Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil

Sérgio Carrara · Capítulo 2 de 8 · parte 1/3

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Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil

2 - A sífilis e os sifilógrafos no Brasil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

A implantação sifilográfica

Descrever o modo pelo qual a consolidação da comunidade dos sifilógrafos e a simultânea autonomização da sifilografia se processam no Brasil é tarefa bastante complexa e me darei por satisfeito se conseguir ao menos iniciá-la. A razão de tal complexidade me parece prender-se a um problema mais geral e a um outro, mais específico ou local. Inerente ao estudo da emergência e consolidação de qualquer especialidade, o problema mais geral diz respeito ao fato de esse processo realizar-se simultaneamente em múltiplos planos, parcialmente dependentes uns dos outros. A um só tempo, temos o estabelecimento de uma comunidade científica, com seus congressos, sociedades, centros de pesquisa, periódicos e fontes de financiamento; a instituição do ensino especializado, com suas cátedras, concursos, teses; e, ainda, no caso de uma ciência aplicada como é a sifilografia, a abertura e expansão de um mercado de novos serviços, no qual os sifilógrafos se engajavam basicamente como clínicos especializados ou sanitaristas. Deixaremos de lado momentaneamente o aspecto referente ao mercado de serviços, para nos fixarmos na instituição da sifilografia como área de ensino e de pesquisa, já que é nesse nível que o conceito de sífilis se constrói, justificando a urgência das intervenções a serem realizadas.

O problema mais local refere-se à existência, no Brasil, de múltiplos centros regionais de implantação sifilográfica, com histórias, cronologias e personagens específicas, ainda que hierarquizados e, em graus diversos, dependentes, para o período considerado, do que se passava no Rio de Janeiro, onde se concentravam as principais cátedras, sociedades e periódicos especializados. Evidentemente, a então capital federal colocava-se, por seu turno, em relação similiar perante a alguns centros estrangeiros, principalmente europeus. Quanto a este segundo problema, devo assumir que a história que se desenha aqui é, em larga medida, feita do ponto de vista da elite sifilográfica, que a partir da capital federal controlava as principais instituições que iam sendo criadas e orquestravam, por assim dizer, o que acontecia no resto do país. Aliás, a bem da verdade, é apenas nesse sentido que posso falar, nesse trabalho, de uma "história da luta antivenérea no Brasil".

Entre nós, a implantação da sifilografia se realiza ao longo dos quarenta anos que vão das duas últimas décadas do século XIX até o início dos anos 20. Desde logo, alguns marcos fundamentais em sua história institucional podem ser apontados. Em relação ao ensino especializado, tem-se a instituição, em 1882, no contexto da

chamada "reforma Sabóia",1 do ensino da sifilografia, através da criação de cátedras de clínica dermatológica e sifilográfica nas duas faculdades de medicina do país, Rio de Janeiro e Salvador, e de (pelo menos) um importante curso livre anexado à Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Em relação à organização da rede de especialistas, os marcos poderiam ser a fundação em 1912, na capital federal, da primeira sociedade científica nacional voltada para a especialidade, a Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia. Ou a realização, em 1918, também no Rio de Janeiro, do 1° Congresso Latino-Americano de Dermatologia e Sifilografia, expressão inegável do peso acadêmico e da densidade intelectual que, no contexto sul-americano, assumia a dermato-sifilografia brasileira. Finalmente, em relação à abertura de um mercado de trabalho para os especialistas, foi sem dúvida fundamental a criação, no início dos anos 20, no âmbito da reforma do sistema de saúde brasileiro empreendida por Carlos Chagas, da Inspectoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, com a conseqüente expansão dos serviços antivenéreos por todo o país.

Uma crescente inquietação

Conforme dizia o sifilógrafo Oscar da Silva Araújo em 1928, a grande incidência da sífilis no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, vinha sendo apontada por fontes mais seguras desde o século XVIII (Araújo, 1928a:11). Além de citar cronistas que falavam igualmente da dissolução dos costumes e da incidência do mal venéreo, Araújo afirmava que, em 1798, o Senado da Câmara do Rio de Janeiro teria organizado um inquérito para apurar quais as doenças endêmicas e epidêmicas mais comuns na cidade. A tal inquérito, teriam respondido três dos mais eminentes médicos ali radicados, dos quais, dois deles, Bernardino Antônio Gomes e Antonio Joaquim de Medeiros, assinalavam a freqüência das doenças venéreas. Através dos trechos citados por Araújo, pode-se perceber claramente como a constatação dessa freqüência articulava-se diretamente às avaliações sobre a (i)moralidade reinante. Segundo dizia Medeiros, por exemplo, "as causas morais e dietéticas influem assaz para as moléstias do país. Os antigos afirmam que as tísicas, hoje tão freqüentes no Rio de Janeiro, raríssimas vezes se observavam, assim como as doenças da pele. Ora, se nós cavarmos mais fundo, acharemos que quase todas são complicadas com o vício venéreo. A opulência desta respeitável cidade faz introduzir o luxo e a depravação dos costumes, de maneira que dentro da cidade não faltam casas públicas onde a mocidade vai estragar a sua saúde e corromper os costumes de uma boa educação, contraindo novas enfermidades e dando causas para outras tantas" (apud Araújo, 1928a:12). Já Gomes, lançava mão de um raciocínio que, sob feições diferentes, perduraria até pelo menos Gilberto Freyre, dizendo ser na escravidão que se devia procurar a origem da devassidão reinante, pois a prostituição seria uma "conseqüência indefectível do ócio e da riqueza adquirida sem trabalho e fomentada pelo exemplo familiar dos escravos, que quase não conhecem outra lei que os estímulos da natureza..." (Idem).

Já em meados do século XIX, em seu tratato sobre o clima e as moléstias do Brasil, o eminente médico francês radicado no Rio, José Francisco Xavier Sigaud, dizia que "a sífilis existiu em todas as épocas no país eé hoje doença predominante"(apud Araújo, 1928a:17). À mesma época, a doença começava também a ser responsabilizada pela "velhice prematura" que, segundo alguns, caracterizaria a mocidade brasileira (Azambuja, 1847:3). Amplamente aceita em meados do século passado, a percepção da enorme disseminação do mal entre nós ia se tornando progressivamente mais preocupante à medida em que, no horizonte da passagem do século, emergia o problema venéreo com todas as suas trágicas conseqüências.

Testemunho de uma crescente preocupação, ao longo dos anos sessenta do século passado, a sífilis começava a figurar em diversos relatórios anuais de inspetores de saúde provinciais como a moléstia que, ao lado da tuberculose, das alterações intestinais e das febres intermitentes, "mais estragos fazem à população menos abastada" do Império, como dizia então o inspetor de saúde da

Bahia (Idem). 2 Começava-se também a revelar numericamente o peso de sua contribuição no total de internamentos em diferentes hospitais. Em artigo publicado na Gazeta Médica da Bahia em 1871, diz-se que para "se conhecer a extensão que desgraçadamente vai ganhando o elemento sifilítico entre nós", bastava olhar as estatísticas dos hospitais, pois, no período de 1861 a 1866, mais de um terço dos doentes internados nas enfermarias de cirurgia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro seria de portadores

de 3 doenças venéreas (Anônimo, 1871:26). Segundo o mesmo artigo, a partir de tais dados "colige-se evidentemente a expansão que vai tomando a propagação das moléstias venéreas entre nós, e quanto, continuando a expandir-se em proporção equivalente por falta de aplicação de medidas tendentes a neutralizar suas funestas conseqüências, atingirá em breve grandiosas proporções" (Idem).

O mesmo alarme se fazia ouvir nos meios militares. A partir dos anos 70, a grande incidência da sífilis e das doenças venéreas entre os militares começava também a ser enfatizada. Em parte, isso talvez tenha se devido ao impacto da Guerra do Paraguai na disseminação do mal nas tropas ou, pelo menos, na sua maior valorização pelos médicos militares. Segundo afirmava o médico militar Lobo da Silva em 1929, entre os anos de 1869 e 1870, o cirurgião-mor das forças brasileiras na Guerra do Paraguai teria escrito do front para a Gazeta Médica da Bahia: "as úlceras de caráter sifilítico têm tido considerável desenvolvimento depois do aprisionamento em grande escala de mulheres paraguaias, as quais cobertas de sífilis, vão contaminar o nosso Exército... Na expedição que acampou por alguns dias nas margens do rio Jejuy (Paraguai), deram-se muitos casos de febre palustre mais ou menos graves e a blenorragia foi, na seção cirúrgica, a par dos ferimentos por armas de fogo, a causa mais comum de baixas..." (apud Silva, 1929:47).

Em 1873, João José de Oliveira Junqueira, ministro da Guerra do Império, destacava as doenças venéreas (que ele agrupava ainda sob a velha rubrica englobadora de sífilis) como a afecção mais comum entre os soldados, seguida numericamente pelas doenças do "aparelho respiratório e de digestão" (apud Araújo, 1928a:24). Para o triênio 1872-73, o médico José de Góes Siqueira Filho calculava que um terço das tropas aquarteladas na Corte estaria contaminado (Idem). Dez anos depois, em 1883, através de uma memória apresentada à Academia Imperial de Medicina, o médico-militar José de Oliveira seria ainda mais contundente: "Se a tuberculose representa no Exército brasileiro a maior cifra mortuária, se os embaraços gástricos não lhe cedem o passo na questão numérica, as moléstias venéreas e sifilíticas avantajam-se às duas. Pode-se, sem medo de errar, asseverar que não há um só soldado nosso que não tenha uma ou mais entradas nos hospitais por acidentes venéreos. A cirurgia hospitalar do Exército é constituída em tempo de paz pelo sem número de blenorragias, cancros venéreos e bubões. Os acidentes secundários e terciários de sífilis, exostoses e reumatismos, contam-se por centenas" (Idem, 23, grifo meu).

A partir da segunda metade do século XIX, os médicos não denunciavam apenas a grave situação do Rio de Janeiro. Em 1866, o professor Claudemiro Caldas já escrevia na Gazeta Médica da Bahia que, "no quadro nosológico da clínica cirúrgica da faculdade da Bahia, avulta, pelo maior número de vítimas, a sífilis" (Caldas, 1866:89). E, em finais do século, Juliano Moreira ressaltava já haver dito por diversas vezes que "a sífilis na Bahia é de uma freqüência notável", acrescentando que, no Brasil, "de dia em dia amplia o terrível mal o seu domínio" (Moreira, 1899:113). O mal estaria também firmemente instalado em São Paulo, onde, segundo os estranhos cálculos apresentados por Cláudio de Souza no início do século XX, haveria uma média de trinta mil contaminações sifilíticas por ano, o que significava dizer que, a cada ano, 10% de seus habitantes se contaminavam (Souza, 1909:7). Cláudio de Souza chegava a esta aterradora constatação a partir do número estimado de prostitutas residentes na cidade e do número de relações sexuais potencialmente contaminadoras que elas manteriam por ano.

Assim, diante de estatísticas bastante precárias, quase inexistentes, os médicos da passagem do século ancoravam suas denúncias sobretudo em sua experiência clínica e nos dados fornecidos pela população hospitalizada. É verdade que, ao avaliarem a extensão da doença no Brasil, alguns deles também se apoiavam no senso comum, para o qual, como revelava explicitamente Juliano Moreira em 1899, o Brasil parecia ser a morada ideal da sífilis. Segundo o ilustre médico baiano, era comum se dizer "em família" ante qualquer afecção: "isto é gálico". Tanto o vulgo, quanto os médicos, tinham a tendência, segundo dizia, a exagerar o "círculo do qualificativo", "batizando" de sífilis "a mais banal das dermatoses parasitárias, o mais trivial dos acnes, a mais genuína blefarite, a mais simples das conjuntivites". Segundo relatava, era "comum" se ouvir dizer: "pois há brasileiro que não tenha a sua tara sifilítica?". Para Juliano Moreira, "descontando o exagero", bem se via aí "a

fórmula indicadora da disseminação do mal" (Idem). 4

Em cena, o especialista

Foi em meio a esse clima de alarme crescente que, no início da década de 1880, o ensino da dermato-sifilografia nasceu na Corte sob a égide de dois mestres: João Pizarro Gabizo e Antônio José Pereira da Silva Araújo. De perfis bastante diferentes, Gabizo foi o primeiro a ocupar a cátedra oficial de dermatologia e sifilografia da faculdade da Corte, onde Silva Araújo criava simultaneamente o que parece ter sido o primeiro curso livre da especialidade no Brasil, articulando, pioneiramente, a pesquisa clínica e laboratorial ao ensino especializado. Embora ambos sejam apresentados posteriormente como "precursores" da especialidade no Brasil, foi sem dúvida nenhuma Silva Araújo quem melhor encarnou a figura do moderno sifilógrafo, emprestando desde logo à especialidade o relativo prestígio nacional e internacional que chegou a possuir.

Considerado o "pai" da especialidade no Brasil, ou aquele que "lançou as bases da especialidade quando entre nós não conseguira ainda autonomia", como diria, anos mais tarde, o sifilógrafo Joaquim Mota (Mota, 1930:296), vale a pena nos determos um momento sobre a trajetória intelectual de Silva Araújo. Ao que parece, se este ramo da medicina floresceu, como se verá, tão robustamente no país a partir das duas últimas décadas do século XIX, foi em grande parte devido à "moderna" orientação que, desde logo, lhe foi por ele conferida.

Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia no início da década de 1870, interno em clínica-cirúrgica, Silva Araújo fazia parte do círculo de médicos que, sob a influência de Patterson, Otto Wucherer e Silva Lima, ficou conhecido como "Escola Tropicalista Bahiana". Como é hoje amplamente reconhecido, esta "escola" teve uma importância crucial para a implantação da medicina especializada e experimental no Brasil (ver, entre outros, Santos Filho, 1966:92-97; Stepan, 1976:60). Silva Araújo havia sido redator da revista que o grupo dos tropicalistas fundara em 1866, a prestigiosa Gazeta Médica da Bahia (Anônimo, 1925:IV). E, desde a década de 1870, ao ser reprovado no concurso para a seção cirúrgica da faculdade baiana por "insistir em perder tempo espiando bichinhos", como lhe teria dito um dos seus examinadores, ele se notabilizara como um dos principais defensores das idéias

pasteurianas no Brasil.5 Não teria sido sem razão que a ele, em 1895, a Academia Nacional de Medicina incumbiria, reconhecida, do elogio fúnebre a Pasteur.

Ao que parece, foram os estudos que Silva Araújo desenvolveu ainda na Bahia sobre uma doença parasitária tropical, popularmente conhecida como elefantíase dos árabes, que projetaram seu nome internacionalmente. Segundo Lycurco dos Santos Filho, a elefantíase caracterizavase "pelo exagerado aumento dos vasos linfáticos, com o espessamento da pele dos membros e de outras partes do corpo, como a bolsa escrotal e os seios. Endêmica na África, trouxeram-na os negros. Mal conhecida, foi confundida com a lepra e os seus portadores internados nos lazaretos" (Santos Filho, 1966:53). Foi Silva Araújo quem estabeleceu que a doença – por ele denominada de filariose – seria causada por um helminto (Wuchereria bancrofti), cuja forma embrionária havia sido isolada anteriormente por Otto Wucherer (Torres, 1930[1900]; Mello, 1930[1900]). Além da caracterização da doença e da criação de um novo gênero zoológico para seu agente específico (o gênero Wuchereria, em homenagem a Otto Wucherer), Silva Araújo desenvolveu ainda, secundado por Moncorvo (pai), um tratamento original para a doença através da eletricidade. Os resultados desses estudos teriam sido comunicados diretamente às academias de Ciências e de Medicina de Paris e a eficácia do tratamento, atestada internacionalmente nos anos subseqüentes. Foi justamente sobre a filaria a memória apresentada por Silva Araújo à Academia Imperial de Medicina, em 1877, para tornar-se seu membro correspondente. Silva Araújo já pertencia então à Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, à Sociedade Belga de Microscopia e à Sociedade de Climatologia Algeriana.

No início da década de 1880, Silva Araújo radicar-se-ia na Corte, onde poucos anos antes (1875), discorrendo sobre a importância da microscopia (e, obviamente, da bacteriologia) para a medicina, já havia, em conferência patrocinada pela Sociedade Amante da Instrução e prestigiada pelo próprio imperador, defendido suas

idéias pasteurianas. 6 Foi no Rio de Janeiro que sua atenção parece ter se voltado mais intensamente para a sífilis e sua profilaxia. Já em 1881, com os doutores Júlio de Moura, Moncorvo de Figueiredo, Cypriano de Freitas e Moura Brasil, fundou a revista científica União Médica, dedicada prioritariamente a pressionar as autoridades para que tomassem medidas sanitárias contra a progressão da sífilis no país (Ribeiro, 1931:115). No mesmo ano, associando-se a outros

eminentes médicos do Rio, 7 participou ativamente da fundação da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, cuja finalidade, segundo a ata de criação, era "o tratamento gratuito dos doentes pobres em um ambulatório Central e em domicílio, bem como ao ensinamento das especialidades médicas e cirúrgicas, e, mais ainda, a todos os trabalhos de investigação relativamente à medicina experimental" (apud Araújo, 1982:202, grifo meu).

A Policlínica seria inaugurada em julho de 1882, sendo Silva Araújo o encarregado de, na presença do imperador, proferir o discurso solene (Idem). Segundo Simon Schwartzman, os fundadores da Policlínica tinham por objetivo "modernizar o caráter do ensino oferecido na Faculdade", que, apesar das reformas por que passava, ainda se mostrava resistente a imprimir em seus cursos "um caráter experimental e prático" (Schwartzman, 1979:120). Ainda segundo o mesmo autor, teria sido em seu âmbito "que se iniciaram os primeiros trabalhos científicos ligados à medicina" no Brasil (Idem). Efetivamente, um dos principais articuladores da Policlínica foi o especialista em "moléstias de crianças" Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo (Moncorvo pai), que já vinha pedindo reformas no ensino médico desde 1874. Além disso, parece certo, como aponta Schwartzman, que a Policlínica foi, no Brasil, pioneira na incorporação das idéias bacteriológicas e das práticas dela derivadas. Segundo diz, na Policlínica, "a partir de 1883, já se tratavam as doenças infecciosas segundo as recém-divulgadas teorias de Pasteur" (Idem).

Inicialmente, em seus primeiros quadros, não havia professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, embora alguns de seus médicos viriam a sê-lo rapidamente, com a criação, em 1883, de

novas cadeiras.8 Foi o caso de Teixeira Brandão (clínica psiquiátrica), Martins Costa (2ª clínica médica de adultos). Alguns deles, como Júlio Rodrigues de Moura (clínica de patologia intertropical) e Pedro Severiano de Magalhães, são considerados herdeiros ou continuadores, no Rio de Janeiro, da obra dos tropicalistas baianos (Santos Filho, 1991:16). Cumpre notar que, além dos herdeiros, ali estava o próprio Silva Araújo, membro legítimo do grupo de parasitologistas do Norte e recém-instalado na Corte.

Na Policlínica, até a sua súbita morte em 1900, Silva Araújo seria simultaneamente o chefe do Serviço de Doenças de Pele e Sífilis

e diretor do 9 Laboratório de Microscopia . Além disso, valendo-se da instituição dos cursos livres no país, criou paralelamente à cátedra oficial da Faculdade, um curso de especialização em dermatologia e sifilografia. Segundo diria o sifilógrafo Joaquim Mota meio século depois, Silva Araújo imprimiu um cunho "verdadeiramente científico" a seu curso de especialização, fazendo acompanhar suas preleções por demonstrações microscópicas, por preparações histológicas e parasitológicas e, principalmente, por então moderníssimas projeções luminosas, o que fez com que fossem alcunhadas por "invejosos e desafetos" de "teatro João Minhoca" (Mota, 1930:299).

A Policlínica Geral do Rio de Janeiro transformava-se assim, simultaneamente, no posto de observação, experimentação e ensino de Silva Araújo. Nela, recolheu suas estatísticas sobre a propagação e modo de incidência da sífilis no Rio de Janeiro, desenvolveu seus estudos sobre cancros sifilíticos extragenitais e sobre outras dermatoses tropicais, como a bouba ou framboesia trópica que, até então, muitos consideravam uma forma tropical, especialmente maligna, da sífilis, atingindo especialmente os

indivíduos da raça negra.10 Além disso, com seu discípulo Bruno Chaves, estabeleceu o valor terapêutico para sífilis de um sal de mercúrio (o salicilato), que iria ser utilizado no tratamento da doença até os anos 40 (Germeck, 1941). Após a publicação dos resultados em revistas norteamericanas e francesas, a descoberta iria aumentar ainda mais seu prestígio internacional (Machado, 1908). Além de Bruno Chaves, trabalhavam na Policlínica com Silva Araújo, jovens médicos que posteriormente teriam grande projeção, ou no campo da sifilografia, como Werneck Machado e Alfredo

Porto, ou no campo da patologia tropical, como Oswaldo Cruz. 11 Embora existam informações sobre divergências propriamente teóricas entre Silva Araújo e Pizarro Gabizo, que, naquele mesmo momento, assumia a cátedra de doenças de pele e sífilis da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Mota, 1930; Rabelo Filho, 1947), será no campo da profilaxia pública da sífilis que, como veremos, o antagonismo entre o grupo de Silva Araújo e o dos professores da Faculdade se mostrará mais intenso. Como se verá adiante (Castigos, Doenças e Troféus, cap. 3), tais divergências se explicitariam de modo contundente já na primeira grande discussão sobre a profilaxia pública da sífilis e das doenças venéreas, que, motivada por Silva Araújo, ocorreria na Academia Nacional de Medicina em 1890.

Enfim, quando, em 1889, realizou-se, em Paris, o 1° Congresso Internacional de Dermatologia e Sifilografia, Silva Araújo já contava, aos 36 anos, com projeção internacional suficiente para fazer parte de seu comitê organizador, como um dos treze delegados estrangeiros (Comptes rendus, 1890). Embora Silva Araújo não tenha podido estar presente ao congresso, o Brasil se fez representar por Adolfo Lutz, outro jovem e brilhante médico-cientista que, formado pela Faculdade de Medicina de Berna, já havia se notabilizado pelas pesquisas sobre a lepra que realizara nas ilhas havaianas, no leprosário de Molukay (Teixeira, 1994:44). Coube ao futuro diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, que iria ser criado em 1892, a honrosa tarefa de pronunciar um dos discursos de encerramento do encontro. O congresso estava sob a presidência de honra do já então mítico Philippe Ricord e se realizou no Hospital de Saint Louis,o grande centro internacional da sifilografia do momento. Ali reinava soberano o mestre Alfred Fournier, considerado, então, a maior autoridade internacional em sífilis.

Silva Araújo continuaria presente nos comitês organizadores dos subseqüentes congressos internacionais de sifilografia realizados em Viena (1893) e, novamente, em Paris (1900). Foi ainda presidente da Seção de Moléstias da Pele e Sífilis do Congresso Médico Pan-Americano, realizado por ocasião da exposição de Chicago, em 1893 (Mello, 1930[1900]). Quando morreu, aos 46 anos, ocupando nada menos que a presidência da Academia Nacional de Medicina, Silva Araújo deixou uma centena de trabalhos científicos publicados, entre os quais destacam-se os três volumes de um inacabado Atlas des maladies de la peau. Reflexos de uma carreira que lhe valeu inúmeras honrarias e um sólido prestígio acadêmico dentro e fora do país. Além das sociedades já citadas, Silva Araújo terminou sua carreira como membro correspondente do Círculo Médico Argentino, do Instituto de Coimbra, da Sociedade de Dermatologia de Viena, da Academia Real de Ciências de Lisboa e, finalmente, do mais prestigiado círculo sifilográfico de então, a Sociedade de Dermatologia e Sifilografia de Paris (Mello, 1930[1900]). Além disso, obteve o título de membro honorário da Faculdade de Medicina e Farmácia do Chile.

A meu ver, a trajetória intelectual de Silva Araújo oferece elementos importantes para se compreender o que, desde o início, tornava o campo da dermato-sifilografia tão florescente no país e prestigiado no exterior: sua estreita articulação com a parasitologia tropical e, posteriormente, com a bacteriologia. Como diria Oscar da Silva Araújo, em 1925, refletindo sobre a trajetória do pai: "Foi, pois, o laboratório que o trouxe para a especialidade". Fato que, como diz, se reproduziria posteriormente na trajetória de outros eminentes dermato-sifilógrafos patrícios, como o fluminense Eduardo Rabelo e o paulista Adolfo Lindemberg (Anônimo, 1925:IV).

Muito provavelmente, o fato de ser um campo emergente no Brasil, ou em processo de profunda renovação, fez com que a dermato-sifilografia se tornasse desde logo mais permeável às novas teorias etiológicas e uma especialidade mais aberta para a afirmação de novos talentos. Em 1930, referindo-se também à trajetória de Silva Araújo, o sifilógrafo Joaquim Mota parece sugerir explicitamente tal interpretação, dizendo que, depois de ter tentado ingressar na área da cirurgia e de ter sido impedido por suas idéias bacteriológicas, Silva Araújo se voltou para os novos campos da parasitologia e da dermatologia. Segundo diz: "O laboratório empolgou-o completamente, afastando-o de seu primitivo campo de ação – a Cirurgia. A hostilidade do meio foi talvez a força que o impeliu nessa direção: a Parasitologia ensaiava os seus primeiros passos e ele compreendeu bem cedo que sua capacidade de trabalho, a firmeza de sua vontade, melhor seriam aplicadas na obra de desbravação do vasto campo que então apenas se começava a desvendar". Depois, complementa, "o estudo da Parasitologia [...] levou-o insensivelmente para o campo da Dermatologia" (Mota, 1930:297).

De todo modo, como ainda se verá mais detalhadamente, foi sobretudo Silva Araújo que, ao longo das décadas de 1880 e 1890, em contato direto com a intensa movimentação dos centros europeus em torno do perigo venéreo, passou a denunciar sistematicamente a progressão do mal na população brasileira, chamando a atenção dos próprios médicos, dos governantes e da população em geral para o problema.

Nasce uma especialidade

A carreira brilhante de Silva Araújo era já um excelente ponto de partida para toda uma geração de sifilógrafos que atuou nas primeiras décadas do século XX, dentre os quais se destacavam Aureliano Werneck Machado, Fernando Terra, Eduardo Rabelo e Oscar da Silva Araújo. Com sua morte, o médico fluminense Werneck Machado, já então membro titular da Academia Nacional de Medicina, ocupou seu posto na Policlínica. Só o deixaria meses antes de morrer, em 1929 (Anônimo, 1929). Diferentemente de Silva Araújo, o perfil de Werneck Machado parece ter sido antes o de um professor e de um competente clínico, do que o de um cientista ou pesquisador. No elogio fúnebre que os Anais Brasileiros de Dermatologia e Sifilografia publicam em 1929, ressalta-se sobretudo a obra "Clínica Dermato-Sifilográfica", de cunho didático (Anônimo, 1929:VIII). Além disso, Werneck Machado foi o primeiro historiador da luta antivenérea no Brasil, deixando-nos pelo menos um trabalho importante sobre o assunto, com farto acervo documental (Machado, 1915). Como veremos, sua atuação foi principalmente no sentido de continuar a agitação social em torno do perigo venéreo, iniciada por seu mestre. No necrológio de 1929, ressaltava-se sobretudo o fato de ter sido ele o responsável pela criação no Brasil, "graças a uma propaganda pertinaz pela imprensa e pela tribuna das sociedades médicas", de uma "consciência sanitária" em

relação às 12 doenças venéreas (Anônimo, 1929). Ainda segundo o mesmo necrológio, tal trabalho de agitação teria sido fundamental para a sensibilização das autoridades da República que, como veremos, acabariam colocando em prática uma política nacional de combate a tais males, a partir dos anos 20.

A importância da introdução do ensino especializado para o desenvolvimento da dermato-sifilografia no Brasil já era ressaltada em 1908 por Werneck Machado. Embora não fosse professor da Faculdade, foi ele quem fez o balanço da especialidade para a publicação comemorativa ao centenário do ensino médico no Brasil,

organizada por Alfredo do Nascimento e Silva.13 Segundo diz, até 1882 "a bibliografia ressente-se da escassez dos elementos e da pouca resistência do terreno propício ao respectivo desenvolvimento" (Machado, 1908:449). Depois disso, os trabalhos teriam se multiplicado e, em 1908, quando escreveu sua contribuição, Werneck Machado falava de um "campo de estudos em progresso rápido, participando do vigoroso impulso observado nos centros europeus" (Idem). Segundo dizia, "...patenteia este fato, o aparecimento de novas contribuições cada vez mais importantes e reveladoras da mais evidente firmeza em busca de sua plena independência e expansão" (Idem, 450).

Para ele, embora a maior parte de tais contribuições refletissem ainda conhecimentos divulgados pela literatura estrangeira, era "...de justiça entretanto consignar os dados fornecidos já pela observação colhida em nosso meio, onde, além dos estudos sobre a sífilis e as moléstias venéreas, torna-se sensível um crescente interesse pelas investigações não só referentes às moléstias da pele comuns a todos os países como principalmente as conhecidas sob a denominação de intertropicais, e de sua respectiva terapêutica, registrando a bibliografia, não pequeno número de contribuições dignas de nota" (Idem, 454).

Nas palavras de Machado, vê-se claramente espelhado o ideal que, intensamente perseguido pela sifilografia, parece ter caracterizado a medicina brasileira como um todo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX: o de se constituir em ciência genuinamente nacional (Schwarcz, 1993). Efetivamente, se os sifilográfos brasileiros gravitavam em torno de teorias e idéias produzidas na Europa, não deixaram de apresentar dados, descobertas e interpretações bastante originais, participando ativamente das emergentes reuniões internacionais, quer fossem dedicadas a discussões propriamente técnico-científicas, quer às melhores "armas" a serem utilizadas na luta antivenérea.

Efetivamente, a partir da primeira década do século XX, os focos de produção científica voltados para problemas referentes à dermatologia começavam a se diversificar no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Para isso, foi fundamental o surgimento e consolidação de centros de pesquisa bacteriológica e parasitológica como Manguinhos, no Rio, e os institutos Pasteur e Bacteriológico, em São Paulo. Neles, eminentes cientistas como Adolfo Lutz, Gaspar Vianna, Antônio Carini, Adolfo Lindemberg e Ulisses Paranhos passaram a desenvolver pesquisas originais sobre algumas doenças estudadas pela dermatologia, como a lepra,a leishmaniose ea blastomicose sul-americana. Para que se tenha uma ligeira idéia da importância de suas contribuições, basta lembrar que a blastomicose sul-americana ou moléstia de Lutz foi descrita pela primeira vez por Lutz, em 1908 (Zamith, 1976:701). Em 1911, o pesquisador de Manguinhos, Gaspar Vianna, diferenciava a leishmaniose tegumentar americana da oriental, "identificando" um microorganismo específico, a leishmania brasilienses, como causa da primeira. No ano seguinte, estabelecia o valor do tártaro emético no tratamento da doença, "abrindo caminho, como diz Benchimol, para seu uso no granuloma venéreo e na esquistossomose" (Benchimol, 1990:44). O trabalho de Gaspar Vianna apoiava-se em pesquisas anteriormente desenvolvidas em São Paulo por Ulisses Paranhos e Antônio Carini, ambos do Instituto Pasteur, e por Adolfo Lindemberg, do Instituto Bacteriológico. Em 1908/1909, observando inúmeros casos de doentes acometidos pela então chamada úlcera de Bauru que afluíam à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, eles já haviam isolado seu agente causador, identificando-o, entretanto, com a leishmania trópica que, já se sabia, causava em outras partes do globo a doença conhecida como botão do oriente (Teixeira, 1994:124-126). Tal conjunto de trabalhos não só confirmava a existência da leishmaniose no Brasil, como estabelecia sua especificidade e modo de tratamento.

Tendo como campo didático e experimental a Santa Casa de Misericórdia, onde funcionavam dois consultórios, uma enfermaria para homens e, a partir de 1910, outra para mulheres (Machado, 1915), a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro parece seguir, até a primeira década do século XX, um tanto distanciadamente os "progressos" que, ao menos quanto à pesquisa médica, realizavam-se fora dela. Pizarro Gabizo, primeiro catedrático de sifilografia, morreu em 1904, quatro anos após Silva Araújo. Depois de vinte e dois anos como professor da especialidade, não parece ter deixado qualquer trabalho de maior vulto sobre o assunto. Talvez isso se explique pelo fato de a cátedra oficial da Faculdade ter sido ocupada, até pelo menos a década de 1920, por especialistas mais voltados para a lepra do que para a sífilis ou outras dermatoses. Ao menos, é o que faz pensar o fato de tanto Pizarro Gabizo, quanto o seu sucessor Fernando Terra terem mantido, além da cátedra, a direção do importante Hospital de Lázaros de São Cristóvão. De todo modo, era fora dos quadros da faculdade que, além de Silva

Araújo, Juliano Moreira,14 Werneck Machado, Adolpho Lutz, Gaspar Vianna etc. vinham desenvolvendo até ali suas atividades. Porém, progressivamente, a faculdade vai se aproximando dos experimentalistas e, para isso, parece terem contribuído de forma decisiva Fernando Terra e Eduardo Rabelo. Em 1906, ambos são aprovados em primeiro lugar no concurso para a cátedra de dermatologia e sifilografia da Faculdade do Rio. Fernando Terra foi nomeado, mas incumbiu Eduardo Rabelo da organização do Laboratório de Clínica Dermatológica da Faculdade (Marques, 1941). Eduardo Rabelo já estava então na chefia do Serviço de Doenças de Pele e Sífilis da Policlínica Geral de Botafogo e havia desenvolvido sua tese de doutoramento, intitulada Hematologia na ancilostomose, nos laborátorios de Manguinhos. Anos mais tarde (1934), em discurso em homenagem a Fernando Terra, Rabelo diria ter sido Terra quem, à frente da cadeira de dermatologia e sifilografia da faculdade, atualizou o estudo da especialidade no Brasil, aproximando-o das "modernas aquisições no domínio da pesquisa clínica e experimental" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano IX, n° 1, 1934, p.22). À mesma época, outros nomes importantes iriam ser agregados à clínica dermatológica da Faculdade e ao serviço de sífilis da Santa Casa de Misericórdia. Entre eles, o filho de Silva Araújo, Oscar da Silva Araújo, que se encaminhou para a mesma especialidade do pai. Tornar-se-ia, anos mais tarde, um dos mais importantes especialistas brasileiros em dermatoses tropicais, dedicando-se especialmente ao estudo da bouba. Além disso, produziu trabalhos importantes sobre a história epidemiológica da sífilis no Brasil (Araújo, 1928), cujo valor seria amplamente reconhecido por Gilberto Freyre, em Casa grande e senzala.

Assim, por volta de 1912, já havia no Rio de Janeiro as condições para o surgimento da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, que, significativamente, passou a articular o grupo ligado à Faculdade, que contava com Fernando Terra, Eduardo Rabelo e Oscar da Silva Araújo; o grupo ligado a Manguinhos, com Lutz, Vianna, Area Leão, Heráclides César de Souza Araújo, entre outros; e, finalmente, o grupo ligado à Policlínica, com Werneck Machado e seus auxiliares. Além disso, agregava, como membros correspondentes, médicos que trabalhavam em outros estados, entre os quais Antônio Carini e Adolfo Lindemberg que, como vimos, pertenciam a institutos de pesquisa paulistas. Até 1925, Fernando Terra se manteria na presidência da entidade, com Werneck Machado ocupando a vice-presidência. Eduardo Rabelo e Oscar da Silva Araújo eram os secretários. Progressivamente, em torno desse núcleo central iriam agregar-se inúmeros outros médicos cariocas e

de todo o Brasil.15

Em 1918, em plena guerra européia, reunia-se no Rio de Janeiro o 1° Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Sifilografia, "atestado vivo", como diria Fernando Terra em seu discurso de abertura, "de nossa emancipação intelectual". Falando sobre o Brasil, Fernando Terra apontava "...a obra ingente de celebradas descobertas, que se aquilatam pelos conhecimentos seguros que nos orgulhamos de ter hoje sobre uma lista numerosa de doenças..." (Terra, 1921:4). Terra destacava a leishmaniose,a blastomicose,a úlcera fadegênica tropical,a bouba ou pian,a larva migrans,o granuloma ulceroso. Além disso, ressaltava a importância do trabalho dos brasileiros na melhor delimitação do próprio conceito de sífilis, pois, conforme dizia, muitas dessas doenças "despejavam no vasadouro comum da sífilis e da tuberculose" (Idem).

Sem falsa modéstia, dizia ser "admirável o progresso rápido que logrou alcançar nos derradeiros tempos a nossa patologia cutânea", tanto no que dizia respeito ao esclarecimento da etiologia de várias doenças, quanto à sua terapêutica (Idem). Afirmava também que o desenvolvimento da especialidade já não se restringia mais, como em fins do século XIX, ao Rio de Janeiro e Bahia, pois outros centros regionais de ensino e de pesquisa vinham se implantando, com o surgimento de faculdades de medicina em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Nas décadas seguintes, com a multiplicação dos serviços e das cátedras, a comunidade dos dermato-sifilógrafos brasileiros se expandiria e se consolidaria. Nesse sentido, a década de 1920 foi particularmente auspiciosa, pois, em seu início, um dos mais promissores representantes dessa comunidade elaboraria e executaria o primeiro programa nacional de combate à sífilis. Trata-se de Eduardo Rabelo, cujo enorme prestígio acadêmico, nacional e internacional, faz com que possa ser considerado o legítimo herdeiro do velho Silva Araújo. Porém, diferentemente deste último, Rabelo conseguiria concentrar em suas mãos poderes institucionais muito maiores. Trabalhando como auxiliar técnico do Laboratório de Bacteriologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro desde 1906-7 (Seidl, 1914), Rabelo se tornaria, em 1915, professor substituto da cátedra ocupada por Fernando Terra. Desde 1912, era secretário da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia e, em 1914, foi enviado pelo então diretor da Diretoria Nacional de Saúde Pública, Carlos Seidl, à Europa, para estudar as medidas lá adotadas para a profilaxia da sífilis. No início dos anos vinte, Rabelo seria nomeado para a direção geral da então criada Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, sendo incumbido por Carlos Chagas de organizar e executar a campanha contra as doenças venéreas ea lepra no país. Três anos após o início da campanha, em 1925, com a aposentadoria de Fernando Terra, Rabelo assumiria a titularidade da cátedra de doenças de pele e sífilis da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (da qual viria a ser, anos mais tarde, diretor) e a presidência da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia (Marques, 1941). Seria detentor, portanto, de uma posição institucional realmente extraordinária. Durante um certo período, ocupou simultaneamente a cátedra de sifilografia mais importante do país (e, conseqüentemente, a chefia das enfermarias da prestigiosa Santa Casa de Misericórdia), a direção nacional da luta contra sífilis e, finalmente, através da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, a liderança da comunidade de especialistas brasileiros. Em certa medida, o prestígio de Rabelo se ancorava também em sua produção acadêmica. Em elogio fúnebre escrito em 1941, o herdeiro de sua cadeira na Academia Nacional de Medicina diz que, embora fosse mais um homem de ação e tivesse publicado muito pouco, Rabelo teria deixado importantes contribuições científicas, entre as quais destacava: "...a teoria unitária da leishmaniose tegumentar, o conceito de framboesia trópica que, secundado por Austregésilo e [Oscar da] Silva Araújo, mostrou não ser o de doença trifásica, como a sífilis, mas sim o da ocorrência de lesões de tipos diversos não distribuídas em ordem regular; os estudos sobre lepra tuberculóide, de que lhe coube indiscutível prioridade no acentuar a importância, mostrando mesmo constituir uma terceira forma do mal" (Marques, 1941:288).

Até 1940, ano de sua morte, Eduardo Rabelo seria secundado na Faculdade, na Sociedade e na Inspetoria, por Oscar da Silva Araújo. Em 1926, Silva Araújo o substituía na chefia da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas e, depois de 1940, na presidência da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, onde permaneceria por dois anos, até a sua própria morte, em 1942.

A partir dos anos 20, sob a liderança de Rabelo e Silva Araújo, inaugurou-se o que parece ter sido a idade de ouro da sifilografia brasileira e, simultaneamente, como veremos, da luta antivenérea no país. Antes de mais nada, a figura do especialista era oficialmente consagrada no Regulamento Sanitário que, em 1920, reorganizava radicalmente a saúde pública brasileira, criando a

Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas.16 Segundo o Regulamento, os médicos recrutados, em todo o território nacional, para os futuros serviços antivenéreos deveriam ser escolhidos entre os que tivessem "conhecimentos especializados em relação à lepra e às doenças venéreas" (Diário Oficial, 16/09/1920:15547). Ora, os únicos médicos que estudavam conjuntamente a lepra e, além do cancro mole, a mais importante das doenças venéreas,a sífilis, eram os dermato-sifilógrafos. A blenorragia era a única das doenças venéreas então conhecidas que lhes escapava, sendo estudada pelos urologistas que, à época, apenas começavam a implantar sua especialidade entre nós. A Sociedade Brasileira de Urologia seria fundada em 1926 e que as primeiras cátedras da especialidade apenas seriam criadas no país em 1929 e 1930, na Faculdade Fluminense de Medicina e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, respectivamente (Goyanna, 1986:460). O primeiro congresso brasileiro de urologia só se realizaria, na capital federal, em 1935.

A relevância da sifilografia na formação do clínico generalista era também reconhecida em artigo especial do Regulamento, que estabelecia ser dever do novo Departamento Nacional de Saúde Pública "esforçar-se com empenho junto das Faculdades de Medicina do país para que seja obrigatório aos alunos o exame de Venereologia, e estágio em um serviço clínico especializado, e bem assim lhes seja ministrada a maior soma possível de conhecimentos práticos quanto ao diagnóstico, tratamento e prevenção das

doenças venéreas (Idem, 15570). 17

Porém, inexistindo uma venereologia, enquanto cátedra e especialidade autônoma – a primeira de que tenho notícia apenas seria criada em meados dos anos 30, na Faculdade de Ciências Médicas do Rio (Machado Filho, 1941:34) –, é a dermato-sifilografia que se tornaria obrigatória. Já em 1922, com o voto de louvor da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, a freqüência e o exame de clínica dermatológica e sifilográfica tornavam-se obrigatórios na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Como diziam os sifilógrafos, até então o aluno podia atravessar os seis anos do curso de medicina sem fazer um estudo sistematizado e integral da sífilis, apesar de que "aqui e ali, continuamente, quase à beira de cada leito, via o estudante indicar o professor de clínica os efeitos da lues" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano I, n° 3, junho, 1925, p.41). Aos olhos dos sifilógrafos, a obrigatoriedade se justificava pelo fato de que a "cadeira de clínica dermatológica e sifilográfica, mais que qualquer outra clínica especializada, compreende o estudo de doenças que não só possuem um interesse geral para o médico prático, que não as pode desconhecer, como ainda envolve problemas sanitários de alta relevância social" (Idem).

O Regulamento Sanitário outorgava também especiais poderes aos especialistas na luta contra seus "concorrentes desleais": curandeiros, charlatães etc., estabelecendo que a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas deveria ser consultada obrigatoriamente pela Inspetoria de Fiscalização do Exercício da Medicina e Farmácia "para concessão de licença de fabrico ou venda de preparado, oficinal ou especialidade farmacêutica antivenérea" (Diário Oficial, 16/09/1920:15570). Através de campanha educativa, a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas deveria ainda "prevenir ao público por todos os meios possíveis, dos graves inconvenientes que traz à saúde pública o charlatanismo médico ou farmacêutico em relação às doenças venéreas e seu tratamento por pessoa que não seja devidamente habilitada" (Idem).

Em 1925, em meio a maior campanha contra a sífilis que o Brasil veria até meados da década de 1940, surgia o primeiro número dos Anais Brasileiros de Dermatologia e Sifilografia, "órgão oficial" da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia. Os primeiros números foram publicados por Eduardo Rabelo, Oscar da Silva Araújo e Gilberto de Moura Costa. Na direção científica, além de Werneck Machado, estavam, entre outros, Adolfo Lutz, Adolfo Lindemberg e Fernando Terra. Desde o início, a publicação contava ainda com inúmeros colaboradores de vários estados brasileiros, principalmente do Rio de Janeiro (com 42 colaboradores), São Paulo (com 7) e Salvador (com 4). No editorial do primeiro número, entre as razões para a criação do periódico, arrolavase a importância ou o "notável desenvolvimento" desse ramo da medicina no Brasil: "Oswaldo Cruz ao criar a escola de Manguinhos e a Medicina experimental no Brasil fez com que se estudassem certas dermatoses parasitárias que com mais freqüência se observam nos climas quentes e sobre as quais os trabalhos brasileiros avultam hoje, não só pelo número, mas também pelo valor" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano I, n° 1, 1925, 1ª p.).

Além disso, fazendo referência à campanha que vinha sendo desenvolvida pela Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, continuava o editorial "...a extensão que por todo o Brasil ganharam os serviços de combate às doenças venéreas despertou geral interesse pelo estudo da venereologia e particularmente da sífilis, que, hoje, graças ao grande número de centros de tratamento vai sendo bem observada pelos médicos brasileiros" (Idem).

Entre esses novos serviços, merece destaque a criação durante os anos de 1920, na capital federal, da Fundação Gafrée-Guinle. Vasta organização antivenérea que, além do tratamento de doentes,

dedicavase também à pesquisa sifilográfica. 18 A pesquisa especializada passava também a ser desenvolvida no âmbito da própria Inspetoria que, segundo relatava em 1927 o inspetor geral, Oscar da Silva Araújo, teria se transformado em "centro de estudos", apresentando, durante a década de 20, trabalhos em

congressos nacionais e internacionais. 19 Segundo a mesma fonte, seus técnicos, muitos dos quais pertencentes à Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, desenvolviam pesquisas no laboratório da Inspetoria e, alguns deles, aprofundavam seus estudos "no estrangeiro". Além disso, Oscar da Silva Araújo dizia que: "Dos serviços da Inspetoria nos estados e na capital, especialmente dos que estão diretamente afetos à Fundação Gafrée-Guinle, tem saído várias teses, algumas premiadas pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e versando todas assuntos atinentes aos problemas de que cuida a Inspetoria" (Araújo, 1927:55).

Assim, a partir dos anos 20, a rede dos sifilógrafos estendeu-se por todo o país. No início dos anos 40, a Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia já conta com 112 associados, sendo 59 radicados no Rio de Janeiro e o restante em outros estados brasileiros e em outros países da América. Durante esse período, manteve-se em comunicação estreita com diferentes centros estrangeiros; recebeu a visita de importantes nomes da dermatologia internacional, notadamente da América Latina e dos

Estados Unidos;20 e seus membros (principalmente Eduardo Rabelo e Oscar da Silva Araújo) foram ouvidos nos principais foros internacionais. Um bom exemplo da ampla representação brasileira nos encontros internacionais da especialidade nos anos 20/30 pode ser o 8° Congresso Internacional de Dermatologia e Sifilografia, realizado em 1930, em Copenhague. Além de haver 40 médicos brasileiros presentes, Eduardo Rabelo era um dos vice-presidentes do Congresso (Comptes rendus, 1931).

Os Anais eram a voz oficial dos sifilógrafos brasileiros. Até meados da década de 1930, iriam apoiar firmemente a política sanitária desenvolvida por Eduardo Rabelo e Silva Araújo, à frente da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas. E, a partir da extinção da Inspetoria, em 1934, passariam progressivamente a assumir, através de seus editoriais, uma postura mais polêmica, chegando mesmo a criticar severamente a inação do longo governo Vargas quanto às doenças venéreas. É interessante notar que, no mesmo momento em que se extinguia a Inspetoria, ou seja, em meados da década de 1930, os Anais também passavam a dar mostras de um certo enfraquecimento. A publicação bimestral passa a ser praticamente semestral, sendo comum (como ocorre nos anos de 1936 e 1937) que os seis números previstos surjam agrupados em um único volume. Ao assumir em 1933 a direção científica e administrativa da publicação, o sifilógrafo A. F. da Costa Jr. reconhecia que "os Anais têm se ressentido da irregularidade da sua publicação, que afugenta os colaboradores e desinteressa os leitores" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano VII, n° 1, 2, 3, 1933). Além disso, durante os anos 30, é notável o decréscimo do número de artigos que, neles, tratavam especialmente da sífilis.

No campo mais amplo da medicina, os anos 30 se caracterizariam pelo surgimento de novos discursos especializados sobre a sífilis, deslocando-a em relação à dermatologia. Tal deslocamento coincidiu historicamente com a extinção da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas e, como veremos, de toda uma proposta de intervenção social, até ali gestada basicamente no seio da comunidade dos dermato-sifilógrafos. Como índice dessa diversificação, temos o surgimento de outras publicações diretamente voltadas para a sífilis, mas tendentes a incluí-la com as outras doenças venéreas, no âmbito de uma venereologia, ou, com os demais problemas sexuais, nos quadros de uma sexologia. Entre tais publicações destacam-se o Jornal de Sífilis e Urologia,o Jornal de Andrologia eo Boletim de Educação Sexual.

Aparentemente, a assimilação da sífilis à urologia buscava contribuir para a aproximação do seu estudo ao da outra mais importante doença venérea,a blenorragia.O Jornal de Sífilis e Urologia apareceu em 1930 com o nome de Jornal de Sífilis, Doenças de Pele e do Aparelho Genito-Urinário. Inicialmente, sob a direção do polêmico médico Reginaldo Fernandes, reunia em seu conselho editorial os mais eminentes dermatosifilógrafos e urologistas cariocas: Eduardo Rabelo, Oscar da Silva Araújo, Fernando Terra, Joaquim Mota, entre os sifilógrafos, e Estelita Lins, Belmiro Valverde, entre os urologistas. Depois de um ano de existência, Reginaldo Fernandes explicava o sucesso da publicação pelas leis do "determinismo" do meio intelectual circundante: "A Sifilografia, melhor dizendo, a Dermato-sifilografia chegou a tal ponto, no Rio, como campo de experimentação clínica e observação científica, que o aparecimento do ‘Jornal de Sífilis’ não pode ser olhado senão como uma conseqüência inevitável e lógica" (Fernandes, 1931:295).

Em seus dois primeiros anos de existência, o Jornal de Sífilis irá exibir as inconsistentes idéias marxistas de seu diretor que, em pontos capitais, irá discordar, como veremos, da política antivenérea adotada no Brasil.

O Jornal de Andrologia eo Boletim de Educação Sexual apareceram, respectivamente, em 1932 e 1933 e, durante toda a década, seriam publicados em grandes tiragens. Ambos são armas do duplo combate de um outro médico polêmico, José de Albuquerque, que significativamente não fazia parte da elite sifilográfica nacional. Seu primeiro objetivo era a disseminação da educação sexual e antivenérea no país. O segundo, a instituição de uma nova disciplina científica, batizada por ele de andrologia, que, a exemplo do que a ginecologia fazia com as mulheres, estudaria "a fisiologia, a higiene e a patologia sexuais do homem, bem como a terapêutica dos desvios mórbidos dessa função" (Jornal de Andrologia, ano I, n° 1, 1932, 1ª p.). Poupando os sifilógrafos, Albuquerque dirigiria suas críticas sobretudo aos urologistas. Do seu ponto de vista, não haveria relações assim tão estreitas entre o aparelho urinário e o sexual que não permitisse a existência de duas ciências (Idem). Além de estudar as alterações das funções sexuais (homossexualidade, masturbação, impotência, ejaculação precoce, esterilidade etc.), a andrologia deveria se ocupar também das alterações dos órgãos sexuais, o que incluía, além dos traumatismos, deformações etc., as infecções, especialmente as doenças venéreas. Como diria um dos colaboradores do Jornal de Andrologia, "as infecções e inflamações são o prato substancioso não só da Ginecologia como da Andrologia" (Jornal de Andrologia, ano I, n° 2, 1932, p.4). Porém, mais que as vicissitudes da andrologia no Brasil (objeto de considerações mais detalhadas adiante), o que interessa ressaltar neste momento é sobretudo a tendência que se evidencia através dela de dissolver-se o estudo da sífilis e das doenças venéreas no âmbito mais amplo de uma reflexão sexológica, colocando em cena, a partir dos anos 30, outros especialistas que passariam, como veremos, a avaliar tais males de novas perspectivas.

Efetivamente, não parece ter sido fácil aos sifilógrafos manterem a sífilis nos limites de sua especialidade. Antes de mais nada, porque o discurso que constroem a esse respeito carregava em seu seio uma contradição, característica talvez de todo campo ou subcampo científico que procura legitimar-se socialmente. De um lado, como vimos, em busca de reconhecimento, os sifilógrafos insistiam que a sífilis interessava a todos os ramos da medicina, devendo ser

obrigatoriamente estudada nas faculdades.21 De outro, simultaneamente, tinham que defender as fronteiras da especialidade contra a banalização do seu conhecimento, virtualidade da própria estratégia de implantação utilizada.

Em 1942, ao assumir, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a cátedra que fora de seu pai, Francisco Eduardo Acioli Rabelo (ou Rabelo Jr.) tocava, em sua lição inaugural, justamente nesse ponto. Antes de mais nada, lembrava que se a sífilis devia ser estudada em todas as disciplinas do currículo médico, era necessário haver uma disciplina que "centralizasse" os estudos relativos à moléstia. Tal disciplina era indubitavelmente a dermatologia, pois, segundo ele, "é realmente sobre a pele que assistimos ao desenrolar das grandes etapas da sífilis". Porém, parecia supor que o médico prático ou clínico geral deviam apenas aprender o suficiente para reconhecer a doença e enviar o caso para o especialista, pois, conforme dizia "só o dermatologista sabe também como tem sido exagerada a atitute do médico prático em nosso meio quando vê a sífilis em toda a parte e, coisa pior, quando administra a torto e a direito a medicação anti-sifilítica" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano 17, n° 2, junho de 1942, p.102).

Continuar: parte 2 de 3