Traçando caminhos em uma sociedade violenta
2 Crescendo em meio às dificuldades: o jovem e sua família
2 Crescendo em meio às dificuldades:
o jovem e sua família
A influência da familía na origem da delinqüência tem sido tradicionalmente enfocada sob dois aspectos: a estrutura familiar e a natureza das relações familiares. A maioria das análises tradicionais se fundamenta nos papéis tradicionais de pai e mãe, em uma época em que esse padrão familiar está se modificando. Contudo, não podemos ignorar a influência que a família recebe da comunidade, das relações de trabalho e do controle do Estado. Além disso, devemos atentar para a existência de especificidades decorrentes da hegemonia cultural, lembrando que o construto-padrão mais aceito pela sociedade é o da classe média. Infelizmente não há referências às famílias de classes populares que não sejam estigmatizadoras, sendo essas comumente denominadas desestruturadas ou desajustadas. Um pouco dessa complexidade é o que tentamos apresentar a seguir.
Estrutura familiar
Eu acho que todos esses problemas são conseqüência de um mau
planejamento [dos pais], não tinha assim uma boa base estruturada,
entende?
(Cícero)
A maioria dos lares dos jovens em estudo é composta por pais separados, com apenas 21% dos infratores e 32% dos irmãos e primos vivendo em lares com ambos os pais. O perfil mais típico é o da presença da mãe ou outra figura feminina criando os jovens entrevistados. Cerca de 60% dos entrevistados vivem em famílias com mais de três filhos, em que a mãe se desdobra para educar e cuidar de todos. Além do trabalho caseiro, freqüentemente essas mulheres trabalham fora e não possuem nenhum recurso adequado para cuidar dessas crianças na sua ausência. Isso certamente repercute na qualidade da atenção e do cuidado que podem dispensar aos filhos. As crianças costumam ficar sob a atenção de outros, e em alguns casos, de si próprias.
Os motivos relatados para a marcante ausência do pai nestas histórias foram principalmente o abandono da família e a morte.
Mãe eu tenho, pai não. Meu pai eu não conheci, não. (Crísrian)
Meu pai morreu eu tinha um ano. (Dener)
Vivo só com a minha mãe. O meu pai morreu de tiro,
assassinado, ele era policial. (Anderson)
Observamos que os irmãos e primos conviveram mais com seus pais, talvez por serem um pouco mais velhos do que os infratores, tendo, portanto, um tempo maior de experiência antes do afastamento ou da morte do pai - por homicídios, acidentes, AIDS e outras doenças. Alguns desses irmãos e primos revelaram que precisaram auxiliar no sustento da casa ou no cuidado aos irmãos mais novos, por causa de afastamento do pai (em alguns casos mesmo com sua presença, devido às precárias condições familiares), o que certamente contribuiu para que tivessem uma estrutura emocional distinta, tema abordado no capítulo 6. Notamos que, em Recife, era mais comum as famílias apresentarem a presença de pai e mãe do que no Rio de Janeiro. Esta estruturação familiar se manifestou nas falas carinhosas e nas mais freqüentes visitas familiares ao presídio daquela primeira cidade.
Em alguns casos, os filhos ficaram sob a responsabilidade do pai. As razões foram: mortes por câncer, parto ou suicídio e abandono à família. Houve casos em que a mãe deixou as crianças com avós ou filhos mais velhos, para morar com outro companheiro, mantendo ainda vínculo afetivo com os filhos por meio de visitas, mesmo que esparsas. Encontramos, ainda, duas famílias em que pai e mãe haviam morrido. As vivências de abandono e rejeição das figuras materna e paterna ficaram flagrantes em muitos depoimentos, em geral relatados com muito sofrimento e tristeza, mas também encobertos por uma máscara de frieza, indiferença ou incômodo em relação ao tema.
Alguns adolescentes demonstraram uma revolta considerável pelo fato de perderem mãe ou pai e estabeleceram uma relação entre esse fato e o seu envolvimento com a delinqüência. Davi é um desses jovens. Relatou que perdeu a mãe aos seis anos de idade e devido a esse fato, seu irmão decidiu, mais tarde, entrar para o tráfico, vindo a morrer nessa atividade. Revoltado, Davi resolveu seguir o caminho do irmão:
Ele [pai] falava, chamava o meu irmão, conversava com o meu
irmão. Mas o meu irmão, parece que ficou desnorteado quando
a minha mãe morreu também. (...) desde pequeno, ele só
falava: 'acho que mataram a minha mãe, vou ter que entrar pro
tráfico mesmo. Vou pro tráfico'.
Outro jovem começou a se envolver em atos delinqüentes
quando o pai teve um acidente vascular cerebral. Ele interpreta
o ocorrido como uma injustiça e a maneira de extravasar sua
revolta se envolvendo com infratores e praticando infrações.
Perguntado se mantinha relacionamento com os pais,
respondeu: "separei depois que meu pai teve derrame... Aí... eu
virei a cabeça". (Carlos)
A presença de padrastos foi mais relatada do que a de madrastas. Isso reflete o maior convívio com a mãe, que freqüentemente conseguia outro parceiro após a separação do pai. Benedito comenta: "antes do meu pai tinha aqueles pais, poxa, daqueles pais dos meus irmãos todos". Algumas famílias passam a ter filhos de vários pais, ocorrendo situações como a relatada por Cássio: "eu tinha um pai que era meu, mas só que não era meu pai, não. O meu pai é, é outro, fui conhecer agora, tem um ano e tal".
O precário convívio com os pais justifica porque quase não foi mencionada a existência de madrastas. Quando estas existem, o relacionamento é, em geral, distanciado.
Há muitos relatos de pessoas fora da família nuclear vivendo no mesmo lar dos jovens. São avós, tios, primos, madrinha, filhos adotivos e até amigos considerados como familiares. Em geral, essas pessoas ajudam a mãe a cuidar dos filhos e também participam das despesas da casa. Nem sempre todos moram juntos. Alguns dividem um terreno, onde cada um tem seu espaço próprio ou através de extensões da casa principal.
Schoemaker (1996), analisando pesquisas sobre a influência da estrutura familiar como fator de importância para estimular a prática da delinqüência, conclui que existe uma relação, embora não seja universal nem particularmente forte. Apesar disto, tem sido um dos aspectos mais investigados até o momento (Hawkins, 1996), mesmo no Brasil. Em Florianópolis (SC); Werner (1993) efetuou um estudo com "menores" carentes em que afirma que as taxas de divórcio dos pais estão diretamente correlacionadas às taxas de homicídios. Os argumentos que reforçam sua tese são: as mães que criam seus filhos sozinhas são forçadas a trabalhar fora para o sustento da casa. Logo, têm menos tempo para vigiar a prole, ficando os jovens sujeitos às influências da comunidade, muitas vezes desorganizada e violenta. O autor afirma também que a desagregação familiar é responsável por problemas psicológicos que levam à delinqüência, por falta de carinho e atenção, por se sentirem rejeitados ou conflitos quanto à identidade sexual.
Os autores que desenvolvem esta linha de pesquisa não se detêm sobre alguns aspectos. Primeiro, nas classes populares, não há, freqüentemente, divórcio, mas dissoluções do casamento; segundo, as comunidades e as famílias de baixa renda não são necessariamente desestruturadas e desorganizadas, mas têm uma organização diferenciada; terceiro, que não é possível pensar a estrutura familiar como fato isolado da relação estabelecida entre os familiares. Por esses motivos, a ênfase dessas idéias tem perdido força, restringindose a uma posição secundária e dependente de outros fatores na cadeia causal da delinqüência.
Condição socioeconômica da família
A maioria dos entrevistados pertence à classe popular, dispõe de parcos recursos financeiros. Suas ocupações são em trabalho não-especialzado, de baixa remuneração. Entretanto, as famílias se distinguiram quanto ao grau de carência familiar.
Encontramos relatos de jovens que comprovavam a precariedade extrema das condições familiares. Citamos, como exemplo, um entrevistado que sempre dormiu na mesma cama (de solteiro) junto com seu irmão adulto, porque não havia outro local disponível no domicílio. Outro adolescente relatou que vivia com parceira e o filho em um cubículo insalubre e sem alimento suficiente. Esses jovens vivenciaram precariedade socieconômica familiar quando crianças ou adolescentes mais jovens, estiveram submetidos à falta de comida e passaram por dificuldades para suprir as necessidades básicas da família. Afonso, dizendo-se envergonhado pelo que estava falando, revelou: "nunca teve uma festa, nem um bolinho tivemos. (...) às vezes não tinha o que comer, a gente passava fome". Essas evidências ficaram mais claras nas falas dos irmãos mais velhos, que consideram ter havido uma melhora na família pelo aumento da renda com o próprio trabalho.
Mas esses relatos não foram regra geral. Constatamos a vivência de muitas famílias pobres, de modesta condição, que afirmavam que o dinheiro não era suficiente para satisfazer o desejo de consumo do adolescente, mas que alimento não faltava em suas casas.
Três jovens infratores eram provenientes de famílias de classe média no Rio de Janeiro e possuíam bens materiais distintos dos demais, como melhores condições de moradia, carro, seguro saúde, televisão, videocassete, aparelho de som, além de renda de imóvel alugado.
Quanto às condições de moradia, 83% dos jovens moravam em casa própria (76% infratores e 89% irmãos/primos). Entretanto, estas, na maioria dos casos, localizam-se em áreas menos privilegiadas da cidade, como favelas e bairros pobres. Descrevem suas casas como sendo de tijolo (algumas pintadas, outras somente emboçadas, outras sem emboço), de madeira corrida ou pedaços de tábua. Esse dado não deve causar estranheza, porque os mais pobres, em geral, ainda que em habitações precárias, buscam conseguir a propriedade, por absoluta impossibilidade de pagar aluguel.
Em nove famílias, o pai aparece como único provedor financeiro, trabalhando como feirante, segurança, cobrador de ônibus, lanterneiro, vendedor, pedreiro, motorista, comerciante, encarregado, padeiro, pintor ou já aposentado. Em outras famílias, é auxiliado com algum tipo de apoio material por parte da(o) avó(ô). Sua escolaridade, não muito conhecida pelos filhos, é geralmente muito baixa: apenas sete tinham escolaridade igual ou superior ao segundo grau.
A mãe é a única provedora do lar em oito domicílios, desempenhando as atividades de doméstica, faxineira, manicure, cozinheira, dona de salão e comerciaria. Também foram mencionados lares em que a mulher contava com a ajuda de uma pessoa da família - a avó, o avô ou algum exmarido. A escolaridade delas é ainda mais precária do que a dos pais.
Em apenas dez famílias ambos os responsáveis (pai/padrasto e mãe) cooperavam financeiramente na manutenção do domicílio, o que certamente facilitava a sobrevivência familiar, no que se refere às necessidades básicas, não significando que sobrasse dinheiro para os bens de consumo sonhados pelo adolescente.
Em 26 famílias, os filhos trabalhavam, contribuindo para a sobrevivência familiar e individual. Estes eram os jovens que conseguiam suprir algumas de suas ambições de consumo. As ocupações mais relatadas pelos filhos foram: encarregado de fábrica de cerâmica, dono de firma de conserto de fotocopiadoras, servente de pedreiro, enfermeira, aposentado, babá, pedreiro, operária, eletricista, empregada doméstica, mensageiro de hotel e artesão.
Foram citadas, com freqüência, as trocas de emprego e de ocupação dos familiares, assim como períodos em que há falta de trabalho e remuneração. Este quadro certamente influencia o clima emocional familiar, potencialmente propiciando insegurança, frustração familiar e aumentando a possibilidade de fracasso no desempenho de papéis esperados (Muza, 1996).
O jovem: do nascimento à infância
O conhecimento dos jovens sobre o período pré e perinatal foi muito restrito. Mesmo quando o jovem conseguia informar algo sobre as condições da gestação, de seu nascimento e da sua amamentação, os dados fornecidos eram incompletos e, às vezes, duvidosos. A resposta mais ouvida era: "ela [màej nunca falou nada disso comigo" (Clodoaldo). A informação sobre amamentação foi mais facilmente lembrada pelos entrevistados. Fala Cassio: "mamei no peito da minha irmã. Ela tinha um filho da mesma idade que eu agora".
Quatro jovens relataram problemas na gravidez ou no parto. Destes, Dionísio e Clóvis contam episódios de violência:
diz ela que meu pai batia muito nela...Então a coisa não era
boa, não. (...) Passei da hora de nascer, estava lá quase
morrendo já (...).
ela falou que estava me esperando, (...) ela tomou um chute na
barriga.
Há, também, três relatos de tentativas de aborto:
Eu fiquei sabendo pela minha avó que a minha mãe não queria
que eu nascesse. Ela tomou muito remédio para eu não nascer
(...) ela contou que minha mãe foi na macumba (...) e ele falou:
olha, você pode tomar tudo, até veneno para se matar, aí vai
matar a criança também. Mas tudo que você pensar em tomar
para matar essa criança não vai matar, porque ele vai nascer.
(Alencar)
Tomou remédio para me matar (...). Ela não me deu de mamar
nenhum. (Erick)
Onze jovens contaram que nasceram com dificuldades, seja por prematuridade, problemas no parto ou da própria criança:
quando eu nasci, minha mãe dizia que eu não ia ter vida, dizia
que eu não ia viver muito. (Roberto)
tive problema de perna. Nasci com as duas pernas tortas assim,
sabe, pra dentro. (Dionísio)
Houve apenas três casos em que os jovens informaram que a sua gestação foi planejada e desejada:
Eu sou o filho que ela mais queria ter. (Carlos)
ela disse que o presente maior do mundo (...) foi quando soube
que estava grávida. E, quando ela soube que era homem, ela
ficou mais contente ainda. (Edmundo)
Observando-se a lógica comum do discurso destes rapazes, depreendese que questões como gravidez e parto não são assuntos freqüentemente abordados nesta população. Acreditamos que a dificuldade dessas mães em falar sobre gravidez e amamentação com os filhos do sexo masculino refletem uma postura machista da sociedade, que restringe esses temas ao universo feminino.
Tentar identificar o período pré e perinatal como crucial para entender as origens da violência tem sido uma atividade pouco explorada, embora alguns autores (Chamberlain, 1995; Feijó, 1996) acreditem que haja evidência de que os bebês sejam capazes de sentir atos violentos tanto antes como depois do nascimento. Verny (1995:79) salienta que o primeiro momento em que o ser humano experimenta sentimentos de amor, rejeição, ansiedade e tristeza e a primeira oportunidade que tem de aprender sobre as pessoas e o mundo é a fase pré-natal: "no momento em que somos concebidos, nós começamos a nos desenvolver física e mentalmente e somos afetados física e mentalmente pelo nosso ambiente". Um dos estudos realizados que associam os problemas pré-natais com a delinqüência é o de Raine et al. (1994). Eles demonstram que a rejeição materna precoce junto com complicações de parto predispõem a criança à prática de crime na idade da adolescência. Raine (1993) encontra evidências para classificar o comportamento criminoso como uma desordem clínica, resultante de problemas estruturais e metabólicos na área pré-frontal do cérebro, assim como de outras disfunções e danos cerebrais. O autor argumenta, ainda, que cérebros mal construídos seriam desenvolvidos sob condições adversas durante a gravidez.
Violência muito precoce na infância pode, segundo Perry (1995), provocar alterações cerebrais. Ele aponta para uma combinação maligna para o cérebro, quando se unem agressão física e negligência. Se a criança sofre agressão e negligência ainda intra-útero ou no período pré-natal, o impacto se dá diretamente na
formação de determinada região do cérebro, 15 resultando em sintomas de ansiedade. Do pré-natal até os primeiros cinco anos de
vida, o impacto é sobre outra área cerebral, 16 resultando em sintomas agressivos e impulsivos. Trauma e negligência durante a infância podem, ainda, impactar a área subcortical e o sistema límbico, resultando em indivíduos distímicos, deprimidos e incapazes de se ligar afetivamente a outras pessoas. Finalmente, experiências mais no final da infância podem alterar o desenvolvimento cognitivo resultando em comportamentos que predisponham à violência.
Essas teorias foram, inicialmente, utilizadas como suportes para considerar alguns comportamentos humanos de mais difícil aceitação social como quadros patológicos, excluindo-se das análises toda a participação do meio ambiente sobre o indivíduo. Os neurologistas têm desenvolvido linhas de pesquisa para estudar a influência do meio na formação orgânica humana. Entretanto, ainda estão longe de alcançarem este objetivo.
A estabilidade nos cuidados durante a infância está relacionada à atenção constante, especialmente nas fases iniciais do desenvolvimento, por parte de pelo menos um provedor. Esse adulto deve propiciar a proteção e a segurança da criança. A estabilidade se distingue da qualidade do cuidado oferecido, que se refere à capacidade de o filho encontrar afeto, interesse e consideração em seus pais, ou pelo menos em um dos pais ou de outro provedor substituto.
Estudos têm demonstrado que muitos diferentes tipos de cuidado são efetivos, desde que estáveis. O pior cenário é quando a criança muda de provedor para provedor, ou é enviada para abrigos ou asilos (Rutter, 1989).
Observamos que somente 11, entre os 61 infratores entrevistados, foram cuidados pela mãe desde bebê, mostrando que a maioria não usufruiu dessa proteção a maior parte do tempo. O principal motivo observado foi o trabalho das mães fora de casa, o que levava a deixarem seus filhos com parentes (avós, tias, pai ou filhos mais velhos). Outra razão alegada foi o novo casamento da mãe e a entrega dos filhos para serem criados por avós ou mesmo pelo marido.
Vinte e um adolescentes foram cuidados pela avó ou tia, que, em muitos casos, se tornaram mais queridas do que as próprias mães: "Só com a minha avó mesmo. A minha avó não deixava ninguém ficar comigo" (Djair).
Outros 12 jovens ficavam com a(os) irmã(os) mais velha(os), enquanto a mãe saía para trabalhar: "que as minhas irmãs falavam, quando a minha mãe saía, elas ficava tomando conta de mim" (Dorival). A diferença de idade dos entrevistados para esses irmãos mais velhos nem sempre era suficiente para garantir a segurança. Poucos adolescentes foram deixados em creche ou com alguma pessoa fora da família.
Quanto aos irmãos e primos dos infratores do Rio de Janeiro, mais da metade recebeu atenção da mãe, e em Recife, da avó. Alguns ficavam com os irmãos (mais velhos ou não) enquanto a mãe e/ou o pai trabalhavam: "Quando a minha mãe começou a trabalhar, a gente já estava no Jardim. Do Jardim a gente ficava, às vezes, um tempo sozinho, porque tinha o meu irmão mais velho, ficava sozinho em casa nós três" (Adilson). Um adolescente foi cuidado pelo pai, após a mãe tê-los abandonado.
Percebemos, no relato dos infratores, maior freqüência de falas referindo-se à falha no cuidado das mães e dos pais a seus filhos durante os primeiros anos de suas vidas, por terem de dividir seu tempo por uma prole grande, por precisarem trabalhar e não poderem contar com suportes comunitários que os auxiliassem na tarefa de educar os filhos. Boa parte dessas dificuldades era suprida pelas avós, que se responsabilizavam pelas crianças quando as mães saíam para trabalhar fora. Houve casos de mães que deixaram seus filhos aos cuidados da avó, do pai ou até de filhos mais velhos, em função de irem morar com outro companheiro, o que ocasionou profunda mágoa nos jovens que vivenciaram tal experiência. Dener, ao ser perguntado sobre como se sente em relação à mãe, responde: "revolta por ela não ter cuidado da gente".
Por outro lado, nas entrevistas dos não-infratores, depreende-se um maior cuidado de suas mães com eles. Isto talvez possa ser compreendido pelos diferentes núcleos familiares dos primos e pela idade mais elevada de alguns irmãos, que, sendo mais velhos, puderam usufruir mais da companhia da mãe antes que o pai saísse de casa e ela tivesse necessidade de começar a trabalhar.
O papel crucial da mãe na fase inicial da criação dos filhos acaba pesando excessivamente sobre essas mulheres, pois a elas cabem a manutenção e a sobrevivência de sua família.
O jovem e o relacionamento familiar É preciso ver as mudanças e as crises da adolescência em conjunto
com as crises das unidades familiares às quais eles pertencem.
(Vilarreal, 1998)
As formas como se dão as relações intra-familiares têm sido consideradas fundamentais para a compreensão da ocorrência da delinqüência juvenil por muitos pesquisadores (Klein et al., 1997; Clark & Shields, 1997; Sokol-Katz et al., 1997; Fergusson & Linskey, 1996). Schoemaker (1996) comenta que "a natureza das interações existentes entre pais e filhos e a atmosfera geral dentro da família, intacta ou separada, têm sido consistentemente relacionadas à delinqüência", pois aos pais cabe o papel preponderante da educação dos filhos, a orientação para o desenvolvimento de suas potencialidades e para o convívio social, promovendo o crescimento sadio, a conquista de maturidade e a autonomia dos filhos (Mielnik, 1993).
O pai tem papel fundamental e complementar na educação da criança e do adolescente. A mãe é a figura básica e essencial, não só na concepção, mas em todo o processo de desenvolvimento e educação da criança. Seu relacionamento com o filho tem início desde a gravidez, continuando por toda a vida. O pai, por sua vez, desempenha um papel igualmente importante, não só como provedor material, mas principalmente por representar aspectos sociais relevantes para a formação de seu filho. Ele transmite à criança a idéia de segurança, proteção e um afeto distinto daquele advindo da mãe. O pai que demonstra carinho, compreensão e tranqüilidade influi no equilíbrio e saúde da criança, desde a concepção. Além disso, fornece o apoio e o suporte de que a mãe necessita para desempenhar seu papel.
Em ensaio recente sobre a figura do pai na sociedade atual, Muza (1996) afirma que, quando este não impõe limites e é ausente no estabelecimento de ordem e de conduta moral, pode provocar, no filho, os sentimentos de abandono, rejeição e solidão. Vilarreal (1998) defende que problemas graves com a autoridade paterna podem ser deslocados para atitudes violentas contra a sociedade em geral e podem dar origem a condutas anti-sociais e violentas.
Coesão, adaptabilidade e comunicabilidade são condições determinantes para a qualidade das relações familiares. A estruturação da família influencia os comportamentos interpessoais do adolescente, fazendo com que ele tenda a replicar os padrões familiares nas relações com os companheiros.
Em nossa pesquisa, percebemos uma rede de problemas de relações interpessoais, de comunicação entre os pais, destes com seus filhos e da família em geral. O primeiro aspecto que nos chama a atenção é o fato de os adolescentes, principalmente os infratores, terem demonstrado uma certa dificuldade em falar sobre seus sentimentos, sobre a maneira como os membros da família se relacionam entre si e como eles se relacionam com a família. Muitas vezes usavam apenas monossílabos ou poucas palavras para responder a tais perguntas.
Alguns jovens conseguiram elaborar mais suas respostas, fazendo verdadeiros relatos de suas histórias. Porém, grande parte não conseguiu fornecer mais do que fragmentos e, até, por vezes, não conseguiu fornecer qualquer resposta. Entendemos que este fato se deva à baixa escolaridade destes jovens, mas, especialmente, à dificuldade que têm em lidar com as questões afetivas e emocionais.
Os problemas nas relações familiares se mostraram agravados pelas precárias condições socieconômicas, na expressão de alguns jovens. Adilson, filho de pai alcoolista e agressivo, fala sobre sua família: "tenho muita pena dos meus pais, principalmente da minha mãe, também (...) tudo que ela tem somos nós (...) pena por eles não terem nada, entendeu? Não serem felizes".
Houve um caso em que o adolescente se recusou, em certo ponto da entrevista, a responder sobre sua família: "se quiser perguntar sobre mim (...). Eu não quero falar sobre a minha família, não" (Dener). Este jovem não tem qualquer laço com a família. Mora em casas de pessoas ligadas ao tráfico e não manifestou qualquer desejo de voltar a contatar seus parentes. Deixou transparecer, entretanto, uma certa mágoa em virtude de sua família não procurá-lo na instituição e não querer saber dele, indicando uma mútua relação de rejeição e sentimentos contraditórios, que vão do desejo de rompimento total à vontade de ser reconhecido.
A inserção desses jovens na infração agrava ainda mais a crise na unidade familiar, pelas condições socieconômicas relatadas. Os conflitos típicos da adolescência encontram-se magnificados, dificultando a relação do adolescente com seus familiares. A união do infrator com grupos considerados perigosos, por um lado, e o uso de arma, por outro, levam a que a família sinta um certo temor em pressioná-lo, temendo sua reação. Isso também serve para reforçar a noção de poder que o infrator sente sobre o mundo e sobre sua família. Essa delicada relação familiar vivenciada pelos entrevistados está descrita a seguir.
O relacionamento com a mãe foi relatado de forma afetiva, demonstrando ser o mais apreciado pelos entrevistados. Setenta e dois por cento dos jovens consideraram ter um bom relacionamento com elas:
Amo demais a minha mãe. Sinto tudo por ela. Dou minha vida
por ela. (Clodoaldo)
Sempre ia ver a minha mãe, todo dia... eu não consigo ficar
sem ver a minha mãe, senão eu fico triste. (Décio)
Ela é legal. Quando tem que dar dura dá, né, porque, poxa, não
é possível uma pessoa só ser legal e não dar aquela dura de
vez em quando. Mas ela é bastante legal. (Arnaldo)
Defendem a mãe no relacionamento com o pai ou padrasto. A mãe é tida como paciente, disciplinadora e conselheira: instrui para que o jovem não entre, ou então, saia da vida do crime, para que ele não use drogas e não se envolva com 'más companhias'. Benedito diz: "ela conversa legal com a gente, dá muito conselho mesmo, muito conselho".
E aquela que protege o jovem do mundo exterior, como pontua Aloísio: "a primeira vez que eu saí e voltei sozinho, eu tinha 16 anos. A minha mãe foi assim, protetora" e que por ele sofreu muitas privações, como salienta Alan: "eu acho que a minha mãe é uma supermãe, sabe (...), só de pensar que ela lutou pra caramba pra criar a gente". É, portanto, valorizada pelo filho como aquela que deu tudo para ele, que se sacrificou e o criou sozinha. Mesmo as mães que não trabalham, ou que tiveram ajuda do pai ou do padrasto, são vistas como a provedora em um sentido mais amplo, como aquela que dá afeto, que dá estrutura à família, que zela pelos filhos. É também uma espécie de freio no envolvimento com o crime, ou de constante referência ao certo e errado. E aquela que denuncia (seja explicitamente, seja por uma postura implícita, que foi introjetada pelo jovem) o caminho que o filho infrator "escolheu" para sua vida. Zaluar (1994:82) comenta a influência das mães sobre os filhos infratores: "a descoberta que a mãe pode fazer da origem do dinheiro trazido para casa, a vergonha e preocupação subseqüentes, o sofrimento que ela tem quando o filho está preso são parte de um discurso moral e sentimental que fala das raízes para deixar a vida do crime".
Sete jovens consideraram o relacionamento com a genitora insatisfatório. Anderson diz não ter nenhuma lembrança carinhosa da mãe, que não é de "agradar assim meu filhinho, fofinho da mãe, não é assim não". Outro jovem, Brian, criado pela avó - a mãe distribuiu os filhos por não poder cuidar de todos -, conta as suas dificuldades: "a relação com a minha mãe é boa, mas não é muito não, porque eu ainda precisava do apoio dela, que ela nunca criou a gente. Eu não sei nem o que é ter uma família".
Cinco entrevistados revelaram ter um mau relacionamento com a mãe: "Eu não gosto dela... Ela nem liga pra mim... desde que eu era pequeno" (Douglas).
Treze entrevistados haviam perdido a mãe por morte ou abandono. As lembranças mais dolorosas foram dos jovens cujas mães morreram. Alencar é um rapaz que tem como modelo para sua vida os ensinamentos da mãe:
meu pai descobriu que estava [com AIDS] e a minha mãe
também. O médico perguntou a ela o que ela ia fazer da vida
daquele momento pra frente. Ela falou que ia tocar a vida pra
frente e ia incentivar os filhos a conversar. E foi o que ela fez.
Ronaldo foi outro adolescente que se mobilizou emocionalmente ao contar o sofrimento que passou durante o câncer que matou sua mãe e a falta que ela lhe faz.
A visão que alguns jovens têm de suas genitoras nos pareceu muito idealizada. Antônio é um jovem que passou por vários núcleos familiares: pai, irmã e internato. Inicialmente relatou uma boa relação com a mãe - que foi morar na Alemanha, mas duas vezes o visitou e trouxe presentes. Depois deixou entrever a mágoa que sente pelo afastamento e por lhe ter dito que ele parecia um mendigo, criticando seu modo de vestir.
Afonso é outro exemplo. Teve, repentinamente, de assumir a casa e os irmãos mais novos porque a mãe foi morar na casa de outro companheiro. Consegue perceber o sofrimento que a mãe passou para criá-los e por isso a ama tanto. Apesar de tudo, fala emocionado: "eu gosto muito da minha mãe. A minha mãe, quando saiu assim de casa, eu fiquei assim, desanimado (...) sozinho assim, pô, largado no mundo".
Os entrevistados acharam normal as mães lhes baterem, negando, em sua maioria, a ocorrência de agressão física por elas perpetrada. Em geral, a pesquisadora precisava perguntar como a mãe agia se o adolescente fizesse alguma coisa errada. A resposta mais ouvida era que ela dava "uns tapinhas", mas, conforme diz Clemer: "tapa de mãe não dói, não". Esta estratégia educativa é plenamente reconhecida pelos jovens, sendo inúmeros os relatos que a evidenciam.
Uma mãe batendo como qualquer mãe bate no filho quando é
seu. (Augusto)
Ela batia de correia, de cinto (...) mas batia quando eu estava
muito errado. (Dionísio)
dava umas cocinhas, mas dava pra agüentar. Nunca espancou
aquele espancamento de filho não. Só umas palmadas, umas
chineladas assim, umas cintadas, mas não era de deixar marca
assim não. (Décio)
Foram menos comuns os relatos de outra estratégia educativa além da surra. Romário e Aloísio são exemplos: "a senhora pode até achar que é mentira, nunca apanhei não"; "o castigo que ela me dava assim, eu acho que era ficar dentro de casa, não ir pra rua". Almir define a mãe como rigorosa e firme, "ensina educação sem dar medo".
Os limites aceitáveis foram descritos por Alencar:
minha mãe sempre bateu na gente (...). Ela sempre foi o tipo de
pessoa que sabia bater, só batia nas pernas e na bunda só. Ela
nunca pegava a gente para espancar, bater a cabeça, jogar
contra a parede, nunca. Ela sempre usava chinelo. (...) Eu
lembro uma vez que ela usou fio porque a gente era muito
levado.
A mãe foi a principal pessoa a bater nos entrevistados, provavelmente por permanecer mais tempo junto dos filhos, ao longo do crescimento. Alguns relatos mostraram mães que se utilizavam de agressão física severa. Mesmo assim, alguns adolescentes ainda se julgavam merecedores da violência:
(...) me batia de cabo de vassoura, com aquele cinto, aqueles
fios de rádio. Já chegou até uma vez a quebrar um prato na
minha cabeça. (Crístian)
Ela bateu muito, ela bateu até com cabo de vassoura assim,
quebrou.. .Ela não chega e procura explicação, não. Ela chega
e vai logo espancando... O negócio dela é cipó, um pedaço de
pau, chinelo, murro. Ela não dá tapa, ela dá murro. (Erick)
Quando eu estava na rua e ficava até meia-noite na rua, ela
deixa, aí de manhã, ela me acordava me batendo. (Cosme)
Elói conta que sua mãe só lhe batia de chinelo, quando estava com a "cabeça quente". Mais adiante na entrevista, contou um episódio diferente em que ficou com o braço todo inchado e dolorido: "ela bateu muito, ela bateu até com o cabo de vassoura, assim quebrou".
No que se refere ao relacionamento com as madrastas, presentes na vida de 21% dos jovens infratores e de 7% dos irmãos e primos, a relação mais evidenciada foi a de que não têm boa convivência, seja pelo distanciamento, seja pelas implicâncias ou pelas agressões: "Não se dou muito não, porque eu não gosto dela. Ela é muito chata" (Bartolomeu).
A visão dos jovens sobre o relacionamento com o pai evidenciou que estes consideram uma relação como positiva e boa quando o pai não demonstra violência, ou, se o faz, é para orientar o filho sobre o que é certo e o que é errado. Também consideram positivamente aquele pai fisicamente presente, que demonstra interesse e ajuda a mãe na educação e criação dos filhos.
Do total de 92 jovens entrevistados, 37 já não tinham contato com o pai, que havia morrido, sumido ou aparecia esporadicamente em suas vidas. Afonso, refletindo sobre o desaparecimento de seu pai, conclui que foi melhor ele ter ido embora quando era ainda criança, senão cresceria com raiva. Recorda-se de que o pai batia tanto nele com borrachas, que costumava se urinar.
O pai de Elói foi embora quando ele ainda era bebê. Aos sete anos de idade foi apresentado a ele, na casa da avó. O jovem conta o encontro: "a única vez que eu vi ele, ele me bateu, parece, porque eu derrubei a colher com o leite". Perguntado como se havia sentido naquele momento, afirmou, com os olhos marejados:
triste, né, pra quem nunca tinha visto o pai e, pela primeira vez
que vê, é agredido. Aquilo foi muito doloroso pra mim, mas já
passou.
Dentre os 55 jovens que ainda têm contato com o pai, muitos classificaram a relação como boa:
(...) adoro, amo demais meu pai... (Clodoaldo)
(...) ele é amoroso comigo. Ele gosta de me dar conselho pra
sair dessa vida. (Claudio)
Alguns dos que alegavam boa relação faziam, a seguir, algumas ressalvas:
Se dar bem eu se dou, mas não sou muito chegado com o meu
pai não. (...) meu pai é cheio de gracinha com os outros, cheio
de briga. Aí não se dou muito bem com ele não. (Dalton)
O meu pai é meio tranqüilo. Ele era meio nervoso por uns
tempos, só isso. Ele é nervoso, ignorante. Eu me dou bem com
ele. Já que ele vai me enervar fico igual a ele. (Clodoaldo)
Os motivos mais relatados por aqueles que têm problemas com o pai foram dificuldade no diálogo, preferência por outro filho, bebida e as agressões verbais e físicas do pai.
Meu sangue não combina com o dele. (Dalton)
Só bebendo, não para de beber, arrumando confusão. (Adriano)
Ele ficava xingando e falando que não gostava de mim. Eu
falava que não gostava dele também (...). Ele fala que eu não
presto, que eu sou insignificante. (Dario)
Com o meu pai eu não se dou bem, não (...) batia em mim e
nos meus irmãos. Ele chegava em casa bêbado querendo bater
na gente. (Denilson)
Não era muito boa [a relação com o pai] assim, está
melhorando, antes não tinha diálogo com ele, não conversava
muito comigo, eu não dava atenção a ele. Já briguei com ele e
tudo. (Bernardo)
O problema da bebida do pai foi muitas vezes relatado pelos entrevistados. Clodoaldo iniciou a entrevista falando sobre o pai:
a gente se dá bem, sabe, mas, pô, de vez em quando ele bebe.
Tirando a bebida, ele, pô, é um pai bom.
Comentando sobre os momentos em que o pai está bêbado, quebra objetos na casa e agride a todos, física e emocionalmente, deixa entrever o grande conflito em que vive:
ele dá soco na gente, mas eu sou mais forte que ele, ele é
magro. Eu só seguro ele, nem encosto a mão nele.
Perguntado se, nesse momento, sentia vontade de revidar,
responde:
dá vontade. Mas aí eu lembro que pô, sofreu muito por mim no
passado. Eu deixo ele bater, eu deixo, me arrebento.
O pai foi citado em segundo lugar como figura punitiva na família, especialmente pelos irmãos e primos dos infratores, que comentaram com mais detalhes situações ocorridas nas famílias, muitas vezes negadas ou minimizadas pelos infratores. O que distinguiu fundamentalmente a agressão do pai em relação à perpetrada pela mãe foi a intensidade, constatada em dados retirados do prontuário institucional de um interno: "o pai apertou os testículos de Cícero até o mesmo ficar sem fôlego e já o havia acertado, jogando nele um espremedor de frutas".
Trinta e três entrevistados relataram ter padrasto. Doze informam bom relacionamento, como Célio: "É que (...) como se fosse o meu pai". Alguns jovens mostram relações um pouco delicadas:
é bem, mas às vezes a gente briga por coisinha que não vale a
pena brigar. Não é aquela briga de cair na porrada. E
discussão...a gente discute agora, daqui a três segundos a
gente já está brincando (Cristiano).
Os entrevistados que não se dão bem com o padrasto citam, como principais motivos, bebida, agressões físicas e emocionais, o ciúme da mãe e o fato de que estes não os consideram como filhos.
E outra pessoa que eu sou doido pra matar. (Bruno)
Ah, não sei. Ele é muito chato. Se eu pudesse matar, eu
matava. (Bernardo)
Ela [mãe] traiu ele [pai]; ela convive com esse homem até hoje.
Aí eu não me dou com ele por causa disso. (Erick)
Ficava querendo me bater ele, poxa, ficava querendo me bater
só por causa que ele mesmo não era meu pai. (Benedito)
Meu padrasto não gosta muito da gente não. Quer dizer, (...)
nunca tive uma ajuda dele, assim dinheiro, nem um realzinho
assim para nada, nunca tive dele não. Até chegar perto dele,
ele distanciava. (Clóvis)
Não foram poucos os jovens que expulsaram o padrasto de casa e o ameaçaram de morte, como é o exemplo de Cosme, que obrigou a mãe a escolher entre o companheiro e o filho.
O relacionamento entre irmãos foi citado como bom pela maioria dos entrevistados. Percebemos um relacionamento melhor com a irmã/irmão mais velha(o) que cuidou deles e lhes serve de conselheira(o): "minha irmã é muito difícil mesmo da gente brigar. Aquela ali, por ela eu boto a minha mão no fogo por qualquer coisa" (Cristiano). Em relação à irmã mais nova, as opiniões se dividiram: alguns - como Rodrigo - argumentam que "ela é muito grossa, ignorante" e outros nutrem sentimento de proteção. Há também alguns casos de ciúmes entre irmãos, devido à preferência dos pais por outro filho: "Eu acho que eles preferem mais ela... Ah, não sei, ciúme... Eles compram troços pra ela e não compram pra mim" (Cléber).
Alguns entrevistados disseram que se relacionam bem com uns irmãos e mal com outros:
A minha irmã é a pior de todos, sabe. A gente não se dá muito
bem com ela. Se dá pouco. Agora eu se dou melhor com meu
irmão. (Eduardo)
Quando ele saía pra jogar bola, ele não queria me levar, não.
Eu começava a brigar com ele... Eu comecei a andar com uns
moleques lá, aí começamos a roubar, aí ele parou de me bater.
Falei que no dia que ele me encostasse a mão, eu dava um tiro
nele. (Dalton)
Entre os que se relacionam por meio de socos e agressões, temos o caso de Bruno - que conta que a irmã que cuidava dele "tinha a mania de ficar prendendo o meu dedo na porta, me dar choque quando eu estava dormindo" - e o de alguns jovens com familiares também envolvidos em atos infracionais.
A entrada no mundo infracional é um momento crítico na vida familiar. Muitos episódios de violência entre irmãos foram relatados neste período. Benjamim estava em atrito com o irmão mais velho desde que começou a se envolver com tráfico de drogas. Um dia, proibiu a mulher do irmão de entrar em sua casa e bateu nela. Tal evento foi o suficiente para que seu irmão o espancasse a ponto de precisar ser internado em um hospital. Amauri conta sua atitude quando o irmão começou a traficar:
a gente brigava muito, eu batia muito nele. Uma vez eu corri
atrás dele com um pedaço de pau, pô, eu bati à pampa.
Depois continua:
a gente briga um pouquinho mas se damos bem à pampa.
Alberto é um dos irmãos que criou Cássio, adolescente envolvido com o tráfico e dependente de drogas, já tendo roubado dinheiro da família para manter seu consumo. Alberto conta um momento em que os irmãos mais velhos chamaram Cássio e tiveram com ele o seguinte diálogo:
se for pra continuar nessa vida, então não vai morar mais com a
gente, você procura o seu caminho (...) porque aqui você sabe
que a nossa não é essa.
O relacionamento conjugal dos pais foi um tema que não se apresentou homogêneo, como era de se esperar. Há menção à agressão física ou emocional em alguns casos. Existe um universo diferenciado entre aqueles que não relatam agressão. Carlos está dentre aqueles que tiveram uma família tranqüila:
era bom, superbom. Minha mãe saía pra pescar com a gente.
Saíamos todos juntos. A gente brincava. Era superbom com
todos os filhos.
Danilo tem uma família com conflito diferente, de ordem
emocional:
meu pai sempre chega [dizendo]: Ah! Que a culpa é sua, que
não sei o quê'. Minha mãe sempre tem que ficar escutando o
que ela não quer escutar. Ter que ficar escutando desaforo do
meu pai.
Já Almir compara a relação atual dos pais com a passada:
estão se dando bem. De vez em quando, tem discussão, mas
não é igual a antigamente. Discussão normal de casal. Mas
estão todos dois lá, tudo bem.
Quando falou sobre o comportamento de antigamente, Almir referia-se à agressão física de seu pai à sua mãe - muito freqüente nas famílias dos entrevistados e motivo para muitas das separações conjugais. Benjamim e Danilo ilustram, com seus comentários, essa afirmativa:
meu pai bate na minha mãe. Fica dando murro, pontapé, eu
pego ele.
meu pai não respeita minha mãe... (...) Espancou minha mãe;
ela ficou com amnésia. Foi pro hospital.
Os pais separados, em sua maioria, não se dão bem e não mantêm contato entre si, agravando o afastamento do pai com o filho, como explica Dario: "antigamente ele ia lá em casa. Agora ele está morando com a família dele".
Com relação à convivência da mãe ou do pai com outro(a) companheiro (a), a opinião de muitos entrevistados é de que a nova relação é melhor, como fala Dagmar:
meu pai batia muito nela. Brigava muito com ela (...) aí, o meu
padrasto não briga com ela, não. Ele trata melhor. Ele é legal
pra gente.
Esses dados nos fazem supor que a troca de companheiros, tão comum nas famílias entrevistadas, não se deve apenas ao abandono dos homens, mas também a uma busca de novas relações em que a violência não seja a prática dominante.
O relacionamento com a família estendida foi mais comentado pelos irmãos/primos do que pelos infratores, que pareceram mais distanciados. A família da mãe mantém contato mais próximo do que a do pai, em função do mau relacionamento com este ou de seu falecimento.
O tipo de interação com a família do pai mais comentada é semelhante ao relatado por Anderson:
uma vez na vida ou outra [os visita]; só quando é final de ano
mesmo (...) A minha mãe fala que eles maltratavam muito ela.
Que quando a gente vai lá, a gente é bem tratado. Porque vim
procurar a gente, eles não vêm. Quando a gente vai lá, eles
representa uma coisa. A minha mãe fala outra.
Houve quatro casos em que os jovens dizem ter mais relacionamento com a família do pai do que com a da mãe.
Fato interessante foi a freqüência bem maior de irmãos e primos que afirmaram se relacionar bem com a família do pai e da mãe. Isto indica maior proximidade e interesse dos não-infratores em se envolver com a família e o distanciamento mais freqüente dos infratores de seus parentes, principalmente tios e a família paterna.
A relação mais próxima com as avós, muitas vezes responsáveis por sua criação, também foi constatada nos não-infratores. A maior parte diz se dar bem com pelo menos um dos avós (paterno ou materno), quando não com os dois. Alguns não conheceram os avós do lado materno ou paterno, mas isto é compensado pelo cuidado dos avós que conheceram e com quem conviveram. Alguns têm preferência por este(a) ou aquele(a) avô/avó. Apenas um adolescente demonstrou não gostar dos avós de ambas as partes, dizendo: "muito enjoados eles ... Fala demais" (André).
Cristiano narra um momento em que saiu em defesa de sua avó, no dia em que ela se recusou a auxiliar um filho que vivia à sua custa:
ele falou que ia acertar a minha avó pra pegar o dinheiro dela.
Aí eu fui e falei que eu ia matar ele, ele nunca mais voltou lá. Eu
falei que, se ele fizesse alguma coisa com a minha avó, eu ia
matar ele.
Edgar é outro jovem que conta sobre a difícil relação que teve com um tio:
ele é o filho da minha avó que me criou. Fazia eu de escravo,
sofria muito dentro daquela casa (...) fazia eu buscar bagulho
pra animal, bicho, bagulho em pó, comida de graça, lavagem de
porco (...). Ele não podia beber que ficava me xingando, me
chamando de maconheiro, dizendo um bocado de coisa.
Após comentarem sobre o relacionamento familiar, perguntávamos se gostariam de fazer alguma mudança na família. Houve três respostas básicas.
Um dos desejos relatados foi o de que a família permanecesse da mesma maneira, seja porque ela o satisfaz ou por conformismo:
Está bom desse jeito mesmo, já me acostumei desse jeito
deles. Não é um jeito ruim. Melhor eu acho que precisaria. Mas
não tem como não ficar muito, muito, muito melhor. Então deixa
assim mesmo. (Cristiano)
O segundo desejo é o de que houvesse mais união entre os seus familiares:
Ah, mais unida um pouco. Que a minha família é muito boa na
arena. Muito fofoqueira, um inventando mal contra o outro.
(Dionísio)
Eu queria que fosse uma família unida, não houvesse briga,
todo mundo sesse normal, como esse pessoal aí. Um vai pela
cabeça do outro, acaba fazendo besteira. (Adriano)
A terceira resposta registra a idéia de que reveria a família para melhorá-la de alguma forma, seja em termos de relacionamento, de dinheiro ou de organização.
Se eu pudesse eu mudava tudo, não tem nada certo. (Elói)
Ah, não entrar nessas confusões, essas que meu rio faz. Esse
negócio de ficar fazendo contrabando, porque ele não precisa
tá fazendo isso. Tem o olho muito grande ele. (Rogério)
Ah, eu gostaria, igual assim à mãe dos meus outros amigos,
chega assim e beija, pô, eu acho legal... Única coisa é que eu
pensava assim era de
gravar um disco e ajudar a minha mãe e meus irmãos. Comprar
uma casa boa pra minha mãe, meus irmãos. Uma vida melhor,
sabe, sair da favela. (Afonso)
Famílias vulneráveis
Podemos constatar a fragilidade da maioria das famílias dos entrevistados, pelos mais variados motivos.
Em primeiro lugar pela pobreza e exclusão social a que estão sujeitas, isoladas do amparo social construtivo e do mundo que está além da sua comunidade de baixos recursos.
Em segundo lugar pelas conseqüências emocionais e financeiras decorrentes da separação dos pais, pela ausência da mãe nos lares, com evidências de instabilidade nos cuidados ainda na infância dos entrevistados e pelos relacionamentos tão marcados por agressões físicas e emocionais. Perry (1995), comentando o impacto da violência física e emocional sobre a criança, diz "a violência mais destrutiva não quebra ossos, 'quebra' mentes. A violência emocional não resulta em morte do corpo, resulta em morte da alma".
Os relatos de abuso emocional 17 nas famílias entrevistadas foram percebidos em algumas falas, embora para os jovens apenas o 'esculacho' tenha sido mais identificado como tal. Douglas comenta sobre sua mãe: "ela nem liga pra mim". Perguntado se já havia se sentido rejeitado pela mãe responde: "ah, já... pela minha tia também... porque ela não ligava pra mim. Morei desde pequeno com o meu pai". Outro rapaz, Cícero, comenta: "ele colocava medo em mim e eu sabia que ele era violento mesmo". Constatamos ainda outros casos de entrevistados ameaçados de morte pelos próprios irmãos. A situação de violência intra-familiar desde a infância também foi relatada por Gilligan (1996), estudando criminosos violentos adultos que viram parentes próximos serem assassinados, torturados, estuprados e sofrerem outras inúmeras misérias familiares.
Muza (1996) descreve a vivência de famílias de classe popular que se assemelha à dos nossos entrevistados: pobres, numerosas, excluídas dos bens e serviços da cidade, moradoras em casas precárias, de tamanho mínimo, o que dificulta a intimidade e facilita a promiscuidade. Esse autor conclui que toda a problemática do trabalho mal pago, temporário e monótono, aliado às condições de moradia e ao número de pessoas em uma mesma casa faz com que as relações familiares se tornem estressantes, sendo a violência usada como mediadora das relações entre pais e filhos.
Em terceiro lugar, para ilustrar o grau de fragilidade das famílias investigadas, temos uma complicada história familiar de agravos à saúde. São famílias pródigas em problemas, que agravam ainda mais a sua situação emocional e econômica: seis jovens relataram doenças não-identificadas atingindo primo, tia e pai; um jovem contou sobre a morte de ambos os pais com AIDS. Doze entrevistados referiram-se a problemas psiquiátricos envolvendo tio, mãe e avô; quatro contaram que apresentavam distúrbios neurológicos, assim como seus irmãos e tios; três falaram de casos de câncer do avô e da mãe. Dezenove apresentaram relatos de alcoolismo - especialmente elevado em Recife - de pai, mãe e tios; quatro comentaram sobre dependência de drogas (mãe, irmãos e primo); um contou sobre o primo com seqüelas físicas por ter sido baleado; outro descreveu o derrame da mãe e um caso em que o irmão recém-nascido morreu por ter caído das mãos de um técnico do hospital.
Em quarto lugar, temos as freqüentes histórias familiares de envolvimento em atos infracionais. Os infratores que não relatam qualquer história de envolvimento infracional familiar somam apenas 14,7% do total, demonstrando o grande comprometimento familiar. Nessas famílias, a participação de parentes (irmãos, tios, padrasto, mãe, pai e primos) no tráfico de drogas foi o mais citado, em 45,9% dos relatos dos infratores. Em ordem de freqüência, seguem assalto praticado por pai, irmão, tio em 11,4% e homicídio executado por irmão, pai, cunhado em 9,8%. Os demais referem-se a parentes presos, sem que ficasse claro o que haviam feito, envolvimento de mãe, pai e avô no jogo do bicho e furto efetuado por irmão.
Alguns infratores vêm de família cuja maior parte (nuclear e estendida) é também infratora. Estes jovens seguem um caminho já trilhado e aprendido, ou talvez o único possível no seu modo de ver, diante das condições de vida e da cultura familiar oferecidas. Apesar disto, um jovem não-infrator relatou que todos os irmãos são infratores, inclusive outros membros da família. Ele é o único que não seguiu este caminho.
A família dos primos não-infratores foi analisada em destaque pois seus núcleos familiares eram distintos. Não foi observado nenhum relato de história familiar de envolvimento em atos infracionais.
O último argumento que comprova a frágil situação familiar dos entrevistados é a história familiar de violência sofrida. Os relatos de história de violência na família incluem suicídios (mãe, tio, irmão), irmãos carbonizados por brincarem com álcool, acidentes de carro (irmão, mãe, pai), espancamentos (mãe) e irmãos, assassinatos (pais, tios, primos, irmãos). Um dos infratores expressa seu sentimento ao falar sobre o assassinato do tio:
Ah, eu fiquei triste e fiquei pensando em tudo. (...) Minha mãe falou: 'isso é coisa da vida'. Aí eu fui compreendendo. Hoje eu nem penso mais nisso. Eu procuro não pensar mais nisso. (Célio)
Pelo discurso desse jovem, depreendemos que os atos violentos sofridos, quando não imediatamente respondidos com impulsos de vingança (assumido por alguns jovens entrevistados), são incorporados com conformismo, como se fossem algo de que eles não pudessem escapar. Certamente, porém, o registro intrapsíquico está relacionado ao modo de encarar a vida e agir socialmente. Não se encontrou história de violência nos relatos dos primos não-infratores.
Todos os fatos relatados até aqui - como as condições de pobreza, a precária formação profissional, a ausência da figura paterna, os conflitos interpessoais dos membros familiares e a ausência de diálogo e orientação (muitas vezes gerados pela necessidade de lutar para garantir a sobrevivência) - mostram que as famílias dos jovens entrevistados são, em geral, vulneráveis e se defrontam com dificuldades das mais diversas ordens. Se relembrarmos a teoria do controle e da ação direta e indireta da família sobre o jovem em formação, como fatores que o protegem da delinqüência, podemos constatar que há problemas no que se refere à capacidade de interação, afeto, supervisão e disciplina entre pais e filhos sujeitos de nossa pesquisa.
Estes fatos nos permitem crer que as condições familiares certamente facilitaram a entrada desses jovens no universo infracional.
Entretanto, das mesmas condições familiares saíram muitos adolescentes que se direcionaram para outros caminhos, sem que houvesse diferença muito significativa na vivência familiar, conforme foi apresentado anteriormente. Tivemos algumas distinções, como a maior convivência de alguns primos e irmãos com seus pais durante a infância, uma instabilidade maior nos cuidados iniciais dos infratores, relacionamento mais distante dos infratores com a família ampliada e um envolvimento menor da família dos primos não-infratores com a criminalidade. Essas explicações, no entanto, não parecem suficientes para definir os caminhos seguidos. Tentaremos investigar, então, que outros fatores poderiam se associar aos que já descrevemos.
15 No original inglês, brainstem.
16 No original inglês, midbrain.
17 Abuso emocional é chamado por Garbarino, Guttman & Seeley(1986) de maus-tratos psicológicos. Consiste de atitudes que prejudicam o desenvolvimento da auto-estima, da competência social,da capacidade para intimidade de relacionamentos interpessoais positivos e saudáveis. Segundo esses autores, um adulto comete maus-tratos psicológicos quando: rejeita a criança ou adolescente (recusa-se a reconhecer a importância da criança e a legitimidade das suas necessidades); isola-a (separa-a de experiências sociais normais, impede que faça amizades e a faz crer que está sozinha no mundo); aterroriza-a (agride-averbalmente, cria um clima de medo,ameaça e amedronta-a); ignora-a (priva-a de estimulação essencial e reação, reprimindo o desenvolvimento emocional e intelectual); corrompe-a (conduz negativamente a socialização da criança, estimula-a a se engajarem comportamento anti-socialdestrutivo,reforça este desvio e torna a criança inadequada para a experiência normal).