Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil
2 - A sífilis e os sifilógrafos no Brasil
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A estimativa que se estabelece durante os anos 20 apontava para um índice de contaminação da população brasileira em torno de um quinto. Como vimos, tal índice era geralmente encontrado apenas nos serviços especializados e não saberia dizer como pode ter sido deslocado para a população global. De todo modo, considerado extremamente alto, ele prevaleceria inalterado até o início dos anos 40. Já em 1921, na primeira palestra educativa promovida pela Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, Renato Kehl iria utilizá-lo. Depois de dizer que, não sendo doença de notificação obrigatória, seria impossível qualquer estatística segura, ele estimava, apoiado na autoridade dos sifilógrafos, especialmente em Eduardo Rabelo, existirem no Brasil 6 milhões de sifilíticos, ou seja, 20% de sua população. Já o número de gonorrêicos seria, "sem exagero no cálculo", um pouco menor, 4 milhões e 800 mil, perfazendo 16% da população (Kehl, 1921:46). Contrastivamente, segundo o eugenista, nos países civilizados, essas taxas seriam bem menores e a sífilis atingiria apenas 10% da população. Para embasar tal afirmação quanto aos civilizados, Kehl oferecia contraditoriamente estimativas bastante superiores. Citando Fournier, dizia que, na França, haveria de 13 a 16% de adultos atingidos pela sífilis. Para a Alemanha, Blaschko (1906) teria calculado 18% na "classe burguesa". E, para os Estados Unidos, Day e McNitt teriam estimado uma incidência de 6 a 13% das "classes burguesas", 20% entre os "pobres brancos" e 30% entre os "negros pobres" (Idem, 33). Quanto ao número de casos de gonorréia, dizia Kehl que, nos E.U.A. e Alemanha, estimava-se que 80% dos homens adultos, antes de completarem 30 anos, já a teriam adquirido e que de 70 a 95% das prostitutas a teriam ou teriam tido. No Brasil, acrescentava, na falta de uma propaganda contra a prostituição e da divulgação dos meios profiláticos, os números da gonorréia deveriam alcançar de 70 a 90% da população adulta masculina e 100% entre as prostitutas. No Rio, segundo diz, 90% dos homens adultos teriam ou já teriam tido gonorréia (Idem, 46-47). A isso, acrescentava: "Podereis vós, que nos ouvis, suspeitar que estamos enegrecendo o quadro mórbido do Brasil. Mas afirmamos escudados na opinião de cientistas de valor e probidade indiscutíveis, que infelizmente essa é a verdade. Há verdades que, embora deprimentes como esta, devem ser ditas para que se estimulem as campanhas de combate contra as endemias que devastam o nosso território de norte a sul" (Idem, 38-39).
Apesar da campanha sanitária desenvolvida ao longo da década de 20, o sifilógrafo alemão Roeschmann ainda utilizaria, em 1929, o índice de 20%, quando tratava de estimar a disseminação do mal no país. Citando Rabelo, dizia que "existem entre os 36 milhões de brasileiros, 7,2 milhões atacados. E o número de casos recentes era avaliado em 288 mil anualmente (Roeschmann, 1929:37). Uma década mais tarde, em 1940, o médicolegista Hélio Gomes manteria ainda os mesmos cálculos, ao afirmar que, de 50 milhões de brasileiros, 10 milhões seriam sifilíticos (Gomes, 1941a:456).
O exagero desses números pode ser avaliado se os comparamos às estimativas bem mais precisas que vinham sendo estabelecidas pela Direção de Saúde do Exército, através dos censos nacionais que começaram a ser realizados sistematicamente a partir de 1919. Segundo tais censos, para o período de 1919 a 1928, a média de venéreos encontrada seria de 22%. Tendo em vista que esta média dizia respeito aos venéreos, o que incluía, além dos sifilíticos, os soldados atingidos pela cancro mole e pela gonorréia; e, aceitando que, além das prostitutas, eles eram, muito provavelmente, um dos grupos mais atingidos pelas doenças venéreas, pois tratava-se, em sua maioria, de homens jovens, pobres, desinseridos de seu meio familiar; mesmo utilizando os critérios diagnósticos do período (já em si bastante largos, do ponto de vista da atual definição da doença), a taxa de 20% de sifilíticos para a população global parece superestimar em muito a real incidência da doença no país. De todo modo, do ponto de vista das doenças venéreas em seu conjunto, já estamos muito longe dos quase 90% da passagem do século...
Em 1934, com a suspensão da campanha antivenérea iniciada na década anterior, o alarme estatístico voltaria a crescer progressivamente e o Brasil continuaria a manter seu estatuto de país particularmente sifilizado. É o que evidenciam, por exemplo, as afirmações do médico da armada portuguesa Emílio Faro, em artigo publicado no Jornal de Sífilis e Urologia, em 1934. Depois de dizer que uma grande parte da população portuguesa estava contaminada e que os europeus acreditam que quase todos os portugueses eram sifilíticos, complementava: "Nós portugueses fomos muito atingidos. Antigamente, pelas grandes viagens que fizemos, tanto para o Oriente, quanto para a América do Sul; nos últimos tempos, pela nossa grande emigração para o Brasil. Ali, a sífilis é tão freqüente que, entre nós, pode dizer-se que quem viveu algum tempo nesse país é sifilítico com certeza." (Faro, 1934:184, grifo meu).
Em 1940, no âmbito da 1ª Conferência Nacional de Defesa Contra a Sífilis, os especialistas fazem um novo esforço no sentido de avaliar numericamente a extensão da doença no país. O primeiro tema da conferência foi justamente sobre o balanço estatístico da sífilis, sua incidência nos meios civil e militar, entre as prostitutas, presidiários, crianças, gestantes etc. (Anais da 1ª Conf. Nac. de Def. Contra a Sífilis, 29). A priori, não havia motivos para comemorações. As comunicações apresentadas mantinham o mesmo tom de denúncia e alarme que, de modo geral, caracterizou todos os discursos relativos à sifilis, desde finais do século XIX.
Já na abertura da conferência, o ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, afirmava que tudo o que se fizera até então havia resultado em muito pouco e que a incidência da sífilis não declinara, nem no Rio de Janeiro, nem no país. Capanema lembrava o alto índice de contaminação entre os militares que, segundo dizia, era de 58/1.000, enquanto nos países de maior projeção internacional tal índice já havia baixado nos últimos 30 anos de 50 para 10/1.000. Os médicos-militares presentes não deixavam de ecoar o alarme do ministro, embora apresentassem índices de contaminação um tanto diferentes. O médico da Marinha Erasmo Lima dizia que no qüinqüênio 19351939 a incidência da sífilis teria sido de 39/1.000. E, embora reconhecesse que a sífilis estava em declínio na Marinha (para o qüinqüênio 1928-1932, o índice teria sido superior a 95/1.000), considerava a incidência ainda elevada, excessivamente superior às marinhas inglesa, francesa e americana. Para ele, era "imprescindível um apelo às autoridades no sentido de realizar de modo eficaz e permanente a campanha contra a sífilis" (Lima, 1941:92/93). Os médicos do Exército presentes ao encontro (Jaime de Azevedo Vilas-Boas, Benjamim Gonçalves e Ferdinando Siqueira Filho) continuam afirmando que a sífilis era "elemento responsável por extraordinário número de baixas aos hospitais militares e às enfermarias regimentais", devendo ser considerada, conforme dizem, um problema de "interesse nacional" por sua "considerável difusão em todo o país e nas corporações militares" (Vilas-Boas et al.:1941:85).
Capanema enfatizava ainda o alto índice de contaminação das gestantes. Segundo dizia, enquanto nos Estados Unidos e Escandinávia ha-via de 6 a 7% de gestantes contaminadas, no Rio de Janeiro esse índice subia para 10%. Aqui, novamente, os médicos presentes tendiam a concordar com o ministro que o quadro era grave, mas os dados que apresentavam a respeito eram, no mínimo, erráticos. Alguns traziam cifras muito maiores, como, por exemplo, José Pessoa Mendes que, compulsando dados dos serviços de pré-natal de todo o Rio Grande do Sul, concluía que a incidência da sífilis latente nas gestantes havia sido de 41% no ano de 1939 e de 19,87% para o ano seguinte (Mendes, 1941:332). Já segundo Clóvis Correa, do Departamento Nacional da Criança e da Fundação Gaffrée e Guinle, "a freqüência da sífilis nos consultórios pré-natais do Rio de Janeiro não é tão grande como geralmente se supõe". Segundo seus dados, na antiga Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância, no ano de 1938, entre 3.687 gestantes matriculadas, teriam sido feitas três mil reações de Wassermann, das quais apenas 7,2% foram positivadas. No mesmo ano, nos consultórios de pré-natal dos centros de saúde do Departamento de Saúde Pública, haviam se matriculado 3.934 gestantes, entre as quais 8,6% apresentaram testes de Wassermann positivos (Correa, 1941:278). No ano seguinte, 1939, entre 3.613 gestantes matriculadas, 3.358 reações de Wassermann teriam sido realizadas, das quais 6,1% de-ram resultados positivos. Assim, em um total de 10.743 gestantes examinadas, a média de casos de sífilis seria de 7,8%.
Como se pode imaginar, a conseqüência imediata da sifilização das gestantes seria o alto índice de incidência da sífilis nas crianças brasileiras. Os dados oferecidos pelos médicos referentes às crianças eram também bastante variáveis. Apoiado em dados fornecidos pela Clínica Oscar Clark, o médico Serrão dizia ser a incidência da sífilis no meio escolar primário carioca particularmente elevada, pois, em 1.445 crianças examinadas clinicamente, teria encontrado uma taxa de 43,87% de casos de sífilis (Serrão, 1941:102). Já Hermógenes Pereira diz que havia quem afirmasse que 20% dos recém-nascidos brasileiros seriam sifilíticos (Pereira, 1941:248). O médico Mario Ramos Silva diz não ser necessário recordar os malefícios que a sífilis causa à infância do nosso país, uma vez serem "conhecidas as estatísticas que a colocam no primeiro plano da nati-mortalidade e entre os primeiros da mortalidade infantil" (Ramos, 1941:307). Porém, apresentava índices de contaminação bem menores que os de seus colegas. Ramos Silva apoiava-se em dados fornecidos por dois serviços que dirigia há dez anos no Rio de Janeiro, um de Higiene Infantil e outro de Sífilis Infantil. Em 1933, o médico teria realizado um estudo em cinco mil crianças, examinadas desde 1928. No grupo de zero a dois anos (três mil) teria encontrado 7,1% de sífilis congênita e, no grupo de dois a seis anos (duas mil), 18,6%, dos quais 14,6% apresentavam apenas as distrofias produzidas pela sífilis dos pais (Idem, 308). Assim, em relação a um conjunto de cinco mil crianças, 11,7% apresentavam sinais da doença, dos quais 7% apenas suas seqüelas. Ramos Silva complementava tal estudo com um outro mais recente, realizado em 1940, sobre mil crianças abaixo de dois anos, das quais 6,1% seriam sifilíticas.
Para a população adulta em geral, os dados apresentados pelos médicos à conferência eram particularmente dispersos. O serviço de biometria médica do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos teria feito 10.648 exames médicos de seleção para o funcionalismo público. Incluía pessoas de ambos os sexos, de níveis socioeconômicos distintos, com idade variando de 18 a 35 anos. Entre elas, apenas 784 (7,3%) tiveram suspeitas clínicas que motivaram pedidos de exames sorológicos, que se mostraram positivos em apenas 1% dos casos (Gonzaga, 1941). Obviamente, para uma população que se considerava contaminada em 20%, os funcionários públicos pareciam ser estranhamente resistentes ao mal. Entretanto, a sífilis teria um grande peso nos pedidos de aposentadoria por invalidez. Roberval Cordeiro de Faria, chefe da Diretoria de Fiscalização do Exercício da Medicina, então encarregado das inspeções de saúde para efeitos de aposentadoria, dizia que, nos últimos 15 anos, de 7.416 pedidos de invalidez por doença, 28% seriam de casos de sífilis "mais ou menos comprovados" (apud Pereira, 1941:257). Segundo o médico Hermógenes Pereira, da Seção de Assistência Social do Departamento dos Correios e Telégrafos, dos quase 230 laudos para concessão de licença, 21% correspondiam a sifilíticos e parasifilíticos, "computando, é claro, o cortejo terrificante que a sífilis apresenta na víscero-patologia, sobretudo nas doenças do aparelho circulatório" (Idem, 255).
O inspetor técnico do Serviço de Sífilis e Moléstias Venéreas da capital de São Paulo, J. T. Monteiro da Silva, trazia também dados de dispensários especializados paulistanos. No Centro de Saúde de Santa Cecília, de maior movimento e destinado, segundo o médico, "ao elemento familiar", em senhoras, homens e crianças, o resultado das reações específicas teria acusado, no primeiro semestre do ano de 1940, a "elevada cifra de 27% de soropositivos!" No Laboratório do Hospital Municipal, o dr. Gustavo Fleury da Silveira Jr., examinando sistematicamente, de dezembro de 1937 a janeiro de 1940, o sangue de 7.474 indivíduos, funcionários e operários municipais e domésticas da capital (contribuindo estas com 80% dos exames), teria encontrado 39% de casos positivos, submetendo todos a três reações específicas diferentes (Silva, 1941:252).
Finalmente, do ponto de vista da população hospitalizada, a incidência da sífilis continuava significativa, atingindo apenas aí a proporção que era estimada para a população global. O sifilógrafo paulista Humberto Cerruti trazia um extenso levantamento estatístico correspondente a 232.459 soro-reações praticadas pela Santa Casa de Misericórdia de 1911 até 1940. A partir de 1921, quando a Santa Casa começou a pedir exames para sífilis "quase que sistematicamente em todos os doentes internados", a taxa de positividade teria então se estabilizado em torno de 20% (Cerruti, 1941:395). Já no Rio de Janeiro, o clínico Genival Londres dizia ter encontrado a sífilis em um terço dos pacientes de uma clínica hospitalar gratuita e de um consultório particular (Londres, 1941). Diante de tais números, mesmo reconhecendo inexistir "um padrão clínico e sorológico capaz de trazer a desejável uniformidade de apreciações", a primeira conclusão geral da Conferência de Defesa Contra a Sífilis de 1940 não deixava de perpetuar a "verdade" já secular de sermos um país de sifilíticos, estabelecendo que "estudada em todas as coletividades, encarada através dos mais variados pontos de vista, a incidência da sífilis no Brasil continua, de um modo geral, sensivelmente elevada" (Anais da 1ª Conf. Nac. de Def. Contra a Sífilis, 1941:523).
Assim, o mal permanecia bem instalado no país e, resistindo aos esforços feitos no sentido de debelá-lo, podia continuar a ser considerado um dos fatores decisivos para a degeneração da raça brasileira.
Como vimos em A Implantação Sifilográfica, deste mesmo capítulo, através das exatas palavras de Juliano Moreira, desde (pelo menos) finais do século XIX, era comum considerar-se todo brasileiro como sifilítico. E não me parece haver dúvida quanto ao fato de a percepção de o Brasil ser um país de sifilíticos ser caudatária da idéia mais geral de serem os brasileiros particularmente excessivos sexualmente. Está fora do escopo deste trabalho discutir as formas e as origens da idéia de a luxúria,o sensualismo ou a devassidão estarem muito mais presentes no Brasil do que nos países europeus ou norte-americanos. De todo modo, sabe-se que tal crença remonta ao início da empresa colonial (Souza, 1994), tendo sido retomada fortemente a partir de finais do século XIX, no âmbito do esforço empreendido pelas elites intelectuais brasileiras no sentido de compreender "cientificamente" a nossa formação social e as razões de suas mazelas. Até meados do século XX, autores tão díspares quanto Pires de Almeida, Paulo Prado, Nina Rodrigues, Gilberto Freyre ou Afonso Arinos de Melo Franco teriam oportunidade de apontar a sensualidade ou a lubricidade como traço distintivo do caráter nacional brasileiro, ou, ao menos, como uma de suas características importantes (Leite, 1983; Parker, 1991). Se como diz a historiadora Laura de Mello e Souza (Souza, 1994), o Brasil nasceu sob o signo do demônio, terra do pecado, só podia ser também a terra da sífilis. E nossos sifilógrafos estavam bem cientes de que muitos viajantes que haviam passado pelo Brasil colonial diziam, como Johnson na sua Histoire générale des pirates, de 1725, que "quase todos os brasileiros (homens e mulheres) sofrem de afecções venéreas" (apud Clark, 1921:188).
Até as três primeiras décadas do século XX, uma conjunção singular de fatores climáticos e raciais vinha sustentar fortemente o mito da luxúria do brasileiro. Desde pelo menos o início do século XIX, sabia-se que o cli-ma cálido favorecia a devassidão por excitar mais cedo a puberdade (Virey, 1836:68). Além do clima, a raça também teria sua influência sobre o apetite sexual. O médico francês Julien Joseph Virey não se esquecia dela quando, no começo do século XIX, dizia, em sua dissertação sobre a incontinência e seus
perigos, 32 que "todos os africanos da zona ardente parece que trazem nas veias o fogo da lubricidade" (Idem, 54). A partir de uma interessante conjugação entre determinantes climáticos e raciais, Virey chegava mesmo a dar crédito à idéia de a sífilis ter se originado na África. Conforme dizia, "sabem todos, que nos climas quentes principalmente, sendo o suor contínuo, adquire um grau de mau cheiro, nos negros por exemplo, que se sente de longe. Ora, figuremos estes negros imundos e sórdidos, como são no estado selvagem, dando-se à lubricidade com negras ainda mais imundas que eles, saindo de seus mênstruos e desprezando o cuidado de se lavarem. Além das matérias sebosas que as glandes secretam sob o prepúcio do homem, e cuja acrimônia e acumulação deu ocasião à necessidade da circuncisão; além das que se ajuntam entre as longas ninfas dessas negras e exalam pútridos miasmas, tem-se as crostas do sangue das regras ou as das flores brancas e outras evacuações pela vagina que fizeram com que se considerasse em todos os tempos a mulher como impura, no tempo da menstruação. Nos países ardentes, onde a putrefação tem lugar com rapidez, será certo que estas matérias acres tenham causado irritações, evacuações purulentas nas membranas mucosas da vagina e da uretra? Ninguém o pode duvidar" (Idem, 1836:84-85). Embora veladamente, era tal idéia que se escondia atrás da "constatação" de Pires de Almeida de que, no Haiti, "a lubricidade por tal forma enfraqueceu a espécie, que muitos núcleos daquelas terras acham-se hoje, ou despovoados, ou degenerados, pelo flagelo da sífilis" (Almeida, 1902:20).
Ainda que em menor grau, mesmo os povos de raça latina, os neolatinos, eram também conhecidos por seu ardor sexual. Como dizia Afrânio Peixoto em seu tratado de higiene, de 1913, a abstinência sexual é "prática de higiene e moral, tão infringida, que é quase ridícula sua observância entre os povos latinos" (Peixoto, 1913:99).
Até os anos 20, quando se tratava de explicar o excesso sexual que caracterizaria o brasileiro, determinando a enorme disseminação da sífilis no país, muitos médicos lançavam mão dessas hipóteses climáticas e raciológicas. Como se dizia em 1871, a "mocidade", principalmente a brasileira, "vítima" de uma puberdade precoce devido ao clima quente", iria buscar nos bordéis "os germens de destruição que a deve minar surdamente, deteriorando-lhe o organismo, e implantar-lhe, assim como em seus futuros descendentes, a funesta origem de uma morte prematura ou de uma saúde precária" (Anônimo, 1871:26).
Em 1902, voltando ao tema, Pires de Almeida escrevia no Brasil-Médico: "Dir-se-á, talvez, com razão, que nos países ardentes, em que a terra brilha com a constante riqueza de suas produções, onde há abundância, a nudez habitual dos sexos desperta incessantemente idéias lúbricas, mormente em nações menos cultas..." (Almeida, 1902:35).
Em 1913, em seu Elementos de Hijiene, Afrânio Peixoto vinha confirmar que, entre os fatores que contribuíam para a incontinência sexual do brasileiro, estaria a puberdade precoce (Peixoto, 1913).
Porém, se idéia de o brasileiro ser excessivo sexualmente estava voltada a chegar mais ou menos intacta até nossos dias, os pressupostos que a sustentavam iriam ser, sobretudo a partir dos anos 20, questionados, principalmente os que diziam respeito à raça. Durante a década de 1920, por exemplo, Oscar da Silva Araújo dizia que vários autores norte-americanos continuavam a acreditar que a sífilis era muito mais freqüente entre os negros, dada
a precocidade da sua vida sexual. 33 E, no Brasil, o sifilógrafo baiano Egas Moniz de Aragão teria mesmo utilizado, como critério para provar a "lubricidade simiesca sem limites" dos negros brasileiros, conforme a qualificava, a grande incidência do cancro extragenital entre eles. Geralmente, o surgimento de cancros extragenitais (nos lábios, ânus, mãos etc.) indicava a prática de atos sexuais não convencionais. Como se julgava freqüentemente que a procura dos "prazeres perversos", ou seja, a transgressão das normas sexuais fosse geralmente ocasionada pelo abuso dos atos sexuais normais e a conseqüente extenuação do prazer obtido através deles, concluía-se que a incidência dos cancros extragenitais seria um bom índice para se medir o excesso sexual de um indivíduo ou de um grupo social.
Oscar da Silva Araújo criticava veementemente as opiniões "exageradas" de Moniz de Aragão. Segundo o sifilógrafo carioca, desde finais do século XIX as estatísticas do Rio de Janeiro, confeccionadas por seu pai, apontavam que a maioria dos cancros extragenitais se verificava justamente em indivíduos brancos, sobretudo portugueses (Araújo, 1928a:33). Se havia, portanto, "hiperestésicos" sexuais, eles teriam vindo da população branca ou quase branca do Hemisfério Norte, que, como vimos, passou também, no mesmo momento, a ser considerada a verdadeira introdutora da infecção sifilítica no Brasil.
Embora apareça esporadicamente até os anos 40, a hipótese climática também passa a ser alvo de crítica nos anos 20. Em 1922, por exemplo, um editorial da Folha Médica dedicado à educação sexual combatia a hipótese climática. Depois de dizer que "precisamos repudiar de uma vez por todas essa concepção desmoralizadora, segundo a qual estamos condenados a vegetar nas formas inferiores de civilização", complementava: "se os raios de sol trazem mais calor, em compensação o metabolismo básico é menor". Assim, a maior excitabilidade nervosa que poderia existir no Brasil começava a ser explicada sobretudo pela "falta de treno no domínio de si próprio", que caracterizaria o brasileiro, principalmente quando comparado ao anglo-saxão (Folha Médica, ano III, n° 24 de 5/12/1922, p.279). Portanto, um problema de possível resolução através de uma intervenção educativa.
Efetivamente, a partir dos anos 20, os sifilógrafos brasileiros irão enfatizar sobretudo as influências sociomorais como moduladoras da "necessidade sexual" no sentido do excesso, apontando como suas causas precípuas a ignorância, a pobreza, a imoralidade do meio social, a herança escravocrata etc. Condicionando a intensidade, constância e diversificação da demanda e da oferta no mercado sexual, seriam tais influências que determinariam em última instância o ritmo de difusão da sífilis. E, o mais importante, diferentemente dos fatores biofísicos como a raça e o clima, elas podiam ser, através de uma intervenção esclarecida, alteradas mais rápida e facilmente, franqueando ao país o desenvolvimento em direção às tais "formas mais elevadas de civilização". Porém, mesmo acreditando progressivamente em uma possível "redenção", os sifilógrafos iriam manter fundamentalmente inquestionável o mito da hiperestesia sexual do brasileiro.
A ressurreição de uma raça
Já vimos em capítulo anterior (Sífilis: Doença Universal, cap. 1), como teoricamente a sífilis pôde se transformar em um dos mais importantes fatores de degeneração da espécie ou da raça, fazendo com que, desde o final do século XIX, a luta que se organizou contra ela pudesse assumir incontestavelmente um caráter eugênico. Assim, denunciada constantemente, a enorme difusão do mal entre nós não significava apenas o comprometimento da saúde e da vida de milhares de brasileiros, mas o comprometimento do futuro da nação, através do abastardamento da raça que lhe servia de substrato. Desde o século XIX, a doença vinha sendo apontada como a causa "acentuada da degeneração da nossa raça" (Araújo, 1891:27), fazendo com que trouxesse, "na fronte, o selo do abastardamento (Caldas, 1866:55). De finais do século XIX até
1940, sua importância entre os fatores de degeneração da raça no Brasil, não fez senão aumentar.
Obviamente, os médicos brasileiros estavam bem cientes da existência de outras importantes fontes de degeneração, como o alcoolismo ea miscigenação racial. No começo do século XX, por exemplo, o paulista Cláudio de Souza justapunha à sua luta contra a sífilis o combate ao alcoolismo, reconhecendo igualmente que a "conjunção com raças inferiores", que se processava livremente no país, contribuía também para o agravamento da degeneração da raça neolatina que, para ele, desenvolvia-se nos trópicos brasileiros (Souza, 1909:4). A situação seria tão grave que, em 1906, dizia aos convidados à inauguração de sua Liga: "Somos uma ronda de crianças, bailando a beira de um abismo, fazendo guarda alegre à uma câmara funerária, cantando uma serenata a acompanhar o enterro de um raça" (Souza, 1906a:18).
Porém, se a sífilis pôde, durante certo período, dividir com a miscigenação racial a posição de principal responsável pela "evidente" degeneração da raça brasileira, o mais interessante parece ter sido o fato de, sobretudo a partir de 1920, ela ter começado a se impor, substituindo-a. Foi ao longo dos anos 20 que o apelo em prol da salvação da raça através de uma luta antivenérea, lançado pelos sifilógrafos desde finais do século XIX, parece ter sido mais firmemente incorporado por eugenistas, como Renato Kehl, médicos-legistas e higienistas, como Afrânio Peixoto, Leonídio Ribeiro, Rodrigues Dória, e psiquiatras, como Antônio Austregésilo, Juliano Moreira, Heitor Carrilho etc. Assim, fundada por Gustavo Riedel no Rio de Janeiro em 1923, a Liga Brasileira de Higiene Mental teria o combate à sífilis como um dos principais meios para alcançar o seu objetivo maior: prevenir a incidência das doenças mentais no país (Costa, 1981). E, se desde 1921 o grande eugenista brasileiro Renato Kehl entrara na luta antivenérea era porque a sífilis "não só sacrifica a vítima, mas a descendência e, por prejudicial à raça, constitui um grande perigo nacional" (Kehl, 1921:7). Em 1929, as campanhas antivenéreas seriam um dos grandes temas discutidos no 1° Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado no Rio de Janeiro (Stepan, 1990:119).
A partir dos anos 20, e até o início dos anos 40, as concepções dos sifilógrafos parecem se adequar perfeitamente ao neolamarckismo que teria marcado quase toda a reflexão brasileira sobre a hereditariedade nesse período. Como aponta Nancy Stepan em trabalho recente, diferentemente dos países anglo-saxões, no Brasil e em outros países latinos, "eugenizar" significou predominantemente "sanear". Para ela, isso se explica pelo fato de que, "influenciados" pelos teóricos franceses, os eugenistas, higienistas e médicos brasileiros em geral se pautavam por idéias neolamarckianas, acreditando na hereditariedade dos caracteres
adquiridos. 34 Assim, a solução do problema racial no Brasil teria se centrado amplamente no combate às doenças epidêmicas e endêmicas que o assolavam e cuja nefasta influência, como permitia pensar o neolamarckismo, era sentida pela descendência, abastardando-a.
Através do neolamarckismo, ressaltava-se então que se o Brasil era o exemplo de país degenerado, como queriam, desde o século XIX, Buckle, Gobineau e os intelectuais brasileiros que incorporavam suas idéias, isso não se devia nem ao clima, nem à miscigenação racial, como eles acreditavam. Éramos inferiores, mas não se tratava de uma inferioridade constitucional, e sim de uma inferioridade conjuntural, situacional. No prazo de poucas gerações, caso se fizesse uma política sanitária e educativa bem dirigida, o Brasil podia ser eugenicamente redimido, purificado. As raças que compunham sua população exibiriam então seus atributos positivos, apenas momentaneamente mascarados pelas deletérias conseqüências de certas doenças, como a sífilis, e de certos costumes perniciosos, como o excesso sexual que a propiciava. Acreditar-se que parte do problema brasileiro residia na sífilis e não na mistura de raças trazia, assim, importantes ganhos secundários. Contribuía para que se instalasse um certo otimismo científico, parte do esforço empreendido pelas elites brasileiras, sobretudo a partir dos anos 20, no sentido de retirar do Brasil, segundo diz Stepan, o fado de um país que, por ser mestiço e quente, estava condenado para sempre ao atraso e à barbárie. Para a autora, a consolidação desse tipo de raciocíonio durante os anos 20 esteve ligada principalmente ao surgimento do que ela chama de "nacionalismo realista" que, como diz, baseava-se "na rápida expansão de uma economia exportadora construída sobre o café, na industrialização e na emergência de novos grupos profissionais de classe média que esperavam reformar a tradicional política republicana e lançar o Brasil como uma potência mundial" (Stepan, 1990:128/129). Foi nessa nova conjuntura que teriam emergido preocupações relativas às condições sanitárias da mão-de-obra nas grandes cidades, à atração de imigrantes brancos e à necesidade de "redimir" os sertões. E, o que interessa mais diretamente a esta obra, foi então, segundo a autora, que "os brasileiros começaram a rejeitar sua tradicional dependência em relação ao conhecimento e aos valores europeus, procurando novos caminhos para reinterpretarem sua condição racial e climática no sentido de produzirem para si mesmos uma visão mais otimista do país..." (Idem).
Nesse contexto, a sífilis – cuja importância para a sobrevivência das idéias neolamarckianas em todo o mundo é amplamente
reconhecida por Stepan35 – teve sem dúvida um valor estratégico entre nós. Conjugadas à crença em sua extrema difusão no Brasil devido ao excesso sexual que singularizava os nacionais, suas características hereditárias, contribuíram significativamente para que a reflexão sobre a degeneração racial se deslocasse do problema da miscigenação para o problema da patologia sexual. Tal deslocamento parece ter encontrado sua versão mais radical e influente em Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, que, publicado em 1933, pode ser considerado um testemunho inegável do grande impacto da reflexão sifilográfica dos anos 20 sobre o pensamento social brasileiro que se produz a partir daí.
Como já pude observar, Freyre faz inúmeras referências à sífilis nessa obra, apoiando-se amplamente nos trabalhos históricos do sifilógrafo Oscar da Silva Araújo. Repetindo Araújo, Gilberto Freyre diz que o Brasil se "sifilizou" bem antes de se "civilizar" e que, entre as "influências sociais", "talvez sífilis tenha sido, depois da má nutrição, a mais deformadora da plástica e a mais depauperadora da energia econômica do mestiço brasileiro" (Freyre, 1954[1933]:161). Para ele: "A vantagem da miscigenação correspondeu no Brasil à desvantagem tremenda da sifilização. Começaram juntas, uma a formar o brasileiro – talvez o tipo ideal do homem moderno para os trópicos, europeu com sangue negro ou índio a avivar-lhe a energia; outra, a deformá-lo. Daí certa confusão de responsabilidades; atribuindo muitos à miscigenação o que tem sido obra principalmente da sifilização; responsabilizando-se a raça negra ou ameríndia ou mesmo a portuguesa, cada uma das quais, pura ou sem cruzamento está cansada de produzir exemplares admiráveis de beleza e robustez física, pelo "feio" e pelo "bizonho" das nossas populações mestiças mais afetadas de sífilis ou mais roídas de verminose" (Idem).
Mesmo depois de se ter colocado em dúvida o caráter hereditário da doença, a articulação entre sífilis e degeneração racial permaneceria, no Brasil, bastante forte, perdurando nos meios científicos até pelo me-nos os anos 40. Assim, na abertura da 1ª Conferência Nacional de Defesa Contra a Sífilis, o seu presidente, sifilógrafo Joaquim Mota, reiterava o caráter "patriótico" do evento, uma vez que seu objetivo maior era "melhorar a saúde de nosso povo e salvaguardar o futuro da raça brasileira" (Anais da 1ª Conf. Nac. de Def. Contra a Sífilis, 1941:41). Para Mota, o combate à sífilis que o Estado Novo então anunciava vinha completar a obra já realizada por Vargas, no sentido de "formar em bases eugênicas o brasileiro de amanhã". Segundo dizia, "Cuida-se de amparar a maternidade e a infância, desenvolvem-se atividades em prol da educação física da mocidade, mas é mister combater os males que desvalorizam o homem, que se perpetuam através de gerações, criando as degenerescências e o abastardamento da raça" (Idem, 43).
Enfim, em cerimônia no Palácio do Catete, era o próprio Vargas que vinha endoçar os laços que continuavam a manter bem unidas sífilis e degeneração. Ao receber as conclusões e moções aprovadas pela conferência, dizia que nelas encontraria seguramente subsídios para o programa que pretendia realizar "visando à solução médico-social da sífilis, de tão grande interesse para a nacionalidade e para a raça" (Idem, 541). Era o reconhecimento máximo da sífilis enquanto objeto de "interesse nacional" e do valor social da sifilografia e de seus devotados cultores.
1 Segundo Lycurgo dos Santos Filho, o professor de cirurgia Vicente Cândido Figueira de Sabóia, Visconde de Sabóia, foi diretor da faculdade de medicina entre 1881 e 1889. "Excelente administrador, responsável pela reforma de ensino que leva seu nome (1883-84), reestruturou as duas faculdades médicas brasileiras" (Santos Filho, 1966:90). Citando testemunhos de Alfredo Nascimento e Silva e Fernando Magalhães, Achiles Ribeiro de Araújo diz que os oito anos da administração Sabóia correspondem ao período áureo da faculdade do Rio. Ela então "ombreava com as melhores da Europa, não tendo em toda a América nenhuma outra que lhe pudesse ser comparada" (Araújo, 1982:18).
2 Ofatodea sífilis ser um problema de saúde principalmente para a "população" ou "classe pobre"era ainda ressaltado pelos inspetores da Paraíba, em 1869, e do Ceará, em 1868 (Anônimo, 1871:26).
3 Tais enfermarias teriam recebido um total de 18.143 doentes, sendo 16.281 homens e 1.862 mulheres. Desse conjunto, 7.082 teriam doenças venéreas (Anônimo, 1871:26).
4 A idéia de que todo brasileiro era sifilítico ou dequea sífilis era particularmente difundida no Brasil será mais longamente explorada adiante neste capítulo, em Uma Sífilis Brasileira?
5 Este momento da biografia de Silva Araújo é sempre ressaltado por todos os que, posteriormente, ocuparam-se de sua trajetória intelectual. Entre outros, ver: Mello, 1930[1900]; Machado, 1930[1900]; Araújo, 1930.
6 Nos anos 1930, escrevendo sobre o pai, o também sifilógrafo Oscar da Silva Araújo reproduz um relato do oftalmologista Hilário de Gouveia que, além de divertido, é bastante significativo do ponto de vista antropológico. Trata-se de um "incidente" ocorrido nesta conferência, envolvendo Silva Araújo e Sua Majestade: "D. Pedro II estava presente; terminada a dissertação, Silva Araújo convidou-o a examinar algumas preparações. Timidamente começou a instruir Sua Majestade no manejo do microscópio que procurava focalizar, quando foi, de um modo um tanto brusco, interrompido pelo Imperador, que disse não ser para ele nenhuma novidade aquele instrumento científico, pois na Europa tivera já a oportunuidade de manobrá-lo. Mas o Imperador, se é que de fato já o maneara, não estava certamente seguro da técnica. Por esse tempo, não se usavam ainda os espelhos duplos e, a uma manobra infeliz do soberano, virou-se o espelho, desapareceu a iluminação do campo e tornou-se impossível a observação. Isso não impediu que Pedro II continuasse a dispensar a ajuda do conferencista e que, entre elogios à obra de Pasteur, dissesse que estava vendo perfeitamente" (Araújo, 1930:282). Muito além da "vaidade imperial", esta pequena anedota ilustra exemplarmente o fato de a força de implantação e de difusão de idéias científicas depender tanto da realidade que supostamente "desvelam", quanto da autoridade social de onde promanam.
7 Nomeadamente: Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo – especialista em moléstias da infância; Francisco Borges de Souza Dantas e Júlio Rodrigues de Moura – especialistas em moléstias tropicais, tendo sido Moura assíduo colaborador da Gazeta Médica da Bahia; Pedro Severiano de Magalhães – cirurgião, também especialista em doenças tropicais; João Pizarro Gabizo – especialista em dermatologia e sifilografia, Domingos de Almeida Martins Costa e João Carlos Teixeira Brandão – ambos especialistas em moléstias nervosas; Henrique Carlos da Rocha Lima – especialista em doenças do coração e pulmão; José Cardoso de Moura Brasil – oftalmologista formado pela Bahia; Carlos Pires Ramos e José Rodrigues dos Santos – especialistas em obstetrícia e ginecologia; Cypriano Barbosa Bettamio – especialista em laringologia e rinologia; e, finalmente, Antônio Loureiro Sampaio (Araújo, 1982:202). De todos os treze médicos que fundaram a Policlínica, apenas Sampaio e Pizarro Gabizo não seriam incluídos em seu primeiro corpo clínico (Santos Filho, 1991:485).
8 Ao que parece, há um certo desentendimento quanto à composição do corpo de médicos que se reuniu na Policlínica. Schwartzman cita apenas cinco médicos da Policlínica, responsáveis pelos tais "primeiros" trabalhos científicos brasileiros: Pertence, Caminhoá, Ramiz Galvão, Nuno de Andrade e Kossuth Vinelli. Ora, os meus próprios dados e os apresentados por Santos Filho (1991) e Araújo (1982) revelam, entretanto, que nenhum deles, que eram à época todos professores da Faculdade, fizeram parte do grupo inicial da Policlínica. Trabalhos bem mais recentes, como o de Benchimol, continuam colocando indevidamente na Policlínica os nomes de Ramirez Galvão e Nuno de Andrade, além de Hilário de Gouvêa (Benchimol, 1990:229).
9 Em 1900, seu discípulo mais dileto, Werneck Machado, diz que Silva Araújo teria sido o "primeiro diretor do laboratório microscópico" (Machado, 1930[1900]:329). Entretanto, ao enumerarem o primeiro corpo clínico da Policlínica, historiadores mais recentes dão o farmacêutico José Pereira Lopes como chefe do laboratório de "análises químicas" (Santos Filho, 1991:485) ou "clínicas" (Araújo, 1982:203). Haveria dois laboratórios?
10 Sobre a identidade entre a bouba ea sífilis, uma interessante polêmica se estabeleceu em 1898 entre os médicos Lopo de Albuquerque Diniz e Chapôt-Prévost (Diniz, 1898). O primeiro defendia a identidade entre as duas moléstias; o segundo as diferenciava. Aparentemente, nos meios médicos, este tipo de polêmica só terminaria definitivamente depois de 1905, ano em que Castellani identificou o agente causador da bouba, também conhecida como pian ou yaws. Tratava-se de um outro treponema (treponema pertenue), morfologicamente idêntico ao espiroqueta pálido e que, embora cedesse também à ação do mercúrio, não era de transmissão sexual. Segundo Bechelli, a bouba era encontrada sobretudo nas zonas tropicais, nas Américas, África, sudeste da Ásia e Oceania (Bechelli, 1976:809).
11 A real importância de Silva Araújo e de outros médicos de sua geração para a implantação da bacteriologia no Brasil ainda está por ser plenamente estabelecida. Para isso, esperamos o trabalho que, sobre o assunto, vem realizando o historiador Jaime Benchimol. De todo modo, é significativo que, antes de empreender seu decisivo estágio no Instituto Pasteur, entre 1896 e 1899, Oswaldo Cruz tenha trabalhado na Policlínica, ligado justamente ao serviço de Silva Araújo. Segundo Benchimol, depois de formado, Cruz teria sido "convidado para organizar, na Policlínica, o serviço de análise para diagnóstico de sífilis e moléstias internas" (Benchimol, 1990:15). Com Salles Guerra, Silva Araújo e seus colaboradores mais imediatos, Werneck Machado e Alfredo Porto, Oswaldo Cruz formou um grupo para aprender o idioma alemão que ficaria conhecido como "grupo dos cinco germanistas" (Idem, 230). Stepan fala do mesmo grupo (Stepan, 1976:72), sem entretanto se referir a Silva Araújo, de quem trata muito rapidamente quando aborda os "tropicalistas" baianos, dando a entender que aquele surto de "medicina experimental" havia terminado ali mesmo, na Bahia, com a dificuldade de reprodução de quadros (Idem, 60). Retornando de Paris, Oswaldo Cruz voltaria a cuidar dos exames bacteriológicos da Policlínica, fazendo parte de seu conselho até 1907 (Benchimol, 1990:179). Neste ano, foi destituído devido a um conflito que o oporia ao então presidente da instituição, Moura Brasil, que, ao que parece, queria expurgar as atividades de ensino e pesquisa que vinham sendo ali desenvolvidas (Idem, 230).
12 Werneck Machado tornou-se membro correspondente das sociedades francesa e argentina de dermatologia e sifilografia. Mas, diferentemente de Silva Araújo, o seu prestígio internacional parece ter advindo principalmente do reconhecimento de sua atuação como propagandista em prol da adoção de medidas para a profilaxia pública da sífilis e das doenças venéreas entre nós. Nesse sentido, além de ter sido membro correspondente da Sociedade Francesa de Profilaxia Sanitária e Moral e de ter sido indicado como vogal para o Brasil na Liga Latino-Americana Contra a Avaria, fundada em Montevidéu, em 1907, Werneck Machado receberia, em 1911, a medalha de prata na Exposição Internacional de Higiene Social de Roma, por seus trabalhos de propaganda popular contra a sífilis (Anônimo, 1929).
13 É interessante que, em seu balanço, Werneck Machado tenha agrupado a dermatologia, a sifilografia e a venereologia, incluindo nesta última os trabalhos sobre a blenorragia, que, ao menos no Brasil, sempre foi objeto da urologia. Ao que parece, em países como os Estados Unidos, a sífilis e as demais doenças venéreas, logo se constituiriam em um campo à parte, designado por venereologia. No Brasil, tenho nota da existência de cursos de venereologia apenas na década de 1930 e, pelo menos até a década seguinte, são basicamente os dermatologistas que estudavam a sífilis.
14 Quando, em 1904, funda-se a Policlínica de Botafogo, ainda em sua "fase dermatológica", Juliano Moreira ocupava a chefia do Serviço de Moléstias de Pele, enquanto Oswaldo Cruz se ocupava do laboratório. Três ou quatro anos depois, Moreira seria substituído por Eduardo Rabelo.
15 Entre os mais importantes: Juliano Moreira, Moncorvo Filho, Teófilo de Almeida, A. F. da Costa Jr., Joaquim Mota, Gilberto e Henrique de Moura Costa, Renato Khel, Antônio Austregésilo, Armínio Fraga, João Ramos Silva, Olympio da Fonseca Filho, Parreiras Horta, Artur Moses, Antonio Aleixo, Francisco Clementino, Jorge Lobo, A. Leitão, U. Nonohay, Carlos Chagas, Artur Neiva, Fernandes Figueira etc.
16 Em seu relatório ao ministro da Educação e Saúde referente ao ano de 1944, J. B. Barreto (diretor do Departamento Nacional de Saúde), esclarece que o Regulamento Sanitário de 1920 foi aprovado pelo decreto 14.189, de 26/03/1920, sendo ministro da Justiça e Negócios Interiores Alfredo Pinto. Tal decreto transformava a antiga Diretoria Geral de Saúde Pública em Departamento Nacional de Saúde Pública. Ainda segundo Barreto, o decreto 14.189 teria sido substituído mais tarde pelo decreto n° 14.354, de 15/09/1920, modificado pelo de n° 15.003 de 15/09/1921, e ainda alterado pelo de n° 16.300, de 31/12/1923 (Barreto, 1945). O texto integral do Regulamento a que tive acesso foi o que acompanha o decreto n° 14.354, de 15 de setembro de 1920.
17 A luta dos médicos pela obrigatoriedade do exame em dermato-sifilografia nas faculdades de medicina data de finais do século XIX e já era aconselhada explicitamente pela Academia Nacional de medicina em 1890 (Almeida, 1902:338).
18 Segundo Thompson Mota, diretor da Fundação Gaffrée-Guinle por volta de 1940, a instituição teria sido criada por Guilherme Guinle, através de escritura pública de 20/08/1923. Seu nome teria sido uma homenagem a Eduardo Palassin Guinle e Cândido Gaffrée, construtores do porto de Santos. A família Guinle teria investido dezesseis mil contos na construção do hospital e de dez ambulatórios erigidos no centro e periferia do Rio de Janeiro. Gilberto de Moura Costa teria sido seu primeiro diretor (Motta, 1941). De acordo com relatório do diretor-geral do Departamento Nacional de Saúde Pública, encaminhado ao ministro da Justiça e Negócios Interiores em 1923, "para perpetuar a memória daqueles ilustres brasileiros – Cândido Gaffrée e Eduardo Guinle – resolveram os irmãos Guinle organizar, de acordo com o Governo, uma fundação especialmente destinada a auxiliar no combate à sífilis e às doenças venéreas, para o que, além de dispensários localizados em pontos diversos da cidade, será construído um hospital moderno, destinado ao tratamento de enfermos daquelas doenças" (Relatórios do Ministro da Justiça e Negócios Interiores, 1923, p.201). Em 1927, fazendo um histórico da cooperação entre a Fundação Gaffrée-Guinle e a Inspetoria, o então inspetor geral, Oscar da Silva Araújo, dizia que tal fundação teria sido "criada com o fim especial de auxiliar o Governo na campanha antivenérea, tomando a si a construção dos dispensários que se fizessem necessários e de um grande hospital" (Araújo, 1927). Além dos fundos fornecidos pela família Guinle, a fundação recebia subvenção votada pelo Congresso para a manutenção dos seus serviços. Para maiores informações sobre a Fundação, ver adiante Injeções, Pomadas e Conselhos, cap. 4.
19 A Inspetoria teria apresentado trabalhos aos 2° e 3° Congressos Sul-Americanos de Dermatologia e Sifilografia, realizados respectivamente em Montevidéu/1921 e Buenos Aires/1926; à 1ª Conferência Americana da Lepra e ao 1° Congresso Nacional de Práticos, ambos realizados no Rio de Janeiro em 1922; à 3ª Conferência Internacional da Lepra e ao 3° Congresso dos Médicos de Língua Francesa, ambos realizados em Estrasburgo, em 1923; aos 1º, 2° e 3° congressos brasileiros de higiene, reunidos respectivamente no Rio de Janeiro/1924, Belo Horizonte/1925 e São Paulo/1926; às diversas conferências pan-americanas de higiene e ao 3° Congresso de Profilaxia e Higiene Social, realizado em Paris, em 1923 (Araújo, 1927:55).
20 Entre eles, M. Aberastury e Pedro Balina – Argentina, Brito Foresti – Uruguai, José Inácio Uribe – Colômbia, Hermann Roeschman – Alemanha, Deaseaux – França, Joseph Ellers, Charles C. Dennie, Morris Moore, H. W. Hade, W. L. Cooke, Louis Schwartz, E. E. Meyers, Jerome P. Webster – E.U.A.
21 Essa reivindicação que, como vimos, vinha sendo explicitada desde finais do século passado, é ainda recolocada por volta de 1940. Nesse sentido, a grande conferência sobre profilaxia da sífilis promovida pelo Estado Novo em 1940 aprovava, entre suas conclusões finais, "a necessidade de melhorar o ensino médico no tocante ao estudo das doenças venéreas, exigindo-se estágio obrigatório em serviços especializados, dada a importância que cabe ao médico prático na profilaxia antivenérea" (Anais da 1ª Conf. Nac. de Defesa contra a Sífilis, 1941:525).
22 Ver, por exemplo, Dantas, 1905:11.
23 Segundo o médico e historiador paulista A. de Almeida Prado, Jeanselme teria desenvolvido mais longamente sua posição pró-origem americana em seu Traité de la syphilis, publicado em Paris em 1931, ao qual, entretanto, não pude ter acesso. Escrevendo em 1961, Prado nos dá um excelente balanço da discussão até aquele momento, quando, segundo lhe parecia, estaria "provada a origem americana da infecção treponêmica" (Prado, 1961:75).
24 Para isso, ver seção anterior deste capítulo: A Implantação Sifilográfica.
25 Ainda em outro ponto importante, como se verá, Oscar da Silva Araújo iria se contrapor a Aragão que, embora fizesse parte da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, parecia manter relações com os centros europeus sem passar pelo Rio de Janeiro. Não pude, entretanto, a partir do material compilado até agora, perceber se havia uma "sifilografia bahiana", em oposição a que se constituía nos centros do sul do país.
26 Um exemplo da extraordinária pregnância dos dados estatísticos levantados por Silva Araújo pode ser sua reprodução, quase meio século mais tarde, em nota de Casa grande e senzala (Freyre, 1952[1933]:654). As estatísticas de Silva Araújo são lembradas no momento em que Gilberto Freyre buscava apoiar empiricamente sua "constatação" de que, no Brasil, no litoral, isto é, "na zona mais colorida pela escravidão", e portanto mais atingida pela dissolução sexual, "sempre foi larga a extensão da sífilis" (Idem, 541).
27 Inicialmente, tais artigos foram publicados na revista Medicina Militar, no Boletim da Sociedade Médico-Militar e na Revista de Medicina e Higiene Militar. Em 1929, todos eles foram reunidos em uma única publicação, que sustentava a comunicação que Lobo apresentou ao 1° Congresso Brasileiro de Eugenia, reunido no Rio de Janeiro em junho daquele ano (Silva, 1929). Foi essa a publicação que consultei para esta obra.
28 Para o qüinqüênio considerado, a morbidade por doenças venéreas por mil soldados teria sido de: 1909 – 286,2; 1910 – 283,4; 1911 – 298,1; 1912 – 348,8; 1913 – 301,7.
29 Lobo citava dados de Lemoine sobre morbidade por doenças venéreas por mil soldados em diferentes exércitos europeus: Alemanha – 5,7; Bélgica – 6,7; França – 6,8; Baviera – 9; Rússia – 12; Itália – 13; Rumânia – 16; Áustria – 19; Inglaterra – 75 (metrópole) e 139 (colônias) (Silva, 1929:9-10).
30 Porto-Carrero estava bem ciente dessa precariedade. Segundo dizia, não se compreendia, por exemplo, como uma porcentagem estimada em 3,1% de casos de sífilis no ano de 1916 tenha podido subir para 14,9% no ano seguinte, quando começou a trabalhar como médico-militar. Para ele: "As falhas nas estatísticas se explicam freqüentemente pelos diagnósticos mal feitos ou mal exarados; a diversidade da nomenclatura do diagnóstico leva muita vez a erros de estatíticas, pois onde um clínico diagnostica apenas ‘úlcera’, outro porá ‘goma ulcerada’ e outro precisará ‘sífilis terciária’, atendendo à doença geral e não a sua manifestação" (Silva, 1929:38). É ao seu olhar mais atento à sífilis que Porto-Carrero atribuía explicitamente o aumento do número de casos entre 1916 e 1917, clamando pela uniformização da nomenclatura.
31 Quanto às enfermarias e consultórios de clínica dermatológica da Santa Casa de Misericórdia, Machado apresentava os seguintes dados: no período de 1911 a 1918, na enfermaria de homens teria havido uma média de 22,13% de casos de sífilis; na enfermaria de mulheres, a seu cargo desde que fora inaugurada, em 1910, até 1917, a cifra seria de 25,85%; no consultório chefiado por Eduardo Rabelo, no período de 1912 a 1917, a sífilis teria atingido 22,21% dos doentes e, no mesmo período, no consultório chefiado por Américo da Veiga, atingiria 19,37%. O Serviço de Pele e Sífilis da Policlínica Geral do Rio de Janeiro teria atendido, desde 1882, 21.495 doentes, dos quais 24,71% apresentavam manifestações sifilíticas.
32 Virey era formado pela Faculdade de Medicina de Paris e membro honorário da Real Academia de Ciências da França. Sua dissertação foi traduzida e publicada no Rio de Janeiro em 1836. Deve ter tido certo impacto, pois as idéias nela exaradas serão reproduzidas por autores brasileiros até a passagem do século. Em 1902, em seu famoso trabalho sobre a libertinagem no Rio de Janeiro (Almeida, 1902), o médico brasileiro Pires de Almeida não teve pudor em copiar-lhe longos parágrafos, apesar de citar Virey apenas uma vez.
33 Araújo citava sobretudo um certo Mürrel, que havia declarado nunca ter visto uma preta virgem após os dezoito anos e que acreditava que em cinqüenta anos não haveria um só negro americano que não fosse sifilítico (Araújo, 1928a:60).
34 Segundo Stepan, até os anos 40 as idéias mendelianas sobre a imutabilidade das características genéticas ante as influências do meio, hegemônicas após a Segunda Grande Guerra, eram defendidas em apenas três instituições de pesquisa brasileiras: no Museu Nacional, através de Roquette-Pinto, na Escola de Agronomia de Piracicaba, através de Carlos Teixeira Mendes e Otávio Domingues e, a partir dos anos 30, na Universidade de São Paulo, através de André Dreyfus (Stepan, 1990: 133/134).
35 Depois de afirmar que, na primeira metade do século XX, o neo-lamarckianismo era prevalente nos círculos médicos, Stepan acrescenta: "Nessas décadas, a persistência entre os médicos de idéias lamarckianas cientificamente mais elaboradas refletia, não sua estupidez ou ignorância, mas a aparente irredutibilidade de certos problemas da patologia humana. Tome-se, por exemplo, o impacto das doenças venéreas dos pais sobre sua descendência: a "adaptabilidade" [fitness, no original] dos filhos não se encontrava diminuída? E essa inaptidão não era hereditariamente transmitida? Não havia uma "condição heredo-sifilítica"? Esta era a opinião da maioria dos médicos na França, onde as idéias lamarckianas eram muito difundidas, informando o movimento eugenista que lá se desenvolvia" (Stepan, 1990:120).