Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade: diagnóstico e prática pedagógica

Prefácio

Camila Aparecida Loni. Energia (detalhe). Técnica mista sobre papel

A3, 2013.

Prefácio

 

Nem todos os leitores têm o costume de ler prefácios. Lê-los, no entanto, pode nos aproximar da obra, convidar-nos a buscar outras fontes, incitar a reflexão sobre outros ângulos ainda não vislumbrados. Há mesmo obras primas em prefácios de escritos, sejam de nossa ou de outras épocas, e, quando me reporto a eles, sinto o temor de não conseguir prefaciar dando o valor devido ao texto principal do livro de Rosana e Nerli que trata de uma grave questão de nossos tempos: a medicalização do fracasso escolar, que entendo ser o fracasso da escola e da sociedade regida pela lógica do capital. A medicalização ocorre quando um fenômeno social é tomado como individual e caracterizado como doença e como tal é tratado: a queixa, o encaminhamento para o setor da saúde, o diagnóstico e o remédio. Mesmo com a racionalidade médica questionada pelos estudos da psicologia e da educação contemporâneos desde as últimas décadas do século XX, o modelo médico ainda se impõe e é isso que os estudos de Rosana e Nerli vêm demonstrar. O que está posto é a complexa relação entre o biológico e o cultural no desenvolvimento humano.

Os estudos a respeito da passagem do estado de natureza para o de cultura que têm como ancoragem teórica a perspectiva históricocultural, assumida pelas autoras, explicam que o nascimento biológico não dá conta das funções definidoras do humano do homem. Existe outro nascimento, o cultural, ou seja, o ser humano, ao nascer, é apenas capaz de se tornar humano: necessita, mais do que qualquer outro animal, desde os primeiros instantes de sua vida, das relações sociais, das significações que lhes serão atribuídas; o novo ser é completamente dependente dos seus semelhantes. O individual é, portanto, a encarnação do social.

Ao estudarem sobre o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e seu consequente tratamento medicamentoso, Rosana e Nerli evidenciam a posição contrária, ou seja, a do reducionismo e do determinismo biológico na organização do comportamento humano – visão essa presente com força na área da saúde e incorporada pela educação. O que a escola observa como falta de atenção, comportamento de indisciplina ou inquietude em seus alunos é visto como provável doença incorrendo em encaminhamento para os profissionais da saúde e na prática da medicalização.

É possível depreender dos estudos do antropólogo Laplantine 1 que a doença, em qualquer sociedade, é percebida como problema e por isso exige uma solução. Para isso confere a alguns membros da sociedade o poder terapêutico. Como as doenças não são só do corpo, mas também do espírito, do psiquismo, da educação, há os que têm o poder terapêutico para curá-las. Identificada como algo externo que ataca os indivíduos, este agente maléfico pode ser o micróbio, o clima, o feitiço, a vontade de Deus, a vida moderna, a família pobre, o meio social, a deficiência, a falta de atenção, a hiperatividade etc. Se veio de fora e acometeu a pessoa, de quem é a responsabilidade? Se as crianças são diagnosticadas como doentes, cujo mal impede que fiquem atentas na sala de aula, de onde ela veio? Em que lugar do corpo humano está ela localizada? Lembremos-nos da frenologia que, no início do século XIX se dizia capaz de determinar características da personalidade e tirar conclusões sobre as capacidades humanas com base no estudo das protuberâncias do cérebro. Ela foi uma das importantes bases para a defesa da eugenia – seleção dos melhores para a purificação da raça – argumento para o racismo e para a morte criminosa de milhões de pessoas.

No início da década de 1920 Lev Semionovich Vigotski já havia dito que a clínica – que andava na esteira da medicina - não dava conta de explicar a natureza do atraso mental ou das dificuldades encontradas nos comportamentos das crianças e que, consequentemente, as práticas desta clínica não eram suficientes porque selecionavam os grupos com base nos aspectos negativos. Disse ele que qualquer pessoa pode compreender o quanto é indesejável a seleção das pessoas de acordo com as particularidades negativas que elas possam ter.

As inquietações que mobilizaram as autoras deste livro foram fecundas: com clareza e crítica aguçada demonstram como é que a função humana cultural – a atenção voluntária – pode, erroneamente, ser tratada como uma entidade desligada de suas condições concretas de relações sociais, pela racionalidade médica e como pode ser aceita como incontestável pela escola e pela família. A força que tem o diagnóstico acaba por ocultar a força das práticas pedagógicas. Rosana e Nerli mostram, entretanto, que outros significados podem ser atribuídos ao que tem sido considerado transtorno. Com o olhar da perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano, oferecem ao leitor atento outra concepção, outro mirante de onde olhar para o processo de aprendizado escolar. São palavras das autoras que os diagnósticos enfraquecem o papel da escola e negam o aprendizado como princípio indispensável ao desenvolvimento tipicamente humano.

O livro de Rosana e Nerli torna-se leitura das mais importantes para quem deseja compreender as possibilidades que existem nas ações coordenadas e coletivas dos profissionais da educação e da saúde. Trazendo autores que comungam com a visão histórica e cultural da constituição do humano do homem, afirmam que a atenção voluntária, assim como as demais funções psicológicas superiores, necessita da linguagem por ser ela a que constitui a mediação entre o indivíduo e o objeto de conhecimento; ela é constitutiva do pensamento e da ação. Conclui que as relações sociais, as interações, as experiências de vida, jogam um papel determinante, deslocando assim, o centro da avaliação diagnóstica: da centralidade no orgânico/individual para a análise das condições sociais concretas de vida do sujeito.

Não se trata de um trabalho fácil, imediato ou mágico, mas de um esforço mediado por opção teórica, estudo e reflexão; trata-se de aceitar o convite de Rosana e de Nerli para a atribuição de novos significados sobre o que seja desenvolvimento das funções psicológicas superiores ou culturais; para o que seja o papel da escolarização no desenvolvimento dessas funções humanas, entre elas, a atenção voluntária.

Anna Maria Lunardi Padilha

 

1 LAPLANTINE, François. Antropologia da Doença. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Tania Regina Rossetto. Luz inerte. Técnica mista sobre papel A4,

2013.