Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil

Sérgio Carrara · Capítulo 2 de 8 · parte 2/3

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Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil

2 - A sífilis e os sifilógrafos no Brasil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Este tipo de crítica era corrente e voltaria ainda na pena do sifilógrafo Perilo Galvão Peixoto, que, em meados da década de 1940, assumia a presidência da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia. Ao discorrer nos Anais sobre as dificuldades que a dermatologia encontrava para se estabelecer plenamente como disciplina autônoma, afirmava que, por vezes, tentava-se excluí-la do currículo médico, ou nomeava-se não-especialistas para as funções dos dermatologistas. E voltava a atacar os clínicos: "Mais além, são os clínicos a untarem de pomadas os portadores de sífilis cutânea ou vice-versa, a abarrotarem de anti-sifilíticos quanta dermatose de causa externa lhes caia nas garras" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano XX, n° 4, 1945, p.5).

Apesar de os sifilógrafos reclamarem até os anos 40 que sua especialidade não merecia a consideração devida nos cursos médicos, que sofria constantemente "invasões" de não-especialistas, ou ainda que o governo não dava a importância devida à sífilis enquanto problema de saúde pública, julgo que se deva considerar, de um modo geral, bemsucedida a implantação da sifilografia no Brasil. Em parte, tal sucesso poderia ser explicado pela divulgação, entre nós, das terríveis características gerais que lhe vinham sendo atribuídas por pesquisadores estrangeiros (ver Do Mal Venéreo à Sífilis e Sífilis Doença Universal, cap. 1). Porém, além disso, os sifilógrafos brasileiros souberam fazer – e puderam fazer com que à sífilis se articulassem outros candentes problemas nacionais. Através de suas pesquisas e observações, delinearam uma espécie de "sífilis nativa", especificamente brasileira, cuja disseminação, sempre considerada alarmante, ao flagelar a "nossa raça", trazia renovados perigos para a nacionalidade. Como veremos no capítulo seguinte, potencializavam desse modo ainda mais os malefícios sociais da doença e a importância de sua prática profissional.

Apenas uma palavra de cautela antes de seguirmos. Não quero dizer com tudo isso que a história da implantação sifilográfica no Brasil, ou em outros países, possa ser reduzida apenas à análise do modo pelo qual os especialistas souberam construir seu problema e, demonstrando seu impacto social, puderam carrear recursos para suas atividades. Apesar de sua enorme importância em todo esse processo, havia também outros poderosos interesses em jogo e, ao menos no caso da sífilis, o papel da emergente indústria farmacêutica para a consolidação da rede de sifilógrafos mereceria uma pesquisa à parte. Periódicos como os Anais Brasileiros de Dermatologia e Sifilografia eo Jornal de Sífilis e Urologia, eram em larga medida financiados pela propaganda de remédios produzidos e comercializados por laboratórios nacionais e estrangeiros, como a Rhódia, a Bayer, Parke & Davis etc. É interessante notar que, enquanto os laboratórios nacionais produziam substâncias derivadas do mercúrio e do bismuto, a produção dos derivados do arsênico (Salvarsan, Neo-salvarsan etc.), considerados muito mais eficazes, parece ter estado sempre sob monopólio de empresas estrangeiras. Através da propaganda publicada nas revistas especializadas, podemos mesmo notar que, na conquista do mercado brasileiro de anti-sifilíticos, houve uma guerra surda entre elas. Assim, em 1934, enquanto a Rhódia anunciava o Rodarsan – "o 914 da atualidade" (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano IX, n° 2, 1934), a Bayer anunciava o 914 ou Neo-salvarsan, "preparado original de Paul Eherlich", alertando os consumidores que "recentemente muitas casas comerciais estão se aproveitando deste nome para a propaganda dos seus produtos substitutos", sendo, portanto, "indispensável, mencionar sempre por ocasião da compra o fabricante, afim de receber o Neo-salvarsan legítimo"(Jornal de Sífilis e Urologia, ano V, nº 54, 1934). O desenvolvimento dessa linha de reflexão está, entretanto, fora do escopo deste livro.

 

Sifilografia (seu desenvolvimento no Brasil)

 

Cerca de Fases Nomes Eventos

Paradigmáticos Paradigmáticos

 

passagem implantação Silva Araújo criação das do século primeiras

PizarroGabizo cátedras de

sifilografia nas faculdades de

Medicina do Rio e

Salvador (1882);

surgimento dos

primeiros serviços

especializados,

como a

Policlínica Geral

do Rio de

Janeiro, onde também se

realizavam ensino

e pesquisa.

 

anos 10 expansão Werneck Surgimento das

Machado primeiras Fernando Terra sociedades

científicas, como a

Sociedade

Brasileira de

Dermatologia e

Sifilografia(1912), realização dos

primeiros

congressos

especializados,

como o 1° Congresso

Sulamericano de

Dermatologia e

Sifilografia

(1918);

diversificação de

centros de ensino

e pesquisa.

 

anos consolidação Eduardo multiplicação dos 20/30 Rabelo serviços;

surgimento de

O. da Silva organizações Araújo centralizadas

federais, como

Inspetoria de

Profilaxia da

Lepra e das

Doenças

Venéreas; reconhecimento

oficial da

especialidade,

obrigatoriedade da

disciplina no

currículo.

 

anos preservação Joaquim Mota surgimento de 30/40 novas

Rabelo Filho especialidades

disputando o

mesmo objeto,

como a

Andrologia, a Urologia etc.

 

anos 50 desarticulação desaparecimento

em diante progressivo de

serviços, cátedras

e do próprio

especialista.

 

Uma sífilis brasileira?

Expor o modo pelo qual os médicos brasileiros estabeleceram as particularidades da sífilis no Brasil significa acompanhar o diálogo nem sempre explícito que mantiveram com os especialistas estrangeiros. Diálogo que parece se tornar progressivamente mais equilibrado à medida em que, ao longo da primeira metade do século XX, a comunidade de sifilógrafos brasileiros consolidava seu prestígio acadêmico. Ao longo de todo o período considerado por esta pesquisa, os médicos brasileiros procuraram esclarecer a incidência da sífilis no Brasil (suas características específicas), sua extensão singular e suas causas ou condicionantes locais. Construíram uma espécie de sífilis brasileira, que, se em muitos aspectos estava de acordo com o que dela esperavam os especialistas estrangeiros, em outros distanciava-se significativamente.

É possível estruturar esse diálogo em torno de três temas principais. O primeiro relaciona-se à idéia de a sífilis ter se originado na América, devendo ser considerada, portanto, doença autóctone no país. O segundo diz respeito à sua enorme disseminação no Brasil, comparativamente a outros países, dadas certas variáveis biológicas, sociais e morais especificamente brasileiras. Tais variáveis explicavam em parte, e este é o terceiro tema, a feição singularmente terrível com aqual a sífilis se manifestaria entre nós. Conforme transparece na documentação brasileira, podemos dizer que, do ponto de vista da sifilografia internacional da passagem do século, além de espécie de patrimônio imemorial, a sífilis brasileira devia ser considerada, dada sua larga disseminação, uma espécie de atributo dos brasileiros, nos quais ela se manifestaria de modo terrivelmente grave e mutilante. Se não era exatamente isso o que pensavam os estrangeiros, foi, entretanto, em relação a essa representação genérica que os médicos brasileiros se posicionaram e veremos agora o modo como o fizeram. Irei enfatizar sobretudo o papel decisivo desempenhado pela sífilis, a partir dos anos 20, no deslocamento da alentada discussão em torno das causas da degeneração racial no Brasil do tema da miscigenação racial (os efeitos da conjunção dos neolatinos com raças ainda mais inferiores) para o da patologia sexual.

Uma doença estrangeira

Nenhuma outra doença parece ter provocado tanta polêmica em relação ao seu local de origem quanto a sífilis. Por ter sido talvez o mais estigmatizante de todos os males, nenhum povo ou nação aceitava de bom grado ser apontado como seu berço, "privilégio" que sempre se reservava aos inimigos, daí o fato de ter recebido, ao longo dos séculos, tantos nomes diferentes (ver Do Mal Venéreo à Sífilis, cap. 1, nota 4). Como dizia um sifilógrafo brasileiro da década de 1920: "A sífilis, ninguém a quer, nem como hóspede, nem como vizinha e muito menos como patrimônio histórico ou de família. A sua vida de indesejável, negada por toda a parte, apresenta, já por si, um embaraço para a fixação de sua história através dos séculos" (Almeida, 1925:III).

Até hoje inconclusa, a discussão em torno da possível origem americana da sífilis remonta ao início do século XVI, quando, trinta anos após as primeiras descrições da doença feitas pelos médicos europeus, os espanhóis Gonzalo Fernandez Oviedo y Valdes, Diaz de Isla, e ainda o sacerdote Bartolomé de las Casas atestavam que a sífilis (que eles chamam de bubas) teria eclodido primeiramente em Barcelona, logo após o desembarque das naus de Colombo.

Atualmente, há um certo consenso quanto ao fato de a sífilis ser uma doença desconhecida no Velho Mundo até finais do século XV. Porém, sua origem ainda causa polêmica. Em seu clássico, Plagues and Peoples, William McNeill diz que, depois de ter sido aventada em 1539 por Oviedo y Valdes, a teoria da origem americana da sífilis teria sido amplamente aceita até muito recentemente, quando as dificuldades de distinção em laboratório do treponema causador da sífilis (treponema palidum) do treponema causador da bouba (treponema pertenue), fizeram com que toda uma escola de médicos historiadores rejeitasse a teoria americana completamente. Treponematose de transmissão não-sexual, a bouba existia em toda a faixa tropical do globo e, segundo MacNeill, a possibilidade de uma variedade do treponema pertenue ter encontrado meios de se transmitir sexualmente é tão provável quanto a possibilidade de a sífilis ter se espalhado a partir do contato com a América. Segundo diz, "Para que se possa provar uma coisa ou outra é preciso esperar o desenvolvimento de métodos precisos e confiáveis para identificação de organismos que causam lesões nos ossos. Caso isso permaneça impossível para as técnicas bioquímicas, será difícil estabelecer qualquer base para uma opção entre as duas teorias rivais". (Macneill, 1976:194). Inclinado, por seu lado, a acreditar na origem americana do mal, Claude Quétel diz que trabalhos mais recentes (da década de 70) sobre o assunto apontam a existência de lesões ósseas muito provavelmente produzidas pela sífilis ou, em todo caso, por alguma treponematose em várias ossadas pré-colombianas provenientes da Argentina, do Peru, do México, da Guatemala, das Antilhas e de diversas regiões dos Estados Unidos. Sendo, ao mesmo tempo, impossível encontrar lesões semelhantes em ossadas européias anteriores a 1500 (Quétel, 1986:54). Segundo diz, "não há razão para que o Novo Mundo, dizimado pela varíola, pela rubéola e pela difteria importadas da Europa (e que se manifestaram inicialmente com a mesma violência com que a sífilis surgiu na Europa), não tivesse nada a dar ‘em troca’. Era a América, como afirma freqüentemente a nossa ainda imatura epidemiologia histórica, um isolado perfeito do ponto de vista das doenças infecciosas? Pode parecer uma ilha, mas se trata de um continente..."(Idem, 58).

Antes de ter se estabelecido mais firmemente ao longo da primeira metade do século XX, a crença na origem americana do mal parece ter oscilado, conforme se aceitasse uma ou outra das diferentes concepções da doença. Caso se acreditasse, por exemplo, em sua geração quase espontânea a partir de uma sexualidade pecaminosa e/ou excessiva, a hipótese de uma origem americana não podia facilmente ser sustentada. Como o pecado havia nascido com o mundo e o excesso sexual não era uma prerrogativa dos índios americanos, não havia qualquer razão plausível para se acreditar que os antigos desconhecessem os seus frutos. Como explicitava um médico brasileiro de meados do século XIX: "Se a natureza pretendeu castigar aqueles que infringiam as suas leis com as afecções sifilíticas, por sem dúvida não esperaria até o descobrimento da América para sobre os delinqüentes arremessar o golpe fatal, por isso que muitos séculos antes desse descobrimento viveram os césares, os neros, os heliogábalos, as messalinas e outros prodígios de voluptuosidade" (Lima, 1849:2).

Até a passagem do século, mesmo depois de a relação entre a sífilis ea imoralidade ter se tornado indireta, ou mediada pelo contágio, o valor moral da doença continuou a fornecer argumentos aos que se opunham à hipótese americana. Assim, em 1880, contra ela, diria o médico Rodolfo Júlio Xavier: "É natural e mesmo possível desde que a sociedade se formou, desde que houve cidades e ajuntamento de povo, quer por livre vontade, quer por obrigação, que esses estados mórbidos se manifestassem, principalmente quando houve médicos que provaram encontrar lesões nos órgãos genitais de homens que tinham certo modo de vida irregular e contínua prática de costumes depravados e prejudiciais" (Xavier, 1880:38, grifo meu).

Assim, se até o início do século XX muitos ainda duvidavam da origem americana da sífilis, era porque, como dizia Pires de Almeida, "as Américas não ofereceram nunca os mais obscenos exemplos de corrupção que nos apresentou o Velho Mundo" (Almeida, 1902:77). Se a sífilis era tão antiga quanto a humanidade, isso se explicava pelo fato de a prostituição, "sua saturnal companheira", também o ser (Silva, 1906:1).

A hipótese americana estava igualmente excluída caso se considerasse a doença como transformação de outra doença mais antiga, como a lepra, como produto de conjunções astrológicas ou climáticas, ou ainda, como simples fenômeno inflamatório. Desse modo, embora nem todos os contagionistas fossem partidários da hipótese americana, todos os que defendiam a origem americana do mal supunham necessariamente o seu caráter contagioso. Pode-se mesmo acreditar que, depois da "revolução pasteuriana", com a vitória indiscutível dos contagionistas, a consolidação da hipótese americana tenha recebido contribuição decisiva.

Durante o século XIX, a opinião dos médicos brasileiros a esse respeito parece ter divergido. Em 1844, por exemplo, o renomado professor Sigaud escrevia em seu Du climat et des maladies du Brésil: "A sífilis faz grandes devastações entre as populações nômades, e embora alguns observadores pensem que ela se difundiu principalmente após a conquista dos portugueses, verificou-se que a doença já existia entre os indígenas que ainda não tinham tido contato com os europeus. O viajante Ribeiro de Sampaio, em sua memória publicada em 1775, diz ter encontrado tribos com sintomas evidentes de moléstia venérea" (apud Araújo, 1928a:15).

É certo que até o início do século XX, as opiniões de Sigaud seriam

citadas pelos partidários da origem americana da doença,22 porém, no momento em que escrevia, outros médicos discordavam dessa idéia, apontando claramente o caráter discriminatório e estigmatizante da hipótese americana. Depois de afirmar que a epidemia da sífilis começara em Nápoles, dois anos antes da chegada da frota espanhola, não podendo, portanto, ter sido levada até lá por ela, Azambuja acrescentava ainda: "Se outras provas fossem necessárias para mostrar a falsidade da opinião de Oviedo, bastaria citar a manifesta parcialidade que encontra-se em diferentes tópicos de sua obra contra os habitantes da América, por ele comparados aos cananeus, entretanto que chama os espanhóis povo de Deus, afim de corar com uma aparência de justiça as atrocidades que cometeu contra os pobres índios durante o seu governo" (Idem, 18).

Para Lima, igualmente, Oviedo "querendo desculpar o seu procedimento com os desgraçados americanos, querendo rasgar essa medonha página de sua carreira política, ocultar essa vil mancha aos olhos de seu rei e do mundo, fez acreditar ao povo e mesmo a um avultado número de facultativos ilustres que a pura, a inocente América, ignorando torpezas, ornada dos costumes os mais simples, havia comunicado sífilis a já tão corrupta e voluptuosa Europa" (Lima, 1849:2).

A idéia contrária vai entretanto se firmando e, em 1925, o médico Theófilo de Almeida escrevia que "as simpatias dos nossos sifilógrafos, parece, estão de preferência voltadas para os partidários da origem americana..." (Almeida, 1925:III). Com a progressiva aceitação da hipótese americana ao longo da primeira metade do século XX, os sifilógrafos brasileiros irão entretanto empreender um importante trabalho de "geopolítica simbólica" no sentido de demonstrar que, sendo de origem americana – como acreditavam, entre outros, os franceses A. Fournier e E. Jeanselme

(seu sucessor como grande mestre da sifilografia francesa) –,23 a sífilis não era conhecida no Brasil antes da Descoberta. Ou, como dizia Eduardo Rabelo em 1918, ao 1° Congresso Latino-Americano de Sifilografia e Dermatologia, que ela havia sido, "mau grado nosso, implantada em nos-so solo virgem e transmitida à nossa raça sadia" (Rabelo, 1921:325). Para tanto, os sifilógrafos brasileiros irão se voltar para os cronistas do século XVI e para os testemunhos que começavam a ser produzidos de forma mais sistemática sobre os povos indígenas brasileiros ainda isolados. Abandonam raciocínios de tipo dedutivo – se a sífilis é tal tipo de doença, deve ter surgido em tal tipo de lugar –, que haviam caracterizado a polêmica até então, para se apoiarem em "provas positivas".

Para Eduardo Rabelo, não parecia haver dúvida quanto ao fato de a sífilis ser originária das Grandes Antilhas e de ter sido levada à Europa por Colombo. Em artigo de 1925, dizia ele: "Assim depõem, para bem dizer, todos os escritores da época; cronistas, historiógrafos, amigos ou inimigos dos índios e, principalmente, os médicos que a partir da data da volta de Colombo, começaram a descrever com impressionante unanimidade o "morbus novus", "inauditus", "ignotus" que, passando da América à Espanha, assolou a França e a Itália sob aspecto francamente epidêmico, tal como ainda hoje vemos a sífilis se propagar em certas possessões européias de além-mar, ainda indenes. Tanto era desconhecida que lhe não sabiam o nome e foi sendo mal espanhol, francês, napolitano, até que do poema de Fracastoro se derivou a atual denominação" (Rabelo, 1925:IV).

Porém, não podia ser brasileira, uma vez que todos os nossos cronistas de primeira hora haviam tecido, segundo o sifilógrafo, "universais gabos à pele dos índios". Apenas os cronistas da segunda metade do século XVI (André Thévet, Jean de Lery, Gabriel Soares de Souza) e observadores posteriores teriam se referido à incidência de males que se poderiam considerar manifestações sifilíticas ou boubáticas entre as populações indígenas, já em contato regular com europeus e africanos. Além disso, observadores contemporâneos de Rabelo, como Rondon, Murilo de Campos, Olímpio da Fonseca Filho e Roquette Pinto vinham atestando que populações indígenas ainda isoladas eram indenes à sífilis.

Também nos anos 20, a inexistência da sífilis no Brasil pré-cabralino começava a ser intensamente defendida por Oscar da Silva Araújo, que, em longa e fundamentada exposição, retoma as fontes sobre as quais se baseavam os que mantinham opinião contrária. Sigaud, como vimos, apoiava-se em relato setecentista de Ribeiro de Sampaio. Tal relato era sem dúvida estratégico por tratar justamente da região do rio Negro, próxima às Antilhas. Citando Sampaio, Araújo mostra que os sintomas por ele descritos só teriam podido ser considerados sifilíticos por Sigaud devido ao fato de não se ter ainda distinguido, em meados do século XIX, a sífilis de outras dermatoses e doenças venéreas (Araújo, 1928a:15-16).

O fato de a sífilis ser autóctone nas Antilhas sem atingir, entretanto, a região Norte do Brasil colocava imediatamente o problema das comunicações possíveis entre as populações indígenas da América. Rabelo estava atento a isso e, a partir de informações verbais que lhe teriam sido dadas por Capistrano de Abreu, diz que a comunicação entre as duas américas devia ser precária antes da Descoberta (Rabelo, 1925:IV). Assim, o mais provável, segundo Rabelo, parecia ter sido a introdução da sífilis apenas depois da chegada dos portugueses, quer fosse através dos novos contatos intra-americanos, ou, mais provavelmente, "de torna viagem", com os colonos europeus. Para Rabelo "inverossímel à primeira vista, esta última hipótese, talvez menos o seja quando se provar que, em certo momento, apesar de lentas, maiores e mais freqüentes tenham sido nossas comunicações com a Europa que com a parte setentrional da América" (Idem). Em apoio à sua tese, o grande sifilógrafo da década de 20 citava ainda o caso da leishmaniose. Endêmica na região peruana desde "tempos pré-históricos", a doença apenas teria começado a deixar vestígios no território brasileiro alguns séculos depois da Descoberta.

É certo que alguns sifilógrafos importantes do período, como Teófilo de Almeida, continuariam a defender a origem não-americana da doença. Nesse ponto, segundo declarou em 1925, concordava com os pesquisadores norte-americanos que "renunciam essa reivindicação que se faz para América, de ser o berço da sífilis, inda mesmo que esse berço sejam as Antilhas..." (Almeida, 1925:3).

De todo modo, difunde-se rapidamente no meio médico brasileiro e fora dele a idéia de a sífilis ter sido trazida para o Brasil pelos europeus (especialmente pelos franceses e pelos degredados portugueses), ou seja, de que aqui, como afirmava Oscar da Silva Araújo, melhor do que em qualquer outro lugar do mundo teria aplicação a máxima que dizia ser a "civilização igual a sifilização" (Araújo, 1928a:10). Assim é que, em seu trabalho comparativo sobre a luta antivenérea em diferentes países, o diretor da Sociedade Alemã de Luta contra as Doenças Venéreas, Hermann Roeschmann, já reproduzia os argumentos de Rabelo e Silva Araújo. Ao discorrer sobre o Brasil, dizia ele: "No que respeita à origem da sífilis a opinião mais aceita é que tenha sido ela trazida da América do Norte para a Europa na armada de Colombo; para a América do Sul ela foi levada pelos portugueses, ocasião em que houve disseminação entre os habitantes que entraram em contato com os colonizadores, sobretudo entre as populações litorâneas. Os habitantes do interior ficaram por longo tempo completamente indenes" (Roeschmann, 1929:37).

Assim, a reflexão sifilográfica brasileira da década de 20 fez com que a sífilis pudesse ser, simultaneamente, americana, como queriam os mestres europeus, e européia, como queriam os brasileiros. Interessante origem da doença que, simbolicamente, parece traduzir, de um lado, a própria posição que os sifilógrafos brasileiros assumiam na hierarquia internacional de especialistas: dependentes, é certo, mas com poder suficiente para desenvolverem uma reflexão original. De outro lado, também traduzia a própria posição que se reivindicava ao Brasil na hierarquia das nações. Ora, seguramente havia países ainda mais pobres e politicamente mais frágeis, como os da América Central, para carregarem sem protestos o ônus de serem o berço do mal. Nesse sentido, a reflexão dos sifilógrafos brasileiros quanto à origem da sífilis não deixava de distinguir o Brasil dessas outras nações, incorporando-o, ainda que parcialmente, ao "mundo civilizado". Efetivamente, parece que os sifilógrafos contribuíram de modo significativo para a consolidação, durante os anos 20, de um pensamento social, com forte apelo nacionalista, que procurou valorizar o Brasil também pelo que possuía de não-europeu, deixando de atribuir as razões de todos os nossos males exclusivamente às heranças ameríndia e africana. Assim, no mesmo momento em que, em seu famoso Retrato do Brasil (Prado, 1931), Paulo Prado escrevia que, dos portugueses, havíamos herdado a melancolia, a cobiça e a luxúria, nossos sifilógrafos acrescentavam: e a sífilis...

Uma sífilis mais benigna

Em finais do século XIX, acreditava-se que a doença se manifestava de forma muito mais grave nos climas quentes, constituindo-se em tipo específico chamado de sífilis exótica ou tropical. Conforme dizia um médico paraense, no início dos anos 20: apoiando-se na hipótese climática "Lacapére, entre outros, encontrou grandes diferenças sintomáticas entre a sífilis dos europeus e a dos marroquinos. Nestes, as lesões cutâneas e ósseas, de extrema severidade, predominam sobre as lesões visuais e nervosas" (Gurjão, 1922:299).

Ao longo das primeiras décadas do século XX, ao mesmo tempo em que se adensava a rede de especialistas brasileiros, a crença na malignidade da sífilis tropical era progressivamente desfeita, a partir da diferenciação entre diversas entidades mórbidas que se manifestavam através de sintomas semelhantes. Inicialmente, houve a diferenciação entre a sífilis ea bouba, para a qual médicos brasileiros como Silva Lima, Chapôt-Prevost, Antônio Austregésilo, e especialmente os sifilógrafos Silva Araújo (pai), Werneck Machado, Egas Moniz de Aragão, Fernando Terra, Adolfo Lindemberg, Oscar da Silva Araújo e Eduardo Rabelo contribuíram significativamente (Anais Bras. de Dermat. e Sifil., ano VI, n° 1, janeiro/fevereiro de 1930). Além disso, outras diferenciações se seguiram e, para isso, parece ser seguro que as pesquisas desenvolvidas no Brasil foram

fundamentais. 24 Como diz Eduardo Rabelo, em 1925: "Quando ainda se confudiam com a sífilis, a leishmaniose, o granuloma tropical e a úlcera fagedênica, supunha-se que a sífilis era mais grave em nosso clima do que em outras regiões" (Rabelo, 1925:III).

Em 1928, Oscar da Silva Araújo reafirmava uma idéia que havia originalmente exarado em 1921, em memória apresentada para ingresso na Academia Nacional de Medicina. Para ele, o "mito" da malignidade da sífilis no Brasil se explicava em larga medida por erros de diagnóstico: "Notara-se a existência entre nós de doentes rotulados de sifilíticos que exibiam manifestações mutilantes. Hoje se sabe que não se tratava ali de casos graves de sífilis atípica, mas de enfermos acometidos de leishmaniose, de blastomicose, de granuloma venéreo etc." (Araújo, 1928a:69). A esse respeito, Araújo criticava sobretudo o professor de sifilografia da Faculdade de Medicina da Bahia, Egas Moniz de Aragão que, em trabalho intitulado "Contribution à l’étude de la syphilis au Brésil", apresentado à Sociedade de Medicina de Paris, teria afirmado que a sintomatologia sifilítica no mestiço afro-português diferiria de uma maneira curiosa do que se observava na Europa. Entre nós, haveria a simultaneidade dos acidentes secundários (muito aparentes) e terciários (geralmente graves), obedecendo a sífilis o tipo maligno precoce, tendo por fenômeno inicial o cancro fadegênico ou

mutilante 25 (Araújo, 1928a:70).

Referindo-se especificamente ao Rio de Janeiro, dizia Araújo que, embora a freqüência da sífilis atingisse "proporções impressionantes", suas manifestações clínicas não difeririam, fundamentalmente, da sífilis européia, "não sendo a sua evolução mais grave do que a de ordinário em outros países de clima frio ou temperado" (Idem, 28). Se, em alguns casos, as manifestações da sífilis se mostravam particularmente graves no Brasil, isso se explicava sobretudo por variáveis menos fixas ou constitucionais, para utilizar uma expressão da época, do que o clima ou a raça. Em 1925, em reunião da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, o sifilógrafo Joaquim Mota dizia que, se às vezes a sífilis apresentava sintomas graves no Brasil, isso não se devia ao clima, como queriam os autores estrangeiros, e sim à falta de higiene e à deficiência de recursos médicos (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano I, n° 4, 1925, p.17). Já para Oscar da Silva Araújo, se a sífilis ocasionalmente assumia manifestações mutilantes no Brasil (principalmente em certas regiões do Nordeste) isso se explicava antes pelo fato de atingir populações menos miscigenadas e, por isso mesmo, até então menos expostas à doença. Ao atingi-las, a sífilis assumia as mesmas terríveis características que teria apresentado quando irrompeu na Europa em finais do século XV (Araújo, 1928a:69).

Enfim, ao longo das décadas de 20 e 30, embasados em estatísticas mais seguras, os sifilógrafos começavam a confirmar o que alguns clínicos (Sodré, 1904; Clark, 1921) já suspeitavam há algum tempo, ou seja, que as características da sífilis no Brasil não só diferiam do modelo tropical ou maligno, construído a partir da observação de casos africanos, mas apresentavam-se, no geral, muito mais benignas que as da própria sífilis européia. Nesse sentido, é exemplar um trabalho de 1938 em que o sifilógrafo Henrique de Moura Costa sistematizava os dados provenientes de 11.739 casos de sífilis (sendo 1.420 de sífilis nervosa), matriculados em dez anos nos serviços da Fundação Gaffrée-Guinle, onde trabalhava. Analisando os chamados sintomas secundários da doença, diz Costa: "Entre nós, as manifestações cutâneas são, em regra, superficiais e discretas e o número de casos com comprometimento dos ossos e articulações, em porcentagem desprezível..." (Costa, 1938:113).

Discordando de sifilógrafos internacionalmente famosos, como Fournier ou o alemão Jadasshon, para quem as manifestações secundárias (cutâneas) eram etapa necessária do desenvolvimento da doença, Costa constatava sua ausência em 96,1% dos casos que analisou. Cuidadosamente, diz que a avaliação da ausência do secundarismo entre nós devia levar em conta informes incompletos, por ignorância e esquecimento, em contraste com a provável averiguação mais rigorosa dos antecedentes nas estatísticas estrangeiras, feitas sobre casos de clínicas privadas e, conseqüentemente, "com doentes de nível intelectual mais elevado". Mesmo assim, concluía: "a diferença é verdadeiramente impressionante e somente explicável por uma benignidade maior da infecção entre nós" (Idem). Ao refletir sobre as manifestações tardias da doença (sífilis visceral, nervosa etc.), Costa observava novamente o quanto se estava distante do mode-lo exótico, tropical ou africano "a que quiçá poderiam querer nos comparar". Enquanto, na África, Lacapère encontrava, nas fases finais da doença, múltiplos acidentes simultâneos, atingindo sobretudo a pele e o sistema nervoso, Costa dizia ser a regra entre nós apresentar-se apenas um acidente ou sintoma por vez, interessando sobretudo o sistema circulatório (Idem, 123-124). Como se vê, diferentemente de Oscar da Silva Araújo, que, apesar de reconhecer diferenças menores, praticamente assimilava a sífilis brasileira à européia, Costa as diferenciava ainda mais claramente. Refletindo sobre o terciarismo, dizia, por exemplo, que enquanto as estatísticas de Fournier revelavam que o aparelho circulatório era atingido em apenas 0,5% dos casos, no Brasil tal cifra subia para quase 50% (Costa, 1938:119). Também a sífilis era, entre nós, "cordial". Enfim, nas conclusões de seu trabalho, Costa dizia explicitamente que "existem notáveis diferenças entre o que se observa entre nós e as descrições dos tratadistas europeus. Também o que entre nós se observa não pode ser comparado ao que descrevem os autores que estudaram a chamada sífilis tropical ou exótica. Os característicos gerais deduzidos do que pudemos observar decorrem essencialmente de uma acentuada benignidade da sífilis em nosso meio" (Idem, 129). Além disso, complementa: "...todos esses característicos de benignidade são mais acentuados nos indivíduos de cor, mas a comparação com as estatísticas estrangeiras só dos casos de nacionais brancos também mostra as mesmas diferenças" (Idem). Seria justamente a constatação de tal benignidade que faria com que se propusesse, no início dos anos 40, que o tratamento da sífilis no Brasil fosse menos longo e intensivo do que em outros países (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano XVI, n° 4, 1941, p.373).

Ao que parece, em matéria de sífilis, como em outros tantos assuntos, o Brasil conseguiu se colocar a meio caminho entre África e Europa. De todo modo, o importante aqui talvez seja perceber que não poderia ter tido uma sífilis "particular" – a um só tempo estrangeira e benigna – caso não dispusesse de bons sifilógrafos-pesquisadores interessados nessa particularização. Do mesmo modo, não haveria bons sifilógrafos, sem que houvesse uma certa tradição sifilográfica e científica e as condições materiais e institucionais mínimas que lhes assegurasse certa vitalidade. Nos anos 20, nada disso parecia faltar ao Brasil, ao menos em seus principais centros urbanos.

A ronda dos números: "pois há brasileiro que não seja sifilítico?"

Diferentemente do que acontecia em relação às idéias da origem americana do mal e de sua malignidade nos trópicos e apesar do papel fundamental que tiveram na diferenciação entre a sífilis e certas doenças tropicais presentes no país, os sifilógrafos brasileiros iriam, entretanto, perpetuar uma outra idéia que, já na passagem do século, havia adquirido o estatuto de "verdade tradicional". Segundo tal idéia, no Brasil, a disseminação da sífilis seria particularmente assustadora. Como, até o final do período considerado nessa pesquisa, a sífilis não foi de notificação compulsória, nem havia uma padronização diagnóstica geralmente aceita, toda a espécie de especulação estatística foi possível. E todas no sentido de sustentar tal idéia. Além disso, o próprio caráter proteiforme da doença propiciava enormes divergências quando se tratava de saber quais seriam os critérios ideais para definir uma determinada manifestação patológica como sífilis. Alguns utilizavam um critério clínico e incluíam na rubrica sífilis uma enorme diversidade de doenças e anomalias congênitas ou hereditárias. Outros, pautavam-se apenas nos resultados dos exames de sangue que, além de não serem, pelos critérios atuais, fiáveis, permitiam ainda interpretações, pois apresentavam-se, ao menos quando se tratava do tradicional teste de Wassermann, na forma de um contínuo que ia do "fortemente positivo" ao "fortemente negativo". Apenas para que se tenha uma ligeira idéia preliminar de o quanto os critérios de classificação adotados podiam provocar enormes distorções nos resultados, moldados, em larga medida, pelas próprias expectativas dos médicos, temos o exemplo da pesquisa empreendida pelo inspetor médico-escolar Bueno de Andrade, em 1925. O inspetor teria examinado 1.939 crianças de 7 a 14 anos no Rio de Janeiro, procurando "sinais indiscutíveis" de heredosífilis e, como só encontrasse 39 casos (2%), concluía que "a norma diagnóstica que adotamos, talvez, pecasse pelo rigor excessivo". Mudando "um pouco" os critérios, chegava à conclusão que, das 200 mil crianças em idade escolar do Distrito Federal, nada menos que 38% deviam ser suspeitas de heredo-sifilíticas (Anais Bras. de Dermat. e Sifilog., ano I, n° 2, 1925, p.26-31).

Enfim, não se trata aqui, obviamente, de tentar chegar a nenhuma verdade sobre a extensão da sífilis no Brasil. Apesar de toda a sua incongruência, os números que apresentarei em seguida desenham antes os li-mites (in)variáveis da percepção generalizada de que o Brasil era a morada ideal da sífilis, além de ser obviamente um modo tradicional de transfigurar tal percepção em realidade quantificável.

Como vimos no início deste capítulo, desde finais do século XIX os médicos vinham brandindo suas estatísticas contra o indiferentismo perante a doença. Através das páginas da revista União Médica, criada em 1881 especialmente para agitar o problema venéreo, Silva Araújo e seus companheiros já haviam buscado, conforme dizia o sifilógrafo, "pintar o medonho quadro da infecção sifilítica no Rio de Janeiro" (Araújo, 1891:12). Como dizia ainda em 1890, no âmbito da primeira grande discussão sobre o tema promovida pela Academia Nacional de Medicina, tal infecção devia ser considerada "uma das moléstias mais comuns na capital federal (...) um dos fatores mais poderosos de morbidade", além de uma das causas "acentuadas" de "degeneração da nossa raça" (Idem, 27). Para defender-se da acusação de sifilófobo, que seus próprios pares lhe endereçavam, Silva Araújo apresentava à Academia uma estatística que, embora sumária e de reduzida representatividade, vai ser intensamente reproduzida nas décadas seguintes, sempre que se tratava de expor as terríveis dimensões da doença no Brasil e cobrar do governo medidas para o seu combate.

Segundo Araújo, nos sete primeiros anos de funcionamento da Policlínica Geral, o oftalmologista Moura Brasil teria encontrado a sífilis como causa de 20% de todos os casos de moléstias do aparelho da visão. Os médicos Rocha Lima, Bernardo de Magalhães e Luiz de Araújo encontraram-na em 4% dos casos de doenças viscerais. E, finalmente, ele próprio apresentava suas estatísticas, revelando, para o mesmo período, a sífilis como causa de 45% das doenças apresentadas pelos 2.885 doentes que haviam procurado o Serviço de Moléstias de Pele e Sífilis da Policlínica (Idem, 28-29). Durante muito tempo tais números iriam provocar reações como a de Pires de Almeida que, em 1902, depois de citá-los, acrescentava: "A eloqüência destes algarismos, provando cabalmente o temeroso incremento do morbus sifilítico, dispensa

comentários" (Almeida, 1902:226).26

Como se vê, com a instalação dos primeiros serviços especializados, dados estatísticos um pouco mais precisos e discriminados iam sendo utilizados para justificar o alarme. Enfatizavam-se sobretudo os números relativos às crianças. Ainda segundo Silva Araújo, o Barão do Lavradio, higienista e clínico responsável pelo Serviço de Moléstias da Infância da Sala do Banco do Hospital da Misericórdia, teria apurado estatísticas segundo as quais 50% das crianças que procuravam o serviço estariam com sífilis. Moncorvo (pai) e Clemente Ferreira teriam chegado a cifras equivalentes (entre 45 e 50%) a partir da observação de seis mil crianças que, entre 1882 e 1889, haviam sido conduzidas ao serviço de pediatria da Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Em 1900, perante o 4° Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, mesmo reconhecendo que "a imperfeição dos obituários infantis pela sífilis não permite ajuizar-se do grau preciso da letalidade por essa afecção", Moncorvo Filho lembrava que "de há muito, autores brasileiros têm referido os lamentáveis malefícios da sífilis sobre a mortalidade das crianças desta capital" (Moncorvo Filho, 1903:169). E, no ano seguinte, depois de fundar, no Rio de Janeiro, o Instituto de Proteção à Infância, Moncorvo Filho apurava estatísticas relativas a seu primeiro ano de funcionamento segundo as quais, só no serviço de clínica médica do dispensário do Instituto, 50% das crianças apresentavam manifestações heredo-sifilíticas (Seabra, 1902:60).

Aliás, foi em torno desses números que eclodiria, em 1903, na Sociedade Brasileira de Medicina e Cirurgia, um interessante e revelador conflito a respeito do impacto da sífilis no Brasil e sua relação com certos traços da "personalidade nacional". Em uma das sessões de abril daquele ano, o médico Leocádio Chaves levantou um protesto contra a afirmação que o alemão Scheube teria feito em sua monografia sobre doenças venéreas nos países quentes, segundo a qual, depois do impaludismo,a sífilis seria a maior causa de mortalidade infantil no Brasil. Tal informação teria sido dada ao alemão por Moncorvo Filho. Como esta extraordinária presença da sífilis era ainda explicada por Scheube pelo "baixo nível de moralidade dos brasileiros", a Sociedade se agitou durante algumas sessões, procurando, como dizia um dos médicos envolvidos na polêmica, "salvar a reputação do Brasil nesse particular". Vários médicos consideraram a afirmação "lamentável" e "inverídica". A polêmica opôs principalmente Moncorvo Filho e o professor de pediatria da faculdade do Rio e médico da Santa Casa, Simões Correa, para quem as principais causas da mortalidade infantil seriam as infecções gastrointestinais ea tuberculose, ficando a sífilis em quinto ou sexto lugar. Moncorvo Filho foi acusado de exagero no que respeitava à sífilis e de utilizar critérios muito largos para classificar um doente como heredo-sifilítico (Anônimo, 1903a e b). Enfim, recuando um pouco em suas posições, Moncorvo Filho acabou enviando uma carta ao Brazil-Médico, esclarecendo que sua cifra de 51%, utilizada inapropriadamente por Scheube, dizia respeito à morbidade e não à mortalidade infantil e que fora estabelecida dentro do conjunto de crianças que haviam sido levadas ao Instituto de Proteção à Infância com problemas de pele, e não do conjunto de todas as crianças atendidas (Moncorvo Filho, 1903).

Sempre presente no discurso sifilográfico, a equação brasileiro = sifilítico justificava até mesmo que as estatísticas fossem em certos momentos consideradas dispensáveis ou desnecessárias, quando se tratava de determinar a real extensão da doença no Brasil. Assim, por exemplo, em 1902, ao ser aprovada uma lei que autorizava o município do Rio de Janeiro a criar um hospital para venéreos, o prefeito Xavier da Silveira declarava: "Se nos faltam estatísticas para precisar a freqüência entre nós da sífilis e o alcance de suas devastações, podemos entretanto, afirmá-lo sem temeridade, lembrando que nas diversas classes sociais, e especialmente nas proletárias, o tratamento se limita, em geral, aos sintomas incômodos ou vexatórios deixando o doente depois de contraída a moléstia entregue a sua evolução insidiosamente funesta, já por desconhecer o perigo, já por carência de recursos" (apud Machado, 1915:62).

Quatro anos mais tarde, na inauguração do dispensário para alcoolistas e venéreos pobres da sua Liga Paulista de Profilaxia Moral e Sanitária, Cláudio de Souza dizia que, embora inexistissem estatísticas exatas para uma doença não sujeita à notificação e de efeitos demorados, crônicos e diversificados "a praga social da sífilis, em todas as suas horrendas conseqüências e mais nas suas manifestações parasifilíticas, é talvez, pela extensão que toma dia a dia entre nós, mais tremenda em seus efeitos do que todas as outras" (Souza, 1906a:7, grifo meu). E, aos convidados à inauguração de sua Liga, perguntava retoricamente: "Falta-nos estatísticas, mas algum de vós, que conviveis com a nossa mocidade, ousareis contestar que de cada cem brasileiros, noventa talvez, nas grandes cidades e cinqüenta no interior do país, não escapam à sífilis ou aos acidentes venéreos durante a mocidade?" (Idem).

As estimativas apresentadas pelo Brazil-Médico, no mesmo período, são um pouco diferentes, mas não menos espantosas e desalentadoras. Ao saudar a "empresa altamente filantrópica" de Cláudio de Souza, a prestigiosa revista revelava que os inimigos da liga paulista – o alcoolismo, as moléstias venéreas ea sífilis – "se alastram atualmente por mais de metade do nosso povo, causando reais prejuízos ao indivíduo em particular e aos seus descendentes em geral, e, portanto, à família e à nação" (Brazil-Médico, ano XX, n° 14, 1906, p.262).

Em 1909, em memória apresentada ao 4° Congresso Médico Latino-Americano, o médico paulista ia ainda mais longe, afirmando: "Sobre a sífilis e as moléstias venéreas, quase não há necessidade de estatísticas no Brasil, podendo-se contar o número de vítimas, aproximadamente pelo número de brasileiros. É uma exageração? De modo algum. Especializando o fato a determinadas populações, como as das grandes cidades e da campanha, haveria exagero para estas últimas, pois o coeficiente é disparate entre uma e outra. Estudando porém o conjunto, cidades e campanhas, são raros os brasileiros que não pagaram um tributo à Vênus, que não foram contaminados por uma blenorragia, um cancro venéreo ou pela sífilis (...) A sífilis entre nós propaga-se francamente, sem nenhum obstáculo, sem o entrave do mais leve fio sanitário de defesa" (Souza, 1909:6, grifo meu).

Na segunda década do século XX, como dizia Werneck Machado no âmbito da última discussão que a Academia Nacional de Medicina promoveria sobre o assunto, a sífilis e as outras doenças venéreas continuavam "a progredir assombrosamente no Brasil" (Machado, 1913:4). Para os médicosmilitares, elas já deviam ser consideradas incontestavelmente, como dizia Lobo da Silva em 1914, o "mais importante capítulo da medicina-militar", seja por sua gravidade, seja pelo fato de "ser extremamente raro encontrar uma praça que não tenha pago o seu tributo a esse tipo de males" (Silva, 1929:7). Em uma série de artigos publicados entre 1914 e 1927, o médico Artur Lobo da Silva oferece as estatísticas mais extensas, cuidadosas e sistemáticas que foram produzidas sobre a sífilis no

Brasil até 1945. 27 Embora se explicitem apenas no artigo de 1914, os critérios então adotados por Lobo da Silva aparentemente orientaram todo o trabalho estatístico que desenvolveu ao longo da década. Segundo diz, teria incluído na rubrica doenças venéreas todos os casos de reumatismo, pois raramente alguma praça apresentava o "verdadeiro reumatismo". Teria também excluído de suas estatísticas os oficiais, os alunos das escolas militares, os asilados, os empregados civis e os marinheiros, eventualmente tratados no Hospital Central do Exército. Suas estatísticas diziam respeito, portanto, apenas às praças. Além disso, o médico esclarece que alguns soldados davam entrada duas, três, quatro e até cinco vezes no Hospital, tendo sido, entretanto, tratados como novos-entrados. Este aumento indevido dos números globais de praças infectadas, compensava talvez o número, que Lobo considerava alto, dos que "se tratam bem ou mal às escondidas" (Silva, 1929:7). Segundo seus dados, no qüinqüênio 1909-1913, as doenças venéreas teriam sido responsáveis por 24% dos internamentos no Hospital Central do Exército. E, em relação ao total dos efetivos orçamentários das guarnições atendidas por aquele hospital (8ª e 9ª guarnições, do Distrito Federal e a dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, respectivamente), chegava à conclusão de que, crescendo ano a ano, as doenças

venéreas 28 atingiam em média um terço das tropas. Revelava-se assim a "inferioridade biológica" do Exército brasileiro, colocado,

segundo Lobo, em "posição vexatória" ante aos de outros países. 29 Assim, concluía desalentado o médico-militar: "O nosso exército é na sua maioria um exército de inválidos, incapazes e doentes que mais conviria ser alojado em enfermarias do que em quartéis" (Idem, 8). Para piorar ainda mais o quadro, segundo Lobo, a situação se agravava ano a ano, pois, enquanto o número total de doentes internados no Hospital Central do Exército vinha diminuindo gradativamente, o de venéreos crescia, chegando a representar 34,4% das baixas, em 1914; 39,3%, em 1915 (Idem, 16); alcançando 40,4%, em 1916 (Idem, 21). É certo que, entre 1918 e 1921, Lobo da Silva encontraria médias bastante inferiores, em torno de 25% de casos de sífilis no total de baixas no Hospital Central do Exército. Para ele, este decréscimo seria entretanto aparente. Segundo o médico, a partir de 1918 foram criadas enfermarias regimentais e muitos venéreos deixaram de ser enviados ao hospital. Além disso, teria sido iniciado o recrutamento através de sorteio o que, para Lobo, poderia "ter aumentado o nível de instrução média das praças e o conseqüente respeito aos conselhos higiênicos" (Silva, 1929:28).

Aos olhos dos médicos-militares, a situação da Marinha não parecia diferir significativamente. Em 1918, em comunicação apresentada ao 1° Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Sifilografia, Júlio Porto-Carrero declarava: "... mantém-se entre as praças da Marinha uma percentagem tão elevada de venéreos que pode-se dizer sem exagero serem o cancro venéreo, a blenorragia e a sífilis o motivo da baixa de terça parte dos doentes ao Hospital. Se notarmos ainda que entre os doentes de outros males a sífilis existe em proporção nunca inferior a 80%, teremos diante dos olhos o quadro aterrador do quanto ao contato de Vênus sofrem seus incontinentes devotos" (Porto-Carrero, 1921:35).

Apesar dos dados serem falhos, incompletos e às vezes

incompreensíveis, como ele mesmo admitia,30 Porto-Carrero não deixava, entretanto, de concluir que "sempre a sífilis pesa com mão-de-ferro na morbidade da Marinha" (Idem, 37) e que "uma conseqüência lógica decorre de tão alarmantes algarismos: a necessidade de uma profilaxia" (Idem, 38). No mesmo Congresso, o sifilógrafo Werneck Machado apresentava estatísticas mais globais, referentes aos hospitalizados de toda a Marinha nacional, para o período de 1914 a 1917. Seus números são sensivelmente inferiores aos encontrados por Lobo da Silva no Hospital Central do Exército e à terça parte estimada por Porto-Carrero, apontando para uma média de 12% de venéreos, para o total de marinheiros hospitalizados no período. Segundo dizia, para os anos de 1914/15 teriam sido tratados em todo o Brasil 24.823 doentes, dos quais 2,5% tinham sífilis e aproximadamente 10% outras doenças venéreas. Para 1916, a porcentagem de sifilíticos subia para 3,1% e a de outras doenças venéreas descia para 6,1%. Para 1917, tem-se 14,9 % de venéreos e sifilíticos.

A necessidade de estatísticas mais amplas e confiáveis parece ter começado a ser sentida de modo mais agudo pelos sifilógrafos que, no âmbito do 1° Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Sifilografia, foram encarregados de estabelecer a extensão exata da doença entre nós. Assim, na abertura de sua comunicação sobre a freqüência da sífilis no Rio de Janeiro, o sifilógrafo Werneck Machado lamentava: "Falar de sífilis ou, mais propriamente, da freqüência da sífilis no Rio de Janeiro, afigura-se-me uma das mais difíceis e graves empreitadas para quem, compenetrado da já evidente significação médico-social de um problema cuja preocupação cada vez mais avulta, com especialidade nos centros iguais ao nosso – principais pontos, de fato, da respectiva irradiação –, já do alto valor de uma assembléia como a presente, não ignora, por dever de ofício longamente exercido, os óbices antepostos aos intuitos visados e decorrentes da deficiência, quase ausência mesmo, do primeiro dos fatores para tal fim requerido – as estatísticas" (Machado, 1921:176).

Machado chegava mesmo a contrastar as contribuições da dermato-sifilografia brasileira – "sucessivas e valiosas, em grande número originais e emancipadas do já tradicional cunho estrangeiro" –, com a ausência de estatísticas confiáveis entre nós; resultado, como diz, antes do "espírito dispersivo dos sifilógrafos brasileiros" do que de sua descrença na importância dos números (Idem). Significativamente, Machado chamava a atenção para o fato de ser entre as prostitutas, justamente "aquelas de cuja triste, condenável, porém irreprimível profissão, sabe-se em maior escala derivarem os malefícios da avaria" (Idem, 179), que as estatísticas eram mais precárias. Na verdade, absolutamente inexistentes. Do meu ponto de vista, tal ausência parece apenas confirmar uma idéia que, como veremos, era corrente à época e segundo a qual prostituta e sífilis eram praticamente sinônimos.

Assim, para caracterizar uma incidência que reputava "assombrosa", Machado era obrigado a se limitar a comentar os dados apresentados pelos médicos-militares ou a compilar os dados fornecidos pelos serviços de dermatologia e sifilografia existentes no Rio. Nesses últimos, Machado en-contra uma média de 23% de

casos de 31 sífilis . Obviamente, por se restringirem aos serviços especializados, tais dados não se prestavam a qualquer generalização relativa ao peso da sífilis como causa geral de internação nos hospitais da capital e muito menos à sua incidência na população em geral.

Essa ausência de estatísticas não iria, entretanto, intimidar mais sensivelmente outros dois ilustres médicos presentes ao congresso: o clínico Oscar Clark e o sifilógrafo Eduardo Rabelo. Oscar Clark abria sua comunicação afirmando que "a freqüência da lues no Brasil é do domínio histórico e até viajantes estrangeiros que percorrem o nosso país levam a impressão de que todo o nacional seja sifilítico" (Clark, 1921:188). Como Machado, o clínico se debruçava sobre dados referentes à população hospitalizada, mas provenientes de serviços não-especializados, nos quais era de se esperar uma menor incidência da doença. Entretanto, já utilizando sistematicamente o teste de Wassermann para identificar os contaminados, Clark chegava a dados ainda mais aterradores. Na Santa Casa de Misericórdia, de 100 doentes da 2ª enfermaria, examinados aleatoriamente, 57% apresentavam resultados positivos. Tais resultados, como lembrava Clark, diferiam muito pouco daqueles a que teria chegado o médico José de Mendonça, que, aplicando sistematicamente o mesmo teste nos internos do serviço cirúrgico da Beneficência Portuguesa, também teria encontrado 50% de resultados positivos (Idem).

E se a sífilis podia ser considerada responsável por mais da metade das internações hospitalares da capital federal, isso ainda dava, para Clark, apenas uma pálida idéia de sua incidência em todo o território nacional. Segundo dizia, "...pelo conhecimento que tenho de todo o Norte do Brasil não vacilo um instante sequer em afirmar ser a lues muito mais freqüente naquelas paragens do que no Sul. Se, pela reação de Wassermann feita de modo sistemático, obtivéssemos resultados positivos em 50% dos brasileiros residentes no Norte do país, de tal fato não me admiraria" (Clark, 1921:189).

Tudo isso vinha apenas confirmar uma "verdade" que, como se viu, era, para Clark, de "domínio histórico", constatação corriqueira na pena dos estrangeiros desde muito tempo. Assim, complementava o clínico: "Pela experiência que tenho de quase três anos nos hospitais europeus e new-yorkinos e de oito anos na Santa Casa de Misericórdia e na Beneficência Portuguesa do Rio, pelo conhecimento adquirido ao fim de centenas de autópsias e casando o meu estudo clínico e anátomopatológico com as provas de laboratório (...) posso afirmar que em nenhum dos países cultos percorridos a devastação causada pela sífilis se compara com a que observamos no nosso meio (...) Calculam em 10 milhões o número de sifilíticos nos Estados Unidos da América; talvez tenhamos algarismo igual no Brasil com a quarta parte da população" (Idem, 191, grifo meu).

Por seu lado, Eduardo Rabelo afirmava no mesmo congresso que a sífilis excederia no Rio de Janeiro a taxa entre 10 a 20%, estimada para as grandes metrópoles em geral. Lembrando as estatísticas encontradas por Oscar Clark na Misericórdia, observava que esses dados sobre a freqüência e difusão da doença já seriam bastante eloqüentes para exigir "medidas acauteladoras..." (Rabelo, 1921:329). Rabelo enfatizava ainda fortemente o fato de o Brasil diferir da maioria dos países civilizados, onde a sífilis preferiria ser "antes cidadã que camponesa": Afirmava ele: "Em nosso país, sem que nos abalancemos a dizer que a fórmula se inverteu, estamos todavia autorizados a dizer que mesmo nos campos a proporção dos casos é notável. Assim depõem com clamorosa unanimidade todos os médicos que, como Carlos Chagas, Artur Neiva e outros, cruzaram em viagens científicas o nosso interior" (Idem). Efetivamente, como informa Castro-Santos, no relatório publicado em 1916, relativo à famosa expedição científica realizada no interior do país pelos médicos de Manguinhos em 1912, Artur Neiva e Belisário Pena faziam menção ao grande número de ulcerações e casos de cegueira, que, para eles, eram conseqüência da sífilis e de outras doenças venéreas que também afligiam severamente a população do interior do país (Castro-Santos, 1987:126).

Com a criação, no início da década de 1920, da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas e o conseqüente desenvolvimento da primeira campanha nacional de combate à sífilis, atenua-se significativamente o alarme estatístico, que sempre vinha acompanhado de reivindicações referentes a "medidas acauteladoras" e de críticas à imobilidade das autoridades diante de um perigo grave e de difusão progressiva. Entre as medidas então adotadas contra a sífilis não figurava, entretanto, sua notificação obrigatória, permitindo que médicos e sifilógrafos continuassem operando com dados bastante imprecisos.

Continuar: parte 3 de 3