Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade: diagnóstico e prática pedagógica
Apresentação
Na atualidade são frequentes as queixas relacionadas a problemas de atenção na escola. Um número cada vez maior de crianças recebe o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH) e a indicação para uso de medicamento, especialmente de cloridrato de metilfenidato, comercializado no Brasil como Ritalina (Laboratório Novartis) e Concerta (Laboratório Janssen-Cilag).
Nos estudos sobre problemas de atenção predominam aqueles para os quais o TDAH é visto como um transtorno orgânico, de ordem neurológica, que compromete a aprendizagem e prejudica o desempenho escolar. Toma força, no entanto, um movimento de denúncia e enfrentamento ao que um grupo de profissionais e pesquisadores entende como medicalização da vida das crianças e dos processos educativos.
Esse cenário indica a necessidade de aprofundamento da reflexão sobre o desenvolvimento humano e as práticas desenvolvidas no contexto escolar. No intuito de contribuir para o debate esse livro apresenta uma pesquisa pautada na seguinte problemática: Como os problemas de atenção se manifestam no contexto escolar e quais as implicações do diagnóstico de TDAH na prática pedagógica?
Na busca de respostas para essas questões, partimos do pressuposto da atenção voluntária como uma das funções psicológicas superiores mais importantes para o processo de aprendizagem escolar e de que ela é formada nas relações interpsicológicas e depois internalizadas constituídas como modo individual de as crianças operarem cognitivamente. Compreender esse processo é de extrema importância para evitar e superar explicações que reduzem o problema da atenção aos seus aspectos orgânicos, contribuindo para a psicologização e medicalização de questões escolares.
O reducionismo organicista muitas vezes é acompanhado do discurso de que o diagnóstico e o acesso a medicamentos devem ser garantidos por lei. Para os organicistas é um direito de a família saber quais os impeditivos à aprendizagem do filho e o Estado brasileiro tem a responsabilidade de custear os gastos com o diagnóstico, tratamento e medicação do transtorno.
Devemos considerar que, mediante a expansão do ensino e de sua obrigatoriedade (não de permanência na escola), houve um contingente maior de crianças matriculadas e frequentando os bancos escolares, mesmo que precariamente. Este aumento considerável ampliou o número de crianças reprovadas, evadidas e com dificuldades e/ou distúrbios de aprendizagem, se comparado ao do início do século XX. Justifica-se, assim, o impulso das pesquisas de caráter organicistas para a compreensão do não aprender e, em especial, dos problemas relacionados ao déficit de atenção e hiperatividade. Essas questões são discutidas no primeiro capítulo – Explicações para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – onde retomamos as concepções hegemônicas que cercearam e cerceiam a concepção sobre os problemas de atenção, representada pelo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, destacando critérios diagnósticos, tratamento e a pouca solidez apresentada pelas pesquisas organicistas. Concluímos apontando algumas críticas ao determinismo e ao reducionismo biológico presentes nas pesquisas organicistas.
No segundo capítulo – Tendências pedagógicas e patologização do aprender– discutimos como o modo de produção e as relações sociais provocam mudanças na forma de ensinar, criando métodos, disciplinas e organizando a educação para atender aos interesses da classe em domínio. Destacamos a instituição de explicações biológicas para o fracasso escolar e como elementos de ordem pedagógica passam a ser pensados como orgânicos.
O terceiro capítulo – A atenção voluntária na perspectiva Histórico-Cultural – versa sobre os instrumentos e os signos como atividades mediadoras, fundamentais ao desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Ressaltamos diferenças qualitativas entre a atenção involuntária e a atenção voluntária e indicamos estratégias pedagógicas que colaboram com o desenvolvimento da atenção voluntária, destacando o papel do professor e a necessidade de um ensino organizado e intencional com vista ao desenvolvimento humano.
Os procedimentos metodológicos para o trabalho de campo estão registrados no quarto capítulo – A atenção na escola. Os dados foram colhidos junto a quatro escolas públicas de Maringá, Paraná. Inicialmente realizamos um levantamento sobre alunos diagnosticados com problemas de atenção; na sequência observamos esses alunos em suas salas de aula e as práticas pedagógicas nelas desenvolvidas, entrevistamos seus pais, professores e a equipe pedagógica da escola.
À luz do referencial teórico, os dados foram analisados e organizados conforme unidades de análise apresentadas no quinto e último capítulo – O TDAH para a comunidade escolar. Os resultados delineiam um quadro dos significados atribuídos ao diagnóstico de TDAH, do poder delegado ao medicamento e da permanência de uma prática pedagógica pouco promotora do desenvolvimento da atenção voluntária. O problema da atenção e do controle voluntário do comportamento são entendidos pelos professores como orgânico e, por isso, a medicalização é o foco e não a prática pedagógica.
O caminho percorrido na pesquisa pretendeu superar a dicotomia entre indivíduo e sociedade na compreensão e enfrentamento de questões escolares pautadas pela atenção. Em Considerações finais reafirmamos a importância do trabalho pedagógico para o desenvolvimento da atenção e do controle voluntário do comportamento, essenciais para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, características específicamente humanas e necessárias para a apreensão dos conhecimentos.
Finalizamos a apresentação agradecendo aos alunos, pais, professores e equipe pedagógica que participaram da pesquisa.
Com eles avançamos para além das páginas dos livros e aprendemos sobre os problemas de atenção na família e na escola.
As obras que ilustram o livro foram produzidas por alunos do Curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá. A eles e seus professores agradecemos pelo talento e disponibilidade para pensar problemas de atenção em imagens.
Esperamos que a pesquisa e seus resultados possam contribuir para os estudos sobre o TDAH, especialmente sobre aspectos da prática pedagógica para alunos com esse diagnóstico.
Rosana Aparecida Albuquerque Bonadio
Nerli Nonato Ribeiro Mori
Guilherme Radi Dias. Sem título. Desenho digital, 2013.