Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Luís António Verney · Capítulo 9 de 27

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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Sintaxe.

Despois da-Etimologia das-vozes, tem lugar explicar o Metaplasmo: que vale o mesmo que dizer, certas figuras, polas quais se-acrecentam, ou diminuem as letras das-disoens: v. g. Gnavus pro Navus &c. Noticia é esta sumamente util para intender, as diferentes vozes Latinas. E nisto se-compreende, tudo o que deve saber-se sobre a Etimologia, com a maior clareza, e brevidade imaginavel.

 

SINTAXE.

 

Despois, segue-se a Sintaxe. E a qui é maior a dificuldade: porque se a Etimologia, nas Gramaticas ordinarias, é confuza; a Sintaxe delas é a mesma confuzam. é necesario variar muito do-comum, para ensinar verdadeira Sintaxe. Nam tenho tempo para provar o que digo: mas seguro a V. P. que o que escrevo, é ja provado evidentemente, polos autores que aponto, e outros que os-comentáram: e que, se a necesidade o pedise, com pouco trabalho mostraria tudo: porque tenho visto o que basta. E asim apontarei somente, as rezolusoens.

A Sintaxe ensina a unir as vozes, para fazer a orasam: e, por-meio desta, formar um bem regulado discurso. A construisam ou uniam ou é Regular, que segue as regras da-Arte: ou Figurada, que se-desvia delas, mas funda-se na autoridade dos-bons escritores. A construisam Regular funda-se na Concordancia, ou na Regencia. Chamo Concordancia, quando as partes concordam, em alguma coiza comua. v.g. o Sustantivo concorda com outro Sustantivo em cazo, que é comum a ambos. Nas Concordancias achamos alguns erros comuns, que em breve apontaremos.

Nam se-devem admetir mais concordancias, (nam falo daquela entre dois Sustantivos) que de Sustantivo com Adjetivo: Verbo com o Nome. O Adjetivo concorda com o Sustantivo em numero, e cazo, que sam comuns a ambos: nam em genero, porque o Adjetivo nam tem genero, mas somente o Sustantivo: poem-se porem o Adjetivo em uma terminasam, conrespondente ao genero do-Sustantivo. Alem disto o Adjetivo, nam concorda com o Sustantivo proprio, v.g. Petrus: mas com o Sustantivo comum, v.g. Homo: e vale o mesmo dizer: Petrus est bonus: que se disese-mos: Petrus est homo bonus: vel artifex, vel magister bonus &c. Quando nam á nome comum, recorre-se aos nomes, Res, Factum, Opus, Negotium, e outros semelhantes, que antigamente tinham, significasam mais extensa, que a que oje lhe-dam. Damesma sorte quando Ovidio dise: Nox, & Amor, & Vinum nil moderabile suadent; deve-se intender asim: non suadent factum, vel opus, vel negotium moderabile. Virgilio umas vezes dise: Præneste altum: intendendo Oppidum. outras vezes: Præneste sub ipsa: intendendo sub ipsa Civitate. podia tambem dizer: Præneste altus: intendendo Locus. Terencio dise: Eunuchum suam; intendendo Comoediam, ou Fabulam; porque Eunuchus é masculino. Deixo outros exemplos, com que se-mostra, que a concordancia sempre é com o Sustantivo comum.

Á infinitos exemplos que provam, que o Relativo concorda com o susequente expreso, ou supreso, em numero, cazo, e terminasam conrespondente ao genero: damesma sorte que outro Adjetivo. Temos exemplo bem claro em Cicero, do-expreso: Ego tibi illam

Aciliam legem restituo, qua lege simul accusasti[18]: e em outra

parte [19]: Sequitur enim caput, quo capite non permisit. Cezar abunda muito destes modos de falar, porque afetava clareza. Acham-se exemplos do-supreso: Populo ut placerent, quas fecisset

fabulas[20]: i. e. Populo ut placerent fabulæ, quas fabulas fecisset. Do-que fica claro, que o Relativo concorda, em genero, numero, e cazo, como dizem comumente, com o seu susequente; que é o mesmo antecedente-repetido. Isto basta por-agora.

A segunda concordancia, é do-Verbo com o Nome: os quais concordam em numero, que é comum a ambos: nam em pesoa, porque esta é somente do-Verbo: mas poem-se o Verbo em uma terminasam, conrespondente à pesoa, que o Nome significa. Devem-se porem advertir algumas coizas. I. A primeira, e segunda pesoa do-Verbo, raras vezes se-construe com o Nome expreso, senam por-distinsam, ou emfaze. II. A terceira pesoa do-Verbo, construe-se tambem com um Verbo infinito. v.g. Scire tuum nihil est: pro, scientia tua. Tambem algumas vezes sem nome expreso: v.g. Aiunt, supple, homines. Tonat, sup. Deus. outras vezes com o Nominativo: Saxa pluunt. Tambem se-uza do-Nome, sem Verbo expreso: Rari quippe boni. i. e. sunt. III. No-Verbo com o Nome, tem lugar a Figura Sintesis, que parece, que discorda do-Nome expreso: mas a verdade é que concorda, com o sinonimo oculto. v. g. Pars epulis onerant mensas: onde o Verbo concorda, com o sinonimo oculto, Plurimi. Tem tambem lugar a figura Zeugma, em que o Verbo concorda, com o mais vizinho: Tu quid ego, & populus mecum desideret, audi. Tem tambem lugar a Silepsi, emque o Verbo concorda, com o mais digno: Si tu, & Tullia lux nostra valetis, ego, & suavissimus Cicero valemus.

IV. Porque o Adjetivo significa acidente, nam pode estar só sem sustantivo, que signifique a sustancia. o mesmo digo das-terminasoens do-Verbo que significa, movimento de alguma coiza: e asim sempre se-subintende a dita coiza. Nam á Orasam sem Verbo, e Nome. se o Verbo é finito, o suposto é Nominativo: se é infinito, é Acuzativo. A Letra, Silaba, Voz, e Orasam, pode ser suposto do-Verbo, e do-Adjetivo. V. Do-sobredito se-inferem varias coizas. É falso, que os Nomes de numero, come tres, & decem, concordem entre si. É falso, que os Adverbios, e Conjunsoens concordem com o Indicativo, Optativo &c. deve-se dizer, que se-construe um com outro. E nisto com pouca diferensa se-comprende, tudo o que se-diz da-Sintaxe de concordar.

A Regencia, é a que mostra o seu efeito, em outra coiza que rege. Quatro sam as vozes que regem outras: Nome, Verbo, Participio, e Prepozisam. É falso, o que se-ensina comumente, que o Adverbio, Conjunsam, Interjeisam, Verbo pasivo, Participio pasivo, Gerundio, Nome adjetivo, reja, e pesa cazo: porque o cazo que se-acha com eles, é regido de uma parte supresa, pola figura Ellipsis.