Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

Kester Carrara · Capítulo 4 de 11 · parte 2/3

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Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

2 - A inviabilidade da “coisa em si” como fonte explicativa do comportamento

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Em seguida, há a necessidade de apreciação dos métodos

qualitativos e quantitativos, que acentuam discussões e grande

polêmica em torno de um caráter supostamente simplista e

reducionista que teria passado do positivismo ao Behaviorismo.

A ênfase na quantificação, nos últimos oitenta anos, parece ter

sido responsável por certa “desqualificação da qualidade”. Se,

para Goode e Hatt (1977), “a pesquisa moderna deve rejeitar

como falsa a dicotomia entre métodos qualitativos e

quantitativos baseada no uso ou não da estatística”, para Demo

(1981), fica clara uma rejeição quanto à possibilidade de um

conhecimento puramente objetivo. Demo opta pelo critério da

objetivação, que substitui a tentativa de reproduzir a realidade

assim como ela é. Alerta, então, que, como nunca

conseguiremos realmente reproduzi-la, devemos optar pela

objetivação, uma conduta que compreende caminhar em busca

da objetividade, embora alcançá-la de modo definitivo seja

utópico. (p.236)

Outros autores também criticam o uso dos métodos quantitativos derivados do positivismo, alertando para o fato de que não seriam os métodos em si que produziriam as injustiças sociais, mas o uso que se faz deles. Ou seja, pela concepção positivista da ciência, “que insiste na aplicação do modelo das ciências naturais às ciências sociais”, as verdadeiras crenças e práticas dos seres humanos ficariam relegadas a segundo plano, o que parece ser mais uma crítica no sentido de que esse encaminhamento metodológico (a quantificação) levaria, necessariamente, a uma “objetificação” do indivíduo.

Parece ser exatamente pela via do estudo “objetivo” do ser humano que se encaminha a crítica ao Behaviorismo em geral e ao Behaviorismo Radical em particular. Através da quantificação – mensuração da frequência, duração, intensidade, força-peso, topografia ou outras dimensões do comportamento –, a Análise do Comportamento seria científica apenas no sentido da medida em si, mas ficaria do lado de fora da análise sobre o que há exatamente de “humano” no ser humano. Ou seja, o que se defende, em geral, na literatura crítica, é que algumas características do ser humano, seja no seu comportamento, seja na sua personalidade, seja nas suas ações, fugiriam aos padrões de análise próprios das ciências naturais. Em outras palavras, o Behaviorismo Radical seria uma filosofia incompetente para dar conta de todas as dimensões, sobretudo “sociais”, que participam da determinação das ações humanas, porque seu método – positivista, em essência –, se ateria apenas a uma parcela da realidade, não alcançando dimensões intrínsecas à complexidade das organizações sociais.

De qualquer maneira, seguramente, cabe fazer uma ressalva: Skinner não nega, em absoluto, a importância do que vem sendo designado de metodologia “qualitativa”, embora sua forma peculiar de trabalhar (delineamento de sujeito único, com replicação sistemática) pressuponha evidente e extensa quantificação. Mas ele entende que, em última análise, apenas a qualidade interessa. A quantidade, em si, nada diz sobre as propriedades das variáveis estudadas. O cientista não tem interesse na quantidade em si mesma, a qual lhe interessa apenas por estar associada a fenômenos da natureza e contribuir para expressar sua “intensidade”. Talvez possa estar interessado em números ou em algum “aspecto cabalístico” de certos números (7, 13, 666), mas o interesse aqui não está em outro aspecto, senão no vínculo cultural supersticioso entre números e acontecimentos físicos. Esse simples exemplo falseia a ideia de que o cientista se interesse por números em si ou por si mesmos. Estudar as dimensões “cabalísticas” de certos números é um estudo sociológico de aspectos qualitativos. Não há como falar em qualidade a não ser a partir de observação, descrição, quantificação, procedimentos que assegurariam uma posterior interpretação científica.

Aparentemente, tanto Skinner desvalorizou (ou demorou a responder a) algumas das observações dos críticos acerca de sua produção científica – como aquelas de Chomsky sobre linguagem versus comportamento verbal, em geral apenas provendo respostas às vinte principais restrições no seu About Behaviorism (1974) [Sobre o Behaviorismo], ou participando de debates históricos –, quanto alguns críticos supervalorizaram a desqualificação das concepções objetivistas (cf. Thiollent, 1987), que se opõem, em geral, “à concepção empirista concebida em moldes positivistas que tende a desvalorizar a elaboração teórica e supervalorizar a observação” (p.87).

Uma confusão comum em relação a quanto e em que medida é positivista o Behaviorismo Radical advém de seu suposto desdém com relação ao mundo “mental”, o que Skinner contesta em 1974: “uma ciência do comportamento precisa considerar o lugar dos estímulos privados como coisas físicas e, ao fazê-lo, provê uma explicação alternativa para a ‘vida mental’ [...] a questão, então, é: o que está sob a pele e como nós podemos conhecer isso? A resposta é, creio, central para o Behaviorismo Radical” (p.180).

Parte da crítica faz confusões conceituais entre o Behaviorismo Radical e o Metodológico de Boring e Stevens, e, adicionalmente, utiliza de maneira indiscriminada, como sinônimos, Behaviorismo skinneriano e watsoniano. Esse descuido conceitual, infelizmente muito comum, também leva à atribuição de conotação pejorativa ao conteúdo da crítica: ao supor que o Behaviorismo Radical rejeita o mundo privado, ele passa a ser considerado reducionista; ao ser assim considerado, supostamente, objetifica o ser humano, equalizando-o aos outros animais; ao fazer esta equalização, tende a encarar o homem como ser limitado, não criativo, não produtivo, que está à mercê do meio e, por isso, é inteiramente passivo; ao considerar o homem como passivo, determinado, o Behaviorismo, em geral, seria corrente teórica imobilista, não transformadora, reprodutivista e, como esse tipo de papel serve ao poder dominante, ideologicamente reacionária.

Claro está que o exercício dessa linha de raciocínio deixa de levar em conta as diferenças entre os diversos tipos de Behaviorismo, o contexto histórico das inegáveis influências positivistas em toda a ciência (e também no Behaviorismo), os trabalhos de vários autores, especialmente behavioristas radicais, de colocar sua metodologia e suas descobertas a serviço da população (ver Holland, 1977), sobretudo contra minorias elitistas e despóticas. Pouco adiante, neste livro, nos auxiliará uma análise mais detalhada desenvolvida por Cupani (1990), diferenciando “positivismo” e positivismo no cenário científico geral. É óbvio, portanto, o fato de que Skinner não ignorou – embora não tenha incorporado integralmente – a formulação filosófica positivista. Recebeu líquida e certa influência de Ernst Mach, como já mencionamos. Mas o positivismo de Mach precedeu e influenciou o Círculo de Viena, propulsor do positivismo lógico. Até por conta dessa influência, Skinner declara no começo de The behavior of organisms (1938) [O comportamento dos organismos]: “o sistema, na medida em que envolve o método científico [...] é positivista” (p.44). Contudo, sua referência, aí, restringe-se à prevalência do estado positivo, no sentido comtiano de que a imaginação e a argumentação subordinam-se à observação. Como já mencionamos em outros escritos (1996):

Entretanto, isso não confere à afirmação skinneriana a condição

de submissão ao conceito apresentado por Hanson (1975),

segundo o qual no positivismo a observação descreveria

propriedades da natureza das coisas e não propriedades

inerentes às teorias ou interpretações que os observadores

elaboram acerca da natureza. É seguro, no Behaviorismo

Radical, que o observador tem entre si e o dado de realidade

todo um anteparo representado pela sua história

comportamental. Não fosse assim e não se investiria tanto, no

Behaviorismo, em pesquisar cuidados metodológicos que

possam reduzir a incidência dos erros experimentais devidos à

influência do pesquisador nos resultados das pesquisas. Esse

investimento, contudo, já foi celebrado como podendo apenas

tornar-se um ideal relativo, de vez que o viés completo não

pode extinguir-se, por conta de que o ser humano acaba sendo

parte inerente da natureza que observa e estuda. (p.247)

Skinner reitera sua preocupação em relação à subjetividade nas observações, em especial quando se trata de introspecção, em um trecho de seu último livro (1989, p.139-41), quando declara que os positivistas lógicos, num contexto paralelo ao do operacionismo lógico criticado no simpósio de 1945 (ver Skinner, 1945a; 1945b), admitiam a existência de uma mente, mas concordavam que ela deveria ficar fora do domínio da ciência, porque não podia ser confirmada por uma segunda pessoa, o que configuraria ausência de intersubjetividade entre pesquisadores como critério de demarcação de objetividade científica. Afirma que, de modo contrário aos behavioristas metodológicos, aceitava a existência de comportamentos privados, como o pensamento, e de outros eventos internos, porém como estados corporais, cujo estudo deveria ficar a cargo dos fisiólogos, em relação à sua estrutura e ao seu funcionamento. Para o autor (1989):

Dados obtidos através da introspecção seriam insuficientes

para a ciência, uma vez que a privacidade torna impossível

aprender a observá-los de maneira precisa [...] como mostrou

Lawrence Smith (1986), o positivismo lógico veio muito tarde

para influenciar diretamente Hull, Tolman ou a mim, de maneira

marcante, mas isso era devido a uma figura anterior, Ernst

Mach. Minha tese de doutorado já consignava meu débito a The

Science of Mechanics [...] Smith está certo em dizer que a

“aliança comportamental-lógico-positivista, de modo geral, foi

muito mais limitada em seu escopo do que comumente se

acredita”. Na verdade, eu não acredito, em absoluto, que

houve uma aliança, e, portanto, não acredito em algo chamado,

de forma absolutamente imprecisa, de “aliança fracassada”. [...]

Dentre os três comportamentalistas, Hull foi o que mais

ativamente promoveu uma conexão com o positivismo lógico.

Como afirma Smith, o assassinato de Moritz Schlick

enfraqueceu o Círculo, e o positivismo lógico voltou-se para o

movimento de unidade da ciência. Hull assistiu ao Terceiro

Congresso Internacional da Unidade da Ciência em Paris, em

1937, e foi um dos organizadores do encontro de 1941, na

Universidade de Chicago. Nessa comunicação, falava da

“surpreendente e significante similaridade entre a doutrina

fisicalista dos positivistas lógicos e o enfoque característico do

comportamentalismo americano que originou o trabalho de J. B.

Watson [...]” (p.139-41; destaques nossos)

As inconsistências conceituais na atribuição de um caráter positivista ao Behaviorismo Radical são muitas e vêm acompanhando, de maneira polêmica, a sua própria história. Matos (1990) reafirma que Skinner sempre teve alguma preocupação com a verificabilidade – e, com isso, foi em parte influenciado pelo operacionismo de Bridgman –, mas admite que sua epistemologia é marcadamente diferente daquela dos positivistas lógicos, uma vez que seu antiformalismo e sua inabalável postura empírico-descritiva revelam a influência certa de Mach, mais que de qualquer outro tipo de positivismo. E, reiterando essa herança que privilegia o relacional, Matos (1997) explicita que “o behaviorista radical não trabalha propriamente com o comportamento, ele estuda e trabalha com contingências comportamentais, isto é, com o comportar-se dentro de contextos” (p.46).

Esses desencontros conceituais relativos ao conceito de positivismo são em parte esclarecidos por Cupani (1990), ainda que seu trabalho não pretendesse, originalmente, qualquer vínculo específico com o contexto behaviorista. O autor crê que algumas dessas interpretações enviesadas do termo “positivismo” vinculam-se à questão de uma boa definição do que signifique objetividade científica. Assevera que existia nos anos de 1990, época em que algumas de suas obras foram publicadas, uma tendência crescente nos meios acadêmicos a denominar de “positivista” a convicção de que a ciência constitua esforço de conhecimento para validar resultados de pesquisa de todos que possuem certa formação científica, independentemente de peculiaridades individuais ou grupais dos seres humanos.

Cupani (1990) esclarece que a objetividade científica residiria nessa validade “universal” e admite que a denominação de positivismo para esse conceito de ciência é compreensível, porque ela muito deve aos esforços do positivismo e do neopositivismo históricos para reconstituir a conduta dos cientistas naturais. Observa ainda que foi característico do positivismo ingênuo crer na possibilidade de que o cientista pudesse se referir a dados puros, isentos de interpretação, na medida em que a ciência era vista como uma tarefa de constatação da natureza, o que poderia ser alcançado “por todos”, a partir da observação dessa natureza – prevalece aí a questão da objetividade por consenso, admitida pela avaliação da intersubjetividade entre pesquisadores, a crença na lógica do acordo entre cientistas. O autor, no entanto, esclarece que esse tipo de crença foi varrido da ciência há muito tempo: os epistemólogos de diversas orientações têm mostrado quanto ilusório é conceber a ciência como investigação de dados puros. Os dados são necessariamente interpretados e elaborados, e o simples fato de que são relatados mostra isso, tanto quanto a pesquisa na área de profecias autorrealizadoras e “efeito Pigmalião”.

Por essa via, é compreensível, embora não justificável, a prática de denominar de “positivistas” os partidários da objetividade científica, embora não defendam uma ciência neutra ou a possibilidade de observações “puras” no sentido do positivismo clássico. Para Cupani (1990), associações ainda mais sutis seriam feitas ao se suspeitar da estratégia anteriormente mencionada. Segundo o autor, diante da conhecida posição de Popper, os teóricos acusados de “positivismo” são por vezes partidários da sociedade liberal. Em virtude da associação liberalismo–capitalismo, tornam-se inimigos naturais do marxista que, fazendo do positivismo a ideologia oficial do capitalismo, encontra fácil oportunidade para considerá-los “positivistas”.

Considerações parcimoniosas a esse respeito são apresentadas por Cupani (1990):

Existe uma tendência crescente em nossos meios acadêmicos

a denominar “positivista” a convicção de que a Ciência constitua

um esforço de conhecimento cujos resultados devam ser

válidos para todos os que possuírem a devida formação

específica (matemática, sociológica etc.), independentemente

de peculiaridades individuais ou grupais dos seres humanos. A

objetividade científica residiria nessa validade “universal” das

afirmações científicas, uma validade alcançada pela conjunção

de fatores tais como o proceder metódico, a constante crítica e

autocrítica dos cientistas, a atitude imparcial ante os assuntos

estudados, a prescindência de interesses outros que a busca

da verdade, a utilização de linguagens unívocas e enunciativas

(não expressivas ou imperativas) e a atenção preferencial aos

aspectos quantitativos dos fenômenos pesquisados. Os

resultados seriam objetivos porque intersubjetivamente válidos,

e nessa medida indicariam que a tentativa de conhecimento foi

bem-sucedida, ou seja, seriam “objetivos” em sentido

etimológico: corresponderiam aos objetos reais em si mesmos.

(p.103)

O autor esclarece ainda outros aspectos relevantes da questão:

Ora, há tempo que os epistemólogos das mais diversas

orientações têm mostrado que é ilusório conceber a Ciência

como investigação que se serve de dados não interpretados.

Apesar da enganosa etimologia, os dados são elaborados:

correspondem a questões, hipóteses e teorias em função das

quais são procurados. Os dados, por conseguinte, resultam de

uma interpretação (ou melhor: são certa interpretação), cujo

mérito consiste em não ser arbitrária, senão justificada dentro

do âmbito de consenso em que tem sentido uma dada

pesquisa. [...] É provável que muitos cientistas continuem a

acreditar que trabalham com dados não interpretados; em tal

caso, merecem certamente a crítica de serem “positivistas”.

Sem embargo, é curioso que sejam assim considerados os

pesquisadores e teóricos que reconhecem a inevitável

interpretação dos dados, mas que defendem, apesar disso, a

objetividade do conhecimento científico, definida pela não

arbitrariedade dos dados dentro de um determinado consenso.

Os críticos parecem presumir, a partir da defesa da

objetividade, a crença em dados puros, e se sentem

autorizados a falar de “positivismo”. E como a crença em dados

puros encontra-se desacreditada, os críticos parecem deduzir

que se encontra igualmente desacreditada a própria noção de

objetividade científica. Desse modo, “positivismo” acaba

significando a aparentemente injustificada confiança na

objetividade científica. [...]

De acordo com as considerações anteriores, é inadequado

denominar “positivistas” aos partidários da objetividade

científica. Todavia, mais delicada que a questão da

denominação é a rejeição da ideia de objetividade que parece

acompanhar e motivar a censura de “positivismo”, pois, se não

estou enganado, o espírito da crítica parece consistir na

convicção da superioridade da verdade-para-nós sobre a

verdade-para-todos. [...] Denominar “positivistas” a

pesquisadores e teóricos que não o são, pode ser uma

estratégia para desqualificar posições adversas à própria.

Atribuindo a um defensor da objetividade a crença – hoje

abandonada – em dados puros, mostrar-se-ia como

insustentável a defesa da objetividade, tornando-se plausível a

noção de que a Ciência deva ser comprometida. [...] É difícil

encontrar hoje alguém que se considere discípulo ou

continuador dos positivistas e neopositivistas. Debater o

positivismo tem, por isso, a meu ver, um interesse puramente

histórico. O debate em torno do “positivismo”, pelo contrário,

equivale ao debate sobre a objetividade e – pelas razões antes

expostas – sobre a confiança na verdade e no seu valor a

propósito dos problemas atualmente vividos, principalmente os

sociais. Evitar uma denominação inapropriada seria uma

significativa contribuição para um tratamento rigoroso e uma

discussão honesta de tais problemas. (p.104-6)

Para análise detalhada da presença do positivismo no seu âmbito metodológico e ético-social, ver também Cupani (1985). Todavia, relativize-se o discutido, mesmo porque há que se considerar que o autor realiza a sua análise dentro do contexto da epistemologia e da filosofia da ciência, mais amplo do que as cercanias do Behaviorismo. Daí, especialmente, a menção a Karl Popper: The open society and its enemies (1945) [A sociedade aberta e seus inimigos]. Entretanto, não é uma generalidade que todo cientista que valorize a objetividade, ainda que por formas e vias de acesso diferentes, seja partidário do liberalismo mencionado. Habitam entre eles, como entre os que não defendem a busca da objetividade, vários outros tipos ideológicos possíveis. De qualquer modo, permanece pertinente a análise para mostrar como associações plausíveis ou espúrias fluem, de maneira intencional ou casual. O Behaviorismo Radical de Skinner, em virtude de toda a sua história, acaba certamente sendo incluído por seus críticos, via tais associações, no rol das correntes cujo “positivismo” inerente seria sinônimo de comprometimento com uma posição politicamente arcaica e atrelada ao poder dominante. Tal história inclui sempre o traço inusitado – e, por vezes, precipitado – das afirmações de behavioristas polêmicos, como no caso de Watson e seus desafios, lançados em conferências públicas no início do século XX, por exemplo, bem como de obras que geraram intermináveis análises e acusações de utopia das minorias, como Walden Two, ficção skinneriana de 1948 inspirada, em termos éticos e ideológicos, em Walden, de W. H. Thoureau (1854), e, em termos científicos, na então incipiente Análise do Comportamento.

A identificação de Comte como o aparentemente único responsável pela ideia do positivismo acontece por conta de seu trabalho intenso de sistematização, que inclui a lei dos três estados, o lema do “ver para prever” e a divisão das ciências; e sua efetiva proposição de transformação da filosofia positivista em ideologia que pretendia mudanças políticas a serem obtidas pela conversão da consciência pública dominante, apenas mostrando aos detentores do poder as diferenças entre o saber “objetivo” e o “subjetivo”. Embora esse tipo de postura possa ser mais bem examinado se contextualizado temporalmente na história da humanidade, não é difícil perceber que constitui um paradigma recorrente no pensamento contemporâneo. Mais especificamente, a ideia de que o trabalho de “conscientização” de certos grupos, mediante políticas públicas que consistam em meros “esclarecimentos”, “orientações” e “convencimento verbal”, é eficiente ainda permanece entre vastos segmentos sociais e nas principais agências institucionais que dirigem a vida pública. Essas instâncias, em sua maior parte, desconhecem o fato de que se torna imprescindível um arranjo de contingências que preveja, para além da mera informação, três momentos interligados: o contexto para emissão do comportamento, as características do próprio comportamento e as consequências por ele produzidas.

No âmbito da narrativa da história evolutiva do positivismo clássico, até sua presença reorientada no positivismo lógico do Círculo de Viena, a questão técnico-pragmática do arranjo de contingências capazes de mudar comportamentos ou práticas culturais justifica-se melhor pelo fato de que, na passagem de Mach a Skinner, pode-se verificar a inovação aí resultante na explicação da dinâmica das atividades humanas: a passagem da identificação de causas à descrição de relações funcionais. Essa passagem revela-se em Skinner, posteriormente, como crucial para a compreensão consistente do mundo empírico humano e da natureza em geral. Trata-se de aspecto vital para a cisão entre a Psicologia que insiste em defender explicações pautadas em supostas forças, constructos hipotéticos e condições e estruturas internas, e a Psicologia apoiada na descrição de relações entre variáveis, conforme sugere o título deste livro.

E isso nos faz retornar ao ponto crucial para o qual nos levara Smith (1986): Viena. Não incomodava aos positivistas lógicos a rejeição inicial de Comte à metafísica (ele próprio, no final da vida, militaria no mesmo caminho explicativo que criticara, ao propor a Igreja do Apostolado Positivista). Essa rejeição dizia respeito também às considerações de Mach, apesar de serem muito diferentes as razões para a sua escolha. Os membros da organização não se haviam confortavelmente com o positivismo quase religioso comtiano e a sua convicção sobre a naturalização dos estratos sociais. Um exemplo de visões anteriores que já estabeleciam restrições ao comtismo é encontrado em Mill, que declara simpatizar com várias ideias de Comte e sua possibilidade de integração com o empirismo britânico. Tal como Hume e Comte, Mill também pensava que o conhecimento era sempre fundado na experiência e concordava com a ideia de que qualquer convicção sobre conhecimento transcendente ao mundo empírico era desnecessária ou impossível. Mill aceitava a doutrina de Comte sobre os três estados e sobre a necessidade de reorganizar a sociedade numa base científica, mas divergia dele quanto à forma como enfatizava as ramificações sociológicas da ciência, defendendo a convicção de que o positivismo na ciência se atinha mais aos aspectos metodológicos.

É evidente que, ao longo da herança comtiana, vários “positivismos” ou seus supostos “sinais” foram interpretados por diferentes autores como necessariamente presentes em vários empreendimentos científico-filosóficos. No entanto, em alguns casos, os equívocos deixados pela equalização desses supostos sinais ao positivismo clássico de Comte têm sido utilizados como argumento para interpretações deletérias em todas as áreas. Sobre esse tipo de confusão conceitual a partir de outra área que não a Psicologia, Pereira e Freire Jr. (2012) observam:

Dizer que os positivistas do Círculo de Viena e o positivismo de

Comte apresentam as mesmas características é um equívoco

inadmissível, e, sendo assim, caracterizar o positivismo tem

sido um problema para os filósofos, pois há uma grande

dificuldade em considerar “os positivismos” como uma filosofia

única. Entretanto, mais complicado do que definir o positivismo

talvez seja encontrar os positivistas. (p.3, destaque nosso)

E embora Mill, de todo modo, tal como Comte e Hume, figurasse nas raízes remotas do movimento de Viena, o nome mais creditado pelos seus membros como inspirador do Círculo era Ernst Mach, identificado como o principal pensador associado à tradição empirista. Não foi gratuitamente que a designação do movimento na Áustria recebeu, em sua honra, a denominação de Sociedade Ernst Mach (Verein Ernst Mach). O físico-filósofo, mediante a confluência do empirismo radical com o positivismo experimental, sustentava que o objetivo de qualquer ciência é oferecer descrições concisas sobre as dependências funcionais entre fenômenos. Para Smith (1986), no monismo neutro machiano os elementos relacionados nas leis descritivas da ciência são constituídos por experiências puras que não são nem mentais, nem físicas, mas traduzidas nos próprios termos das relações dadas no âmbito da experiência. Além disso, acredita que a ciência pode ser unificada apenas mediante a eliminação da metafísica em favor de um estrito empirismo.

Essa explícita conexão da unidade da ciência com a rejeição à metafísica foi uma grande fonte de inspiração para os positivistas lógicos. Na sua completa rejeição a explicações a priori ou transcendentais (no sentido de explicações buscadas em dimensão distinta daquela do fenômeno a ser explicado), a epistemologia machiana era concebida como uma espécie de “psicologia do conhecimento”. Para Mach (1905), todo conhecimento, incluindo o científico, consiste numa eficiente adaptação ao ambiente, num formato em que “o físico e o psíquico contêm, portanto, elementos comuns e não estão, como se crê geralmente, um frente a outro em oposição absoluta” (p.8).

Conforme Smith (1986), “consequentemente, o conhecimento pode ser estudado em termos dos processos psicológicos do conhecedor e, finalmente, em termos de comportamentos biológicos” (p.35). Nessa perspectiva, do mesmo modo que na Lógica e na Matemática, outras formas de pensar também são experienciais em princípio e, assim, devem se sujeitar ao que Mach denominou de “economia biológica”. Ele não apenas não se interessava pela lógica formal, chegando mesmo a ser hostil a ela, conquanto a considerasse apenas uma “forma econômica de pensamento”. Suas interpretações psicológicas, em geral, e lógicas e matemáticas, em particular, pareciam sinalizar que sua visão divergia fortemente daquela dos positivistas lógicos.

O sucessor acadêmico de Mach, Moritz Schlick, recebeu um convite bastante rentável em Bonn. Como era o organizador e respondia pessoalmente pelo Círculo de Viena, sua saída sem dúvida produziria consequências prejudiciais para os destinos do movimento. Como informa Smith (1986), Schlick tomou uma decisão de momento e resolveu permanecer em Viena. Nessa época (1929), quando de sua estada como professor visitante na Stanford University, Otto Neurath, Rudolph Carnap e Hans Hahn reuniram as principais propostas do movimento e como que o oficializaram, comunicando-o para toda a comunidade científica internacional. O texto, intitulado The scientific world-conception: the Vienna Circle (1929) [A concepção científica do mundo: o Círculo de Viena], era uma espécie de panfleto do manifesto de Viena. Explicitava a herança do positivismo lógico e enfatizava que a integração da nova lógica com a estrutura empirista constituía uma mudança importante nas formas tradicionais do empirismo e do positivismo. Como reflexo do antipsicologismo de Frege, os autores escreveram: “É o método de análise lógica que, essencialmente, distingue o empirismo e o positivismo da versão anterior, que era mais de orientação biológico-psicológica” (p.308; tradução nossa).

Apesar da posição divergente de Frege, uma nova versão de convívio entre positivismo lógico e algumas abordagens da Psicologia se tornou possível no âmbito das discussões do Círculo. A adoção do fisicalismo como base para a unificação da ciência redirecionou a atenção dos positivistas lógicos para alguma aceitação da Psicologia, sob inspiração do conceito machiano de sensações, porque estava em jogo a viabilidade de formular alguma psicologia em termos de linguagem física. Nesse contexto, Carnap publicou no famoso Erkenntnis (1932) seu Psychology in physical language [Psicologia em linguagem física], apenas um ano após a proclamação do fisicalismo enquanto regra verbal da comunicação científica.

Para Smith (1986), o fato de que, na sequência, os positivistas lógicos tenham passado a adotar um behaviorismo lógico na base da construção de argumentos científicos deixou inteiramente aberta a questão sobre seu relacionamento com o Behaviorismo científico do tipo que já era praticado por behavioristas norte-americanos. De início, não constituindo mais do que uma extensão da doutrina fisicalista em Psicologia, o Behaviorismo lógico era uma tese linguística ou uma espécie de teoria do significado, mas não uma abordagem científica da Psicologia. Conforme Smith (1986):

Embora os behavioristas às vezes oferecessem definições

comportamentais de termos mentalistas, proceder desse modo

não era, de maneira alguma, uma atividade essencial do

Behaviorismo científico. Behaviorismo lógico e científico foram,

assim, diferentes empreendimentos com objetivos e métodos

distintos. (p.60; tradução nossa)

De qualquer maneira, os positivistas lógicos manifestaram algum interesse no Behaviorismo durante os anos de 1920, ao se considerar o texto de Bertrand Russell, The analysis of mind [A análise da mente], de 1921, que fazia referência a Watson logo após o aparecimento de seus primeiros textos. Referências a ele já haviam aparecido em textos da época dos membros do Círculo, até porque, de início, ele parece ter feito coro com seus membros, manifestando-se contra a metafísica e identificando-se com análises pró-fisicalismo encontradas em sua obra e na de Pavlov. Estratégias convenientes de aproximação, nem sempre tão cientificamente legítimas, podem ter atravessado a relação entre o Behaviorismo Clássico e o empirismo/positivismo lógico. Para Smith (1986):

Isso ocorreu apesar do fato de que, estritamente falando, as

realizações de Watson e Pavlov foram irrelevantes para a

legitimação do uso de uma linguagem fisicalista. Os positivistas

lógicos perceberam que a implausibilidade aparente de um

tratamento fisicalista da Psicologia seria um obstáculo – uma

fonte de “resistência emocional” – para a aceitação da doutrina,

e eles estavam preparados para fazer uso propagandístico dos

nomes de Pavlov e Watson. (p.60-1; tradução nossa)

A mútua “descoberta” entre os filósofos do Círculo e os primeiros behavioristas (“psicológicos”, para excluir aqui qualquer menção ao Behaviorismo lógico) se deu, em grande parte, graças a desenvolvimentos conceituais e reflexões paralelas, como se pode depreender dos fatos até aqui relatados. Os dois movimentos, por um bom período contemporâneos, não foram criados um a partir do outro e, de resto, permanecem equívocos de interpretação sobre suas origens e trajetórias, especialmente no que concerne a uma possível absorção de estratégias de lógica dedutiva pelos behaviorismos, sejam moleculares ou molares, exceto por Clark L. Hull. Tanto que a tradição de pesquisa behaviorista que sobreviveu continua sendo o indutivismo. Antes, porém, de uma caracterização mais definitiva desses caminhos paralelos, ambos os movimentos, tanto o Behaviorismo como o positivismo lógico, apresentaram polêmicas no âmbito de suas próprias trajetórias independentes. Para exemplificar, observem-se as características do positivismo lógico, embora este resulte do produto do encontro de duas tradições altamente conflitantes entre si.

Na tentativa de unir essas tradições, seus mentores criaram uma abordagem bastante influente e abrangente de filosofia da ciência, mas elas não se desvencilharam, apesar disso, de sérias tensões intelectuais oriundas de sua dupla ancestralidade. A “mistura” do logicismo fregiano e do empirismo machiano contribuiu para uma posição filosófica algo instável. Com isso, a ideia de uma análise empírica das sensações, ainda que a definição destas tenha passado por muitas e nem tanto sutis reformulações, oferecida por Mach, conduziu o Círculo, em relação ao desenvolvimento da Psicologia como ciência, a uma posição até mesmo periférica na contemporaneidade, embora plenamente indispensável, na dimensão da história do desenvolvimento dos paradigmas da ciência. Em relação ao Behaviorismo, esclarece Smith (1986):

[...] os principais neobehavioristas desenvolveram suas próprias

considerações psicológicas da Ciência e, ao fazê-lo,

anteciparam alguns aspectos de tendências epistemológicas

correntes. Preferindo subordinar a Lógica à Psicologia, todos

eles foram mais empiristas do que os positivistas lógicos. A este

respeito, eles não eram muito diferentes dos proponentes do

psicologismo do século XIX. Porém, o que tornou esse

psicologismo original foi que era um psicologismo behaviorista.

Se a Psicologia poderia ser uma ciência objetiva, não haveria

mais nenhuma razão para rejeitar o psicologismo em razão do

subjetivismo. E, certamente, os behavioristas acreditavam

acima de tudo que o Behaviorismo poderia tornar a Psicologia

objetiva. (p.65; tradução nossa)

Apresentamos até aqui apenas mais uma das possíveis descrições, provavelmente enviesada pela história da formação intelectual deste autor, do que possa ser considerado um tosco e sintético roteiro de construção do cenário para o desenvolvimento e a consolidação de uma filosofia de ciência que conduz aos pressupostos da Análise do Comportamento. Prosseguiremos, conforme sugere o título deste livro, à procura das razões para rejeitar, no âmbito conceitual, qualquer objeto de estudo e modo explicativo que se apoie em estruturas, instâncias, eventos, estados, “coisas” (muito genericamente falando) para explicar as atividades dos organismos.

Para tal empreitada, parte do caminho passa por uma análise da trajetória behaviorista radical de Skinner, sobretudo no que ela guardasse ou não estreitas relações com as reflexões concernentes ao Círculo de Viena e às formulações da filosofia de ciência de Ernst Mach, em particular.

Nascido vinte anos após Hull, behaviorista inspirado no modelo newtoniano de ciência, Skinner reconheceu algumas influências na sua formação científica, declarando que leituras, como de Mach e Bacon, revelaram desde logo seu paradigma funcional na explicação do comportamento nas suas relações com o ambiente. Para Smith (1986), essa diferença foi manifestada em relação a vários aspectos: a natureza das explicações; o valor e o papel da teoria; o tipo de atenção dada a eventos inobserváveis; e o método científico em si mesmo. Para mostrar a contraposição de suas posições: Hull colocava-se no polo dedutivo do processo de obtenção de conclusões, enquanto Skinner posicionava-se no polo indutivo (p.258). Acompanhando Smith (1986):

Por causa do indutivismo de Skinner, abordagem empirista

radical, sua obra teve pouca popularidade durante a Age of

Theory [era da teoria]; todavia, uma vez que os sistemas

teóricos elaborados começaram a cair em desgraça nos anos

1950, a abordagem de Skinner estava pronta para fazer

sucesso, embora fosse Hull a figura dominante do

Behaviorismo na época. (p.258; tradução nossa)

Além de Bacon, lido precocemente, Skinner relata ter lido de Darwin: The voyage of the Beagle (1845) [A viagem do Beagle], The origins of species (1859) [A origem das espécies] e The expression of the emotions in man and animals (1872) [A expressão das emoções em homens e animais]. Em 1926, a revista Dial publicou uma resenha de Russell sobre o Behaviorism (1924) de Watson. Skinner leu-a, interessou-se pelo tema e comprou o livro de Watson e o livro The Analysis of Mind (1921) [A análise da mente], de Bertrand Russell. Skinner leu também Conditioned reflexes [Reflexos condicionados] (Pavlov, 1927), Logic of modern Physics [Lógica da Física moderna] (Bridgman, 1928), The analysis of sensations [A análise das sensações] (Mach, 1883) e outros clássicos, dentre eles, alguns de Poincaré, Loeb e outros.

Tendo lido Bacon, Skinner desde cedo conheceu a visão de ciência que enfatizava a observação, a classificação, o estabelecimento de leis indutivas e o afastamento da supergeneralização e de dogmas metafísicos. Sua simpatia em relação a esses aspectos se consolidou nas leituras dos textos de Mach, durante sua graduação em Harvard. Foram esses textos que serviram de modelo científico para a tese de doutorado de Skinner e para o desenvolvimento de sua concepção de ciência. Conforme Smith (1986), no The Science of Mechanics, Mach traçou o desenvolvimento da mecânica desde suas origens primitivas até o seu status contemporâneo na época, considerando que conceitos da Física tais como o de força apareceram de maneira quase artesanal, sem correspondência direta com dados que os apoiassem. Já no prefácio desse livro, anunciou que pretendia “contribuir para o esclarecimento de ideias, expor o real significado do assunto e desfazer-se de obscuridades metafísicas”. Smith (1986) escreve sobre a tese de Skinner:

Tendo lido Mach e Bridgman, Skinner foi receptivo à posição de

Russell e estava preparado para defendê-la em sua tese. A

primeira metade do trabalho foi dedicada a uma análise

histórico-crítica do conceito de reflexo, sendo o método e o

objetivo explicitamente delineados a partir de Mach. Skinner

escreveu em sua introdução que “a principal vantagem,

primeiramente explorada por Mach, reside na utilização de uma

abordagem histórica [...] Alguns fatos históricos são

considerados por dois motivos: para descobrir a natureza das

observações nas quais o conceito foi baseado e para indicar a

fonte das interpretações incidentais com a qual estamos

envolvidos”. (p.265; tradução nossa)

Skinner observava que a importância da observação do reflexo estava em verificar que esta não permitia nada mais do que a constatação da correlação do estímulo com a resposta e que outras características referidas ao reflexo, tais como se ele era “involuntário”, “não aprendido” ou “inconsciente”, consistiam em meras “interpretações incidentais”. Assim como Mach, Skinner usou a análise histórica como ferramenta para clarear conceitos, e para isso incluía a função positiva de esclarecer a origem experimental e a base conceitual envolvida e a função negativa de revelar seus componentes (metafísicos) não essenciais. Era como separar o joio do trigo olhando para a dimensão experimental e para o que disso “sobrava”: metafísica, nada além.

Skinner leu outros positivistas, mas foi Mach quem mais o influenciou quanto à dimensão epistemológico-metodológica. Com Smith (1986), “não seria exagero dizer que Skinner foi profundamente influenciado por Mach e os sinais dessa influência estão espalhados pelo trabalho de Skinner nos anos de 1930, quando sua tese dá o padrão do que irá acontecer” (p.265). Outros sinais da influência machiana podem ser identificados na leitura, por Skinner, de Analysis of sensations (1914) e de Knowledge and error (1905), além dos registros informalmente deixados por ele no seu A sketch for an epistemology (1934-1937), texto de anotações jamais convertido diretamente em publicação pelo autor. Nesse texto, de cerca de sessenta páginas, o nome de Mach aparece em torno de catorze vezes, sempre como uma referência fundamental a sustentar as análises e conclusões de Skinner. No entanto, o material não constitui referência segura ou oficial, uma vez que as informações sobre o trabalho do autor com esse material ainda não foram confirmadas pelas fontes próximas de Skinner na época.

Para Ernst Mach, a ciência é uma reprodução mais precisa das interpretações práticas dos fatos da vida cotidiana. Atividades tais como a caça, o artesanato, as interações humanas em geral, com manipulação direta do ambiente, constituiriam os rudimentos do conhecimento humano. Documentando sua afiliação a Mach, Skinner escreveu que as primeiras leis da ciência foram, provavelmente, as regras usadas pelos artesãos no treinamento de aprendizes. Como behaviorista, Skinner esteve naturalmente interessado em avaliar a evolução do conhecimento em paralelo à evolução das espécies, como tema de interesse da Biologia comportamental e da história das culturas. Embora estivesse, a seu tempo, circundado por um universo introspeccionista, Mach, ainda como reflexão derivada de seu exemplo dos artesãos, remete à constituição biológica os “sólidos fundamentos do conhecimento científico”. Em 1905, no Knowledge and error, utilizou várias páginas para explicitar sua visão do que considerava um comportamento animal inteligente, tal como o comportamento do cientista. Para Smith (1986), “nas suas incursões dentro da psicologia comparada, Mach chegou a conclusões parecidas com as da maioria dos behavioristas: homens e animais formam conceitos no mesmo sentido; seu comportamento é governado por associações adquiridas mediante a experiência e mantido pela sua utilidade biológica” (p.267). Na sua visão, a evolução do comportamento animal e a história da Física constituíam duas partes de uma simples e mesma linha histórica de desenvolvimento humano. A ciência compreendida por Mach, apresentada no estudo de Smith (1986), assim se apresentava:

Como um fenômeno histórico, é provisória e incompleta.

Tomadas em conjunto, estas quatro características da ciência –

a sua casualidade, contingência, particularidade e incompletude

– significavam para Mach que a ciência não podia ser reduzida

a uma fórmula ou a determinado conjunto de regras

metodológicas. Da mesma forma, Skinner tem visto todo o

conhecimento como um produto da história. Ao fazer isso, ele

tem enfatizado as mesmas características da ciência apontadas

por Mach, e formulou a mesma conclusão de que a ciência não

pode ser captada por qualquer fórmula, como pretende o

método hipotético-dedutivo. (p.268; tradução nossa)

Essa caracterização da ciência como fenômeno primariamente biológico e histórico levou o eminente físico a concluir pela pertinência de um novo conceito: o de economia biológica na ciência. Tal princípio é citado por ele com frequência, e diz respeito apenas à descrição econômica de fatos. Ou seja, a ciência seria um empreendimento que resumiria de modo consistente os fatos da natureza. Para Fitas (1998), pode-se caracterizar uma boa teoria científica como a que “permite a classificação e previsão dos fenômenos sem recurso a um excessivo número de ideias sem correspondência com o que é observado pelos sentidos” (p.129). Ainda, para esse autor, a lei da economia – que acreditamos possa ser encontrada na ciência, em alguns raciocínios similares, como o cânone de Morgan, a lei da parcimônia e a navalha de Ockam – não se ocupa da constituição da natureza, nem da explicação causal dos fenômenos observados. No entanto, para Mach, a “hipótese atomista, supondo o átomo como entidade real, constitui uma teoria física muito complicada; um átomo nunca se observara, sendo impossível sua comprovação experimental; logo, essa teoria não faria sentido” (p.130).

Isso nos leva a especular: fosse Mach um psicólogo e, mais ainda, um behaviorista, seria ele um behaviorista metodológico, e não um behaviorista radical, dado que a inacessibilidade (até então) dos corpúsculos atômicos caracterizaria a máxima do “inobservável, então fora da ciência”, típico do Behaviorismo Metodológico? Como se verá em outra parte deste livro, Mach permanecerá até o final da vida acreditando que a figura do átomo serviria apenas como metáfora didática para uma concepção teórica da organização micromacroscópica da natureza, mas não constituinte de sua dimensão empírica, apesar de as evidências experimentais já estarem em curso na última década de sua vida.

Como sabido, também para Skinner a atividade científica é um tipo especial de comportamento, governado pelas contingências de reforçamento. Acrescenta, no entanto, contingências de sobrevivência, considerando a discutível conjectura de que a ciência promove a autopreservação, seja no âmbito pessoal ou da cultura. De todo modo, Skinner segue Mach em relação a certos desideratos da ciência, destacando a eficiência da investigação, a imediaticidade da observação e a economia da descrição e comunicação dos achados. O behaviorista conclui que uma abordagem puramente descritiva da ciência possui maior eficiência do que uma abordagem hipotético-dedutiva. Adjetiva negativamente as condutas antieconômicas no âmbito da ciência, assim como condena o uso de certos termos vernaculares da linguagem coloquial, quando sugerem interpretações metafísicas, considerando as condutas e os termos pouco práticos, supérfluos, desnecessários e mesmo desajeitados e obesos” (1938; 1945a).

A rejeição a essas formas de expressão, por outro lado, pode ter levado a extremos o “primeiro” Skinner. Na revisão de Moxley (2005), ficam claras suas preferências preliminares por uma “linguagem objetiva” que pudesse expressar em fórmulas precisas as leis do comportamento.

Como Mach e os positivistas lógicos, Skinner estava

inicialmente interessado em fórmulas matemáticas e inclinado a

apresentá-las em seus primeiros relatos de pesquisa. Em

adição à sua afirmação de 1931 sobre a importância do reflexo,

Continuar: parte 3 de 3