Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Luís António Verney · Capítulo 10 de 27

Páginas do PDF

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Ortografia, e Prozodia.

A regencia ou é Gramatical, que segue as regras da-arte: ou Figurada, que se-desvia delas. E porque a regencia se-exercita nos-Cazos do-Nome, daqui vem, que toda a Sintaxe de Regencia se reduz, à explicasam deses seis Cazos. v.g. no-Nominativo aponta-se, quando entra na orasam. despois, quais sam as partes da-orasam, que se-construem com ele, ou simplez, ou dobrado. O mesmo digo de todos os outros Cazos: na explicasam dos-quais deve-se muito advertir, de mostrar quais sam as partes, que verdadeiramente os-regem: e nam enganar os estudantes, com as doutrinas das-Gramaticas vulgares. V.g. o Genitivo é cazo somente regido, por-um Sustantivo expreso, ou supreso: ou por-uma parte, que esteja em lugar de Sustantivo. É pois necesario mostrar-lhe, que se-enganam os outros, que atribuem o tal Genitivo, a outras partes da-orasam. Com este metodo, explica-se mui brevemente a Sintaxe, e mui solidamente: porque se-reduzem todas as construisoens figuradas, ao modo de falar regular: e se-descobrem os verdadeiros principios da-Regencia: postos os quais, dezaparecem todos aqueles Apendices, e Limitasoens da-Gramatica uzual: as quais nam de outra coiza nacem, senam de establecer principios falsos. Despois, explica-se a Gramatica Figurada: e se-aponta o fundamento da-Figura, e como se-pode reduzir à construisam natural. porque sem esta inteligencia, nam se-pode ir para diante na Gramatica.

 

ORTOGRAFIA, E PROZODIA.

 

As outras duas partes da-Gramatica sam mais facis, porque menos contrariadas. A noticia das-Letras, e Ortografia, é sumamente necesaria, para escrever bem, e ler correntemente nam só a moderna, mas tambem a antiga escritura: em que vareiam muito as letras. O mesmo digo da-Prozodia, ou quantidade das-silabas. Tambem nisto é necesario, uzar melhor metodo, que o da-Gramatica comua: e conheso eu muito bem, que se podem dizer, com mais clareza.

Eisaqui tem V.P. uma idea do-que sinto, sobre a Gramatica. Parece-me bastante o que dise, paraque veja V. P. quanto trabalho encurtaria uma Gramatica, concebida nestes termos: e uns principios tam claros, como os em que se-funda. Nam poso dilatar-me mais nesta materia, porque serîa compor Gramatica; e o meu argumento nam é ese. Eu sei, quem tem composto uma Gramatica, pouco diferente da-ideia que propuzemos: e tem composto outro particular escrito, com que se-aprende Gramatica mais facilmente, e em menos tempo: os quais podia publicar, para utilidade deste Reino. Dois nosos amigos lhe-pediram instantemente, que a-impremise: mas ele desculpa-se sempre com dizer, que é mais facil, conquistar um novo mundo; doque despersuadir os Velhos, da-antiga Gramatica. Cita alguns exemplos com que mostra, que a paixam obra nestes particulares mais, que o juizo: e lamenta-se muito, que se-tenham reprovado tantas coizas, sem as-lerem, nem intenderem.

O que eu poso segurar a V. P. é, que com este metodo, aprende-se em um ano mais Gramatica, doque nam sabem muitos, que a ensinam trinta anos, ou pasáram nela toda a sua vida. É erro persuadir-se, que um omem ou deva, ou posa ter prezentes todas as regras, que se-acham na Gramatica do-P.Alvares. A experiencia deveria dezenganar, os que estudáram por ela; e mostrar-lhe, que aquele estudo morre com a escola. Um estudante, despois de seis ou sete anos de Manoel Alvares, se acazo nam le os antigos Latinos, e procura intendèlos; ou nam pasa para a Filozofia, onde a necesidade o-obriga a intendèlos, e falar a tal lingua; fica toda a sua vida ignorante de Latim, com toda a sua Gramatica. Porem se acazo segue o exercicio do-Latim, de tal sorte se-familiariza com a lingua, como se fora nacional; e comesa a falar por-uzo. Aqui nam é necesario mais prova, que proguntálo a eses mesmos leitores. apenas conservam umas ideias gerais, das-regras de Gramatica. Onde fica claro, que tudo aquilo é superfluo. O metodo porem que aponto, é mais facil de se-conservar na memoria, porque é natural: e chega à origem das-coizas. Mas em um e outro sistema é verdade, que preceitos sem uzo, nada valem. Onde deve o estudante, nam só aprender a Gramatica, mas exercitar esas regras no-discurso, na leitura, e na composizam: descobrindo em toda a leitura as regras, que na Gramatica lhe-insinuam: no-que deve ter igual cuidado o mestre, que o estudante. No-primeiro ano, deve ensinarlhe Gramatica: o que se-pode fazer com muita facilidade. No-segundo, traduzir os autores mais facis: como algumas Cartas de Cicero, as Fabulas de Fedro, Terencio, Cornelio Nepote. procurando que o estudante asine a regencia das-partes, e descubra neses livros, os principios que estudou: e intendendo as outras particularidades mais reconditas da-Gramatica: as quais nam sam para o primeiro ano.

Mas, para proceder nisto com utilidade, deve o mestre ordenar ao estudante, que ja vio uma vez a Sintaxe, que escreva em Portuguez, polas palavras que melhor lhe-parecer, mas sempre diferentes daquelas, que estam na regra, a razam de alguma regra; apontando um exemplo, e explicando as partes todas dese exemplo. Pode tambem o mestre tomar, um periodo de duas regras, em algum autor claro; e dalo ao rapaz, paraque o-explique em uma folha de papel: pondo nela toda a regencia gramatical, sem deixar nem menos uma virgula, por-explicar. E quando o rapaz aprezenta a sua carta, examinálo de tudo, o que nela se-contem; para ver se verdadeiramente o-intende. E isto mesmo se-pode praticar ao principio, quando traduzem os autores. Este modo de estudar, nam enfada os principiantes, visto darem-lhe tempo para considerar, o que ám-de escrever. Ao principio, deve ser em caza: quando sam adiantados, na escola. Alem diso o estudante, para escrever a sua explicasam, é necesario que leia, e intenda bem a regra: que busque no-Dicionario, o significado das-palavras: e desta sorte é que a-imprime bem na memoria. Quando o estudante for adiantado, entam é que se pode obrigar, a repetilo de memoria: mas nem sempre: pois algumas vezes é bom, dar-lhe o periodo, paraque fasa a explicasam por-papel: Com a diferensa porem, que se o periodo avia ser de quatro regras, seja de seis, ou oito. Explicando isto por-escrito, é incrivel, quanto se-intende melhor: principalmente se o mestre, quanto lhe-tomar conta, fizer as proguntas necesarias; emendar os erros, e explicar tudo como deve.

Mas esta carta ja é mais comprida, doque eu queria fazé-la: porem poso segurar a V. P. que ainda me-fica muito que dizer. Contudo do-que tenho escrito, fica bem claro, o que eu intendo: e para V. P. é mais que bastante. Fico às ordens de V. P. como seu criado.