguém

não. Mas nesse dia eu tava muito cheirado tinha bebido muito

também e esqueci do que ele falou, aí eu saí pra roubar e

aconteceu. (Dionísio)

Eu tenho sete homicídios...eu falei que ia matar sete pessoas,

eu ofereci (...) Ao Seu Zé. (Cláudio)

Augraus (1989:9) analisa detidamente essa entidade e conclui:

é precisamente na crença da desonestidade generalizada, tão

arraigada na sociedade brasileira, queparecefundar-se a

necessidade de contar, em negócios de amor e dinheiro, com

um intercessor do calibre de Zé Pilintra. É assumidamente

ladrão, trapaceiro e marginal. E por isso que ele é confiável.

Situa-se de imediato nos interstícios do poder institucional. Sua

lei é driblar a lã.

O conteúdo deste capítulo mostrou que, em muitas questões, os infratores se diferenciam de seus irmãos/primos. Este último grupo mostrou que seus amigos são freqüentemente de fora do universo infracional, não utilizam drogas rotineiramente, têm maior noção dos seus direitos e visão mais crítica da comunidade, mais responsabilidade familiar. Muitos freqüentam a escola, têm atividades de lazer mais diversificadas, almejam ir mais longe profissionalmente e relatam um futuro mais ambicioso. Este perfil diferenciado começa a compor um quadro mais definido destes dois grupos.

18 Não pelo fato de serem infratores juvenis, mas por não terem recebido os estímulos adequados às respectivas fases cognitivas.

19 Shopping na Zona Sul do Rio de Janeiro.

20 Parque no Rio de Janeiro.

21 A primeira igreja pentecostal que chegou ao Brasil foi a Assembléia de Deus, em 1910. Desde então, o pentecostalismo tornou-se múltiplo e variado em sua forma. As igrejas surgidas depois da década de 70 são chamadas neopentecostais. Dão forte ênfase à cura divina, ao exorcismo c a falar línguas estranhas. É nesse grupo que se inclui a Igreja Universal do Reino de Deus (Rolim, 1994).

22 Pouco se sabe sobre a história desse mito. No escasso material sobre o assunto existem várias versões a respeito do 'Seu Zé', muitas delas contraditórias. Parece que a própria informação ao seu respeito traz características de sua personalidade. Zé Pilintra, rei da malandragem, como é conhecido, parecia viver nos limites do lícito e do ilícito. Contam que nasceu no povoado de Bodocó, sertão pernambucano, próximo à cidadezinha que leva o nome de Exu, a qual, segundo o próprio Zé Pilintra quando se manifesta, foi batizada com esse nome cm sua homenagem, já que sua família era daquela região antes mesmo de haver cidade. Todos que conhecem ou ouviram falar do Zé Pilintra concordam ao menos cm um ponto: ele era um pernambucano que 'não levava desaforo para casa', freqüentava os cabarés da cidade, defendia as prostitutas, gostava de música, fumava cigarro de boa qualidade e apreciava a bebida. Pelintra significa pilantra, malandro, janota, características que 'Seu Zé' esbanjava com maestria. Apesar das informações a seu respeito serem escassas e de fontes por vezes pouco seguras, o seu envolvimento em ações transgressoras e a sua vida polêmica se faz presente em todos os escritos. É sinônimo de desonesto, trapaceiro, sagaz.