Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

Kester Carrara · Capítulo 4 de 11 · parte 3/3

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Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

2 - A inviabilidade da “coisa em si” como fonte explicativa do comportamento

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Skinner apresenta fórmulas tais como “R = f (S, A)” (1931,

p.452); “N = KTN” (1932, p.28); e “N = log Kt + C + ct” (1933,

p.341) (p.37; tradução nossa)

É extremamente importante compreender o sistema explicativo skinneriano numa contextualização temporal associada ao pensamento científico-filosófico que constituiu o cenário para o Skinner de 1931 (tese), de 1938 (O comportamento dos organismos) e de 1945 (Simpósio sobre o operacionismo). Ao mesmo tempo, em total coerência com o propósito essencial deste livro, ao defender a descrição de relações funcionais como estratégia irrenunciável para o entendimento dos fatos da natureza, é importante avaliar contextualmente o que diz Skinner já nas primeiras páginas de seu livro inaugural (1938). Na página 6, o autor oferece uma incipiente – embora nada insipiente – definição de comportamento. Na sequência, encontra-se um conjunto de termos, a maioria deles bastante popular, que são associados ao modo coloquial de explicitar aspectos da nossa interação com o ambiente. Diz-se, cotidianamente, que “um organismo vê ou percebe objetos, ouve sons, saboreia substâncias, cheira odores, gosta de ou antipatiza com alguém; ele quer, procura e descobre algo; ele tem um propósito, tenta, é bem-sucedido ou falha; ele aprende, recorda-se ou esquece; ele fica amedrontado, furioso, feliz ou deprimido; adormece ou acorda, e assim por diante” (p.6). Skinner afirma que é necessário evitar esses termos numa descrição científica do comportamento, não pelo fato de que não seja possível encontrar uma definição para cada um deles, mas talvez por mero acordo entre pessoas. O problema é que esses termos comumente carregam conotações de processos subjacentes nem sempre claros, fazem referência a condições intencionais do organismo para comportar-se numa ou noutra direção e dizem respeito cotidianamente a coisas ou estruturas, em geral internas, responsáveis pela ocorrência dos comportamentos a que se referem. O próprio Skinner (1938) explicita o que há de errado com os termos do vernáculo.

A objeção importante ao vernáculo na descrição do

comportamento é que muitos dos seus termos implicam

esquemas conceituais. Eu não quero dizer que uma ciência do

comportamento deve dispensar um esquema conceitual, mas

que não deve assumir algum sem uma análise cuidadosa dos

esquemas subjacentes ao discurso popular. O vernáculo é

desajeitado e obeso; seus termos se sobrepõem uns aos

outros, estabelecem distinções desnecessárias ou irreais e

estão longe de ser o modo mais conveniente para lidar com os

dados. Eles têm a desvantagem de serem produtos históricos,

introduzidos por causa da conveniência cotidiana, em vez de

por conta do tipo especial de conveniência que caracteriza um

sistema científico simples. Seria um milagre se tal conjunto de

termos estivesse disponível para uma ciência do

comportamento, e nenhum milagre desse tipo aconteceu. Há

apenas uma maneira de obter um sistema conveniente e útil: ir

diretamente para os dados. (p.7; tradução nossa)

É oportuno acrescentar que Skinner verticalizará sua posição sobre o escopo metodológico do Behaviorismo que descreve em O comportamento dos organismos (1938) ainda no segundo capítulo (p.44 ss.). Ele demarca a direção da pesquisa na Análise do Comportamento taxativamente.

Até aqui, como o método científico está em discussão, o

sistema estabelecido no capítulo anterior pode ser

caracterizado como se segue. É positivista. Limita-se à

descrição, em vez de à explicação. Os seus conceitos são

definidos em termos de observação imediata e não são dadas

propriedades fisiológicas ou de localização. Um reflexo não é

um arco, um drive não é um estado central, e extinção não é o

esgotamento de uma substância fisiológica ou estado. Termos

desse tipo são usados apenas para reunir grupos de

observações, estabelecer uniformidades, e para expressar as

propriedades do comportamento que transcendem casos

individuais. Eles não são hipóteses, no sentido de coisas a

serem provadas ou refutadas, mas representações

convenientes de coisas já conhecidas. (p.44; tradução nossa)

Ao assinalar que seu sistema é positivista, Skinner está visivelmente se referindo ao tipo de derivações “causais” que a linguagem coloquial sugere, o que costuma se circunscrever a explicações mediante estruturas internas (materiais ou imateriais), a dimensões teleológicas, e com funções iniciadoras internas típicas. Todas essas características são frontalmente adversas à tese das relações funcionais. É apenas e especificamente nesse contexto da terminologia que vai utilizar em seu livro primeiro que Skinner identifica seu sistema com o positivismo: dentro da lei dos três estados (teológico, metafísico e positivo), ele atribui à linguagem “científica” que utilizará a característica de ser positiva, no sentido de eminentemente descritiva, que também atribuirá aos termos usados no escopo metodológico de sua obra.

Mas há algo mais: embora se possa entender que Skinner anuncia evitar uma terminologia teleológico-metafísica em favor de outra, descritivo-positiva, e com isso estaria sob a influência da proposição positivista comtiana de ciência, parece mais pertinente, considerando as inúmeras referências que faz a Ernst Mach e sua renitente rejeição à metafísica, que esteja sob controle das características da ciência apontadas pelo físico-filósofo austríaco. A fisionomia das propostas skinnerianas, nessa direção, pode ser vista como variações dos mesmos expedientes utilizados por Mach na dimensão biológica, o que estreita o parentesco das reflexões de ambos os intelectuais, como se verá adiante. Antes, por outro lado, Skinner também justifica o fato de que não substituirá todos os termos da língua inglesa em suas formulações, o que seria cientificamente antieconômico, no sentido dado por Mach. Como não é possível nem conveniente definir todos os termos, ele passa a criar alguns que terão especificidade no âmbito de sua abordagem, como de fato o fez ao longo de sua obra com “reforço”, “reforçamento”, “operante”, “tato”, “mando” e dezenas de outros.

A afinidade lógica do positivismo metodológico (note-se: metodológico, mas não social, no sentido de Comte e Durkheim) de Skinner com o de Mach, portanto, implica olhar, alternativamente, para a causa como função, e para a descrição como explicação. De acordo com Mach (1894), “para o investigador da natureza não há mais nada a descobrir além da dependência entre os fenômenos, ou seja, a dependência dos fenômenos uns em relação aos outros” (p.252). Esse aspecto é crucial para o entendimento da visão relacional adotada pelos dois autores e completa de maneira lógica a festejada expressão machiana “descrever é explicar”. Os fenômenos, para o físico austríaco, ocorrem todos no âmbito de uma variação de relações de interdependência e são naturalmente descritos em termos de tais dependências. De modo que, para ele, descrever adequadamente um fenômeno é o mesmo que explicá-lo. Mach (1894) escreve: ”será que a descrição responde a tudo o que o pesquisador quer saber? Na minha opinião, é isso o que ela faz (p.253).

Para Smith (1986), Mach reconhece que a redução da explanação à descrição pode parecer incômoda aos pensadores para os quais a simples descrição produz uma sensação de “causalidade insatisfeita”. A maioria das pessoas estaria acostumada a conceber causa mesclada com a ideia de “puxar ou empurrar” para produzir efeitos, como num reflexo respondente incondicionado estímulo– resposta. Mas essa noção de causa seria apenas metafórica, supérflua e rejeitada em qualquer formulação científica final machiana. No seu esquema, “causa” e “efeito” são simples mudanças nas correlações entre duas ou mais variáveis do fenômeno, sentido em que relações de causa e efeito poderiam ser substituídas economicamente pela noção de função matemática. Essa visão machiana foi adotada de pronto por Skinner desde logo em sua carreira e figurou ao longo de toda a sua produção científica. Isso pode ser notado em seus textos de 1935, 1937 e 1938, quando ele consolida uma redefinição dos reflexos, substituindo a ideia de “drive” por uma mudança na correlação entre estímulo e resposta. Lembre-se que o autor está, então, apenas começando a ampliar seu exercício de formulação da dimensão operante do comportamento dos organismos. Antes disso, já na sua tese (1930-1931), revela precocemente a influência de Ernst Mach e admite que explicação e descrição constituem essencialmente atividades idênticas: “a visão mais simples de explicação e de nexo de causalidade parece ter sido sugerida pela primeira vez por Mach [...] para quem, em uma palavra, a explicação é reduzida à descrição e a noção de causalidade substituída pela de função” (p.337-8; tradução nossa).

Como se pode notar, se estritos aspectos da sua ciência (a Análise do Comportamento) e da sua filosofia de ciência (o Behaviorismo Radical) podem ser considerados fundados em algum positivismo, como o próprio Skinner admite e enuncia, estão apoiados na espécie de positivismo de Mach e, exceto pela recusa às explanações teológicas e metafísicas, mediante uma influência longínqua e indireta de Comte. Isso se esclarece na excelente análise de Smith (1986), na qual fica claro que o autor busca identificar aspectos que relacionam as visões “positivistas” de Mach e Skinner. Os positivistas lógicos do Círculo de Viena tinham Mach como seu predecessor doutrinário com relação à filosofia de ciência prevalente, mas o positivismo de Mach carecia de outro aspecto que era proeminente no movimento: uma forte ênfase na dimensão lógico-formal. Enquanto os positivistas lógicos mantinham sua epistemologia, que rejeitava a metafísica por meio da análise lógica, Mach defendia a mesma finalidade apoiado na descrição e na observação empíricas. Uma análise similar pode ser feita sobre o positivismo de Skinner: assim como o de Mach, seu positivismo foi uma estrita variante descritiva.

Essa postura epistêmico-metodológica de ambos implicava uma abordagem comungada, em que havia uma diferença de ênfase. No caso de Skinner, a economia proporcionada pelo novo método, embora finalmente biológica, era de imediato intelectual, resultante da combinação de parcimônia nas estratégias de pesquisa empírica e de vigorosa rejeição de especulações metafísicas. Naturalmente, tal postura rendeu a Skinner, como também a Mach, por razões diferentes, muitas críticas, tendo sido acusado de simplismo explicativo e positivismo ético, como já dito.

O princípio da economia (ou parcimônia) de fato não se origina diretamente em Ernst Mach, mas em Richard Avenarius, filósofo alemão que formulou as primeiras ideias do empiriocriticismo, baseado sobretudo no requisito inerente à predominância da observação e descrição como estratégia de pesquisa. De todo modo, há em Skinner ecos prevalentemente machianos, já que a evolução da ciência, para ambos, constituía um caso especial de processos biológicos amplos de autopreservação e adaptação ambiental. O behaviorista considerava o conhecer uma espécie particular de comportamento, e este, por sua vez, era contextualizado e entendido como um produto do processo adaptativo de modelagem por contingências ontogenéticas e filogenéticas de sobrevivência.

Na tentativa de situar Skinner no cenário das contribuições históricas para a constituição do seu Behaviorismo, Smith (1986) escreve:

[...] Skinner enfatizou as contribuições de Darwin, Lloyd

Morgan, Watson e Pavlov. De Pavlov, aprendeu a lição “controle

suas condições e você verá ordem”. Mas Pavlov estava

estudando o córtex cerebral por meio de suas experiências

sobre o reflexo condicionado. Tal tratamento inferencial da

neurofisiologia por meio de estudos comportamentais violava a

insistência machiana de Skinner no desenvolvimento de uma

ciência baseada na observação. Além disso, Skinner

argumentava que, se o próprio comportamento é ordenado, ele

deve ser tratado no seu âmbito de ocorrência, sem a

necessidade de recorrer a outro nível de explicação. Nesses

aspectos, ele foi muito influenciado pelo seu professor, o

fisiologista W. J. Crozier, de Harvard, e de modo indireto

também pelo professor de Crozier, Jacques Loeb. Foi a

influência da Biologia comportamental positivista de Loeb e

Crozier, mais do que a da Psicologia comparativa dos

sucessores imediatos de Darwin, que Skinner revelou nas suas

pesquisas. (p.286; tradução nossa)

Embora imprescindível, aprofundar a compreensão sobre como e em que medida a herança machiana, o positivismo clássico e o positivismo lógico influenciaram Skinner na construção do Behaviorismo Radical não é tarefa simples. Primeiro, parece necessário retomar algumas diferenças essenciais entre o Behaviorismo skinneriano e o de Watson, de um lado, e os de Tolman e Hull, de outro. Isso se faz necessário para compreender de modo razoável como cada um concebe seu modelo teórico de Behaviorismo.

Watson tem sido considerado patrocinador ora de um Behaviorismo ortodoxo, ora do Behaviorismo Metodológico. No entanto, trata-se apenas de uma contundente guinada no Zeitgeist do começo do século XX, de onde talvez lhe advenha uma suposta ortodoxia em termos de finalidades e métodos – estudar e observar o comportamento, em lugar de conduzir introspecções e refletir sobre os eventos, a natureza ou as características da consciência humana. No entanto, como já amplamente explicado na literatura, não lhe cabe a designação de behaviorista metodológico (Strapasson; Carrara, 2008). A atribuição da prática de um Behaviorismo Metodológico (1945a; 1945b) é atribuída por Skinner diretamente a Boring e Stevens. Na versão destes, o que é público, no comportamento, é passível de ser considerado científico; o que é privado deve estar fora de consideração científica.

Não é preciso aduzir detalhes ao fato de que algumas formas de behaviorismo, embora as afirmações exacerbadas de seus autores precisem ser consideradas historicamente, geraram polêmicas duras e intermináveis e resistência enorme entre aqueles que, embora simpatizassem com a ideia de que fosse necessária maior objetividade, estavam habituados a lidar com a introspecção como instrumento de coleta de “dados” e, até por conta disso, não sabiam como lidar com o que ainda imaginavam como objeto último da “sua” Psicologia (a consciência) diante da nova visão metodológica, desde o Manifesto Behaviorista de 1913. Nessas condições, Watson acabou sendo lido e veiculado por aqueles que, entre outros, viriam a constituir o Círculo de Viena, interessados em tornar a Psicologia uma ciência natural, nos moldes pregados pelo positivismo lógico, embora não fosse esse, propriamente, o estratagema behaviorista de Watson.

Em particular, Schlick, Carnap e seus seguidores certamente influenciaram o Neobehaviorismo de Tolman e Hull, na medida em que estes compartilhavam a ideia de que uma ciência do comportamento deveria ser expressa mediante equações matemáticas e com o uso de uma linguagem inequívoca (com o auxílio da lógica dedutiva). Por seu turno, Skinner é um indutivista ao seu modo. Ou seja, o uso preferencial do seu delineamento de sujeito único, com replicação, deixa explícita a lógica de que o melhor controle, no sentido de parâmetro de comparação, para o participante da pesquisa, é ele próprio, o mesmo indivíduo. Com isso, as comparações acontecem intrassujeito, e não intersujeitos. Finalmente, a generalização se dá pelas eventuais corroborações de dados com outras situações e sujeitos, tratando-se aqui do item da replicação sistemática.

Por outro lado, uma distinção importante que Skinner fez entre o Behaviorismo Metodológico e o Behaviorismo Radical é o fato de que este considera fundamental o estudo dos eventos privados e insiste em que não se deve confundir a dicotomia público–privado com a dicotomia objetivo–subjetivo. Ou seja, tanto o que é público quanto o que é privado deve ser objeto de estudo de uma ciência do comportamento. A objetividade, portanto, por um lado, não advém da observação direta do fenômeno; por outro, não implica um consenso intersubjetivo entre cientistas – eles podem concordar com relação a eventos inteiramente subjetivos ou imensuráveis, como no exemplo: “a mente causa o comportamento”.

A obra de Skinner, desse modo, possui um perfil divergente, em aspectos relevantes, daquelas dos colegas que o precederam. Seu Behaviorismo Radical, monista e fisicalista quanto ao estofo (ao substrato, à estrutura) dos fenômenos naturais, como o comportamento, abre espaço para o estudo de eventos internos – privados, mas não mentais, no sentido corriqueiro dessa última expressão, que significa uma dimensão não física e de funcionamento autônomo –, ainda que relute diante das dificuldades oriundas da utilização dos relatos verbais na forma como eles eram originariamente obtidos mediante a introspecção. Seu reconhecimento da importância do comportamento verbal e, em particular, do comportamento verbal encoberto, aparece explícito em diversas obras, em particular no seu ensaio eminentemente teórico: O comportamento verbal (1957).

Reitere-se que Skinner considera, como em About Behaviorism [Sobre o Behaviorismo] (1974), “o Behaviorismo Metodológico como uma versão psicológica do positivismo ou do operacionismo lógico”. Mais tarde, em Cannonical papers (1984) [Artigos canônicos], ele escreverá:

No Departamento de Psicologia de Harvard, Boring e Stevens

concordavam que [...] era preciso que a Psicologia se

preocupasse unicamente com eventos comportamentais e não

mentais se quisesse fazer parte das ciências unificadas. Mas eu

não concordava com isso. Essa era a posição dos behavioristas

metodológicos. De acordo com essa doutrina, o mundo é

dividido em eventos públicos e privados. E a psicologia, para

tornar-se ciência, precisaria confinar-se ao mundo dos eventos

públicos. Isso não era bom behaviorismo [...] eu creio que os

eventos privados são importantes e precisam ser estudados

como fatos comportamentais. (p.552)

Demarcada essa diferença reconhecida por Skinner em relação a seus colegas de Harvard, fica clara sua herança do que se poderia chamar de positivismo descritivo, oriundo de Mach, em contraposição a um positivismo social ingênuo, como advindo de Comte. Skinner considerava também que o Neobehaviorismo de Tolman e Hull importava recomendações metodológicas dos positivistas lógicos de Viena e, com isso, o objeto de estudo da Psicologia era visivelmente influenciado pelo dedutivismo lógico e pelos acordos intersubjetivos de verdade científica. Skinner discordava dessas pressuposições, e essa era uma característica do Behaviorismo Radical, comprometido com quatro condições básicas: interesse no estudo do comportamento “em si mesmo”, com características próprias e não alienadas a aspectos fisiológicos; antimentalismo; compromisso com o evolucionismo biológico darwiniano; compromisso com o determinismo probabilístico.

Creel (1980) aponta outra característica fundamental do que se poderia chamar de positivismo skinneriano: trata-se da explicação para os eventos privados, que seriam divididos em acessíveis e inacessíveis. O primeiro tipo se compõe daqueles eventos como as batidas do coração, as sinapses dos neurônios, que permitem algum tipo de observação (são internos, privados, mas direta ou indiretamente observáveis), mas não são comportamento, na acepção majoritariamente operante estudada na obra skinneriana. Os do segundo tipo, os inacessíveis, embora experienciais e ocorrendo no corpo, não poderiam ser observados direta ou indiretamente no momento, como as sensações de prazer ou dor, os sonhos. Ambos, para Skinner, deveriam fazer parte de algum interesse da ciência psicológica. A admissão dos eventos privados como fundamentais numa análise psicológica não significa, porém, que Skinner equalize eventos privados a eventos mentais e que todos os eventos privados sejam comportamentos, no sentido por ele atribuído como “parte daquilo que o organismo faz” na interação com o ambiente (1938). Ele rejeita a condição causal a constructos mentalistas, tais como ego, sentimento, mente, traços, instintos etc., analisando os conceitos psicológicos, inclusive os introspectivos mencionados por Bridgman, em termos de controle de estímulos.

Costuma-se considerar que a preocupação de Skinner com os dados, de forma geral – e com sua cuidadosa coleta, em particular –, constitua uma característica que o aproxime das formas tradicionais de empirismo, o que é incorreto ao se fazer referência ao tipo de empirismo que referencia na intermediação das ideias – e, nesse sentido, da “experiência consciente” – a interpretação da realidade, já que ele elege a resposta como unidade básica de análise. Por outro lado, por vezes se supõe que a identificação dele com o determinismo consista em fator que o vincule ao mecanicismo. Por último, “o combate à metafísica e a pretensão de prever e controlar levou muitos a inseri-lo dentro do positivismo” (Micheletto, 1997), o que talvez ocorra porque Comte também defende bases empíricas. Segundo ele, a observação é a “única base possível de conhecimento verdadeiramente acessível” e “toda proposição que não seja estritamente redutível ao simples enunciado de fatos, particular ou geral, não pode oferecer nenhum sentido real ou inteligível” (p.30-1).

Como já analisado, no entanto, não parece que seja exatamente o positivismo comtiano que se encontra em Skinner, mas aquele reinterpretado por Ernst Mach, como também deduz Mackenzie (1977). Isso se consolida nas palavras de Chiesa (1992):

Outra característica da filosofia de Mach diretamente adotada

por Skinner é sua tendência a reduzir ou a limitar o conceito de

explicação à descrição. Para o leitor moderno, acostumado a

pensar em ciência como um empreendimento que caminha da

descrição para a explicação, esse propósito pode parecer

contraditório aos objetivos da própria ciência. Todavia, Hempel

e Oppenheim começam seu clássico Estudos sobre a lógica da

explicação precisamente com esta asserção: “a pesquisa

científica nas suas várias acepções vai além da mera descrição

do fenômeno que estuda, mediante a colocação de uma

explicação para o fenômeno que investiga”. [...] A distinção de

Mach surgiu de duas características do seu próprio argumento:

a) a definição de “descrição”, que está relacionada à visão de

Mach acerca de causação; b) a oposição de Mach a certas

espécies de teorias, especialmente àquelas sustentadas numa

visão mecanicista da natureza, que, consequentemente,

apelam a entidades hipotéticas para superar lacunas

temporais e de espaço entre causas e efeitos. Isso é similar à

discussão derivada do grande debate do século XIX a respeito

das técnicas apropriadas de interpretação (teorias) na física e a Skinner, como Mach, privilegia a descrição da relação entre eventos como forma de explicação. Para ele, o comportamento só ganha sentido, só pode ser compreendido, e controlado, e previsto, se a análise leva em conta a interação entre organismo e ambiente. Para entender esse sistema relacional, é imprescindível descrever o que muda (se muda) no organismo e ao mesmo tempo, consequentemente, no ambiente – para assegurar essa consequenciação, há uma série de procedimentos metodológicos. Portanto, Skinner defende uma relação funcional, e não um sistema de causalidade mecânica (Micheletto, 1997).

disputa acerca das tentativas de descrição natural dos

fenômenos em termos análogos ao trabalho de uma “grande

máquina”. (p.1.292; destaque nosso)

Desse trecho pode-se depreender um pouco da identidade do pensamento skinneriano (expresso sobretudo a partir de 1945) e das proposições machianas (mais bem conhecidas particularmente nos textos de 1883, 1894 e 1905). Skinner compartilha a ideia de que descrever é explicar, no sentido de que, quando as mudanças nos valores das variáveis são descritas concretamente, ponto a ponto, tem-se uma explicação do fenômeno. Esse é o sentido inicial do conhecimento para Skinner, que, adiante, admite a formulação de teorias apenas no caso em que se utilizem elementos explicativos contidos num mesmo estofo (o físico), abdicando de qualquer condição dualista.

Chiesa (1992) deixa clara essa influência de Mach sobre Skinner, quando menciona a ênfase comum de ambos sobre a sequência observação–descrição–integração, na qual se privilegia o aspecto descritivo, em detrimento do inferencial ou da construção teórica. Não que Skinner ou Mach se esquivem em definitivo da formulação de teorias, até porque o fizeram incessantemente ao longo de suas vidas, ou neguem que o pesquisador, ao conceber seu projeto, tenha em vista algumas conjecturas preliminares. Mas o conjeturar, para ambos, precisa estar integrado num sistema no qual se tenham dados que permitam formular novas hipóteses, que levem a procurar novos dados etc. Apenas incidentalmente, quando se revê a bibliografia skinneriana (Carrara, 1992), nota-se que o seu programa de trabalho, durante toda a sua carreira, seguiu certa ordem, visivelmente caminhou de intensa atividade de pesquisa básica para a elaboração e publicação de artigos teóricos, o que foi comum nos seus últimos vinte anos de vida. De qualquer maneira, Skinner, sempre seguindo Mach, atribuiu particular valor heurístico à descrição como forma de compreender as relações funcionais entre as variáveis estudadas.

Apesar da máxima proposta por Mackenzie (1977) de que “a relação entre a ciência e o mundo real” é que define se uma teoria é ou não positivista, parece clara a necessidade de redobrada cautela ao classificar esta ou aquela corrente de tal ou qual maneira. No caso do Behaviorismo skinneriano, é nítido seu compartilhar com o determinismo e com o naturalismo visível no positivismo. Entretanto, se entendida a diferença entre “positivismo” e positivismo, aludida por Cupani (1985; 1990), não há como categorizar o Behaviorismo Radical – embora alguns possam tentar fazê-lo em relação ao autor, Skinner, e não à sua obra – decisivamente dessa maneira. No mínimo, seria um procedimento simplista. Parcimônia é imprescindível, como recomenda Abib (1985):

[...] corre-se sempre o risco de, ao tentar encaixar um autor em

determinado esquema, abstrair elementos importantes de sua

obra, que terminariam por impedir sua classificação e, por outro

lado, por esse mesmo motivo, não perceber que o pensamento

do autor poderia estar mais bem situado em outro tipo de

classificação, ou, até, não se ajustar a qualquer tipo conhecido

de classificação. (p.203-4)

Como conclui Chiesa (1992), “o sistema de explicação do Behaviorismo Radical focaliza as relações entre pessoas se comportando [...] e suas consequências – comportamento no seu contexto”. Nesse Behaviorismo, “pessoas são ilustradas como todos indivisíveis, ativos no e interativos com o seu ambiente, mudando e sendo mudadas pelo contexto e pelas consequências do seu comportamento” (p.1.288-9). Skinner, portanto, advoga uma estrutura relacional de análise do objeto da Psicologia. Tal estrutura hoje parece coerentemente estabelecida do ponto de vista tecnológico e filosófico dentro do Behaviorismo Radical, em vista do montante de pesquisas já produzidas nas suas diversas subáreas. Todavia, é o próprio Skinner quem, no último artigo que escreveu (1990), alerta para o fato de que o emprego dos procedimentos de Análise do Comportamento por setores mais amplos da Psicologia – ou seja, se esta tende ou não a tornar-se o método preferencial da Psicologia – “é matéria que o futuro decidirá”.

Embora haja indícios de que Skinner tenha lido muito sobre a evolução da ciência nos anos precedentes à sua consolidação como pesquisador e tenha convivido diretamente com alguns desses autores, os dados da literatura revelam-no um cientista com formulações teóricas próprias. Isso não significa que tenha concebido seu Behaviorismo Radical de forma isolada das discussões ocorridas na literatura, como, de resto, nenhum homem de ciência de que se tem notícia produziu teorias que prescindam de um passado de influências, menos ou mais diretas, menos ou mais intensas, fáceis ou difíceis de identificar. Como vimos, Ernst Mach foi uma das maiores fontes inspiradoras de Skinner, mas nem Mach formulou um Behaviorismo Radical, nem Skinner simplesmente replicou o empiriocriticismo. Ocorre que, a partir de certo momento na evolução da construção do sistema teórico – momento esse, por vezes, de difícil percepção imediata –, tal sistema acaba inexoravelmente personalizado por um dos atores do cenário científico. A publicação do Terms (Operational analysis of psychological terms) [Análise operacional dos termos psicológicos], por Skinner, em 1945, foi uma dessas ocasiões.

No que diz respeito a uma eventual herança tomada emprestada ao Círculo de Viena, o “segundo” Skinner parece guardar certa distância. Por exemplo, a sua visão do operacionismo lógico, apesar da ênfase inicial no verificacionismo, divergia significativamente daquela dos positivistas lógicos. Para Smith (1986), Skinner “em nenhum momento manifestou simpatia com o positivismo lógico, para além do aspecto formal” (p.279).

Skinner esteve pessoalmente próximo de duas das maiores figuras do positivismo lógico, Rudolf Carnap e Herbert Feigl. Logo depois de receber seu Ph.D., recebeu uma indicação para a Harvard Society of Fellows, da qual o filósofo W. V. O. Quine também era membro. Através de Quine, que havia estudado com Carnap em Praga, Skinner encontrou-se com Carnap em Harvard durante o verão de 1936. Tempos depois, manifestou-se dizendo que tinha poucas esperanças de reconciliar lógica e psicologia, embora talvez conseguisse convencer os lógicos de que muitos problemas por eles debatidos estavam mais no campo da Psicologia. No Comportamento dos organismos (1938) e no texto de 1945, Skinner refere-se a Carnap de maneira crítica em relação à visão deste sobre a “unidade da ciência” (a unificação dos padrões da linguagem científica).

Com Feigl foi um pouco diferente. Nas palavras de Smith (1986):

O relacionamento de Skinner com Feigl começou no início dos

anos 1940, quando ambos estavam na Universidade de

Minnesota. Lá tornaram-se amigos íntimos. Juntos, leram e

discutiram Walden Two e se envolveram em discussões

amigáveis sobre questões filosóficas relacionadas com a

Psicologia. Mas nunca chegaram a qualquer acordo substancial

sobre essas questões, e é duvidoso que Skinner tenha

absorvido muito do positivismo lógico a partir de seu contato

com Feigl. Da sua parte, Feigl se referiu a Skinner como o

“mais brilhante e consistente psicólogo positivista da América” e

resumiu seu relacionamento com ele dizendo: “Discordamos

fortemente em questões filosóficas da Psicologia, mas isso

nunca perturbou as nossas relações pessoais.” Skinner

declarou: “Ele e eu nunca resolvemos totalmente as diferenças

entre o positivismo lógico e o Behaviorismo, e cada um de nós,

como Feigl já colocou, continua a cultivar seu próprio jardim.”

(p.280; tradução nossa)

Em A matter of consequences (1984), Skinner detalha um pouco mais esse episódio, e a aproximação e o afastamento do movimento do positivismo lógico:

Philipp Frank, outro membro do Círculo e um dos grandes

filósofos da ciência, dirigiu o programa de Educação Geral que

incluiu Ciências Naturais 114. Ele também foi presidente da

Unidade de Comitê de Ciência da Academia Americana de

Artes e Ciências e convidou-me a ser membro dela. Participei

de algumas reuniões, mas logo ficou claro que procurei a

unidade com uma perspectiva diferente – uma análise do

comportamento do cientista – e pedi demissão. (p.128; tradução

nossa)

Em síntese, Skinner parece ter simpatizado com o positivismo lógico no começo da sua carreira, mas descartou assumir definitivamente um behaviorismo apoiado nos cânones do positivismo lógico defendido pelo Círculo de Viena. De fato, fora influenciado mais pelo próprio Mach e suas formulações do que propriamente pelos efeitos intelectuais do Círculo enquanto movimento científico. Lembremos que, por volta de 1930, época de sua pós-graduação, Skinner teve contato direto com a variedade de positivismo (o descritivo) de Mach e o impulso da Biologia, sob influência de Darwin. Mais adiante, desviou-se de modo mais visível do formalismo do positivismo lógico, caracterizando-se, por meio do descritivismo, por um antiformalismo anteposto ao dedutivismo lógico. Acabou por rejeitar inclusive certo tom asséptico dos ideais de ciência “pura” e independente do observador que margeava as discussões sobre o modelo de conhecimento a ser reconhecido pelo projeto de unificação da ciência. Em About behaviorism (1974), ele escreve:

Seria absurdo para o behaviorista afirmar que ele está, em

qualquer sentido, isento de sua própria análise. Ele não pode

sair do fluxo causal e observar o comportamento de algum

ponto especial de vista [...] No próprio ato de analisar o

comportamento humano, ele está se comportando. (p.234;

tradução nossa)

A literatura revista sugere que, em geral, não há uma associação intelectual legítima entre o Behaviorismo skinneriano e o positivismo lógico. Sem dúvida, algumas influências são percebidas, como o fato de que Skinner não caminhou insensível às leituras fundamentais geradas por Mach e pelo grupo de Viena. Por exemplo, ambas as posições implicavam a rejeição às especulações metafísicas, mas o modo como esse objetivo foi instrumentalizado contemplou estratégias muito distintas. Skinner elaborou suas “próprias” formulações – de modo relativo, sem dúvida, já que leituras completamente “isentas” são improváveis no campo científico se uma das duas características admitidas é a evolução do conhecimento, não por justaposição, mas por incorporação de novos dados, que por sua vez incluem ou excluem o conhecimento já existente. Por exemplo, seu conceito de seleção pelas consequências decorre de seu contato com leituras detalhadas de Darwin. Nesse sentido, seria um empréstimo da teoria darwiniana. No entanto, Skinner dá seu próprio “tom” à ideia de seleção darwiniana, quando faz restrições visíveis à atribuição causal do processo evolutivo das espécies, na época, com base numa “pressão seletiva”. Ele abandona esse “ente” da pressão seletiva constituído por uma explicação metafísica atribuída a uma “força” – no sentido newtoniano, já então devastado por Mach com as críticas aos conceitos de “massa”, “espaço absoluto” e “tempo absoluto” – que “conduz inevitavelmente” à evolução das espécies. Redige um particularmente bem articulado e sobejamente conhecido paradigma de três níveis de variação e seleção – filogenético, ontogenético e cultural – e mostra que o que mantém ou altera comportamentos ou práticas culturais são as consequências por estes produzidas no ambiente. Resultam aí afastados: estratégias de explicação baseadas em constructos “mentais”; métodos dedutivos; quaisquer resquícios positivistas que superem estratégias metodológicas de pesquisa.

Skinner acaba por demarcar em definitivo seu afastamento em relação ao positivismo lógico nos artigos sobre a sua participação no Simpósio sobre Operacionismo (1945a; 1945b), promovido pelo seu ex-orientador, E. G. Boring. Neles expõe com clareza seu entendimento sobre as diferenças entre seu Behaviorismo Radical e o Behaviorismo Metodológico de Boring e Stevens. Esse momento é crucial na história da Análise do Comportamento, porque Skinner torna definitiva sua defesa de um descritivismo relacional, inspirado nos moldes machianos do “descrever é explicar” (ou seja, descrever o comportamento nas suas relações com o ambiente é, efetivamente, explicá-lo). Não se trata, mais uma vez, de associar duas “coisas”, ou “eventos”, ou “condições” e adotá-las como componentes físicos de uma “causa complexa” das ações dos organismos vivos, mas de explicitar que apenas o conhecimento das próprias relações de dependência entre essas instâncias é que pode, de alguma maneira, iluminar a compreensão sobre saber como funciona o mundo comportamental, até mesmo em razão de que o saber como possibilita prever, alterar, planejar objetivos inerentes ao edifício científico pretendido por Skinner.

Parte desse seu entendimento seguramente deriva de uma inspiração machiana, mas é necessário relembrar que o Behaviorismo Radical não foi criado por Mach, do mesmo modo que o empiriocriticismo não se originou em Skinner, mas em Mach e Avenarius. Tanto Mach como Skinner enfrentaram severas críticas de seus contemporâneos, advindas de diferentes áreas do conhecimento. No entanto, apesar de suas diferentes épocas, origens e trajetórias, é possível claramente identificar no sucessor certas características do antecessor.

Skinner incorpora a ideia de relações funcionais que substituem a noção de causa, apropria-se da lógica do “descrever é explicar”, a seu modo rejeita o mecanicismo, adota o monismo e estende a crítica machiana à antimetafísica ao âmbito das explicações mentalistas em Psicologia. No entanto, não absorverá integralmente o conceito machiano de “sensações”. Reformula-o no campo das percepções, instrumentaliza-o no âmbito dos processos de generalização e discriminação de estímulos (mais amplamente, de controle de estímulos) e, embora as “sensações” sejam sempre referenciadas na materialidade, concebe-as como relações do comportamento com o ambiente, no seu mais amplo sentido. Esse distanciamento, contudo, ainda assim reserva contatos, como a ideia de que “o corpo é material, visível, tangível, sensível e ocupa parte no espaço, junto com outros corpos. [...] Há, através do conceito de sensação, uma nova leitura para os fenômenos que o senso comum entende por ‘subjetivos’ ou ‘psíquicos’” (Elias, 2012, p.21, sobre as ideias de Ernst Mach). Mach, no entanto, sugere que o físico e o psíquico possuem elementos comuns e que entre eles se estabelece um continuum de acontecimentos com dimensão temporal e espacial passíveis de análise científica. Conforme Jalón (2010), para Mach

[...] existe uma união necessária do sensível com o racional,

graças a um monismo no qual o todo e as partes se unem

natural e inextricavelmente; o físico e o psicológico-sensitivo

podem adequar-se de forma tal que entre os mundos exterior e

interior não existe abismo algum, como é próprio da tradição

empirista moderna. (p.258; tradução nossa)

No entanto, admitir que ambos os aspectos, físico e psíquico, “se tocam” implica dizer que um e outro interagem, embora constituídos de substâncias distintas? Ou equivale a admitir que psíquico é, no sentido dado, também físico e, por isso, há uma redução do primeiro ao segundo? Ao seu modo, Skinner deslindaria essas questões na formulação do Behaviorismo Radical.

De toda forma, a questão da dicotomia entre aparência e realidade não faz sentido para Ernst Mach, como ele frisa na obra de 1905 (p.22), de maneira que fenômenos físicos e psíquicos são da mesma natureza, do que se conclui que ela seja física, o que é mais preciso do que sua afirmação de que os físicos “incluem” parte dos psíquicos ou que estes se “mesclam” àqueles em sensações. Mach descarta a ideia de essência, registrando, como Skinner, que o que é público e o que não é manifesto são acontecimentos da mesma natureza (um passo em direção ao monismo de substância), de modo que fica excluída a existência de estruturas internas criadas apenas para explicar eventos que não podem ser diretamente observados. Skinner também empresta de Mach esse perfil de descrição econômica na ciência, que reduz de modo parcimonioso a criação de novos conceitos sobre novas entidades supostamente responsáveis pela dinâmica do comportamento, para além das interações entre organismo e ambiente.

Quando Skinner trata dos eventos privados, especialmente comportamentos encobertos, encaminha a questão segundo a acepção machiana de que a diferença é uma questão de acessibilidade, não de natureza. Ou seja, comportamentos, encobertos ou públicos, têm, em última análise, uma natureza física. É evidente que não é o caso de, observando dimensões físicas biológicas estruturais (o interior de um cérebro, por exemplo), poder propriamente “ver” nelas comportamentos. Percebe-se um amálgama complexo de estruturas biológicas, mas não os processos de que se ocupam, naturalmente. Por outro lado, outros eventos privados, não necessariamente comportamentais, também são inacessíveis a uma segunda pessoa. É nesse sentido que Skinner diz que “minha dor de dentes é tão física quanto as teclas de minha máquina de escrever”. Como se nota, de certa forma há trechos bastante congruentes entre os dois autores. É possível “ler Skinner e encontrar Mach” ou ler “Mach com olhar skinneriano”, mas isso não implica verdadeira identidade de concepções, pelas razões já apresentadas.

Como interpreta Elias (2012), Mach considerava, no contexto explicativo fenomênico, a importância das “relações entre os fatos físicos, que dependem de circunstâncias externas ao corpo e [também] de circunstâncias interiores ao corpo, que são as sensações”. Ele escreve:

Mach introduz o conceito de “sensações” para delimitar o que

seriam essas experiências psíquicas. As sensações não são

constituídas de uma natureza diferenciada. São sempre dados

imediatos. Não se ancoram numa dicotomia

realidade/aparência. Inclusive, Mach se preocupa em citar o

fenômeno da ilusão de ótica como exemplificação de que não

há uma realidade alternativa que “deturpa” a realidade, mas sim

uma ignorância (à época) das circunstâncias em que as

percepções são produzidas. Mach expõe que o que conduziu a

uma distinção entre a aparência e a realidade (fenômeno e

coisa) foram confusões das percepções produzidas por

circunstâncias diferentes. Assim, a dicotomia

aparência/realidade não faz sentido. (p.23)

Uma ideia, porém, atravessa as sendas do empiriocriticismo e instala-se no Behaviorismo Radical de modo sutil e adaptado ao vocabulário dele. Trata-se do conceito kantiano de “coisa em si”, criticado na essência da ideia de “sensações” no domínio de Mach. Ainda que não seja possível resumir Kant, pela grandeza e complexidade de suas reflexões, a passagem da crítica de Mach a Skinner se dá mediante o exame, primeiramente, do que designa “elementos”, associados a diferentes “atributos” que os qualificariam como coisas, eventos, estruturas que conhecemos. Na interpretação de Elias (2012):

Entretanto, Mach não limita o conceito de sensações apenas às

relações do homem com o mundo externo. O conceito de

sensações também engloba as experiências sensoriais do

homem consigo mesmo. Aqui, entram as sensações que o

homem tem das propriedades físicas do próprio corpo, mas

também relações do tipo pensar, sentir, lembrar, introspectar.

Mach define introspecção como combinações de sensações.

Considerando a importância da relação (interação), Mach

compreende que as sensações se recombinam e dão origem a

novas sensações. (p.24)

Laurenti (2004) adiciona esclarecimentos importantes à posição machiana:

A dicotomia físico-mental faz sentido no contexto de um

dualismo de substâncias, que também é rejeitado por Mach

(1894/1943) quando critica as noções de substância e de

coisa-em-si. A ideia tradicional de substância (como uma coisa

ou corpo imutável, uma essência que está por detrás da

aparência e que existe independente do sujeito) é tratada em

termos de um grupo de sensações abstraído do fluxo de

elementos que apresenta maior constância e estabilidade do

que outros. Passando a palavra a Mach: “mas seria muito

melhor dizer que os corpos ou coisas são símbolos mentais

resumidos de grupos de sensações – símbolos que não existem

fora do pensamento” (p.200-1). A identidade do corpo é

assegurada quando abstraímos um grupo de sensações do

fluxo, e os elementos desse grupo se apresentam mais

constantes em comparação com aqueles elementos instáveis.

Contudo, algumas mudanças nesse grupo constante podem

ocorrer e, muitas vezes, essas alterações acontecem sem que

o corpo deixe de ser, para nós, o mesmo. Isso estabelece a

condição para que formemos a noção de substância distinta de

seus atributos, em outras palavras, a ideia da coisa-em-si.

(p.52-3; destaques nossos)

Em nota, Laurenti acrescenta:

A função da linguagem no processo de abstração é esclarecida

por Mach (1905) ao rejeitar a noção de “coisa-em-si”: “As

primeiras e mais antigas palavras são nomes de ‘coisas’. [...]

Não existe coisa inalterável. A coisa é uma abstração, o nome

ou símbolo de uma combinação de elementos de cuja mudança

abstraímos. [...] Quando, posteriormente, observamos a

mutabilidade, não podemos, ao mesmo tempo, sustentar a

permanência da coisa, a menos que tenhamos que recorrer à

ideia da coisa-em-si, ou outro absurdo semelhante.” (p.579;

destaques nossos)